Arquivo do mês: outubro 2020

Bruxas?

“Era uma vez, quando a Líbia (“Viemos, vimos, ele morreu”) oferecia ao mundo espetáculo imperialista humanitário sangrento estrelado pelas Três Hárpias Norte-americanas: Hillary Clinton, Samantha Power e Susan Rice, de fato quatro, caso se inclua a mentora e alma mater de Hillary, Madeleine Albright.” Crônica de Pepe Escobar no blog do Alok.

Pois vejam só… a grande ameaça para o resto do mundo com a possível vitória do senil Joe Biden se concentra em 4 mulheres poderosas, Senhoras da Guerra, frias comandantes do Imperialismo Americano mais abjeto e belicoso. Foram elas as responsáveis pela destruição de países inteiros no Oriente Médio, África e Ásia. E não há nada na figura de Kamala Harris – cria das poderosas Big Techs americanas – que nos dê esperança em um planeta mais fraterno e mais cooperativo. Em suma, mais “feminino”.

Não faz mal lembrar que a última guerra em que a América Latina esteve envolvida foi conduzida e liderada por uma mulher. Sim, Margareth Thatcher, além de ter jogado o mundo na espiral destrutiva do neoliberalismo, foi protagonista da última incursão bélica do primeiro mundo na parte de baixo do Equador.

Digo isso porque confio na tese de que “A Revolução será feminista ou não será”, mas com isso deixo claro que a simples entrada das mulheres na política não permite que esse modelo seja modificado. Uso para isso a minha experiência com o parto: a entrada das mulheres não deixou o parto mais feminino, mas deixou as obstetras mais masculinas. Eu canso de dizer que não existe nenhuma diferença moral ou intelectual entre homens e mulheres, brancos, negros, indígenas, amarelos e mistos, gays e héteros, e que estas diferenças são determinadas pelos sistemas e pelos contextos, jamais pela essência. Portanto, de nada adianta apostarmos nas aparências sem levarmos em conta o âmago – por vezes invisível – das lutas e anseios que habita aqueles corpos.

Conhecemos muito bem como a escolha por uma mulher apenas por seu gênero pode ser desastrosa. Mais salientes do que os dotes de sua biologia ou sua identidade sexual deverão estar seus compromissos com a equidade de gênero, o fim da violência contra as mulheres, o término da velada violência obstétrica, o rechaço ao punitivismo, ao racismo e ao sexismo de todas as formas, além de um compromisso com a construção de uma nova sociedade baseada na fraternidade e não mais na competição e na guerra.

Nossa experiência recente com Joice, Bia, Winter, Zambelli, Ana Amélia e tantas parlamentares ligadas aos valores conservadores nos prova que, mais do que ser mulher, é preciso levar a bandeira feminista da equidade e da paz.

Por mais bruxas e menos harpias.

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Montanha Russa

“- Não, nada de saudável, disse Jake com notável impaciência, … de saudável já basta a comida que nos obrigam a comer, com a promessa de alongar esta existência insuportável. Nada que é do humano é saudável. Toda ação que produzimos invariavelmente apressa o momento de nossa morte. Até respirar, e encharcar os pulmões de oxigênio, em última análise enferruja nosso corpo e nos direciona ao túmulo. O que nos mantém vivos sela o nosso destino e nossa sina.

Preferi ficar quieto, pois Jake tinha uma faca nas mãos, com a qual picava o fumo vagarosamente. Nunca se sabe até onde vai sua filosofia.

– Coisas saudáveis são para aqueles que cultuam a morte. Eu sou fã da vida, e para ser vivida é preciso andar sobre a lâmina fina dos riscos. Comer, beber, jogar-se nos braços da luxúria. Carne, gordura, açúcar. Roleta russa de amores e traições. É isso Perry, não me peça para ser saudável, limpo e cheirar a loção de barba. Sou fuligem, caspa e arroto e remorso. Sou vida.”

Jeremy Stark, “Jake and the Rollercoaster”, Ed. Printemps, pag. 135

Jeremy Jacob Stark, nasceu em Chester, Phyladelphia, em 1948 e fez seus estudos em Columbia. Escreveu 12 livros além de “Jake and the Rollercoaster” – onde acompanha a vida de Jake Morgani, um mafioso homossexual e suas desventuras na Chicago dos anos 20 – e muitos ensaios para o New Yorker. Entre seus livros mais conhecidos estão “Supper for Margareth”, “The Last Hurricane” e “The Chimney”. Morreu em 2019 de uma infecção generalizada depois de se ferir em uma pescaria em Bornéu. Deixou viúva sua esposa Lilly (cujo alterego aparece como Martha em “Supper for Margareth”) e seus dois filhos, Jill e Buck.

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Truques

“Se com 20 e poucos anos de idade eu pudesse encontrar a mim mesmo pensaria estar diante de um sujeito inteligente. Porém, lembrando de mim com essa pouca idade, eu penso como pude me manter tão burro. A idade ensina alguns truques para dissimular a ignorância. Citações e mesóclises funcionam quase sempre.”

“Jahred Fletscher, “Elm Street and other stories”, ed. Suliv Press, pág. 135

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Ainda sobre oligarcas

O texto que escrevi sobre o sistema escolar americano, tocava em um ponto de simples compreensão: a oferta “espontânea” da comunidade para a melhoria da escola do bairro, onde seus filhos estudam. Contribuições (doações) em dinheiro para o aparelhamento de laboratórios, bibliotecas, quadras esportivas, etc. Nada é pedido em troca, mas é claro que se puderem colocar uma placa de agradecimento ao benemérito, ou batizarem a quadra poliesportiva ou a biblioteca com o nome do doador, que mal pode haver? Afinal, uma escola pública que homenageia alguém que lhe oferece dinheiro (cuja origem não lhe cabe perguntar), não deve ser ruim, né?

(Não duvido que existam bibliotecas financiadas por “Jeffrey Epstein”, “Bill Cosby” ou “Harvey Weinstein” que agora se ocupam em apagar o nome na placa…)

Bastou escrever este texto, baseado em uma experiência pessoal, para os liberais atacarem essa ideia dizendo que eu criminalizava a “caridade”, e que estas doações eram uma ideia genial para a participação efetiva da comunidade na educação. Um deles chegou a dizer que “o texto era tão ruim que não conseguiu ler até o fim”, o que diz muito do pânico em se defrontar com ideias contra-hegemônicas. Sequer perceberam que o texto pretendia mostrar que a atitude “caridosa” e “despretensiosa” dos doadores seguia um padrão de valorização dos próprios imóveis (e descontos no imposto de renda), e que não era tão “benevolente” quanto nos faziam acreditar. Também tentava mostrar que essas iniciativas, mesmo que possam oferecer melhorias na escola, acabam trazendo desajustes e desequilíbrios em um sistema que deveria produzir equidade e paridade entre os alunos.

Porém, o que mais me chama a atenção é o culto que as pessoas da classe média devotam a esses beneméritos. Ainda carregamos a mentalidade dos pequenos burgueses que, enquanto olhavam a nobreza com desmedido encantamento, sentiam pelos trabalhadores inegável desprezo e repulsa, sem perceber que estavam muito mais próximos de quem desprezavam do que daqueles por quem nutriam admiração.

Recordo vividamente amigos descrevendo encontros com figuras da “nova nobreza”: os ricos industriais, rentistas, donos de redes de comunicação e proprietários de terra. Puro encantamento. Qualquer gesto, por mais banal que fosse, era descrito como sutil, delicado, sóbrio e magnânimo. Quando estas pessoas – muitas delas sem qualquer brilho intelectual ou moral – lançavam a eles sua atenção isso produzia uma onda de gratidão e plenitude. Pobres almas!!! Via de regra iam solicitar migalhas para os pobres, pão para os famintos, cadeiras e mesas para alunos, e ficavam satisfeitos quando uma fração dos valores acumulados por esta elite lhes era minimamente repassado. A figura de John Rockefeller distribuindo moedinhas para os miseráveis da recessão americana nunca foi tão emblemática para descrever esta relação de subserviência.

É muito triste ver o crescimento da sociedade atrelado à boa vontade de milionários, como se a saúde, a educação, o saneamento básico fossem bênçãos que recebemos de capitalistas, e portanto, deveríamos agradecer a eles por seu desprendimento e sua caridade. Quando é que nossa auto estima vai permitir que a gente se livre da praga dos bilionários? Quem precisa desse tipo de aberração????

Nossa mentalidade não mudou tanto quanto imaginamos. Se a revolução burguesa nos livrou da sujeição à nobreza, o capitalismo ainda nos mantém subservientes aos poderosos que, se não mais ostentam títulos nobiliárquicos, ainda nos oprimem com o capital e suas formas de controle.

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Filantropos

Não há mais justificativa para negar que a filantropia em sua forma moderna, enquanto modelo empresarial, é a forma como os ricos e poderosos jogam migalhas aos pobres para que sua imagem seja melhorada e/ou aprimorada. Desde o início do capitalismo americano funciona assim, como nos ensinou John Rockefeller – o homem mais rico da história, que chegou a ser dono de 2% do PIB americano – jogando moedinhas (Dimes) para que as crianças na rua pudessem juntar. Era publicidade deslavada, tentando criar a imagem tão falsa quanto absurda de um “velhinho bondoso”. Na verdade se tratava de um dos lobos mais astutos e inescrupulosos do nascente império americano.

Todos esses sistemas de “ajuda aos pobres” só existem porque insistimos em um modelo capitalista injusto e que produz a brutalidade da iniquidade social. Nenhum país precisaria de ONGs para combater a fome, o analfabetismo ou as doenças endêmicas. Para oferecer este atendimento à população bastaria que os recursos PÚBLICOS fossem distribuídos de forma adequada e que não houvesse a concentração obscena de riqueza na mão de poucos capitalistas, que posteriormente devolvem uma fração minúscula de seus lucros como forma de publicidade, através de seus “institutos” e “fundações”.

É exatamente a perversidade desse sistema social e econômico que precisa ser combatida no século XXI. Quando a gente olha para estas instituições de ajuda à África, no combate à AIDs, à pobreza da América Latina, de proteção dos animais e de preservação da Amazônia e conhecemos os ativistas honestos e dedicados que dela participam, perdemos a noção do contexto amplo onde estas instituições são criadas, e ficamos incapacitados de perceber que a existência delas só pode ocorrer diante da falência do Estado. Sem a opressão sobre os povos e as desigualdades fomentadas entre os seres humanos nenhuma caridade seria necessária pois nenhuma filantropia faz sentido em um estado operante e que ocupe o posto de motor da distribuição equitativa de renda.

Enquanto isso não ocorre ficamos a mercê de seres desimportantes e sem brilho algum, como as primeiras damas de alguns Estados, as esposas de industriais que comandam fundações ou algum artista que tira milhões de seus seguidores e depois devolve uma parcela pequena – sempre para quem ele próprio escolhe, e não para quem mais necessita.

Os grandes filantropos americanos financiam Universidades pagas – como as da Ivy League – para que brancos de classe média possam estudar através de um sistema falsamente meritocrático, que sempre coloca em vantagem a classe que repousa sobre privilégios. Financiam também orquestras filarmônicas e museus (para a mesma classe), mas alguns fazem pior: estimulam pesquisas de medicamentos em negros e pobres africanos e da Ásia para serem posteriormente usados em brancos na América e Europa. Nada disso é bom, nada disso é adequado para a sociedade. Nada disso é justo e correto em uma sociedade que se pretende fraterna e justa.

“Caridade é ofensa; o povo quer – e merece – justiça social”.

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