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Cura

Existem coisas que só aprendemos com o passar dos (muitos) anos e uma delas é a dura tarefa de entender o papel do curador. Lacan, em uma famosa manifestação, dizia que “A Medicina a única forma terapêutica que trata o sujeito a despeito do seu desejo“. Isso ficou marcado para mim durante muito tempo, pois eu percebia que agir no tratamento de doenças sem questionar o desejo do sujeito, sem contextualizar seu sofrimento, sem observar de perto as escolhas que fez no processo de adoecimento e sem analisar os caminhos tortuosos que o trouxeram a uma consulta, estaríamos apenas exercendo uma espécie de violência, negando ao outro a oportunidade de curar-se através do próprio mal que o aflige.

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Maconha

Não, a maconha não gera quadros psicóticos. Escuto essa tese há muitos anos e não vejo sentido. Psicose é “loucura”, e como diria Freud, “não é louco quem quer, só quem pode”. Canabidiol não é capaz de produzir esse tipo de transtorno, mas acredito que possa despertar surtos em sujeitos previamente psicóticos, dependendo da circunstância, mas também o álcool, a tristeza, o medo ou qualquer outro disparador terá essa potencialidade. Vamos impedir que os psicóticos “fumem” estas emoções durante a vida?

Maconha também não causa depressão, mas é claro que pode aprofundar um caso depressivo, assim como o isolamento, as más notícias, os desamores, as brigas, a perda de emprego etc. Podemos evitar aos depressivos o acesso a essas circunstâncias da vida?

Colocar a maconha como “causadora” desses processos não faz sentido algum. Os sofrimentos são inerentes ao ser humano. Jogar a culpa em qualquer das drogas contemporâneas é desviar a atenção dos fatores sociais que fazem da miséria humana uma endemia e o sofrimento o padrão da humanidade.

Prove me wrong…

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Conhecimento autoritativo

Um dos mais importantes conceitos nas ciências sociais aplicados ao parto e nascimento é o de “conhecimento autoritativo”, noção extremamente importante quando encontramos a interface entre a medicina moderna e sua ação sobre o parto e o nascimento e seu choque com os saberes ancestrais que lidaram com os desafios do ciclo gravido-puerperal desde o início da humanidade. O conhecimento autoritativo define o domínio de um determinado saber que é socialmente reconhecido. Um exemplo fácil de entender para quem atua na atenção ao parto em zonas mais afastadas dos grandes centros: um residente de medicina com 25 anos de idade e com 20 partos atendidos em seu possui tem conhecimento autoritativo, que o capacita para dar atenção às pacientes, enquanto uma parteira com 30 anos de experiência e 500 partos atendidos em sua larga história como cuidadora não o tem.

Assim, o conhecimento autoritativo é aquele que efetivamente faz, aquele que tem suporte das instituições, configurando-se em um saber autorizado socialmente. As parteiras acumulam conhecimento empírico autoritativo em suas comunidades, mas de caráter não autoritativo quando se deslocam de sua base de influência cultural. Uma parteira tradicional quando vai à cidade “perde seus poderes”, passa à clandestinidade, deixa de ter suas habilidades reconhecidas.

O que a antropóloga americana Robbie Davis-Floyd nos diz é que os conhecimentos e saberes não autoritativos não devem ser descartados como sendo “anacrônicos”, “ultrapassados”, “sem valor” ou “inadequados” mas incorporados e observados através do método adequado, para oferecer uma diversidade maior de abordagens, adequação cultural e respeito aos conhecimentos sedimentados por milhares de anos de experimentação.

Desta forma, conhecimento autoritativo (como o nome diz) está relacionado ao poder e à autoridade no controle da narrativa cultural. Todavia, isso não significa que os saberes autoritativos são necessariamente “científicos”. Não, eles são tão somente “respaldados” pela cultura e pelas forças que a regulam. Um exemplo clássico: médicos frequentemente promovem cesarianas em excesso e desmame precoce de bebês e possuem conhecimento autoritativo sobre os temas do parto e da amamentação, apesar destas ações não possuírem base científica. Pelo contrário; o abuso de intervenções – em especial a cesariana – e o desmame prematuro são problemas de saúde pública causados pela própria medicina, e precisam ser entendidos dessa forma: ações “iatrogênicas” (causadas pelo médico). Por outro lado, parteiras e avós podem apoiar o parto fisiológico e a amamentação alicerçadas em seus valores culturais, porém possuem um saber não autoritativo. Elas não tem força ou poder para mudar condutas, mas nestes casos específicos suas condutas e posturas têm total respaldo científico.

Portanto, o “conhecimento autoritativo” não necessariamente significa “conhecimento acadêmico”, apesar de que ele normalmente está relacionado ao respaldo oferecido pela academia.

Por exemplo: numa guerra existem os oficiais que vieram da Academia, e os sargentos que estão lutando lá há algum tempo no front de conflito. Muitas vezes o jovem oficial dá uma ordem e os soldados olham para o “sargentão” para saber se devem mesmo cumpri-la, uma vez que na guerra a experiência – mais do que o academicismo – tem mais valor autoritativo. Nesse contexto o sargento tem poder autoritativo e o “tenentinho” recém saído da Academia, não.

Quem é mais velho lembra do “Recruta Zero” e o personagem “Tenente Escovinha”, ambos do desenhista americano Mart Walker, que ironizava a organização militar do exército do Império americano. Pois o tenente Escovinha era tratado como um oficial a quem ninguém dava bola por ser muito novo e sem experiência. Enquanto isso, o “Sargento Tainha” era o sujeito com voz autoritativa para o grupo de recrutas, entre eles o engraçadíssimo e fanfarrão “Beatle Bailey”- o Recruta Zero.

Conhecimento autoritativo é aquele efetivamente reconhecido como capaz de agir e produzir em determinada circunstância. Na nossa sociedade ele é frequentemente associado àquele adquirido na Academia, mas nem sempre.

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Corrupção médica

Eu acho impressionante a fé (não há outra palavra) que move tantos médicos em torno do comércio de drogas. Não só médicos, mas até enfermeiras e outras profissionais das áreas da saúde. Acreditam de forma acrítica nos resultados publicados, sem perceber que a ciência que tanto valorizam nada mais é do que a manifestação de inúmeros interesses econômicos e geopolíticos, travestidos de “isenção científica”.

Será que entre os experts brasileiros que gritam “em favor da ciência e contra o obscurantismo” também não há esse nível de vinculação com a indústria farmacêutica?

Destaco este trecho…

“Médico no Hospital Pulido Valente, o pneumologista Filipe *** – que lidera também o Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos para a Covid-19 – é um dos clínicos portugueses com maiores ligações à indústria farmacêutica. Tendo arrecadado mais de 380 mil euros deste sector desde 2013 – com destaque para a Pfizer (134,5 mil euros), Merck Sharp & Dohme (85,5 mil euros) e BIAL (47,3 mil euros) –, a Gilead não poderia deixar de estar no seu radar. Facturou 13.480 euros em 2020 e 2021 desta farmacêutica.”

A matéria completa – que trata do Redemsivir – está aqui

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Elogio à alienação

Eu não tenho problema com o uso de vacinas. Se houver ciência de qualidade com fontes seguras e isentas e com resultados positivos, por que não? Entretanto, acho terrível – e inaceitável – a lógica frequentemente usada para defendê-las. Agora mesmo vi uma:

“Seu filho tomou 24 vacinas logo depois de nascer e só agora você resolveu perguntar do que esta última é feita? Confie na ciência!! Vacinas salvam vidas!!”

Quer dizer que agora – depois de anos ensinando as pessoas a pensarem por si mesmas e a tomarem decisões informadas sobre sua saúde e a dos seus filhos – estamos estimulando que não se façam mais perguntas e que nenhum questionamento incômodo seja feito? Querem nos convencer que é preciso acreditar cegamente nas drogas que nos indicam? Mais ainda, confundem prescrição de drogas com “ciência”, quando muitas vezes a ciência se expressa exatamente pelo combate ao mau uso das drogas!! Se Isso não é um retrocesso, não sei como chamar.

Pensem apenas o que se conquistou até agora na humanização do nascimento. Achariam justo dizer às mulheres para interromperem os questionamentos e passarem a ter fé nas decisões dos médicos?

“Nessa cidade milhares de pessoas vem ao mundo por cesariana e usamos cirurgias e internações para os bebês nascerem. Por que só agora você resolveu perguntar por qual razão queremos lhe operar?? Confie na ciência!! Confie nos médicos!! Cesarianas salvam vidas!!”

Se os médicos tem responsabilidade pelo descalabro das cesarianas no Brasil, por que deveríamos ter fé cega na decisão de um grupo de cientistas, em detrimento de outros? Qual o problema em perguntar os efeitos que as drogas potencialmente têm sobre as pessoas e, em especial, as crianças?

É para esse mundo que penaliza a autonomia e as perguntas indiscretas que estamos rumando?

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