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No Internato Feminino

Durante o tempo em que fui estudante universitário trabalhei como “interno” em um Pronto Socorro da minha cidade. A gente atuava como auxiliar de médico, aplicando injeções, levando oxigênio nas casas, fazendo a burocracia dos convênios, dirigindo ambulâncias e verificando sinais vitais. Para um menino de 19 anos era a glória. Meu pai me chamava de “padioleiro“, “maleteiro” (pela enorme maleta de medicações que carregávamos) ou “maqueiro“. Eu não me importava; para mim ajudar no atendimento médico era uma enorme diversão.

Certa noite fomos chamados a um internato feminino. Era um prédio antigo, próximo da Estaca Mórmon, controlado pelas freiras. Durante a festa de recepção das novas internas uma das veteranas se excedeu e bebeu demais. “Caipirinha” disseram suas colegas. Fomos até seu quarto onde foi fácil constatar o coma alcoólico. Sua respiração era normal, batimentos cardíacos idem, mas estava “apagada” em razão da alcoolemia. O médico presente prontamente iniciou as orientações e o tratamento.

Entretanto, achei curioso que no criado mudo ao lado da cama estava um pacote aberto de “Açúcar União”, e havia açúcar espalhado pela cama, seus cabelos, nariz, boca e até ouvidos. Perguntei a uma colega sua a razão de tanto açúcar espalhado.

“Ah, é por causa da bebedeira. Quando vimos que ela estava ficando tonta começamos a dar grandes quantidades de glicose para ela comer. Sei que é assim que se cura bebedeira nos atendimentos de Pronto Socorro, certo? Quanto tempo vai demorar para ela melhorar?”

Puxei a menina para o lado e expliquei que, em média, o corpo precisa de 60 minutos para metabolizar um copo de cerveja ou cada uma das doses de uma bebida destilada, como vodka ou whisky. Ou seja, se ela tivesse ingerido 5 doses, haveria álcool circulando pelo seus corpo por 5 horas, mas sabemos que os efeitos do álcool variam de acordo com gênero, raça, o peso do sujeito e até mesmo se ela comeu algo ou não, pois o estômago vazio absorve mais rápido a bebida. Mulheres e pessoas asiáticas têm menos enzimas para a metabolização do álcool e por esta razão são mais suscetíveis aos efeitos da bebida. Aquelas que são maiores (tamanho ou peso) podem ter mais resistência.

Ela concordava e balançava a cabeça. Continuei.

“Contudo, dar açúcar para uma pessoa inconsciente não faz sentido algum e pode piorar o caso. Você deve ter visto programas na TV ou relatos de pessoas que foram ao hospital e fizeram injeções de glicose, mas não é a mesma coisa que dar açúcar para uma menina inconsciente comer. Entendo sua boa vontade, mas tome cuidado.

Ela concordou e explicou de forma muito sucinta: “Diante da situação achei que alguma coisa, qualquer coisa, deveria ser feita”.

Lembrando hoje desse fato percebo que este é ainda um dos grandes problemas da medicina: “o imperativo positivo”. Criamos a ilusão de que sempre “fazer alguma coisa” é melhor do que não fazer nada. Temos a angústia positiva, o impulso de agir, mesmo quando NADA comprova que nossa ação tem sentido ou pode ajudar.

“Pelo menos fiz alguma coisa…”, pensamos.

O grande problema é que boa parte das vezes, o fazer algo pode ser tornar a pior tragédia, a qual poderia ser evitada se fosse possível controlar nosso medo de não fazer nada e aguardar.

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Para onde correr?

A crise acabou fazendo a esquerda aplaudir Dória, agradecer a Máfia da BigPharma, abraçar a Globo e votar no Baleia. Espero que tenhamos a capacidade de reconhecer o significado dessas escolhas e não as consideremos naturais. A sociedade agora abraça o “progresso” medicamentoso e abre “os braços” (para não dizer outra coisa) para as multinacionais de drogas, confundindo oportunisticamente “droga” com “ciência”, como se estas empresas não fossem – no dizer de Peter Gotzsche – a perfeita definição de “Crime Organizado”.

A Pfizer, entre outras, tem uma longa ficha de crimes cometidos contra a saúde pública, tendo pago a maior indenização da história por seus delitos. Mas… ai de quem ousar questionar nossas salvadoras!!! Ao inferno com quem meramente questionar os “cientistas”.

Essa exaltação acrítica dos “pesquisadores” sem a devida contextualização sempre foi desastrosa na história. Tomar decisões com base no desespero, aceitando “qualquer coisa” para votar à “vida normal”, também.

“Não é o momento de criticar, isso se vê depois. Precisamos de uma esperança”, dizemos nós, de joelhos.

Na atual polarização política mundial o esquerdista padrão aceita bovinamente o controle das nossas vidas pela máfia das drogas, enquanto o reacionário nega qualquer avanço, chamando-o de “globalismo”. Para onde correr?

“Ah, cara… para de ser chato. Precisamos de algo para acabar com essa pandemia!!”. Claro, “punch 2”, certo? Questionar o que nos trouxe até aqui é como procurar a chave no lugar em que ela verdadeiramente se perdeu, mas onde é sempre muito mais escuro.

Veja mais sobre os crimes da Pfizer aqui e sobre problemas importantes de sua vacina aqui.

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Sexualidade e Medicina

Eu realmente acho que a Medicina tem tanto a dizer sobre “sexualidade” quanto tem a dizer sobre “parto”. Não nego que haja espaço, mas o vejo de uma forma absolutamente diminuta, marginal e relacionada às franjas do debate, e não ao seu núcleo psíquico e conceitual.

Isto é: quase nada, a não ser a avaliação de doenças que podem impedir ou dificultar o desempenho da prática sexual, tipo diabete, neuropatias, distúrbios hormonais, aterosclerose, paraplegia, etc. Imaginar um médico neurologista – ou ginecologistas e urologistas – falando sobre “desejo” chega a me dar calafrios. Falar de DST, tomar banho, lavar o pinto não é debater sexualidade, mas discorrer sobre patologias de transmissão sexual. Fico feliz de ver que hoje em dia a medicina mão fala mais da “orientação sexual”, mas não esqueçam que há poucos anos ela tratava as orientações desviantes da heteronormatividade como patologias. Quando vejo doutorados em sexualidade sob os auspícios de faculdades de medicina eu, francamente, não consigo entender. Para mim “Viagra” e “Cialis” é tudo o que a medicina tem a dizer sobre a sexualidade humana. Vou adiante: para entender a sexualidade humana é essencial abandonar o discurso médico.

Colocar nos genitais, nos hormônios, nas dimensões e nas glândulas o drama da sexualidade humana é o mesmo que colocar no corpo os dilemas do parto. Quanto mais os procuramos nas reentrâncias e saliências, menos percebemos a sua essência etérea e diáfana. “Não o procure nas dobras dos tecidos vaginais, nas protube­rân­cias ósseas, nas contrações ou nas variações dos hormônios. Ele se en­cerra nos pequenos grãos de areia de nossos sonhos, na bruma de palavras disper­sas de um passado distante. Ele se refugia nos sussurros de uma me­nina, na curiosidade infindável que ela carrega e no seu olhar insaciável. O “sexo” e seus mistérios se escondem ao olhar superficial, à análise tímida e ao investigador amedrontado. Para entender o que o comanda, é preciso penetrar nos abis­mos obscuros da alma de uma mulher, lá onde se abrigam seus so­nhos e suas tristezas. Quanto mais profundamente mergulharmos, mas nebu­losa será nossa jornada. Entretanto, apenas assim poderemos encontrar essa semente. É provável que, apenas uma suposição, a chave para essa questão esteja mesmo li­gada a essa fissura aberrante na ordem natural, a qual chamamos amor. E tal­vez, outra mera suposição, para entender o que acontece entre as orelhas de uma mulher, somente se soubermos como encontrar esta chave”.

Até hoje me espanto com a ideia de que a sexualidade pode ser encontrada na superfície. Sempre que vejo essa busca lembro da metáfora do poste de luz, do sujeito e de sua chave. Este, depois de perder suas chaves e procurar por mais de uma hora, encontra um amigo que se apresenta para ajudá-lo. Mais um tempo se passa até que o amigo, confuso, pergunta: “Você tem certeza que a perdeu aqui?”, ao que ele responde: “Eu não a perdi aqui. Eu a perdi lá em baixo na rua, mas lá está escuro demais para procurar.”

Assim o fazemos: como o simbólico é imponderável e invisível, apesar de presente e vibrante, preferimos procurar a fonte do desejo onde ele não está, mas onde é possível enxergar em volta.

O tema lembro também o famoso aforismo socrático que para mim sempre traduziu muito bem este dilema: “A verdade não está nos homens, está entre eles”, ou puxando para nosso assunto, “A sexualidade não está nos sujeitos, mas entre eles”.

Nunca conseguirei entender a razão dessa busca da sexualidade fora da alma humana, e o discurso médico sobre este tema continuará absolutamente incompreensível para mim.

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Poder e Ciência

Basicamente quando se procura um tratamento lançamos mão da melhor evidência sobre uma determinada doença, com o estudo mais abrangente possível e com o maior rigor científico que se possa aplicar. Não creio que possa haver algum profissional da saúde que esteja em desacordo com esta afirmação. Se a medicina não é uma ciência – mas uma arte e um saber – ela certamente se apoia na ciência para aplicar tratamentos e implementar exames e terapêuticas.

Entretanto, esse não é – nem de longe!! – o problema da aplicação de conhecimento científico aos pacientes e seus sofrimentos. O drama reside na adaptação destas evidências aos choques de poder inevitáveis que vão ocorrer quando se está diante de descobertas capazes de abalar sistemas de poder bem sedimentados. No caso das vacinas, para usar um exemplo em voga, são BILHÕES de dólares que estão sendo disputados pelas “biotechs” de vários países na luta feroz por fatias bilionárias de mercado com essa pandemia. A experiência nos mostra que nenhuma ética na história da humanidade resiste a tanto dinheiro – e o poder que dele emana.

Pensem bem: se as evidências funcionassem no sentido de implementar mudanças ou determinar protocolos, 90% dos remédios de uma farmácia comum seriam jogados no lixo, pois são comprovadamente inúteis e/ou perigosos – em especial os psicotrópicos. A maioria das cirurgias seriam abandonadas, em especial algumas altamente lucrativas como as intervenções cirúrgicas cardíacas. Muitos exames inúteis (boa parte das ecografias, por exemplo) seriam abandonados, assim como as mamografias de rotina. No campo da obstetrícia, não haveria episiotomias, cesarianas seriam exceções (nem 15% dos casos) e sequer haveria médicos atendendo partos, pois as evidências comprovam que eles são os piores atendentes de parto disponíveis, atrás de parteiras e médicos de família. A presença de doulas seria obrigatória em todos os hospitais.

Percebam como a “verdade” que emana dos estudos e das pesquisas não é suficiente – por si só – para implementar mudanças. É preciso haver pressão política para que uma verdade deixe de ser oculta e passe a ser a vertente hegemônica de entendimento de um fenômeno qualquer na sociedade.

Olhar para a ciência como uma entidade mítica e isenta, amorfa e imparcial, é um erro brutal. A ciência que nos chega aos sentidos é trazida por sujeitos como nós e feita por homens e mulheres com interesses, preconceitos, desejos e falhas. Seu trabalho sofre todo tipo de pressão para apresentar resultados. Acreditar que a ciência possa se expressar num vácuo cultural, infensa à vaidade humana e ao poder, é pura ingenuidade – que pode custar vidas.

Sobre essas drogas que são propagandeadas como “positivas para tratar a Covid19” existe um conflito muito grande. A respeito da Ivermectina há uma verdadeira cisão entre especialistas. Novos estudos – em especial um que surgiu há poucos dias na Argentina onde esta droga foi usada em profissionais da saúde – confirmam que pode existir um resultado muito positivo com seu uso, o qual não pode ser desprezado por preconceitos de ordem científica ou política.

Recomendo esse vídeo do senado americano para ver o quanto o debate por lá é muito mais intenso e aberto do que por aqui.

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Ciência como Religião

E, na vigência da pandemia, eu cada vez mais fã do Giorgio Agamben. Há mais de 15 anos eu dizia que a “ciência ocupa o lugar deixado vago pela religião no imaginário social”, querendo dizer que a maneira como clamamos hoje pela ciência muito se assemelha à forma ritualística e desesperada como pedíamos a intervenção divina para a superação de crises sanitárias e tragédias no passado.

Aliás, aqui mesmo no Facebook vejo clérigos e bispos desta religião moderna todos os dias fazendo pregações, conclamando fiéis e exortando a que participem de suas cruzadas. Como em qualquer religião, a Verdade lhe cabe completamente na palma das mãos, não restando espaço para a mínima dúvida. Como em todo sistema de crenças a Verdade é fortalecida pelas insígnias e pelos argumentos de autoridade em profusão. É preciso prestar reverência aos seus apóstolos, não deixar margem à dúvida e reconhecer a sacralidade de suas palavras.

Como diz Agamben, “Se essa prática cultual foi até agora, como qualquer liturgia, episódica e limitada no tempo, o fenômeno inesperado a que estamos testemunhando é que ela se tornou permanente e onipresente. Não se trata mais de tomar remédios ou de se submeter quando necessário a uma consulta médica ou a uma intervenção cirúrgica: toda a vida do ser humano deve tornar-se a todo instante o lugar de uma ininterrupta celebração cultual.”

Curiosamente, assim como Agamben fala do descaso com as doenças vasculares – que poderiam ser diminuídas caso o Estado obrigasse as pessoas a uma dieta saudável – a religião médica pouco se esforça no sentido de obrigar este mesmo Estado a tratar as causas da tuberculose, que a cada ano mata 1.5 milhão de pobres e subnutridos, em especial na África. Fica claro que esta religião parece se preocupar muito mais quando as doenças atacam brancos e de classe média.

Ainda Agamben: “No Ocidente moderno conviveram e em certa medida ainda convivem três grandes sistemas de crença: o cristianismo, o capitalismo e a ciência. Na história da modernidade, essas três “religiões” se cruzaram necessariamente em diversas ocasiões, entrando por vezes em conflito e em seguida se reconciliando de diversos modos, até alcançarem progressivamente uma espécie de pacífica, articulada convivência, quando não uma verdadeira e peculiar colaboração em nome do interesse comum.”

Leia o artigo completo aqui

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