Arquivo do mês: maio 2014

Explicações

cirurgia 02

 

Vou explicar de uma maneira mais simples, ok?

Pensem da seguinte forma: nós que lutamos pela humanização do nascimento não temos NADA contra comida, pois se não fosse pela comida nós morreríamos de fome e inanição. Entretanto, o ABUSO DE COMIDA, a propaganda de açúcares, chocolates, cheeseburgers, e outras tantas comidas com gordura, carboidratos e glicose para CRIANÇAS criou um país de DIABÉTICOS E OBESOS. O abuso, e não a comida em si, é que é o problema. Aliás, não é apenas um “problema”; é uma questão de saúde pública. Muitas pessoas morrem todos os dias por doenças criadas e mantidas por hábitos alimentares equivocados.

Agora use este mesmo raciocínio para entender o problema dramático do crescimento de cesarianas no nosso país (como de resto no mundo inteiro). A cesariana abusiva e excessiva que ocorre no Brasil faz com que a mortalidade materna continue vergonhosamente alta, e nos Estados Unidos ela está (pasmem!!) crescendo. É hora de as autoridades do Brasil começarem a pensar nesse exagero operatório com mais seriedade. É o momento de dar um BASTA no excesso de cesarianas. Se a sua cesariana foi bem indicada, não é preciso se sentir atingida pela campanha que fazem as organizações que defendem o parto. Mas, se ela está entre as milhares de cesarianas feitas TODOS OS DIAS sem indicações clínicas, junte-se a nós nesta luta. É preciso que as mulheres percebam que a utilização do recurso cirúrgico para o nascimento só se justifica quando os ÓBVIOS RISCOS de uma cesariana são menores do que a continuidade do parto normal. Mas isso ocorre em uma parcela muito pequena, por volta de 10 a 15% dos nascimentos, e não em 54%, como tristemente percebemos no Brasil.

Vamos fazer do Brasil um país que respeita a integridade física e psicológica das mulheres. Já chega de cesarianas desnecessárias.

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A Outra História das Almas Apressadas

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A história deste texto está conectada com o capítulo “Das Escolhas” do livro “Entre as Orelhas – Histórias de Parto”. Nele ofereço outro olhar sobre a cena descrita; ao invés do drama médico das escolhas e dos caminhos possíveis, a visão da mulher que sofre a dor de um nascimento fora de hora. Desta forma pretendo fechar o círculo de possíveis olhares de um evento triste, mas que ao mesmo tempo nos ensina tanto sobre as fragilidades da vida e as escolhas que fazemos.

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A decisão está tomada, e as rodas mal azeitadas da maca guincham pelo corredor estreito, driblando macas, cadeiras, enfermeiras e passantes. Para ela o mundo repentinamente se transforma em tetos mofados e luminárias sujas, que passam diante de sua face pálida como um filme antigo. Os olhos sequer se mexem. Fixos no alto, apenas aguardam a entrada no centro cirúrgico para voltarem a piscar.

O cheiro das limpezas, o brilho ofuscante de mil luzes, o som dos metais tilintando nas mesas e as rodas que param de guinchar lhe anunciam a chegada à sala de operações. Com esforço ajusta seu corpo cansado na mesa cirúrgica, auxiliada por pessoas sem nome, sem fala e sem rosto. Pendurado no braço o manguito; na dobra descorada do cotovelo a fina agulha penetra, por onde escoa um líquido cristalino. No teto a roda luminosa se acende, e pode ver seus múltiplos rostos aflitos refletidos nos anteparos vítreos das lâmpadas.

Mantém-se em silêncio devocional, como se qualquer som quebrasse uma norma da qual não saberia a razão. Apenas obedece maquinalmente as ordens que lhe são dirigidas. “Vire-se para este lado”, diz um senhor mascarado de voz grossa, enquanto a enfermeira aperta seu queixo contra o peito desnudo. “Não respire. Se você ficar bem quietinha termino bem rápido”. Sente um choque elétrico a lhe percorrer a coluna e retesa o corpo em resposta, mas em seguida percebe as sensações paulatinamente desaparecendo. Dividida ao meio, seu corpo de baixo para e dorme; o corpo de cima silencia e espera. E reza.

Depois as higienes, os panos, as frases desconexas que lhe chegam aos ouvidos. Palavras cruzam a sala sem que delas se capte o sentido. Apenas o medo, como um código secreto compartilhado, percorre as almas da sala.

Então o silêncio. Por alguns instantes todos estão imóveis. Nada se ouve. Finalmente a lâmina grave fere a carne, abre o espaço, penetra. Depois disso, apenas o “bip” das máquinas quebra a monotonia sonora. Pequenos estalidos se seguem. Dos presentes, nenhum som, sequer uma expressão. A luz intensa cega, o tempo fica estanque. As camadas da carne rubra vão sendo abertas, uma após a outra, até que a nave uterina, com sua cor rosada e brilhante, aparece diante do brilho ofuscante do foco de luz. Ali dorme nosso herói, mas será preciso acordá-lo.

Um, dois, três cortes precisos da navalha fria. O amnionauta, encerrado em seu mundo de sonhos, nem percebe que seus devaneios de sons e luzes tênues serão interrompidos pelo nosso chamado. Um último corte e chegamos no interior da diminuta esfera. Pela translucência das camadas, que envolvem o universo ínfimo do pequeno ser, podemos ver que ainda dorme. Com um golpe derradeiro e definitivo, rompemos a bolsa, e os panos verdes que cobrem a nudez se escurecem com o líquido amniótico que escorre sem pudor.

É o tempo de nascer.

Dois ou três movimentos e a cabeça salta para fora da ferida. “Desculpe, amigo. Não era seu tempo, mas foi preciso lhe resgatar”. Seu corpo miúdo escorrega para a sala e para o mundo, deixando como rastro o frágil fio que o liga à placenta. As mãos enluvadas suportam o corpo esquálido que, de tão frágil, mal pesa. Ao invés da pele uma fina camada transparente róseo-violácea. Ao invés de cabelo, uma tênue penugem que mal lhe cobre a cabeça. Recém saído do claustro materno ele abre os braços e por um instante parece procurar algo. Ou alguém. Sua expressão é de dor e angústia, a mais antiga de nossas emoções. “O que faço aqui? Porque interromperam meu sono?” pergunta-se. Seus dedos finos e azulados abrem-se e procuram agarrar a luva ensanguentada. Ele contrai seu corpo minúsculo, estende mais uma vez os braços enquanto aguardamos ansiosos os primeiros sons. Sofre, pela primeira vez, a dor do excesso de espaço. “Onde está minha mãe, que me envolvia e acalentava desde quando minhas primeiras células se dividiram? Onde está aquela que tocava com doçura cada pedaço do meu corpo? Abro os braços e só o que agarro é o espaço, o nada. Estou só.”

Abre a pequenina boca e quando esperamos um grito escutamos apenas um tímido e fino sibilo. Um lamento. A sala novamente se enche de silêncios. Cordões são cortados, amarra das almas desfeita. Os panos verdes o envolvem num triste celofane. Um sibilo a mais e ele é levado para distante dos nossos olhos.

Os corpos se separam em salas contíguas, mas a mulher cortada ainda jaz à nossa frente. Temos trabalho a fazer e o mais difícil de todos é suturar a alma dilacerada de uma mãe. Corroída pela culpa e pela angústia, olha para a porta que recém se fecha. Seus ouvidos se agrandam para escutar mais um sinal, por menor que seja, do pedaço de si mesma que há pouco se foi. Fecha os olhos e reza em silêncio. Chora pela separação, pelo medo de perder, pela tristeza de ver seu filho sofrer. Imaginariamente abre seus braços e o abraça, junto ao colo. Traz o rostinho amarrotado e lívido para perto do seu e sussurra em seus pensamentos “Mamãe está aqui. Não vamos nos separar. Sei o quanto precisas de mim e também sei o quanto é preciso que eu esteja ao seu lado. Não se desespere, mamãe está aqui”.

E nós, ao seu lado, apenas nos calamos e testemunhamos sua dor.

Na sala ao lado, outra batalha se trava. Consternados perguntamos àquele pequenino que se posta à nossa frente: “Por que agora? Por que tão cedo? Qual a pressa em chegar a um mundo de expiações e sofrimentos?”.

Sua resposta é apenas o choro fino, o lamento de uma alma apressada.

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Inbox do Facebook

Inbox

Chamado no Inbox do Facebook.
Todo ele em inglês, que vou traduzir para facilitar.

– Oi, como vai? Obrigado por me aceitar. Eu me chamo XXX.
– Hummm. Seja bem vinda. De onde vc fala? Nos conhecemos?
– Sou das Filipinas. Não o conheço. Vi você no Facebook.
– Ah, ok e porque me adicionou?
– Porque você é muito bonito e o seu bebê é lindo.
– Hummm…. Olha, as fotos são muito enganosas. Não vá atrás disso. E ele não é meu bebê. É o meu neto.
– Como? Seu neto? Qual sua idade?
– Menina… Tenho a mesma idade da taxa de cesarianas do Brasil.
– Ah… muito né?
– ??
– Quer dizer, as taxas, as taxas!!!!
– Sim, eu sei. Mas obrigado pelo elogio. Depois do que passei nos últimos dias achei que nunca mais ouviria algo assim… Você ainda está aí?
– Alô, alô, alô?… Acho que ela ficou assustada. Com as taxas, as taxas é claro…

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Feios, sujos e malvados

Feios_sujos_e_malvados

 

Já se deram conta do drama terrível que atinge o cantor popular que lança um disco e vende 1 milhão de cópias?

Nunca?

Muitas vezes eu penso nesses temas que normalmente não nos tocam, porque parece a nós que estas circunstâncias não são compatíveis com sofrimento de qualquer natureza. Também fico encucado como “a dor de ganhar muito dinheiro“, as “dificuldades de ser bonito demais” ou as “agruras e sofrimentos de ter muito sucesso“.

Sim, penso em tese. Nunca fui agraciado com nenhuma das benesses acima citadas, o que não me impede de tentar entender como as pessoas podem se sentir prisioneiras de suas próprias virtudes e conquistas.

Imagine o homem bonito e suas dificuldades. Estou usando esse exemplo pela distância evidente e óbvia comigo, mas poderia usar a questão das mulheres lindas. A beleza ofusca todos os outros possíveis talentos. Um homem bonito naturalmente obstrui suas outras potenciais capacidades, pois a beleza lhe oferece um acesso fácil aos seus interesses e desejos. O mesmo se pode pensar do dinheiro. Para que estudar, aprofundar-se em temas, tornar-se crítico e inventivo se o dinheiro oferece um “bypass” para qualquer comodidade? Para enfrentar a beleza e o dinheiro e ainda assim tornar-se humilde, culto e interessante há que se transpor barreiras muito complexas e difíceis, principalmente porque elas se opõe à própria natureza humana e a “lei do menor esforço”. Como ter certeza de que a mulher (ou homem) que se acerca, está encantado pela sua figura completa, ou apenas pela luz que emana de sua beleza ou riqueza?

Um músico de sucesso precisa manter o interesse das pessoas, pois o “amor” a ele devotado é embriagante, sedutor e cativante. Porém, tal devoção cobra seu preço, e o cantor cedo percebe que sua obra deixa de lhe pertencer, e passa a ser controlada pela expectativa que os fãs dele fazem. Os admiradores cobram do artista o amor a ele oferecido. “Vais nos agradar e retribuir nosso amor. Caso contrário será uma traição ao nosso carinho graciosamente oferecido, e por isso te odiaremos eternamente”.

Apesar de ser uma pessoa desprovida de talentos posso entender o quão difícil e tenebrosa é esta tarefa. Uma vez jogados no terreno do desejo alheio, como romper as amarras de dependência criadas? Como manter-se livre para criar, produzir, expor e demonstrar sem o peso da concordância e admiração do outro, que em última análise dá a medida do que chamamos sucesso?

Se o Latino resolvesse cantar música erudita, poderia? Seria perdoado? Seria aceito? O Roberto Carlos canta o que deseja ou o que sente que seu público exige dele? Quanta liberdade criativa existe naqueles em quem depositamos tanta expectativa? Paulo Coelho escreve o que quer, ou o que dele se demanda? Uma menina se apaixona mesmo por Justin Bieber, ou pela figura que ele representa? Como poderá ele saber?

Não estaria a verdadeira liberdade reservada apenas aos feios, pobres e desprovidos de excelência? Estes sim, podem escolher um amor sem que ele esteja contaminado pelos interesses, ofuscado pelo brilho fátuo da beleza ou misturado com a sedução dos talentos exuberantes. Só os feiosos tem certeza que o amor que recebem é verdadeiro. Só eles podem estar seguros de que seu amor é “dar algo que não se têm”.

Para os que escrevem, e aí o gancho que eu percebi no cotidiano, nada alivia mais do que decepcionar algumas pessoas. Assim libertos dessa pressão, é possível usufruir, mesmo que de forma limitada e parcial, um pouco de liberdade.

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Lua e Sol

Lua e Sol

 

“A lua é muito mais importante do que o sol. Enquanto ela ilumina as nossas noites o sol apenas ilumina o dia, quando tudo já está claro”

Creio que esta frase merece uma consideração mais profunda. Quando eu a li me pareceu uma simples idiotice. Uma segunda leitura me obrigou a uma consideração mais profunda, e pensei que ela poderia conter algum tipo de ensinamento.

Muitas vezes consideramos pequenas coisas (como a Lua, se comparada com o sol) como sendo grandiosas apenas porque são demasiadamente exaltadas pelo contexto – em um céu escuro o nosso satélite se destaca com facilidade. Já o Sol fica quase invisível pela sua imensidão e onipresença e, frequentemente, nos esquecemos de sua existência, imaginando que a claridade que percebemos ao nosso redor é natural e parte constituinte do que consideramos um “dia”.

Quando pude reler a frase pensei nas experiências de vida que quase todos nós um dia passamos. Uma delas a paternidade e a maternidade e a convivência com os filhos. Muitas vezes, quando pequenos (e as vezes depois também) nossos filhos fazem elogios extremados e emocionados, em que ressaltam a importância de pessoas que acabaram de conhecer, deixando de valorizar o que possuem desde que nasceram. É clássica a paixão das crianças pela professora, mais tarde pela namorada. Pois elas são Luas resplandecentes no céu escuro da nossa experiência cotidiana. Claras, brilhantes e destacadas, elas irradiam sua luz em todas as direções. Entretanto, na casa dessas pessoas habitam muitas vezes Sóis de experiência, carinho, afeto, compreensão, paciência e virtude, que muitas vezes são desconsiderados diante da exuberância telúrica. Fixados na face redonda e sorridente da Lua por algum tempo nos olvidamos do calor que sempre nos aqueceu, até porque ele sempre esteve lá; era parte constitutiva de nossas vidas.

Hipnotizados pela Lua, muitas vezes injustiçamos o Sol que, sem que percebêssemos, sempre esteve a nos envolver, para aquecer e iluminar.

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