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Consulta Virtual

Depois de 35 anos de análise dei uma parada em função da pandemia. Fui convidado a continuar na modalidade “à distância”. Via Skype ou Whatsapp.

De pronto me neguei.

Entendo a necessidade de manter os atendimentos. Entendo que é possível manter uma análise à distância e compreendo o ineditismo da pandemia em termos de confinamento, mas não consegui aceitar para mim este modelo. Até porque não aceitaria atender assim, salvo emergências.

Após receber o convite fiquei pensando sobre as “sessões virtuais” e cheguei a conclusão que minha dificuldade em aceitá-las tem a ver com a sacralidade que reconheço nesse tipo de encontro.

Não apenas o contato direto com o terapeuta me parece essencial mas todo o ritual que o cerca – sair de casa, pensar no caminho, aguardar uns minutos antes de ser chamado, voltar para casa, ruminar sobre o que foi discutido, tomar decisões. Todos esses passos fazem parte do processo. Para além das terapias, também é um ritual que está impregnado na forma como se estabelecem os encontros médicos. Três décadas escutando pacientes me mostrou que existe muito mais numa visita ao médico do que as palavras ditas na brevidade de uma consulta.

Muitas vezes o não dito é mais importante do que o debatido, assim como as palavras podem ser menos importantes do que os silêncios. As vezes sobrevém a sedução de pensar “mas era algo simples, olhar um exame“, mas as coisas são simples tão somente na aparência. Cada encontro desses carrega um fardo de angústias, tensões, histórias, lembranças e um pedido sutil de ouvidos benevolentes em uma escuta gentil e respeitosa. Muitas consultas eliminam sintomas bastando para isso sentar e chorar um pouco.

Em silêncio.

Para além disso, as questões do “olhar”, que considero muito importantes, são fundamentais. Lembro das queixas de pacientes sobre seus médicos quando diziam “ele nem olhou para mim”. Isto é, ele não reconheceu sua dor, sua tristeza, sua angústia.

Sei que sou cafona, boko-moko e saudosista. Sei também que talvez não haja saída ou futuro para este médico que, não só estava presente mas ia na sua casa e sabia o nome do seu cachorro. Sei que os vínculos hoje são tênues e os médicos carregam epítetos estranhos e despersonalizantes como “médico do posto” ou “médico do convênio”, sem rosto, sem nome, sem estilo e sem história. Todavia, a velhice apenas deixou mais evidente uma crença da juventude:

“O maior remédio que um médico pode oferecer ao seu paciente é sua presença e sua escuta isenta de preconceitos, e nenhuma cura verdadeira ocorre sem vínculo” (adaptado de Balint)

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Vulvas defeituosas

Poucas coisas são mais emblemáticas do machismo estrutural da Medicina, da ginecologia e (em especial) da obstetrícia do que uma especialidade médica que se ocupa em consertar os erros essenciais da genitália feminina.

Não é necessário usar o argumento sexista de que deveria haver uma especialidade médica para ajustar os equívocos do aparelho reprodutor masculino também, e a razão é simples: nenhuma alteração seria necessária em qualquer dos gêneros, pois esta anatomia foi criada e modificada por milhões de anos de processo adaptativo. Não existe beleza que não seja simbólica, nem feiúra que não se faça pelo olhar que a cultura devota a um fato, objeto ou sujeito. Os conceitos de “belo” são produções de suas épocas, que o digam as divas gordinhas do século XVIII ou as roupas estravagantes dos anos 70.

A idéia de “consertar” genitais femininos só pode partir de um olhar diminutivo, defectivo e preconceituoso sobre a anatomia feminina. Apenas uma sociedade ainda soterrada nos conceitos patriarcais pode admitir que exista um estética “adequada” ou correta para vulvas. Acreditar que existe “algo a melhorar” é aceitar a inferioridade física da mulher como um fato.

Eu ainda fico mais surpreso ao ver tantas mulheres se submetendo à ideologia de defectividade dos seus corpos. Também ficava chocado com mulheres que me diziam ter “nojo” (era essa a palavra usada) de tudo relacionado à menstruação: cheiro, “sujeira”, sangue, manchas, dores, alterações de humor, etc. Nunca escutei um homem reclamando de seus testículos, mesmo sendo uma anatomia muito mais questionável (por quê do lado de fora do corpo??), e muito menos do pênis. Mas, incrivelmente, testemunhei mulheres descrevendo vulvas e vaginas como “feias”, “asquerosas”, e “nojentas”.

Claro que estes discursos são produções culturais. Não existe valor absoluto nestes conceitos. Meninas são ensinadas a desvalorizar seu corpo, a tratá-lo como equívoco e falha, enquanto os meninos o enxergam como potência e beleza.

Outro fato curioso é que na diretoria da “associação brasileira de ajeitadores de x*x*ca” está…. uma mulher, o que mostra que a visão diminutiva da mulher é tão forte e pervasiva que as próprias mulheres médicas precisam acreditar nela para exercer essa função. É verdade, mas bastaria observar como as médicas se comportam em relação ao parto para entender como a visão médica do feminino tem poder sobre as próprias mulheres que se propõe a tratar os corpos de outras mulheres.

Sempre haverá desculpa para explorar este tipo de mercado. A primeira é de que seria para ajustar problemas congênitos ou produzidos pelos partos – o que seria razoável – mas sabemos que a publicidade é direcionada às mulheres normais em busca de uma “xexeca perfeita”, um produto criado de forma proposital para vender todos os artifícios possíveis nesta busca – a exemplo do corpo com formas perfeitas que se busca nas “academias”.

A segunda desculpa é de que isso se deve a uma “demanda das próprias mulheres” a exemplo do que ocorre nas cesarianas, mas sabemos o quanto estas demandas são artificialmente produzidas pelas ideologias hegemônicas, que direcionam as mulheres a desconfiar de suas formas, nunca se satisfazerem do seu corpo e, no caso das cesarianas, não acreditar em na sua capacitação inata para gestar e parir com segurança. Assim, como ação inicial – cultural e subliminar – desacredita-se nas capacidades femininas insuflando-se desde a mais tenra idade uma desconfiança essencial e, como segunda etapa, vendem-se soluções cosméticas ilusórias para suprir esta falta, que vão das cesarianas às plásticas vulvares. Lucra-se com a destruição da autoimagem feminina, vendendo a elas a solução externa para um problema que foi criado no interior de suas almas.

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Filmagens

Sobre permitir filmagens de hospital somente mediante autorização. Para debater…

Sim, mas já pensou quem dá autorização para que o hospital seja filmado e fiscalizado? O delegado? O diretor do hospital? O diretor da maternidade? E dará em que circunstâncias?

Eu acredito que o melhor para o serviço público é ser absolutamente transparente. Como nos Estados Unidos (nas poucas coisas que eu concordo com as leis de lá): pode filmar tudo que seus olhos puderem enxergar em espaços PÚBLICOS. Não há expectativa de privacidade quando se está na rua ou em lugar de livre acesso. Qualquer cidadão com um celular na mão tem prerrogativas de “imprensa” e pode controlar e registrar o que é feito com o seu dinheiro aplicado nos impostos. Cada cidadão se torna um FISCAL do uso do dinheiro público.

Isto é: Pode filmar a polícia, os hospitais, a prefeitura, o trabalho dos funcionários públicos, desde que (e aqui o ponto FUNDAMENTAL) esteja em um local aberto ao público. Assim, você não pode invadir a sala de parto ou a sala cirúrgica de um hospital, mesmo que sejam hospitais PÚBLICOS. Não pode invadir a sala de interrogatório de uma delegacia de polícia ou a sala do prefeito, pois são espaços (de acesso) RESTRITOS, usados apenas por quem lá trabalha.

Uma medida como essa parece ser de proteção aos profissionais da saúde que são ameaçados por familiares pacientes – em especial os bolsonaristas hoje em dia. Entretanto, a resposta da sociedade para proteger profissionais e o seu trabalho não pode ser ESCONDER ou impedir que sejam registradas as suas ações que são públicas. Este tipo de “censura” serve muito bem aos governos totalitários que dificultam o acesso às informações do que ocorre dentro de espaços que, em última análise, pertencem a todos nós.

E vejam só…. percebam o que ocorreu com a assistência ao parto quando os centros obstétricos foram lentamente “invadidos”, primeiro pelos pais e acompanhantes nos anos 80, e depois pelas doulas neste século. Quantas transformações ocorreram exatamente porque as ações dentro do centro obstétrico puderam ser vistas, testemunhadas, fiscalizadas e registradas.

Mesmo que muitos profissionais tenham sido prejudicados por esta vigilância o saldo para a população é positivo. Muito mais importante é descrever as alas restritas dos hospitais e permitir que seja registrado o que está acontecendo, porque o segredo e a censura nunca são estratégias positivas em longo prazo.

Sobre o projeto de lei que deseja proibir as filmagens, clique AQUI.

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Fechamento

Sobre o fechamento de setores do Hospital da PUC de Porto Alegre (obstetrícia, neonatologia, pediatria e cirurgia pediátrica) escreve abaixo um médico que lá trabalhou por vários anos. Acredito apenas que seu diagnóstico final está equivocado; não é “neoliberalismo” o nome dessa doença, mas CAPITALISMO. Esse modelo econômico, quando aplicado à saúde é trágico e desumano. Como fica bem claro no texto, partos, nascimentos e crianças “não dão lucro”. Agora o hospital vai centrar suas ações na áreas que dão mais dinheiro e, via de regra, aquelas que produzem menos impacto na saúde da população. Ou alguém ainda vai discutir que um bom nascimento e uma boa infância são os caminhos mais seguros para uma vida saudável?

Ahhh, não sei se é o caso do colega, mas quando lembro do apoio entusiasmado dessa corporação em favor de Aécio, depois os ataques contra Dilma, pela prisão injusta de Lula e finalmente a favor da eleição de Bolsonaro eu fico pensando… o que esperavam depois de tantas escolhas insensatas e umbigocêntricas?

A partir de agora sugiro aos guardas do hospital que, quando forem obrigados a mandar uma grávida ou uma criança doente à procura de outro hospital, que orientem os pacientes para que peçam ajuda à “mão invisível do mercado”. Talvez assim eles mesmos passem a entender que saúde NÃO é negócio. Talvez pela dor possam compreender que assistência à saúde é um direito humano básico, essencial e inalienável, a que todos devem ter direito, não obstante sua condição econômica.

E viva o SUS.


Texto de José Beltrame Cusco

“Hoje é um dia muito triste para mim. Daqui a pouco vou para o Hospital São Lucas da PUC-RS para o que será o meu último plantão na instituição – e dentro de poucos dias serei demitido, juntamente com outros colegas. Trabalho no Centro Obstétrico e este será fechado, extinto, como também os serviços de Pediatria, neonatologia e Cirurgia Pediátrica. A justificativa? É porque estes serviços “não dão lucro para o hospital.” Alguns colegas, professores com muitos anos de casa e um trabalho de qualidade notável já foram demitidos sem a menor consideração, inclusive pegos de surpresa, porque ninguém da direção teve a mínima decência de consultar os profissionais.

No aspecto pessoal, vou perder uns 30% dos meus ganhos, o que causa impacto mas não chega a ser nenhuma tragédia, porque ainda dará pra ter um padrão de vida confortável. Muito pior é para alguns profissionais que trabalham exclusivamente lá. E muito pior é o impacto no sistema de saúde pública da cidade, e para as pacientes do SUS que atendemos sempre com toda a atenção e o cuidado que elas merecem. E para as crianças e seus pais aflitos com as doenças que atingem os pequenos. E agora? Que se virem, que procurem outros hospitais – que vão ficar ainda mais sobrecarregados.

Há prejuízo também para os médicos residentes, que prestaram um concurso difícil para fazer sua especialização no hospital de sua escolha, com qualidade, e que serão realocados para outros hospitais que jamais escolheriam. E prejuízo ao alunos do curso de Medicina da PUC, que não terão onde acompanhar atividades práticas em duas áreas importantíssimas da medicina (pediatria e obstetrícia) e terão que “pipocar” por outras instituições… O curso de Medicina da PUC, com mensalidade caríssima, já foi considerado o melhor curso entre as universidades particulares – e vai deixar de ser. Mas a mensalidade não vai baixar, é óbvio.

Eu fiz minha formação como especialista no Hospital de Clínicas, que felizmente tem outra cultura e outra visão como instituição, mas trabalho no hospital da PUC praticamente desde sempre, desde que acabei minha formação. Eu fico muito triste com isso, mas a indignação é maior que a tristeza. O nome disso?

Neoliberalismo.”

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Ainda cloroquina

Não creio em razões políticas para a manutenção da Cloroquina como opção para a pandemia, mesmo após as repetidas informações sobre sua inefetividade, partindo de organizações de saúde e de governos. Creio que o buraco é outro.

As verdadeiras razões jazem nas profundezas do inconsciente e são derivadas da pressão do “imperativo tecnológico” sobre as ações médicas. Existe uma pressão positiva sobre a ação dos profissionais da Medicina, uma expectativa de “algo a ser feito”. Não se admite que alguém com essa responsabilidade social – como o médico – não aja positivamente, ativamente. Essa é uma lei não escrita que regula a medicina.

Se uma pessoa morre de Covid SEM o uso de Cloroquina a família, os colegas e até a opinião pública (mídia) podem acusar o profissional de negligência, por não usar algo que “muitos outros dizem salvar vidas”. Por outro lado, se o sujeito morre de Covid tendo usado a Cloroquina – mesmo que a morte tenha ocorrido pelos seus efeitos tóxicos (!!!!) – ainda restará ao profissional dizer “fizemos tudo ao nosso alcance”. É raro um médico ser acusado por ter FEITO algo, e o comum é o acusarem por NÃO ter feito o que se supõe deveria fazer.

Ciência e evidências científicas desempenham um papel pouco expressivo nas escolhas médicas. Elas são majoritariamente tomadas por pressões de ordem subliminar. Médicos prezam seus empregos, sua qualidade de vida e seu status – como qualquer outra profissão. Enfrentar as acusações em nome do rigor científico e de suas convicções é raríssimo. Se as evidências e estudos sistemáticos REALMENTE guiassem o proceder médico a medicina desta forma empregada seria absolutamente irreconhecível.

Alguns meses depois de formado encontrei colegas de residência que me diziam: “Essa história de parto normal é muito bonita, mas não funciona no mundo real. Na cidade do interior onde trabalho as mulheres chiques (esposas da elite interiorana) marcam cesariana. Se eu negar serei mal falado na cidade, e vão espalhar que ‘não sei operar’. Se eu tentar esclarecer serei chamado de ‘Joãozinho-do-passo-certo’. Todavia, se eu ceder e operar sem justificativa serei abraçado, reconhecido, bem pago, elogiado e jamais serei questionado. Só um maluco suicida faria uma opção diferente desta última.”

Nas escolhas deste colega, onde está a ciência? Mas, quem pode dizer que esta escolha é irracional? Pode ser equivocada e cínica, mas quem a toma tem suas razões.

Médicos são guiados pela mão invisível da cultura. São produzidos pelo cadinho de valores que nela transitam. São PRODUTOS culturais, assim como a medicina que praticam. Aqueles que ousam questionar os pilares sobre os quais se assenta esta prática vão receber a resposta dura e inexorável dos representantes do modelo hegemônico. Não há mudança sem luta – e sem mártires.

Não se trata de culpar as ações de médicos que – por medo ou oportunismo – mantém os modelos intocados, mesmo quando claramente insensatos e sem base científica. Mais importante é mudar a cultura através da educação. Um povo educado produz médicos menos agressivos e mais seguros. Houvesse mais educação para todos sobre ciência e a discussão sobre a Cloroquina teria uma face muito mais racional e simples.

É o nosso atraso que mantém o debate em bases tão primitivas.

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