Arquivo do mês: julho 2019

Bons e maus

Li agora:

“Dinheiro não corrompe ninguém; só melhora quem é bom e piora quem é ruim”

Eu discordo. Na verdade quando você diz “piora quem é ruim”, eu pergunto: como você sabe quando um sujeito sem poder algum é “ruim”. Como saber das virtudes quem nunca as colocou a prova? Por nunca ter feito nada de mau? A ausência de más atitudes definiria, assim, o cidadão justo e correto?

Ora… então paraplégicos são pessoas boas e corretas, visto que nunca se encontra um assaltando bancos, roubando velhinhas ou matando gente. Claro… sabemos que não o fazem porque não PODEM, e não porque sua limitação lhes ofereceu alguma virtude. Portanto, a simples ausência do MAL não implica na presença do bem.

O mesmo podemos dizem do “bom sujeito” – também conhecido como cidadão de bem – que nunca participou de atrocidades apenas pela própria incapacidade de cometê-las. Todavia, o “bom” sujeito, uma vez de posse dos recursos, como o dinheiro, fama ou posses, se tornará aquilo que sempre foi mas não tinha como manifestar: um humano cheio de falhas e fragilidades morais exposto às tentações, que o fazem parecer egoísta e avarento e pleno de mazelas no seu comportamento. O que poderia ser visto como um sujeito “corrompido” nada mais é do que alguém liberto de seus limites.

Sim… o poder corrompe. Como Tibério, que terminou a vida exercendo todas as perversões que seu poder ilimitado permitia. Dinheiro é poder e ele faz nossas máscaras caírem. Por isso mesmo é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino do Céu. A tentação do poder ilimitado só a conhece quem já passou por ele.

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Arquivado em Pensamentos

O que (não) fazer

A respeito de exames exagerados e abusivos lembrei da minha velha tese sobre as ecografias, que em nosso meio são de 3 categorias diferentes:

  • Recreativas
  • Sedativas
  • Médicas

A primeira é uma criação cultural relacionada com a angústia criada pela indústria para descobrir tamanhos, formas e genitálias de bebês. A segunda é para oferecer alívio às mulheres bombardeadas pelo terrorismo cultural sobre as barrigas em crescimento. Ambas não tem nenhuma base científica que justifique seu uso; são criações da cultura para vender aparelhos (caros) e fortalecer a dependência das mulheres à “tecnologia redentora”. Apenas o último ultrassom é justificável, mas para ser solicitado precisaria de 3 elementos essenciais: uma pergunta, uma possível resposta e uma ação. Só assim ele poderia ser medicamente útil.

Posso garantir que na obstetrícia 99% (talvez mais) pertencem às primeiras duas categorias. Portanto, inúteis e perigosas. Concordo com a tese de que “exames matam”. Em verdade, palavras também, mas um exame pode fazer com que os julgamentos e a confiança na paciente – e dela consigo mesma – seja destruída ou fatalmente ferida.

Asim sendo, antes de pedir quaisquer exames durante a gestação pense:

  • Além da indústria médica e seus tentáculos (laboratórios, drogas, reagentes, equipamentos, profissionais, etc), quem mais se beneficia desse pedido de exames?
  • É possível que este exames mude sua estratégia no caso? Como? Ou está pedindo só para “ver como está”?
  • Tem validação científica?
  • Vai realmente trazer luz a este caso ou será um desperdício de recursos? É muito caro? Vale a pena o recurso investido?
  • Não seria possível trocar este exame por uma anamnese melhor ou por mais meia hora de prosa?

Pense melhor. Menos é mais…

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Arquivado em Ativismo, Medicina

Luz e Sombra

Muito poucos se preocupam em dar apoio e suporte aos cuidadores. Quando as perdas acontecem eles se tornam invisíveis ou se transformam em alvos fáceis para nossas frustrações. Humanizar o nascimento também é cuidar de quem cuida. Se para cuidar é preciso aparentar força e confiança, quem haveria de duvidar de uma máscara tão bem costurada à pele, a ponto de nos fazer crer que nada a pode perturbar, nem mesmo “a dor que deveras sente”.

Esta escolha é sempre complexa pois se baseia em fatores subjetivos e questões circunstanciais e, em verdade, ela está na base de toda a opção que fazemos por cuidar das pessoas. Você pode escolher o contato nos limites do necessário para realizar sua função específica; entretanto poderá entender que somente ao raspar as crostas superficiais do sujeito é possível entender o que se passa para além de sua epiderme.

Assim sendo, diante de nós duas portas se oferecem: uma delas nos leva ao mundo do aparentemente manifesto, do discurso, da evidência, do sinal aparente e do sintoma mais grosseiro. Um mundo muito próximo da biologia, da física e do real que (ilusoriamente) nos envolve. Já a outra porta nos leva ao mundo do simbólico, do relativo, do subjetivo e do pessoal. Um universo de significados e significantes dispersos e fora de ordem, onde moram nossas verdades mais sombrias. A casa das verdades perenes, das memórias sombrias e do medo.

Ambas as portas nos oferecem a oportunidade de conhecer os pacientes, mas enquanto a primeira permite um contato superficial a segunda nos obriga à criação de um vínculo que também nos impõe – em contrapartida – a conexão afetiva e emocional. Por isso mesmo adentrar desta forma no universo mais profundo dos pacientes nos leva obrigatoriamente à empatia e à conexão, à alegria e ao sofrimento.

Quem escolhe a segunda porta sabe que as alegrias serão sempre o tempero da vida; a luz que nos faz caminhar e seguir adiante. Todavia, sabe também que as perdas e os insucessos não poderão passar pela vida de quem cuidamos sem nos afetar da mesma forma.

A dor de perder na luta inglória contra a morte será sempre maior quando nossos corações se conectam com quem vestiu as capas do luto. Quem escolhe a com-paixão – o afeto compartilhado – sabe “a dor e a delicia de ser o que se é”. Sabe também que o preço das alegrias supremas é estar junto de quem sofre, para poder auxiliar quem se depara com as dores mais profundas que a vida pode reservar. Merece um abraço todo aquele cuja dor de hoje lhes rasga a alma, exatamente porque são pessoas de luz e espíritos especiais.

Reese Waldorf, “Who cares”, ed Epigram, pág. 135

Rose Waldorf nasceu em San Diego, na Califórnia, em 1977. Muito cedo se interessou pelas questões do parto e do nascimento e após terminar o “high school” na sua cidade resolveu estudar enfermagem para se dedicar à parteria. Foi criadora da “Heaven”, uma Casa de Parto que atua no mais puro modelo de parteria, atendendo a população pobre e as imigrantes mexicanas da fronteira. Escreveu seu livro “Who Cares” após sofrer uma crise de pânico por excesso de trabalho (burnout) e perseguições da corporação médica de sua região. Seu livro rapidamente se tornou uma espécie de “manual emocional para parteiras iniciantes”, pois descrevia não apenas as partes belas e sublimes da tarefa de atender partos, mas também as sombras, as violências, as agressões e as perseguições a que são submetidas. Rose continua atendendo partos e morando em San Diego. É casada e tem dois filhos, Jeremy e Jason.

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Arquivado em Citações, Histórias Pessoais, Parto