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Filhos, quando

Tive filhos muito cedo. Fui pai aos 21 anos, mas sei que o capitalismo não aceita mais estas escolhas. “É cedo demais, precisa terminar os estudos”, dizem. Depois se estabelecer, fazer mestrado, doutorado, viajar e conhecer o mundo. Filhos se tornaram acessórios e perderam a prioridade. Devemos ainda ter filhos? Creio que sim, mas sei que pela primeira vez na história minha opinião pode ser contestada. Porém, para além da decisão de tê-los outra pergunta se impõe: “Ok, mas quando?

Muitos dirão: “Apenas quando tiver maturidade e condições (financeiras) para esse empreendimento“.

Isso só vai acontecer para a classe média bem depois dos 30 anos. Muitos se aproximam perigosamente dos 40 anos, quando os riscos genéticos se associam à natural queda da fertilidade. Assim sendo, do ponto de vista genético, orgânico e fisiológico, a época mais adequada para ter filhos é a terceira década, mas não é a mais escolhida por fatores culturais. Mesmo sendo socialmente mais seguro, ter filhos mais tarde é muito pesado.

Tive meus filhos ao acaso, por descuido, mas creio que se não fosse assim teria logo depois. A paternidade sempre foi um objetivo primordial na minha vida. Hoje percebo que o que à época pareceu “azar” foi, em verdade, muita sorte. Devo muito do que sou ao aprendizado com meus filhos. Tive ainda a chance de ser avô aos 52 anos, e ter tempo e saúde para ajudar na educação dos meus netos. Quando vejo amigos de quase 50 anos encarando a dureza da paternidade – com muito menos energia que eu tive – só posso sentir pena. Não é fácil e demanda muita força e dedicação. Por isso digo que a melhor época para ter filhos nessa sociedade é quando guardamos a energia necessária para uma tarefa de tamanha magnitude.

Aliás, ao dizer que tive filhos “por descuido” ou , “ao acaso” cometo uma simplificação, ou mesmo uma mentira. Essas ações são sempre carregadas de desejo, seja ele inconsciente ou não. Há sempre uma volição escondida sob a tênue camada de racionalidade que nos abriga de medos ancestrais. Excetuando-se os casos de violência, sempre há intenção nesses deslizes. A pulsão de vida não se importa muito com nossa frágil racionalidade. Sua força e potência é necessária para a manutenção da vida e, portanto, não seria essa conquista tão recente forte o suficiente para ameaçá-la.

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Parto e Trauma

Na minha visão, há muitos anos sustentada, o advento da síndrome pós traumática está diretamente relacionada à ausência de autonomia da mulher no processo e a noção de que os fatos (ruins) aconteceram com ela a despeito de sua ação – ou exatamente por isso.

Além disso é importante que, via de regra, não é o parto que produz a síndrome pós traumática, mas a nossa incapacidade para lidar com um evento essencialmente subjetivo e sexual, que demanda do cuidador a mais extremada delicadeza com o evento. Essa capacidade é difícil de atingir em vista dos conhecimentos técnicos e habilidades de interação pessoal, como a empatia, a afetividade e a intuição conjugadas.

Na ausência dessas valências altamente sofisticadas, o mais comum é tornarmos um evento feminino e subjetivo – e profundamente sexual – em algo que NÓS controlamos, algo cujas decisões partem apenas de nós, a despeito dos valores que as mulheres expressam, produzindo um momento essencialmente autoritário. Da mesma forma como os fatos autoritários da infância produzem marcas no espírito das crianças, as quais produzem consequências por toda a existência, o mesmo pode ocorrer a partir de um parto (sentido como) violento ou desrespeitoso. Em verdade, qualquer mulher que já teve um parto violento há 20, 30 ou 40 anos sabe exatamente do que se trata esta questão.

A cicatriz na alma é indelével, pois atinge os estratos mais primitivos da constituição humana: nossa sexualidade.

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Papa

Na boa… não precisa ficar dando sermão dizendo que o Francisco também é “humano” como cada um de nós. Não tem justificativa para o que ele fez. Está errado, e muito. Ele é exemplo para o mundo inteiro. Se fosse ele um cantor de Heavy Metal estaria errado, seria atacado por comentaristas de música e entretenimento do mundo todo, mas para um líder mundial que prega a “paz e a tolerância entre os povos”… nem se fala.

Sejamos francos: a atitude dele foi absurda, grosseira, violenta e injustificável. Quanto mais eu vejo a fúria nos seus olhos mais eu me assombro com o seu despreparo para a fama e a posição de líder espiritual de mais de 1 bilhão de pessoas. Mas, como sempre, tem gente passando pano, perdoando, chamando-o de “humano” e ressaltando que ele é o primeiro Papa que pediu desculpas publicamente, o que demonstra que quando gostamos e admiramos alguém TUDO pode ser perdoado e contextualizado, mas quando não gostamos até o mais banal dos deslizes passa a ser um pecado capital.

Não seria necessário bater na mão mulher. Os seguranças já estavam a postos. Quando explicamos que não se bate em criança ou que desprezamos a violência é DISSO que estamos falando. Quando falamos que agressões não educam é a esse tipo de ato que nos referimos. Quando dizemos que a violência nunca é a melhor resposta, ou quando lembramos de “dar a outra face”, é sobre este tipo de atitude.

Portanto, não precisa defender tanto o Papa porque até ele está envergonhado do péssimo exemplo que deu. E tem mais: ele já pediu desculpas e o reconhecimento do erro é essencial. Já vi textos por aí insinuando que ele se “machucou” com o puxão (??) e que a moça era uma “fanática”. Sério? Por segurar a mão do seu ídolo? Que absurdo.

Que o Papa aprenda essa lição e seja mais humilde. Aliás, por que não convidam esta senhora para um café com o Sumo Pontífice como um gesto de desculpas públicas?

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Vítimas

“O ladrão é vítima… também. Entretanto, continua sendo um criminoso. O problema com essa questão é a visão estúpida e moralista que nos impede de ver que um indivíduo pode ser criminoso e vítima social AO MESMO TEMPO. O fato de ser vítima de uma estrutura social injusta e perversa não significa que o crime que porventura cometeu não deva ser punido, mas mostra que este delito não ocorre isolado, produzido pela degeneração moral do malfeitor.

Não; o crime cometido – seja ele qual for – é apenas a ponta visível do iceberg de abusos e violências cometidas contra este, agora criminoso, mas que são escondidas do nosso olhar preconceituoso e racista. O universo desses “esquecidos” é povoado de pequenas e grandes tragédias, que são sempre desconsideradas quando levantamos o braço e apontamos nosso dedo acusador.”

Herbert Blumm, “Der Ankläger”, ed. Klopf, pag. 135

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Amor

“Quisera falar do sexo
Mas não posso
Do céu subterrâneo de nossos afetos
Mas não devo
o mundo escondido de nossos desejos
Mas não nego
a fuga absurda de nossos retornos
Mas não quero
o sentido último de nossos abraços
Mas não vejo
a luz que meus olhos encontram no escuro
Mas não digo
o suspiro de um dia saber-te sem mim”

Amália Quintero D’Arroyo, “Fugas”, Ed Pindorama, pág 135

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