Sobre Mulheres e Cadelas

Mais de 30 anos já se passaram de quando eu resolvi enfrentar o modelo obstétrico do hospital universitário em que fiz residência e coloquei as gestantes para parir de cócoras. Certamente que esta atitude – apesar de ter sido tolerada – era tratada com desdém e aversão. Um dos professores me disse que “partos de cócoras eram para índios, e só funcionavam em sua própria cultura“, da mesma forma como “acupuntura só funciona para japoneses“. Minhas lembranças da residência, como se pode perceber, não são de um local de livre circulação de ideias, informações e profundidade de conceitos.

O rechaço às posições verticais daquela época poderiam ser interpretadas hoje como resultado da falta de pesquisas que mostrassem as vantagens do parto em posição não-litotômica. Essa visão, entretanto, não resiste a uma análise mais profunda, em especial quando se analisa o fato de que a posição de litotomia (deitada de costas, pernas levantadas e presas) é uma invenção moderna e que nunca se comprovou superior às variantes verticais usadas em praticamente todas as culturas humanas.

Hoje em dia mais de 91% das mulheres no Brasil (Nascer no Brasil – 2012) continuam a parir seus filhos em posições horizontais, uma imagem fiel dos partos que testemunhei há 30 anos em minha residência médica, e que tanta indignação me causou. As últimas 3 décadas de comprovações científicas sobre a superioridade das posições verticais e sobre a livre escolha fizeram QUASE NADA para modificar o ensino médico e as opções que as mulheres tem para o nascimento de seus filhos, pelo menos no que diz respeito à posição.

Fizemos avanços na lei do acompanhante, na presença de doulas, na diminuição das episiotomias, na ambiência, nas Casas de Parto, na disseminação do parto domiciliar planejado como opção válida e segura mas ainda não foi feita nenhuma mudança considerável na posição de parto. Por quê?

Creio que a resposta para essa dúvida recai sobre elementos profundamente inseridos no inconsciente. A paciente deitada, abaixo da linha dos olhos do médico, em posição constrangedora e com as pernas abertas é a própria imagem da submissão em que ela se encontra diante do poder autoritativo do médico, fálico e masculino. Atentem para o fato de que esta posição só foi disseminada após a entrada dos médicos-homens no cenário do parto; antes disso as gravuras e estatuetas antigas sempre mostraram parteiras no mesmo plano ou mesmo abaixo da mulher a quem auxiliam. Por que essa mudança ocorreu e por qual razão se mantém apesar de todas as evidências que nos provam sua inadequação e mesmo o inegável prejuízo para mães e bebês?

Minha tese é de que o parto deitado é um reforço psíquico subliminar que auxilia o poder médico a manter sua dominação sobre o corpo da mulher. O parto deitado, posição clássica de litotomia, estabelece a assimetria de poderes que ajuda o profissional a se sentir no comando e envia uma mensagem de inferioridade para a mulher que está parindo. Por esta razão, e não pela falta de informações ou provas científicas, é que esta posição ainda é disseminada nos hospitais de ensino e utilizada na assistência a 9 de cada 10 mulheres parindo neste país. Muito mais do que representa objetivamente, ela é plena de um simbolismo patriarcal de dominação, e por essa razão resiste aos ventos do tempo e da verdade.

Muitos outros mamíferos utilizam essa posição para informar submissão a um elemento dominante no grupo. Os cães, tanto quanto os lobos, costumam se deitar e oferecer o ventre para o chefe da matilha para demonstrar sua subserviência. Este tipo de atitude está associada às estruturas hierárquicas dentro de grupos de animais que se organizam desta forma, como cães, lobos, hienas, etc. Isso reforça a tese de que essa imagem ativa elementos muito profundos do inconsciente, e por este fato é tão significativa e resistente.

A posição de parir é uma das mensagens mais fortes e intensas da iconografia do nascimento, e por isso mesmo é tão difícil de ser modificada. É provável que a mudança na ergonomia do parto será a última barreira a ser rompida, exatamente porque ela carrega essa simbologia dissimulada, mas que afeta a forma como o patriarcado se expressa nas ações de médicos e na dominação sobre o corpo das gestantes. Negamos às mulheres grávidas o “produto social” que carregam no ventre, e por isso ainda insistimos em controlar esse evento e obstruir sua autonomia.

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Arquivado em Parto, violência

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