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Urgência

Uma história antiga.

Chegamos na casa da paciente e desde a rua já se ouviam os gemidos fortes, anunciando que o parto estava próximo. Era um chalé pequeno onde havia um único banheiro, exatamente onde ela curtia a massagem inebriante do chuveiro abraçada em seu companheiro. Depois das avaliações de bem-estar de praxe fui para a sala aguardar a descida do bebê.

Passados alguns minutos percebi a minha bexiga estava prestes a explodir, mas, para minha angústia, o banheiro continuava ocupado pelo casal, parteira e doula. Sua cara deixava claro que ela não sairia daquele lugar. Quando alcancei o grau de desespero absoluto abri a porta dos fundos da casa modesta para fazer xixi no jardim, atrás de um pequeno arbusto, torcendo para não haver testemunhas.

Bastou que saíssem as primeiras gotas para que, de dentro da casa, eu escutasse o grito frenético da doula:

– Vai nascer!!!

O resto é história…

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A Lógica do Extermínio

Mas por que não eliminar os criminosos cujos crimes hediondos nos chocam diariamente?

Porque assassinado patrocinado pelo Estado é igualmente um crime bárbaro, além de ser inútil, pois matar abusadores não diminui o abuso, da mesma forma que proibir a bebida não extermina o alcoolismo.

Penas de morte servem apenas à vingança, e esta não se presta para construir uma sociedade melhor. Se a pena de morte produzisse algum efeito diminuiriam os crimes onde ela é aplicada no Brasil – na guerra de facções das grandes cidades. Não é o que se vê. Pelo contrário; mais execuções, mais ressentimento, mais mortes em um ciclo vicioso infinito de dor e destruição.

Não se elimina o mal com extermínio, mas com acolhimento, por mais difícil que isso possa parecer. Entretanto, é o único caminho que comprovadamente funciona.

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Falsos consensos

Infelizmente o padrão na atualidade não é a confrontação de ideias, o contraditório e o respeito pelas visões discordantes mas o cancelamento, a perseguição pelas posturas, os abaixo-assinados com pedidos de demissão, a difamação, as pressões pela punição severa e a destruição sumária da reputação.

Pouco ou nada importa que o alvo da ira de agora seja alguém que durante décadas esteve ao lado da “nossa causa”; basta uma única posição discordante e você é jogado na lata de lixo, descartado, aniquilado e humilhado publicamente.

Esse sistema de terror faz com que, diante de casos públicos conhecidos e muito publicizados, aqueles que tem uma visão diferente da massa enfurecida se calem, com medo dos ataques e das violências virtuais. Reina um silêncio constrangedor nas redes, criando a falsa impressão de unanimidade. Tornou-se comum que, nos agora raros encontros pessoais, algumas pessoas sussurrem entre si: “eu não vejo dessa forma e não concordo, mas não posso falar sobre isso publicamente pois serei executado se disser o que penso”.

A tirania do senso comum faz vítimas todos os dias nas redes sociais. Quem escreve sabe que uma mínima palavra descontextualizada pode acender o estopim de uma reação violenta e cruel.

Minha opinião? No futuro próximo vai acontecer um fenômeno de reação a isso. A intolerância de alguns grupos será vista como realmente é: um sistema cruel de silenciamento, cujo objetivo é forjar consensos na marra e através da violência virtual. Por fim, as pessoas vão se voltar contra estes ativistas que se escondem por trás das belas causas para espalhar opressão e despotismo.

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Sobre Kamala Harris

Não tão rápido com este entusiasmo sobre a eleição de uma negra para a vice-presidência dos Estados Unidos. Lembrem apenas que eles já tiveram um presidente negro, e esse negro jogou bombas e matou milhares de cidadãos de pele escura no Oriente Médio. A cor dela é importante, mas pode facilmente sucumbir a outras vinculações e compromissos.

Eu pessoalmente acho que há muitas outras questões em disputa. A celebração por Obama resultou numa gigantesca frustração, pois ele foi um presidente genocida e cruel. Do ponto de vista da saúde pública um desastre; para os imigrantes um terror. A cor de sua pele não fez diferença alguma e os alvos mais afetados de sua política continuaram sendo as pessoas de pele escura. Quem quiser pode ver aqui as palavras breves de Cornel West – filósofo e pensador contemporâneo americano – para que a miragem da cor da pele não deixe as pessoas – mais uma vez – iludidas.

E veja bem, para a comunidade imigrante, gay e negra a vitória de Biden é um alívio, exatamente porque representa a queda de Trump. Entretanto, eu apenas peço “calma” na comemoração. Não vou torcer contra o sucesso dela, pelo contrário. Entretanto, a nossa experiência prévia com essa representatividade nos exige ponderação, pois a cor da pele não produziu nenhum benefício palpável para a comunidade negra americana.

Outro dica é esse debate entre Chris Hedges e Cornel West, extremamente útil nestes tempos de desencanto – mas de esperança. É longo porém muito elucidativo. No meio do debate eles falam do legado de Obama e o significado prático de um presidente negro à frente do Império. Sugiro que vejam, até porque são dois grandes expoentes da cultura americana falando sobre vários temas, em especial racismo e representatividade

Mas não se deixem enganar; os argumentos para deslegitimar Obama e sua governança não vem da direita; vem de todos os lados, principalmente da esquerda e dos negros, extremamente frustrados com sua administração. E vejam, vou repetir: não quero julgar o governo desses gringos antes que ele aconteça. Apenas pedi ponderação para não haver uma cobrança desproporcional gerada por uma expectativa ilusória. Os Estados Unidos são um império decadente que despenca vertiginosamente e não há presidente que possa negar esse fato, muito menos interromper seu notável declínio. Qualquer um, de qualquer cor, verá as tensões raciais aumentarem. Kamala é uma punitivista, promotora durona. Não joguem suas fichas todas em gente da direita.

Esta é a minha postura no momento:

– Comemorar a derrota de um supremacista branco é algo não só plenamente defensável como necessário. Nenhum militante suporta psiquicamente por muito tempo essa proibição de gozar vitórias, mesmo quando parciais e de um certo ponto de vista insuficientes. Na pior das hipóteses o Bolsonaro está irritado e isso, por si só, é motivo de comemoração de todos os progressistas.

– Ficou evidente para o mundo inteiro a farsa plutocrática da “democracia” americana e a falência de suas instituições. Um país que, em pleno século XXI não adota “1 person = 1 vote” não pode ser considerado democrático.

– Kamala Harris é uma punitivista que mandou vários jovens negros para a cadeia por posse de maconha. É uma virtual candidata a criminosa de guerra impune. Como Obama. Não coloquem a cor de sua pele acima de seus compromissos com a direita americana.

– O candidato que representaria alguma mudança estrutural, Bernie Sanders, foi interditado pelos oligarcas do partido democrata americano. Creio que a esquerda americana (que, sim, existe) deverá em futuro próximo centrar suas forças no fim do colégio eleitoral. Esta é a condição mínima para o surgimento de um partido de fato de esquerda com alguma viabilidade eleitoral. (adaptado de Alexandre Vasilenskas)

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Punitivismo

Responda aí: quanto diminuiria de tráfico e consumo de drogas se traficantes fossem presos? Que diferença faz para a sociedade tirar a liberdade de alguém? Quanto diminuiria o consumo de drogas se todos os traficantes fossem para a cadeia?

A resposta é simples: NADA. O punitivismo não produz NENHUM resultado em médio e longo prazos, e existem comprovações claras disso, basta olhar para os Estados Unidos que tem o maior comércio de drogas do planeta e mais de 2 milhões de encarcerados (a maioria, como no Brasil, por delitos ligados às drogas).

No dia seguinte às prisões de todos os traficantes as vagas seriam imediatamente ocupadas por outros “empreendedores”, que é exatamente o que acontece em todas as prisões de chefões do tráfico. Muito cedo tudo se normaliza e o “02” ocupa o lugar do chefão. Nunca se comercializou tanta droga e nunca se prendeu tanto traficante.

Não digo que ações coercitivas não devem ser usadas, mas a crença arraigada de que medidas duras – de prisões a granel às penas de morte – produzem algum benefício não tem respaldo científico e geram barbárie, apartheid social e genocídio, e jamais ordem e/ou desenvolvimento

A ideia de que traficantes presos produziriam alguma vantagem para nós é uma fraude, uma mentira e um engodo. Punir, botar na cadeia, mandar matar são ações INÓCUAS. Nenhuma sociedade se transformou punindo meliantes e marginais. Todas que tiveram esse sucesso civilizatório combateram o crime na fonte, ao criar emprego e oportunidades, através do princípio da justiça social. Enquanto houver iniquidade, miséria e desejo de consumir droga este comércio vai vicejar.

E lembre: consumo de drogas é sintoma de uma sociedade doente e não a causa do seu desequilíbrio. Essa doença é o capitalismo

sou – e sempre serei – contrário ao punitivismo, contra a ideia de que botar gente na cadeia soluciona alguma coisa. Prender o preto e o pobre não funciona tanto quanto não funciona prender o rico; É INÚTIL. Todavia, não resta dúvida que nossa justiça é racista e classista, mas de nada adianta cometer os mesmos erros com os grandes traficantes, quando o certo seria não cometê-los contra ninguém.

Em geral quando debatemos a impunidade do “colarinho branco” existem DOIS problemas que podem estar misturados. Um deles é o punitivismo, a ideia sem embasamento científico algum que uma sociedade que pune, prende e manda matar é uma sociedade mais justa ou equilibrada. Nada poderia ser mais distante da verdade. O outro problema é a seletividade da justiça, o racismo e o apartheid social que aparecem de forma clara nos julgamentos e prisões brasileiras. Confundir isso é um ERRO.

Sim é DUPLAMENTE errado ser racista e ser punitivista, mas não é porque pretos e pobres são presos que devemos estender esse erro para TODA a população, com a falsa ideia de que dois erros produzem um acerto.

Abolicionismo penal JÁ!!

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