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A baura tá na mão

Fico aqui me perguntando porque não tratar o uso de cannabis com o mesmo viés crítico de qualquer outra droga. O que está sendo dito hoje em dia sobre a maconha tem a mesma marca de exagero e ufanismo que já vi sobre muitas outras coisas – e também remédios. Da cura do Parkinson, passando pelo câncer, pela artrite reumatoide e pela sua atividade ansiolítica.

A idéia de que a “solução está lá fora“, em uma droga, um aparelho, no dinheiro ou em uma pessoa é muito sedutora e sempre nos acompanha. Essa visão de “cura exógena” é que merece uma crítica severa por parte de quem quer ver a cura vomo um processo de reforma íntima.

Para mim isso tem cheiro, cor e forma de abertura de mercados. As grandes empresas estão loucas para que o grande comércio da cannabis se estabeleça para criar um gigantesco mercado internacional para a nova droga da moda. Capitalismo aplicado à saúde, como tanto testemunhei minha vida inteira.

Deixo aqui registrado que eu não embarco no entusiasmo desmedido por essas drogas, mesmo reconhecendo que a liberação é fundamental e que possam existir benefícios no seu uso.

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Good doctor

Eles nunca ne enganaram. Sempre tive esse conceito muito claro para mim. Respondia desde cedo para quem me dizia “Dr Frotinha é um canalha, mas um excelente cirurgião”: isto é mentira. Pode ter boa técnica e habilidade cirúrgica, mas jamais será um bom médico. Um médico se compõe de várias habilidades, entre elas a sabedoria, a visão holística, a contextualização da doença, a experiência, o estudo sistemático, a luta contra seus preconceitos e – entre as mais importantes – a capacidade de estabelecer empatia com o sofrimento alheio.

Nunca haverá um bom profissional que seja perverso. Pode ser até um profissional de sucesso, como vemos no mundo corporativo e na Medicina, mas jamais alguém que contribuiu para o bem comum.

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Leçons de Mardi

“Uma jovem chegou em coma. A mãe dela avisou de cara que tinha brigado com o namorado e resolveu tomar um copo de manga com leite. De plantão, o cirurgião residente Delmonte Bittencourt, que viria a ser braço direito de Zerbini, pioneiro da cirurgia cardíaca no Brasil, tranquilizou-a:

– Não se preocupe. Recentemente, dois médicos alemães, Billie e Park, estudaram o veneno da manga com leite, e desenvolveram uma injeção que temos aqui.

Aplicou-lhe, então, uma pequena dose de soro glicosado, e a moça recuperou-se em um segundo, serelepe. A mãe cobriu o médico de beijos, agradecida. Assim, os médicos do Pronto Socorro adotaram a expressão Billie e Park (piripaque) em vez do HY (histeria) para os casos de exagerada reação psicossomática, relata o professor Meirelles no Suplemento Cultural da APM.”

Apesar da genealogia duvidosa da palavra “piripaque” (creio mesmo que a palavra já existia e os médicos do Pronto-socorro a usaram para fazer uma brincadeira com o som de dois nomes americanoides) ela demonstra de forma muito clara a crueldade e o desrespeito ancestral que os médicos sempre tiveram com os sintomas emocionais dos pacientes, em especial os fenômenos histéricos. Essa sempre foi a regra em salas de emergência, e pelo visto os relatos são muito semelhantes com os que escutamos ainda hoje: escárnio, deboche, ironia e uma postura de tola superioridade do discurso médico, caracteristicamente pedante, empolado e cientificista. Ao invés de acolher – o que se esperaria de quem respeita a dor alheia – o tratamento se baseia ainda hoje na infantilização do paciente, com procedimentos agressivos, discursos falsos e falas enganosas, mas que servem para ludibriar os pacientes e suas famílias, cujas doenças e sintomas de caráter psíquico desconhecemos o sentido, a historia e seu mecanismo de ação.

“O médico se aproxima lentamente da paciente que jaz imóvel sobre a maca. Seu corpo esquálido comprime o colchonete de curvim surrado que o sustenta abaixo, onde as mãos, como garras, o prendem na maca. Os músculos do rosto retesados e as pálpebras fechadas tremem e enchem de vincos a cobertura dos olhos, enquanto sua respiração vem como um gemido a se misturar com os barulhos estridentes da pequena sala de atendimentos. O médico, parado como um totem ao seu lado, lhe aplica um beliscão no externo, sem que ela pareça reagir. Incomodado com a inação da paciente, olha para a enfermeira e pede que lhe traga “flor de maçã”. Volta o rosto para mim e com um sorriso sarcástico dispara “Quero ver até aonde vai esse espetáculo”. Havia um certo ódio em seu rosto, ainda absolutamente incompreensível.”

A histeria, no conceito freudiano, sempre foi assim tratada nos hospitais de pronto atendimento. Quando eu era estudante de medicina e passava por tais ambientes, os beliscões em pacientes “falsamente desmaiadas” e a “flor de maçã” (um composto extremamente cáustico a base de amoníaco) eram os instrumentos mais utilizados para retirá-las da “simulação” que nos apresentavam. Para nós, seus sintomas não eram “verdadeiros”, como um corte na cabeça ou um braço quebrado; eram mentiras que escondiam suas histórias, simulações grosseiras e encenações grotescas. Era assim que pensávamos, não muito distantes dos conceitos machistas e desrespeitosos do prof. Charcot em sua clínica em Salpêtrière, onde Freud elaborou os primeiros passos de sua teoria da histeria e, por fim, as bases da própria psicanálise.

Tanto quanto a exuberância enigmática dos sintomas histéricos, chama a atenção a resistência em reconhecê-los como sintomas verdadeiros, sofrimento legítimo e manifestação de desequilíbrio do sujeito. Apesar da distância que nos separa das “Leçons de Mardi” onde Freud escutava atentamente as aulas de neurologia de Charcot, nosso medo e ignorância sobre a corporificação de conteúdos afetivos ainda nos causa medo e repulsa.

Mais ainda, nossa reação a um corpo de mulher “descontrolado”, sem prumo, retorcido ou inerte nos angustia exatamente por sabermos, mesmo que de forma intuitiva, que este corpo cruamente erotizado está além de nossa compreensão e controle. Um corpo de mulher livre das amarras sociais e morais é uma ameaça ao patriarcado.

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As Modas

As “modas” em medicina – em especial na obstetrícia – são curiosas. Passei por muitas delas em quase 40 anos de prática. Elas se expressam da mesma forma como os chapéus e espartilhos de outrora, ou as calças de boca larga e de cós alto de alguns poucos anos. Não concorrem para a sua aparição o aprimoramento claro da atenção à saúde, e muito menos um impacto mensurável nos resultados positivos. Assim aconteceu com a hospitalização do parto, as ecografias obstétricas de rotina, as episiotomias, a posição de decúbito dorsal, as pesquisas para streptococcus e tantos outros instrumentos de intervenção sobre a fisiologia do parto.

O movimento de implementação dessas intervenções ocorre sempre dentro da lógica capitalista. Não há um questionamento sobre o significado e o valor do exame ou procedimento para diminuir problemas ou mesmo a morte, mas o quanto essa aplicação pode reverter em lucros ou incrementar o domínio dos profissionais e das instituições sobre o processo de nascimento. Não é a saúde de mães e bebês o foco, mas o controle patriarcal sobre corpos.

A moda do “clexane” será deixada de lado em breve, assim como lentamente estão saindo de cena as episiotomias, o Kristeller e a pesquisa de streptococcus, aos poucos deixadas de lado. Entretanto, a pesquisa não pode chegar a um ponto em que seja capaz de comprovar a suficiência feminina de gestar e parir com segurança. Quando uma moda médica morre, expondo sua inutilidade, seu perigo e um rastro de danos em sua história, uma nova moda precisa ser criada e exaltada, para evitar que as mentes femininas questionem a dependência que a sociedade de consumo tem da tecnologia usada como muleta para sustentar o corpo das mulheres, entendido por elas como insuficiente e defectivo.

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Por que homeopatia?

Existem diversas formas de responder esta pergunta. A primeira delas é reconhecer a profunda crise que atravessa a medicina contemporânea. Sua trajetória dentro do capitalismo se mostra cercada de profundas contradições, desde que percebemos a dicotomia entre os aspectos éticos relativos à sua ação terapêutica, preventiva e paliativa e as enormes pressões produzidas pelos lucros – muitas vezes estratosféricos – das empresas que compõe esse setor da indústria. Existem inúmeras publicações que nos mostram o descalabro da medicalização abusiva da vida normal, os efeitos colaterais letais dos tratamentos, o valor pago pelo cidadão comum para tratamentos de pouca resolutividade, os ganhos das empresas de seguro-saúde e o decréscimo da autonomia do sujeito diante do gigantismo do discurso médico.

Peter Gotzsche

Um dos expoentes desta crítica é Peter Goetzche, um dos criadores da Biblioteca Cochrane, onde ele compara as grandes empresas farmacêuticas com organizações criminosas. Logo na introdução do seu livro “Medicamentos Mortais e Crime Organizado – como a indústria farmacêutica corrompeu a assistência médica” ele faz uma comparação dramática que nos obriga a questionar os rumos da medicina: “existem duas epidemias que o homem produziu e que matam terrivelmente – o tabaco e os medicamentos sob prescrição”. Neste livro ele descreve como as empresas de drogas escondem deliberadamente os danos letais de seus medicamentos através de comportamento fraudulento, tanto na pesquisa quanto no marketing e pela negação das acusações quando são confrontadas com os fatos. Goetzche nos lembra da responsabilidade de muitos médicos na prática pouco ética da prescrição de medicamentos desnecessários em vista de benefícios para quem assina a receita, como férias pagas, estadias em hotéis de luxo, jantares e e “lembrancinhas”, e nos alerta que, ao contrário do que a propaganda massiva nos fazer pensar, o “único padrão da indústria é o dinheiro”.

Marcia Angell

Ele não está sozinho nessa batalha. A escritora Marcia Angell, primeira mulher a ser editora chefe da prestigiosa revista “New England Journal of Medicine”, escreveu o livro “A verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos” com acusações do mesmo calibre do seu colega Peter Gotzsche.  Neste livro ela critica o mito de que o os custos elevados da pesquisa científica colocam a necessidade de altos custos para os medicamentos, e lembra que a maioria dessas pesquisas são feitas por instituições acadêmicas ou governamentais, que recebem verbas públicas. Junto com estes autores muitos outros apontam para os desvios terríveis que estão obstaculizando o combate à saúde para todos. Ajustar os descaminhos da medicina é uma obrigação de todos aqueles que se ocupam da saúde humana.

A segunda forma de explicar a razão de fazer um curso de homeopatia é sua maneira especial de encarar o processo de adoecimento. Muito mais do que produzir formas alternativas de tratar as doenças conhecidas, a homeopatia se estabelece por um entendimento diferente dos processos que levam ao desequilíbrio e à perda da homeostasia. A partir desse novo olhar sobre o sujeito – compreendido em sua totalidade psicofísica – e suas doenças, a homeopatia propõe um equilíbrio de dentro para fora, entendendo que qualquer cura que se possa propor precisa passar pelo entendimento de uma unidade complexa reagente composta de elementos físicos e psicológicos. A experiência de mais de 200 anos com as formulações homeopáticas nos oferece uma excelente possibilidade de curas suaves, sem os efeitos deletérios da intoxicação química e sem os custos absurdos da medicina oficial.

Todos os homens cometem erros, mas um bom homem cede quando sabe que seu proceder está errado e conserta o mal. O único crime é o orgulho.” – Sófocles, Antígona

Sófocles

É evidente que a medicina contemporânea fez muitos avanços no que diz respeito às situações de emergência, em especial nos traumas agudos, nas UTIs, nos transplantes e nos antibióticos, mas poucos avanços ocorrem na cura efetiva de doenças crônicas. É claro que a homeopatia tem limites muito claros, já que se vale da energia vital do próprio doente para produzir uma resposta em direção à saúde. Por isso, reconhecer os LIMITES da homeopatia é fundamental para estabelecer a confiança no próprio tratamento que se propõe. No caso da gestação, trabalho de parto, parto e puerpério existem plenas indicações para as condições específicas, mas é sempre essencial reconhecer suas limitações de indicação.

A homeopatia, portanto, tem um lugar especial para os transtornos do ciclo gravido-puerperal, em especial pela ausência de qualquer efeito colateral negativo e a visão integrativa que propõe sobre os desafios físicos e emocionais das gestantes e seus filhos.

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