Arquivo do mês: abril 2017

Produtividade

Uma das coisas que mais me dá prazer ao visitar o texas é escutar rádio. Sim, a maravilhosa KUT (kut.org 90.5 – não confundir com CUT). É a rádio da Universidade do Texas, para mim a melhor rádio do mundo (apesar de que conheço apenas meia dúzia delas). Todos os dias são transmitidos programas excelentes e variados, culturais e com profundidade. Hoje mesmo escutei um programa sobre “puns”, a antiga e maravilhosa arte dos “trocadalhos”. Maravilhoso programa. Uma hora depois um debate que me chamou a atenção: o que é produtividade e como chegar lá.

Uma das coisas que aprendi escutando o especialista que foi convidado foi o real significado da palavra “motivação”. Dizia ele que uma das regras básicas para motivar uma pessoa é colocá-lo na posição de SUJEITO de seu sucesso ou processo transformativo. Por isso, ele nos explicava que é absolutamente contra-producente elogiar uma pessoa por ser bonita, simpática ou inteligente, em razão de que essas qualidades são inatas e não há esforço algum em alcançá-las. O contrário é quando você vê o esforço de uma pessoa que não tem qualidades evidentes para uma tarefa. Um exemplo é a gordinha que dança balé, ou quando escutamos na escola a manifestação de uma criança declaradamente tímida e que, através do seu esforço em vencer suas próprias barreiras, consegue se apresentar em público. Essas pessoas precisam e merecem ser elogiadas publicamente, pois estão sendo premiadas por algo que ativamente FIZERAM e não por algo que passivamente SÃO.

Outro aprendizado foi com reuniões. Muitas pessoas reclamam que as reuniões sempre tem uma parte inicial em que as pessoas contam seus problemas com marido, mulher, filhos, trânsito etc. Muitos dizem que há uma grande perda de tempo com esse interregno que poderia ser mais bem utilizado indo direto para as razões pelas quais marcamos uma reunião. Todavia, as pesquisas dizem contrário: com o tempo, e pela possibilidade de conhecer melhor aqueles com quem convivemos, as reuniões tornam-se mais produtivas e com melhores resultados exatamente porque incentivamos encontros entre PESSOAS, ao invés de focar tão somente nos participantes de uma reunião de negócios. Portanto, pense bem antes de reclamar do amigo que conta piadinhas ates da reunião começar.

Outro ensinamento sobre reuniões produtivas. Qual o mehor time? Onde todos são amigos? Desconhecidos? Extrovertidos? Extrovertidos misturados com introvertidos? Forte líder ou decisões horizontais?

O resultado foi ineressante: as reuniões dependem muito menos de como se faz a liderança e quem são os componentes do que como interagem os elementos. Isto é: a regra fundamental é que exista “proteção emocional” dos participantes. Assim, as reuniões tendem a apresentar produtividade e resolutibilidade maior quando as pessoas presentes tem a oportunidade de se manifestar livremente, sem julgamentos ou violências simbólicas. O chefe é menos importante pelo que faz e mais pelo quanto protege seu time.

Outro elemento é a questáo do controle. Um exemplo interessante é quando estamos trancados em um engarrafamento e resolvemos tomar uma via alternativa que é muito mais longa, e na melhor das hipóteses levará o mesmo tempo da via engarrafada. Entretanto, exatamente porque estamos fazendo algo ativamente – ao invés de esperar passivamente no engarrafamento – é que temos a “sensação de controle” que diminui nossa angústia diante de fatos sobre os quais não podemos interferir.

Como bem sabemos, o mesmo acontece na atenção ao parto, quando fazemos qualquer coisa (os protocolos, as rotinas e por fim as intervenções) porque a sensação de controle nos produz alívio e uma sensação de segurança, mesmo que ilusória e falsa.

Sempre que em uma reunião podemos ter controle sobre os eventos através de nossas decisões teremos uma sensação mais clara de realização, e esse sentimento humano precisa ser reconhecido quando fazemos grupos e montamos equipes de trabalho.

Por fim, é importante termos em mente a questão dos objetivos. Eles são divididos em dois grupos principais: os grandes objetivos e os objetivos parciais. Os grandes são aqueles relacionados com a “missão” a que o grupo se propõe, como montar um hospital, derrubar um governo, criar um partido político ou simplesmente organizar uma comunidade auto-sustentável e ecológica voltada para o nascimento humano. Por outro lado, ninguém acorda pela manhã com essa imagem em sua cabeça: é necessário que os objetivos parciais nos façam ter o estímulo para o trabalho e a construção de algo grandioso. Por isso, ter como objetivo arrumar a cerca, pintar as paredes ou estudar para uma prova são igualmente importantes, pois são as etapas sem as quais as grandes tarefas jamais são concluídas.

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Proletários

 

O Sindicato dos Médicos do Ceará em uma nota oficial (vide abaixo) avisa que não participará da GREVE GERAL marcada para o dia 28 de abril como forma de combater o desmanche da CLT e as reformas da Previdência danosas aos trabalhadores.

Primeiramente, vamos deixar claro que a nota é natural e não deveria causar nenhuma surpresa. O contrário sim seria digno de espanto: médicos descerem do seu pedestal de barro admitindo que são trabalhadores como quaisquer outros. Infelizmente os médicos do Brasil ainda “comem galinha e arrortam peru“. O tempo do médico filho de latifundiário, que vivia de clínica privada e doava uma tarde por semana aos miseráveis da Santa Casa já acabou há 30-40 anos. É preciso acordar desse sonho de grandeza aristocrática que ficou no passado.

Médico é proletário, estuda pra concurso, é funcionário público e ganha salário achatado.

Continuar com essa arrogância tola e falsa é uma estupidez suicida. Manter-se fora da classe trabalhadora, desprezando-a de forma pedante é uma atitude estúpida e retrógrada. Melhor seria assumir sua posição como trabalhador e aderir a um movimento cuja proposta é garantir direitos conquistados que atingem a todos, inclusive os próprios médicos.

Mas essa humildade talvez seja inalcançável para uma categoria que esteve aliada ao golpe desde o primeiro instante. Triste reconhecer que a classe médica no Brasil é a vanguarda do atraso e da exclusão social.

 

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Evidências

 

Revisando os antigos manuscriptos de Robbie para a preparação de sua “Antologia”, que deverá ser publicada em breve, me deparo com uma frase que pode explicar de maneira muito clara as dificuldades de entender a falta de racionalidade e embasamento de muitas das intervenções médicas obstétricas contemporâneas, em especial a episiotomia, que Melania Amorim trouxe à discussão através do seu originalíssimo ECR.

“E ainda assim, os significados culturais e simbólicos desses procedimentos são profundos, indicando cada vez mais que os protocolos hospitalares para a atenção ao parto não fazem sentido numa perspectiva científica, mas permanecem por estarem repletos de sentido cultural”.

Assim sendo, uma episiotomia, um Kristeller ou uma cesariana não precisam ter embasamento científico para serem dominantes na cultura obstétrica contemporânea. Para que sejam preponderantes basta que possuam “sentido cultural“, isto é, que estejam adaptados a uma visão cultural subjacente e silenciosa (uma ideologia) que desmerece a mulher e suas capacidades reprodutivas, e que coloca a tecnologia e o saber racional como válidos e autoritativos, desta forma desvalorizando a fisiologia feminina, em especial no momento do parto e nascimento.
Quando ouço críticas a alguns procedimentos relacionados com o termo “humanização” – como parto extra-hospitalar, posições alternativas à litotomia, doulas, períneo íntegro, acompanhantes, livre deambulação, etc – e vejo colegas exigindo as “comprovações científicas” de tais condutas (que existem em abundância) eu acho engraçado e curioso o desejo insano de que tais procedimentos tenham a devida e justa comprovação quando praticamente nada do que é feito rotineiramente num atendimento ao parto tem qualquer embasamento científico – apesar de se conformar às normas culturais que colocam a intervenção como “salvadora” e a fisiologia feminina como “perigosa”.
Pensem bem, onde estão as evidências que sustentam os seguintes procedimentos que ocorrem em praticamente todos os hospitais brasileiros de forma rotineira:
– Trocar a roupa ao chegar
– Tomar banho
– Soro de rotina
– Ocitocina para apressar o parto
– Raspagem de pelos
– Enema glicerinado
– Restrição ao leito
– NPO (jejum forçado)
– Afastar a família e/ou acompanhante
– Monitorização eletrônica de rotina
– Parto em posição de Litotomia (deitada de costas)
– Episiotomia de rotina
– Kristeller
– Afastamento do RN para rotinas
– Perda da “hora dourada” da amamentação
– Cesarianas (85% no setor privado-convênios)
– Cesarianas (40% no SUS e 55% no geral)

Não estão em nenhum lugar, não é?
Se elas não existem, por que continuam sendo feitas inclusive em hospitais universitários, que deveriam zelar pela atualização e adequação de seus protocolos?

Ora, porque a Medicina é um sistema hierárquico e totêmico. Ela não se expressa como ciência, mas como poder. Só isso explica que os procedimentos não se adaptem à ciência, mas a uma determinada cultura que coloca os profissionais médicos acima de seus pacientes e acima da própria ciência. As realidades científicas serão sempre bem vindas quando se adequarem à norma cultural (cesariana, episiotomia, parto hospitalar, etc..) e serão sempre rechaçadas com extrema violência quando afrontarem os valores culturais dominantes (parto domiciliar, atenção por enfermeiras, presença de acompanhantes/doulas, etc…).

A Medicina é uma guardiã e disseminadora dos valores profundos do patriarcado.

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A Vingança dos Oprimidos

 

 

Recebi com surpresa uma petição via internet contra uma das mais importantes batalhadoras pela humanização do nascimento no mundo, na qual as proponentes a acusam de racismo. As palavras são ásperas, violentas e cruéis, e me oportunizaram uma reflexão sobre a existência de manifestações como estas, em especial no mundo virtual. Foi apenas depois de conversar com alguns amigos e entender o momento político americano contemporâneo fez muita diferença na minha visão do problema.

Existe uma grande insatisfação com o fato de o movimento de humanização do nascimento nos Estados Unidos ser sido criado e liderado por mulheres brancas e de classe média. Para a minha percepção, nada mais natural que isso fosse assim levando-se em consideração as caracerísticas óbvias desta classe: mais dinheiro, mais tempo para se dedicar a tarefas não pagas, mais acesso a cultura, mais facilidades no mundo universitário e tantos outros privilégios de classe e raça que tão bem conhecemos. Acrescente-se o fato de que a comunidade negra americana não é mais do que 10% da população neste país. Entretanto, o que poderia ser visto como uma ajuda por parte das pessoas privilegiadas para DIMINUIR estes privilégios e tentar aproximar estas categorias sociais é visto por um grupo de ativistas-feministas-negras como uma invasão e uma tentativa de expoliar o protagonismo, seja das desfavorecidas seja das não-brancas. Esse assunto vai e volta e temos sempre que lidar com essa classe de ressentimentos.

Quando eu li as declarações desta ativista e as comparei com os ataques que recebeu em resposta fiquei estarrecido com o desnível absurdo de penalização a que ela foi submetida. É como você roubar um pacote de biscoitos no supermercado e ser sentenciado à morte. A condenação das ativistas, por sua vez, não foi direcionada às suas ideias, suas proposições, sua narrativa ou a frase – infeliz ou não – que tenha dito. Não, a penalidade visa atingir a sua moral, sua história e a sua honra. Não é uma resposta ao estilo “Discordamos de você por sua frase, que pode acrescentar mais um fardo às mulheres negras americanas, vítimas de uma sociedade racista”. Não, a petição deixa claro que esta personalidade do mundo do parto humanizado é uma “racista”, “supremacista branca” (“white supremacist”, tipo Ku Kux Klan) e é por causa DELA (ou de “gente como ela”) que existe racismo na atenção às mulheres nos Estados Unidos. Todavia, bastariam 5 minutos de conversa com essa pessoa para se chocar com o despropósito de tamanha agressividade. Como disse Debra Pascali-Bonaro “there´s not a single racist bone in her body“. Isso me deixou claro que a petição diz muito mais a respeito do ódio, frustração e rancores imensos que emanam dessas pessoas do que de alguma falha cometida pela minha amiga e ativista.

Imediatamente percebi que a petição era parte de uma estratégia de ataque às ativistas históricas que militam na humanização do nascimento. Reli a declaração da minha amiga e, por mais que tenha tentado, não consegui perceber nenhuma declaração inquestionavelmente absurda ou racista, mas uma frase que poderia ser interpretada de diversas maneiras. Lembrei da famosa frase do meu pai sobre um técnico de futebol que estava entrando em evidência. Disse meu pai, tomando um café comigo no shopping: “Contra ele pesa o fato de ser negro”. Quando você tira essa frase do contexto parece que que sua intenção era dizer que “ser negro” é um defeito para alguém que almeja ser técnico de futebol. Entretanto, o que ele queria dizer é que, por ser negro, esse sujeito sofreria muitos preconceitos e teria tremendas barreiras que nunca ocorrem contra brancos que almejam a mesma posição. A mesma frase pode ser lida de duas diferentes formas, de acordo com o DESEJO de quem a lê; pode ser considerada racista por pessoas que preferem atacar a todos para fazer valer seus postulados, mas pode significar o OPOSTO se você quiser contextualizar e – mais ainda – se quiser perceber que a frase foi dita por um combatente na luta contra o racismo.

Depois da conversa com outras ativistas pude entender o contexto americano e perceber que minha colega e amiga foi vítima de um processo que não está acontecendo apenas agora. Ela está sendo usada por uma “patrulha” que tenta atacar o movimento de humanização por suas raízes brancas e de classe média, como se a culpa pudesse cair nas poucas ativistas brancas que resolveram trazer o nascimento digno ao debate.

Minha primeira reação foi pensar? “Quer saber? Não quero mais nenhuma interlocução com essas ativistas. Não aceito debater com fanáticas, com gente que acredita no ódio e na vingança como elementos de transformação positiva e que não se importam em dividir um movimento que já é pequeno e que sofre com ataque dos poderosos toda a hora. Que se ferrem!!”

Depois de alguns minutos, um pouco mais calmo, pensei que existe uma necessidade enorme de diminuir as diferenças entre as classes sociais e as raças em nossa sociedade. A luta dessas mulheres é justa e nobre, e a importância de suas ideias não pode ser sacrificada pelo mau uso que algumas ativistas de hoje fazem delas. O fato de serem portadoras de ódio e negatividade não pode me levar a desconsiderar essa luta – assim como a luta contra o machismo, a opressão, a iniquidade, os direitos sexuais das minorias e tantas outras. Se a mensagem delas é de ódio a minha (a nossa) não pode ser de desprezo, mas precisa necessariamente ser pautada pelo respeito e consideração por suas dores e feridas abertas.

Tenho certeza absoluta que minha amiga, Ina May Gaskin, não merece o tratamento indigno que recebeu. Os ataques direcionados a ela atingem todos os que se preocupam com o nascimento humano e com suas repercussões na sociedade. Ina May é um exemplo de mulher, mãe, avó, ativista e lutadora pela causa das mulheres, de qualquer cor, religião ou estrato social. Estarei ao seu lado sempre, porque a conheço como um dos mais iluminados seres humanos que já tive a honra de conhecer.

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Mestres

 

Max estava conversando pelo Whatsapp comigo há uns 5 minutos e terminou a conversa com uma fase que ficou na minha memória. Falava sobre professores e mestres, e a diferença entre ambos. Disse que um bom professor tem três caracteristicas:

1- Conteúdo (informação, profundidade e atualização)

2- Capacidade de transmitir seu conhecimento

3- Humildade para que os dois anteriores não o transformem num arrogante cuja personalidade o afastará dos alunos.

Concordei com a ideia de Max e fiquei pensando que não tive nenhum professor na Universidade que tivesse  estas três características. O mais comum era sucumbirem na terceira e acabar soterrarando capacidades e talentos sobre uma grossa camada de arrogância e vaidade.

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