Mitologias e Partos

Female Shaman

 

Eu acho que a forma mais madura de encarar o uso excessivo de tecnologia no parto e nascimento é através da compreensão das mitologias contemporâneas, elementos sub-reptícios, inconscientes e irracionais que comandam o proceder social, através do “campo simbólico” e das ideologias.

Por outro lado, dizer que os “homens” fizeram isso é ingenuidade. Dizer que eles “roubaram” (sem colocar aspas) soa violento e injusto. O masculino é representado no parto por esta atitude fálica, invasiva e intervencionista, mas bem o sabemos que não necessariamente são os homens que usam estes artifícios.

A obstetrícia foi premida pelas mitologias contemporâneas a se adaptar a uma nova forma de ver o nascimento através das lentes do organicismo. Da mesma forma, e pelas mesmas razões, a psiquiatria tornou-se uma neurociência e o amor nada mais do que uma série de arranjos hormonais que disparam elementos de contato entre os sexos visando a reprodução. Para melhor entender o humano a ciência nos reduz a seres biológicos.

O parto – e a atenção devida a ele – não ocorrem em um vácuo conceitual; pelo contrário, ele faz parte, se adapta e mantém a estrutura social e os valores a ele relacionados. Dizer que os “homens” invadiram esse território pode ser verdade, mas também invadiram em muitos outros terrenos, dos oceanos profundo ao espaço sideral, na química, na física e na medicina, por certo. Criticar a volúpia cientifista não significa desconsiderar a importância da ciência para a humanidade.

Assim sendo, mesmo que os exageros sejam agora muito evidentes, o corpo humano não poderia deixar de ser objeto da ciência. A obstetrícia não surgiu para arrancar úteros, ovários e fetos, mas pela legítima vontade de ajudar mulheres que estavam sofrendo ou até morrendo.

O parto, por sua vez, sempre nos pareceu violento e desumano. Existe uma noção arraigada de pecado e culpa no gozo explícito de um corpo que se contorce em suas dores. Ajudar essas mulheres com as ferramentas da ciência e da tecnologia seria mais do que óbvio: era uma obrigação de quem desejava minorar a dor, a angústia e evitar a morte. Desta forma, minha crítica não está no uso de tecnologia, e nem na possível e relativa expropriação do parto, mas na intensidade com que isso ocorre ainda hoje. Tamanha foi a sede com que a ciência médica apropriou-se do parto que hoje sobra muito pouco de real experiência feminina com ele.

Para as mulheres foi oferecida uma escolha: a natureza ou o saber científico, e elas se atiraram de forma inequívoca às promessas de redenção e transcendência que a abordagem científica oferecia. Quem não aceitaria?

Nada mais natural que os homens controlassem as mulheres para protegê-las em um mundo de profundas transformações criando assim o patriarcado. Quem não aceitaria um modelo que promete a sobrevivência em troca da autonomia? Quem não aceitaria a dominação do masculino sobre o parto com a promessa de que as mulheres sobreviveriam a ele?

Será isso “machismo”? Ou será amor ao próximo?

A questão é que HOJE, e somente agora, podemos reavaliar estas opções. Podemos então dizer: “Obrigado, ciência e conhecimento, por permitirem que eu esteja aqui. Entretanto, considero que a invasão sobre o parto e a profunda expropriação perpetrada pelos seus tentáculos acabaram por transformar este evento em algo que não mais nos satisfaz.” Da mesma forma a sociedade que se propõe mais justa e igualitária poderia dizer: “Obrigado, Guerreiros Masculinos, “mascus” e violentos, por permitirem que ficássemos protegidas em um mundo coberto de guerras e saques, mas agora acho que podemos ter nossos corpos de volta.

A necessidade da humanização do nascimento parte da releitura desta escolha, pois nos parece que, ao investimos por demais na forma, deixamos de lado o conteúdo. Perdemos a conexão com o que existe de humano em nós.

O perigo que nos ronda é a total desconexão com os intrincados e misteriosos sistemas que nos humanizam. Se a química hormonal já está nitidamente prejudicada pela invasão de drogas e “tecnologias de separação” no parto, assim também ocorre com as ligações afetivas inerentes ao processo, as quais tem a intenção precípua de nos configurar como seres formatados pela linguagem.

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