Arquivo do mês: março 2022

Pesquisas científicas

Pesquisas científicas são produzidas pela necessidade humana de estabelecer um conhecimento seguro da realidade externa. A simples análise dos fenômenos por um observador isolado usando seus aparelhos sensoriais pode ser – e frequentemente é – enganosa. O trajeto do sol pela abóbada celeste produziu durante milênios a percepção errônea de que o astro-rei girava ao redor do nosso planeta, que se mantinha central e estático em relação ao universo. Todavia, quando esta ideia foi confrontada através de pesquisas baseadas em método ela se mostrou equivocada, pois não satisfazia o rigor das análises matemáticas aplicadas à relação da Terra com o restante do universo.

A pesquisa científica é basicamente o senso comum submetido ao método de avaliação de um específico fenômeno. Para isso são necessários critérios e abrangência para que a avaliação seja o mais universal possível. Para que a pesquisa possa ser considerada válida ela necessita estar ancorada em uma análise sistemática e precisa, e mesmo assim ela será considerada sempre como “provisória”, pois que os achados científicos podem ser falseados por uma nova análise, com novas perspectivas e utilizando novos instrumentais, que nos mostram o que anteriormente era invisível.

Como já dizia o pensador contemporâneo Maurice Herbert, “Depois de certa idade, não se passa um dia sequer sem que eu me assombre com o desmoronamento de uma antiga certeza, por tantos anos acalentada”. E assim também é com a ciência, que tal qual Penélope – que tecia sua colcha de dia para desfazê-la à noite – introduz um novo conhecimento hoje para desfazê-lo no futuro, próximo ou distante. A pesquisa científica é, portanto, uma característica fundamental do espírito humano, ao conjugar nossa natural curiosidade para desvendar o universo com a necessidade de estabelecer limites, sistemas, métodos e parâmetros nesta busca, evitando assim a natural sedução dos nossos desejos e a falibilidade dos nossos sentidos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Defecando em público

Sabe o que sempre me incomoda?

Quando na cerimônia de formatura o orador é chamado para falar em nome dos formandos, pega o microfone, faz os agradecimentos de praxe às autoridades, e depois larga essa: “Em primeiro lugar quero agradecer à minha família, meu esposo Roberto, minha mãe, meu pai, meu amigos….”

Cara!!! Como você pode usar sua posição de representante da turma para fazer agradecimentos pessoais? Como você abusa desse lugar para exaltar a sua trajetória pessoal? Quando você é escolhido para fazer o discurso está levando a palavra, anseios e sentimentos de toda a sua turma e não pode falar em nome próprio. Fazer homenagens particulares é uma falta de bom senso e falta de noção de qual sua real posição.

Por isso me incomoda também quando você estraga uma festa de milhões de pessoas para fazer uma demonstração anacrônica e estúpida de machismo, apenas para dar conta das suas inseguranças de macho. A festa não era dele!! Se houvesse realmente algo a ser defendido, que fosse feito depois da festa, no camarim ou na rua, e não estragando a festa de todos.

O problema é que estas figuras milionárias de Hollywood vivem numa bolha, ou em Asgard, onde circulam em limusines, tem empregados de todas as cores, são tratados como divindades e perdem o contato com o mundo real. Nesse mundo, todos tem a obrigação de saber dos problemas de cabelo de uma das celebridades da corte, e precisam acreditar que alopecia é algo mais grave ainda do que morte, miséria, a guerra em curso, fome, câncer ou qualquer desgraça…. afinal, acometeu uma Deusa.

Por isso é que Will Smith agiu como se estivesse na sua casa e na sua festa, e os milhões de espectadores que se virem com isso. Sua urgência em defender(-se) (d)a mulher diante de uma piada inocente parecia a ele mais importante do que todos os convidados da festa e os milhões que estavam assistindo em casa. Sua negativa em retirar-se quando convidado pelos organizadores tem a mesma marca: “Fui enviado por Deus“, disse ele. Pela sua visão, só o criador teria essa prerrogativa.

Estes fatos patéticos fazem lembrar os reis que chamavam seus servos quando queriam defecar, e depois o faziam na frente de todos. Afinal, sendo ele o Rei, é dever de todos se adaptarem às suas necessidades, seus maneirismos e vontades, e não o contrário.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Fachada

Vivemos no “Império da Arrogância Racionalista”, um universo que nos faz parecer garotos correndo por todo lado montados em vassouras, com chapéu de jornal dobrado e espada de papelão, crentes de que somos os donos do mundo. Tola ilusão. Nossa razão é tão somente uma fina e transparente camada de verniz a cobrir a alma humana, composta de um núcleo de medos envolto em crenças irracionais. Apesar de minúscula, ela nos confere uma proteção inédita entre os mamíferos dos quais tentamos insistentemente nos distanciar. Entretanto, ela não passa de uma fachada racionalista que, apesar de afastar nossos medos, não os expulsa por completo e não invalida a nossa essência pulsional.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Pilhou, perdeu

* Na imagem a camiseta personalizada da comunidade, nas cores roxa e amarela, cuja combinação bizarra e esdrúxula foi escolhida para não correr o risco de ficar parecida com a de qualquer clube do país. Meu número é em homenagem, claro, ao partido. *

Existe uma comunidade antiga no Facebook que se chama Futvacas. Foi criada pelo meu irmão Roger Jones como um “spin off” da Progvacas, antiga comunidade de rock progressivo que migrou do Orkut para o Facebook. Pois na Futvacas as pessoas são amigas e torcem para clubes diferentes e o mito fundador desse grupo é a zoação. Ali o “clubismo” é mais do que tolerado; ele é bem vindo. “Isenção é para os fracos”, dizemos.

Criamos uma comunidade para zoar e debochar dos adversários, falando de suas fragilidades, pegando pesado, fazendo gozações, publicando memes etc. “Palmeiras não tem mundial”, “Flamengo mulambento”, “Grêmio rebaixado”, “torcedor do Inter que precisa ir no cartório para ver um título“, “Botafogo cuja torcida cabe numa van”, “Corinthianos maloqueiros” etc. Pura pegação…

Claro, há limites. Sem racismo, sem xenofobia, sem homofobia, sem ataques pessoais ou à honra. Não é uma terra sem lei, mas a gente apostava no bom senso e em uma lei maior que regia a todos:

“Pilhou, perdeu”.

Essa é a regra. Pode zoar todo mundo, mas se o seu time perdesse tinha que aceitar e ser forte para aguentar a troça. “Se ficar brabinho é porque sentiu”. A gente frequentemente diz algo peremptório como “Meu time ganhou de todos vocês, ENAFB”, onde a sigla significa “E Não Adianta Fazer Beicinho”. Ra ra ra ra ra….

Quem responde com rispidez, ou usa “ad hominem” como resposta, perde. Não só perde como sua atitude é apontada por todos como inadequada e derrotada. Perder as estribeiras é a suprema demonstração de fraqueza e de fragilidade, não apenas do interlocutor, mas quem ele representa: seu clube, sua tradição, a região do Brasil onde mora, etc. Ficar irritado é humilhação.

A comunidade exige essa maturidade de quem participa. “Não aguenta a flauta? Não suporta zoação com seu time? Então não desce pro play pra brincar.” Se você não aceita a que os outros mostrem seus aspectos ridículos e menores, suas contradições e falhas, então não merece conviver com gente que usa estas piadas – e o processo de humanização que elas estimulam – para fortalecer amizades.

“Mas porque ficam zoando de mim logo hoje, quando estou triste pela derrota do meu time?”. Pois esta é a função principal da piada: derrubar o ego de quem se acha acima do resto da humanidade, mostrar a nudez do rei, expor o humano frágil em cada um de nós, assim como nossas falhas, nossos erros, nossa pequenez.

Não lembro de ninguém achando que uma piada sobre “a falta de taças de um clube” merecia uma troca de socos, e muito menos que essas coisas ofendiam a honra de alguém. É muito claro para todos os participantes que as atitudes “floco de neve” são absolutamente mal vistas, e talvez a seleção dos participantes seja nossa maior virtude.

PS: Sim, a razão da postagem é lembrar que a vida pública exige maturidade. Ir numa festividade do Oscar e não aceitar a tradição mais antiga da casa – o “roasting”, o deboche com estes artistas e produtores milionários e suas vidas pessoais muito sujas – é ridículo e indecente.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Desculpas

Eu acho lamentável Chris Rock se desculpar pela piada contada no Oscar, mas acho que ele na verdade está cagando para isso. Um comediante não age dessa maneira. Isso é uma traição ao seu ofício. Essa declaração dada no dia seguinte à premiação é pró-forma, para evitar o brutal cancelamento que pode se seguir. Foi provavelmente escrita pelo advogado dele com o conselho: “faça isso para não se incomodar, olha só o que fizeram com o Dave Chapelle”. A sociedade americana é doente, mas vejo essa doença identitária e moralista migrando para cá. O Chris Rock, do ponto de vista da lei, não cometeu nenhum crime. Não há nenhuma proibição de contar piadas (thanks God!!) nem que ela fosse ofensiva. Nos Estados Unidos (e confesso admirar este detalhe da cultura americana) não há crime nem mesmo se você de mandar um policial à merda. Free speech, a primeira emenda, é para eles algo de caráter sagrado. Já no Brasil autoritário você pode dizer apenas o que os outros deixam você dizer, sejam eles o Estado ou sejam os flocos de neve.

Todavia, esse autoritarismo que controla o discurso para proteger minorias, apesar de entranhado em nossa cultura, tem efeito ZERO no combate que se propõe, basta ver os feminicídios e crimes contra gays, trans e contra a população negra que ocorrem diuturnamente no nosso país. Racismo, sexismo, machismo são elementos da cultura e não podem ser controlados pela justiça ou pelas leis. Continuamos achando que atacar a liberdade de expressão, cerceando a livre manifestação, poderia trazer benefícios para a sociedade. Nossa experiência mostra que isso é um absurdo, um erro, até porque, para cada Chris Rock brazuca maledicente que botamos na cadeia por dizer “o que não devia” (para o delírio dos identitários) carregamos mais 50 ou 100 pobres e negros que falaram de forma ríspida com um policial, uma autoridade, ou foram mortos pela nossa polícia racista e classista defensora do patrimônio.

Torcer pelo proibicionismo, pela censura e na defesa dos “sentimentos feridos” é um tiro no pé, um remédio que mata o sujeito antes de atingir a lombriga.

PS: Foi descoberto algumas horas depois que eu escrevi este texto que o pedido de desculpas do Chris Rock era FALSO. “Faith in humanity restored!!!” Um comediante JAMAIS deveria pedir desculpas por uma piada – desde que seja uma piada mesmo (como foi nesse caso) e não uma desculpa para agredir.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos