Arquivo do mês: janeiro 2018

Lugar de Fala

“Local de fala” é o câncer dos movimentos identitários, que produz isolamento, ressentimento, radicalizações e resistência. Hoje em dia já proliferam sites, blogs, vídeos e paginas da Internet que se opõem aos ditames autoritários de algumas propostas originariamente libertárias e humanistas. Falha nossa?

Lutei sempre para que a humanização do nascimento nunca sucumbisse à sedução fácil das “prescrições” e das “rotas seguras”, dos “protocolos” e das “rotinas”, mantendo esse movimento aberto às noções de complexidade, subjetividade, liberdade e autonomia. Humanização do nascimento é um conjunto de ideias que gravitam em torno da ciência, da pluralidade de visões e da autonomia da mulher; não é um culto ou seita, muito menos um “saber sagrado” reservado apenas para iniciados.

Sempre desafiei a ideia de “lugar de fala” na minha ação como ativista e jamais aceitei que me desautorizassem a falar sobre um evento que, se ocorre no corpo das gestantes, atinge a todos nós, homens e mulheres, enquanto ainda formos todos nascidos de um ventre de mulher.

Se o desrespeito com as múltiplas visões sobre o nascimento surgir sem contestação, surfando na onda do radicalismo, prevejo o isolamento e as dissensões. Se, por outro lado, o movimento de humanização acolher (e não “obedecer”) a voz dos homens – pais e profissionais – poderá criar um ambiente de congregação e fluxo saudável de contraditórios e propostas. Sem isso nossas proposições serão eternamente consideradas fechadas e dogmáticas.

Cristalizar um movimento em torno de segregações e dogmas é plantar a árvore de cuja madeira sairá o esquife em que a história vai enterrá-lo.

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Fortes

“Quando lemos sobre os 18 do forte e sua intentona revolucionária suicida é de estarrecer que, passados quase 100 anos, a macheza hoje se resume a ameaças e bravatas no Facebook. Não se faz mais homens de fibra como antigamente, e os ideais de justiça social são menos valiosos que um IPhone novo na caixa.”

Constantino Arruda, “História das Revoluções Fracassadas”, Ed. Hystos, pág. 135

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Injustiça

Pode um elogio sincero e emocionado ser o corolário de um gesto heroico e ao mesmo tempo guardar em seu âmago uma incômoda injustiça?

O corpo pesado da senhora aterrissou ruidosamente no solo frio do corredor do hospital fazendo um ruído surdo reverberar pelas paredes. De costas para o solo sua mão tocava a faixa amarela que guiava os pacientes para a sala de ecografias. Apenas um murmúrio saía de sua boca descorada. Os olhos vidrados olhavam para o teto branco sem se mover. Como testemunhas de sua queda, apenas nós.

O expediente do hospital chegava ao seu fim e os poucos pacientes que ainda circulavam pela recepção estavam marcando consultas ou retirando exames no guichê. Os consultórios se encontravam vazios e os médicos já se dirigiam para seus carros no estacionamento em frente. Apenas nós ainda caminhávamos pelos corredores depois de tomar o último gole de café.

Alguns poucos minutos antes do corpo estender-se no piso do corredor do hospital eu e Fabrício estivéramos conversando sobre nossas dificuldades de encarar uma medicina cada vez mais mercantilista e limitada. Não nos parecia razoável que a teia intrincada e complexa do sofrimento humano pudesse ser traduzida tão somente por alterações mecânicas e químicas, sem levar em consideração a palavra e sua potência. Havia algo da alma humana a ser explorado, algo que não suportava o confinamento na caixa estreita do modelo tecnocrático da medicina. Os poucos anos que nos separavam de nossa formatura eram suficientes para antevermos uma vida inteira em que esses dilemas se apresentariam diante de nós. As conversas ao redor de xícaras fumegantes de café sempre giravam em torno de alternativas, modelos paralelos e complementares, vias de entendimento diferentes e criativas. Este havia sido o tema de mais um debate de fim de expediente na cafeteria do hospital. Fabrício também voltaria para casa, mas eu permaneceria pois estaria no “plantão geral” para as emergências. Nossas despedidas foram interrompidas pelo som do corpanzil que caiu poucos metros à nossa frente.

A princípio pensei se tratar de um escorregão, mas a imobilidade da senhora que se seguiu à queda logo me mostrou que se tratava de mais do que um mero tropeção. O corpo jogado ao solo com as pernas tortas e o dorso colado ao chão denunciavam mesmo uma perda súbita de consciência. Estávamos distantes dela não mais do que parcos 15 metros, e assim que a vimos corremos imediatamente para ajudá-la e tentar entender do que se tratava.

Ao nos aproximarmos a palidez era chocante, e os lábios se limitavam a duas listas violáceas a rasgar a pele marmórea do rosto. Ela balbuciava palavras desconexas enquanto tentava, sem sucesso, focar seu olhar de nós. Segurei o braço da mulher com a intenção de erguê-la, enquanto Fabrício colocava os dedos em seu pescoço para avaliar seus batimentos cardíacos. A pobre senhora a tudo assistia em profunda confusão.

Passados poucos instantes Fabrício segurou meu braço e exclamou:

– Fibrilação ventricular. Cardioversão!!

Fabrício era um clínico e intensivista muito qualificado, apesar de mal ter passado dos 30 anos. Eu cheguei a questionar uma medida que me parecia tão extrema em uma paciente que não estava inconsciente, apenas confusa, ao que Fabrício respondeu como firmeza: “Cuide das grávidas, disso aqui cuido eu!!

Obedeci sem questionar, por certo, e me limitei a ajudá-lo a carregar a paciente para a sala de emergência, que se encontrava apenas poucos metros de onde ela havia caído. Ao perceberem a movimentação inusitada para aquele horário de fim de tarde, as enfermeiras e atendentes se aproximaram e nos ajudaram no transporte de poucos metros até a maca na sala de emergência. Com a paciente já acomodada na sala, e com o aparelho ligado em suas mãos, Fabrício gritou:

– Cardioversão!!! Afastem-se!!

Não é necessário ser médico ou enfermeira para entender o que isso significa, basta ter assistido algum programa dramático sobre o cotidiano de uma unidade de emergência. O aviso serviria para que ninguém recebesse desavisadamente parte da carga de 100 jaules de energia que seriam transmitidos entre os dois polos do cardioversor visando a retomada do ritmo cardíaco normal.

BUM”, fez o aparelho, enquanto as pernas da senhora eram jogadas reflexamente para o alto.

A isso seguiu-se uma nova avaliação de Fabrício sobre seu ritmo cardíaco. Depois de um silêncio momentâneo, repetiu-se o aviso.

– Outra carga, afastem-se!!!

Novo chacoalhar de braços e pernas para cima. Depois o silêncio. Novamente a mão de Fabrício tateou as carótidas da senhora.

– Ritmo sinusal. Revertemos. Podem levá-la para a UTI.

A cena toda não durou mais de 10 minutos. Menos talvez, mas as brumas do tempo me impedem de recordar de maneira exata. Pouco afeito às manobras das UTIs, fiquei vivamente impressionado com a pronta ação do meu colega. O diagnóstico preciso, a ação imediata, a repetição quando foi necessária e a resolução da emergência me deixaram emocionado. Ainda tive tempo de cumprimentá-lo quando o vi acompanhar a maca que cruzaria o hospital em direção à Unidade Intensiva.

Passei aquela noite de plantão no hospital pensando nas múltiplas variáveis que precisaram estar presentes para que aquele milagre viesse a ocorrer. Sim, ouso chamar de milagre porque houve uma sequência de eventos que, caso algum deles estivesse fora do lugar, teria custado a vida daquela senhora.

A presença do meu colega, já fora do expediente ao meu lado, foi o primeiro deles. Estivesse eu sozinho – um ginecologista e obstetra – e não seria capaz de fazer um diagnóstico cardiológico com tamanha precisão e rapidez, nem mesmo carregá-la para a sala de emergência. Além disso, a queda da senhora se deu a não mais de 15 metros de onde estávamos, enquanto caminhávamos sofregamente pelo corredor do hospital. Mais ainda, ela foi ao chão praticamente em frente à sala onde estava o cardioversor. Se Fabrício não estivesse comigo, se ela tivesse caído minutos antes, no estacionamento de onde veio ou mesmo se estivesse em outro ponto do hospital talvez o resultado seria um óbito por fibrilação seguido de parada cardíaca.

A cena se repetia em minha mente enquanto eu pensava sobre a fragilidade da vida e os encontros ocasionais de elementos fortuitos que causam tanto os milagres quanto as tragédias.

Duas semanas se passaram desde o acontecido, e neste período eu ficava sabendo da paciente pelas conversas com Fabrício na hora sagrada do café. Sua recuperação havia sido excelente e ela finalmente teve alta hospitalar. Saiu com uma avaliação geral e uma série de medicamentos para corrigir seu distúrbio cardíaco básico. No dia que se seguiu à alta o diretor do hospital encerrou o “briefing” que iniciava um novo dia de trabalho lendo para todos os médicos, enfermeiras, bioquímicos e fisioterapeutas do turno da manhã uma carta escrita a punho pela paciente agradecida.

Não recordo das palavras exatas, mas o teor era claro. Agradecia às enfermeiras, médicos e pessoal de suporte pela atenção recebida durante a sua estada no hospital, e em especial a Deus por ter oferecido a ela uma nova oportunidade de continuar vivendo depois do quadro dramático e inesperado pelo qual passou. Entretanto, dizia ela, “nenhum fator foi mais importante que a ação corajosa, profissional e altamente qualificada do Dr Fabrício, de quem me sinto eternamente devedora”.

Depois de lida a carta o diretor solicitou que todos os profissionais presentes à reunião se levantassem e aplaudissem nosso colega pelo excelente trabalho realizado, o que fizemos de forma veemente e sincera. Muitos foram os que se dirigiram ao meu colega e o abraçaram efusivamente, cumprimentando-o pelos elogios merecidos relacionados àquele atendimento. Eu fui um deles.

Entretanto, o rosto de Fabrício não parecia estar muito feliz com o acontecimento. Em verdade, a cada abraço e aperto de mão ele respondia com um sorriso constrangido e uma explícita inquietude. Quando a reunião se encerrou, chegou-se próximo a mim e confidenciou:

– Não me parece correto, Ric. Não acho justo. Existe uma grande injustiça aqui.

Fiquei a princípio intrigado com sua reação. Como poderia haver injustiça em uma ação perfeita, correta, profissional e, acima de tudo, salvadora? Não lhe parecia justo que a paciente, cuja vida só se manteve por sua ação imediata, agradecesse  por tudo que recebeu de um profissional qualificado?

– Não entendi, Fabrício. Afinal, qual a sua contrariedade?

Ele respondeu:

– Não me entenda mal, Ric. Eu me sinto feliz e envaidecido pelas homenagens, mesmo sabendo que, para um intensivista, o que fiz não seja algo tão complexo. Fui treinado para fazer isso. Também me chamou a atenção, e aposto que a você também, o impressionante encadeamento de eventos que permitiram que ela fosse atendida a tempo de sobreviver. Não é incrível?

Respondi afirmativamente com um meneio de cabeça. Ele continuou.

– Mas não é isso que me incomoda. Sabe o que ela estava fazendo àquela hora no corredor? Ela havia acabado de marcar uma consulta no setor de clínica médica depois de mais de um ano sem comparecer ao hospital. Ela já tinha há alguns anos o diagnóstico de arritmia cardíaca, mas não estava se tratando. Tomava remédios de forma errática e em doses inadequadas. Quando indagada porque deixou de marcar consultas no hospital disse que o médico que lhe atendia na época não lhe dava suficiente atenção e era frequentemente rude com ela. Parou de comparecer, atrasou as revisões, não se medicou com adequação e isso tudo levou ao desfecho que vimos no corredor do hospital.

– Sim, Fabrício, eu entendo, certamente que houve falhas. Ela não foi corretamente tratada e isso levou ao agravamento da doença básica. Não tivemos competência para prevenir este caso, mas nada disso retira o brilhantismo de sua atuação e sua conduta. Cara, você foi brilhante!! Você é o meu herói!!

Ele sorriu do meu entusiasmo, mas continuou sua narrativa.

– Mas Ric, você não está enxergando a injustiça? Não percebe que existe uma falha grave nessa homenagem?

Mais uma vez fiz uma cara de surpresa e pedi que me explicasse.

– Ora, Ric, deixe que eu lhe explique. Há algumas quadras daqui há um posto de saúde da prefeitura onde um médico clínico geral “genérico” trabalha. Ele é mal pago, atende dezenas de pacientes por dia e tem uma sobrecarga grande de trabalho. Entretanto, ele é um “médico de verdade”. Tem profundo amor pelos seus pacientes e oferece a eles um tratamento não apenas baseado em evidências, mas complementado por um entendimento psicológico, afetivo, emocional e social de suas enfermidades. Conhece os pacientes pelos nomes e sabe de suas vidas, suas dores, seus fracassos, suas feridas – no corpo e na alma – e trata-os da forma mais integrativa possível. Nenhum paciente foge das consultas, pois em cada uma delas nosso “herói de periferia” os escuta, ajuda, consola, orienta e medica adequadamente. Não existem desistências ou negligências.

– Sim, estou acompanhando, disse eu

– Pois o resultado do trabalho desse colega anônimo, escondido num acanhado posto de saúde – mas poderia também estar em um consultório de luxo – é que seus pacientes correm um risco muito menor de descompensarem de forma grave e súbita. Eles dificilmente abandonam o tratamento ou negligenciam sua saúde. Este médico é o verdadeiro sustentáculo do tratamento, muito mais do que qualquer droga ou procedimento. Repetindo o dizer de Balint “ele é o melhor remédio que seus pacientes podem ter”. Sua condução firme, ao mesmo tempo afetiva, oferece estímulo e coragem para que seus pacientes se mantenham em tratamento.

– Acho que sei onde você quer chegar, Fabrício.

– Sim, Ric, pois o que considero injusto é que exatamente a boa condução do tratamento, a qual torna muito difícil que seus pacientes venham a piorar gravemente, é o que nos impede de enxergar a magnitude do seu trabalho de preservação da saúde. Nós valorizamos o ato heroico que surgiu após uma série de pequenos fracassos, mas não aplaudimos o trabalho silencioso dos profissionais que impedem que os desastres aconteçam. Homenageamos apenas o que enxergamos, o espetáculo, a ação salvadora, o sucesso e a vida por um fio, mas deixamos de reverenciar todas as ações invisíveis à olho desarmado cuja excelência bloqueia – ainda na semente – as tragédias evitáveis.

Suspirou com um certo pesar e arrematou.

– Não me importo que reconheçam o meu trabalho, mas não posso permitir que essa injustiça se estabeleça. Existem centenas de colegas cujo trabalho não é percebido e elogiado exatamente porque são competentes e dedicados. Assim não lhe parece?

– Sim, caríssimo, estou de acordo. Também percebo que cada vez que um parto normal impede uma infecção hospitalar ou um problema futuro por uma cesariana estamos plantando sementes invisíveis de saúde. Sei o quanto é gratificante ser reconhecido por um trabalho como o seu, mas ao mesmo tempo reconheço que existem trabalhos muito mais importantes e abrangentes, os quais não recebem o devido reconhecimento por serem menos vistosos e espetaculares.

– Seguro que sim, respondeu meu colega. Mas enquanto não encontramos uma resposta definitiva para mais este dilema da medicina, que tal buscarmos a solução provisória que, apesar de ser a mais imediatista, é certamente a mais saborosa?

– Sim, colega…. café!!!

– Não há porque divergir sobre isso!!

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Propostas Doulas

Minha singela proposta para as doulas:

1 – Criação da Federação Nacional de Doulas (ou Rede, como quiserem)

2 – Criação de um comitê nacional de Formadores de Doulas dentro da Federação Nacional de doulas (Cursos regulares de capacitação com devido registro – CNPJ)

3 – Estabelecimento de um currículo básico de 32 – 40h para ser obedecido pelos cursos ligados à Federação Nacional de Doulas

4 – Selo de qualidade para os cursos que seguem o currículo mínimo exigido pela Federação.

4 – Criação do código de ética das doulas a ser adotado pela Federação.

* Abandonar a ideia de profissionalização, por enquanto.
* Apostar nas associações locais.
* Reforçar os aspectos éticos.
* Estipular um currículo mínimo
* Congresso de doulas. Pode ser no SIAPARTO, aproveitando a estrutura e a circulação de ideias.

Escrevi depois do almoço. Talvez outras ideias surjam depois que o sangue circular melhor. Podem mandar propostas ou oferecer críticas.

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Convicções

Imagine que você viajasse no tempo e encontrasse Hitler frente a frente, no período imediatamente anterior “Putsch da Cervejaria”, em Munique. Diante de si estava o jovem cabo do exército com seus bigodes longos e seu olhar penetrante, que em poucos anos seria um dos maiores carrascos da humanidade. Ao ver o homem responsável por milhões de mortes você imagina que o extermínio deste único homem poderia poupar a vida de milhões de europeus envolvidos na guerra que estava para irromper.

Movido por esta convicção você mata o jovem Hitler, mesmo sabendo que estava executando um homem absolutamente inocente de qualquer crime até então cometido. Fez isso por convicção de que aquele SUJEITO – e não seus atos – merecia ser punido com o extermínio.

Aliás, Esse é um problema comum nos filmes de ficção sobre o tempo: a ideia de que existe linearidade temporal e que, retirando-se um elemento qualquer, todos os outros se manteriam intactos. Na verdade, se Hitler fosse eliminado, outro ocuparia seu “lugar histórico” para cumprir semelhante destinação. Havia realmente um solo de indignação e inconformidade no seio da nação alemã desde o final da primeira guerra mundial. Quem sabe com menos ódio vermelho não invadiria a Rússia e hoje teríamos uma Europa germânica. Por outro lado, poderia ter terminado a guerra bem antes, poupando vidas e evitando a entrada americana no combate. Com isso não haveria se desenvolvido o mesmo império que hoje testemunhamos no “irmão do norte”. Porém, poderia ser um líder ainda mais sanguinário e a treva que caiu sobre o planeta ainda hoje se manifestaria a escurecer nosso horizonte. Como saber?

(In)Felizmente não existem viagens ao passado, e o presente é essa fatia fina de tempo com o qual nossas ações se fazem possíveis. Para nós, qualquer ideia de um futuro é projeção estatística, adivinhação ou misticismo. Assim, uma condenação só poderia se dar diante de fatos, comprovações e evidências e não a partir das convicções de malucos e justiceiros empunhando a bandeira da (sua) Verdade e trazendo nas mãos uma arma, convencidos de que a barbárie que se obrigam a cometer salvará o mundo da perdição.

Não esqueçam que o próprio Führer, dentro sua lógica doentia, também imaginava estar depurando o mundo das suas mazelas, e para isso não poupou os inimigos das piores sentenças.

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Profissionalização

Profissionalizar o trabalho das doulas, com todas as vantagens presumidas e os encargos, custos e obrigações envolvidas, pode ser um caminho óbvio para esta ocupação. Entretanto antes que esforços sejam direcionados para este fim é indispensável debater friamente as suas múltiplas perspectivas.

Provavelmente o que houve de mais significativo na obstetrícia ocidental nos últimos anos do século XX e no início deste novo século foi a incorporação das doulas no cenário do parto com todas as consequências que vieram na esteira desta descoberta. Se antes a ciência médica obstétrica se esforçava para trazer o fenômeno do parto para o reducionismo biológico que lhe caracteriza, a partir da entrada das doulas na atenção ao nascimento esta tarefa se tornou ainda mais complexa.

A introdução de um elemento não químico no evento foi capaz de produzir muitas transformações nos resultados objetivos e isso acabou por demonstrar que os elementos não mensuráveis do parto são – apesar de sua invisibilidade aos olhos desavisados – de valor inquestionável na condução do processo. Havia claramente muito mais do que trajeto, objeto e força. O parto realmente acontecia “entre as orelhas”, e era ali o lugar onde as doulas se inseriam de forma mais marcante.

A doulas produziram uma inegável inquietude nos atendentes de parto e nos hospitais. De intrusas foram pouco a pouco conquistando espaço e ganhando a confiança cada vez maior de serviços que investem na humanização. Sua importância e reconhecimento pela cultura foram crescendo, assim como as evidências de sua ação positiva no cuidado oferecido às mulheres em trabalho de parto.

Com isso seu número proliferou no Brasil. Só o nosso grupo formou perto de mil doulas e os outros grupos que surgiram se aproximam de números como este. O sucesso das doulas foi aos poucos se consolidando até encontrar seu dilema mais óbvio: a profissionalização.

“Ora, pensamos, se médicos, enfermeiras, psicoterapeutas, obstetrizes, psicólogas e técnicas de enfermagem são profissionais, por que não haveriam as doulas – que tanto benefício comprovam nos resultados do parto – de também se tornar uma profissão, mais do que uma ocupação?” Não haveria este upgrade de acrescentar valor e visibilidade ao trabalho que aos poucos vai se fortalecendo?

A primeira questão que eu que trazia, desde 2014 quando ousei me posicionar sobre isso, foi de que não havia vantagens fortes o suficiente para suplantar as inúmeras desvantagens que viriam com esse passo. Tornar as doulas “profissionais” exigiria um número enorme de requisitos e no mínimo duas décadas de luta institucional. Com isso viriam junto os conselhos, sindicatos, burocracias, regulamentações, restrições, códigos, protocolos, sanções, punições, cobranças das várias anuidades (sindicato, conselho, associação), vigilância, currículos mínimos, e muitas outras obrigações que qualquer corporação precisa encarar.

Para profissões tradicionais como medicina, enfermagem, engenharia e direito não havia alternativa: o controle sobre os pares seria inevitável para mantê-los sob rígida vigilância . Mas para as doulas, que fazem do afeto e do contato sua ferramenta mais intensa, que vantagem seria forte o suficiente para suplantar o peso de estarem congregadas em uma corporação? Em contrapartida, é bom lembrar que psicanalistas e técnicos de futebol não são profissões, não desejam ser, e são bem remunerados.

Nenhum, ao meu ver. As doulas precisam ser LIVRES para atender suas clientes, assim como livre deve ser o amor. Nenhuma amarra protocolar deve se interpor entre o livre acesso e escolha de uma gestante por quem haverá de lhe dar esse suporte físico, mas também emocional, amoroso e cálido.

Profissionalizar as doulas lhe retira sua original característica de se estabelecer na interface entre o carinho mais doce e a técnica mais apurada. Normatizar essa ação tem efeito tão deletério quanto regulamentar o desejo.

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A questão das (super) doulas

A capacitação de doulas deveria produzir, acima de tudo, um processo de “castração”. Tanto quanto ensinar as ações de uma doula no auxílio direto à gestante as doulas precisam ser orientadas a encarar com dignidade e respeito os seus LIMITES. Doula peitando médico e enfermeira, questionando condutas profissionais e até sequestrado pacientes de hospital já chegaram ao meu conhecimento. A tudo isso entendi como “entusiasmo”, característica da infância de uma ocupação. Passei por isso na infância da minha atuação como médico, em especial pelos dois “furores” principais: o “furor curandis” e o “furor interpretans”, a insânia por curar ou interpretar. Pois muitas doulas passam pelo “furor protetans”, que é o desejo de alguém que se esmera em proteger a paciente das violências institucionais, mas atacando, por vezes, os profissionais no hospital.

Isso não ajuda as doulas e menos ainda as gestantes e precisa ser coibido desde a formação.

Abandonar a obsessão pela “profissionalização” é o caminho que eu ofereci num duro debate em 2014. Naquela época eu já denunciava que não havia sentido em profissionalizar as doulas e a consequente inserção no mundo das corporações. Em pouco tempo as doulas seriam amarradas em torniquetes legais com a criação de sindicatos, conselhos, política corporativa, greves(???), fundo de garantia, regulamentações trabalhistas, etc… até serem sufocadas pela burocracia e pelas lutas internas. Na época eu disse que doula não era profissão (strictu sensu) mas uma ocupação, pelo que que fui prontamente atacado (qual a novidade?).

Pois bem, a atitude esperta dos legisladores de Curitiba (a exemplo do que fizeram em Porto Alegre com sucesso relativo) impôs às doulas uma formação na área da saúde. É óbvio que o objetivo era inviabilizar a atuação das doulas e o grande erro (nosso, do ativismo) foi aceitar essa condição, que nada mais era que um engodo para dividir o movimento de humanização do nascimento. Em Porto Alegre o projeto foi retirado. Acabamos ficando sem uma lei, mas não parimos uma aberração.

A solução, por mais difícil que seja, é mudar esta lei aberrante e não aceitar uma imposição esdrúxula, que não obedece nenhuma experiência ou estudo realizado pelo mundo. Minha ideia é que as doulas devem ser LIVRES de qualquer amarra legal ou corporativa e obedecer apenas ao contrato estabelecido com suas clientes. Pode ser uma postura contra-hegemônica e estranha para um mundo em que muitas ocupações lutam pela profissionalização, mas creio ser a atitude mais inteligente para a solidificação desta atividade na cultura.

As “super-doulas” partem de um equívoco conceitual, ao meu ver: a ideia de que a atividade da doula se sustenta por seu aprendizado cognitivo e racional objetivo, ao invés de ser uma ação de caráter sensitivo, afetivo, emocional e subjetivo. Essas últimas características são amiúde desconsideradas como sendo “não profissionais” e, portanto, não “comercializáveis”. Ledo engano, e a psicanálise que se ocupa em escutar e orientar compassivamente seus clientes é um exemplo disso. Assim, se é de ajuda o arcabouço teórico e prático que uma doula carrega ao oferecer seu auxílio, por certo que não é ele que dará a sustentação para esta árdua tarefa, mas a conexão íntima e pessoal que ela vai estabelecer com a alma da mulher que está em seu momento mais feminino.

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Doulas e tretas

Não acredito que haja muita “treta” nos debates contemporâneos sobre os cursos de doulas que se espalharam pelo Brasil. Em verdade eu vejo quase um consenso. O problema é que quando nós começamos a dar cursos no Brasil no início desse século havia dois polos de formação. Havia o grupo da ANDO que eu ajudei a criar com Fadynha, Lucia, Cristina, Renata e Zeza (que depois se desmembrou) e o grupo do GAMA – Ana Cris – no qual eu mesmo cheguei a dar aulas no início. Só isso para todo o Brasil, há 15 anos atrás. Era muito pouco, mas era o desbravamento de um campo completamente novo.

Hoje em dia existem dezenas de cursos proliferando pelo Brasil, o que não é ruim. Não vejo mal algum que possamos capacitar doulas para que elas estejam disponíveis em cada canto do Brasil. Por mim pode haver centenas de cursos, desde que não desvirtuem o papel da doula, retirando ou acrescentando as funções reconhecidas de sua prática.

Lembrando: doula não verifica sinais vitais, não avalia dilatação, não atende parto e não dá assistência médica ou de enfermagem ao recém-nascido ou à mãe. Doula é uma acompanhante de parto treinada par a dar conforto à parturiente.

Vou apenas acrescentar que doula pode ser analfabeta, velha ou adolescente (menor de idade eu faria restrições por causa dos partos hospitalares), homem ou mulher (já briguei muito por causa disso), cis ou trans, bonita, feia, gorda, magra, forte, fraca. Tímida ou espalhafatosa.

Quem escolhe é a mulher.

O problema que surge agora é a disputa por espaço. Criou-se a ideia de que os cursos “longos” são melhores, o que não condiz com a verdade das pesquisas. Também surgiu a ideia de que estágios são “essenciais”. Não creio nisso, apesar de que essa será uma ideia boa quando houver campo de estágio onde ocorram partos minimamente respeitosos. Levar doulas para assistir parto violento, episiotomia, parto deitado, puxo dirigido e Kristeller no SUS (e no privado) não ajuda ninguém.

Portanto, o choque que testemunhamos agora é o resultado natural de uma ideia de sucesso. Só há conflito porque o modelo contagia a todos. Resta a todo mundo que participa dessa história lutar para que não se repitam as lutas intestinas por poder típicas das velhas corporações.

E que assim seja.

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Religião

Sou cada vez mais interessado pelo verdadeiro sentido sociológico da religião, que não é a prática do bem, da caridade, a crença na vida após a morte ou nas bem-aventuranças. Religião me parece cada vez mais um idioma; uma linguagem. Um código complexo e detalhado onde colocamos nossos valores contemporâneos e os inserimos entre as palavras escritas.

É por esta razão que os textos sagrados são tão longos, complexos e dúbio – por vezes contraditórios. Eles são assim com um propósito: permitir a entrada de inúmeras visões de mundo, mesma as que são antagônicas. É possível ter opiniões diametralmente opostas e usar a Bíblia ou o  Corão para embasá-las.

Religião não é um lugar de onde tiramos conceitos, mas onde os colocamos. Por isso ela muda no tempo e no espaço. A religião, portanto, é uma identidade compartilhada, que funciona para agregar as pessoas em nome de ideias, valores e histórias comuns.

Edward McDuffie,  “The gates to Nowhere”, Ed. Printemps, pág 135

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Eu (também) acredito em Woody Allen

Sobre Woody Allen

No mundo da pós verdade qualquer acusação que esteja de acordo com os linchamentos da época assume estatuto de verdade. Em certo tempo a moda era linchar judeus, agora os palestinos – e árabes em geral – são os escolhidos. No Brasil os petistas são o prato predileto. A partir de agora aos homens poderosos é lícito jogar qualquer infâmia pois quem teria coragem de duvidar? Se você criar uma acusação com um mínimo de lógica as provas tornam-se desnecessárias devido ao convencimento que se obtém com milhões de compartilhamentos em redes sociais. Quem pensaria em questionar um abuso cometido declarado em lágrimas por uma vítima que nos desperta empatia? Quem ousaria discordar do boato de que um político poderoso é dono da Friboi, possui uma mansão e um jatinho particular? Basta repetir indefinidamente, milhões de vezes, centenas de capas de revistas, milhares de memes e pronto… Nenhuma evidência se torna necessária.

O extermínio de reputações é uma praga contemporânea que se intensificou exponencialmente com a Internet. Ela dá um poder desmedido ao acusador, em especial se este fizer parte de um grupo minoritário e historicamente oprimido. Experimente questionar a veracidade de uma acusação (por mais forçada que seja) de racismo, homofobia ou machismo. O simples fato de você solicitar uma prova, ou pedir as fontes – para confirmar uma acusação tão grave – já o coloca na berlinda e o torna “cúmplice” da barbárie denunciada. Não há saída: ou você se associa à massa indignada ou sobe ao cadafalso junto com o acusado.

Eu sempre defendi Woody Allen porque acompanhei o caso quando aconteceu, no início dos anos 90. O relato da acusação me parecia absurdo, inverossímil, fantasioso, carente de provas e claramente calcado em vingança. O depoimento da menina parecia imerso no que depois se chamou de “Falsas Memórias” (veja aqui e também aqui), e totalmente desprovido de valor. Já as declarações de Woody Allen convenceram a mim e a todos os peritos envolvidos no caso e, por esta razão, o caso jamais seguiu adiante.

Fica claro que, se é lícito destruir a reputação de um artista famoso sem qualquer prova, nenhuma pessoa estará livre de ser destruído por estas ferramentas. Não esqueçam quantas mulheres na história foram destruídas e mortas por insinuações, que variavam de bruxaria, ninfomania até adultério. Sem provas. Pensem nisso antes de jogar a pedra.

Fico feliz de ler artigos (como este aqui) que colocam em ordem os sentimentos que sempre nutri contra essa perseguição imoral e perversa. Salve Woody Allen, e que seus detratores sejam punidos.

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