Arquivo da categoria: Medicina

Medicina americana

 

Sempre que venho à América acabo acompanhando amigos em suas visitas aos seus médicos. Certamente já encontrei com mais de dez desses profissionais, entre jovens e velhos e de inúmeras especialidades. Alguns aspectos em comum me chamam a atenção entre todos os atendimentos:

  1. Os consultórios são mortos. Não há vida. São padronizados, frios, inespecíficos. Parecem entrepostos na estrada onde se vende junk food. Quando se chega à recepção poderíamos imaginar ser uma agência de seguros, uma secretaria de escola ou uma repartição pública. Muita propaganda nas revistas médicas, nas paredes, nos panfletos. A recepção é gigante, maior do que qualquer consultório onde já trabalhei.
  2. Muitos funcionários. Atrás do guiche de vidro sempre umas 4 funcionárias com computadores, fichas, papéis do seguro. Todas com roupitcha de hospital.
  3. Pré-consulta com uma funcionária (auxiliar médica) que faz perguntas “sim-não” sobre fumo, drogas, gestação, abortos, alergias, etc. e que vê sua pressão, peso, etc. Depois de alguns minutos chega o(a) médico(a).
  4. A consulta dura poucos minutos e tem um formato absolutamente técnico. O profissional não faz nenhum tipo de anotação; tudo é feito pela sua secretária ao lado, com uma ficha ou um notebook no colo. Nenhum nível de empatia com o paciente; nenhum assunto delicado é abordado. Não há espaço para qualquer tema que não seja específico da sua especialidade. Falta total de privacidade, por isso minha presença foi sempre tolerada. Afinal, que mal haveria em testemunhar uma consulta que sequer arranha a crosta dos sintomas que encobrem verdades inconvenientes?
  5. Capitalismo e tecnocracia por todos os lados. Nenhuma consulta se fala especialmente de dietas, saúde emocional ou estilos de vida, apenas drogas, testes e procedimentos. Na saída do consultório passa-se por um balcão de venda de produtos da especialidade.
  6. O sofrimento humano, com todas as sutilezas, especificidades, paradoxos, contradições e subjetividades cabe em uma palavra: stress. “Esse sintoma está muito relacionado ao stress”, dizem, mas ao mesmo tempo afastam qualquer proximidade com o tema. Não interessa se stress é a morte que se anuncia, a perda de dinheiro, ressentimentos, mágoas, tristezas, ódio. Para estes profissionais nada disso ajuda a entender o quadro. Pelo contrário, apenas atrapalha.
  7. As consultas duram 15 minutos, se tanto. Objetividade e eficiência industrial. Pode-se ver a dupla médico-assistente sair de uma sala para a próxima, onde outro paciente já o aguarda, e assim sucessivamente. Os custos que observamos em cada canto, na suntuosidade asséptica das salas e no grande número de profissionais precisam ser pagos de alguma forma. O ritmo de entra-sai é frenético.
  8. Receitas recheadas de drogas. Drogas estas que produzirão seus desajustes específicos que vão requerer mais drogas, mais testes. Um ciclo vicioso que só termina com a morte, quando então poderemos dizer “Fizemos de tudo“.

Se eu acredito que o sintoma é a voz de uma alma que pede para ser escutada, cuja expressão é a maior riqueza de um paciente, por certo que tais consultas são mordaças tecnológicas para impedir que os clientes possam falar de suas vidas e de suas dores. A verdade do paciente é sistematicamente obliterada. Pouca coisa poderia descrita como mais contrária aos pressupostos básicos da arte de curar do que impedir que a dor encontre uma via de escape nas palavras.

Olhando para os olhos marejados do meu amigo diante das palavras insípidas do médico à sua frente eu me compadeci e por momentos imaginei que ele poderia interromper o solilóquio enfadonho e tedioso do especialista e murmurar…

Rosebud, doutor

 

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

A arte de dissimular

 

A gente finge que sabe alguma coisa de medicina e a maior parte do trabalho médico é fazer os pacientes acreditarem que sabemos o que está acontecendo e que estamos no controle. Somos dissimulados, atores sofisticados. No parto também agimos assim e, em verdade pouco sabemos do que ocorre dentro daquela barriga. Igualmente não sabemos porque uma chuva deixa um sujeito apenas molhado, ou com resfriado e o outro com pneumonia. Não sabemos porque um bebê tranca na saída enquanto o outro é “cuspido”. Não sabemos porque algo nos faz mal e aos outros só traz prazer ou alegria.

A grande barreira da medicina ainda é o sujeito e seu universo interior, suas idiossincrasias e seus mistérios. Continuamos, por enquanto, a tratar gente como gado, como se fôssemos iguais, sem reconhecer a unicidade de cada um. O drama é nossa condição humana, nossa subjetividade e as consequências de nossa identidade.

E a arte de curar ainda se torna mais complicada quando ocorre dentro do capitalismo, onde o “Seu Toshiba” e o “Seu Siemens” precisam vender aparelhos de ultrassom, e o Complexo Farmacêutico mundial vende remédios como pílulas encantadas como se fossem a solução para nossos problemas. Onde as corporações lucram com tais tecnologias, que são usadas como “varinhas mágicas” para resolver os problemas dos pacientes.

Difícil é aceitar que elas, na verdade, apenas simulam um saber sobre a intimidade de nossa dor.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

Opressões

 

Por mais estranho que pareça, diante da imagem idealizada que deles fazemos, os médicos têm o DIREITO de se negar a fazer algo que implica em dano ao seu paciente, por razões éticas. Não há como um paciente fazer este nível de imposição a um profissional que tem o dever profissional de não causar dano. Como já dito, o protagonismo feminino não pode transformar os profissionais em escravos do desejo materno.

Pacientes oprimem médicos também. As taxas de mortalidade de médicos recentemente divulgadas mostram que a condição de médico é uma doença insidiosa que leva à morte prematura. Médicos tem uma vida muito mais curta do que os pacientes que eles atendem. Médicas tem taxas de tumores maiores do que a população em geral, com uma expectativa de vida de 57 anos nessa pesquisa.

A opressão dos pacientes sobre os médicos se expressa de uma forma mais sutil e subliminar, mas não menos danosa e dolorosa. A execração pública e os ataques à honra são os mais comuns. As fofocas, a maledicência e a destruição de reputações por erros presumidos ou simplesmente por não se adaptarem à imagem construída se tornaram banais no universo das redes sociais. Basta a palavra de uma paciente insatisfeita e a credibilidade do profissional se despedaça.

Dr Fulano não é humanizado coisa nenhuma, ele operou uma amiga minha“, ou “Ele não passa de um mercenário” ou então “Cobra uma fortuna porque só pensa em dinheiro“, são as acusações mais corriqueiras. Isso destrói a paixão de qualquer pessoa normal. Muitos dizem “Quer saber? Passei 20h de TP ao lado dessa paciente, e outros tantos dias angustiado com o caso dela sempre na minha cabeça para agora ser acusado de ter feito uma cesariana quando joguei a toalha diante de tantos problemas que surgiram. Eu podia ter feito como todos: contado uma mentira, feito a cesariana há 1 semana, e ninguém me acusaria. Só tolos se imolam publicamente em nome dos seus ideais. Ou kamikazes“.

Sim, os médicos também se sentem oprimidos, em especial os que enfrentam o sistema e sentem na pele o ostracismo e a violência de seus pares.

Criar modelos estanques e simplórios de “oprimidos e opressores” é um excelente método para esconder a verdade. Esta é sempre muito mais complexa e contraditória do que as novelas mexicanas onde o Bem e o Mal se confrontam estereotipados e sem matizes. No mundo real o oprimido também desvela o gozo com sua condição – o vitimismo – e dele tira vantagens, enquanto o opressor sofre na carne o peso de sua posição, pela culpa e pela responsabilidade que lhe recai.

O mundo é menos simples do que parece a realidade é mais complexa e paradoxal do que desejamos.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

Medicina Honesta

 

“Médicos honestos não podem mais praticar uma medicina honesta”. Quando me perguntam – todos os dias – se sou contra vacinação (entre outros temas da medicina hegemônica) eu sempre respondo que perdi completamente a confiança na “Big Pharma” e não confio em nada que venha dessa indústria. Poucos setores do capitalismo são mais corruptos do que este, e bastaria citar alguns exemplos recentes de fraude para deixar clara esta relação degenerada entre drogas e saúde.

Mas a ponta frágil ainda é a relação sagrada que se estabelece entre o médico o seu paciente. Ali, onde a transferência poderia operar o milagre, ocorrem as mais inaceitáveis interferências, em especial do mercado e do lucro. A ponta de lança dessa máquina gigante é o médico, pressionado pela indústria e até pelos pacientes, intoxicados pela propaganda enganosa e antiética enviada pela mídia.

O resultado é uma medicina fria, defensiva e cada vez mais mortal onde as condutas são determinadas pela indústria e os profissionais são esmagados pelas corporações. Os que se rebelam são julgados por seus pares em juízos injustos e cruéis. A solução parece ser a mediocridade e a adesão ao engodo da medicina drogal ocidental.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

Heroes

The acknowledgement of the importance of male partners in the struggle for better births is essential exactly because we all live in patriarchal societies. It’s natural for women in this kind of society to know their own strength, but it is unusual for men in a chauvinistic culture to see – thru the mist of male dominance – the pure and amazing power women have during childbirth.

In other words, it is much easier for women to see that reality than for a male obstetrician, in a masculine and interventionist profession, inside a male and chauvinistic culture and against the opinions of his colleagues, professors and even the women he assists. Instead of criticizing the attention that these rebels receive from the humanistic field women activist should welcome their decision in choosing the women’s perspective in childbirth. All male obstetricians I know face prejudice and explicit attacks from their peers, and some – like me – lose their licenses to practice because of their willingness to honor women’s full autonomy in birth.

These guys all over the world have a hard time with the medical Mafia and the cesarean industry, but continue to fight for the right for every woman to have a doula and a midwife at their side. Even thou we should honor and embrace all women around the world, which help other women to give birth for thousands of years, it is important to recognize the “good guys” that fight the system from inside.

It is sad to read women writing “men are inferior creatures“. My question is “do women actually say that to their boys“?

Sad to see women doing the same mistakes and using the same prejudices in their words that we men did for centuries.

 


 

O reconhecimento da importância dos parceiros masculinos na luta por melhores nascimentos é essencial, exatamente porque todos nós vivemos em sociedades patriarcais. É natural que as mulheres neste tipo de sociedade conheçam suas próprias forças, mas é incomum que os homens em uma cultura machista vejam – através do olhar do domínio masculino – o poder puro e surpreendente que as mulheres têm durante o parto.

Em outras palavras, é muito mais fácil para as mulheres ver essa realidade do que para um obstetra homem, numa profissão masculina e intervencionista, dentro de uma cultura machista e contra as opiniões de seus próprios colegas, professores e até mesmo das mulheres que ele ajuda. Em vez de criticar a atenção que esses rebeldes recebem do campo humanista, as ativistas do parto deveriam acolher sua decisão pela escolha da perspectiva das mulheres no parto. Todos os obstetras homens que conheço enfrentam preconceitos e ataques explícitos de seus pares, e alguns – como eu – perdem suas licenças para praticar por causa de sua disposição de honrar a plena autonomia das mulheres no nascimento.

Esses médicos em todo o mundo têm dificuldades com a máfia médica e a indústria das cesarianas, mas continuam a lutar pelo direito de toda mulher ter uma doula e uma parteira ao seu lado. É certo que deveríamos honrar e abraçar todas as mulheres ao redor do mundo que ajudam outras mulheres a parir – por milhares de anos – mas é igualmente importante reconhecer os “mocinhos” que lutam contra o sistema por dentro.

É muito triste ler as mulheres escrevendo que “os homens são criaturas inferiores”. Minha pergunta é “as mulheres realmente dizem isso aos seus meninos”?

É triste ver mulheres cometendo os mesmos erros e usando os mesmos preconceitos em suas palavras que nós homens fizemos durante séculos.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina