Arquivo do mês: maio 2017

Os Frutos

Há muitos anos eu imaginava que a verdadeira revolução na assistência ao parto seria uma modificação da estrutura da sociedade, em seus aspectos mais profundos. As condutas médicas durante o parto nada mais eram do que a ponta final de um processo que emergia das profundezas da estrutura social. A violência obstétrica era, no meu ver, como um osso de dinossauro na superfície do deserto, que tanto nos permitia perceber o gigantismo do animal quanto a tarefa hercúlea de desenterrá-lo.

Muito cedo me dei conta que a tarefa de reescrever a história do nascimento jamais se daria através da simples ampliação da consciência dos profissionais, seja pela alteração nas “práticas médicas” ou pela transformação das estruturas hospitalares. Isso seria reconhecer os poderes instituídos e tão somente suavizar sua opressão. Na época eu chamava este modelo de “sofisticação de tutela”.

Eu sabia que para mudar a forma de nascer precisávamos mudar a sociedade. Essa sociedade, assim consciente dos sentidos profundos do nascer, não mais permitiria que o parto se tornasse um foco disseminador de violência, exclusão e opressão, envolto na dura carapaça da misoginia. Sabia também que as vias de transformação se dariam através da medicina baseada em evidências e da interdisciplinaridade para enfim chegarmos ao pleno protagonismo do parto garantido às mulheres.

Para isso acontecer deveríamos contemplar 4 pontos essenciais:

A sociedade
Os profissionais
A mídia
Os operadores do direito

Nossa luta com junto à sociedade se dá há quase 25 anos, não só pela nossa ONG mais importante – a Rehuna Humanização Do Parto – como por tantos outros organismos surgidos espontaneamente. Citarei a Parto do Princípio e o GAMA como exemplos dessas instituições. Assim a sociedade – em especial as mulheres – sempre foram o foco primordial de nosso ideário. Se uma revolução no nascimento pode acontecer só será se forem as mulheres a conduzi-la.

Os profissionais humanizados se reúnem há mais de 20 anos para debater, questionar, construir um novo paradigma e disseminar sua visão renovadora através de artigos científicos e livros “à mancheia”, mostrando que temos, sim, muito a dizer e oferecer para esta luta. Dos encontros da Fadynha Doula, até os grandes congressos internacionais e o Siaparto, construimos uma rede segura e forte de disseminação de conhecimento embasado em evidências, reunindo profissionais de vários campos nesse debate.

A mídia ao poucos “vira o fio”. Se antes nos tratava como “malucos” ou “românticos” aos poucos reconhece que os partos humanizados são a ponta de lança da atenção qualificada. Os meios de comunicação hoje reconhecem que o combate ao intervencionismo é uma batalha que rompeu todas as fronteiras, que o excesso de medicalização prejudica a saúde da população e que o caminho é pela suavidade, pela “slow medicine” e pelo respeito aos direitos reprodutivos e sexuais. O sucesso de “O Renascimento do Parto”, a espera “angustiante” pela sua continuação e a produção de tantos outros documentários mostram que a visão da mídia sobre nossas palavras está mudando de uma forma bastante positiva.

O último elemento, o qual me motivou a escrever esta resenha, é a participação dos operadores do direito. Hoje a ReHuNa fez-se ouvir na Organização dos Estados Americanos, em Buenos Aires – através da brilhante advogada Ana Lucia Keunecke – que foi levar aos delegados desta instituição a voz dos ativistas do parto do Brasil junto com nossas denúncias de violência obstétrica. Tivemos a oportunidade de mostrar às Américas como se dá a perseguição sórdida protagonizada por corporações contra médicos, enfermeiras obstetras e doulas que lutam por partos mais dignos e menos violentos. Pudemos sensibilizar os delegados de muitos países irmãos para a nossa luta contra a violência institucional aplicada às gestantes, numa violação inaceitável de tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Importante também salientar a importância da Artemis como participante das lutas pela dignidade garantida às gestantes, mostrando que nossa paixão invadiu o universo do direito e lançou sementes que aos poucos mostram seus frutos.

Assim, minhas previsões todas estão se cumprindo. Entretanto, erra quem pensar que esta tarefa está próxima de seu término. “Longo é o caminho de quem deseja trazer luz e discernimento“. Humanizar o Nascimento é garantir o protagonismo à mulher e, enquanto nossa missão não for cumprida, haverá sempre razão para continuarmos firmes nesta trajetória.

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Arquivado em Ativismo, Parto

Mãe de “Pet”

 

Gostar de pets (outro anglicismo horroroso) não me parece doentio, e penso que tenho autoridade para falar isso porque nasci sem o “chip” do amor aos animais domésticos. Meu amor é pela natureza, e não só pelos animais com os quais podemos nos identificar. Mas o debate sobre “maternidade pet” sim é doentio. Mais do que uma discussão sobre direitos dos animais ou a responsabilidades dos humanos sobre eles esta discussão mostra o quanto estamos distantes de um entendimento mais profundo dos cuidados parentais. É como debater homossexualidade. A orientação sexual em si não tem nenhum grande problema; por ser estabelecida para aquém da consciência ela não pode ser julgada por quem quer que seja, mas o debate que se estabelece sobre a sexualidade alheia sim, este é revelador dos valores de uma sociedade.

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Inquisição

 

As inúmeras piadas que debocham do presidente Lula chamando-o de “analfabeto” e todos os sinônimos de “ignorante” confirmam meu post anterior. Nunca foi corrupção o que move os odiadores de Lula; sempre foi nojo de pobre e trabalhador. Preconceito de classe sem máscara. Mesmo com a fantasia lacerdista de “combate ao mar de lama”, a verdade uma hora acaba aparecendo. Todo ato falho acaba se evidenciando na fissura que separa as palavras, no chiste, no erro ou na quebra.

O Lula não tem o direito de ser o presidente dos seus iguais. Os outros podem até roubar abertamente (o mensalão tucano prescreve agora) mas o PT, o Lula? Não… ele fala mal e não conjuga bem os verbos. Só o resto do mundo pode exaltá-lo como a grande liderança que é, mas aqui jamais será perdoado do crime de ser pobre.

Mas…. se Lula for preso sem provas, ou apelamos para o domínio do fato, ou mesmo se seguirmos a pista que Moro deu e atendermos “o clamor das ruas” (os aldeões com archotes acesos queimando uma bruxa é a melhor descrição disso) o que vai impedir que eu, você ou qualquer pessoa seja presa com base apenas em convicções? Você nunca pensou no significado disso para a vida dos cidadãos comuns? Como ficam os julgamentos banais do cotidiano quando desprezamos as provas e apelamos para o convencimento emocional dos juízes? O que vai impedir QUALQUER magistrado de prender alguém sem as devidas provas? Que significado haverá para a sociedade a tirania absolutista do judiciário?

Acha mesmo que a caçada a Lula não vai lhe afetar? Prove que o carro que você fez um “test drive” não é seu, ou o(a) namorado(a) que você teve não é seu(sua) esposa(o) devendo, portanto, dividir os bens e pagar pensão após o fim do namoro. Ou o contrário… prove que o apartamento pelo qual você lutou para pagar as prestações é verdadeiramente seu, já que os documentos nada valem diante das sólidas convicções de um juiz. Prove que o filho (não) é seu, ou que o salário (não) foi pago.

Se essa tipo de poder for dado aos juízes o que restará como proteção à nós, pessoas não-deuses?”

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O início do mundo

Queria aproveitar a oportunidade para discutir as razões profundas pelas quais nos (des)conectamos a uma pessoa. Não acredito que qualquer resposta racional possa seguir a esta pergunta. Eu sempre me lembro da história da criação do mundo.

Dois sujeitos há 200 mil anos andando no meio da floresta e encontram duas mulheres lavando carne na beira do rio. Um cutuca o outro e diz: “vamos pegar?” O outro responde afirmativamente.

“Ok, mas qual delas tu queres?”, diz o primeiro, procurando evitar uma briga. O segundo, sem desviar os olhos de uma delas, responde: “a gordinha”.

O primeiro se conforma com a escolha, mas resolve fazer a pergunta cuja resposta iria inaugurar o gênero humano: “Mas, por que ela?”, ao que seu amigo solenemente responde:

“Eu não sei”…

(a desenvolver)

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Comédia

 

O desespero do pessoal que chamava o PT de corrupto e que foi para a rua com camisa amarela é tocante. Metade continua afirmando que todas a corrupção e todos os males surgem do PT, o mesmo partido que colocou o Brasil por breves instantes no mapa do mundo. O resto é contra “todos os corruptos”, que “todos vão para a cadeia”, “intervenção militar”, ou “bandido bom é bandido morto” (não é o assunto, mas sempre que podem eles falam isso). A ideia é a despolitização, o surgimento dos “gestores”, o fim dos partidos e, com isso, o fim da corrupção. Essa tese é tão tosca e tão ingênua que só gente fanatizada acredita nisso. Qualquer sujeito que já tenha trabalhado em uma empresa qualquer sabe como é corrupta a iniciativa privada, em qualquer nível.

O problema atual é que este pessoal “verde amarelo”, a turma do “sem partido” (lembram 2013?), se sente traído na confiança que tinham em Aécio, em Temer (“vai melhorar porque não é PT”) e mesmo Dalanhoro (uma mistura do fanático gospel com o Batman de Curitiba), que sofreu a suprema humilhação de levar um tapa de luvas do MPF de Brasília ao denunciar seu amigo Aécio, mesmo que as acusações estivessem na mão de Batman e Robin há mais de dois anos, as quais ficavam escondidas para não criar um climão quando se encontrassem na próxima premiação da Globo.

E eu é que sou comediante…. comédia é insistir que a culpa do Temer é do PT, quando o PT fez o MÁXIMO esforço durante 6 anos para manter Temer escondido no Jaburu com sua bela donzela. Comédia é não observar que a DIREITA BRASILEIRA é representada por todas estas figuras macabras que foram desenjauladas pelo golpe capitaneado por urubus neoliberais como Kataguiri e Rólidei. Agora que Temer, Aécio, Jucá, Padilha et caterva são denunciados tentar empurrar a paternidade para as esquerdas. Esse filho é de vocês!!!!

Comédia é achar que essas provas contra Temer e Aécio são novas, quando são muito velhas e estavam sendo retidas pelos interesseiros de sempre – Gilmarzinho entre eles. Comédia é não se dar conta de que um pedalinho de merda, um sítio do amigo e um apartamento que não é do Lula serviram para TODOS VOCÊS ficarem anestesiados e não perceberem o desmonte da previdência e da CLT enquanto os verdadeiros facínoras agiam.

O constrangimento é porque, enquanto acusavam o PT e imploravam para poder – mais uma vez – lamber bota de milico, uma tropa de malandros operava para “estancar a hemorragia, com o STF, com tudo”, sempre contando com uma Lava Jato que já não conseguia mais esconder o fato de que tinha lado, que tinha partido, que protegia algumas figuras e massacrava outras.

O desmonte se iniciou com o depoimento de Lula que deu um show político no seu depoimento, e que deixou o juiz Moro nocauteado no chão. Todos sabemos que Lula será condenado por Moro, que inclusive já deu sua sentença na Europa (para quem quiser entender), mas o depoimento deixou claro que Moro sempre agiu como um acusador, um Batman que joga no time do Coringa e que tem a vaidade como seu principal motivador.

Comédia é ver essa direita que saiu à rua ladeada por um pato querer dizer que estavam lutando contra a corrupção. Nunca estiveram; queriam apenas manter a Casa Grande cercada e gradeada, e impedir que o nordestino entrasse mais uma vez onde não foi convidado.

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Arquivado em Ativismo, Política