Arquivo do mês: fevereiro 2018

Doulas da Morte

 

Recebi hoje a ligação de um amigo de mais de 4 décadas que me fez refletir sobre uma questão muito relevante. Gostaria que algumas pessoas pudessem contribuir para estas ideias que me parecem importantes.

Esse amigo perdeu um familiar há poucas semanas vitimada pelo câncer, após uma luta longa e cansativa. Agora volta a se ocupar desta questão com a internação da mãe, também acometida da mesma afecção. Durante os cuidados de hoje com a mãe percebeu que a paciente da cama ao lado era uma jovem mãe em tratamento contra uma neoplasia, e imediatamente lhe veio à mente as inúmeras lembranças do caso de sua irmã que havia há pouco falecido. Ao conversar com essa moça (não tinha mais de 40 anos) percebeu que ela e seu marido estavam passando por fases de adaptação à doença semelhantes àquelas que reconheceu em sua irmã. A empatia com eles foi imediata. Alcançou-lhes alguns livros que dispunha, trouxe palavras de estímulo, abriu espaço para reflexão e ofereceu seu tempo para ajudar, se eles assim o desejassem.

Meu amigo ainda tinha coladas, na parede da memória recente, as imagens das lutas e dilemas pelos quais passou nos últimos anos no enfrentamento da inevitabidade da morte.

Foi então que se lembrou de mim e resolveu ligar. Disse ele:

“Querido amigo, acompanho sua luta pelo parto humanizado e, em especial, pelo modelo das doulas. Pelo que sei elas são mulheres (grande maioria) que ajudam outras mulheres no processo de passagem, um rito milenar que as transforma de mulheres em mães através da gravidez e do momento mágico do parto. Parece mesmo que o humano, diante das suas passagens inevitáveis, carece do suporte carinhoso a lhe minorar as dores e agruras do processo. Por isso queria lhe perguntar algo que me parece relevante no meu atual estágio de vida”.

Nesse momento eu já intuía o que estava por ouvir, e meu coração já se encontrava em sintonia e concordância com sua inciativa. Ele continuou:

“Se é verdade o que os estudos nos falam sobre a eficiência das doulas na passagem do parto, por que não seria possível admitir que o mesmo principio fosse positivo se aplicado em outra “passagem”, a morte, o desencarne, a fronteira final? Não seria interessante criar uma “doula para a morte”? Não seria interessante capacitar pessoas comuns que pudessem ser um auxílio NÃO técnico, não psicológico, não médico e nem de enfermagem para dar suporte afetivo, psicológico, espiritual e social àqueles que estão próximos do fim da vida física?”

É claro que a ideia me cativou, e por isso convido os amigos que façam um input de sugestões ou críticas a esta proposta para que possamos saber o que seria possível fazer nesse sentido.

Quem gostaria trabalhar como doula nesta outra ponta da vida?

 

 

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Arquivado em Medicina

Carrapatos

Esses dias morreu (mais uma) menina por aborto inseguro no Brasil e sua história alcançou as capas de jornais e as mídias sociais. Achei que nenhuma notícia poderia ser mais triste do que esta…. até ler os comentários. Neste porão da estupidez humana proliferam como carrapatos os cidadãos de bem, desfilando pestilência em forma de ódio. Lá estão inclusive senhoras, mães, avós amorosas em cujas páginas pessoais do Facebook pululam imagens de Jesus, gatinhos, bolos deliciosos e….. Bolsonaro. A maldade travestida de “justiça” é a mais perversa das armadilhas. Essas “pessoas de bem” são a ralé moral desse país.

Como diria Cunha, outro cidadão exemplar, “que Deus tenha piedade de suas almas”.

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Vida de Médico

 

A expectativa de vida dos médicos é muito menor do que a população em geral. Para homens 70 anos, para mulheres menos ainda. Câncer é uma das principais causas. Por que esta profissão é uma escolha mortal?

O estilo de vida dos médicos é profundamente doentio. A luta por vaidades, dinheiro, posição social, domínio, “cargo”. Excesso de trabalho associada a uma imagem de infalibilidade. Medo dos processos, da culpabilização, da humilhação pública pelas redes sociais, medo de perder o status, de perder ganhos. Medo dos chefes de hospital, medo de perseguições no ambiente de trabalho. Medo dos conselhos, via de regra anacrônicos e corporativistas ao extremo.

Raiva dos calotes, dos planos de saúde, das glosas. Raiva dos pacientes que nos desafiam, dos colegas maldosos, da enfermeira que boicota seu trabalho, da burocrata do hospital que não entende sua conduta.

Frustração por ter sido um pai ausente. Pior ainda, uma mãe relapsa com seus filhos. Depressão por um paciente que morreu e as acusações descabidas de uma família envolta em dor. Tristeza por não conseguir salvar quem se queria. Mágoa pela ingratidão de alguns pacientes. Ódio da falta de material, pela super lotação, pela sobrecarga de trabalho, pelo dilema entre atender rápido ou no tempo correto, deixando a fila se avolumar.

Angústia pelo porvir. Pelos filhos que mal viu, pela mulher que vai deixá-lo, pelo marido que vai encontrar outra, pelos pacientes que nunca mais voltaram, por uma fofoca que andam dizendo por aí, pela mentira absurda sobre um caso que atendeu, por ter deixado um sinal claro passar despercebido. Pelo erros cometidos, pelas falhas das quais se envergonha, pelos esquecimentos, pelos lapsos, por não lembrar o nome da paciente de tantos anos.

Pela falta de esperança de que vai melhorar, pela medicina capitalista e insensível, pelo excesso de drogas, pelo buraco na alma onde se jogam remédios, pelo excesso de exames mentirosos, pelas práticas indecentes, pelo mercantilismo, pelas cirurgias desnecessárias, pelo anacronismo dos tratamentos, pela coisificação dos pacientes, pela objetualização de seus corpos, pela pressão da indústria, pela traição dos colegas, pela falta brutal de reconhecimento pelo esforço.

E…. mesmo assim é preciso seguir. Para muitos médicos o passo em frente é apenas por encontrarem no meio de tantos escombros a chama diminuta que um dia, nos idos da infância, os fez sonhar em dedicar a vida no trabalho de ajudar.

 

 

 

 

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Horários e Poderes

 

Trabalhei por 30 anos com agenda para marcação de consultas, mas meus atendimentos eram marcados a cada hora cheia. Como sou homeopata e obstetra não acredito que um paciente possa ser atendido com cuidado e atenção para abordar a profunda complexidade e sutileza de suas queixas em menos de 60 minutos. Entretanto, eu sabia como era o funcionamento padrão dos consultórios médicos da minha cidade, em especial aqueles que atendem convênios: uma mistura de hora marcada com “walk in“.

Funcionava assim: os pacientes das 16:30 eram 3 ou 4; aquele que chegasse primeiro seria atendido com menos atraso. Muitas pacientes minhas que consultavam com esses colegas me contavam da surpresa que tinham quando a secretária perguntava “Paciente das 16:30?” e várias pessoas levantavam a mão.

Consultas médicas são muito mais do que aparentam ser. Para entender os mistérios intrincados desse encontro pessoal e único é importante entender que uma consulta com um profissional da medicina significa muitas coisas, desde um perdido de socorro, uma opinião técnica, um encontro místico, uma relação erotizada sobre o próprio corpo ou um simples ato burocrático de um “despachante médico” – para fazer perícia, pedir exames ou conseguir um atestado (frio ou não). Todavia, diante de qualquer dessas possibilidades uma consulta é, acima de tudo, uma relação de poder e subjugação.

Muitos médicos que conheço usavam de técnicas sofisticadas para expressar essa assimetria de poderes. A roupa, os estágios intermediários até chegar ao “Dr Fulano” (o porteiro, a secretária para a burocracia, a enfermeira para os sinais vitais, as vezes estudantes para tomar a história e por fim o “doutor”), os diplomas pendurados, o estetoscópio, o jaleco branquíssimo, a mesa separando os corpos, os livros na parede, a linguagem empolada e difícil, etc. Todos os detalhes servem para garantir e manifestar poder. São potentes armas semióticas de subjugação simbólica.

Entretanto a forma mais corriqueira de expressar a distância entre cuidador e paciente é deixar os pacientes esperando. Muitas vezes vi isso ser feito propositalmente; deixavam o paciente na sala de espera enquanto batiam papo ao telefone pois essa espera de alguns minutos determinava os valores dos tempos subjetivos e as respectivas hierarquias. “Você me espera pois eu tenho o poder do seu tempo em minhas mãos. Eu sou o doutor“.

Lembro que eu costumava almoçar com meu filho próximo (ao lado) do meu consultório e ele, com certa frequência, reclamava dos atrasos causados pelo papo que tínhamos na hora do descanso do meio dia. Dizia ele: “Olha aí pai, 14:05. O paciente já deve ter chegado!!!

Eu respondia um pouco surpreso, mas na defensiva: “Calma, são só 5 minutos!!!

Mas ele terminava a conversa com uma expressão claramente debochada e de reprovação: “Claro, o doutor vai chegar atrasado e deixar os pacientes esperando para mostrar quem é que manda…

Ele tinha razão…. não havia desculpa.

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Corpos Expostos

 

Estava conversando com uma amiga ativista da atenção ao parto que está escrevendo sua tese sobre a perseguição aos humanistas quando ela me pediu umas fotos (que aparecem sempre em minhas aulas para os cursos de doula) e que são paradigmáticas para o entendimento da forma como as mulheres são atendidas pelo sistema obstétrico contemporâneo. Essas são fotos que falam muito da maneira específica como funciona a exposição das mulheres e seus corpos na atenção ao parto.

A primeira delas mostra uma mulher completamente coberta por campos estéreis, com exceção dos seus genitais. Esta imagem envia uma clara mensagem da “essencialização feminina”, ou seja, a perda de toda a sua subjetividade e individualidade, sendo reduzida a um contêiner fetal, cuja passagem – e apenas ela – observamos e permitimos que apareça. Faz parte da ideia de reduzir a mulher a um objeto, escondendo a sua totalidade e mostrando apenas uma parte, aquela que nos interessa. A publicidade sabe muito bem como isso se processa, ao mostrar as mulheres como mãos, coxas, lábios, nádegas ou seios; a mulher enquanto sujeito nunca aparece, apenas uma parte sua, onde se encontra o que desejamos vender. Por outro lado, esconder a mulher é uma das formas de PROTEGER os profissionais a partir de des-humanização da sua paciente, tornando-a mais facilmente percebida como um objeto sobre o qual aplicarão sua arte. Com isso a dor, a angústia, o sofrimento e a inevitável empatia que surgirá na interação com um paciente que possuiu alma se distanciam do profissional que, assim liberado, pode agir movido pela razão e sem a interferência das emoções identificatórias.

A segunda imagem é ainda mais interessante. Norbert Elias em “O Processo Civilizatório” descreve a curiosa imagem do banho das cortesãs europeias ladeadas por servos, tanto mulheres quanto homens escravos. É de se perguntar como seria possível que, diante do puritanismo da sociedade de alguns séculos em relação ao corpo, uma nobre mulher ficasse nua diante de seus servos homens. A resposta é dura e cruel: exatamente pela des-humanização desses personagens eles perdiam a condição de sujeitos em paridade com as pessoas a quem serviam. Tinham não mais do que o status de animais, como objetos sub-humanos, pelo quais não faria sentido sentir-se constrangida. Não eram mais do que parte da mobília presente na cena.

O mesmo ocorre com uma mulher que perde sua cidadania e suas características subjetivas, onde o pudor, a privacidade, e as vergonhas de sua nudez carecem de sentido. Os profissionais perdem a capacidade de vê-las como mulheres, inteiras, femininas e possuidoras de corpos animados, erotizados. Tornam-se objetos a quem não faz sentido garantir intimidade. Diante de qualquer reação da paciente, constrangida em sua nudez, a resposta é sempre a mesma: “Não se preocupe, estamos acostumados. Somos todos profissionais”, o que pode ser traduzido por: “Não enxergamos você como uma mulher; perdemos essa capacidade ao chegarmos aqui”

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Arquivado em Ativismo, Pensamentos, Violência