Arquivo do mês: março 2014

Respostas à Violência

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Não se trata de tornar-se infenso a qualquer reparo. Eu mesmo conheço pessoas que fazem críticas corretas e bem fundamentadas ao trabalho das doulas. Por exemplo: levar o ativismo para as salas de parto e tornar o centro obstétrico um campo de batalha. Temos nos preocupado com isso nos últimos anos, exatamente pelo aumento no número de doulas e na natural dificuldade de estabelecer o limite entre ativismo – doulagem. É muita emoção para ser controlada, mas é necessário que assim o seja. É por isso que devemos escutar as críticas e aprender com elas, o que só fortalece o movimento de humanização. Fechar-se em conceitos estanques é cristalizar-se e desaparecer. A dinâmica da transformação social deve ser intensa e reflexiva.

O fato da própria ACOG (American College of Obstetrics and Gynecology), poderosa defensora dos obstetras dos Estados Unidos, ter reconhecido publicamente a importância das doulas na diminuição da taxa vergonhosa de cesarianas (a vergonha para eles chegou aos 33%; para nós ainda não, aos 56%) apenas deixou os conservadores da minha especialidade ainda mais furiosos. O resultado é bem demonstrado em algumas manifestações de médicos indignados com o fato de terem suas atitudes e condutas questionadas pelos pacientes: baixo nível, agressão verbal, impropérios, acusações, generalizações e violência de toda ordem. Como diria Schopenhauer: depois do escárnio viria a violência; era o que fatalmente ocorreria.

Concordo com o mestre. Minha visão sobre esta fase do processo de humanização do parto é de que a violência poderia esperar, mas chegaria de qualquer maneira. Não é possível fazer o omelete da humanização sem quebrar os ovos da prepotência. Entretanto, nossa resposta precisa ser diferenciada. NÃO podemos entrar no jogo acusatório e violento. Se recebemos pedradas, revidemos com evidências. Se a violência é o idioma, respondamos na língua da perseverança.

Sem este diferencial apenas nos igualamos à queles que nos combatem.

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A Culpa é da Mãe

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“Culpa Materna – Como livrar-se”. Minha mãe, quando havia discussões e debates entre os homens da casa (meu pai, eu e meus irmãos), sempre dizia: “Essa discussão é inútil; a culpa, no fim, sempre será das mães“… Era humor, mas também era tão verdadeiro quanto a frase que os franceses imortalizaram com “Cherchez la femme“…

Como diria o tio Ben, famoso filósofo do filme Homem Aranha, “Com grande poder vem uma grande responsabilidade“. Quanto maior a responsabilidade, maior a expectativa. Quando as expectativas pessoais não são cumpridas – o que é inevitável – sobrevêm a culpa. Quem tem mais poder nessa cultura do que uma mãe? Portanto, quem acabará sentindo-se mais culpada diante das inexoráveis adversidades que a vida nos reserva?

Todavia, eu também não creio que a mãe tenha uma culpa verdadeira. Estou falando de culpa presumida, culpa imaginária. E isso as mulheres mães tem de sobra! E, de fato, o fardo da culpa feminina é pesadíssimo. Você já deve ter tratado de mulheres que sofreram todo o tipo de abuso durante um casamento violento e insatisfatório. Você conhece muito bem este tema. Pois mesmo as mulheres que colecionam B.O.s e que se separam para salvar a sua vida e a dos filhos sentem uma culpa brutal por estarem “destruindo uma família”. Coitadas… sofrem a culpa por carregarem o fardo da mais forte das instituições humanas. A mãe, quem normalmente tem a iniciativa nas separações deste tipo, acaba sendo acusada pelos filhos e passa muito tempo sofrendo calada abusos e agressões (até dos filhos) por ser a “causadora” da separação.

Pobres mulheres! É muito pesado ser mãe e mulher em uma sociedade desigual, mas já foi muito pior…

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Capitulação à Tecnocracia

humanização do parto

A atenção anacrônica e tecnocrática de pré-natal faz, SIM, a cabeça das mulheres em direção a uma cesariana, ilusoriamente colocada como “salvadora”, e quanto a isso não resta dúvida alguma. Existem vários estudos comprovando tal evidência, entre eles o estudo de Potter, da universidade do Texas, realizado no Brasil no início dos anos 2000. Nessa investigação fica demonstrado que – tanto no serviço público quanto no privado – as mulheres optam pelos partos normais em sua grande maioria. Entretanto, ocorre uma transformação – pela ferramenta do medo – no pré-natal, fazendo com que os índices se invertam. As mulheres tem sua autoestima profundamente abalada, ou mesmo destruída, durante a preparação para o parto, e os mitos da barriga perigosa, e da “mulher bomba-relógio” acabam vingando. O resultado é o desastre das cesarianas desmedidas, que nos coloca na “barbárie” do intervencionismo.

Quanto aos riscos do parto normal, da cesariana e dos partos domiciliares eles todos existem. Não existe nada no mundo com “risco zero”. Lembre que um parto é um evento humano, e por ser humano é carregado do risco natural, assim como é andar de carro ou avião, ou mesmo sair de casa para comprar leite na mercearia. Toda nossa vida é cercada de probabilidades de algo ruim possa ocorrer. O que podemos fazer é cultivar atitudes que diminuam tais chances. Desta forma, parir no hospital é TAMBÉM igualmente arriscado, bastando para isso que você perceba que o simples passo para dentro de um centro obstétrico significa uma chance de 85% de sofrer uma grande cirurgia como é a cesariana, que na grande maioria das vezes (no caso brasileiro) é absolutamente desnecessária do ponto de vista clínico e obstétrico. Triste é constatar de forma inequívoca que esta cirurgia foi INDUZIDA pelo discurso dos profissionais, o qual deixa as mulheres apavoradas diante de um evento natural e fisiológico como parir, que foi ultrapassado com valentia e confiança por quase todas as suas antepassadas. Criou-se um medo bizarro e inusitado na cultura, fomentado pelas instituições que LUCRAM com a angústia das mulheres e com suas dúvidas artificiais sobre suas reais capacidades de gerar e parir com segurança, as quais foram implantadas em suas almas pelo sistema de saúde contemporâneo iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico

Todavia, se uma mulher está carregada de medo e insegurança, jamais será melhor desistir e se entregar ao sistema. Não, pelo contrário. Aí está a demonstração de uma fragilidade, a qual nenhuma cesariana poderá consertar. Se a mulher está mergulhada em suas desconfianças sobre si mesma, este é o momento certo para enfrentá-las, e não para entregar-se alienadamente a um profissional qualquer. Médicos servem para guiar e auxiliar, e não para tomar decisões sobre sua vida. “Liberdade é nossa meta última”, me dizia um querido colega na época da residência, ao me explicar que o medo nos aliena, aprisiona e acovarda. Enfiar a cabeça no chão, entregar suas escolhas a outrem, desconfiar de si mesmas e atirar-se à aventura intervencionista nunca fará com que as mulheres alcancem os altos fins de suas existências. Pelo contrário: vai mantê-las atreladas a um discurso que, se as liberta do jugo masculino, as mantém presas à tecnocracia e a ideia contemporânea da defectividade essencial de seus corpos.

A capitulação à tecnocracia no parto é o primeiro dominó a cair na maternagem. Depois acataremos o afastamento do bebê, a vacinação extemporânea, a fórmula, os alimentos com conservantes e assim por diante. A sedução da manipulação da vida por interesses de outra ordem será sempre presente, e cada vez com mais intensidade. Dar um basta a isso nunca é tarde. Porque não começar a reforçar uma adormecida cidadania logo ao abrir o teste de gravidez positivo à sua frente?

Somente a liberdade e a autonomia darão às mulheres o destino grandioso para o qual foram criadas.

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