Arquivo do mês: agosto 2016

Na antessala de Belzebu

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Na fila do inferno o secretário do Capeta anuncia:

– Por favor, advogados, cesaristas e vendedores de telemarketing, fiquem na fila de esquerda e aguardem a chamada. Vendedores de plano de saúde, pedreiros que faltam na segunda e empregadas que queimam o arroz, fiquem na fila do centro. Segurem o seu cartão verde na mão junto com o atestado de óbito e o cartão do SUS.

– E nós?

– Neonatologistas que afastaram bebês de mães e enfermeiras que atacaram doulas segurem seus cartões vermelhos e aguardem aqui que o Sr Belzebu vem falar com vocês em pessoa.

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Privilégios

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Um sujeito conta a sua historia pessoal de auto glorificação e imagina que isso pode ser extrapolado para a complexidade das estruturas sociais e vocês chamam isso de argumento??? Quer dizer que o Pelé ser rico prova que não existe racismo no Brasil? Quer dizer que a existência de uma executiva de sucesso prova que não existe machismo? Esse é o “argumento arrasador”? Por favor… melhorem o discurso e parem de adjetivar e ofender quem discorda de vocês. Isso não me (nos) ofende e não ajuda em nada a causa dos liberais.

Essas histórias de “self-made man” são acima de tudo mentirosas, pois mais escondem do que expressam. Nunca se conta, por exemplo, o pai, a mãe, os irmãos, e escola, os professores, o livro, o calçado, a comida, a saúde psíquica dos pais, e bondade dos amigos, o grupo, a igreja, a coletividade, os avós, o clima político da época, etc… tire tudo isso de sua formação – coisas que você GANHOU GRACIOSAMENTE DA VIDA – e o desenrolar de sua vida seria bem diferente. Basta que no seu (ou meu) relato houvesse um buraco na figura paterna, ou um pai espancador (como se vê tanto entre os pobres) e sua história já teria um desfecho diferente.

Pense nisso, nos seus privilégios invisíveis, antes de se achar tão corajoso, brilhante ou especial.

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Corpo Fechado

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Sou a favor do pleno protagonismo – em especial das mulheres – e isso inclui aceitar escolhas que me parecem tolas ou inadequadas, mesmo sabendo que minha ideia pessoal sobre essas determinações de nada interessa a quem se responsabiliza por elas. Sem essa possibilidade de decidir nunca haverá liberdade plena. Por outro lado, e com as mesmas justificativas, reconheço para os médicos a “objeção de consciência“. Uma mulher pode se esterilizar aos 25 anos, mas não pode obrigar um profissional a produzir um dano físico em seu corpo. Isso significa que o pleno protagonismo feminino não implica no completo desempoderamento do profissional.

Mas nem sempre vemos os profissionais de saúde respeitando as decisões soberanas das mulheres sobre seus corpos. Em verdade, o que norteia a postura dos profissionais da assistência é a bússola do patriarcado. Sua visão a respeito delas é sempre colocada sobre o pano de fundo da defectividade essencial e do corpo servil que possuem. Nunca uma mulher pode tomar decisões sobre si mesma sem que estas sejam controladas pelo ordenamento falocrático. Mas, tão entranhada está tal configuração nas relações sociais que sequer é percebida pelos médicos, que escamoteiam seu machismo com um discurso cientificista ou higienista. “Acredite em nós, é pelo seu próprio bem“.

Para ser franco, eu defendo até cesarianas banalizadas. Não acredito que vamos oferecer maturidade tratando eternamente as mulheres como crianças. Escolham a cesariana e depois percebam o erro que cometeram; proibi-las de fazer más escolhas não as tornará maduras ou adultas.

Quanto ao consentimento do parceiro isso me parece uma “excrescência cultural que apenas permanece pela inércia dos preconceitos”, a qual precisa ser abolida. O desejo reprodutivo precisa ser investigado antes da formação da parceria. Se a mulher (ou o homem) não deseja filhos, não case com ela (ele). Não faz sentido um homem (ou mulher) deliberar sobre ou corpo de sua (seu) parceira(o).

Concluindo, uma mulher que deseja exterminar sua capacidade reprodutiva precisa ter garantido esse direito, por mais que isso nos cause dor. Se a um homem é permitido emascular-se para se tornar mulher, por que seriam as mulheres impedidas de tornarem-se estéreis, para dar conta de seus desejos e limites subjetivos?

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Apartheid

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Para alguns é difícil compreender a diferença entre racismo institucionalizado e racismo como excrescência cultural. É realmente difícil explicar isso para quem se nega a enxergar a potência de uma norma institucional. Para muitos a promulgação da Lei Áurea não precisava ter acontecido, e poderíamos ter banheiros, escolas, cinemas e ônibus separados para brancos e pretos, afinal… não faz diferença alguma se estiver na lei ou nos costumes, não é?

Para estes mesmos, a luta de Martin Luther King foi inútil porque a polícia americana continua matando mais negros do que brancos. Portanto, se o racismo existe, porque não regulamentá-lo? (entendam a ironia, pelo amor de Deus)

Mandela? Pffff… um inútil idiota. Afinal, para que toda a sua luta, que consumiu uma vida inteira, para acabar com o racismo se a economia ainda hoje continua na mão dos brancos africaners?

Muitos, municiados por estas falácias, se negam a enxergar a força simbólica das leis. Mudá-las, em direção à justiça social, é um motor poderoso na direção da paz e da equidade.

Eu fico espantado com o quanto existe de gente de bem que nunca percebeu que as leis discriminatórias produzem uma MARCA na sociedade, uma “mancha” que é muito mais grave do que a existência de uma cultura ainda discriminatória e injusta por força da inércia de seus preconceitos. Não perceber essa diferença é grave, pois produz uma equalização TOLA. “Ah, já que o Brasil é racista e os Estados Unidos também, qual o problema de criarmos leis que separam as raças?“. Ou então: “Ah, já que Israel tem Apartheid, qual o problema de fazermos isso também com nossos índios e aplicarmos um genocídio LEGAL aos povos nativos?

Não entender essa diferença é a faísca da selvageria e da brutalidade, a qual facilmente acende os piores instintos fascistas.

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Um Corpo no Chão

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Cena banal…

A xícara de café fumegante assiste ao meu lado a derradeira pirueta desconcertante da ginasta gringa quando um grito corta o ar e faz a funcionária de cabelos oxigenados correr para a porta. Virando meu corpo em sua direção pude ver os derradeiros movimentos de um balé macabro.

Um rapaz bem vestido rouba a bolsa de uma mulher e sai em disparada. Descoberto por um taxista que testemunhou a cena faz uma escolha da qual se arrependeria, entra na rua errada e acaba alcançado por um passante e um motoboy. Cercado, levanta os braços, deixa cair a bolsa e se ajoelha, ainda mantendo as mãos para o céu. O silêncio que se seguiu ao grito é substituído por uma profusão de vozes, berros e exclamações. Muitos correm para a cena, mas eu me limito a me erguer da cadeira da cafeteria e, sofregamente, me dirijo à porta.

O motoboy, jaqueta de couro e botinas, mimetiza uma jogada de futebol americano. Com seu capacete reluzente enquadra o corpo forte e, como um “kicker” desfere um violento chute no corpo do rapaz. Pelo acúmulo de pessoas que agora envolvem a cena, não pude ver onde o impiedoso pontapé o atingiu. Escuto um grito surdo, seguido de gargalhadas e comentários jocosos e histéricos. Mais de 20 pessoas agora cercam o menino, cujo corpo desapareceu, envolto pela turba.

Passam-se alguns minutos e uma senhora tenta me explicar os detalhes do roubo, mas é interrompida por um senhor de uns 65 anos que, com um sorriso nos lábios, dispara: “Esse aí não rouba mais”.

Quebraram a perna dele, continua. Chutaram a perna do ladrão até quebrar. Partiram ela no meio“. Era indisfarçável o prazer estampado em seu rosto ao relatar a pequena chacina, o linchamento que ofereceu um pouco de diversão às pessoas de bem que circulavam no entorno da cafeteria.

O povo continuava em volta, e por vezes eu escutava os gritos do rapaz. As pessoas se amontoavam em torno do seu corpo roto, enquanto esperavam a polícia, paradoxalmente a única esperança que o pobre ladrão tinha de estancar o linchamento.

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto a foto de um gol
Em vez de reza a praga de alguém
E um silêncio servindo de amém.”

A barbárie, entre gritos e sussurros, espreita em qualquer esquina, bastando para isso que o mundo lhe ofereça uma forma de pegar carona no ódio alheio.

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Nos Lençois

Lençois

No que concerne à performance feminina no sexo não acredito na existência de uma “técnica” ou segredo que vá dar conta dos desejos masculinos. Erram os que imaginam que a exuberância será inexoravelmente arrebatadora. Tudo o que temos é a imagem de um bêbado cambaleante tentando encontrar o buraco da fechadura na escuridão do desejo alheio.

O que existe é uma união trânsfuga desacompanhada, um mergulho solitário na própria fantasia. A encenação no teatro dos lençóis é apenas a tímida tentativa de acompanhar a filmografia fantasmática do parceiro. Isso é sempre um tiro no escuro. Nem sempre um decote terá um efeito fatal, muitas vezes o pudor e uma certa timidez podem ter efeitos arrasadores. Nada é exatamente como é quando expresso no universo do simbólico.

No sexo, como de resto na vida como um todo, é impossível não encenar. Não existe vida fora do simbólico, assim como não é possível, dentro da linguagem, estabelecer um encontro sexual que não seja movido pela fantasia. A vida sexual sem o mundo que se descortina tão logo fechamos os olhos é absolutamente inviável. Não há como acontecer uma relação sexual verdadeira pontuada pelo desejo “puro”, pelo objeto de adoração e desejo. Somos contaminados pelo simbólico e deles jamais podemos fugir. A “queda” e a expulsão do paraíso nos impedem de voltar. Somos encarcerados inexoravelmente a um mundo que mais esconde do que apresenta.

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Adeus

Então subitamente ela se foi, levando consigo colado ao rosto um vinco de dúvida, uma ruga de medo e um sorriso envergonhado. Fechou a porta com pressa, deixando atrás de si, trancado comigo, seu perfume de adeus. Seu cabelo cor de mel balançava ao ritmo do desejo enquanto o sol que se punha cobria de ouro seu rosto de cristal

Depois daquele último encontro nunca mais a vi, e a saudade que deixou corrói feito zinabre. Quando voltou à noite para casa jogou sobre a mesa um boa-noite surdo junto com as chaves do carro e foi direto para seu quarto sem nada dizer.

O adeus é um punhal cravado na alma.”

Sean O´Malley Jr, “The last Goodbye Forever”, Ed. Pancras, pag 135

Sean O´Malley Jr nasceu em Dublin em 1982 e passou toda a sua infância em Ballyfermot, um bairro de má reputação pela violência urbana e pelo tráfico de drogas. Seus textos iniciais, publicados em uma coletânea de sua escola – a St Dominic´s College – giravam em torno do cotidiano de seu bairro: drogas, garotas, brigas de rua, gangues e bebedeiras. Quando saiu do ensino médio e entrou para a University College in Dublin ocorreu um fato que mudou completamente sua vida e suas perspectivas: o acidente de ônibus em Hawk Cliff que vitimou 4 de seus colegas que realizavam com ele uma excursão para a praia. A partir desse acidente – e sua longa estada no hospital com fratura na coluna – resolveu trancar o curso de Engenharia de Metais e percorrer uma trajetória na literatura. Escreveu seu primeiro livro de ficção apenas um ano após deixar o Rotunda Hospital e ainda em cadeira de rodas. Este livro teve boas críticas e se chamou “The View from Above” (A vista de cima). “The Last Goodbye Forever” foi seu terceiro livro, e mistura contos, crônicas e poesia. Vive em Skibbereen com sua esposa Maggie.

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Necessidades

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Sensações inesquecíveis e que não custam quase nada…

Comer quando se está com fome,

Beber quando se tem sede,

Dormir quando o sono chega e

Amar quando se é amado.

Todas as outras coisas que acontecem em nossa vida ficam em segundo plano, pois carecem da impregnação indelével que tais momentos provocam.

As três primeiras são necessidades. A última é da ordem do simbólico, inserida na linguagem. As necessidades nos chegam pela via do atavismo, mantidas pela evolução das espécies.

A última é feita do desejo e só ocorre pela fissura aberrante da ordem cósmica, a qual chamamos “amor”. Só pela arquitetura impensada da altricialidade – a dependência extremada do cuidado alheio – se fez possível o amor primordial de uma mãe por seu filho e, se este amor é real, tal é sua matriz, sendo todos os outros amores dela derivados.

Se amamos é porque alguém um dia nos ensinou, e deste aprendizado, tornado sentimento, nos tornamos cativos para sempre.  Assim fazemos dessa criação uma necessidade que, se não sacia o corpo por ser diáfana e etérea, alimenta a alma e nos torna perdidamente humanos.

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Conchinhas

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Para mim a melhor coisa de morar com alguém (de forma romântica) é dormir junto. Max sempre me dizia que “dormir de conchinha é o melhor dos sexos“, mas eu achava que era só terrorismo. Eu creio que dividir a cama com alguém é um ato profundamente íntimo, muito mais intenso do que o sexo. Você pode transar com um(a) desconhecido(a), mas para dormir com ele(a) é preciso muito mais coragem e confiança. Olhar o outro a dormir, escutar sua respiração, sentir seu copo reagir ao toque e ao contato são sensações que se ampliam quanto mais se aprofunda a intimidade.

Só quem sentiu o calor de um corpo acoplado ao seu sabe o significado profundo desse contato.

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Abertura das Olimpíadas Rio 2016

Delacroix

A abertura das Olimpíadas não foi feia, nem brega ou desonesta. Foi apenas perfeita e linda. Se usarmos este tipo de análise sombria e pessimista (“o povo com fome e nós festejando”, ou “nós sambando e eles tirando direitos”) nenhuma obra de arte poderia ser feita. Toda obra de arte mente; desavergonhadamente falseia a realidade, mostrando uma face e ocultando todas as outras – como uma foto de perfil de Facebook.

Fosse possível mostrar o “real” de um pais – uma pessoa, uma ideia, uma proposta – e a arte simplesmente desapareceria, pois que sua essência repousa exatamente nessa discrepância entre o que mostra e a completude da realidade circundante. A arte sempre nos arrebata pela sua limitada perspectiva, seu foco em um ponto determinado e sua mensagem particular sobre um específico olhar. A arte só pode ser analisada pelo que mostra, e não pelo que oculta. O que não há nela só pode ser analisado fora dela, pela sociologia, psicanálise e outras formas de conhecimento.

Se a abertura da Olimpíada mente sobre a realidade do Brasil também Guernica ou a Liberdade liderando o Povo, de Delacroix.

Não cabe à arte descrever o Real ou usar as tintas da Verdade. Minhas preferências pessoais não desmerecem ou exaltam nenhuma arte. Falam mais de mim do que da obra. A obra em si é um magneto de similitudes; busca avidamente encontra e um olhar que lhe ofereça sentido; uma sereia de canto estranho e singular em busca de um pirata solitário e saudoso. Respeito quem acha que a arte PRECISA ser politicamente engajada, mas discordo neste aspecto. Ela precisa provocar estranhamento e deslocamento, que pode – ou não – ser político. Se houver necessidade da arte servir a um objetivo político, então falamos de panfletarismo e não arte. A arte pode ser engajada, mas precisa acima de tudo ser livre para expressar a alma do sujeito que a cria.

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