Arquivo do mês: maio 2015

Quedas

queda-dagua-

A percepção que tenho sobre as derrotas que nos acometem durante a existência vai ao encontro de um antigo adágio psicanalítico que nos afirma que “os sintomas são teus maiores tesouros“. A partir de algumas dessas quedas, a vergonha e a tristeza diante dos meus atos eram o que me restava de valor, o que poderia ser utilizado como força transformadora. Por outro lado a voz de minha mãe voltava à mente e (re)afirmava que “é nas quedas que o rio ganha energia“. A queda narcísica espetacular pode nos fazer afundar, mas se houver – ainda que de forma pouco perceptível – uma pequena chama de humildade, é possível fazer desses tombos trampolim.

Max também me ensinou que todo o crescimento se ergue sobre os escombros de violentas derrotas do Ego. Só foi possível à cultura florescer depois dos sucessivos fracassos de nossa arrogância. Galileu nos disse que não somos o centro do universo; Darwin nos tirou to topo da criação e Freud destroçou nossa petulância racionalista ao desvendar o poço obscuro do inconsciente. O mesmo se dá com o sujeito: somente quando ele encara sua pequenez e sua falibilidade é que se torna capaz de alçar voos maiores e assumir o protagonismo de sua existência.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Velhice

idoso-feliz

“Se queres ser justo com tua existência não reclame da velhice. Se ela te tira o viço e o frescor, a ânsia e o vigor, pelo menos te oferece a sabedoria e, acima de tudo, a paciência para não te angustiares tanto com as injustiças do cotidiano. Olhar o necessário envelhecimento da carne com brandura e condescendência te oportuniza encontrar virtudes na tua alma que a própria consciência desconhecia.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Limites

agressao-professor

Há alguns dias assisti na Internet a cena absurda de um aluno adolescente agredindo e abusando de uma professora de uma escola pública de Minas Gerais. A cena gerou reações no país inteiro, das mais alteradas às ponderadas e compreensivas. Entretanto, as marcas da humilhação que esta professora sofreu não serão fáceis de cicatrizar.

Eu prefiro pensar nesse terrível episódio como uma oportunidade para reavaliar nossa postura em relação à disciplina na educação.

Para mim creio que se trata de uma “Pedra de tropeço”. Apesar de ser deplorável a ação, e lamentável sob todos os aspectos, talvez este episódio possa alavancar um debate que está décadas em atraso: a perda da autoridade que a escola e os professores tiveram nas últimas décadas.

As causas são múltiplas, por certo, e certamente eu não sou a pessoa mais capacitada para desenrolar o nó das relações entre escola, professores e alunos. Todavia, eu lembro muito bem da relação que tínhamos com os mestres no meu tempo de escola.

Havia respeito.

Hoje esse respeito desapareceu, e suspeito que isso também tenha a ver com a mercantilização do ensino privado, onde o aluno deixa de ser aprendiz e se torna “cliente”, um consumidor de produtos e serviços educacionais. A escola, como “negócio, precisa manter seus clientes.

Isso não explica o fato nas escolas públicas, como neste caso, mas aí concorrem outros fatores, como a complacência da cultura contemporânea com a agressividade e a falta de limites dos alunos. No filme percebe-se que o aluno age do alto de uma profunda percepção de impunidade, mas aí pode entrar um outro fator: a desimportância do estudo e da formação escolar formal para determinados segmentos sociais. Afinal, se for afastado da escola, o que terá a perder? O estudo, em geral, não está no horizonte de muitos jovens marginalizados, e a escola não passa de uma obrigação, quando não um estorvo.

Para que isso deixe de acontecer não existem soluções simplistas. Não será com repressão – como fica fácil reivindicar nestas horas de indignação – mas somente com uma alteração da própria cultura e sua relação com a educação.

Tarefa difícil, mas que o episódio deixou claro ser urgente.

Deixe um comentário

Arquivado em violência

Sobre as Diferenças

Diferenças

Esta semana fui surpreendido com declarações de alguns elementos da “direita raivosa” de que o menino que esfaqueou o médico no Rio de Janeiro morava em uma casa oferecida por um plano governamental (Minha Casa, Minha Vida) e que estudava em uma escola pública, o que demonstrava que ele não era o “santinho” que os “petralhas” tentavam nos mostrar. Em outras palavras, ele não era o resultado de uma sociedade injusta: ele era mau por natureza.

Bem, as comparações eram esdrúxulas e sem sentido, como é típico de uma parcela raivosa e violenta da direita que acabou de sair do armário, aquela que curte um coturno e uma falta de liberdade… para os outros, claro (pobres, vagabundos, escurinhos, favelados…). Ele não é, por certo, nenhum santo. Ele é apenas o resultado de um modelo que aposta nas diferenças e que segrega boa parte de um povo impedindo-o de desenvolver suas potencialidades

Ah, e não é toda a direita que é assim, por certo, mas não é difícil ver a diferença. A direita consciente nunca chama o PT e seus aficcionados de “a corja”, “os outros”, “canalhas”, etc. A direita consciente pode fazer críticas DURAS e até VIOLENTAS, mas contra os programas e as ideologias, e não contra as pessoas, como se a essência moral e ética dos atuais governantes diferisse significativamente dos anteriores. Os homens e mulheres da direita racional são democratas, abominam a intervenção política das forças armadas, aceitam a derrota nas eleições, criticam as medidas políticas e econômicas com argumentos (e não com palavras de ordem), deploram o golpismo da Veja e de boa parte da mídia, não se aliam às mentiras como forma de ludibriar o povo e pensam em conquistar novamente o poder através do VOTO. Para essas pessoas todo o meu respeito e admiração pois, mesmo que estejamos afastados ideologicamente, estamos eticamente próximos.

Esta história em quadrinhos é relevante para mostrar, de uma forma artística, onde está a “diferença” entre os desvalidos e nós, que defendemos a meritocracia sem nos darmos conta do oceano de privilégios (muitos deles pouco visíveis) onde flutuamos diariamente. Quando ressaltamos nossas qualidades e virtudes esquecemos de observar a quantidade de benefícios que recebemos durante toda a vida, já que nossa memória seletiva os obstrui em nome de uma auto-imagem eternamente positiva.

Eu, reconhecendo que nasci em berço de ouro (onde o dinheiro era o artigo de menor valor), surfando nas ondas da opulência afetiva, ética, amorosa, educacional que gratuitamente recebi da vida, me sinto envergonhado quando meus colegas da classe média fecham os olhos para os benefícios inquestionáveis que receberam desde que nasceram.

Diferenças 01Diferenças 02Diferenças 03Diferenças 04

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política

Crime e Castigo

ciclista-lagoa-2

 

Diante do questionamento que surgiu a partir do brutal e estúpido assassinato de um cidadão que placidamente andava de bicicleta no Rio, muitas vozes furiosas clamaram por justiçamento, pena de morte e até linchamentos sumários. Isso me fez pensar nos clamores em Israel quando morre um soldado judeu e o silêncio brutal quando centenas de crianças palestinas morrem carbonizadas numa guerra desigual entre o mais armado exército do mundo e uma população prisioneira, sem armas e sem soldados.

A pergunta que cabe, reconhecendo a brutalidade do ato e a insegurança que todos sentem diante de um assassinato – e também a dor da família enlutada – é “o que podemos fazer de efetivo para combater essa e outras barbáries contemporâneas?“.

Primeiramente é preciso rechaçar o que é falso e “plantado” nas redes sociais com o único objetivo de gerar discórdia. Depois, é importante entender que esses debates não se resumem em um lado certo (nós) e um lado errado (os outros). Na questão da violencia é fundamental se perguntar se as medidas preconizadas como solução ajudam a você (na sua necessidade de vingança) ou ajudam a todos, a comunidade inteira, a resolver (ou melhorar) um problema endêmico e de raiz estrutural.

De nada adianta eletrocutar esse menino pobre e negro; outros virão ocupar seu lugar. Não esqueçam que ele JÁ estava condenado; se não fosse preso agora dificilmente passaria dos 25 anos, vítima da guerra do tráfico. Ficar com raiva dele e santificar o “doutor” (que era alguém comum, como eu, mas acabou sendo pintado como santo) de nada adianta, e apenas aprofunda o fosso dos lados que se opõem no debate.

Precisamos mais policiais e mais inteligencia no combate ao crime, mas é tolice imaginar que esse problema acaba com repressão. É MENTIRA. O tráfico não acabou nos Estados Unidos, e só cresce, mesmo com o aparato de repressão mais caro do mundo. O crime não deixa de existir porque policiamos a vida até o extremo. Não, ele existe – e se mantém – pela “sensação de injustiça” a que são submetidos os pobres, ao perceberem que a opulência oferecida a uma determinada casta nunca é oferecida à sua. Eles não se julgam bandidos ou malfeitores; pelo contrário, sentem-se heróis a combater uma injustiça, Batmans da favela, e nenhuma repressão vai fazê-los parar. Quanto mais apanham ou morrem mais cresce a indignação com o que consideram injusto e perverso. É por isso que o assassinato patrocinado pelo estado (pena de morte) ou pela iniciativa privada (chacinas e guerras de pontos de tráfico) nunca coibiu a violência e, mais ainda, contribui para o seu incremento.

É preciso mais do que raiva e indignação para resolver esta questão. Mais ainda, é necessário suplantar o ódio para encontrar uma resposta segura e sensata, que contemple o desejo de todos, e não apenas do nosso grupo.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, violência