Arquivo do mês: dezembro 2017

Sobre o mundo virtual

Sobre continuar…

(…ou snowflake activism)

Desculpem a breve intromissão, mas vocês realmente achavam que poderia ser diferente? Acreditavam mesmo que iam mexer nas inseguranças sexuais das mulheres, seus remorsos e culpas, suas alegrias, suas angústias e medos e ninguém ia reclamar? Achavam mesmo que iam tocar no abelheiro dos “podres poderes” da corporação e os “senhores da guerra” não iam atacar com violência desproporcional?

O problema não é a ofensa, nem a grosseria. Também não é a violência de quem não suporta o contraditório. O problema é a ingenuidade de querer fazer omelete sem quebrar a casca do ovo. “Mercenário“, “frio”, “dinheirista, “fingido”? Ora… isso é ofensa? Achavam mesmo que às pessoas iriam respeitar? E por quê? Por serem mães e cuidarem de filhos, portanto “mulheres de bem“?

Ingenuidade. Mexer nas questões do parto é “tiro, porrada e bomba”. Foguete de todos os lados. As mulheres que fizeram cesariana, as que não podem pagar, os cesaristas ofendidos, os neo-humanistas em busca de espaço, os verdadeiramente mercantilistas que acharam um nicho pra grana, as doulas feridas e as abençoadas, enfermeiras e obstetrizes, quem odeia médico e quem os ama demais.

Construir esse caminho é para quem consegue levantar todo ensanguentado, tirar a poeira do corpo, limpar o sangue, cuspir o dente quebrado, levantar a cabeça e seguir em frente no caminho do protagonismo garantido à mulher.

Resiliência.

Não se iludam; um patife virtual é um canalha na vida real. Não me refiro a ninguém em especial mas esta definição está em sintonia com o que vivi nos últimos 20 anos de redes virtuais. Esperar que o mundo virtual seja melhor e mais civilizado que o mundo real é a mais suprema das ingenuidades. Pelo contrário: aqui no Império duro e inexorável dos signos a vida tem muito menos matiz. E o dilema para a manutenção de comunidades temáticas é sempre esse: de um lado o “princípio primordial” (porque estamos aqui? que pode ser parto humanizado, vacinas, amamentação ou tipos de cabelos) e do outro lado “minha expressão subjetiva, meus direitos e minhas necessidades“.

Já participei de grupos que questionam as vacinas em que pessoas entravam para debater o calendário vacinal e onde fazer “aquela nova vacina do HPV”. Em outros grupos de apoio à amamentação algumas mães perguntavam qual o melhor NAN para uma criança de 1 ano. Quando eu (geralmente) ou outro participante questionava a pertinência de tal debate em grupos que combatem o modelo vacinas, fórmulas lácteas e desmames as respostas eram exatamente estas conhecidas por todos. “Eu tenho o direito, não sejam radicais, isto é um culto, é uma religião, não me sinto respeitada etc“. Outra resposta (das mulheres) era: “Vocês precisam ser mais acolhedores com quem traz esses questionamentos“.

Max diria: “Proselitismo equivocado. Seleção pobre de participantes. Excesso de bondade. Falha de função paterna”.

Acho que precisamos acolher tanto quanto educar e colocar limites… mas de qualquer forma a minha larga experiência no assunto determina que ser maleável neste nível ou ser acolhedor e amoroso em demasia só tem um resultado previsível: a morte do grupo. Quando o núcleo duro dos princípios norteadores de qualquer grupo ou associação é atingido então o grupo naturalmente se desfaz; sua razão de existir se destrói. É a explosão da pequena e delicada parte central no coração da Estrela da Morte, mas que constitui sua identidade e seu sentido essencial.

Por esta razão gosto de grupos com administradores sem culpa e que mandam os chatos tomar no fiofó. Eles percebem que mais do que problema pessoal de uma mocinha com “medo de parto normal mas que consulta com o Dr Frotinha” existe a questão da própria sobrevivência de um canal para a difusão de uma determinada ideia ou perspectiva.

No fundo, a dinâmica dos grupos e comunidades sempre será o enfrentamento entre o os ensejos do coletivo e as necessidades individuais.

 

 

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A Execução

 

“Os olhos fechados sobre o inox recebiam da mesa gelada o reflexo das lâmpadas que se penduravam do teto. Nenhum movimento, nem mesmo quando a furtiva mosca pousou sobre o contorno da sua orelha. Os lábios cerrados mantinham encarcerada a última palavra, ainda repousando sobre a língua descolorida.  Os cabelos já não havia faz tempo e a pele há muito perdera sua cor rosada, substituída por uma palidez marmórea.

Sua face encarava a lâmina giratória à sua frente de forma impassível. As rugas no contorno dos olhos se mantinham estáticas, apontando para a comisura dos olhos de uma serenidade aterrorizante. Nenhuma lágrima e nenhum remorso aparente. Seu crime seria pago com indiferença.

Subitamente o negro manco de avental amassado aperta o botão vermelho na parede ao lado e faz a lâmina girar, e nos assalta um som de marcenaria. A sala acanhada se enche com o ruído fino e envolvente da máquina giratória e os dentes da lâmina brilham ao nosso olhar. A execução se iniciava.

Com a mão na nuca do homem ele faz um delicado movimento em direção à serra circular. Esse nada diz, sequer resiste. Seus olhos se mantém fechados assim como sua boca. Sente chegar sua hora. O ruído fica mais intenso enquanto nós, aglomerados no lado oposto da mesa, sentimos os pêlos do braço retesarem à espera do inevitável. Aguardamos um grito, uma resistência, uma queixa que nunca chegou. Talvez a passividade do homem nos pareça mais brutal do que sua pena.

O giro da máquina parece se intensificar à medida em que se aproxima da face lívida do pobre homem. Nossa respiração há muito parou e as batidas surdas de nossos corações retumbam pela sala, numa batucada de medo e horror, mas também envolvidos por uma excitação inquestionável. Enquanto isso os lábios parecem querer beijar a lâmina que se aproxima e, mesmo assim, ele nada diz. Meus ouvidos escutam o guinchar histéricos dos violinos de Psicose em sinistra repetição.

A loucura foi seu crime. A insanidade levando ao isolamento e ao martírio de uma vida infeliz. Resgatado dos porões do manicômio agora estava ali diante de nós para pagar sua derradeira pena.

A serra impiedosa encosta finalmente seu nariz, bem no meio. Nenhum movimento, nenhuma sílaba, nem um apertar de pálpebras. Seguindo seu ritmo ela corta a cartilagem do nariz enquanto fere o lábio inferior, seguindo-se o superior. O negro executor mantém-se mudo, sem dizer palavra. Havia respeito ou insensibilidade? Ajeitou seu pé manco sob a mesa e imprimiu mais força na nuca do homem, deixando o aço frio atingir a testa, o queixo e separando definitivamente seus olhos. Enquanto a lâmina atingia o pescoço alguém ao meu lado levou a mão à garganta, e a sala inteira pôde escutar seu soluço involuntário.

Mais um minuto e a mão firme do carrasco cortou a última fibra de pele da nuca. Com a mão enluvada apertou novamente o botão e a máquina se calou. De imediato o homem caiu para os dois lados ao mesmo tempo; uma parte de si para cada borda da mesa, exibindo seus miolos, sua mente insana, sua loucura e suas memórias. Fragmentos da sua infância, vida adulta, seus amores e dramas salpicaram na mesa, mas não havia sangue, apenas silêncio.

O jovem funcionário juntou as metades do condenado e as colocou em uma bacia. Nenhuma explicação do que seria feito. Ainda com as máscaras no rosto saímos em fila da sala carregando conosco a certeza de que não há nada que nos ensine mais sobre a vida do que olhar um corpo em que ela não mais habita exposto em uma aula de anatomia.”

John Avery Smith “The day when they sort it out”, Ed. Printemps,  pág 135

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Invasões Midiáticas


 

Marcel Proust viveu em uma Paris de profundas transformações. Ele testemunhou chegada da eletricidade, da água encanada e dos elevadores. Também viu a troca de bondes puxados a cavalo por carros a vapor e depois eletricidade. Estava na Cidade Luz durante a construção da Torre Eiffel na Exposição Universal de 1889 e na construção da primeira linha de metrô. Não há como duvidar do entusiasmo com a modernidade que inundava o coração dos habitantes de Paris.

Um relato, todavia, sempre me chamou a atenção em um texto de Proust sobre a introdução de uma tecnologia inovadora nos primórdios do século XX. Ele se referia à instalação das primeiras linhas telefônicas na cidade. Curiosamente, ao contrário de tantas outras inovações recentemente introduzidas – como a iluminação pública e os carros – o telefone foi recebido com reservas. Cabe a pergunta: como pode um artefato quase imprescindível no mundo contemporâneo ter sido introduzido na cidade mais mais culta e mais rica do mundo com desconfiança e tão pouco entusiasmo?

A resposta para essa pergunta não está tão distante da nossa compreensão. É fácil entender que o telefone era um artigo caro na época de sua disseminação, sendo apenas instalado nas mansões de pessoas muito abastadas. Nessas casas era comum aos visitantes se anunciarem a um mordomo que posteriormente perguntaria ao dono da casa da possibilidade de atendê-los; esse era o protocolo. Assim sendo, o telefone era visto como uma invasão aos domínios íntimos do domicílio. De posse de uma combinação de números qualquer um passaria a ter o acesso garantido, estaria apto a “entrar” na mansão outrora inexpugnável da elite parisiense. O telefone era visto, então, como uma “bugiganga de novos ricos”.

Hoje em dia o mesmo desconforto nos atinge, e pela mesma sensação de invasão. Repetindo o fenômeno do rádio – e depois da TV – que penetrou nos lares e em nossas consciências, as  redes sociais nos atropelam de informações e publicidades, invadindo nossos lares pelos olhos e ouvidos. A mesma retórica volta, recheada de augúrios catastróficos pela perda completa da privacidade. Talvez um dia isso venha a ser verdade, e um avanço tecnológico seja o portal para a nossa destruição. Por enquanto, com o acúmulo de experiências das quais somos sobreviventes no passado, cultivo ainda um saudável ceticismo.

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Estratégia suicida

Que estratégia absurda da República de Curitiba e seus asseclas!!!!!

É óbvio que o ataque insano e imoral, sob a forma de lawfare, contra Lula colocará o judiciário num dilema terrível. Se prenderem Lula – contra a lei e contra as provas – ele será um preso político e a eleição de 2018 será uma fraude. Por outro lado, se ele for inocentado pelas Inúmeras irregularidades e provas de inocência no inquérito, isto significará a total desmoralização de Moro, que ficará para a história como um grande embusteiro e um magistrado comprometido com a corrupção.

Minha impressão é que o TRF4 vai preferir correr o risco da humilhação internacional e o escancaramento do golpe do que desmoralizar Moro e eleger Lula em primeiro turno. O corporativismo vira-lata e a amizade entre os juizes falarão mais alto. A decisão será absolutamente política e nada terá a ver com os autos do processo. A decisão irá confirmar o absurdo de uma condenação sem provas e vai afundar o Brasil no estado de exceção e no golpe.

Em nível internacional nosso país vai despencar vertiginosamente no conceito das nações e o rótulo de “República de Bananas” será definitivamente selado em um país que há pouco mais de uma década era protagonista entre as nações e um exemplo para os emergentes.

Acima de tudo uma grande ironia: quem agora está acusado é exatamente o homem que tornou o Brasil o foco de atenção do mundo inteiro. Lula passará a ser  se um preso político cuja liberdade será requisitada pelas massas na rua em clamor popular.

Dias de revolta, dias de destruição nos aguardam.

FENÔMENO?

Pesquisadores estão inquietos com a nova façanha de Lula: o ex-presidente avança também na classe média; pelo menos três institutos nacionais já detectaram queda da rejeição e alta da aceitação a Lula no eleitorado mais instruído.

No Ipsos, único a divulgar dados, a aprovação ao petista já chega a 35% na classe AB (o índice era de 14% há seis meses) e a 42% nos estratos com ensino superior (26% antes); ao mesmo tempo, sua desaprovação cai em todos os grupos.

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Irmão

 

Concordo…. um dos melhores presentes que uma menina pode receber na vida é a convivência com um irmão (sim, do sexo masculino).

Digo isso porque a experiência com o masculino e a forma de pensar dos meninos e homens vai oferecer a estas meninas-mulheres um antídoto contra o crescente preconceito – falso e artificial – que confunde masculinidade com opressão.  Uma relação saudável, mesmo que conflituosa, com o sexo oposto oferece às ferramentas fundamentais à compreensão empática do outro. Os sentimentos negativos de muitas mulheres contra os homens (e contra o masculino) repousam em experiências negativas ou mesmo na privação de contato com a forma específica de como funciona o pensamento e as emoções masculinas.

Estou falando nessa direção do vetor, mas inequivocamente funciona também para a direção aposta, quando homens são expostos desde cedo ao contato com suas irmãs. A falta dessa experiência primitiva cria o estranhamento – que facilmente se transforma em ódio – na relação com o outro, o diferente.

Aprendizado é bem diferente de boa convivência e muito distinto de dividir tarefas. Muito dos sentimentos negativos das mulheres em relação aos homens no mundo contemporâneo se dá pela falta de compreensão que elas têm de como pensam e sentem os homens. Por isso tantas mulheres dizem para os homens “mudarem” apenas porque não aceitam uma forma diferente de pensar e agir. Vejo isso com tristeza cada vez que uma mulher diz a dois meninos em suas brincadeiras “porque vocês dois vivem brigando?” simplesmente porque não entende a forma física como meninos se relacionam. Também quando olham para os maridos brincando de luta com os filhos e dizem “para que essa brutalidade?”

Ora… isso é a total incapacidade de entender o masculino e suas raízes ancestrais. Uma menina exposta a esse discurso e a corporalidade dos seus irmãos terá mais elementos para entender os homens e sua específica perspectiva de mundo. Pode até ser que se ressinta (quem não??), mas ao menos entenderá como é o funcionamento psíquico dos garotos.

Repiro: direi o mesmo para os homens que tiveram irmãs e aprenderam com elas a olhar o mundo pelos seus olhos. Falo mais dos homens apenas porque sinto que as mulheres são mais arrogantes ao pensar que podem entender os homens, enquanto os homens parecem mais convencidos que, inobstante qualquer esforço, é impossível “entender” (e não compreender) as mulheres de forma completa. As diferenças do sexo e da gestação nos afastam de qualquer possibilidade nesse sentido.

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