Arquivo do mês: fevereiro 2018

Sufrágios e Doulas

Falando ainda sobre os cursos de doulas:

Imaginem se no inicio do século passado, diante das pressões pelo voto feminino, os homens (sim, do sexo masculino) da política finalmente capitulassem às demandas progressistas e igualitárias e permitissem que as mulheres participassem do sufrágio, impondo, entretanto, uma única condição: que as votantes fossem casadas.

A justificativa seria que mulheres casadas seriam mais responsáveis e maduras, teriam mais consciência de mundo por cuidarem de suas casas e filhos e que este adendo na lei impediria o acesso de mulheres “aventureiras”, “desqualificadas” ou desvinculadas dos “valores da família”.

Não seria dificil perceber que as razões apresentadas pelo poder dominante não são mais do que meras desculpas, cortinas de fumaça para encobrir os reais interesses subjacentes: o rechaço às mulheres livres, desimpedidas, sem amarras maritais e sem um homem a “moderar” sua natural “impulsividade” feminina.

Da mesma forma, uma lei que determina que as doulas devam ter cursos longos e caros e/ou ainda pertencerem a alguma área da saúde usam da mesma lógica e estratégia de ação: impedir a livre escolha das mulheres por suas acompanhantes treinadas ao mesmo tempo em que encenam uma falsa permissão.

Não acho surpreendente que uma proposta como esta tenha sido feita às comunidades de algumas cidades pelos políticos que representam o poder (de médicos e hospitais); afinal é do jogo usar golpes baixos. Absurdo é aceitar uma lei que implode o movimento das doulas, abre espaço para a “gentrificação”, promove a elitização dos cursos de capacitação e cria um real impedimento para as doulas das classes populares oferecerem um atendimento qualificado.

Não se trata de debater qual curso seria melhor, quanto tempo de formação e nem mesmo os valores envolvidos, mas de impedir que leis esdrúxulas e oportunistas como estas tenham espaço nos parlamentos de todos os níveis. Doulas precisam ser respeitadas e acolhidas pelo que são, e não forçadas a se tornarem o que os donos do poder desejam.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo

Outing

Na minha juventude o meu grupo de jovens espíritas era formado por um grande contingente de homossexuais. Todos estavam vivendo a gigantesca angústia da transição, do “outing”, do abandono do armário. A maioria não se reconhecia gay e achava que seus pensamentos eram influências espirituais maléficas e perturbadoras, vindas das profundezas do Umbral e os seus sentimentos homoafetivos eram perturbações kármicas. Todos, sem exceção, acreditavam que o espiritismo poderia funcionar como um “torniquete afetivo” capaz de impedir a hemorragia erótica que se anunciava para breve. Naquela época, fim dos anos 70, a homossexualidade ainda guardava nítidamente uma relação com mácula moral, fraqueza, obsessão e pecado. Talvez por isso muito de sua invisibilidade.

Até mesmo nós, amigos e companheiros, acreditávamos nessa fantasia, que nos garantia que a fé e a contenção poderiam funcionar para endireitar o comportamento errôneo e doentio. Seria como um “gays anônimos“. Pensávamos que a imersão num mundo de crenças místicas associadas à ideia da reencarnação poderia causar dois resultados: o fim das ideias obsessivas em relação ao mesmo sexo ou – no caso de falha – a contenção e a castidade. Afinal, se Chico e Divaldo podiam “sublimar” seus impulsos em nome da moral, do trabalho e das promessas realizadas antes do nascimento, por que haveriam eles de sucumbir?

Todos os meus amigos, gays espíritas da juventude, romperam com o movimento espírita com graus variáveis de violência logo após a saída da adolescência ou mesmo durante essa fase. Não foram poucos os que não aceitam falar no assunto. Muitos pediram acolhimento na Umbanda e alguns se tornaram agnósticos. Todos se sentiram oprimidos e pouco acolhidos nas hostes espíritas, e com boas razões. Eu mesmo testemunhei palestras catastróficas sobre o tema e senti na pele a ardência da rejeição quando falei publicamente de forma mais compreensiva e acolhedora sobre o tema. Em algumas vezes pensei, logo após uma palestra que praticamente criminalizava a homossexualidade: “se eu fosse gay só me restaria uma vida de culpa imobilizante ou o suicídio“.

Meus amigos precisaram abandonar o espiritismo mesmo mantendo suas crenças na reencarnação, mediunidade, na sobrevivência do espírito ou nas leis de causa e efeito, pois o convívio com o moralismo cristão espírita foi tóxico demais para suas vidas. É uma pena que tal barreira ainda permaneça no seio de uma filosofia que deveria ser progressista e comandar a mudança de compreensão sobre tais fenômenos.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Arquiteturas sexuais

 

Respeitosamente discordo.

Na minha modesta opinião o erro está em parear a sexualidade masculina com a feminina sem levar em consideração a arquitetura ancestral de suas construções. Sendo uma sexualidade objetual e a outra narcísica é de suas específicas naturezas que se expressem de forma absolutamente diversa: uma para fora e outra para dentro.

Uma expressão sexual masculina narcisica (como na foto) se choca contra a estrutura íntima da sexualidade masculina, por isso parece ridícula. Já a estrutura feminina essencial (portanto não cultural) se adapta a essa exposição do corpo como artefato de desejo. Além disso eu concordo com algumas feministas de que não se trata de uma objetualização (apesar da apresentação como objeto de desejo) mas de um reforço do poder feminino que não deveria ser desprezado. Por que haveriam as mulheres de desprezar o imenso poder que exercem na cultura como guardiãs do prazer?

Não há nada de errado ou sexista no corpo feminino como objeto de desejo (que ele felizmente é) mas na REDUÇÃO da mulher a APENAS um corpo sem alma e sem autonomia. No meu modesto ver é possível glorificar e desejar as mulheres e suas formas sem reduzi-las a isso e admirá-las por todas as suas qualidades humanas.

Porém, subverter a arquitetura da sexualidade humana em nome de uma igualdade forçada me parece errado. Talvez, se o tema fosse mostrar sexo para vender produtos (como uma motocicleta), eu concordaria, mas o texto escrever a à foto como sexista (por ser normalmente com uma mulher) e não imoral ou indecente (por vincular sexo com consumo).

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Formato de Corpo

Das expressões que a Zeza usa uma está entre as melhores: “formato de corpo”. Sempre que eu experimentava um roupa qualquer ela dizia “Não ficou bem pro teu formato de corpo”. Isso não significa curto, grande, folgado, apertado e também não significa que você está gordo ou magro. É uma concepção estética complexa e de difícil definição. Uma espécie de “desacerto”. Tipo, você pode ser bonito e a roupa ser linda mas seu “formato de corpo” não deu match. É um Tinder estético. Nao adianta serem ambos bonitinhos, tem que “fechar”.

“Formato de corpo” é um conceito parecido com “temperamento”. Quando você não consegue entender a reação de uma pessoa você diz: “Pois é, infelizmente é do temperamento dele agir desta maneira”. Pronto. Não explica nada, nao dá nenhuma esperança, apenas estabelece um ponto de partida inamovível; uma fatalidade sobre a qual não há o que debater. Com o “formato de corpo” é a mesma coisa. Não adianta você perder peso, ou ganhar; nem mesmo fazer academia ou lipoaspiração. Nem tente implante de gordura pois de nada vai adiantar: é o formato de corpo que não ajuda.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Sem categoria

Esportes e Trans

No debate sobre a jogadora transgênero existem dois lados bem distintos: um que reconhece a jogadora como mulher baseando-se em duas premissas: auto-declaração e nível de testosterona. O outro lado afirma que biológica e fisicamente ela guarda aspectos fundamentais do gênero masculino que, no cenário específico do esporte – mas não na sua nova vida social como mulher – garantem a ela vantagens sobre as outras competidoras.

Existem bons argumentos para os dois lados, e eu vi todos eles sendo ditos por defensores de ambas as perspectivas. Apesar de reconhecer justiça nos argumentos lançados ainda me posiciono contra a liberação por achar que isso prejudica a competitividade das atletas cis.

Entretanto, esta não é uma posição definitiva ou inamovível, apenas uma espécie de zelo com relação à uma aparente banalização da transsexualidade. Posso tranquilamente mudar minha posicao se for nutrido de bons argumentos em contrário. Ultimamente tenho visto muitos debates que questionam as cirurgias e os tratamentos de designação sexual sem que haja uma avaliação mais profunda de questões psicológicas associadas e sem levar em consideração os riscos inerentes aos tratamentos. Hormônios em altas doses e cirurgias mutilatorias são realizadas em nome da “liberdade de escolha”, o que tem valor inequívoco, mas sem que a sociedade entenda bem o que estas intervenções sobre a fisiologia significam. A exemplo das cirurgias para emagrecimento, um novo filão para a medicina mas com inúmeros pontos obscuros sobre seus parefeitos, as mudanças de gênero precisam de uma discussão ampla que envolva os aspectos médicos, éticos, sociais e psicológicos.

Infelizmente para alguns grupos mais fanatizados o mero questionamento sobre o tema produz reações de fúria. Basta questionar se a teoria de gêneros usada na atualidade serviria (também) para o esporte de alta performance para que surjam de imediato reações de grosseria e ataques ad hominem.

Quem não admite o debate e não suporta perguntas inquietantes não passa de um sujeito dogmático e autoritário. Infelizmente pessoas com esse perfil estão tanto na direita quanto na esquerda. A ideia de ver suas ideias prevalecerem calando as ideias alheias ou atacando a honra de quem discorda é um ato medieval e caracteristico de mentes aprisionadas no preconceito.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos