Arquivo da categoria: Medicina

Biopoder e controle

 

Houve recentemente um questionamento sobre usar o pré-natal para avaliar a saúde dos companheiros, usando sua presença nas consultas como uma “janela de oportunidade” para avaliar doenças, fazer exames de rastreio e tratar transtornos que porventura tenham. Minha posição diante desta proposta foi, como de costume, contra-hegemônica.

Eu acho o contato com médicos extremamente perigoso à saúde. Eu sempre disse isso e sempre aconselhei as pessoas s evitarem check-ups, exames de rotina, avaliações com especialistas e tratamentos químicos para sintomas simples. Jogar os homens no redemoinho do intervencionismo médico é um risco muito grande. Deixem os homens em paz.

Os homens, por força do patriarcado, nunca foram as vítimas mais fáceis para o biopoder médico. Já com as mulheres esta expropriação foi sempre mais facilitada. A violência e os abusos que testemunhamos contra as mulheres no momento de parir nunca acontecem com os homens no seu percurso pela medicina, pelo menos nessa intensidade. Mas engana-se que isso seja negligência ou pânico.

Experimente meter o dedo nos orifícios de um homem sem uma enorme explicação de riscos e benefícios. Experimente “mandar” um homem parar com qualquer um dos seus vícios. Experimente abrir a barriga de um homem sem uma justificativa clara e cristalina. É pura tolice pensar que esta reserva quanto à invasão de seus corpos pode se explicar usando o cliché de que os “homens são medrosos”. Ora, quem enfrenta guerras, frio, risco de morte, tormentas e violência não tem medo de ter o corpo aberto à facão. O que os homens têm é respeito à sua integridade corporal.

Por outro lado, o corpo da mulher é um objeto social, o qual manipulamos de acordo com os nossos interesses. Nesse corpo existem deveres; já no corpo do homem é possível enxergar a autonomia e os direitos que naquele outro não percebemos. São corpos socialmente distintos, muito além da anatomia.

Se o pré-natal pode ser uma janela de oportunidade para os homens que ela seja aberta para que falem, que digam dos seus medos e expectativas. Peça aos homens que abram sua voz, não seus corpos. Não vamos melhorar a saúde dos homens convertendo-os à mesma religião de medo e controle na qual as mulheres foram batizadas desde a mais tenra idade.

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Congressos Médicos

 

Li com atenção e cuidado o texto do meu querido amigo e psicólogo Alexandre Coimbra do Amaral (veja aqui) sobre um congresso de Medicina de Família que ele havia participado alguns dias antes. Seu relato é de vívido encantamento com a convivência entre médicos e agentes de saúde, o respeito à amamentação, o contato com outros discursos, a abordagem corajosa e respeitosa da questão de gênero e a quebra do paradigma do “palestrante como dono de um saber”, rompendo sua verticalidade e propondo um ambiente de trocas horizontais, onde a plateia era constantemente convidada a participar do debate e questionar as idéias propostas.

O texto emocional, sensível e otimista escrito pelo Alexandre desnuda dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar aponta para a esperança de uma medicina mais integrada com os outros saberes e menos encastelada no Olimpo das castas superiores. Em segundo lugar a dura realidade de reconhecer que este tipo de congresso é uma ínfima amostragem, um grão de areia perdido na praia dos congressos médicos. Arrisco afirmar que 99% dos médicos nunca ouviram falar de um ambiente de saudável encontro profissional como este e suspeito que a imensa maioria, ao ler este relato, sentirá desconforto com a promiscuidade descrita em suas poucas linhas.

A Medicina não é apenas um saber construído pelos milênios de contato com a dor e o sofrimento, onde a ciência é tão somente a ferramenta mais nova; ela é principalmente um sistema de poder – o biopoder – que age para moldar a sociedade de acordo com os valores vigentes. De uma certa forma ela é uma potente mantenedora e disseminadora dos valores do patriarcado. A Medicina é conservadora e “careta”, e não por acaso seus próceres são assim escolhidos. Basta olhar uma foto dos representantes da corporação – quase a totalidade de homens, brancos e de classe média alta – para adivinhar quais valores impregnam seu entendimento da arte de curar.

Congressos de Medicina de Família (já palestrei em alguns) e de humanização do nascimento (algumas centenas) são fatalmente marginais; situam-se à margem do poder e surgem como sua sombra. Onde quer que o autoritarismo e o dogmatismo médico prevaleçam lá estarão aqueles que discordam dessa visão de mundo e que ousam apresentar sua alternativa. Entretanto, o moedor de carnes da escola médica – como ritual transformativo – vai moldar os médicos para o que desejamos que se tornem: legítimos defensores dos nossos valores a quem, em troca, daremos um assento especial no Olimpo das castas. Somente uns poucos corajosos ousarão questionar as normas e códigos que regem sua prática. São eles os hereges e párias, a quem a corporação olhará com desdém e tratará como ameaças.

Para mudar os médicos é necessário mudar a sociedade e os valores nela inseridos, pois que aqueles são o reflexo desta cultura, e a ela respondem.

Em um futuro distante, a Medicina ainda vai existir, pois que ela também se expressa como “fraternidade instrumentalizada”, porém os encontros daqueles que se preocupam com seus resultados e seus rumos estarão muito mais próximos da descrição do Alexandre do que os festivais de vaidade e mercantilismo que testemunhamos hoje em dia.

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Não me obrigue a…

 

Li mais uma matéria sobre o “direito de não amamentar” e que se coloca ao lado de tantas outras que li nos últimos anos queixando-se de uma espécie de “patrulha” por parte do ativismo da amamentação. Essas queixas atuam como sombras de qualquer movimento social que promova uma mudança nas suas estruturas. Se você cria um movimento de boa alimentação perceberá imediatamente o surgimento de sua sombra, “não me obrigue a comer vegetais”, ou “eu como junk food e sou feliz”. Coloque aí parto, feminismo, poluição, sexo livre, liberdade de expressão e democracia. Todos têm suas sombras, criadas uma fração de segundos após o surgimento dos movimentos que combatem.

Não há dúvida que estes movimentos tem suas razões, até porque é impossível que a paixão que estimula o surgimento de movimentos sociais não crie também exageros e visões afuniladas, aquelas que tentam traduzir o mundo todo a partir de uma única questão humana. É função desses contra-movimentos servir de anteparo aos exageros naturais. São, portanto, úteis no progresso das ideias.

Entretanto, é importante entender como se situam esses movimentos que tentam criticar a amamentação e qual seu sentido. Conheço essa retórica desde que começamos a lutar contra os abuso de cesarianas e no combate à violência obstétrica há 25 anos. Logo percebi que, mesmo diante do escândalo internacional de termos 85% de cesarianas no setor privado, ainda havia espaço para escritos, relatos e discursos alinhados com “não me obrigue a um parto normal”, como se o nosso problema não fosse a taxa pornográfica de cirurgias de extração fetal, mas relatos esparsos e sem comprovação de alguma mulher sendo impedida de ser operada como desejava.

A acusação recorrente que surge de forma recorrente é de que os defensores da humanização não se importam com o sofrimento das mulheres que não pariram e/ou não amamentaram. Ora… o sofrimento de qualquer mulher nos é importante, mas o FOCO de nossa luta é o fracasso do parto e da amamentação para aquelas mulheres que assim o desejavam. Essas são mulheres traídas pela cultura e que recebem apoio das militância do parto e da amamentação, mas de forma cíclica vejo estes movimentos sendo acusados de criar cartilhas de “parto correto” ou “leite correto”, o que deixa as que não conseguiram deprimidas e desconsideradas. Essa acusação é simplesmente falsa.

Para mim essas manifestações representam – em grande proporção – o sentimento de culpa por parte de quem, desejando amamentar, assim não conseguiu. O sentimento de falha – por algo que sequer tem culpa – acaba gerando uma reação de ataque àqueles que defendem a amamentação. O pior efeito colateral dessa inadequação é colocar naqueles que lucram com o desmame a máscara injusta de “lutadores pela liberdade de escolha”.

Minha tese é que nós, que lutamos pela humanização, precisamos escutar essas mulheres; em verdade devemos escutar qualquer mulher, pois todas tem algo muito importante a dizer. O erro é achar que a insistência para amamentar é o “problema”, quando na verdade é um exagero inerente a qualquer luta por mudança de um cenário sombrio . Não, o problema é o desmame, o machismo, o abuso de cesarianas, a falta de democracia, a violência policial. O problema é o racismo, e não algum branco que foi barrado em uma banda de pagode, ou um homem que se sentiu ofendido por uma queima de sutiãs (pra ver como minha iconografia é dos anos 60). Todavia, é claro que a queixa de uma mulher que se sentiu constrangida em sua decisão de não parir ou não amamentar é justa e deve ser levada em consideração.

É preciso escutar o discurso que essas pessoas trazem, sem dúvida, mas sem cair no erro de acreditar que existe um real problema de constranger pessoas a amamentar quando o grande drama nesse país ainda é o desmame precoce e nossa luta por elevar a média de amamentação para além de míseros 54 dias.

Também precisamos debater excesso de cesariana, machismo, comida envenenada e tantas outras causas nobres sem medo de ver suas sombras surgirem logo depois.

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Transgêneros

Em um texto instigante a autora americana Lisa Marchiano, assistente social registrada, escritora e analista junguiana que atende na Filadélfia, em Quillette, questiona a liberalidade dos tratamentos de transição de gênero, e solicita que esta prática seja entendida como uma forma de contágio que se faz através do campo simbólico em que toda a sociedade está inserida. O texto pode ser lido AQUI.

Afinal, qual a diferença entre fazer uma troca de sexo e uma cirurgia de nariz? Por que nos importamos tanto com uma e somos liberais com a outra?
 
Bem, não há como comparar uma cirurgia para diminuir o nariz ou aumentar/diminuir as mamas com troca de gênero. São coisas que só tem uma semelhança: mexer no corpo imaginando atingir a alma. Eu li o texto com a mesma preocupação da autora: a possibilidade de um contágio através do campo simbólico, fazendo com que aos dramas existenciais inalienáveis da adolescência se ofereça uma solução facilitada pela cultura. Uma condição que atingiria uma porção ínfima da sociedade (o verdadeiro transgênero) subitamente se torna prevalente, nas MESMAS condições das memórias traumáticas dos anos 90. Contágio, epidemia.
 
Mutatis mutandis, a “falta de passagem”, condição em que o bebê é grande demais para nascer via vaginal, segue um sentido semelhante na cultura, em especial a ocidental. Perguntem para quase metade das mulheres no Brasil porque se submeteram à cesariana e elas lhe darão esse diagnóstico. Assim também pode estar acontecendo com os diagnósticos de disforia de gênero. Eles na verdade se adaptam a uma tendência social de afrouxamento dos limites de gênero, o que é justo, mas parecem ter ultrapassado limites perigosos. Da mesma forma o diagnóstico de DCP e a cesariana são justos e adequados, mas o contágio extrapolou em muito sua real necessidade.
 
O problema é que questionar o abuso de cesarianas o torna um “retrógrado”, “fanático pelo parto normal”, “anti-ciência” e tantos outros epítetos despejados exatamente pela corporação que lucra com a “ideologia da defectividade feminina”. Talvez seja possível dizer o mesmo dos que ousam questionar as transições facilitadas em nossa cultura e perguntar se o contágio do campo simbólico não está fazendo mais vítimas do que salvando sujeitos de um corpo inadequado e opressor

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A Preponderância do Afeto

Essa foto é de uma frase de Eugene Declercq e tem a ver com uma tese há tempo acalentada por mim, mas que não é aceita por muitos. Para mim as evidências científicas relacionadas à humanização do nascimento são absolutamente INSUFICIENTES para mobilizar o sujeito na direção de modificar suas ações, posturas, atitudes e – em especial – sua prática.

Em minha experiência pessoal, e no contato com todos os humanistas que conheci, essa transformação somente se processa através de um “choque afetivo”, no terreno das emoções, sobre elementos muito primitivos da formação da personalidade que são ativados por eventos especiais (pivotal events) capazes de resgatar estas características. A razão, por ocupar uma porção externa do encéfalo e não ser mais do que um verniz de intelecto a cobrir uma massa de pulsões e sentimentos, é incapaz de produzir tal revolução.

A construção de um humanista não se dá pela via da razão, mas pelo respeito e resgate das emoções mais básicas como a fraternidade, o carinho e a empatia. Entretanto, como um cimento unificador, as evidências científicas e toda a sua racionalidade vem depois para oferecer consistência e coesão a estas ideias.

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