Arquivo do mês: fevereiro 2016

Cesariana “humanizada”

cesariana

 

Sobre o uso do termo “Cesariana Humanizada”

Esta é uma discussão que já tem mais de 20 anos. No meu segundo livro há um capítulo inteiro sobre a inadequação desse termo. Eu sempre chamei de “cesariana digna” ou “cesariana respeitosa” pois creio que estes termos oferecem uma compreensão melhor do que propomos e não criam confusão com o movimento que apoiamos.

Qualquer contato da cirurgia cesariana com o conceito de “humanização” me parece espúrio e uma tentativa de aproximação com o fenômeno complexo e intenso do parto. O próprio termo utilizado por muitos profissionais de saúde, “parto cesariana”, é uma aberração, mas surgiu pelos mesmos motivos: uma espécie de “pinkwashing” da cirurgia de extração fetal. O “parto cesariana” recebe de nós o mesmo repúdio que a expressão “fazer o parto”, quando utilizada pelos assistentes do parto. Parteiro não faz, ele assiste algo que só as mulheres fazem.

A “cesariana humanizada” nos transmite a mesma mensagem subliminar deformada que, como toda criptografia, precisa ser decifrada para ser entendida. A mensagem é: “Ah, você percebeu a importância do ideário da humanização aplicado ao nascimento? Que bom!! Eu também reconheço a necessidade de humanizar o parto, por isso lhe ofereço esse produto, o “parto cesariana humanizado “. Ele é quase igual ao original, mas um pouco mais barato, e você ainda leva a vantagem de não sentir dor nenhuma. Que tal?”

Uma maravilha de marketing, exatamente porque a manifestação acima não precisa passar pelo discurso, pois o conceito se aloja nos espaços entre as palavras, mistura-se com as frases ditas e ganha força exatamente pela sua invisibilidade.

Humanizar o nascimento é GARANTIR o protagonismo à mulher. Sem esse conceito nunca avançaremos em direção aos plenos direitos reprodutivos e sexuais. Em uma cesariana – mesmo quando digna, respeitosa e bem indicada – a mulher NÃO É protagonista do ato (mesmo quando o é da escolha por ele), o qual pertence ao cirurgião. Desta forma, a cesariana carece do eixo central da nossa definição de humanização: a autonomia e o protagonismo restituídos a mulher.

Não há porque ceder a este tipo de manipulação do nosso inconsciente. Cesariana não é parto; é cirurgia de grande porte e que existe para oferecer segurança para mães e bebês em situações limites e de risco elevado para o parto fisiológico. Sem essa consideração corremos o risco de banalizar uma cirurgia cujos abusos são uma grave ameaça à saúde humana, e das mulheres em especial.

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Diagnósticos

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A respeito de diagnósticos cruéis…
(Um tema que deveria ser mais explorado)

Existe um conceito que eu passo para todos os pacientes quando tratamos de avaliações, exames e tratamentos: a ação médica tem como ÚNICO objetivo o auxílio ao paciente. Essa ideia deveria estar na mente de todo o cuidador em qualquer aspecto de seu ofício. A Medicina é uma das possíveis expressões da “fraternidade instrumentalizada”, não uma fábrica de certezas. A Verdade, por si só, é pouco importante para o sujeito que sofre sem que a possibilidade de ajuda se mantenha no horizonte.

Exercer a crueldade de um diagnóstico – que rouba ao paciente a derradeira esperança – em nome da “verdade” ou de um “diagnóstico certeiro” não é Medicina, mas o exercício da desumanidade em nome de um falso ideal de excelência técnica.

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Lendas de Parto

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A paciente chega no consultório muito sorridente e confiante para uma consulta de climatério. Beirando os 50 anos queria se preparar para a nova fase que se avizinhava. Depois de um bom tempo de conversa me conta de seu tesouro: suas filhas. Uma de 27 e outra de 24 anos. Dois partos normais.

– Naquela época era mais fácil parir, observa ela.

Concordo. Perguntei como foram os partos e ela, abrindo um largo sorriso de bochechas vermelhas, me relata:

– O primeiro foi mais demorado, mas muito tranquilo. Já o segundo eu internei muito cedo e meu marido começou a ficar preocupado. Ele não havia sido autorizado a entrar no centro obstétrico e também a mim a angústia pela separação parecia atrapalhar o andamento do parto. As contrações eram espaçadas e breves, pareciam não empurrar o bebê. Eu estava em uma enfermaria com várias outras parturientes, e senti que meu trabalho de parto havia parado. Meu útero estava tímido e constrangido.

– Sei como é. Os aspectos emocionais e psicológicos assumem uma total preponderância na hora do nascimento. Todo o processo é ilusoriamente mecânico e hormonal; em verdade ele é mental, afetivo e ocorre “entre as orelhas”, completei eu.

Ela continuou.

– Houve um momento em que meu marido ameaçou invadir o centro obstétrico caso não permitissem que ele entrasse. Gritou e esperneou, forçou a passagem, mesmo quando a enfermeira lhe explicou que havia “outras gestantes, portanto, seria indecente sua presença entre tantas outras mulheres seminuas“.

– Essa desculpa é usada até hoje, falei.

– Sim doutor, mas ele não aceitou a desculpa e exigiu me ver. Então a enfermeira chefe teve uma ideia conciliadora que ajudou a resolver o impasse.

– Posso imaginar qual foi, disse eu, sorrindo só de imaginar a solução encontrada.

– Exatamente doutor. Meu marido entrou no centro obstétrico conduzido por uma técnica de enfermagem e com uma… venda nos olhos, como um condenado!!! Quando eu o vi tomei um susto, mas fiquei feliz de finalmente encontrá-lo. Tirou a venda e pude ver seu rosto amarrotado de preocupação, mas tive a sabedoria de lhe devolver com um sorriso.

Depois de uma breve pausa continuou contando, até chegar na melhor parte da história.

– Pois o mais interessante aconteceu logo depois. Imediatamente após trocarmos um abraço eu tive uma contração muito forte, e depois outra e mais outra, e a enfermeira veio correndo dizer para fechar as pernas e ir para a sala de parto pois o bebê já ia nascer !!! Em poucos minutos tinha minha filha nos braços. Pode isso?

– Não parece ser uma coincidência, não é? perguntei.

– Não mesmo, Ric. Para mim ficou claro que, para minha filha chegar a este mundo, aquele encontro precisava ocorrer.

Sorri para aquela mãe orgulhosa e completei nossa breve conversa.

– Sim, você tem toda a razão… uma pena ainda não termos tão clara a importância do suporte afetivo para qualquer mulher que está atravessando esse desafio. Quem sabe um dia chegamos lá.

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Abusos

Lolita

 

Abri meu Facebook hoje e tive o desprazer de ver a entrevista de um BBB que havia sido “eliminado” e sobre quem recaíam queixas de ser um “abusador”. Entrevistadores globais solicitaram o parecer de uma advogada para esclarecer o conceito jurídico de “pedofilia”, algo que ele havia sido acusado.

Bem, ao meu ver existem dois debates concomitantes. Um é jurídico, e a doutora falou muito bem ao explicar que pedofilia não é crime, mas que os atos resultantes da pedofilia são. Pedofilia é um diagnostico clínico , e não um delito. Só se tornará delito caso se torne uma AÇÃO. A única ressalva ao que a advogada disse na entrevista é que, ao saber que um caso de abuso de menor está ocorrendo, uma pessoa DEVE denunciar (e não “pode denunciar”, como ela disse).

Quanto à idade para ter relações sexuais, trata-se de uma tendência mundial. Em vários países da Europa a idade mínima é de 13 anos. Isso é uma adequação das culturas à disseminação de informação e conhecimento. Portanto, namorar com “novinhas” pode ser um ato idiota, algo que demonstra insegurança ou exibicionismo, talvez até um negação de sua maturação pessoal, coisa de “eterno adolescente”, síndrome de Peter Pan. Entretanto, se a menina tiver mais de 14 anos não é crime. Isso é o que diz o código penal.

O outro assunto – muito mais grave e complexo – ė a publicidade que se dá a personagens como este. Isto sim é criminoso. Que importância esse sujeito e suas “namoradinhas” tem para a sociedade? Por que perdemos tanto tempo debatendo estas figuras desimportantes? Qual a razão de ainda aceitarmos esta invasão de lixo em nossas casas?

Para mim o único ensinamento foi a idade mínima para relações, pois eu não sabia que no Brasil já havia mudado. De resto foi holofote desperdiçado em sujeitos patéticos e inúteis.

Não vejo esse programa e nem conhecia esse sujeito. As únicas coisas que eu acho passíveis de debate foram as declarações dele e da advogada na entrevista de hoje. Quanto às palavras dele, bem… o desejo alheio não me diz respeito. Se ele quer se relacionar com meninas e não está infringindo – ou obstruindo – a lei eu só posso aceitar. Minhas considerações sobre o gosto dele com as mulheres são irrelevantes. Se você acha que 14 anos é pouco, há controvérsias, mas é o que a lei diz. Se ele é um machista, as mulheres que decidam se vão ou não se relacionar com ele; não cabe a mim julgar suas escolhas.

Por outro lado, se a Globo o colocou para fazer esse papel no Big Brother posso apostar como ele foi ORIENTADO à falar isso para gerar polêmica. Chama a atenção o fato de ele confessar gostar de “novinhas”, mas ficou claro que as “meninas” dele estão dentro do limite legal. Isto é, ele sabia o que estava fazendo, e provavelmente foi orientado a fazer isso. Não confessará publicamente um crime grave, mas conseguiu chamar a atenção para si e para o programa.

Posso ver a cara do Boninho e do Bial dando gargalhadas com esse “personagem”. Conseguiram um pouco de ibope para uma atração decadente.

Sobre as afirmações “abusivas” ou “machistas” deste cidadão durante o programa eu desconheço por completo. Tenho orgulho de dizer que nunca tinha visto aquele barbudo até hoje. Faço o melhor boicote possível ao lixo televisivo: desligo a TV.

Assim, o gosto dele por novinhas não me cabe julgar, assim como não julgo Suzana Vieira ou Madonna por namorarem caras que teriam idade para serem seus filhos. No máximo posso dizer que não me serve, mas repito que minha opinião é irrelevante. Se as meninas são legalmente responsáveis então só me resta lamentar o mau gosto.

PS: A única coisa que me incomoda nessas histórias de homens idiotas que namoram com meninas, ou senhoras idosas, ou meninas do interior, ou meninas feias, ou gordinhas , ou tolas é que SEMPRE se coloca a mulher como passiva na história. O HOMEM é sempre o protagonista, para o bem ou para o mal. A mulher nunca fala, nunca reage, nunca se indispõe, nunca reclama, nunca tem voz. Ela segue a onda que o corpanzil do seu homem faz na superfície da relação.

Eu não considero abuso quando as pessoas são legalmente responsáveis pela sua sexualidade. Se isso pudesse ser tipificado na LEI imaginem o que ocorreria entre QUALQUER relação. Qualquer mulher poderia dizer que é “frágil” do ponto de vista emocional e que os homens são abusivos em função disso. Ora… não é justo colocar as mulheres nessa posição de vitimas quando são maduras o suficiente para fazerem escolhas. Temos que parar de tutelar as mulheres julgando-as sempre fracas, frágeis, incompetentes ou imaturas. Se você acha que 17 é pouco, lute pela mudança de lei, mas posso apostar que milhares de mulheres não aceitam essa tutela que diz que, por serem “frágeis e carentes”, não podem fazer escolhas amorosas com 17 anos.

Vamos excetuar aqui as violências que estão previstas na lei: menores de idade, embriaguez, terror, ameaça, bullying físico e/ou psicológico etc. Estou falando de dois (ou três) ADULTOS que se relacionam. Por que ainda testemunhamos este tipo de discurso que coloca o homem como o ator de TUDO? Por que as próprias mulheres determinam a incompetência da mulher em resolver suas questões e escolher qual caminho seguir? Se uma menina lésbica resolve se manter conectada àquele casal é porque “estava frágil e carente”, e não porque assim o desejou!!!!! Isto é, ela é passiva, não tem desejo, é manipulada, não consegue fazer escolhas, não tem elementos para decidir o que é melhor para si…

Eu não me conformo com essa ideia, que ainda é muito disseminada até no universo da humanização. Quando uma mulher de 30 ANOS escolhe fazer uma cesariana, a culpa é sempre do médico. Ela se coloca de forma passiva, inerte, incapaz de se mover. Como uma criança. Sem que as mulheres se responsabilizem por TODAS as suas escolhas – as amorosas e as de parto – jamais terão o pleno protagonismo. A alienação nunca será um caminho para a libertação.

“Eu não sei de nada, ele me envolveu com palavras e presentes, e aí fiquei desnorteada e acabei por…”

Até quando veremos as mulheres oferecendo o protagonismo aos homens e deixando que eles comandem suas vidas?

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Penico

Oliver 01

 

Ligo para meu filho e minha nora Ariane atende. Depois de conversar um pouco com ela peço para falar com Oliver.

– Oliver, diz ela, vovô Ricardo quer falar contigo.

Ele responde, sem desviar a atenção do que estava fazendo:

– Não posso, estou aucupado lavando meu penico .

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