Risadas fáceis

 

Criança chorando

Acabei de ver o vídeo de uma brincadeira sem graça com uma criança…

Algo que seria uma coisa boba com um adolescente, mas com uma criança é pura estupidez. Filmar e colocar na Internet eu acho que é crime. Aliás, existem muitas “pegadinhas” que são apenas crueldade e violência, mas a gente se deixa seduzir pelas gargalhadas fáceis…
Humilhar os outros em troca de alguns instantes de risada…

Mas… eu um dia passei por isso. Achei que poderia ser engraçado, que poderia render boas risadas, mas estava enganado. Fiz uma brincadeira tola e desnecessária com meu filho Lucas, que não tinha mais que 5 anos, e recebi dele a pior das respostas…

“Com um gesto rápido e inesperado, empurrei Lucas para dentro da piscina. Seu corpo minguado de criança fez tchibum na água azulada e, como a piscina era rasa, ele logo voltou à tona, esfregando o rosto. Olhei para ele e dei uma sonora gargalhada. “Ra, ra, ra, ra, seu bobão”, disse eu.

Recuperado do susto inicial, Lucas manteve-se sério. Não parecia ter gostado da brincadeira. Dei mais uma risada histriônica, forçando a barra. Ele continuou sem sorrir. Fez uma face chorosa e disse:

— Você não podia fazer isso.

— Ora, Luquinhas, foi só uma brincadeira. Desculpa. Eu estava só querendo brincar com você. Não queria machucar, nem assustar. Desculpa, tá?

Ele continuou em silêncio. Com a cabeça baixa, caminhou em direção ao vestiário, mas sem segurar minha mão.

— Ô cara. Não fica triste. Era brincadeira, vai.

— Você não podia fazer isso comigo — insistiu ele.

— Por quê, Lucas? — perguntei.

Lucas me encarou nos olhos de uma maneira que eu jamais esquecerei. Disse com uma entonação de quem parecia ter 30 anos de idade. Olhou-me como se fosse eu a criança, e me deu a mais dramática das respostas:

— Porque você… é meu pai.”

Por outro lado a resposta do meu filho me fez despertar de uma espécie de letargia adolescente, uma penumbra renitente, a nostalgia de uma infância que se esvaia pelos dedos, mas que meu punho cerrado insistia em segurar, como a areia que fica entre os dedos quando o sol se põe e temos que deixar a praia e voltar para casa.

Desperto de um longo sono infantil despertei naquele momento para o mundo da paternidade.

“A frase de Lucas na piscina matou um menino. Caído ao solo, no pequeno passeio de pedras que levava ao vestiário, nunca mais se ergueu. Existe apenas em sonhos, lembranças e no gérmen infantil que todos carregamos. Mas sua existência concreta acabara ali. Morto, sem vida. Mas incrivelmente nem os salva-vidas da piscina se interessaram por recuperá-lo. Melhor que ficasse, enfim, ali onde estava.

Segurei Lucas com minha nova mão. Olhei nos seus olhos, pedindo que tivesse paciência. Meu olhar se encheu de vergonha. Olhei para meu corpo de menino ao lado e me despedi dele. Encarei mais uma vez Lucas, eu menino, e lhe pedi perdão. Meu pedido, desta vez, vinha com outra voz. Talvez ele pudesse entender.”

(Trechos do livro “Entre as Orelhas – Histórias de Parto”, capítulo “Paternidade”)

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