Arquivo da categoria: Medicina

Consumismo Médico

Depois que a indústria consegue criar em você a necessidade de consumir um produto, qualquer argumento contrário ao seu uso disseminado parece contra-intuitivo, herético ou anacrônico. Exames para saber o sexo do bebê seguem esse roteiro.

Experimente dizer que não há necessidade de saber o gênero do bebê ante dele nascer e receberá desde olhares desconfiados até xingamentos explícitos e desaforados. Além das ultrassonografias “recreativas”, o mesmo aconteceu com as episiotomias, com a monitorização eletrônica fetal, com a própria hospitalização do parto e tantas outras “rotinas”.

Desconstruir estes desvios em direção a uma atitude mais racional é obra de uma geração inteira.

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Universidade Elitista

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Meus colegas de faculdade tinham nome de rua. Eles eram a geração mais nova das oligarquias burguesas do estado, muitas delas ainda do tempo das charqueadas e da Revolução Farroupilha. Eu era um “estranho no ninho”, filho de funcionário público que estudou em escola do estado. Tive colegas que chegaram para o trote no primeiro dia de aula dirigindo seu próprio Dodge Dart (eu peguei o 77, linha Menino Deus). Algumas colegas se gabavam para mim de nunca terem comido no refeitório do hospital escola; afinal “bandeijão” não ficava bem. Outros que vinham do interior diziam, entre risos, que suas despesas na capital eram bancadas pelo MFL – Montepio da Família Latifundiária.

Todos estudavam de graça na universidade federal. Quem pagava nossas aulas podia ser visto pela janela do último andar do Instituto de Biociências: o pipoqueiro do Parque Farroupilha. Ele, e todas as outras pessoas que pagavam impostos, tiravam um pedaço do seu magro orçamento para que nós pudéssemos nos orgulhar de fazer uma faculdade cobiçada, valorizada e gratuita. Sua esperança era que, finda a etapa escolar, o investimento no menino esforçado e na menina estudiosa valeria a pena, e eles serviriam como anjos a apaziguar os sofrimentos do corpo e da alma daqueles que os ampararam por tantos anos.

Mas esse retorno sempre é apenas uma promessa, e nada nos garante que será realizado. Pagamos por toda uma educação superior sem qualquer garantia de que este profissional retribuirá com seu trabalho para o povo que o sustentou. Mais ainda, nosso processo seletivo privilegia o andares superiores das castas sociais, deixando quase nenhum espaço para pobres, negros e oriundos do ensino público. As cotas vieram para tapar esse fosso, mas nenhum avanço será percebido na fotografia de formatura antes que duas ou mais gerações tenham passado.

Por enquanto na universidade pública é o imposto do pobre que paga para o filho do rico estudar de graça.

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Força Compriiiida…

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A manobra de Valsalva para apressar o período expulsivo é o padrão do parto conduzido e comandado pela obstetrícia contemporânea. “Força comprida”, “Força de cocô” junto com o indefectível “não para, não para, não para” fazem parte do que eu chamo de “mantra obstétrico”, que muito mais serve como um esforço exonerativo das angústias dos profissionais presentes do que como auxílio possível à mulher que esta parindo. Creio que este tipo de discurso existe por razões inconscientes, mas inquestionavelmente poderosas.

O esforço solicitado às mulheres que atravessam o segundo estágio do trabalho de parto é o mesmo que homens fazem para evacuar. Para a percepção masculina, a expulsão fetal precisaria ser feita com a musculatura e o tipo de esforço que – para a nossa experiência corporal – parece ser a mais racional. Por isso pedimos que mulheres, no momento apical de sua feminilidade, sejam “bravas”… como homens.

Como o parto é controlado por uma lógica masculina, e em função da necessidade de criar correspondências sensoriais possíveis aos homens, esse modelo se estabeleceu como o preponderante na obstetrícia ocidental iatrocentrica.

Para mudar esse padrão talvez seja necessário “repaginar” o parto, transformando-o novamente em uma experiência feminina, controlado por um modelo igualmente feminino.

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Arquivado em Medicina, Parto

Grosserias perigosas

Médico brabo

 

Sobre as grosserias em ambientes de trabalho, em especial nos hospitais, e que colocam em risco o resultado das intervenções e a própria saúde dos pacientes…

Eu sou do tempo em que a violencia e a grosseria eram o padrão dentro de blocos cirúrgicos. Tais atitudes era “elogiáveis” e bem vistas pelos estudantes, que acreditavam na sua necessidade para manter claras e transparentes as hierarquias solidamente construídas na assistência aos doentes.

Havia dois elementos preponderantes nas condutas agressivas dos médicos: o viés de gênero e o de classe social, ou “casta”. Os médicos – em especial os cirurgiões – faziam de sua prática um festival de grosserias com subalternos (estudantes, enfermeiras, auxiliares de enfermagem e limpeza) e um exercício explícito de sexismo e misoginia. Eram comuns os “xiliques” do doutor quando havia um problema qualquer durante os momentos tensos de uma cirurgia. Tesouras, pinças e afastadores voavam pela sala, assim como gritos eram disparados contra indefesas instrumentadoras e circulantes. A humilhação era conduta banalizada. As funcionárias, via-de-regra, se resignavam, pois qualquer reclamação era vista como insubordinação. Eu fui testemunha de suspensões e punições de técnicas de enfermagem que reclamaram quando a grosseria atingiu a sua própria honra, mas a cena comum e previsível era o choro solitário no vestiário e o silêncio mortificante.

A misoginia dos ambientes hospitalares sempre foi uma marca característica, semelhante demais com outros ambientes de confinamento social (como exército, igrejas e presídios) para não a entendermos como um elemento fundamental na criação de hierarquias rígidas e sistemas de poder baseados no gênero.

Alguns médicos mais antigos (lembrem que falo de uma realidade de três décadas atrás) justificavam sua crueldade e comportamento violento justificando que era essencial que “cada um soubesse seu lugar” ou ainda que “se elas tiverem medo de mim vão cuidar para não cometer erros“. Essa “tática de terror” sabidamente funciona em curtíssimo prazo, mas é uma tragédia quando se torna padrão de atitudes, pois fatalmente gera medo, seguido de raiva, ressentimento, rancor e mágoa. E isso pode ser trágico para o trabalho a ser realizado.

Cultivar um ambiente limpo de sentimentos negativos é tarefa muito difícil, mas as pesquisas comprovam que ele se associa a resultados melhores. Hoje em dia não vejo mais tais violências em hospital, mesmo sabendo que elas ainda existem, e fico esperançoso ao perceber que as mulheres que trabalham junto aos cirurgiões não precisam mais se esconder para chorar no escuro e podem usar de outros instrumentos para exigir o merecido respeito e consideração.

Com o tempo vamos limpando os ranços machistas e preconceituosos do trabalho sagrado de cuidar de quem sofre.

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A Mudança

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Quando e por quê tornamos o parto uma patologia que merece ser tratada e medicada?

“A construção da percepção patológica do nascimento na cultura ocidental, e a subsequente aceitação pelas mulheres desta visão, é um dos capítulos mais fascinantes da história da mulher no ocidente, e um dos menos estudados, por razões históricas e contextuais. Entretanto, creio que a plena libertação das mulheres dos entraves da cultura patriarcal não se dará negando seus aspectos mais femininos. Pelo contrário, será pelo mergulho profundo na feminilidade vibrante de seus ciclos e pelo reforço de suas especificidades.”

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