A Execução

“Os olhos fechados sobre o inox recebiam da mesa gelada o reflexo das lâmpadas que se penduravam do teto. Nenhum movimento, nem mesmo quando a furtiva mosca pousou sobre o contorno da sua orelha esquerda. Os lábios cerrados mantinham encarcerada a última palavra, ainda repousando sobre a língua descolorida.  Os cabelos já não os tinha faz tempo e a pele há muito perdera sua cor rosada, substituída por uma palidez marmórea.

Seu rosto duro encarava a lâmina giratória à sua frente de forma impassível. As rugas no contorno dos olhos se mantinham estáticas, apontando para a comissura dos olhos de uma serenidade aterrorizante. Nenhuma lágrima e nenhum remorso aparente. Seu crime seria pago com indiferença.

Subitamente o negro manco de avental amassado aperta o botão vermelho na parede ao lado e faz a lâmina girar, e nos assalta um som de agudo de marcenaria – ou açougue. A sala acanhada se enche com o ruído fino e envolvente da máquina giratória, enquanto os dentes da lâmina brilham ao nosso olhar incrédulo. A execução se iniciava.

Com a mão na nuca do homem ele faz um delicado movimento, empurrando-o em direção à serra circular. Esse nada diz, sequer resiste. Seus olhos se mantém fechados assim como sua boca, talvez por pressentir que seu momento derradeiro se aproxima. O ruído fica mais intenso enquanto nós, aglomerados no lado oposto da mesa, sentimos os pelos do braço retesarem à espera do inevitável. Aguardamos um grito, uma resistência, uma queixa que nunca chegará. Talvez a passividade do homem nos pareça mais brutal do que sua pena.

O giro da máquina parece se intensificar à medida em que se aproxima da face lívida do pobre homem. Nossa respiração há muito parou e as batidas surdas de nossos corações retumbam pela sala, numa batucada de medo e horror, mas também nos envolvendo em uma excitação inquestionável. Enquanto isso, os lábios parecem querer beijar a lâmina que se aproxima e, mesmo assim, ele nada diz. Meus ouvidos escutam o guinchar histéricos dos violinos de Psicose em sinistra repetição.

A loucura foi seu crime. A insanidade levando ao isolamento e ao martírio de uma vida infeliz. Resgatado dos porões do manicômio agora estava ali diante de nós para pagar sua derradeira pena.

A serra impiedosa encosta finalmente seu nariz, bem no centro. Nenhum movimento, nenhuma sílaba, nem um apertar de pálpebras. Seguindo seu ritmo ela corta a cartilagem do nariz enquanto fere o lábio inferior, seguindo-se o superior. O negro executor mantém-se mudo, sem dizer palavra. Havia respeito ou insensibilidade? Ajeitou seu pé manco sob a mesa e imprimiu mais força na nuca do homem, deixando o aço frio atingir a testa, o queixo e separando definitivamente seus olhos. Enquanto a lâmina atingia o pescoço alguém ao meu lado levou a mão à garganta, e a sala inteira pôde escutar seu soluço involuntário.

Mais um minuto e a mão firme do carrasco cortou a última fibra de pele da nuca. Com a mão enluvada apertou novamente o botão e a máquina se calou. De imediato o homem caiu para os dois lados ao mesmo tempo; uma parte de si para cada borda da mesa, exibindo seus miolos, sua mente insana, sua loucura e suas memórias. Fragmentos da sua infância, vida adulta, seus amores e dramas salpicaram na mesa, mas não havia sangue, apenas silêncio.

O jovem funcionário juntou as metades do condenado e as colocou em uma bacia. Nenhuma explicação do que seria feito. Ainda com as máscaras no rosto saímos em fila da sala carregando conosco a certeza de que não há nada que nos ensine mais sobre a vida do que olhar um corpo que ela abandonou, despudoradamente exposto em uma aula de anatomia.”

John Avery Smith “The Day When They Sort it Out”, Ed. Printemps,  pág 135

John A. Smith nasceu em Augusta, divisa da Georgia com a Carolina do Sul no auge da depressão americana pós “crack da bolsa”, em 17 de agosto de 1930. Filho de agricultores, muito cedo desenvolveu o gosto pela escrita, sendo o editor chefe do jornal de sua escola o “Old College” em Athens, que posteriormente se tornou a University of Georgia. Foi nessa universidade que ele cursou medicina, tendo se formado em 1956, vindo a praticar em diversas cidades na Georgia e na Carolina do Sul. Seu primeiro livro foi “Amidst the Battle Roar”, um romance sobre um soldado negro desertor na “Batalha de Atlanta” ocorrida na Georgia em 1864. Recebeu o “Prêmio Maccabee de Literatura” por esta obra, o que o estimulou a continuar seu trabalho como escritor ao lado de sua prática médica. Morreu em Atlanta em 1997, aos 67 anos, vítima de um infarto fulminante, logo após escrever seu derradeiro livro (para alguns seu “canto do cisne”e sua obra prima) chamado “Love, Peace and Truth”, dedicado a sua esposa Meggy Weinsbaugh, conhecida novelista. Não teve filhos.

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