Arquivo do mês: outubro 2018

O Papel da Homeopatia no Parto

 

“Uma pergunta muito corriqueira é “qual a contribuição que a homeopatia pode trazer na atenção ao parto?”

As respostas são muitas, mas é importante deixar claro que a atenção ao parto é um processo que trabalha com mulheres (via de regra) saudáveis e no ápice de suas condições físicas. Muito mais do que medicar gestantes nossa tarefa é acompanhar seus passos e garantir que sua trajetória se mantenha na trilha da fisiologia. Entretanto, por seu um processo complexo e que se estabelece na interface entre sujeito e cultura, uma série de desacertos podem ocorrer durante a gestação, parto e o puerpério. Para tais transtornos a homeopatia pode oferecer um tratamento seguro, suave e sem efeitos colaterais.

A homeopatia parte de uma abordagem bem diversa sobre o binômio saúde-doença. Ela não se propõe a ser forma “alternativa” de tratar enfermidades conhecidas, como pneumonia, enxaqueca, gastrite ou anemia, mas uma forma diversificada de entender o sofrimento humano. Portanto, mais do que uma terapia, a homeopatia é um “modelo”, uma leitura diferente das aflições humanas, abrangendo através de sua visão holística tanto os aspectos físicos quanto os psíquicos. As formas de avaliação dos resultados obtidos pelos tratamentos homeopáticos serão, portanto, diferentes dos modelos biomédicos, da mesma forma como as ciências psíquicas o são. Como diz de forma categórica Thomas Kuhn, “As respostas que alcançamos vão depender das perguntas que fazemos”, e estas perguntas dependerão do paradigma adotado para analisar uma determinada ciência ou conhecimento.

Desta maneira, a homeopatia pode ser considerada um novo paradigma na atenção à saúde ao determinar uma nova leitura sobre a terapêutica, mudando de uma visão “maléfica” – como na medicina alopática hegemônica – para uma visão “benéfica”, considerando o conjunto reagente do sujeito como um movimento coerente no sentido da cura. Para analisar este novo paradigma é necessário entender o objeto de análise – o paciente – de uma forma distinta, de maneira integrativa e complexa, rompendo os limites do biologicismo cartesiano. Ao analisar os doentes como entidades onde a mente e o corpo atuam de forma conjugada as perguntas que avaliam uma ação terapêutica qualquer precisam ser modificadas, alteradas para captar a delicada tessitura da construção dos sintomas. A homeopatia vem mudar a visão da medicina tradicional ao reconhecer o organismo como dotado de um saber intrínseco e interno, cujas finalidades precisam ser respeitadas e, mais do que isso, seguidas. Ao lado da psicanálise – duas vertentes contemporâneas de visão endógena de adoecimento, se situam à margem dos modelos terapêuticos atuais exatamente por oferecerem essa visão da “doença dentro da linguagem”, afastando-se dos modelos da biomedicina que desconsideram a construção simbólica de nossas enfermidades.”

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Pedra de Tropeço

 

O Brasil ameaça cair numa arapuca terrível, uma mistura de intervenção militar, religiosa e fundamentalista da qual não será fácil suplantar, mas condenará o país ao atraso e à obscuridade. O ódio de classe misturado com a manipulação midiática das eleições não poderiam produzir um resultado diferente. Por outro lado, é possível que o descalabro de um governo incompetente, um presidente bufão e a condição de ditadura em pleno século XXI sejam a queda vertiginosa no poço da miséria que possibilitará uma reação popular.

 

Eu tenho pensado na “pedra de tropeço” ultimamente. Quando vi os alemães se horrorizarem com as palavras do Coiso penso que isso é possível apenas porque sua sociedade conseguiu absorver as lições do horror e da degradação fascistas. A nossa ainda não, e por isso namoramos com o arbítrio e o intolerância.

É forçoso reconhecer que nossa democracia nunca se consolidou. Falhamos com a democracia. O que é impensável em muitos países civilizados para nós é natural. Nunca tivemos instituições fortes. Nosso STF é covarde, o congresso é fisiológico e votamos em sujeitos que são notórios desqualificados.

O Coiso, Tiririca, Alexandre Frota e tantos outros nos fazem pensar sobre nossa educação e nossa ideia de nação. Uma das razões dessas fragilidades institucionais é que jamais tratamos os crimes da ditadura com a energia necessária. Não punimos os assassinatos e as torturas dos anos de chumbo produzidas pelo Estado. Ficaram todos livres e com total impunidade. Ustra não foi tratado como devia e acabou falecendo antes de pagar por seus crimes. Nossa anistia não permitiu o fechamento do ciclo. Ele se manteve aberto e por isso mesmo a sombra da ditadura e do autoritarismo paira sobre nós.

Tenho pensado que a possível eleição de um fascista confesso produzirá – na melhor das hipóteses – um choque de realidade. O caos que por certo vai se instalar a partir de um governo truculento, estúpido, arrogante e desvinculado das necessidades dos pobres poderá produzir uma reação da sociedade – que ainda não ocorreu. Bolsonaro talvez venha a ser a barbárie que nos faça fechar o ciclo.

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A morte repetida

 

A morte de um assaltante foi exibida em horário nobre repetidas vezes para exaltar o trabalho de quem o executou: a policial candidata a deputada que o baleou na frente da escola onde ele se preparava para cometer um crime. Consta que a policial foi eleita, e a mãe do rapaz a está processando por uso da imagem mórbida e renitente do filho agonizando no asfalto quente.

As “pessoas de bem” tem uma profunda dificuldade de entender que existem DOIS crimes cometidos neste caso, e insistem em olhar para apenas um. O primeiro crime foi uma tentativa de assalto em que o rapaz acabou morto. Não há sequer o que fazer; ele foi julgado e punido no mesmo instante. Não sou expert em segurança para dizer se foi correto abrir fogo no meio da multidão, mas… que seja. Pronto, o crime foi evitado e o rapaz que estava para cometer um ato criminoso foi punido.

O OUTRO CRIME é a exposição do rapaz para fins de propaganda, o crime de usar a morte de alguém para se vangloriar, impedindo que sua família possa viver seu luto em paz. A negativa desse direito – de não ser punido duas vezes pelo mesmo crime, tanto em vida quanto após a morte – faz sentido numa sociedade que não considera negros e pobres como gente. Eles não são como nós, “gente de bem”; eles são a escória, o lixo, os inferiores. Por isso podemos mostrar indefinidamente seus corpos baleados no asfalto, agonizando indefinidamente para o nosso gozo de classe média branca.

Esse é o crime que nos negamos a ver. Afinal, que mal há em expor um negro pobre morrendo todos os dias para a nossa diversão? Por isso qualquer ideia de criticar essa desumanidade e esse abuso é tratado como “defesa do crime”.

Leva pra casa… bandido bom é…

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Arquivado em Histórias Pessoais, Política

Dores necessárias

 

Acho que foi Claudia Murta quem primeiro me falou, ou talvez ela tenha sido apenas a mais enfática. Entre taças de vinho em sua casa, junto com outros malucos se nutrindo de ideias, ela concordava comigo sobre a radicalidade do parto. Dizia eu que “Por isso é parto; é partir, romper, quebrar, destroçar. Por isso tanta dor; para impregnar aquele corpo com os infinitos significados de um nascimento ele precisa ser rasgado de dentro para fora através dela. Ardente e corrosiva, que seja, mas para transformar e fazer do passado pó, trocar a pele, queimar as roupas, vomitar seus medos ”.

Eu enxergava na epidemia de bloqueios peridurais uma traição aos sentidos últimos do parir. Não seu uso, mas seu abuso. Uma carona no Caminho de Santiago a lhe falsear os significados. Roubando-se a dor retira-se também a construção misteriosa e oculta que se esconde por detrás do evidente. Minha dor era a falta de dor, a falta de marca, a cicatriz que não se fazia. O corpo que não sabia.

Ao nosso país também faltou sua dor; nossa anistia “ampla e irrestrita” foi uma cesariana em um corpo que pedia a passagem da democracia. Não quisemos enfrentar nossas caras contorcidas, as fezes, os puxos, as secreções, os gritos, e por isso perdemos o êxtase. Fugimos das angústias de uma passagem estreita, a dor de romper a própria carne. O olhar-se para envergonhar-se. Preferimos colocar uma pedra, sobre tudo e todos. Uma pedra que agora nos pesa, pois o monstro … desperta.

Renegamos a dor que poderia nos salvar, o sofrimento agudo que nos daria esperança. Faltou em nós o grito redentor, o corte, o caminho que se faz na força. Faltou o parto com dor.

Faltou coragem para deixar o país parir.

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A Culpa do fascismo

 

 

“Ele diz que o Coiso só existe por causa do PT e pela falta de autocritica do partido. Diz que por isso vai votar no Coiso. É mentira. Vai votar porque sempre curtiu um autoritarismo fascista e anti-pobre. Sempre gostou de “cada um no seu lugar”. Sempre achou estranho aeroporto colorido e universidade cheia de “bolsista”. Não é pelo PT, é por você mesmo.”

O racismo e o preconceito de classes existem muito antes do PT. O Partido dos Trabalhadores e a emergência dos pobres e negros no cenário nacional que ele proporcionou apenas deixou evidente a ferida corrosiva e pútrida de nossa sociedade, a qual se escondia por detrás dos curativos mal feitos da cordialidade e da negação ao racismo. Culpar o PT pelo surgimento do fascismo QUE NUNCA DEIXOU DE ESTAR AQUI é o mesmo que culpar os negros pelos racismo, pelos espancamentos e pela exclusão. É o mesmo que culpar os pobres pela sua pobreza, chamando-os de fracos e preguiçosos. É tão tolo quanto dizer que a culpa do estupro é do vestido curto, que atiçou no sujeito “comum” seus instintos brutais de estuprador.

Mentira, mentira deslavada. O PT tão somente deixou evidentes as contradições que existem na nossa sociedade desde sempre, ou desde que o fenômeno do racismo impregnou nossa sociedade dividindo-a entre Senzala e Casa Grande a partir de 1532. O PT e as esquerdas cometeram erros e equívocos terríveis, e terão tempo suficiente para se reorganizarem e para e chamarem o povo excluído para as suas lutas, mas culpá-los pela estupidez e pelo fascismo expresso por figuras repugnantes como Bolsossauro, Morinho e Mourão é injusto e denuncia uma miserável leitura da história desse país.

Bolsossauro foi fermentado na ditadura, na falta de punição aos torturadores e assassinos do Estado. Foi criado pela elite desgostosa e ressentida com os avanços da “ralé”, no dizer de Jessé de Souza. Foi cozinhado em fogo brando por uma elite retrógrada da caserna, ainda ligada ao autoritarismo, com nojo de pobres e negros e de qualquer organização social que ouse tocar no nosso sistema rígido de castas. Não tentem nos fazer acreditar nessa história tosca de que o Coiso é culpa de quem sempre lutou pelos mais pobres e sempre tentou modificar o modelo perverso sobre o qual nosso país se assenta.

Assumam a culpa pelo monstro. Na época do Führer não havia print de Facebook ou Whatsapp para que a gente pudesse mostrar à posteridade quem esteve ao lado do arbítrio, do fascismo, do racismo, da exclusão, da ditadura e da perversidade social. Hoje poderemos provar quem escolheu um ditador. O tempo cobrará, como na Alemanha, quem esteve do lado justo e democrático da história.

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