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Maçaneta

 

A cafeteria jogava sobre nós seus vapores de café enquanto Max ajeitava o cabelo cada vez que aproximava a boca da xícara. Tive ímpetos de dizer-lhe, pela milésima vez, que já era hora de cortar seu cabelo. Max mantinha o mesmo penteado desgrenhado de quando estava na faculdade, mas agora os fios de cabelos brancos estavam em franca vantagem contra os originais. Logo me dei conta de que este comentário seria apenas mais uma tolice minha; criticar os cabelos de Max era uma intromissão em um assunto absolutamente privado. Pior, temo que sua resposta seria: “respeite seu lugar de fala, careca”. Dizer-lhe para cortar o cabelo seria o mesmo que pedir para Salvador Dali aparar o bigode, ou para Einstein pentear seu cabelo. Não se mexe em marcas tão fortes de uma personalidade. Ainda prefiro o incômodo de vê-lo ajeitando o cabelo insistentemente do que correr o risco de ver seu espírito questionador e inquieto esvair-se no chão de um barbeiro

– Eu sei do que falas, Ric. Se o que move estas pessoas. Sei como sofrem e porque é tão complexo o perdão. Sei também que, por mais que estas pessoas sejam confrontadas com a realidade, tal encontro não é capaz de produzir nenhuma transformação significativa. O que se obtém de forma irracional e afetiva não pode ser extirpado pela razão.

– Sim, eu compreendo, e me resigno. Sei que não há muito o que dizer diante de uma construção emocional tão poderosa. Não se joga fora uma bengala de uma hora para outra. O ódio e o desprezo servem como potentes apaziguadores da alma quando a dor é intensa e sobre ela não existe consolo possível.

Max jogou-se para trás na cadeira e ficou me olhando fixamente por alguns instantes. Nunca entendi exatamente o sentido destas paradas abruptas, o enquadramento do corpo como a preparar um bote seguido de um movimento rápido para frente em que arrojava seu corpo sobre a mesa e dizia algo sem tirar seus olhos dos meus. Funcionava como um script pré-estabelecido do qual ambos sabíamos como funcionava.

– Eu já te falei a história de Dulcinéia? Não a namorada de Dom Quixote, uma outra, muito mais triste.

Neguei com a cabeça, sem desviar os olhos de Max.

Ele sabia que eu não desviaria o olhar até o final de sua narrativa. Max domina a arte de criar suspenses e contar histórias.

– Dulcinéia era uma mulher triste. Era casada e tinha três filhos. Eu a conheci nos primeiros anos depois de sair da residência em um ambulatório da prefeitura.  Nos primeiros quinze minutos da consulta ela me contou as mentiras previsíveis que as pessoas contam na frente do médico, como um teatro tosco de olhares cruzados, histórias escolhidas, pausas, palavras sonegadas, atos falhos e enganos.

Interrompi Max abruptamente com a mão espalmada à frente.

– Para lá, Max. Não venha me dizer que as pessoas procuram médicos para mentir. Você não pode reduzir as consultas a interrogatórios, como se os pacientes estivessem acossados por um agente da lei, procurando encontrar as palavras menos incriminatórias, buscando subterfúgios para não dizer a verdade.

– Caro Ric, você descreveu muito bem como funciona uma consulta. Este encontro está regulado pelas necessidades humanas, por suas dores e medos e pelo nosso sentido de urgência. Entretanto, o que o paciente nos traz como demanda, como queixa e como sofrimento, é tão somente a parte visível de um gigantesco Iceberg. Aquela pontinha branca que desponta da imensidão aparentemente calma do oceano é apenas uma fração minúscula do que se esconde por debaixo das suas águas plácidas. Infelizmente, o que aparece como gelo na superfície deveria ser o guia para a descoberta da massa gigantesca que o sustenta. O que o paciente traz como queixa deveria ser um sinalizador para que um cuidador isento de preconceitos pudesse investigar o que se esconde por debaixo da superfície do seu discurso dissimulador.

Como eu um flash milhares de pacientes, palavras, histórias, gestos, expressões e sorrisos passaram diante dos meus olhos confirmando a tese de Max. Havia muito mais do que a nossa vã observação era capaz de apreender em um encontro breve e tímido. Os pacientes escondem, até de si mesmos, um tesouro de emoções escondidas debaixo de grossas capas de proteção e o adoecimento, qualquer que seja, enfraquece essas barreiras e nos oferece a oportunidade única de encontrar o que se esconde por “debaixo do véu que nos separa do meramente manifesto aos sentidos grosseiros”.

Repeti para Max a frase que ele havia me dito há muitos anos e pela qual tinha uma certa afeição. Sim, Max se afeiçoava a frases como alguns tem paixão por cães e gatos. Pedi que continuasse a história de Dulcinéia.

– Permiti que Dulcinéia continuasse a contar as naturais mentiras enquanto nutria a esperança de que ela fizesse a “manobra da maçaneta” que é tão comum nesses casos. Claro que você a conhece, Ric. Depois explico como funciona, mas você já a viu muitas vezes durante o tempo em que atendeu. De tão evidente é preciso muito esforço para não a enxergar.

Pedi que continuasse, mas com o compromisso de descrever a tal manobra mais tarde.

– Dulcinéia era triste, como já lhe disse. Tinha olhos azuis profundos e frios. Seu rosto era magro e seu corpo esguio. A pele era de um brancor ofuscante, onde ressaltava o azul de suas veias delicadas decorando de mármore a face interna de seus braços de cera. Seus gestos eram delicados, mas seu olhar para mim dizia muito mais do que suas pequenas mentiras. Ela carregava uma dor que não cabia em suas palavras, que não aparecia em suas queixas e que devia estar dormindo nos porões úmidos e escuros do inconsciente.

Tentei buscar alguma Dulcinéia em meu arquivo de imagens, mas preferi que a descrição pormenorizada de Max me ajudasse a criar uma nova. Siga, Max.

– Em um determinado momento, e não recordo exatamente porque a conversa chegou a este ponto, suas mãos se espalmaram sobre o granito da mesa e ela me disse com uma voz dura: “Eu sei o que é sofrer por um erro!

Max, depois de uma breve pausa – ele conhece como contar histórias com seus altos e baixos e esperando o momento certo para encaixar as palavras da narrativa – continuou.

– Preferi ficar em silêncio. Havia naquele momento um instante raro nos encontros adornados de puerilidades que somos obrigados a testemunhar. Uma vaga do oceano chocou-se contra a torre gelada que aparecia altiva no meio do oceano de placidez, e com isso descobriu uma porção maior do iceberg que a sustentava. Ali estava algo verdadeiro, uma emoção clara e forte; uma dor que não se conteve e mostrou sua face.

Esperei mais alguns momentos de silêncio e ela resolveu continuar. Disse-me que sua irmã foi vítima de um erro médico há muitos anos, e que este fato acabou por fazê-las desconfiar de todos os médicos com quem consultou desde então. Um médico do Pronto Socorro foi o responsável pelo sofrimento terrível que se abateu sobre sua pequena irmã, na época com sete anos. A dor produzida naquele momento de sua vida jamais a abandonara e ela não se sentia capaz de perdoar aquele que tanto mal havia causado à sua irmãzinha e à toda sua família.

Esperei mais alguns instantes pelo seu relato, pois via que ela estava tocando uma parte dolorosa de sua vida, um momento de profunda dor e angústia. Ficava claro que deveria ser algo de muitos anos passados, mas a emocionalidade da descrição mostrava que a dor ainda era atual, apesar da distância de décadas que a separava do evento.

A tudo eu ouvia com atenção, mas meu coração disparava quando eu sentia na própria carne as emoções contidas no relato de Max.

– Que idade você tinha quando isso ocorreu? continuou Max em seu relato. Ela respondeu que tinha 16 anos quando sua irmã sofreu o grave acidente. Ela era uma irmã “temporona”, a mais mimada, a mais amada, a mais querida por todos na família. “Um anjo que a vida presenteou a todos nós”, disse ela.

Olhando seus olhos úmidos perguntei se ela desejava falar sobre esse caso, caso isso pudesse lhe trazer algum conforto ou consolo. Ela respondeu que sim com a cabeça, como que a desejando economizar palavras que lhe custavam a sair da boca rósea de lábios finos, que mais pareciam uma linha a cruzar transversalmente o rosto.

Foi um erro terrível do médico, disse ela. Ela foi atropelada quando voltava para casa de um passeio e levada imediatamente ao hospital. Chegou lá muito mal, entre a vida e a morte. Sofreu várias fraturas, em vários ossos, e chegou no Pronto Socorro inconsciente. Foi internada e começaram a fazer cirurgias. Uma depois da outra; nem lembro quantas foram feitas no período em que estivemos no hospital, lembro apenas que foram muitas. Ossos, hemorragias internas, reintervenções, drenos, soro, sangue, anestesias. Depois as complicações, os antibióticos e as febres. Ela foi desenganada várias vezes, os médicos foram perdendo as esperanças.

Dulcinéia continuava sua descrição da tragédia de ver uma irmã lutando contra um infortúnio, que não apenas se apossou de sua saúde, mas acabou levando consigo o brilho dos olhos azuis de sua irmã. Ela prosseguiu em sua narrativa.

Eu rezava todos os dias e fazia todas as promessas. Chorava copiosamente nos corredores do hospital. Não conseguia aceitar que uma criança sofresse tanto, alguém que jamais fez qualquer ato ruim contra ninguém. Agarrava-me a tolas crendices e palavras de estranhos, todas bem-intencionadas, mas essencialmente vazias.

Subitamente, algo aconteceu. Em princípio não quis acreditar pois não queria me agarrar a falsas esperanças. A febre cedeu, os rins voltaram a funcionar, as cirurgias não mais supuravam, a respiração parecia melhor e mais calma. Até seu rosto voltou a se parecer com a menina alegre e vívida que todos conheciam. Chorei demais de alegria, mas ainda mantinha minhas orações e meus pés no chão.

Os dias se seguiram e ela aparentava franca recuperação, e depois de mais de dois meses internada pela primeira vez os médicos usaram a expressão “alta hospitalar”. Conseguia sair do quarto na cadeira de rodas e, apesar das dores, ensaiava alguns sorrisos com as brincadeiras das enfermeiras e dos médicos. Meu coração exultava de alegria e esperança.

O dia finalmente chegou. Apesar de ainda restrita à cama e com muitos cuidados o médico nos procurou e avisou que daria a alta no dia seguinte. Ela precisaria de controle cuidadoso e muita atenção. Estava se alimentando com cuidado, havia perdido muito peso, não podia fazer nenhum esforço. Passei a noite no hospital aguardando para levar minha irmã de volta para casa no dia seguinte.

Então sobreveio a sombra que nunca mais me abandonou, disse ela com uma voz pausada e grave. Durante a noite minha irmã pediu um copo de suco de laranja. Solicitei a enfermeira que lhe fosse dado, já que iria para casa na manhã seguinte e havia passado o dia inteiro tomando uma dieta líquida; devia ter sido  apenas um esquecimento do médico. A enfermeira voltou com a informação de que ela estava sem dieta. Insisti com a enfermeira de que ela estava com sede e precisava beber algo “energético”, e ela respondeu que ligaria para o médico de plantão para saber se ele liberava o suco, diante do fato de que pela manhã ela iria para casa.

A autorização do médico foi dada.

Ela bebeu seu suco, me deu um beijo de boa noite e dormiu.

Nunca mais falei com minha irmã. Na manhã seguinte ela se sentiu mal, ficou com falta de ar, reclamou que estava difícil respirar e logo depois pude ver que estava ficando pálida. Chamei a emergência e ele foi imediatamente removida para a UTI. Ainda pela manhã, uma enfermeira conhecida voltou para o quarto onde eu aguardava informações, me deu um abraço e chorou comigo, avisando que minha irmã havia morrido. Não havia causa conhecida ainda, e só com o tempo poderiam descobrir.

Fez uma pausa para secar as lágrimas e levou as mãos ao rosto. As emoções de tantos anos voltavam como se tivessem ocorrido há poucos dias.

Que Deus a houvesse levado no dia em que morreu, Dr Max. Que tivesse ela ficado no chão, sem vida, atirada no asfalto quente da rua, mas porque foram me dar as esperanças de ter minha irmã de volta para depois ser arrancada dos meus braços assim?

Não foi difícil entender que a culpa era o suco de laranja. Sim, doutor, deram a ela um suco que não poderiam ter liberado. Deram para ela um “veneno” que a matou. Foi um erro grosseiro do médico por ter liberado um suco que não devia ter recebido.

Max pausou a narrativa nesse momento e voltou a colocar o corpo para trás, encostando a vasta cabeleira na parede atrás.

– O que você disse a ela Max? Acredita mesmo que aquele suco de laranja poderia estar implicado no que me parece uma embolia?

– O que eu penso não importa muito, Ric. A dor dela era verdadeira e a melhor resposta que eu tinha a lhe dar era o meu silêncio. Ela continuou sua triste história.

Processei o médico. Virei uma fera. Contratei um advogado que imediatamente encampou a minha causa. Levei o caso ao conselho de medicina. No dia da audiência eu o encontrei, alguém que eu jamais havia visto mas que odiava do fundo do meu coração. Ele se levantou e me cumprimentou constrangido, mas certamente foi capaz de ver as faíscas de ódio que saíam dos meus olhos. Sem saber o que falar, ele se limitou a dizer, sem raiva ou indignação, apenas com uma espécie de assombro.

– Por que está fazendo isso comigo?

Não consegui lhe responder tudo o que tinha em minha cabeça pois meu advogado me puxou pelo braço e pediu que eu sentasse e me acalmasse. Foi a única vez que o vi em minha vida.

Perguntei a ela o que havia acontecido com o caso e ela respondeu com uma risada de sarcasmo.

Ora, Dr Max, você sabe muito bem o que houve. Simplesmente nada. O conselho de medicina disse que não havia prova alguma de má conduta diante de um caso tão grave como o dela e encerrou o caso. Cheguei a pensar em levar adiante e processá-lo em todas as instâncias, mas meu advogado disse que a visão do conselho era muito forte, os juízes são muito incompetentes para entender casos médicos, haveria um desgaste ainda maior para a família e os custos subiriam, etc. Aceitei seu conselho e virei essa página, mas a minha dor e a minha indignação jamais terminaram, e sei que vou morrer com elas.

Fiquei olhando para aquela paciente sem saber o que dizer, sem ter como ajudá-la e sem poder debater sobre um caso que lhe trazia tanta dor, mais de 25 anos passados. Tinha vontade de lhe falar que não acreditava que o suco de laranja tivesse qualquer participação no óbito, que o mais provável era uma embolia, o que seria um diagnóstico provável diante de tanto tempo imobilizada e das fraturas que teve. Mas, de que adiantaria mexer nessa ferida sem ser capaz de lhe oferecer uma luz qualquer, e sem ter condições de trazer razão para um caso em que havia um domínio total das paixões?

Disse apenas que sentia muito por tudo que havia acontecido e que ela podia contar comigo sempre que tivesse o desejo de contar uma história que compõe o tecido sutil de sua vida. Ela sorriu, secando uma última lágrima dos olhos azuis.

Levantou-se e dirigiu-se à porta. Neste instante, sem saber exatamente o porquê, resolvi lhe fazer a derradeira pergunta. Em verdade, creio que a fiz apenas para tentar me solidarizar com sua dor, ou para encher de palavras o pequeno trajeto que separava a mesa onde estávamos até a porta.

– Como ela foi atropelada?, disse eu.

– Ela desceu do ônibus e atravessou a rua sem olhar. Soltou-se e correu para a calçada à frente, mas foi atingida por uma motocicleta em alta velocidade e arremessada há mais de 20 metros de distância.

– Soltou-se?, perguntei eu sem refletir

Dulcineia colocou a mão na maçaneta e, olhando levemente para trás, respondeu

– Soltou-se da minha mão, Dr Max. Era eu quem havia saído com ela para passear. Foi de minha mão que ela se desprendeu.

Meu olhos se arregalaram diante do fim da história. Olhei para Max como a entender a manobra que ele me havia anunciado.

– A maçaneta, Max…. mais uma vez.

Max ajeitou seus cabelos caóticos mais uma vez e sorveu o último gole de seu cappuccino. A brisa sombria entrava pelas frestas da porta à frente enquanto os sons da noite nos convidavam a um abraço e um até breve.

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Orlando

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Só a pressão lenta e insidiosa das forças culturais é capaz de modificar os costumes. Sou de uma geração que dizia “negrice” com absoluta impunidade e naturalidade, para descrever trabalhos mal feitos ou esteticamente inadequados. No início, quando alguém reclamava, a pessoa se defendia dizendo que estava “sacramentado na cultura”, da mesma forma como “judiaria” ou “judiação”. Além disso, diziam eles, isso não passa de uma “brincadeira”, deixando claro que se você não aceitar é porque é um sujeito mau humorado ou grosseiro.

Ninguém mais fala “negrice” de forma impune. As forças sociais expurgaram estas expressões, relegando-as apenas aos bolsões mais reacionários e racistas da extrema direita.

Diante desses dilemas meu pai desenvolveu uma atitude ao estilo “bateu-levou”. Dizia ele: “Se fizer uma piada racista vai ouvir um sermão; se o sujeito não tem vergonha de contar eu não preciso ter vergonha de estragar a festa”.

Quando tento me lembrar de como aprendi a respeitar os negros eu recordo de algumas cenas da vida estudantil. Dentre elas uma partida de futebol, e desde então agradeço ao meu colega de escola Orlando, que me ensinou, quando eu tinha 15 anos de idade esta perspectiva. Ele veio transferifo de outro colégio e não o conhecíamos muito bem, mas ele era um jovem muito sério e até timido. Certa feita, no meio de uma partida de futebol na escola, gritei para ele a plenos pulmões:

– Passa a bola, negão!!

Orlando era um negro comprido, magro e alto. Era mais velho que nós, talvez tivesse 16 ou 17 anos. Quando me lembro dele penso em um menino muito bonito e de postura madura. Tinha uma voz grave de barítono e fazia curso de teatro. Quando ouviu meu grito, parou exatamente onde estava, como se tivesse escutado uma sirene de alerta. Pisou sobre a bola, abaixou-se e a segurou entre as mãos. Deu três passou em minha direção e fitou-me diretamente nos olhos. Sem expressar ódio ou raiva, mas com uma firmeza pedagógica intensa, ele me disse pausadamente, do alto da sua voz grave e profunda, enquanto me entregava a bola:

– Meu nome não é “negão”. Meu nome é Orlando.

Obrigado, Orlando.

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Erro e perdão

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Uma paciente conta, durante uma consulta, que seu filho de 2 anos dorme na cama com ela. Desfia uma série de justificativas e explicações para a cama compartilhada, que são conhecidas de todos. “É mais tranquilo para atender, ele dorme melhor, amamenta mais fácil etc”

A mãe estava separada do marido faz pouco e parecia óbvio que havia mais explicações para o fato do que ela havia oferecido. Necessidade de companhia, medo, carência talvez. O médico escuta suas razões e, sem dar a ela muito tempo para continuar as explicações, dispara:

– Se quiser recuperar o seu filho do estrago que já foi feito, retire-o imediatamente dessa cama. Crianças não devem compartilhar o leito com adultos. Se quiser que seu filho se torne um histérico mimado e egocêntrico continue assim, caso contrário coloque-o no seu próprio quarto. Imediatamente!!

A mulher manteve-se em silêncio sem dizer nenhuma palavra. Baixou os olhos como que a pedir desculpas. Ele devia estar certo, afinal era um médico, preparou-se para isso. Como poderia uma mulher pobre e sem estudo questionar o que um doutor dizia. Suas explicações simples eram insignificantes diante do conhecimento e da autoridade do jovem profissional à sua frente.

– Está bem, doutor. Assim farei se o senhor diz que é o melhor.

O médico sorri com sua benevolência aristocrática e superior. Coloca uma folha de receituário à sua frente e desenha com letra bonita um remédio que lhe pareceu adequado. Levanta-se e conduz a mulher até a porta. Ela se despede ainda cabisbaixa e caminha em direção à saída da clínica.

Missão cumprida. Uma aula de arrogância e prepotência. Uma mulher que deixa um recinto sagrado de cura muito pior do que entrou. Carrega consigo uma folha de papel e uma tonelada a mais de culpa nas costas por ser uma mãe relapsa, egoísta e irresponsável. Talvez nunca mais volte, mas não por estar bem, e sim por sentir vergonha.

Não sinto pena nenhuma desse profissional, mesmo que possa entendê-lo com a experiência que hoje tenho. Ele precisava ter ouvido umas boas reprimendas pela sua absurda falta de sensibilidade e ausência total de empatia. Mas, quem poderia lhe dar essa lição se ao seu redor tantos achavam sua atitude correta?

Esse médico era eu, há 25 anos, e o fato realmente aconteceu. Uma vida só é muito pouco para recuperar tantas tolices e erros cometidos. Resta esperar que, assim como aquela outra que atendi no chão da sala de exames, esta também possa me perdoar. É tudo que posso pedir.

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Um Corpo no Chão

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Cena banal…

A xícara de café fumegante assiste ao meu lado a derradeira pirueta desconcertante da ginasta gringa quando um grito corta o ar e faz a funcionária de cabelos oxigenados correr para a porta. Virando meu corpo em sua direção pude ver os derradeiros movimentos de um balé macabro.

Um rapaz bem vestido rouba a bolsa de uma mulher e sai em disparada. Descoberto por um taxista que testemunhou a cena faz uma escolha da qual se arrependeria, entra na rua errada e acaba alcançado por um passante e um motoboy. Cercado, levanta os braços, deixa cair a bolsa e se ajoelha, ainda mantendo as mãos para o céu. O silêncio que se seguiu ao grito é substituído por uma profusão de vozes, berros e exclamações. Muitos correm para a cena, mas eu me limito a me erguer da cadeira da cafeteria e, sofregamente, me dirijo à porta.

O motoboy, jaqueta de couro e botinas, mimetiza uma jogada de futebol americano. Com seu capacete reluzente enquadra o corpo forte e, como um “kicker” desfere um violento chute no corpo do rapaz. Pelo acúmulo de pessoas que agora envolvem a cena, não pude ver onde o impiedoso pontapé o atingiu. Escuto um grito surdo, seguido de gargalhadas e comentários jocosos e histéricos. Mais de 20 pessoas agora cercam o menino, cujo corpo desapareceu, envolto pela turba.

Passam-se alguns minutos e uma senhora tenta me explicar os detalhes do roubo, mas é interrompida por um senhor de uns 65 anos que, com um sorriso nos lábios, dispara: “Esse aí não rouba mais”.

Quebraram a perna dele, continua. Chutaram a perna do ladrão até quebrar. Partiram ela no meio“. Era indisfarçável o prazer estampado em seu rosto ao relatar a pequena chacina, o linchamento que ofereceu um pouco de diversão às pessoas de bem que circulavam no entorno da cafeteria.

O povo continuava em volta, e por vezes eu escutava os gritos do rapaz. As pessoas se amontoavam em torno do seu corpo roto, enquanto esperavam a polícia, paradoxalmente a única esperança que o pobre ladrão tinha de estancar o linchamento.

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto a foto de um gol
Em vez de reza a praga de alguém
E um silêncio servindo de amém.”

A barbárie, entre gritos e sussurros, espreita em qualquer esquina, bastando para isso que o mundo lhe ofereça uma forma de pegar carona no ódio alheio.

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Anjos

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Esta história sempre me ocorre quando me falam dos anjos, dos milagres e das circunstâncias em que eles ocorrem.

Há muitos anos atrás fui convidado para uma festa de aniversário. Não sou muito chegado a estas festas, mas como se tratava do primeiro ano de vida de um bebê em cujo parto eu havia auxiliado, aceitei de bom grado. Seria a oportunidade de encontrar pessoas queridas e escutar o que os outros têm para contar.

Pois nesta festa de aniversário ao me servir de cerveja ofereci para fazer o mesmo para o rapaz que estava sentado ao meu lado, o qual eu não conhecia. Só depois vim a saber que se tratava de um amigo de longa data da minha paciente. Quando mostrei a intenção de despejar a cerveja no seu copo ele e a mulher ao seu lado sorriram e se olharam, como se por trás deste gesto houvesse uma piada que só eles entendiam.

Fiquei um pouco desconcertado, e ri apenas para acompanhar o humor do casal.

Vendo que eu estava intrigado, ele educadamente me explicou a razão do sorriso que ambos compartilharam, e nos minutos que se seguiram ele me contou uma história fabulosa, dessas que ficam na cabeça da gente e não esquecemos jamais.

– Eu não bebo, obrigado, disse ele. Parei a muitos anos, graças a um anjo que Deus colocou na minha vida.

Olhei imediatamente para a loira de traços formosos ao seu lado, mas ele me interrompeu.

– Não, por favor. Não se trata deste anjo. Foi bem antes de conhecê-la. Foi um anjo menos formoso.

Muito menos, emendou ela.

Minha curiosidade só aumentava, e se ele não continuasse com seu relato eu seria obrigado a lhe implorar. Ele se aprumou na cadeira e resolveu me contar a história de sua sobriedade. Uma história que me fez pensar nos caminhos tortuosos que empreendemos em direção ao crescimento. Ou ainda, as lições que a vida nos dá e que precisamos estar preparados para recebê-las.

– Bem… eu parei de beber há 10 anos, disse ele. E eu bebia muito. Muito mesmo. Frequentava festas e bailes e só parava de beber quando o dia amanhecia. Era absolutamente inconsequente e irresponsável com a bebida, mas infelizmente não tinha forças para lutar contra isso.

– Minha vida era uma sequência de bebedeiras, continuou ele. Incontáveis incidentes constrangedores, inúmeros vexames. Mais de uma vez fui acordado por um policial dormindo ao volante parado num cruzamento. Sim… eu pegava no sono no pequeno espaço de tempo que separava um sinal vermelho de um verde.

O rapaz ao meu lado continuou a me contar uma triste série de ocorrências que colorem com tintas lúgubres a vida de qualquer alcoolista.

– Mas eu sempre achava que poderia parar quando quisesse, compreende? continuou o meu novo amigo. Eu achava que algum dia Deus me mandaria um anjo que me abriria os olhos, para que eu pudesse enxergar o que eu estava fazendo com a minha vida, que se desfazia em minhas mãos como um sorvete ao sol.

– E Deus mandou, disse a mulher ao seu lado, com um sorriso…

– Sim, continuou. Num sábado à noite. No baile que eu sempre frequentava. Eu já havia bebido todas, já havia vomitado, já havia feitos os vexames habituais, já tinha me indisposto com os seguranças. O normal dos sábados de festa.

– Foi então que eu resolvi tirar uma linda mulher para dançar. Ela talvez não tenha visto o quão embriagado eu estava, ou talvez não quisesse parecer antipática. Por uma razão ou por outra aceitou o convite e fomos para a pista. Lá chegando eu devo ter dançado talvez uns poucos minutos, e aí a minha memória se embaralha. As coisas parecem enevoadas, os fatos se misturam às emoções. Palavras se confundem, ficam quebradas ou torcidas. É difícil reconstituir tudo o que aconteceu.

Mas, foi neste instante que o meu anjo apareceu…

A face do meu amigo se fechou. As sobrancelhas se arquearam para baixo. Sua voz ficou mais pausada e densa.

– Gigantesco, é o que diz a minha réstia de lembrança. O anjo prateado que eu tanto pedi me fosse enviado puxou-me pelo ombro e desferiu um golpe certeiro no meu rosto, quebrando de forma instantânea uma fileira inteira de dentes, partindo a minha mandíbula em dois, transformando meu rosto em uma maçaroca de sangue, ossos partidos e álcool.

Meu anjo salvador era o noivo da moça com quem eu estava dançando.

Acordei uma semana depois. Havia realizado várias cirurgias de reconstrução da face. Perdi todos os dentes inferiores do lado esquerdo. Por meses usei um aparelho para fixar a mandíbula. Perdi 20 quilos, por não poder comer, a não ser sopas e sorvetes. Perdi meu emprego, mas acho que eles apenas estavam esperando alguma razão para me demitir. Quando voltei da licença médica fui logo informado da minha demissão.

Mas… aquele baile de sábado à noite foi a última vez na vida que eu bebi. Aquela tragédia, que poderia ter sido pior ainda, me fez descer ao poço da minha vida. Finalmente, através da dor e da vergonha, eu pude enxergar com clareza para onde a bebida estava me conduzindo. Mais do que as dores físicas, o fracasso e a vergonha me corroíam o espírito. Foi apenas depois de atingir o fundo é que meus pés puderam realizar o movimento de volta, de retorno à superfície. O “pescador de pérolas”, que só consegue o impulso para subir após tocar o leito do mar.

Nunca mais toquei em uma bebida. Sei que ainda sou um alcoolista, mas não sofro mais pelo meu vício. Aquela noite selou o meu futuro.

Eu sabia que Deus um dia ia ouvir minhas preces.

Encontrei meu anjo agressor por acaso em uma churrascaria, alguns anos depois. Nunca pensei em processá-lo, apesar de ele ser muito rico e dono de uma rede de casas noturnas. Ele se aproximou de mim e pediu desculpas. Disse que não se imaginava tão forte e que não pretendia me machucar tanto. Ficou sabendo por amigos do que havia acontecido comigo, mas não teve coragem de me visitar no hospital. Disse que eu não devia ter passado a mão na noiva dele, que inclusive era a sua atual esposa. Só naquele momento me dei conta que eu estava tão bêbado que nem notei como devia estar “abusado”.

Eu olhei para ele e disse:

– Pois você em imagina como aquele momento foi transformador para mim. Por mais maluco que isso possa parecer, eu queria lhe agradecer. Você salvou a minha vida.

– O grandalhão, obviamente, achou que eu estivesse debochando, mas meu sorriso era tão sincero que foi obrigado a acreditar. Levantei-me da cadeira e lhe dei um abraço. Ele sorriu sem jeito, despediu-se e nunca mais o vi.

Os anjos desaparecem depois dos milagres, pensei eu…

– Mas Deus, na sua bondade, concluiu ele, ainda tinha mais um anjo para colocar em minha vida.

Aí a linda loira sentada ao seu lado levantou-se e disse “Se dessa vez não for eu, vai levar porrada !!!

E caíram na gargalhada…

Lembro desta história e fico pensando: será possível – mesmo com um bocado de esforço – suplantar as questões mundanas e observar as dores, os sofrimentos e mesmo os martírios de um plano mais elevado?

As vezes eu penso nas pedras com as quais nos deparamos no nosso caminho desta forma meio bizarra. Não fosse aquela pedra que me jogou ao chão talvez eu jamais soubesse o valor do equilíbrio. Não fosse aquela injustiça que sofri eu jamais entenderia o valor de ser justo. Não fosse a ofensa contra mim disparada eu nunca compreenderia o valor da serenidade. Não fossem os meus detratores e eu jamais aprenderia o que sei hoje.

Não estou descriminalizando as atitudes de quem quer que seja: elas continuam equivocadas. Não se trata disso, até porque perdoar não é o mesmo que absolver.

Perdoar é acima de tudo entender o outro, e colocar-se no seu lugar. Perdoar é olhar o outro como se estivesse olhando a si mesmo.

Portanto, eu creio ser possível agradecer mesmo àqueles que nos fizeram mal pois, mesmo que por linhas tortas e através dos seus próprios erros, eles ajudam a consolidar a pessoa que somos. Eles podem ser os anjos que tanto pedimos, mas para que eles nos auxiliem precisamos estar preparados para aprender as lições.

Mesmo as mais duras.

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