Arquivo do mês: junho 2020

Piadas

A piada era: “qual a pior parte da b*? A mulher que vem junto.”

Na adolescência isso parecia engraçado entre os garotos. A gente estava numa fase “incel”, e agia como a raposa diante de cachos saborosos de uva, desprezando o que não podíamos alcançar. Depois de amadurecer um pouco – e encontrar a alma feminina que se escondia por debaixo das curvas – a piada se revelava em sua objetualização horrenda e, assim, perdia a graça e o sentido.

Pois agora percebo, sem surpresa, que este tipo de piadas vira de lado, com o mesmo caráter depreciativo. São os homens que agora são tratados com desdém, descritos como os “maridos dos programas de TV” – estúpidos, ignorantes, infantis, tolos, limitados e inúteis. A naturalidade com que as meninas contam essas piadas – iguais àquelas da nossa juventude e com sentido trocado – prova que não há nenhuma superioridade moral de um gênero sobre o outro. Para mim sempre foi clara essa semelhança por cima de todas as outras diferenças superficiais: dadas as mesmas condições, homens e mulheres são igualmente grosseiros ou virtuosos, estúpidos ou geniais.

Todavia, as mulheres que amam seus homens – pai, marido, filhos, irmãos – sentem desconforto com estas piadas depreciativas, exatamente porque sabem que elas desprezam o próprio amor que devotam a eles.

Qualquer ideia de uma diferença essencial esbarra na realidade evidente: ambos carregam a mesma centelha de inteligência ou violência.

PS: A razão dessa reflexão foi ler uma menina escrevendo em um fórum do qual participo “eu gosto mesmo é de p*, o problema é o homem que vem de brinde”. As gargalhadas que se seguiram fizeram eco com o que acontecia na minha adolescência. A mesma piada agora sendo contada pelas mulheres, e talvez pelas mesmas razões de antigamente.

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Cancelamento

“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”.

O cancelamento é um ritual característico de nossa época apesar de que a Inquisição já cancelava gente por pensar diferente quando tudo aqui era – literalmente – mato.

Existe um determinado roteiro para cancelar um sujeito. Primeiro ele precisa ser um expoente em sua área. Não é necessário nem que tenha qualidade ou profundidade, mas é importante que seja referência. Ninguém diz “estou cancelando o motorista do ônibus porque descobri que ele é homofóbico”. Não, “no one gives a sh*t”. Precisa ser alguém relevante para a cultura e/ou para um determinado segmento dela.

Via de regra funciona assim: o sujeito passa a vida defendendo abertamente os setores oprimidos, sejam gays, trans, mulheres, indígenas, imigrantes, etc, seja no foco específico do seu trabalho ou seja por declarações que faz por sua condição de celebridade. A partir disso seus fãs constroem uma imagem idealizada, da qual ele fatalmente se torna prisioneiro. Todas as suas falas passam a ser vigiadas, milimetricamente construídas. Alguns contratam consultores de imagem para monitorar suas ações e suas falas. Tudo para se manter dentro da caixa estreita que foi construída para si, mas que, ao mesmo tempo que o oprime, fomenta sua fama, seu poder e seu dinheiro.

Algumas vezes, por distração, falta de cuidado ou de propósito, estes sujeitos se rebelam contra essa “condição de confinamento pela opinião pública”. Resolvem falar algo que acreditam ou sentem, mas que ofende seu fã clube. Como FHC dizendo que fumou maconha ou que é ateu. Como um presidente americano dizendo que não foi à igreja no domingo, ou como alguém questionando o termo “pessoas que menstruam”.

As vezes fico curioso de saber como seriam as opiniões de algumas pessoas públicas não fossem elas presas ao controle social da opinião. Muitas vezes seria o oposto do que acreditamos.

Pois o cancelamento, via de regra, acontece pelo detalhe. Mesmo que a vida inteira de um sujeito tenha sido dedicada à diversidade, contra o racismo, contra o sexismo e a favor de minorias, basta uma piada, uma observação, uma discordância do núcleo duro dos movimentos para que seja decretado o cancelamento. J. K. Rowling foi assim. Para Woody Allen bastou uma mentira repetida à exaustão. Para outros o uso de uma palavra proibida, como “denegrir”. Para muitos apenas uma frase em momento de descontração.

Quando o processo se inicia ele atinge a moral do sujeito. Assim, retira-se o fundamento espiritual profundo do acusado, como a peça da base do jogo da Jenga, fazendo toda a vida do sujeito desabar. A obra, seu trabalho, suas relações, seus prêmios, suas conquistas são imediatamente destruídas, incineradas na fogueira da opinião pública.

É facil perceber nesse processo o gozo de quem acusa, pois que ele oferece uma imensa satisfação à pessoa comum, aquela que sempre se sentiu secretamente oprimida pelo gigantismo do seu ídolo.

“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”. Essa é a vingança do fã que se sentiu traído quando sua idealização foi rompida. Essa vingança aparece na internet todos os dias quando personagens são cancelados, destruídos, atacados por apresentarem-se como verdadeiramente são, ou por não cumprirem o acordo tácito criado pela idealização: “Você será como eu quero, e eu lhe dou meu amor”.

Na verdade os ídolos contemporâneos são construções sociais em que cada um coloca um pouco de suas projeções e aguarda que ele se comporte de acordo com elas.

Em suma, uma vida insuportável.

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Zíper

Ainda impactado com as novidades que vivenciei em meu primeiro plantão em um centro obstétrico, encontrei meu pai recostado em sua poltrona lendo um livro e tomando uma xícara de café. Eu não tinha mais do que 20 anos de idade e o contato com o nascimento humano me havia deixado deslumbrado. Mais do que o universo químico, hormonal e mecânico que eu só aprenderia mais tarde, esta oportunidade me havia jogado de cabeça na realidade crua e animal do parto. Em verdade, mal eu sabia que esta experiência me transformaria a tal ponto que seria o funil pelo qual, por muitos anos, eu enxergaria o mundo.

No plantão que fiz como estudante em um pequeno hospital de periferia acompanhei, junto ao médico, o nascimento de uma criança. Lembro até hoje do nome do bebê que nasceu: Maurício. Não pude esquecer porque se parecia com o nome do meu pai, “Maurice”, uma provável homenagem ao cantor, ator e humorista parisiense Maurice Chevalier. A explosão sensorial a que fui submetido foi estupenda. Senti-me catapultado para um estrato de percepção completamente diverso daquele a que um menino ainda adolescente vive em seu cotidiano. As dores, os puxos, os esforços, o suor, o sangue, o líquido da bolsa, o grito, o alívio. Depois o cansaço, a dúvida, as incertezas. Também vi o abandono e a superação, todos juntos e embrulhados em um pacote chamado “vida”.

– Acompanhei um parto ontem no hospital, disse-lhe eu, fingindo uma naturalidade que evidentemente era falsa.

– Humm, disse ele. Que tal?

– Interessante, respondi.

– E como é? Em verdade eu sou do tempo em que os pais eram proibidos de entrar em um centro obstétrico. Mas, para ser sincero, nunca me passou pela cabeça assistir algo assim. Mesmo se tivesse esse direito eu declinaria. No nascimento dos meus 4 filhos minha única preocupação sempre foi saber se havia gasolina no carro para levar até o hospital. O resto era com as freiras e com os médicos.

– Eram outros tempos, disse eu. Pois é muito curioso ver uma criança nascendo. A dilatação, o aparecimento da cabeça, o corte no períneo para permitir a saída e o nascimento e depois os pontos para fechar o corte.

– Corte na vagina?

– Sim, se chama “episiotomia”.

Ele parou alguns instantes, tomou um gole de café. Ficou me olhando com uma face desconfiada. Por fim, perguntou:

– Como é feito este corte na vagina?

– Com bisturi ou tesoura. Fazemos assim para não estragar a vagina. Se o corte não for feito os tecidos esgarçados pela passagem da cabeça podem se romper de forma errática, destruindo a anatomia dessa região, o períneo. É uma forma de “civilizar o parto” que, de outra forma, poderia trazer danos para a mulher.

– Hummm, respondeu ele coçando a cabeça. Ok, eu entendi, mas com qual material é feito esse bisturi? E a tesoura?

– Creio que de aço inoxidável, por quê?

Ele sorriu e respondeu:

– Sua história não faz sentido. Não consigo entender como poderiam usar aço inoxidável para fazer isso.

Eu sabia que havia um truque em sua pergunta, mesmo assim resolvi continuar.

– Qual o problema? Queria que usasse outro material? A questão é que nos hospitais a esterilização e as autoclaves pre….

Ele me interrompeu com a mão espalmada a frente.

– Calma, não estou fazendo críticas ao material, mas não consigo entender como um processo fisiológico e natural como o parto precisa de uma ajuda tecnológica que tem apenas algumas poucas dezenas de anos. Para mim, ajudar tecnologicamente um parto é como furar o nariz para aumentar a passagem de ar, como se nossos narizes fossem insuficientes, defectivos e falhos. Como o processo adaptativo de milhões de anos se esqueceu de dotar as mulheres de um “zíper” neste local para auxiliar na passagem de um bebê? Como as parteiras primitivas cortavam o períneo na pré-história? Com pedra lascada?

Tomou mais um gole de café e continuou a me bombardear com perguntas desconcertantes.

– Como podemos admitir que um processo fisiológico e natural necessita de um “conserto” que só vai ocorrer milhões de anos depois? Essa conduta – romper as vaginas para alargar a passagem – me parece insensata se formos analisar por uma perspectiva darwinista. Onde estava o processo evolutivo que não olhou para as mulheres? Por que a natureza se esqueceu delas e ficou milhões de anos aguardando um garoto como você para ajudar estas senhoras a terem filhos?

Para um eletricitário aposentado ele tinha uma observação muito objetiva da realidade. Eu fiquei sem entender sua posição e por causa disso resolvi fazer o que qualquer um faria: desconsiderei sua fala acreditando ser apenas uma tolice produzida por alguém que não conhecia o tema em profundidade. Troquei de assunto e contei as outras peripécias do meu dia de plantão.

Corta a cena e, oito anos depois, eu fazia plantões – agora como obstetra – em um hospital de periferia. Depois de costurar um períneo na madrugada lembrei das ponderações do meu pai naquele encontro regado a café. Pensei na sua observação e nas suas exatas palavras: “Não faz sentido”. Questionei solitariamente os significados últimos desse procedimento e o que lugar ele ocupava na narrativa contemporânea da obstetrícia. Lembrei de suas origens com De Lee e a emergência da obstetrícia como especialidade médica, ao mesmo tempo em que ocorria o ocaso da parteria. Alguns anos depois Robbie Davis-Floyd escreveria “Birth as an American Rite of Passage” e este enigma, em minha mente, seria solucionado. Antes disso, no início dos anos 90, durante a solidão de um plantão de periferia, eu decidi que não faria mais episiotomias de rotina, que não mais perpetuaria um procedimento que, lentamente, ia se configurando como uma real violência contra as mulheres e sua integridade física. Naquele exato dia, com as lembranças da perspectiva do meu pai sobre esse procedimento, eu abandonei essa prática.

Ainda perplexo pela minha decisão, resolvi escrever nas costas de um manual de obstetrícia, um código pessoal de conduta para os procedimentos obstétricos. Procurei ser o mais sucinto possível e escrevi uma lista que se baseava em cinco pontos capitais, sendo o sexto adicionado apenas 10 anos depois quando do surgimento das doulas no Brasil:

1- Ambiente acolhedor

2- Posição vertical como padrão

3- Suporte físico e emocional

4- Uso restrito de drogas

5- Uso restrito de intervenções

6- Auxílio de doulas

A observação do meu pai havia plantado uma semente de dúvida sobre o que era o proceder médico. Pude enxergar que tais procedimentos são baseados no que eu mais tarde chamaria de “misoginia essencial”, que pode ser definida como a incapacidade da sociedade patriarcal em reconhecer as mulheres como intrinsecamente capazes e aptas para suportar os desafios que lhes cabem, em especial aqueles ligados à reprodução.

Por fim, eu entendi que a tarefa de auxiliar as mulheres durante o parto passava por uma compreensão da real posição de um cuidador: aquele que deve estar ao lado, invisível, como feito de vidro, para que suas intervenções não venham a ofuscar a luz que emana daquelas que devem brilhar.

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Realidade em preto e branco

Copacabana, anos 70

Mais uma imagem que mostra o apartheid do Rio de Janeiro, e de resto o que ocorria em todo o Brasil. O Rio é uma cidade mestiça, com muitos negros e mestiços, mas a praia sempre foi de exclusividade dos brancos. Os negros e pardos aparecem nestas imagens apenas como serviçais, empregados, trabalhando onde os outros descansam e/ou se divertem.

Para aqueles que diziam não haver racismo nesta época eu apenas lembro que a expressão deste problema social só ocorre quando existe algum tipo de tensão e conflito. Nessa época havia a “paz do silêncio”, quando a questão racial era escamoteada e escondida. Até mesmo os negros sobreviviam se adaptando a uma sociedade que não foi construída para eles, de mulatas do Sargentelli a jogadores de futebol.

Cada um olha para essas imagens e extrai delas o que deseja. Eu não posso evitar o choque de ver a construção racista do nosso país. Não quero abrir polêmica, apenas lembrar do racismo em que vivíamos ao mesmo tempo que sofríamos a repressão de um regime brutal. As imagens concordam comigo.

Mas… sim, como era bom ser branco e de classe média no Rio dos anos 70.

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Vulvas defeituosas

Poucas coisas são mais emblemáticas do machismo estrutural da Medicina, da ginecologia e (em especial) da obstetrícia do que uma especialidade médica que se ocupa em consertar os erros essenciais da genitália feminina.

Não é necessário usar o argumento sexista de que deveria haver uma especialidade médica para ajustar os equívocos do aparelho reprodutor masculino também, e a razão é simples: nenhuma alteração seria necessária em qualquer dos gêneros, pois esta anatomia foi criada e modificada por milhões de anos de processo adaptativo. Não existe beleza que não seja simbólica, nem feiúra que não se faça pelo olhar que a cultura devota a um fato, objeto ou sujeito. Os conceitos de “belo” são produções de suas épocas, que o digam as divas gordinhas do século XVIII ou as roupas estravagantes dos anos 70.

A idéia de “consertar” genitais femininos só pode partir de um olhar diminutivo, defectivo e preconceituoso sobre a anatomia feminina. Apenas uma sociedade ainda soterrada nos conceitos patriarcais pode admitir que exista um estética “adequada” ou correta para vulvas. Acreditar que existe “algo a melhorar” é aceitar a inferioridade física da mulher como um fato.

Eu ainda fico mais surpreso ao ver tantas mulheres se submetendo à ideologia de defectividade dos seus corpos. Também ficava chocado com mulheres que me diziam ter “nojo” (era essa a palavra usada) de tudo relacionado à menstruação: cheiro, “sujeira”, sangue, manchas, dores, alterações de humor, etc. Nunca escutei um homem reclamando de seus testículos, mesmo sendo uma anatomia muito mais questionável (por quê do lado de fora do corpo??), e muito menos do pênis. Mas, incrivelmente, testemunhei mulheres descrevendo vulvas e vaginas como “feias”, “asquerosas”, e “nojentas”.

Claro que estes discursos são produções culturais. Não existe valor absoluto nestes conceitos. Meninas são ensinadas a desvalorizar seu corpo, a tratá-lo como equívoco e falha, enquanto os meninos o enxergam como potência e beleza.

Outro fato curioso é que na diretoria da “associação brasileira de ajeitadores de x*x*ca” está…. uma mulher, o que mostra que a visão diminutiva da mulher é tão forte e pervasiva que as próprias mulheres médicas precisam acreditar nela para exercer essa função. É verdade, mas bastaria observar como as médicas se comportam em relação ao parto para entender como a visão médica do feminino tem poder sobre as próprias mulheres que se propõe a tratar os corpos de outras mulheres.

Sempre haverá desculpa para explorar este tipo de mercado. A primeira é de que seria para ajustar problemas congênitos ou produzidos pelos partos – o que seria razoável – mas sabemos que a publicidade é direcionada às mulheres normais em busca de uma “xexeca perfeita”, um produto criado de forma proposital para vender todos os artifícios possíveis nesta busca – a exemplo do corpo com formas perfeitas que se busca nas “academias”.

A segunda desculpa é de que isso se deve a uma “demanda das próprias mulheres” a exemplo do que ocorre nas cesarianas, mas sabemos o quanto estas demandas são artificialmente produzidas pelas ideologias hegemônicas, que direcionam as mulheres a desconfiar de suas formas, nunca se satisfazerem do seu corpo e, no caso das cesarianas, não acreditar em na sua capacitação inata para gestar e parir com segurança. Assim, como ação inicial – cultural e subliminar – desacredita-se nas capacidades femininas insuflando-se desde a mais tenra idade uma desconfiança essencial e, como segunda etapa, vendem-se soluções cosméticas ilusórias para suprir esta falta, que vão das cesarianas às plásticas vulvares. Lucra-se com a destruição da autoimagem feminina, vendendo a elas a solução externa para um problema que foi criado no interior de suas almas.

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