Arquivo do mês: abril 2021

Saúde Universal

Eu sempre disse para a minha mulher não se separar de mim porque qualquer coisa que venha depois da excelência gera frustração. “Nothing compares to me”.

Ok, mas essa introdução desnecessária era apenas para a gente no Brasil entender que ter um sistema universal de saúde como o SUS nos faz perder a perspectiva do que seja morar em um pais onde a saúde é um negócio, regido pelas leis de mercado, e não um direito humano básico e universal. Isto é: só depois da gente conhecer a insegurança e o risco de viver sem saúde garantida é que damos o real valor ao que temos em casa.

A destruição do SUS serve aos interesses dos tubarões do mercado da saúde, aos planos privados e às empresas que lucram com a doença, mas será um desastre para a população, em especial na base da pirâmide. Triste é saber que aqueles que decidem sobre o SUS tem dinheiro suficiente para pagar planos privados, que não passam de barreiras de classe que expõem nosso Apartheid social.

Em um país decente o trabalhador mais humilde se trata no mesmo hospital – e com os mesmos profissionais – que o presidente da República, até porque a vida dele não vale menos do que a de ninguém.

Defender o SUS e combater seus desvios é defender a democracia, a equidade e a justiça social. Atacar o SUS é ameaçar nossa soberania.

Como é a vida sem o SUS?

No gráfico abaixo vemos o número de pessoas que vão à falência TODOS os anos em razão de suas contas hospitalares e gastos com a saúde – tratamentos crônicos, medicamentos, acidentes, etc. No Brasil suspeito que o número também seja zero…

É para esse modelo que vamos trocar por causa de um Chicago Boy pinochetista?

Já aqui abaixo podemos lembrar da famosa conta para uma picada de Cascavel na gringolândia. Em dinheiro tupiniquim são R$ 820 mil golpitos, o preço de um maravilhoso apartamento em uma capital do país. Não há picadura que valha isso tudo (desculpem). No SUS o tratamento seria “gratuito” – em verdade sabemos que qualquer custo no Sistema Único de Saúde é pago pela nossa contribuição mensal ao sistema.

É para um sistema desumano e mercantilista que vamos migrar? Defender o SUS é defender a solidariedade como marco ético para o país.

Aqui temos outra famosa conta hospitalar gringa de um parto onde o ato de colocar o bebê em contato pele-a-pele com a mãe teve uma cobrança de 36 doletas. Quando uma ação simples, humana e banal – alcançar um bebê para sua mãe segurar – pode ser contabilizado, então não há limites para a mercantilização da própria vida.

É isso que desejamos para o Brasil?

Quando a “mão invisível do mercado” regula o preço dos medicamentos e dos procedimentos médicos sem qualquer interferência da população, podemos testemunhar a ganância e o desejo de lucro sobrepujarem os valores humanos e a fraternidade. É exatamente isso o que assistimos nos países onde a atenção à saúde é um comércio como a venda de celulares ou de bananas. O lucro estará acima dos valores essenciais de solidariedade e do amor ao próximo.

É esse o país que queremos deixar para os nossos filhos?

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Morri

De uma certa forma, foi assim mesmo. Há exatos 30 dias eu recebi uma punição do Facebook, sem direito a apelação. Meu crime? Dizer durante uma discussão com um bolsonarista (a respeito do racismo e do machismo do presidente) que “posso defender o direito de votar em quem desejar, mas ver negr*s, mulheres e g*ys votando em Bolson*ro dói no coração”. Pronto; foi o que bastou para ser denunciado e lá se foram 30 dias de gancho. Sem apelação e sem discussão.

Reconheço que fiquei indignado com (mais) esta arbitrariedade. Todavia, com o passar dos dias, percebi que minha ausência teve até algumas vantagens. Por certo que algumas ex amigas ficaram felizes por ficarem desobrigadas de ler meus comentários diários, o que tanto as incomodava. Porém, esse grupo é muito diminuto – tanto quanto daquelas que realmente sentiram minha falta.

Pois em verdade é aqui se esconde a realidade mais dura, que só vim a descobrir em função de minha “morte virtual”: as pessoas realmente não se importaram com o meu desaparecimento. Minha ausência sequer foi notada, com meia dúzia de notáveis exceções. Meu sumiço passou em branco…

E aqui não se trata de uma crítica aos amigos e conhecidos, mas a constatação de que somos fagulhas, pequenos e singulares pontos de luz, únicos e fugazes, cujo apagamento, entretanto, não produz diferença alguma na intensidade luminosa que emana da fogueira da vida.

O ensinamento que fica é o da desimportância que carregamos como marca: quando morremos o mundo continua praticamente inalterado, pois damos uma valor exagerado e injusto à nossa parcela de contribuição ao universo. Este, para ser tão pródigo em criatividade e diversidade, não poderia mesmo oferecer destaque especial à nossa notável insignificância. Somos muito menos importantes e essenciais do que acreditamos.

Minha experiência, aliás, foi a de um espírito inferior (o que em verdade me define), ligado às coisas da terra, que se nega a abandonar as banalidades cotidianas e se mostra incapaz de fechar uma página para abrir outras. Sim, voltei todos os dias para saber o que comentavam, o que diziam e criticavam, colher opiniões e notícias, mas sem poder interagir ou responder. Tal qual um obsessor, cheio de angústia e loquacidade, mas prisioneiro de seu silêncio.

Numa época de algumas mortes próximas – minha mãe, meu neto não-nascido Theo e a proximidade da morte do meu pai – achei interessante vivenciar no mundo virtual o desenlace que acabei padecendo como uma “avant première”. Entretanto, como toda metáfora é incompleta, aqui estou eu de volta à existência nas redes sociais. Como Cristo Redivivo voltei às páginas do Facebook, onde me manterei até meu banimento definitivo. A diferença é que agora, mais do que antes, sei que tudo que faço e digo em pouco tempo se transforma no que sempre foi: mera poeira de estrelas. Resta fazer um bom uso do pouco tempo que me resta.

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Carta a Theo

Há poucas semanas você partiu ainda antes de chegar. Theo, filho de Lucas e Ariane, com 30 semanas de gestação. Como disse meu irmão Roger, “um bisneto que se foi antes do seu bisavô”. Sem explicações e sem avisos, apenas fechou seus olhinhos enquanto ainda aguardava em silêncio, imerso no mundo aquático, quentinho e róseo que o circundava.

De sua breve passagem, algumas descobertas. A primeira é de que o valor da vida está em sua fragilidade. Como pétala, quanto mais delicada mais rara sua beleza. Para além disso, o aprendizado de que a dor, por mais violenta e dilacerante, sempre carrega consigo várias lições . No seu caso Theo, você nos ensinou o valor da comunhão, do suporte, da família, da vida e do perdão. Também nos mostrou a importância da resiliência e da aceitação, assim como nos lembrou que juntos somos mais fortes e capazes de suportar mesmo as perdas mais dolorosas.

Theo, você seguiu seu caminho e à nós resta a saudade de tudo que não vivemos ao seu lado: as brincadeiras com seus irmãos, primos e amigos, a vida na Comuna, o amor dos seus pais e tios, os vovôs carecas e as avós doces e carinhosas. Todavia, sabemos que você está em algum lugar imaginando quando poderá voltar. Quiçá antes do que pensamos…

Vá Theo. Siga o seu caminho. Curta as nuvens, as estrelas e o céu azul. Brinque com os pássaros e a chuva. Estará para todo o sempre vivendo em nossos corações.

* Fotos da cerimônia de despedida com a família mais próxima na Comuna *

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Vladimirski Central

Nikolai havia acordado mais cedo do que todos nós. Senti entrando por debaixo do lençol puído o cheiro de sopa de pacote que ele havia esquentado. Graças às mãos delicadas e ágeis de Petrov foi possível puxar dois fios da tomada acima da pequena mesa encostada na parede descascada e adaptar uma resistência, que usávamos para esquentar o chá, mas também uma sopa.

Coloquei os pés para fora da cama e toquei o chão gelado da cela com as meias que Zoya havia me trazido na visita do mês anterior. O chão feria a sola dos meus pés como lanças de gelo a penetrar o espaço entre os dedos. E ainda não era o pior do inverno em Vladimirsky, onde não era incomum que os prisioneiros perdessem os dedos pelo frio. Olho para o lado e encontro Petrov dormindo envolvido em um edredom cinza, enquanto Aleksei mantinha-se sentado em sua cama olhando para um ponto perdido na parede à frente. Ninguém falava, e aos poucos a luz externa aparecia pelas aberturas superiores da parede de nossa cela.

O silêncio matutino foi quebrado pelo som metálico da porta de ferro sendo aberta. Um carcereiro apenas falou em voz alta o nome de Nikolai e colocou no chão um envelope de papel amarelo escuro. Logo depois a porta se fechou mais uma vez deixando o breve eco do metal chocando-se com o batente em nossos ouvidos.

Nikolai deixou a sopa sobre a mesa e curvou o corpo para apanhar o envelope. Abriu-o lentamente e passeou os olhos sobre o documento. Poucos segundos depois fechou o envelope e voltou a sentar-se no banquinho tosco que puxou debaixo da mesa. Segurou a xícara com ambas as mãos e continuou captar seu calor sem dizer palavra.

– Negado?, disse eu

Ele se limitou a balançar a cabeça afirmativamente, como a dizer que nada do que se encontrava naquele papel era surpresa. Fiquei em silêncio alguns minutos e me limitei a dizer em voz baixa “bastardos” e “canalhas“.

Nikolai sorveu mais um gole de sua sopa e, sem olhar para mim, me disse:

– Sabe o que eu queria, Sergey? Nenhuma utopia política, e muito menos bens materiais. Estou velho para desejar o que sabemos ser inútil ou fugaz, como um carro, uma casa ou que o mundo seja controlado por um sistema político mais justo. Em verdade, meus sonhos são todos tolos, inocentes e de uma ingenuidade dolorida e triste.

Sorveu um gole a mais, mordiscou um pedaço de pão e continuou.

– Nós tivemos uma infância dourada, Sergey. Fomos a última geração a ter uma mãe em casa cuidando de nós. Eu era capaz de dizer o que minha mãe preparava para o almoço antes mesmo de chegar, já a meia quadra de distancia, só de sentir o cheiro da comida. Éramos recebidos como heróis, recém chegados da batalha diária da escola. Cansados, famintos e eletrizados, nossa mãe nos tratava como reis; éramos o centro de sua vida. Isso é amor Sergey…

Baixei os olhos e sacudi a cabeça afirmativamente. Ele seguiu.

– Elas se sacrificaram por nós, camarada. Hoje as mulheres tem vida própria, para além de sua família. São empresárias, médicas, engenheiras, advogadas e – apontando para o documento – juízas. Não há nada que seja interdito a elas, e bem sei não há como voltar atrás, resgatando nossa infância idílica. A nós resta apenas a saudade de um mundo construído para sermos felizes.

Suspirou olhando para a fumaça que saía de sua caneca de metal e continuou com seu desabafo.

– Pois eu queria apenas cinco minutos daquela vida, camarada. Sentir o cheiro da comida de minha mãe e encontrar seu sorriso na porta de casa. Nada mais.

Eu respondi, mas com cuidado, pois sabia que seu mundo havia desmoronado há apenas alguns poucos segundos.

– Sua vida foi digna, Nikolai. Nossas mães nos prepararam para a felicidade, mas nós escolhemos uma vida de luta e valor. Mais importante do que ser feliz é dar sentido à esta breve existência na terra.

– Não tentem descobrir sentido algum para a vida, camaradas. Se há um sentido ele nunca se mostrou para nós. Somos os que perderam, os derrotados, os desvalidos. Não haverá história a contar.

Era Petrov a falar, ainda de olhos fechados e envolto em seu cobertor cinza. Aleksei, por sua vez, se mantinha observando o ponto fixo no meio da parede descascada. Talvez ali estivesse escondido algum sentido para a vida, que a nós todos escapava.

Genny Sidorov, “Vladimirsky Central”, Ed. Belaya skala, pág 135

Genny Sidorov, batizado Gennady Sidorov, nasceu na cidade russa de Leningrado (atual São Petersburgo) e fez seus estudos na tradicional Universidade Estatal de São Petersburgo, onde cursou engenharia de minas. Depois de trabalhar durante 15 anos como engenheiro abandonou a profissão depois do acidente na mina de Osinniki, em 2004 na Sibéria. Escreveu um livro contando os detalhes da tragédia, onde morreram 28 mineiros – entre eles seu amigo e protagonista no livro, Rodion. “O último suspiro”, seu livro de estreia, lhe rendeu o prêmio de jovem escritor e o impulsionou a abandonar a engenharia para se dedicar à literatura. Ainda nessa década escreveu 2 livros de ficção (“No fundo do Neva” e “Sob o olhar de Yekaterina”) e um de ensaios (“Galina e outras histórias frias”). Hoje tem mais de 20 livros publicados e escreve em colunas de jornais por todo o país. É casado com Yelena Pavlova e tem dois filhos, Natalya e Mikhail. É filiado ao Partido Comunista da Federação Russa.

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Paradoxo humano

Imagem: Maurits Cornelis Escher

Existe um fato perturbador, do qual muitos estudiosos se debruçaram: a participação ativa da vítima em uma relação abusiva. Este achado é sempre inquietante, pois tal evidência nos obriga a reconhecer que existem instâncias para além da consciência que determinam nossas ações, o que é uma ofensa à nossa arrogância racionalista.

É sempre mais fácil acreditar nos modelos banais, até porque para todo problema complexo existe uma resposta simples – e errada. Toda vez que testemunhamos uma relação abusiva e opressiva imediatamente nos identificamos com o(s) oprimido(s) e tentamos resgatá-lo(s) da situação injusta e cruel. Entretanto, muitas vezes percebemos que na relação entre estes polos ocorre um circuito de gozo, no qual o próprio oprimido é figura ativa. Nossas tentativas de trazer à razão tais sujeitos submetidos à violência esbarram no fato de que elementos irracionais – e muito mais poderosos – operam em sentido oposto, impedindo o fim da relação.

Por certo que nos angustia ver tais comportamentos, mas eles são tão reais quanto paradoxais.

Estas situações existem para além do cenário das relações amorosas. É claro que, na configuração contemporânea, existem muito mais homens abusivos e mulheres submetidas à violência doméstica, mas não é muito difícil reconhecer abusos no sentido oposto: homens vítimas de mulheres violentas, cuja expressão da crueldade se situa muito mais na esfera moral do que física – e bem sabemos o quanto aquelas podem ser tão dolorosas quanto estas. A participação ativa dos parceiros nestes enlaces continua a ser chocante para quem observa de fora, mas também é clara demais para ser negada. Por certo que há nestas relações uma participação ativa dos parceiros vitimizados, mas que uma abordagem superficial e descuidada (ou preconceituosa) é incapaz de desfazer.

Também no ambiente da atenção médica fica fácil perceber estas relações contraditórias que desafiam nosso entendimento. Lembro de uma paciente que me procurou porque tinha uma indicação de histerectomia. Quando lhe perguntei porque lhe haviam indicado esta cirurgia ela me mostrou uma ultrassonografia (solicitada de rotina) onde aparecia um mioma sub-seroso minúsculo, de menos de 2 cm. Disse ela que o médico afirmou que aquele pequeno tumor poderia virar uma “coisa ruim” e que era melhor retirar o útero o quanto antes, visto que ela já estava na menopausa e que este órgão “só serve para quem deseja ter filhos”.

Passei mais de uma hora explicando as razões pelas quais era absurda e desnecessária a retirada de um útero pela simples existência de um mioma inofensivo. Para todas as explicações ela oferecia mais perguntas, sempre me colocando no limite, ao estilo: “mas você pode garantir?”, “você tem certeza absoluta?”, “mas, e se a coisa ruim aparecer?”, demonstrando que havia por trás de suas palavras um desejo inconsciente – e inconfesso – de aceitar a determinação amputativa do outro profissional.

Saiu da consulta dizendo que havia entendido minhas explicações e que não faria a operação no seu útero. Todavia, poucos meses depois fiquei sabendo, por uma amiga em comum, que voltou a consultar com o médico e realizou a tal cirurgia. Por certo que minha reação inicial foi a indignação, mas rapidamente me dei conta de que esta era uma batalha perdida: é inútil tentar desfazer racionalmente uma decisão sustentada na mais pura irracionalidade. Havia elementos claros de formulações inconscientes sobre seu útero e – por certo – sobre sua própria sexualidade, que ela mesma jamais teria acesso de forma consciente, pois que tais razões estavam escondidas de forma cuidadosa de si mesma.

Na minha experiência o curto circuito acontece quando nos deparamos com o gozo paradoxal da vítima. Aí perdemos o chão, mas pelo menos este achado nos oferece uma pista para a pergunta fatal: “Como foi possível a ele(a) suportar tudo isso????” Ora, porque também era participante – mesmo que de forma inconsciente – do circuito doentio que sustentava a trama, e obtinha algum tipo de gozo nos espancamentos, na tortura, na submissão, na dor….

Diante da ligação nefasta entre um homem abusivo e uma mulher que se sujeita a ele é fácil acreditar que ela estava sendo enganada e ludibriada – o que também ocorre com muita frequência. Difícil é aceitar que dentro dela havia elementos perversos que não apenas suportavam os abusos, mas que deles retiravam uma importante fonte de gozo autodestrutivo. Reconhecer o paradoxo das ações cotidianas é um desafio terrível, mas que nos oferece a possibilidade de uma compreensão mais abrangente da alma humana. Essa é uma discussão mais ampla: continuamos a apontar os dedos para os abusadores (com razão) mas esquecemos que questionar porque tantas vítimas continuam acreditando em “mentiras encobridoras” – como as promessas, os arrependimentos, o romantismo, os presentes, etc. – e continuam se submetendo aos suplícios com sua capacidade crítica abafada ou tolhida.

Por certo que reconhecer o papel desempenhado pela vítima em tais composições em NADA absolve os sujeitos envolvidos em crimes horrendos, mas nos ajuda a entender o fluxo de emoções e pulsões de morte envolvido nas tramas da vida humana.

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Desafio

Publius Terentius Afer foi um escritor romano, nascido em Cartago no ano 185 a.C. Foi vendido como escravo ao político romano Terêncio Lucano, que deu-lhe educação e do qual manteve o nome. Terêncio teve seis livros publicados e, apesar de não ter sido muito famoso em sua época, tornou-se conhecido e citado na Renascença. Foi contemporâneo de Cipião e Plauto. Dele guardamos sua melhor frase: “Sou homem, e nada do que é humano me é estranho”.

Guardo esta frase como um guia para compreender a diversidade humana e, mais ainda, os extremos de bestialidade e devoção gratuita.Costumo usar essa lógica diante de situações que desafiam meu entendimento diante de manifestações intrigantes da ação humana. Para cada ato de horror eu penso: “Estivesse eu diante desse contexto e dessa circunstância, teria agido diferente?”

Quando analiso com franqueza suficiente estas situações eu percebo que, fossem oferecidas a mim as condições em que o criminoso se encontrava, é certo que a opção pelo delito estaria na mesa, à minha frente, como uma escolha possível, talvez a mais provável. Assim, a minha crítica estaria confinada apenas ao preconceito e à falta de empatia – incapacidade de enxergar o mundo pela perspectiva alheia.

Em todos os crimes enxergo o humano, o falível, a fragilidade, o egoísmo, condições que compartilho com todos os meus iguais. Assim, o crime existe dentro de mim em potencialidade, tanto quanto a genialidade e a excelência, aguardando tão somente as condições externas – renitentes e continuadas – para a sua expressão.

Assim, condenar o SUJEITO – e não seus crimes – é um ato de fraqueza e uma falha de reflexão. Só um tolo, encastelado em uma autoimagem falsa e irreal, é capaz de se sentir alheio ao horror e à miséria humanas. Basta analisar nossos atos cotidianos, nosso orgulho desmedido, nossa tola vaidade e nosso egoísmo incoercível para perceber que somos todos feitos da mesma matéria, e que o que nos diferencia dos hóspedes de uma penitenciária ou de um sanatório são as circunstâncias que nos protegeram de ações malévolas e criminosas. Entretanto, elas estavam sempre lá, em embrião, esperando o momento para sua manifestação. O mundo que lhe protege não oferece a mesma guarida a todos os teus irmãos.

Por reconhecer que nada que se expresse no humano pode ser alheio a nós é que os crimes contra crianças tanto nos perturbam. Se existe motivação humana para um crime tão cruel quanto este é porque ele está inscrito em nossa essência – portanto, não pode ser a nós estranho. Existe algo em nós muito vil, demasiado grotesco e brutalmente venenoso que nos envergonha e nos remete aos abismos do que é ser humano.

Uma forma clássica de justificar a brutalidades contra grupos ou povos inteiros é através de desumanização. Por tratá-los como “não humanos” é possível admitir o genocídio da população indígena, os holocaustos (judeu, armênio, chinês) e a limpeza étnica (palestinos, indígenas, etc). Este é um recurso que usamos para impedir que a identificação com as vítimas nos cause angústia. Da mesma forma, colocar tais violências contra os pequenos dentro da infinita gama de possibilidades das ações humanas é um desafio muito difícil; mais fácil é tratá-las como “monstruosidades”, pois ao excluir tais ações do campo do “humano” – e deixá-las restritas aos “monstros” – suspiramos aliviados por afastar tamanha perversidade para longe de nós.

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Pensamento de Pobre

Passei boa parte da minha vida escutando a expressão “pensamento de pobre” para definir pessoas que tinham o costume de economizar em bagatelas, como comprar roupas de qualidade menor, pedir carona, comprar em menor quantidade ou simplesmente que deixavam de consumir para não gastar seu dinheiro.

Evidentemente, como em qualquer ação humana, essa postura é sempre acompanhada de infinitas racionalizações. Ora dizem que a marca genérica é igual à oficial, que não vale a pena gastar com supérfluos ou que não acham justo gastar tanto com algo que é possível viver sem.

Quem critica este “Pensamento de pobre” afirma que se trata de um defeito de mentes constritas; um paraefeito da menos-valia. Apontam que esse pensamento constrói atitudes diminutas, tímidas, pequenas em sua amplitude, e que a conduta justa para uma alma ambiciosa é pensar sempre com grandiosidade e valor.

“Vou me dar de presente porque mereço“, falam aqueles cujas atitudes são opostas ao pensamento de pobre. Dizem que as coisas boas da vida são oferecidas àqueles que fazem jus a elas, mas que é responsabilidade de quem quer vencer buscá-las ativamente. “Pense alto, pense grande e permita-se fazer uso do que conquistou”, dizem estes.

Eu compreendo muito bem a perspectiva de quem pensa positivamente e se acredita merecedor dos benefícios que podem ser comprados. Não posso dizer nada contra essa forma de enxergar a si mesmo inserido no mundo. Entretanto, sou obrigado a reconhecer que desde tenra idade cultivo o “pensamento de pobre”.

Reconheço pertencer a esta “corrente” sem nenhum constrangimento ou culpa, E mais: não se trata de defender dessa escolha, mas tão somente fazer uma confissão: meu pensamento foi sempre guiado pela lógica da escassez.

Uso celular modesto, e sempre de segunda mão. Os poucos carros que tive na vida (com exceção de um que tirei num consórcio há 30 anos) eram todos usados. Minhas roupas compro muito baratas ou em “thrift shops” durante uma viagem. Não há “etiqueta” em nenhuma roupa que visto. Vivo em uma casa pequena e sem luxos e nunca me deixei seduzir pelo brilho das mansões, dos carros, das festas ou da opulência, mesmo quando ganhava muito mais do que a média dos brasileiros.

Digo isso sem qualquer vaidade, ensejando mostrar superioridade espiritual ou mesmo a correção de minhas ações. Não se trata disso, mas sim o reconhecimento de uma decisão subjetiva ligada à valores do inconsciente: nem pior nem melhor, apenas enxergo o mundo dessa forma.

Suspeito que a escassez foi minha companheira em vidas passadas e que este traço se manteve nesta existência atual. Isso explicaria a tendência irrefreável de enxergar as coisas pela perspectiva da contenção.

Faço uma analogia com outras escolhas que fiz na vida. Minhas pacientes por vezes se assombravam com o fato de eu ter sido pai ainda muito jovem, mal adentrando a terceira década de vida. Perguntavam se eu achava melhor ter filhos mais cedo ou mais tarde na vida, e eu sempre lhes dizia que “o melhor momento é quando se quer”. Eu quis ser pai muito cedo, mesmo sem plena consciência disso, e por este fato sou muito grato, mas entendo perfeitamente quem prefere adiar esta decisão para celebrar uma juventude livre e sem amarras.

Da mesma forma, entendo quem prefere usufruir de todas as coisas “compráveis”, acreditando que elas podem lhes trazer alegria e prazer. Não há erro algum em admirar o belo ou usar o dinheiro para garantir conforto e segurança.

Entretanto, como eu disse, não se trata de escolhas plenamente conscientes. Tanto quanto a escolha por uma gravidez prematura ou mais tardia, a opção por colocar alegria e realização nas “coisas” não é feita de forma racional, mas opera nos porões da mente, e sobre essa decisão não cabe nenhum julgamento de valor.

De minha parte estou certo de que continuarei com o pensamento de pobre até o fim dos meus dias. Não creio que haja cura para o meu mal e, se houver, talvez o tratamento seja muito caro. Prefiro não gastar com isso.

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