Arquivo da categoria: Medicina

Evidências

 

Revisando os antigos manuscriptos de Robbie para a preparação de sua “Antologia”, que deverá ser publicada em breve, me deparo com uma frase que pode explicar de maneira muito clara as dificuldades de entender a falta de racionalidade e embasamento de muitas das intervenções médicas obstétricas contemporâneas, em especial a episiotomia, que Melania Amorim trouxe à discussão através do seu originalíssimo ECR.

“E ainda assim, os significados culturais e simbólicos desses procedimentos são profundos, indicando cada vez mais que os protocolos hospitalares para a atenção ao parto não fazem sentido numa perspectiva científica, mas permanecem por estarem repletos de sentido cultural”.

Assim sendo, uma episiotomia, um Kristeller ou uma cesariana não precisam ter embasamento científico para serem dominantes na cultura obstétrica contemporânea. Para que sejam preponderantes basta que possuam “sentido cultural“, isto é, que estejam adaptados a uma visão cultural subjacente e silenciosa (uma ideologia) que desmerece a mulher e suas capacidades reprodutivas, e que coloca a tecnologia e o saber racional como válidos e autoritativos, desta forma desvalorizando a fisiologia feminina, em especial no momento do parto e nascimento.
 
Quando ouço críticas a alguns procedimentos relacionados com o termo “humanização” – como parto extra-hospitalar, posições alternativas à litotomia, doulas, períneo íntegro, acompanhantes, livre deambulação, etc – e vejo colegas exigindo as “comprovações científicas” de tais condutas (que existem em abundância) eu acho engraçado e curioso o desejo insano de que tais procedimentos tenham a devida e justa comprovação quando praticamente nada do que é feito rotineiramente num atendimento ao parto tem qualquer embasamento científico – apesar de se conformar às normas culturais que colocam a intervenção como “salvadora” e a fisiologia feminina como “perigosa”.
 
Pensem bem, onde estão as evidências que sustentam os seguintes procedimentos que ocorrem em praticamente todos os hospitais brasileiros de forma rotineira:
 
– Trocar a roupa ao chegar
– Tomar banho
– Soro de rotina
– Ocitocina para apressar o parto
– Raspagem de pelos
– Enema glicerinado
– Restrição ao leito
– NPO (jejum forçado)
– Afastar a família e/ou acompanhante
– Monitorização eletrônica de rotina
– Parto em posição de Litotomia (deitada de costas)
– Episiotomia de rotina
– Kristeller
– Afastamento do RN para rotinas
– Perda da “hora dourada” da amamentação
– Cesarianas (85% no setor privado-convênios)
– Cesarianas (40% no SUS e 55% no geral)

Não estão em nenhum lugar, não é?
Se elas não existem, por que continuam sendo feitas inclusive em hospitais universitários, que deveriam zelar pela atualização e adequação de seus protocolos?

Ora…. porque a Medicina é um sistema de poder, hierárquico e totêmico. Ela não se expressa como ciência, mas como poder. Só isso explica que os procedimentos não se adaptem à ciência, mas a uma determinada cultura que coloca os profissionais médicos acima de seus pacientes e acima da própria ciência. As realidades científicas serão sempre bem vindas quando se adequarem à norma cultural (cesariana, episiotomia, parto hospitalar, etc..) e serão sempre rechaçadas com extrema violência quando afrontarem os valores culturais dominantes (parto domiciliar, atenção por enfermeiras, presença de acompanhantes/doulas, etc…).

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Médico ideal

 

Sobre a produção do “médico ideal”:

“Desde a época da escola médica recebemos daqueles que nos orientam a ideia de que envolver-se com os pacientes era uma atitude “fraca”, “débil”, que demonstrava uma labilidade emocional e afetiva, a qual apontava para uma falha formativa. O subtexto dessa formação é que o “médico perfeito”, na concepção platônica, revê ser como o juiz: frio, duro, imparcial e sem qualquer esboço de emoção. Talvez esta seja uma conexão atávica com os antigos operadores, sem sangue nas veias e com nervos graníticos, que arrancavam pernas, cálculos vesicais e braços sem anestesia, olhando a agonia dos pobres enfermos sem mover as sobrancelhas.”

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Abusos

Estive circulando na medicina por 39 anos e as atitudes desrespeitosas e abusivas dos estudantes, residentes, preceptores e professores sempre ocorreram. Não acredito que exista uma “crise” real surgida há poucas semanas ou meses, mas apenas uma publicidade maior para um problema centenário. Não há nada que me faça pensar que na minha época de estudante a atitude dos alunos em relação a pacientes e familiares era melhor. Em verdade, lembro de alguns episódios que seriam impensáveis nos dias de hoje, tamanho o desrespeito e o desprezo com as mulheres, em especial.

O que temos agora são mecanismos mais rápidos e eficientes de disseminar a informação e uma cultura mais madura para denunciar abusos, mas o comportamento dos estudantes e médicos continua o mesmo das últimas 4 décadas.

O problema pode ser melhorado com a vigilância sobre a formação e o reforço de conteúdos éticos na faculdade (nada a ver com ética médica, que tem muito mais a ver com Maçonaria e lealdade corporativa), mas nada vai mudar de verdade sem questionarmos quem são os brancos (87%) classe média alta (80%), filhos ou irmãos de médicos (40%) que constituem o corpo discente da maioria das faculdades de medicina do país.

Esse perfil de entrada é a base para entendermos o brutal fosso de valores, ideias, visões de mundo, perspectivas e posturas que separa os médicos do universo de pacientes que são por eles atendidos. Sem que essa distância seja encurtada toda e qualquer transformação será apenas parcial e/ou paliativa.

Não basta aumentar a carga horária da disciplina de deontologia médica para “passar uma cal branca sobre a casa rachada“. Não é com este tipo de atitude que vamos fazer uma revolução paradigmática. Precisamos debater que médicos queremos e quem estamos formando. Como bem sabemos, os médicos chegam à faculdade egressos de um estrato social completamente diverso dos pacientes que virão a atender, mas a escola médica, ao invés de tentar consertar este desvio e esta perversão ainda reforça os preconceitos, assim como a visão classista e excludente dos alunos. Os exemplos vem de cima; o preconceito é uma cátedra sem professor titular, mas que todos os alunos conhecem desde o primeiro dia do curso. É por isso que as pessoas que já conviveram dentro de uma faculdade de medicina não se espantam com o relato de doutores recém formados (ou não) desprezando enfermeiras, doulas e funcionárias(os) ou tendo atitudes absolutamente machistas e abusivas com os pacientes, os mesmos a quem juraram proteger e curar. Esse ainda é o padrão de uma corporação que insiste em se manter na Casa Grande.

Minha sugestão – e desde já deixo claro que ainda utópica e sonhadora – é a criação de uma instituição que existe em outros países, se não me engano a França: a “Ordem dos Pacientes” ou o “Conselho Federal dos Pacientes” que se ocuparia de receber as queixas de pacientes e estaria a serviço da sua proteção contra erros e equívocos de hospitais e profissionais de saúde. Pedir que os médicos façam o controle de seu próprio trabalho é ingenuidade. Os conselhos servem para proteger a medicina e os médicos, e isso não é uma acusação aos conselhos diante dessa importante e essencial função, mas o reconhecimento de que ela não é eficiente para auxiliar os pacientes. O “caso Adelir” é um bom exemplo. Para mim seria importante criar uma instância extrajudicial que pudesse fazer essa mediação antes de que os casos fossem enviados aos tribunais, diminuindo as demandas e fortalecendo as negociações, sem ser movida por um caráter primordialmente punitivo.

Não parece interessante? Eu, por conhecer os tribunais e seus conselheiros, percebo o quanto é ingênuo imaginar que os conselhos  de medicina possam deliberar contra si mesmos, cortar na própria carne e agir contra os poderes estabelecidos, os quais sempre beneficiam a categoria. Não faz sentido. Quando sou confrontado com esta minha desconfiança eu sempre pergunto aos amigos: “Na última eleição para o Conselho de Medicina, em quem você votou?“. Claro que as pessoas sempre respondem que só médicos votam nessa eleição. Então eu respondo: “E por que você acha que os conselheiros médicos favoreceriam os pacientes ao invés dos seus próprios eleitores?

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Sintoma Médico

 

O que causa o verdadeiro desconforto com a atitude dos estudantes recentemente chegados na escola médica é que sua atitude não se desenvolve em um vácuo. Não se trata de uma anomalia ou um fato isolado, mas o sintoma de uma doença sistêmica que só agora parece ser mais facilmente diagnosticada. Não é uma unha encravada ou o ferimento superficial em um corpo previamente saudável; não se trata da aparição súbita de uma infecção exógena que ataca um corpo indefeso.

Não. O que traz preocupação é que tais manifestações são apenas os sintomas e sinais visíveis de uma doença profunda, que agride os sentidos de forma insidiosa, que contamina os tecidos e órgãos de forma silente, mas que pode ser percebida quando deixamos de olhar para o evidente e levantamos o véu para ver o que se encerra por detrás do meramente manifesto.

Não é porque são estudantes de Medicina apenas, mas por serem parte dessa classe média arrogante e retrógrada que infesta o Brasil. Esses estudantes vão apenas reforçar esse preconceito durante a formação médica, e vão reproduzi-lo durante toda a vida profissional. Muito triste saber que eles terão a saúde de pessoas em suas mãos.

Todo movimento na medicina, por mais sutil e delicado que seja, é traçado pelas linhas do poder. Ali, nas entrelinhas do discurso, no espaço que se estende entre as palavras, no gesto fino, no branco difuso, na luz ofuscante, na frase cheia de abreviaturas, na desconexão entre o sentir e o real do corpo, entre o sujeito e o objeto é que se constrói a força dessa relação.

Esse encontro mágico tem a potencialidade ser o mais criativo caminho de cura, mas exatamente pela magia que o constitui e sustenta acaba sendo permeado por gritos de soberba e arrogância. Estes apenas sinalizam que o caminho que escolhemos se perdeu há muito e que reconstruir a arte de curar é outra grande tarefa para o milênio que se inicia.

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Mensagens

 

Aquilo que usamos do lado de fora do corpo são mensagens de conteúdos, valores e desejos que carregamos por dentro. Mesmo uma sunga, um chapéu, paletó, gravata, cueca e meia são mensagens. São mensagens até quando estão escondidas.

Mas é bom entender que as diferenças de estrutura sexual entre homens e mulheres (e não apenas a cultura) produzem mensagens diferentes. É pela estrutura sexual narcísica feminina que o mundo da moda é gigantesco. Se dependesse da moda – roupas e mensagens – masculina nós compraríamos apenas sacos de algodão no empório da esquina para nos vestir e aquecer. Ok, um exagero, mas a indústria de moda masculina é uma fração minúscula do que é aquela feita para mulheres.

Para quebrar o estereótipo do médico como um ser superior ou “diferente” do resto da população eu jamais usei um jaleco para atender pacientes em consultório durante toda a minha vida profissional. Nunca me senti bem com a fantasia de superioridade que os médicos usam, muitas vezes para esconder a insegurança que tem diante da angústia de decidir sobre a dor e o sofrimento alheios.

Roupa é mensagem. Biquini é mensagem. A gravata vermelha do Trump é mensagem. Decote é mensagem e jaleco com estetoscópio no pescoço é mensagem. É importante decifrar estes códigos para que o seu significado seja trazido à consciência.

O jaleco é uma forma de impor autoridade através da vestimenta, da mesma forma – e pelas mesmas razões – usada por pajés e xamãs. Se o objetivo é estabelecer um debate de igualdades entre médico e paciente, onde a assimetria técnica se estabeleça na transferência (e não na aparência) então é melhor abandonar estas parafernálias externas.

Em um encontro médico-paciente não apenas as roupas são mensagens, mas todo o entorno também faz está função. A mesa de exames, a escrivaninha, o aspecto asséptico do consultório, os diplomas na parede, a linguagem técnica e empolada (a mais importante mensagem, mais pela forma que pelo conteúdo), a distância dos corpos, o “Dr”, a secretária, a dificuldade de acesso são todas poderosas mensagens subliminares de autoridade e, acima de tudo, comunicam ao paciente que ele está diante de um ser superior.

A confiança deberia se estabelecer pelo exemplo, pelo discurso e pelas atitudes e não através dos adereços

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