Arquivo do mês: junho 2013

Belo e Triste

Blade Runner

Agarrado à vida, o replicante espera o derradeiro momento.

Como pode algo ser tão bonito e tão triste ao mesmo tempo?

E porque por tantas vezes tais momentos se conjugam, bizarramente acoplados na teia do tempo? São eventos que parecem nos falar de uma beleza estranha, que se esconde atrás de momentos tão solidamente tristes a ponto de baterem contra o nosso peito como um tijolo arremessado pelo destino.

Mas, se a escolha do olhar ainda me pertence, prefiro enxergar aquilo que verte de belo e resplandecente no breu das lágrimas.

Vi Blade Runner, de Ridley Scott, na adolescência, e a cena final nunca me saiu da memória. O desespero do protagonista, o replicante Roy Batty – o melhor trabalho do Rutger Hauer para o cinema – para descobrir o sentido da vida, que só poderia ser elucidado através da morte, sempre me tocou de uma forma muito especial. As memórias, os amores, as tristezas, as alegrias, as perdas, os fracassos e as vitórias, todas elas desaparecendo, diluindo-se como lágrimas na chuva no triste momento do “desligamento”. E o apego à vida, qualquer uma, mesmo à vida daquele a quem pretendia matar. O replicante salvou seu desafeto porque viu nele algo precioso demais para ser desperdiçado: a própria Vida, preciosa por ser frágil, que agora se esvaía melancolicamente de seu corpo de máquina. Momento épico do cinema…


 

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Sobre as mamas de Angelina

Angelina Banguela

A piada é boa e faz sentido. Problemas dentários podem, SIM, levar à morte, basta pensar em infecções dentárias levando à febre reumática ou endocardite. Raras, fortuitamente, mas possíveis de ocorrer para quem tiver dentes. Transtornos dentários estão também relacionados a transtornos na gestação, podendo levar ao parto prematuro, e este último é um dos principais problemas de saúde pública na Europa (baixo peso ao nascer). Mas a pergunta pode ser levada mais adiante: quem aí estaria interessado em retirar os testículos para evitar o câncer nesta região do corpo? Sim, este mata, sem dúvida. E agora? Porque mutilar as mulheres é tão facilmente aceito, mas mutilar os homens causa desconforto?

Só para lembrar: as cirurgias mais realizadas nos Estados Unidos são cesarianas e histerectomias. Ambas sobre o mesmo órgão (o útero, a Matriz, a “mãe do corpo”) e sobre o mesmo gênero, as mulheres. Ambas com caráter ablativo; ambas aplicadas sobre o cerne da feminilidade.

A ideia a ser vendida por trás desta amputação é a de que a pesquisa genética pode fazer PREVISÕES certeiras e “matemáticas” de doenças e morte. Isso é uma fantasia. Não somos controlados por nossos genes, mas por uma série de fatores (principalmente o estilo de vida que temos) dentre os quais se encontra a bagagem genética e as “possibilidades de adoecimento” que carregamos. Ninguém adoece do que quer, e sim do que “pode”. Mas esta construção tem nos genes apenas um elemento, e não o mapa completo de nossa história futura. Foi a partir desta constatação – de que esta ultra estrutura não é capaz de prever o futuro, mas apenas uma gama limitada de tendências – que criou-se o termo “epigenética”, que tenta combinar os aspectos da constituição física com os outros tantos aspectos de ordem emocional, circunstancial, ambiental, afetiva, psicológica e até mesmo as questões aleatórias. Posso carregar um gene defeituoso – como a propensão para o câncer pulmonar – pela vida inteira sem que ele NUNCA se manifeste apenas porque decidi não fumar, não me contaminar com substâncias tóxicas (como as anilas), não viver em local poluído e ter uma alimentação detoxificante. Pronto: toda a minha má herança foi soterrada, sem precisar de amputações. Mas estilos de vida não geram patentes milionárias, e nem vendem drogas milagrosas. É natural que este tipo de “tratamento comportamental” não receba muita atenção da mídia.

O caso de Angelina Jolie é emblemático muito mais pelo entusiasmo da comunidade científica do que pelo ato em si. Ao invés de agirem com cautela, os profissionais imediatamente se apaixonaram pela ideia, a exemplo do que ocorreu com as “células tronco”, que já enriqueceram muita gente, mas que ainda não forneceram provas concretas de sua eficácia no tratamento de qualquer afecção conhecida. Falta um freio, um anteparo às aventuras interventivas da ciência, mas isso não significa proibir ou censurar a pesquisa, mas incentivar um bom senso, evitando o exagero nas invasões sobre o corpo, as quais frequentemente se baseiam em meras suposições ou maquiagens estatísticas.

Falta também uma visão mais respeitosa sobre o corpo da mulher. Mas isso ainda é resquício de oitenta séculos de cultura patriarcal.

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Sobre a Origem das Mudanças

bisturi

Esta é uma velha discussão que eu carrego há muitos e muitos anos. Sempre que eu perguntava para algum colega meu – que havia começado a praticar uma obstetrícia mais “gentil”, suave, baseada em evidências e com um respeito ao protagonismo feminino no processo – sobre quais os fatores preponderantes que o levaram a produzir uma modificação significativa no paradigma de atenção, eu sempre me deparava com um tipo específico de resposta que não era exatamente aquela que eu esperava. O ponto deflagrador, o estopim de um processo transformativo da envergadura que se faz necessária para a humanização do nascimento era invariavelmente descrito como um processo de ordem afetiva, e não um choque “cognitivo”. NÃO nos tornamos médicos humanistas pela via da razão! Se por um lado isso pode produzir uma frustração de nossas ilusões racionalistas, pelo menos nos oferece um anteparo à arrogância cientificista.

Na história de cada profissional que optou por uma postura humanizada existe uma ferida aberta, um processo que ainda sangra, uma lesão na alma que se mantém ardente e corrosiva. A tal “farpa” da qual Max me falava. Assim, a mudança ocorre pela via da emoção. Um vídeo, uma palestra, um parto, um bebê, uma mãe que chora, um pai que se derrete, um grito (como o da “Glamour Girl”), uma conversa, um silêncio. Tanto faz, e não importa. É necessário apenas que seja algo suficientemente sonoro para nos acordar e para levantar a ponta do véu de algo profundamente recalcado nas memórias mais primitivas, numa época em que nossa vida era ausente de palavras, permeada somente por sons, cheiros, gostos e toques.

Somente depois, quando tais sentimentos atingirem as estruturas subcutâneas, e tal tumoração produzir a vermelhidão, a dor, o calor e o desconforto na alma, é que o saber científico, tal qual um “bisturi de evidências”, poderá cortar a carne e aliviar nossa angústia. E só aí você precisará “saber”, pois o mundo racional e estatístico pedirá passagem para normatizar suas ações dentro de parâmetros aceitos e confiáveis.

Eu sei que é por causa dessas ideias que não sou convidado para festas desde a época da faculdade, mas eu sempre acho oportuna uma reflexão sobre a humanização do nascimento um pouco diversa daquela que a gente se acostumou a fazer para outras questões. Entender a dinâmica inconsciente que nos “empurra” para uma determinada posição ideológica é sempre salutar, e nos ajuda a criar barreiras contra a idealização, o sectarismo e os radicalismos.

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