Arquivo do mês: setembro 2014

Pai

Mulher chorando

01.

 

A secretária me informa que uma paciente está aguardando, mas avisa que ela quer apenas dar uma “palavrinha”. Olho para a ficha à minha frente e não lhe reconheço o nome. Talvez seja alguém que apenas quer um exame para acalmar os nervos, ou fazer uma pergunta sobre algo que não compreendeu bem de uma conversa com outro profissional. A consulta estava marcada há algum tempo, portanto não deveria ser algo urgente ou de última hora. Escrevo minhas últimas informações no Facebook e respondo perguntas sobre uma provável palestra do outro lado do país. Ajeito a bagunça da mesa, recolho os papéis das consultas anteriores, enrolo o esfigmomanômetro e retiro o estetoscópio do pescoço. Ajeito as bolinhas imantadas sobre a o mármore da mesa e recolho a xícara de café que ainda guarda o calor da última dose do vício diário.

– Pode passar a paciente, digo, enquanto arrumo a camisa e confiro se está com a gola ajustada.

Ela entrou com o olhar fixo em mim. Era loira, linda, cabelos cacheados, boca vermelha. Devia ter uns 35 anos, um pouco menos talvez. Era alta para uma mulher, mas talvez estivesse de salto. Vestia um “tailleur” bonito e sofisticado, e os brincos na orelha eram delicados e discretos. As unhas pintadas eram sóbrias mas muito cuidadas, e seu porte denotava uma espécie de nobreza. Ficou séria me olhando, sem dizer palavra. Digo um “boa tarde” seguido de um sorriso, mas o olhar dela não se moveu. Parecia estático, examinando cada detalhe do meu rosto, como se procurasse por algo. Alguns angustiantes segundos se passaram e ela finalmente respondeu.

– Boa tarde, doutor. Boa tarde… Ricardo, acho que posso lhe chamar assim, não?

Ela sorriu, timidamente e ajustou o corpo na cadeira de braços largos. Seu cabelo era bonito e sedoso, mas me deu a impressão que havia sido preparado recentemente, como alguém que acaba de sair de um instituto de beleza. Para quê, pensei eu, arrumar-se dessa maneira para conversar com um obstetra?

– Claro que pode me chamar assim. Fico até mais moço. O que posso fazer para lhe ajudar?

Novamente ela ficou em silêncio, mas seus olhos continuavam me olhando de forma intensa. Pareciam me atravessar, como que a olhar para um passado em mim. Como se estivesse tentando confirmar, certificar-se de que era eu mesmo. Mas quem era o “eu” que ela procurava?

– Então? insisti eu, tentando diminuir minha ansiedade.

Seu rosto transmutou-se repentinamente. Seus olhos marejaram e sua boca se entreabriu…

– É que…

– Sim?

– É que você… o senhor…

– … …

– O senhor é meu pai.

 

02.

 

Por alguns instantes fiquei em silêncio. Esperei pela frase seguinte, que não veio. Desejava que viesse algo como “claro, modo de dizer, você foi o obstetra no meu nascimento e o sinto como um pai…“, mas esta frase ficou apenas nas minhas esperanças. Ela continuava parada, olhos fixos e mim, e do seu rosto correu a primeira de muitas lágrimas.

– Eu creio que houve um engano. Veja bem, eu…

– Por favor, doutor, digo, Ricardo. Não me decepcione. Pensei nesse momento centenas de vezes nos últimos anos. Não me olhe como se eu fosse uma louca, doente, maluca ou oportunista. Não se trata disso. Estou plenamente consciente do que estou dizendo. Sei o que isso significa para você, mas peço que pense no que significa para mim. Este momento foi fantasiado por mim milhares de vezes, em milhões de pensamentos. Por favor, tenha cuidado com o que vai dizer. Confio na sua sensibilidade para perceber a delicadeza desse encontro.

Eu continuava estático, mas ainda acreditava que só a psicose poderia explicar aquela conversa. Imediatamente calculei de memória as datas que ela havia dito, e discretamente olhei para a ficha que minha secretária havia entregue. Sua data de nascimento era 20 de março de 1980. Eu era um menino de 20 anos de idade quando ela nasceu. O que poderia ela estar falando?

– Minha flor, desculpe eu insistir. Posso perceber o quanto isso é importante para você, mas essa afirmação não faz sentido algum para mim. Como poderia eu ser seu pai? Na época em que você foi concebida eu era um mísero estudante de medicina, trabalhava em plantões, não sabia nada da vida e tinha uma namorada. Eu não teria como ser seu pai, é impossível.

Ela parecia saber cada palavra que eu diria. Secou as lágrimas e sorriu.

– Eu imaginei que essa seria sua reação. Susto, desconfiança, pânico. Mas veja bem, você não pode imaginar o que eu tive que fazer para descobrir você. Anos de busca, de procura, de angústia, de sofrimento e persistência. Mas bastou olhar para você por alguns instantes para me dar conta que eu estava certa. Acredite, você é mesmo meu pai.

De onde eu estava conseguia sentiu seu perfume, delicado e inebriante. Minha experiência com a psicose daria um livro, que já teria vários capítulos escritos, e não me surpreenderia se esta fosse mais uma das pacientes “locádias” que me acostumei a acompanhar durante a vida. Mas porque tanta serenidade, tanta firmeza? De onde ela tirava esta certeza, absurda, tola e insistente?

Minha cabeça rodando, rodava mais que os casais, o teu perfume gardênia e não me perguntes mais…” As palavras de Elis rodopiavam em minha cabeça à procura de uma explicação, uma que fosse, que pudesse me retirar do redemoinho de dúvida que me assolava.

Mas ela continuava ali, incólume. Pétrea.

 

03.

 

Eu já não sabia o que fazer ou dizer. Não posso negar que olhei para ela em busca de alguma semelhança. Sim, ela lembrava minha filha, mas devia ser por causa do cabelo arrumado, pensei. Não faz sentido. “Quem é você?“, gritei eu em pensamentos.

Ela se mantinha imóvel à minha frente. Apenas tirava as mãos do linho da saia bem costurada para secar uma lágrima que teimava em escorrer pelo rosto. Seu olhar era um enigma, um mistério. Escondia algo que agredia meus sentidos, minhas memórias, minhas lembranças e minha integridade mental.

– O nome Emerson lhe lembra alguma coisa? Dr. Emerson…

– Não conheço nenhum Dr. Emerson, respondi. Foi ele quem lhe mandou aqui? O que ele faz? Do que se trata isso, afinal?

Ela sorriu momentaneamente. Queria um tempo para me contar pausadamente a sua saga. Franziu as sobrancelhas e pediu que eu tentasse lembrar.

– Ele já morreu há muitos anos, Ricardo. Mas você o conheceu sim. Ele era plantonista do Pronto Socorro.

Senti um aperto no peito e a minha vista por um segmento de segundo pareceu apagar. Emerson… não, não é possível. Ele me disse que eles haviam desistido!! Ele me garantiu. Não pode ser!

Apertei as mãos com força e suspirei. Havia uma longa história a escutar. Desta vez foi meu coração que disparou, e foram meus olhos que marejaram.

 

04.

 

Minha memória imediatamente deu um salto para trás, para além de 30 anos. Afastei as nuvens das lembranças diáfanas para procurar a face da pessoa que a bela moça à minha frente havia citado.

Emerson. Médico plantonista do Pronto Socorro particular em que eu trabalhava durante meu tempo de estudante. Um sujeito grosso, mal educado, duro. Trabalhava com clínica médica e era médico legista. “Pelo menos os pacientes dele do necrotério não reclamam“, dizíamos nós cada vez que sabíamos de suas crises de mal humor. Mais de uma vez vi pacientes reclamando de suas palavras ácidas e carregadas de impaciência. “Há sujeitos que não deviam atender pacientes”, pensava eu. O Dr. Emerson era uma boa pessoa no convívio com os colegas, mas um “cavalo” no trato com seus pacientes. Achava-os todos tolos, incapazes, irresponsáveis. Burros mesmo, e não se furtava em deixar isso bem claro durante as consultas. Tolerância zero.

Naquela época eu era um menino cheio de ideias. O moedor de carnes da escola médica ainda não havia atrapalhado minha visão da alma que habitava os corpos que das pessoas que atendia. Minha paixão na época era ver a medicina crua, de verdade, que se forma nos sulcos que os sofrimentos agudos produzem na face dos doentes. Trabalhar no Pronto Socorro, mesmo que isso significasse atender centenas de diarreias, vômitos e cefaleias simples, me mostrava o lado humano de cada sofrimento, de cada doença, de cada etiologia.

Emerson era um médico que há muito trabalhava naquele local. Sabia os meandros dos pacientes que lá apareciam, suas características, suas malandragens e suas múltiplas faces.

Esse aí veio só pedir um atestado, quer apostar? dizia ele, quando o paciente se aproximava do guichê na recepção. “Isso é um absurdo. Esses vagabundos vem aqui perturbar meu descanso“. Eu tentava lhe dizer que não era justo prejulgar as pessoas, mas recebia dele um olhar de censura que mais parecia uma condenação sumária.

Minha atração por sujeitos estranhos, bizarros e complicados acabou me aproximando do Dr. Emerson. Ficamos amigos, e eu tentava dar um desconto para a sua agressividade extemporânea. Ele, apesar disso, era culto, inteligente, sagaz, perspicaz e um excelente clínico. Ficávamos horas debatendo casos médicos durante o plantão, tanto os corriqueiros quanto aqueles mais complicados. Apesar de seu comportamento taciturno e grosseiro, podia ser uma fonte inesgotável de histórias, casos clínicos, piadas, comentários sexistas, análises conservadoras e visões direitistas da realidade.

Eu não sabia que ele havia morrido. Sua idade era intermediária entre a minha e a do meu pai. Poderia ter uns 70 anos por agora. Infarto? Câncer? Apostei mentalmente em doença cardíaca. Afinal, com aquele temperamento irascível não há coronária que aguente. Por momentos fiquei a lembrar dele com seu corpo de boxeur aposentado, seu uniforme de calças azuis e jaleco branco. Era um dos poucos médicos no Pronto Socorro que exibia seu nome bordado no peito, onde se lia “Dr. Emerson“.

Minhas lembranças me deixaram com o olhar preso na parede à minha frente por alguns segundos. Em minha mente uma cena se configurou, a qual jamais pude esquecer. O Dr. Emerson caminhava pela sala com os braços para trás, os óculos de aro grosso à frente do rosto, a cara fechada e tensa, como a espera de me desferir um tapa.

Subitamente ele se vira e me diz algo que continua a ecoar em minha mente, mesmo depois de mais de 30 anos:

– Ricardo, diga uma coisa. Qual a sua altura?

 

05.

 

Olhei para o Dr. Emerson com ar de interrogação e lhe devolvi com uma pergunta.

– Por que deseja saber?

– Diz, vai…

– Tenho 1,75m. Isso faz alguma diferença?

– Seu sobrenome é inglês e você tem ascendentes alemães, certo?

Respondi afirmativamente, sem saber onde ele queria chegar.

Ele me olhava de cima a baixo procurando algo, mas eu temia perguntar. Minha altura e árvore genealógica pareciam ter alguma importância para ele, mas qual a razão? O que meu colega poderia procurar em um menino de 19 anos, estatura média, descendente de alemães e britânicos, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e morando na capital?

Ele continuava a me olhar com atenção.

– E quantos quilos você pesa, perguntou depois de um lapso em que ficou escrutinando minhas feições e meu cabelo.

– Tenho 70 quilos, Dr. Emerson, mas não responderei mais nenhuma pergunta a não ser que você me explique para que deseja estas respostas. Já vou lhe avisando que não trabalho como garoto de programa, não me vendo por dinheiro e sou um rapaz muito religioso.

Ele deu uma risada e respondeu:

– Não se preocupe. Era um projeto que eu tinha em mente, mas agora deixa pra lá. Não precisa dar atenção a isso.

Levantou-se da cama onde estava sentado no dormitório médico do Pronto Socorro e caminhou em direção à porta. Mas não havia mais como negar: ele havia me deixado curioso demais para permitir que se levantasse assim sem deixar claro do que se tratava.

– Ei doutor, diga lá. Para que tanta pergunta?

Ele voltou-se para mim e sorriu, como se soubesse a pergunta que eu faria. Sentou-se de novo na cama acanhada do hospital e disse:

– Ricardo, pensei em pedir para você um favor, mas não sei se você aceitaria. Quando me disse ser “muito religioso” eu achei que não se encaixaria nesse perfil. Deixa para lá, não se preocupe com isso. Vamos tomar um café na cozinha e procurar o motorista para revisar a ambulância.

Não aceitei a recusa. Agora ele não podia mais me esconder o que havia por trás de tantas perguntas. Informei a ele que o “religioso” era brincadeira, e que se referia apenas a não praticar atos ilegais.

– Diz aí do que se trata, pedi eu.

Ele coçou a cabeça, torceu o canto da boca, olhou para o lado, respirou fundo e falou:

– Estarias disposto a ajudar um amigo meu que passa por um drama pessoal terrível, o qual pode lhe causar uma tragédia caso não seja solucionado?

 

06.

 

A bela moça continuava estática à minha frente, e suas lágrimas me deixavam confuso e atônito ao mesmo tempo. Quando ela citou o Dr. Emerson foi como se um portal cheio de lembranças da juventude se abrisse à minha frente. Todavia, antes de me trazer calma e conforto minha sensação foi de angústia dilacerante, como se uma torrente de culpa e incredulidade me atingisse. Olhei para seus olhos úmidos e vermelhos e lhe supliquei:

– Porque você fala do Dr. Emerson? Como o conheceu? O que a sua presença aqui tem a ver com ele?

Ela levantou o queixo e me fitou com firmeza. Queria que meu olhar lhe confirmasse algo que trazia no peito. Meus olhos, entretanto, apenas pediam uma palavra de conforto, uma explicação, uma…

– Meu pai morreu há 5 anos, Ricardo. Ou pelo menos quem eu pensava que fosse meu pai. Câncer. Fulminante. Um dia jogava bola com os amigos, no outro estava fazendo exames por uma dor incômoda no abdome. Ecografias, ressonâncias, dezenas de exames, internação. A cirurgia foi marcada. Abriram e fecharam. “Abdome de pedra“, foi o que me explicaram. Não havia nada a fazer, a não ser aguardar o inevitável. Disseram que era melhor que fosse para casa esperar que a sombra da morte viesse cobrir seu corpo e fechar seus olhos para o sono que viria a seguir. E ela veio mesmo, numa manhã de domingo, apenas 75 dias depois do primeiro exame. Chorei como nunca havia chorado na vida. Um pai é uma presença que nunca se vai, mas cuja morte nos afasta dos olhos. Suas palavras ditas, no último encontro, não me saem da lembrança. “Siga o caminho de seu coração. Quisera eu poder estar aqui quando tivesse também seus filhos, para que você pudesse entender as escolhas que fiz“.

– Lamento pela sua perda.

– Já se vão 5 anos, Ricardo. Estou bem agora. Minha mãe também sofreu por demais a perda do meu pai. Nunca mais saiu, trancou-se no seu quarto com seus livros, vídeos, cadernos, poesias e lembranças. Seu luto ainda se mantém, como uma capa escura a lhe impedir de ver o sol.

– Ela procurou ajuda? Quem sabe ela poderia…

– Ela sabe o que faz, não se preocupe. Viveu um amor muito intenso e forte, por muitos anos. Ela descobrirá um caminho a seguir, ou não. Nada podemos fazer.

Respirou fundo e procurou voltar novamente para o foco de sua visita.

– O problema, Ricardo, foi quando resolvi perguntar a ela sobre a doença do meu pai. Tratava-se de um câncer intestinal fulminante, de alta gravidade, que produziu um aniquilamento de seu sistema digestivo e a morte em poucos dias. Procurei na Internet informações sobre este tipo de tumor e percebi que muitos especialistas afirmavam que os parentes de pessoas afetadas por estes tumores deveriam ter um acompanhamento mais intensivo pelo risco de serem acometidos pelo mesmo tipo de doença. “Os fatores genéticos dessa doença não podem ser afastados“, diziam quase em uníssono os vários textos que li. Percebi que, sendo a filha única, deveria me preocupar com essa questão e empreender uma investigação.

– Fez bem em se preocupar e prevenir, disse eu timidamente, mesmo sabendo que tipo de resposta ela me daria.

– Pois foi o que fiz, sem saber que esta atitude me levaria a uma espiral dolorosa e profunda de revelações insuspeitas e escondidas por mais de 30 anos. A primeira coisa que fiz foi procurar os exames do meu pai, para saber se havia uma biópsia ou laudo anatomopatológico que me revelassem a natureza exata do tumor. Um amigo meu, médico, havia me dito que qualquer especialista pediria este exame como a primeira peça do quebra-cabeças da prevenção. Revirei os exames e os laudos do hospital e achei as biópsias, mas também uma série de exames clínicos. Em um deles se lia: “Exames pré-operatórios” e havia uma série de solicitações com os respectivos resultados. Na primeira leva de exames descobri um resultado que foi o primeiro alerta para o mundo de surpresas que me aguardava.

– Qual foi? Perguntei

– O mais banal de todos: uma tipagem sanguínea.

 

07.

 

– Que tipo de ajuda seria essa, perguntei entre aflito e curioso? O que eu poderia fazer para ajudar alguém tão desesperado? Como eu disse, Dr. Emerson, sou apenas um jovem estudante de medicina, sem dinheiro, sem experiência e morando com meus pais. Que possibilidade eu teria de aliviar o desespero de alguém?

Dr. Emerson continuava a me olhar com olhos de atenção. Parecia ainda querer descobrir alguma coisa em mim que pudesse se encaixar no modelo que pretendia.

– Como eu já disse, Ricardo, não acho que seu perfil se encaixe. Você é um bom moço, com princípios, cheio de ideias e com um bom coração.

– Você não iria me propor nenhuma sujeira, Emerson…

Falei seu nome sem o “Dr.” na frente, talvez para, inconscientemente, fazê-lo ver que não era criança a ponto de ser enganado por uma proposta de legalidade duvidosa.

– Na verdade não há nada de ilegal na proposta que eu lhe faria, apenas o genuíno desejo de auxiliar um paciente e amigo que está em desespero.

– Pois eu vou insistir na minha inquietação, “Emerson”… Como poderia um “pé rapado” como eu ajudar alguém em apuros?

Dr. Emerson aprumou-se na cama e resolveu dizer, finalmente, de que proposta estávamos falando.

– O que eu desejo não custa nada. Nenhum dinheiro palpável, nenhum sacrifício especial – e neste momento seus lábios esboçaram um sorriso debochado.

Então arrematou, não sem antes respirar fundo

– O que eu desejava era lhe pedir um pedaço do seu código genético.

 

08.

 

– Sim, Ricardo, um simples exame de tipagem sanguínea foi o deflagrador de toda a minha busca.

– Bem, é fácil imaginar que você descobriu uma incompatibilidade entre o seu tipo de sangue o do seu pai, falei eu, evitando parecer esperto diante de tamanha obviedade.

– Sou doadora de sangue há vários anos e, portanto, não tinha qualquer dúvida sobre minha tipagem. Meu sangue é “O negativo“, e por isso mesmo sempre fui muito requisitada para doação. “Doador universal“, é o que se diz, certo?

– Sim, claro

– Pois o meu pai precisou fazer várias transfusões enquanto esteve internado por conta de sangramentos digestivos. O tumor, ao crescer, rompia vasos do aparelho gastrointestinal, foi o que me explicaram. Por isso mesmo as transfusões foram utilizadas, o que permitiu que durasse mais dois meses e meio. E entre os seus exames estava estampado o seu tipo sanguíneo: “AB positivo“.

Putz, disse eu

Ela continuou sua narrativa, que mais parecia até então a “busca pela arca perdida“…

– A partir daí eu já sabia que havia algo muito estranho. Meu sangue era incompatível com o sangue do meu pai e a frase que ele havia me dito um pouco antes de morrer – sobre as “escolhas que precisou fazer” – produziram uma mistura explosiva em minha mente e no meu coração. Entretanto, eu sabia que as minhas desconfianças poderiam ser desfeitas ou confirmadas, e estavam ao meu alcance.

– Sua mãe…

– Sim, ela poderia me tirar aquela pedra do peito, ou aumentar ainda mais a minha inquietude.

 

09.

 

– Nada mais simples, “Ricardino“, falou Dr. Emerson. Simples assim, uma dupla hélice, cheia de informações.

– Sem brincadeira Dr. Emerson. O que é isso que você está querendo me dizer?

Ele sorriu timidamente, apoiou os cotovelos nos joelhos e se aproximou de mim como se fosse me cochichar um segredo.

– Preciso que você engravide uma mulher…

Fiquei olhando para o Dr. Emerson, esperando o fim da piada. Ele apenas aprumou o corpo e cruzou os braços sobre o peito, como que esperando uma resposta séria. Não, ele não estava brincando. Parecia querer me dizer algo muito importante. Relutou mesmo em me falar aquilo, e só o fez porque minha curiosidade o pressionou.

– Está mesmo falando em engravidar uma mulher?

– Sim, “Ricardino”… Mas deixe eu explicar.

– Sou todo ouvidos, mestre…

Ele descruzou os braços, apoiou o corpo na guarda da cama e começou sua explicação.

– Acompanho um casal há vários anos no meu consultório. Na verdade o marido é meu paciente, mas sua bela esposa sempre o acompanha nas consultas de rotina. Eles são jovens, por volta dos 33 ou 35 anos, casados, felizes, sem preocupações financeiras. Vivem juntos há mais de 10 anos com seus gatos e cachorros em uma bela casa na zona sul. Só lhes falta uma coisa para que sua felicidade seja plena.

– Um filho, respondi, já que as respostas óbvias não estavam sendo censuradas.

– Vejo que você pegou o espírito da coisa, disse meu colega. Sim, este é o sonho dourado de ambos, mas a natureza havia sido madrasta com eles. Há vários anos que a esposa vinha sofrendo várias intervenções e exames, sem que jamais encontrassem qualquer distúrbio que explicasse a falta de uma gravidez. Felizmente, algum espírito mais iluminado conseguiu convencer meu paciente a realizar um exame simples de espermocitograma, o qual seria importante para o diagnóstico de um componente masculino na infertilidade. Foi o que foi feito.

– … e?

– Bem, você pode imaginar o resultado. Azoospermia. Orquite secundária a uma parotidite na infância. Zero. Sem girinos.

– Dr. Emerson, explique melhor. Estou no segundo ano de medicina, lembra?

– Ah, é verdade. Ele foi acometido de caxumba na infância, seguida de uma inflamação dos testículos (que ele pensou na época estarem inchados por uma bolada no jogo da escola). Isso destruiu suas células produtoras de espermatozoides. Meu paciente é estéril como aquela porta ali.

Apontou para a porta que abria para o acanhado banheiro do quarto dos médicos.

– Bem, mas o que eu…

– Calma moleque. Não fique aí pensando bobagem. Achou mesmo que eu ia te propor um encontro, safadinho?

– Jamais pensaria isso, Dr. Emerson.

– Pois eu vou te contar o que me passou pela cabeça. Quando você chegou aqui no Pronto Socorro eu me dei conta que você é muito parecido com o… bem, o meu paciente. Fiquei matutando e lembrei da última conversa que tive com ele. Ele estava arrasado com a chegada dos últimos exames e percebeu que jamais poderia dar um filho para sua esposa. Além de sofrer com a impossibilidade de ser pai, ele também não achava justo que sua esposa fosse impedida de ser mãe por um problema que acometia apenas a ele. Disse-me que estava pensando em se separar e comunicar à sua mulher que encontrasse um outro homem, um marido “de verdade”, que pudesse lhe oferecer a maternidade como recompensa.

– Cruel, Dr. Emerson. Digo, cruel consigo mesmo.

– Sim, ele estava em frangalhos, Ricardino. Não sabia o que fazer. Tinha vergonha, culpa, medo e remorso. Disse que sua mulher havia perdido “mais de dez anos de vida ao seu lado”, que não poderia lhe pedir que se mantivessem juntos, e que o melhor seria embora. Foi quando me veio na cabeça a ideia de uma “doação genética”.

– Humm, quer dizer… alguém doar o sêmen?

– Exato, meu caro gênio!! Percebi a semelhança entre vocês na altura, na cor do cabelo, na ascendência europeia, e até no modo de falar. Você seria o doador perfeito para que a esposa dele pudesse ser mãe e ele pudesse ser pai, mesmo que de uma maneira um pouco diferente da usual.

Parei um pouco para pensar e a expressão “doação genética” ficou reverberando na minha mente. Sim, era exatamente disso que se tratava. Um pedaço de DNA, uma combinação pessoal de elementos químicos para configurar uma fecundação. Tudo muito biológico, real, tecnológico, frio e distante. Uma possibilidade de auxiliar um casal que se amava, mas que estava a ponto de se separar por causa da impossibilidade de concretizar um “encontro gênico”, entre componentes masculinos e femininos. Que crime haveria em ajudá-los nessa trajetória?

– Claro, continuou Dr. Emerson. Você jamais saberá quem é esse casal e eles jamais saberão quem é você. Serei o único elo, a única junção possível, a única forma de unir as duas partes separadas do mapa. E eu me manterei calado para sempre. Você nunca saberá deles e eles nunca saberão de você.

– Eu topo. Posso ajudar.

Minha frase saiu irrefletida, impensada e automática. O que eu estava fazendo?

 

10

 

Minha caneta desenhava círculos no receituário enquanto ela contava sua história. Meu pensamento rodopiava tanto quanto a esfera de tungstênio no papel à minha frente. Não poderia acreditar que meu amigo houvesse me traído. Não seria aceitável que alguém a quem confiara tanto havia mentido por décadas.

– Eu sempre suspeitei que havia algo estranho com meu pai. Não há como explicar, mas depois que vi os exames parece que uma série de acontecimentos começaram a fazer sentido. Ele era apegado demais, emotivo demais, ciumento e possessivo com meus namorados. Quando ficou doente não queria que o acompanhasse ao hospital. Qual era seu medo? Nunca me permitiu ver nenhum dos exames, por mais que eu pedisse. Quando pequena ficou muito bravo quando eu perguntei, jocosamente, se era adotada, apenas porque meu cabelo era loiro e ele tinha cabelos castanhos escuros. “Não se brinca com isso“, disse. Eu vi as fotos de minha mãe no hospital, barriguda, sorridente, e com meu pai ao lado. Não tinha desconfiança quanto ao meu nascimento, mas seu comportamento parecia denunciar algo. Claro, essas impressões só tomaram corpo quando descobri os exames. E o mundo caiu sobre minha cabeça.

– Posso imaginar o que você sentiu.

– O desafio agora era conseguir alguma informação por parte da minha mãe. Comecei com insinuações, rodeios, indiretas, mas ela se fechava. Mal havia passado um ano do falecimento do meu pai e ela achava que não “era o momento de conversar sobre os exames dele“. Eu percebia, entretanto, que ela queria enterrar esta história junto com ele. Afinal, de que adiantaria me contar que meu pai era outro. E o que teria acontecido? Um amante? Um segredo que ela havia guardado? Uma gravidez de um antigo namorado que ela não queria que fosse revelada? Minha imaginação me atormentava e eu não conseguia vislumbrar uma saída. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que confrontá-la de forma direta, pois só assim eu poderia ter a resposta que tanto desejava, e tanto temia.

– Deve ser difícil confrontar sua mãe em uma questão tão delicada.

– Pode ter certeza disso, Ricardo. Ou posso lhe chamar de “Ricardino“?

Meu olhar fixou-se ao dela. Era assim que Dr. Emerson me chamava. Ela queria me mostrar que sabia mais do que eu percebia, mais do que eu imaginava. Sua ameaça velada era clara: “Não me esconda nada. Não me decepcione. Não me trate como tola. Eu sei tudo, tudo“.

– O tempo foi passando e minha angústia só aumentava. Eu precisava lhe falar. Eu tinha o direito de saber quem era meu pai! Não se tratava de descobrir algo da vida deles, mas algo que definia minha própria vida, minhas raízes, os genes que corriam em minhas veias. Não é justo que um passado seja enterrado, escondido, falsificado, burlado e que eu receba o silêncio como resposta.

– E então?

– Então eu entrei na cozinha, abri a geladeira, peguei duas fatias de pão de sanduíche e um tomate. Um pouco de manteiga para passar no pão, mas não muita para não exagerar na gordura. Cortei o tomate em fatias finas e as distribuí pela face do pão. Cobri a outra metade com uma tênue camada de manteiga “Aviação” e juntei as duas partes. O vermelho do tomate produziu um contraste apetitoso com a brancura do pão de leite, mas subitamente minhas mãos se abaixaram e deitei o saboroso sanduíche sobre a mesa. Já não havia mais fome. Meu estômago se embrulhou. Minha garganta emitiu um pigarrear ansioso enquanto minha voz tentava ao máximo se manter firme.

– Mãe, eu sei tudo, não me esconda mais nada. Por favor, não me decepcione. Diga quem é meu pai. Por favor.

 

11.

 

– E o método, esse você sabe, disse ele rindo da minha cara de espanto tímido. Dobrou os dedos da mão direita, fazendo um círculo com o polegar e o indicador, subindo e descendo. E rindo.

– Eu sei como é, já vi isso numa aula da faculdade.

– Pois é isso que preciso. Você iria a um laboratório para colher o “material” e guardaria lá mesmo. Ficaria refrigerado por um tempo até que o casal buscaria. Depois disso basta usar uma seringa e está “feito o carreto”.

– Simples assim?

– Sim, simples.

Dr. Emerson parecia entusiasmado com a possibilidade. Depois de quase desistir ele havia novamente se estimulado para a tentativa. Parecia uma criança que explica uma brincadeira nova a um amigo.

 

12.

 

– Minha proposta é baseada no sigilo absoluto. Não precisa se preocupar com nada, mas também não é necessário qualquer tipo de pergunta. Pense assim: trata-se de uma doação de material, como uma córnea, um fígado ou medula óssea. Com isso você pode auxiliar um casal que precisa muito de sua ajuda e do seu apoio. Não se diz que a verdadeira caridade é anônima? Pois esta é sua chance de ser caridoso de verdade, de forma desinteressada.

– Entendo, disse eu com o olhar fixo na basculante ao nosso lado, que mostrava um dia de sol resplandecente.

– Assim sendo resta você ir para o sacrifício, rá! Vá ao laboratório, doe seu precioso material europeu, deixe lá com o meu nome. Eu passarei por lá e buscarei a “encomenda”. Entregarei ao casal e o resto é com eles.

– Claro, farei isso. Deixarei o material no laboratório endereçado ao Dr. Emerson. Depois disso falo com você para saber se tudo deu certo.

– Claro parceiro! Não se preocupe com mais nada. Será uma operação de absoluto segredo. Assim, nós dois poderemos carregar pelo resto da vida o orgulho de termos ajudado um casal que se ama de verdade mas que foram surpreendidos por uma peça pregada pela natureza.

Cumprimento meu parceiro de plantões e me comprometo a comparecer ao laboratório quando solicitado. A ideia ainda causava um certo impacto em meus pensamentos, mas me agradava a possibilidade de ajudar alguém de forma voluntária a realizar um grande sonho de vida.

Saí do Pronto Socorro às 19h, ao final do plantão, e voltei para casa. Havia muito ainda a estudar para as provas do semestre. Resolvi que esse assunto delicado não deveria ser comentado com ninguém, nem mesmo com a minha namorada na época. Sabe-se lá o que ela poderia pensar sobre isso. Talvez rejeitasse completamente a ideia, talvez desprezasse. Poderia ter uma crise de ciúme ou de raiva, sabe como são as mulheres. Posso imaginar até que se apiedasse da dificuldade da moça e se interessasse pelo caso, mas o risco de uma contrariedade era grande demais para correr o risco.

A palavra do Dr. Emerson foi muito clara: sigilo total, absoluto. Não haveria pelo que me preocupar. Se esse assunto possuía uma barreira intransponível pelo compromisso pessoal de um colega de guardar segredo, o que haveria a temer? Se minha identidade jamais seria revelada, o que poderia me atingir? Isso reforçava a minha visão materialista e mecanicista da proposta: um fragmento de tecido, um pedaço de corpo real, um transplante gênico. Uma doação desinteressada para um ferimento na alma. A possibilidade de ajudar um casal em desespero, cujo amor poderia desaparecer pela impossibilidade de materializar este sentimento na construção de uma família.

Percorro com minha motocicleta de 125 cilindradas as ruas da cidade que escurece. Meu capacete vermelho esquenta pelo fervilhar dos meus pensamentos. Sinaleiras se sucedem com vermelhidades luminescentes. Os verdes da esperança me acenam a seguir, as hepatíticas bolas no centro me obrigam a olhar para o lado e tomar cuidado.

Mas agora era tarde demais para interromper o meu projeto de imortalidade virtual. Em alguns dias iria doar material no laboratório.

 

13.

 

– Minha mãe ficou parada, sem dizer uma palavra. O silêncio mortal que se fez naquele momento talvez tenha sido a maior prova da correção de minhas suspeitas. O homem que havia morrido há alguns anos, e que considerei como pai por toda a vida, não era o meu “verdadeiro” pai. Minha mãe manteve seus olhos parados, fixados entre as minhas sobrancelhas, a procura de algo que não desejava encontrar: a certeza de que eu já sabia.

– Do que você está falando minha filha?

– Você sabe muito bem, mãe. Não adianta mais esconder. Eu vi os exames do papai. Vi a tipagem sanguínea dele e ela não é compatível com a minha. Sou doadora de sangue há muitos anos, portanto não há possibilidade de eu estar enganada quanto ao meu tipo. E o papai, ora… ele fez transfusões, mais de uma. Ninguém faria um procedimento desses sem ter a certeza do tipo de sangue do paciente.

Ela manteve-se calada, o que mais reforçava minha confiança no que afirmava. Rompeu o silêncio apenas para uma última e desesperada tentativa.

– Nunca se sabe o que fazem nesses hospitais, minha filha. Podem ter trocado os exames. Tia Maria, uma vez, teve uns exames de sangue que deram que ela tinha diabete, mas quando foram repetir descobriram que…

Eu a interrompi bruscamente. Segurei suas mãos frias, e supliquei.

– Não insista, mãe. Não esconda de mim. Preciso saber o que houve. Quem é meu pai, como isso aconteceu? Você teve um amante? Meu pai sabia disso? Se ele soube, porque aceitou?

Desta vez foi minha mãe que me interrompeu com a mão à frente.

– Não diga tolices minha filha. Eu nunca tive um amante. Seu pai foi o único homem da minha vida. Escutar você dizer essas bobagens me enche de tristeza. Não pense isso de mim, e muito menos do seu pai. Tudo o que fizemos foi por você.

– Mas tudo isso o quê? O que fizeram? Quem é meu pai?

Minha mãe baixou o olhar. Respirou fundo e, ainda com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, me disse:

– Nunca imaginei que seria necessário te contar essa história. Nunca pensei que um dia estaria aqui falando isso para você. Estar sozinha, sem seu pai para me ajudar, torna tudo imensamente mais dolorido e triste. Tudo o que fizemos foi para que você pudesse nascer e fazer nossa vida florescer. Nunca fomos movidos por qualquer outro sentimento que não fosse a sua felicidade. Não pense mal de nós, por favor. Nunca te falamos nada porque isso não mudaria coisa alguma. Nem uma centésima milionésima parte do amor que dedicamos a você foi modificada pelas condições em que você foi gerada. Você é nossa filha e sempre será.

– Imagine, doutor Ricardo, o que isso significou para mim. Ver minha mãe chorando na minha frente, amargurada, deprimida, sofrendo ainda pela morte do meu pai, e eu a pressionando para falar algo que lhe doía tanto. Era como abrir uma ferida há tanto tempo fechada, mas jamais totalmente cicatrizada. Infelizmente ela era a única porta que eu poderia passar para encontrar o meu pai. Apesar da dor e do martírio, eu só poderia ter paz na minha busca se ela me permitisse entrar no labirinto sinuoso e escuro do seu passado.

– E então? O que ela lhe disse? perguntei

O relógio preguiçoso à minha frente fazia o tempo caminhar a passos lentos. O sol já deixava o céu alaranjado, e os tons de fúcsia já pintavam o horizonte com as cores da noite. As primeiras friagens que chegavam sopravam pela fresta da janela, acompanhando as buzinas dos carros que se apressavam a voltar para suas garagens, onde dormiriam o sono dos motores. Do alto do 15º andar do meu prédio os faróis comemoravam a noite que se avizinhava, mas ainda haveria muita coisa a ser dita.

 

14.

 

Minha moto Honda Turuna, 125 cilindradas de potência, rasga as ruas da cidade num caminho sinuoso até o laboratório. O vento no rosto assovia uma canção que os pneus da motocicleta acompanham com suas batidas firmes no paralelepípedo cru da avenida. Curiosamente, não me sinto ansioso e nem excitado. Parecia ter incorporado a visão mecanicista, fria e asséptica que o Dr. Emerson havia me oferecido. “Passo lá, deixo o material, ajudo uma boa alma a ser pai e desapareço“. Só isso, tão somente um ato mecânico e simples.

O laboratório fica no centro da cidade, próximo da Santa Casa. Estaciono minha moto e percorro os poucos metros por entres os arbustos e bancos da praça tímida que fica em frente. Carrego meu capacete no cotovelo direito, e a chave pendurada no pescoço. Caminho com altivez até tocar a campainha do interfone do laboratório.

– Por favor, vim colher um exame.

Escuto o barulho enjoativo e estridente da fechadura eletrônica, empurro a porta de vidro fosco e entro na sala. O ar condicionado no máximo, as paredes nuas, o balcão de fórmica branca e o guichê de vidro dão um ar futurista e insípido. Lembrei do centro de suicídios de “Soylent Green“, com Charlton Heston e Edward G. Robinson. Aqui tudo se fazia em nome da ciência e da matéria. As partes eram dissociadas do todo. Uma urina, um sangue, um tecido, um pedaço de útero ou uma mama. Nada era ligado a alguém. O cheiro de componentes químicos chegava até a sala de estar, e a rádio tocava “Crazy Little Thing Called Love“, do Queen.

– Qual seu nome, pergunta a atendente sem desviar a atenção do papel à sua frente e sem tirar a base da caneta da boca.

– Ricardo. Meu médico é o Dr. Emerson. Vim aqui colher material.

– Que material? Tenho aqui um aviso do Dr. Emerson que Ricardo chegaria para colher exames, mas não acho o pedido. Veio colher sangue?

Ela só podia estar fazendo de propósito. Viu que eu era um menino imberbe e quis tirar onda com a minha cara. Pensei em dar uma resposta absolutamente chula e direta, mas… sou tímido demais para isso. Olho para os lados e a recepção está vazia.

– Eu vim colher material, tipo material para …assim. Na verdade é para…

– Ah, achei aqui o papel. É para colher sêmen, não é? disse ela com um olhar maroto.

– Isso mesmo, disse eu com alívio.

– Ok, passe aqui comigo. Precisa de ajuda?

Olhei para ela com espanto. “Como?

– Para achar a sala de coleta. É ali naquela porta à esquerda.

Agora eu tinha certeza de que ela estava curtindo com a minha cara.

 

15.

 

– Não deve ter sido fácil para sua mãe também. Mal consigo imaginar a dor de uma mãe ao fazer uma revelação como essa. O que mais ela disse?

A bela moça parecia estar exausta. Cada frase era dita com sofreguidão, mas aparentemente este esforço parecia deixá-la aliviada, ainda que cansada. Seus olhos olhavam para os lados procurando descrever cada cena com a maior exatidão possível, para que nenhum detalhe passasse despercebido. Eu podia ver dor e culpa. Dor por uma parte da sua vida ter sido escondida dela por tantos anos, e culpa pelo sofrimento que impôs à sua mãe. Fazê-la contar um segredo tão profundamente guardado e ainda carregando no corpo esquálido a viuvez recente parecia uma crueldade muito maior do que ela suportaria.

– Havia algo ainda mais difícil, Dr. Ricardo. Meu pai faleceu abruptamente, sem sequer poder se despedir de todos os amigos que tinha. Minha mãe tem uma saúde frágil. Tem hipertensão, sedentarismo e depressão. Se ela morresse como meu pai levaria para o túmulo esse segredo. Eu não suportaria a ideia de que o nome do meu pai foi perdido dessa maneira. Por mais que pareça cruel perguntar-lhe enquanto ainda estava lidando com seu luto, a verdade é que eu não poderia esperar mais. Precisava lhe questionar, ou eu explodiria.

Seu rosto mais uma vez se contraiu, e as mãos se juntaram sobre a mesa. Seu olhar agora mirava o chão, e mais uma lágrima percorreu sua face rosada;

– Olha, eu vou te dizer uma coisa. Ainda não entendi exatamente o que isso significa. Conheci o Dr. Emerson há muitos anos e…

Ela me interrompeu abruptamente, com olhar firme, e seu tom de voz foi um pouco mais alto do que anteriormente.

– Ricardo, ainda tenho muito a contar. Minha saga para lhe encontrar estava apenas começando. Tenha paciência. Não me decepcione.

Não me decepcione“. A expressão se repetia no seu discurso. O que havia a decepcionar? O que tinha ocorrido para tanto temor à decepção?

– Desculpe a interrupção. Vou lhe escutar sem fazer comentários. Apenas entenda a minha angústia. Não é todo o dia que alguém vem dizer o que você me disse.

– Não tenha medo de mim, Ricardo. Não estou aqui para destruir sua vida. Estou aqui para reconstruir a minha.

Fiquei em silêncio olhando a bela moça, enquanto uma outra lágrima percorria os sulcos de seu rosto. Sabia que ainda havia mistérios a revelar, que eu desejava entender tanto quanto ela precisava contar.

– Fale então, que mais lhe disse sua mãe?

 

16.

 

Foi mais fácil e menos constrangedor do que eu esperava. Na verdade o ato em si não é desagradável ou vergonhoso, mas sim o fato de você ter que encarar as pessoas ao sair da sala. Imagino a minha cabeça rodeada por nuvens de pensamentos lascivos visíveis por todos que cruzam meu caminho. Saí do laboratório com aquele olhar culposo indisfarçável. Cumprimentei rapidamente a secretária debochada e caminhei em direção à minha moto. “Está feito”, pensei. Posso esquecer este assunto e voltar aos meus afazeres. Provas, amigos, plantões no Pronto Socorro e a namorada. Espero que um dia eu possa ficar sabendo que tudo deu certo, que um bebê vigoroso e saudável conseguiu unir uma família e que eu, secretamente, fui o responsável por isso.

Secretamente? Claro que não. Minha única alternativa seria esquecer, parar de pensar na questão. Se tudo der certo, ou der errado, meu destino é nada saber. Se eu ficar sabendo é porque não foi secreto e que o juramento que meu colega fez se quebrou. Mas, por outro lado, se o Dr. Emerson cumprir sua promessa eu jamais saberei que…

…jamais saberei que tenho um filho andando pelas ruas da minha cidade.

Esse pensamento me atropelou de forma inesperada. Nunca havia pensado na minha “doação de material” a partir desta perspectiva.

Olho para a rua ao meu redor e percebo as faces das pessoas que compartilham minha cidade. Cada rosto, cada expressão, cada jeito e cada gesto está inscrito nas hélices de DNA contidas na carga genética. Todos com quem cruzo foram gerados através da química fantástica e misteriosa que nos confere singularidade e identidade. Somos transportadores de características peculiares produzidas pelos nossos antepassados há milhares de gerações. Meu ato solitário, por mais que eu não estivesse vendo desta maneira, se inseria nessa corrente milenar de transmissão de características.

Pela primeira vez, desde a conversa com Dr. Emerson no dormitório dos médicos no Pronto Socorro, eu olhava para estes fatos de maneira diferente, e minha reação foi… medo.

A paternidade parecia algo distante para um menino que ainda olha para o mundo com os olhos de filho.

Tentei ligar para o Dr. Emerson de um telefone público próximo de onde eu estava. Queria lhe dizer que “minha parte” no acordo estava cumprida. Ele não estava no Pronto Socorro. Teria que esperar até o nosso tradicional plantão das quartas-feiras. Lá eu poderia conversar, e ele poderia me tranquilizar diante das angústias que agora começavam a aparecer.

Ou talvez não, e nenhuma tranquilidade seria possível depois de ter dado o passo que dei.

 

17.

 

“O Dr. Emerson é a única pessoa que poderia lhe ajudar minha filha, mas suspeito que ele tenha morrido. Temo que não há como resgatar esse passado. Ele era o médico do seu pai e sabia da doença que o impedia de ter filhos. Foi ele quem intermediou a inseminação. Sim, minha filha, você é filha de um doador anônimo.”

– Foi assim que minha mãe contou a história, e foi assim que cheguei ao nome do Dr. Emerson. Não posso negar que senti um certo alívio por saber que eu não era filha de uma aventura extraconjugal de minha mãe. Sabe-se lá o porquê. Afinal, isso até poderia colorir de aventura uma vida com poucos sobressaltos, mas por outro lado mancharia a imagem que guardei de ambos, e em especial do meu pai. Pelo menos eu tinha um nome, uma pista, uma informação e um possível roteiro.

– Dr. Emerson

– Exato. Ele foi o meu ponto de partida para chegar até aqui. Minha mãe não tinha informações, e depois da inseminação ficaria acertado que não mais teriam contato. O encontro foi marcado para meados de junho, conforme me disse.

Olhava para a moça sentada à minha frente e tentava imaginar como pôde desatar este nó, e porque dizia ser eu o seu pai. Mas o que ela dizia fazia sentido. A moto, o frio, o casaco de couro, o ar condicionado no máximo. As informações aos poucos se completam. Estávamos em junho, no inverno, quando fui fazer a doação. Mas… porque ele não me contou? Porque permitiu que isso tivesse acontecido?

– Segundo o relato que colhi de minha mãe ficaria acertado que se encontrariam em um determinado dia em um laboratório. Precisariam dizer a data mais fértil, e para tanto teriam que consultar um ginecologista, Dr. Dirceu. Ele explicaria a melhor data para a fecundação, mas nada saberia do doador. Teriam que agir como um casal normal que planejou ter um filho. Em junho de 1979 ficou acertado um determinado dia como sendo o mais fértil, baseado nos ciclos anteriores. Meu pai ligou para o Dr. Emerson que lhe disse para que comparecessem ao laboratório nesta data que ele estaria lá aguardando com o “material”.

– Entendo, e lá mesmo a inseminação foi feita, certo?

– Exato. Minha mãe disse que foi algo muito simples. O Dr. Emerson mesmo preparou a seringa e aplicou com a ajuda de um “bico de pato”. Minha mãe ainda falou que depois disso aguardou por alguns minutos deitada e imóvel, para só depois poder se levantar e ir para casa. Tudo aquilo era muito constrangedor para ela. Sentia como se estivesse cometendo um crime. Disse que meu pai parecia ainda pior. Toda essa preparação lhe dava a entender que estava roubando algo, fazendo às escondidas. Isso também aumentava a sua sensação de impotência e fracasso. Minha mãe disse que fez o possível para que ele se sentisse bem, mas não teve muito sucesso. Durante todos os anos que se seguiram ele nunca mais quis tocar no assunto.

– Mas, continue. Você tem um relato de sua mãe e o nome do Dr. Emerson. Porque chegou até a mim?

– Essa foi uma parte complexa da investigação. Alguns dias após a revelação de minha mãe tratei de procurar o Dr. Emerson. Minha mãe nunca mais o viu, e nem sequer ouviu falar dele depois daquela tarde de inverno em 1979. Ela nem se lembrava de seu sobrenome. Entretanto, ela sabia que ele trabalhava em um Pronto Socorro, além de atender no consultório. No endereço da sua clínica agora funcionava uma filatélica, selos para colecionadores. Lá não haveria muita informação, mas talvez se voltasse ao Pronto Socorro particular poderia encontrar algum registro deste médico.

O nosso PS”, pensei. Lá onde passava os dias de plantão tentando captar alguma coisa nova, interessante e curiosa.

– Procurei saber quais os serviços de Pronto Socorro que funcionavam no ano de 1979. Havia 3: Pronto Socorro Particular, Pronto Socorro Cruz Vermelha e Pronto Socorro do Bosque. Fui aos 3 para saber se havia um médico de nome Emerson que havia trabalhado lá em 1979.

– Que trabalheira! Precisou revirar a poeirada do serviço.

– Na verdade eu tive sorte e consegui encontrar uma ficha cadastral de funcionário médico muito antiga no …

– Pronto Socorro Particular, emendei eu. Era lá que trabalhávamos por muitos anos nas quartas feiras. Fiz boa parte do curso de medicina trabalhando para pagar as contas e sustentar minha família. Dr. Emerson era meu parceiro, ele como clínico e eu como estudante e “carregador de maleta”.

– Não havia nenhum outro Dr. Emerson que tivesse a idade compatível com essa história. A ficha que encontrei fechava com a idade do médico e o tempo em que trabalhou lá. Tinha que ser ele. Peguei seu nome completo, porque o telefone de 5 dígitos seria absolutamente inútil. O endereço da ficha era de um apartamento no bairro Menino Deus, e talvez valesse a pena fazer uma visita.

 “Avenida Getúlio Vargas, nos blocos em frente ao supermercado Econômico”, lembrei eu. Foi lá que o resgatamos uma vez quando o marido de uma paciente, enfurecido com sua grosseria e deseducação, foi procurá-lo para tirar satisfações. Quando chegamos já o encontramos com a roupa rasgada, esfregando as mãos e dizendo: “Já resolvi tudo na porrada. Esse não me incomoda mais”.

– Foi então encontrá-lo?

– Não exatamente, disse ela. Mas o que eu achei lá me ajudou na busca que eu empreendia.

 

18.

 

Minha inquietude só piorara desde que doei o material para o laboratório. Havia uma sensação pecaminosa, uma espécie de percepção criminosa em meu comportamento. “Mas eu não fiz nada de errado!”, gritava para mim mesmo em pensamento. Mas parecia…

Comecei a reparar nos rostos das pessoas, nas faces sorridentes ou apáticas, nas expressões. Olhava para meninos segurando a mão de seus pais que saíam da escola. “Olha o cabelo do pai, igual ao do filho”, observava. Olhava para os meus irmãos com mais atenção e percebia que meu irmão mais velho e minha irmã haviam puxado os traços britânicos de minha família paterna, enquanto eu e meu irmão caçula éramos a parte germânica. Minha mãe tinha um rosto redondo e simétrico; meu pai um rosto alongado com arcada dentária pequena. Meu avô era um inglês dos mais característicos: gostava de bebidas (whisky, for sure), de conversa com os amigos até altas horas, música erudita, maçonaria e generalidades. Aliás, minha família era especialista em não ser especialista em nada; você poderia falar por horas seguidas com meu pai ou meu avô sobre literalmente qualquer assunto, pois havia uma espécie de veneração pelo conhecimento esparso e abrangente. Mais do que uma cara britânica, meu pai e meu avô cultivavam uma aura inglesa. Reservados, polidos, educados, sérios e cultos.

Comecei lentamente a me dar conta de que minha ação havia sido equivocada. Eu não poderia ter um filho escondido no mundo, sem saber onde estava, sem ter noção do que ocorria com ele. Como seria ele? Como seria “ela”, talvez?  Estaria bem? Teria sido bem criada pelos seus pais de adoção? E o pai “postiço”, como seria com ela? Severo, amoroso, frio, cálido, frouxo, rígido? Que responsabilidade teria eu nesse episódio? Se ela sofresse seria eu culpado por deixá-la ser cuidada por alguém que não era seu pai biológico?

Passei a me sentir um “pai relapso” com meu filho. Eu o abandonei. Permiti que outra pessoa se apoderasse de uma herança que recebi do meus pais e avós e fizesse com ela o que lhe passasse na cabeça.

Passei vários dias pensando em quê fazer. Por algumas horas simplesmente parava de pensar, mas depois a ideia de uma criança vagando pelo mundo sem pai, abandonada, sem história e sem passado voltava a assolar meus pensamentos. Tive pesadelos horríveis de abandono. No sonho a criança me dizia: “Não me abandone, não me decepcione”.

Depois de vários dias de sofrimento e dúvida tomei uma decisão. Quando chegasse ao plantão na quarta-feira eu comunicaria ao Dr. Emerson que eu estava desistindo do projeto. A ideia de ser um “pai de aluguel” pareceu sedutora por algum tempo, mas agora se mostrava monstruosa. Eu não conseguia aguentar a culpa.

Na quarta-feira seguinte à doação voltei ao Pronto Socorro para o meu plantão semanal. Precisava encontrar o Dr. Emerson para lhe comunicar a decisão. Estava ansioso por fazê-lo, para que o peso insuportável que carregava às costas pudesse ser aliviado. Jamais imaginei que um ato inocente e desinteressado como aquele pudesse ter tantas repercussões.

Enquanto tomava café no refeitório percebi a chegada do carro do Dr. Emerson pela basculante ao lado da geladeira. Descia a rampa principal em direção ao estacionamento dos fundos. Sorvi meu café com leite vagarosamente à espera do colega. Precisava daquela conversa, a única coisa que me daria alívio.

Alguns minutos depois ele chega. Balançando as chaves do carro ele se aproxima da mesa e me cumprimenta efusivamente.

Ricardino, Ricardino, como vai o meu amigo?

– Bem, mestre…

– Isso é bom, isso é bom, emendou ele.

– Olha, eu preciso lhe contar algo. Tenho tido muitos problemas para entender o que fiz. Veja bem, eu acho que o melhor seria…

Dr. Emerson não me permitiu terminar a frase e a completou por mim.

– O melhor seria esquecer o assunto, pois … não deu certo. Infelizmente sua ajuda não foi suficiente. Falhou. O material não produziu o resultado que esperávamos.

– Como assim? Eu fui até lá, deixei o material junto com o exame. Havia um bilhete com seu nome para que recebessem o material. Fiz tudo conforme o combinado e…

– Eu sei Ricardino, e por isso lhe agradecemos muito. Mas sabe como são essas coisas. Conservação, temperatura, liquefação, lise celular. O material estava imprestável mesmo. Nem sempre dá certo. Pense bem, quantas vezes as pessoas transam sem camisinha no exato dia de fertilidade máxima e… nada acontece! É assim mesmo a natureza.

– Bem, Dr. Emerson. Eu sinto muito. Fiz o que podia. Fui no dia combinado, deixei o material. Eu sinto muito, sinto mesmo.

– Ora, não é necessário se desculpar. Falei com o casal logo que vi que o material seria inadequado. Eles agradeceram e resolveram procurar uma clínica especializada nisso em São Paulo. Creio inclusive que vão se mudar para lá. Esqueça o assunto. Eles pediram que eu lhe agradecesse a tentativa e a disposição em ajudar. Valeu parceiro, te devo uma…

Deu uma risada, ajeitou o jaleco, catou o último pedaço de bolacha Maria de seu prato e saiu da cozinha.

Minha angústia havia terminado. “Ora, nem precisei desfazer o acordo!” Deu tudo certo mesmo. Achei que ele ficaria bravo quando eu lhe dissesse da minha contrariedade, do desejo de abortar o processo, mas nada disso foi necessário. Que sorte!

Levantei da mesa e sorvi já de pé o último gole de café açucarado. Havia uma maleta de medicamentos a revisar, livros para estudar durante a manhã e o resto da minha vida para viver sem pesadelos de crianças abandonadas.

Assim pelo menos eu pensei por três décadas, até a bela moça adentrar meu consultório…

 

19.

 

Traidor, salafrário, bandido, meliante”, foram as palavras que pensei ouvindo aquele relato. Fui traído pelo Dr. Emerson. A história da “falha” do processo tinha a ver com seu projeto inicial. Podia ouvir ainda as palavras dele dizendo para mim recostado na cama do dormitório: “Minha proposta é baseada no sigilo absoluto. Não precisa se preocupar com nada, mas também não é necessário qualquer tipo de pergunta. Pense assim: trata-se de uma doação de material, como uma córnea, um fígado ou medula óssea.”

Foi exatamente o que fez. Para evitar qualquer pergunta criou a mentira de que a inseminação havia falhado. Com isso ele evitaria qualquer conversa sobre desistência. É provável que ele houvesse percebido a minha angústia e contrariedade e já trouxe a história da “falha” pronta de casa.

Mentiroso, canalha” !! Enganou-me por mais de 30 anos. Agora vejo na minha frente uma filha que nunca imaginei ter, com um sofrimento que eu não precisava passar. Muito menos ela. Tudo por uma ilusão de caridade misturada com uma onipotência juvenil. Que fazer?

A bela jovem agora me olhava com ternura à medida que sua busca ia se clareando. Parecia estar com pena também. Sabia que aquele encontro era tudo, menos agradável para mim.

Procurei me aprofundar mais na sua busca por respostas e os caminhos que acabou trilhando.

– Você foi encontrar o Dr. Emerson? Foi ele quem revelou meu nome?

Ela suspirou e ensaiou um sorriso.

– Claro que não, Ricardo. Isso seria fácil demais, e nada nessa história parecia simples de alcançar. Procurei o endereço indicado e precisava de uma desculpa para conversar com ele. Achei o número do telefone daquele apartamento e resolvi ligar, sem mesmo ter uma história preparada para contar. Talvez as palavras surgissem na hora, espontaneamente.  Liguei para o número que vi no Guia Telefônico, e quando disquei podia sentir as chamadas no coração. Poderia escutá-lo? O que dizer? Como perguntar?

A chamada se interrompe e escuto uma voz.

– Alô, quem fala?

Era uma voz de mulher, provavelmente uma senhora.

– Posso falar com Dr. Emerson?

A senhora responde com vagar.

– Você quer me vender alguma coisa, minha filha? Olhe, não estou interessada.

– Não se trata disso, minha senhora, continuei. Quero apenas falar com o Dr. Emerson sobre uma paciente.

Ela parou por alguns instantes e falou de forma direta:

– Dr. Emerson faleceu há alguns anos. Sinto muito, mas não posso lhe ajudar.

Disse isso e desligou o telefone.

 

20.

 

– Tudo voltou à estaca zero, disse eu, ainda pensando nas dificuldades de encontrar fatos e pessoas depois de mais de 30 anos passados.

– Não exatamente “zero”, disse ela

– Porquê? Por onde mais você poderia reencontrar a trilha?

– Bem, continuou ela, ainda havia a minha mãe e o seu relato. Voltei a falar com ela, mesmo sabendo de sua falta de vontade em desenterrar o passado. Afinal, ela conhecera pessoalmente o Dr. Emerson. Conheceu seu consultório, havia acompanhado meu pai em consultas e submeteu-se a um procedimento pelas suas próprias mãos. Apesar do lapso de tempo de mais de 3 décadas ela poderia me dar mais alguma pista.

– Mas qual?, perguntei.

– O laboratório. Sim, ela podia se lembrar de onde fizera o exame. Talvez lá houvesse um registro, uma anotação, um bilhete que seja que pudesse nos oferecer uma luz sobre este caso.

– Bem… e como conseguiu isso?

– Voltei à casa de minha mãe e a encontrei chorosa e triste. Ela me criticava por remexer no passado, por fazer perguntas demais, por desrespeitar a morte do meu pai. Para ela o caso inteiro parecia uma desonra, algo como um “passado obscuro”.

“A única coisa obscura nesse caso foi a resistência de vocês em me contarem quem é o meu verdadeiro pai. E por verdadeiro quero dizer apenas biológico e genético. Eu tive apenas um pai na minha vida, e ele foi o maior presente que ganhei. Meu pai será para sempre este homem que me criou, que me acalentou nos braços, que falou comigo ainda enquanto estava no ventre de minha mãe, que me levou à escola e segurou minha mão com firmeza quando atravessava a rua. O mesmo em cujo ombro chorei minhas mágoas infantis e minhas dores adolescentes. Não há outro, mãe. Não se trata de trocar, mas de desvendar um mistério de origem. Preciso saber – e não me pergunte a razão exata, pois não sei – quem é meu pai biológico”.

– Eu falei para a minha mãe com a voz tremida de emoção. Ela percebeu isso e seu choro se interrompeu enquanto eu falava. Secou as lágrimas e me abraçou. Ficamos ali, naquele instante eterno de cumplicidade, revelando-nos, uma à outra.

– Mãe, eu preciso de mais algumas informações. Você tinha razão, o Dr. Emerson já faleceu, e sua viúva, creio, bateu o telefone sem me dizer coisa alguma. Não acho que revirar a vida, ou a casa deles, fará qualquer diferença para elucidar um caso ocorrido há mais de 30 anos. Preciso de outra coisa, talvez um lugar.

– Qual lugar?, disse a mãe

– O laboratório, mãe. Talvez ele ainda exista. Talvez haja alguma solicitação de exame, um recibo, uma anotação qualquer que me ligue ao doador. Em que laboratório você fez a inseminação?

Ela ficou por instantes com o olhar fixado na parece à frente sem dizer palavra. Olhava para objetos inexistentes, para lugares e circunstâncias. Podia ver em sua retina a passagem vertiginosa e embaçada de múltiplos cenários, inúmeras cenas e pessoas. Finalmente fixou seu olhar novamente em mim e disse:

– Eu não lembro, desculpe. Não lembro de nada. Seu pai foi quem combinou tudo com o

Dr. Emerson. Ele me levou na caminhonete até lá. Lembra? Tínhamos uma Belina cor de laranja que seu pai adorava. O estofamento era vermelho escuro, quase um bordô. Adorávamos ir até Ipanema no final de tarde ver o pôr do sol. Tudo tão bonito. Às vezes eu penso que minha vida poderia ter parado ali, com você nos meus braços, seu pai ao meu lado e nós três olhando o sol descer até o rio. Teria sido melhor, menos sofrimento.

– Mãe, eu preciso de ajuda. Qualquer detalhe pode ser importante. Uma placa, o nome de uma atendente, a fachada, o bairro.

– Centro, era no centro da cidade. Isso eu lembro porque foi difícil estacionar e seu pai ficou bravo. Mas não sei em qual dos laboratórios existentes foi feito o procedimento.

Parou para pensar por mais alguns instantes. Fechou os olhos, olhou pela janela. Concentrou-se como podia.

– Desculpe minha filha. Talvez eu tenha esquecido de propósito. Queria esquecer a forma como você foi feita e imaginar que veio de uma noite maravilhosa de amor. Talvez essa fantasia tenha me acompanhado a vida inteira. Preferi ocultar de minha memória os detalhes mais frios e menos românticos de sua chegada. Desculpe, não lembro o laboratório.

– Ok, mamãe. Deve haver outras maneiras de conseguir descobrir. Vá descansar agora.

Desculpe lhe pressionar, mas achei que se eu tivesse o nome do laboratório onde a inseminação foi feita seria possível desvendar o caso. Mas não se preocupe. Outra hora conversamos de novo com mais calma.

Levantei-me a nos abraçamos demoradamente. Percebi que ela estava mais calma, menos tensa com minhas inquietações. Levantou-se e levou-me até a porta. Ficou olhando até que eu chegasse ao portão da casa antiga e espaçosa na zona sul. Quando estava colocando a chave no carro ouvi ela gritar da porta.

– A praça, a praça!!

– O que foi, mãe? Que praça? respondi, sem tirar a mão da chave.

– Havia uma praça em frente ao laboratório. Arbustos, vai-e-vem, crianças, gangorras, gente correndo, ônibus. Lembrei da imagem do seu pai olhando para os balanços e dizendo: “Quem sabe um dia eu ainda empurrarei meu filho em um balanço assim?”. Sim, havia uma praça em frente ao laboratório. É tudo que consigo me lembrar.

 

21.

 

“O laboratório fica no centro da cidade, próximo da Santa Casa. Estaciono minha moto e percorro os poucos metros por entres os arbustos e bancos da praça tímida que fica em frente. Carrego meu capacete no cotovelo direito, e a chave pendurada no pescoço. Caminho com altivez até tocar a campainha do interfone do laboratório.”

Sim, a mesma praça que eu andei, carregando o capacete e minhas ilusões. Os arbustos, as gangorras, o as crianças. A mãe da moça havia se lembrado de um dado essencial. Mesmo que lhe faltasse o nome, já estava muito próxima do local.

– Então, você foi investigar o laboratório. Como chegou lá? disse eu

– Bem, Ricardo… eu tinha dois elementos importantes: o centro da cidade e a praça em frente. O número de laboratórios que tivessem essa característica, e que estivessem funcionando há 30 e poucos anos, não poderia ser muito grande. Comecei olhando os mapas da cidade e as praças. No centro são várias, mas algumas não tem nenhuma árvore ou brinquedos para crianças. Ok, poderiam ter no passado, mas algumas delas são tão pequenas que não comportariam equipamentos como estes. Passei a investigar todos os laboratórios que constavam no guia telefônico e que pudessem estar em frente ou ao lado de uma praça. De preferência no centro, até porque a confiança nessa informação que minha mãe me dera não era total.

Respirou com profundidade e continuou sua narrativa.

– Minha tarefa era complicada, mas eu percebia pela primeira vez que eu tinha uma chance clara de encontrar o laboratório, e lá uma pista. Comecei vasculhando os laboratórios mais antigos e tradicionais, aqueles que mais provavelmente estivessem funcionando há 30 anos. Marques Moreira, Palácios, Endocrilab, Instituto Lab, Ferreira Vianna, etc…  Olhava no mapa a todos eles na esperança de encontrar uma praça bem em frente à sede central.

– Sua perspicácia é notável, observei

– Talvez, mas eu precisava de uma resposta. Eu precisava saber. Eu não podia parar. Meu pai havia falecido há 5 anos saber que ele não era o meu “verdadeiro” pai havia me abalado profundamente. Não tenho resposta racional e simples para a minha busca ensandecida, mas a verdade é que não via maneira de parar.

– Comecei a varrer as cidades em busca de um laboratório. Mais cedo ou mais tarde eu teria que encontrar.

 

22.

 

A persistência daquela moça de belos cabelos louros me impressionou. Por um instante tive um pensamento tolo, que me fez sorrir: “Esta característica deve ter herdado de seu pai“. Mas seria possível que uma característica anímica, ligada ao temperamento e ao comportamento poderia navegar pelos genes, impactar a formação das circunvoluções cerebrais e impor um temperamento, um modo de ser, um caráter a quem o recebe? Seríamos nós, humanos, condicionados pelos elementos materiais constantes de uma estrutura genética, portanto pré-determinada, ou nossa vida seria perceptível apenas na formatação da linguagem, na subjetividade, no simbólico e da própria relação com os significantes que nos rodeiam?

Quem era o pai “verdadeiro” – apropriando-me do termo que ela usara tantas vezes no seu discurso – daquela moça? O que lhe deu a estrutura genética e que jamais a conhecera, ou aquele que lhe ensinou as primeiras palavras, os primeiros gestos, as noções de certo e errado e os caminhos por onde as pedras são mais firmes?

Olhando para a bela moça não podia me sentir mais do que um impostor, mas a quem ela precisava conhecer. Não conseguia afastar a culpa que sentia por ser pai de alguém sem o saber.

Onde estive por todos esses anos?

Parei os meus pensamentos e pedi que continuasse sua história épica

– Passava os fins de semana visitando laboratórios, mas as respostas que tinha eram sempre inconclusivas ou totalmente frustrantes. Algumas vezes o laboratório estava próximo de uma praça, mas tinha sido inaugurado nos anos 90. Outras vezes era antigo e tradicional, mas não havia nenhuma praça na frente, próxima ou no trajeto que poderia ser usado para chegar até lá. Muitas vezes me surpreendi odiando meu pai por não conseguir encontrar nenhuma resposta convincente. Por que ele não me disse isso antes? Porque não deixou as informações por escrito? Um testamento para ser lido depois da morte, uma carta para ser aberta anos depois?

– Outras vezes eu pensava que a história da praça poderia ser apenas ilusão da minha mãe. Ela podia ter se confundido com outro laboratório, que foi em uma ocasião diferente junto com meu pai, ou simplesmente imaginou aquela cena e a incorporou como material da realidade. Mas como cobrar dela exatidão de uma lembrança de mais de 30 anos?

– As imprecisões no seu relato e as lacunas gigantescas também me deixavam irritada. Temia que ela percebesse essa irritação, pois isso aumentaria a culpa que sentia por ter omitido tais informações de mim por tantos anos. Sempre que me via pensativa ou silenciosa ela perguntava Está pensando naquele assunto?” Eu negava, mas ela insistia: Deixe o passado no passado. Viva o seu presente. Deixe as coisas ficarem como estão. Você não pode mudar nada do que já foi feito. Eu apenas sorria e trocava de assunto, apenas para que ela não se sentisse tão culpada pela minha fixação na busca que havia iniciado, e que apenas me retornava decepções.

– Sua presença aqui mostra que sua persistência e coragem foi maior do que o seu medo de se sentir culpada pela tristeza de sua mãe. Afinal, como descobriu o laboratório?

Ela sorriu timidamente e disse:

– De uma forma casual, como haveria de ser. Eu lhe falei que sou doadora de sangue há muitos anos. Conheço os bancos de sangue da cidade, mas me acostumei a doar sempre no mesmo lugar, até por conhecer as enfermeiras que lá trabalham. Eu tinha uma rotina de fazer uma doação cada seis meses, e há alguns meses atrás resolvi voltar. Entrei no hospital, subi para o terceiro andar e fiz a minha doação de costume. Ainda tive tempo de conversar com as meninas da coleta, escutar sobre o crescimento de filhos e netos, falar da minha vida, escutar as histórias engraçadas que elas sempre têm para contar e fazer a indefectível promessa de voltar em alguns meses. Agradeci a acolhida, tomei meu suco de laranja e me dirigi à saída do hospital. Quando estava me preparando para descer as escadas fui interrompida por uma servente me avisando que a turma da limpeza estava lavando o piso da escadaria, mas que eu podia sair pela outra porta, que dava para uma saída auxiliar. Apontou para o fim do corredor enquanto eu já me dirigia para lá.

Desci uma estreita e escura escada que dava para uma porta de ferro, marrom desbotada e suja. Devia ser uma entrada para cargas e materiais do hospital, mas esperava que me deixasse na rua. Destravei o trinco de cima e abri a pesada porta, escutando um guincho fino. O que eu vi atrás daquela porta fez soar um alarme na minha cabeça.

– Imagino o que foi, disse eu

– Exatamente, Ricardo. Uma praça. Crianças, gangorras, vai-e-vem, árvores, gente passando. A questão é que ela ficava no lado de trás do hospital, por uma saída que eu jamais havia passado. Perto dali havia uma escola fundamental e as crianças provavelmente passavam algum tempo brincando na praça. Em frente a esta pracinha havia edifícios, e no térreo deles salas comerciais: uma farmácia de homeopatia, um salão de beleza, uma imobiliária, uma lancheria.

– …e?

– Fiquei magnetizada pela descoberta. Nunca tinha olhado esta praça no mapa, talvez porque o tamanho do hospital, de várias quadras, me desviava a atenção. Resolvi imediatamente andar em todos os edifícios procurando algum que tivesse um laboratório. Pensei em trazer minha mãe aqui para ela comparar com suas memórias, caso não tivesse sucesso. E assim faria, mas o destino desta vez me ajudou. Entrei em todas as portas, conversei com todos os porteiros, perguntei se eles conheciam algum laboratório que estivesse funcionando há muitos anos, etc.

– Como sempre, a primeira hora foi frustrante. Ninguém tinha muitas informações a respeito de um “antigo laboratório”. Havia alguns muito recentes, outros edifícios não tinham nada parecido com isso. Até que entrei na última edificação, exatamente na esquina, onde termina a praça. Um prédio alto, com vários andares ocupados por médicos e até uma escola de supletivo. Perguntei ao porteiro se havia algum laboratório e ele disse – para variar – que não, mas quando virei o corpo para sair ele me chamou e disse:

“Moça, não sei se é isso que a senhora procura, mas aqui no térreo mesmo tem um instituto”.

– Instituto? disse eu.

– Sim, olhe ali na placa.

A placa sobre a porta de vidro fosco dizia “Instituto de Análises Patológicas“.

 

23.

 

Escuto o barulho enjoativo e estridente da fechadura eletrônica, empurro a porta de vidro fosco e entro na sala. O ar condicionado no máximo, as paredes nuas, o balcão de fórmica branca e o guichê de vidro dão um ar futurista e insípido“.

Como um relâmpago vislumbrei a porta de vidro do laboratório. O dia fatídico em que fui deixar minha amostra, o pedaço de mim encapsulado. Relembrei mentalmente a postura debochada e jocosa da atendente, minha moto estacionada na calçada próxima, o frio do inverno, minha jaqueta onde se lia nas costas “New York University“, meu cachecol e a chave da motocicleta em um fio de couro pendurada no pescoço.

– Continue por favor, foi tudo o que pude dizer.

– Eu pressentia que ali poderia estar a minha resposta. Apertei o botão da campainha e pude escutar o trinco sendo destrancado pela recepcionista. O ambiente era despojado, mas “chique”. Poltronas de couro, revistas “Vogue” e exemplares da “Veja”. Uma cafeteira expressa em um canto, ar condicionado ligado, música ambiente. O lugar era todo muito branco, muito claro, mas no momento não havia ninguém por ali.  Aproximei-me do balcão branco e perguntei à recepcionista de uniforme impecável.

– Escuta minha flor, este instituto funciona há muitos anos?

Ela levantou os olhos por sobre os óculos e respondeu.

– Senhora, este é o mais antigo instituto de pesquisas de patologia da cidade. Foi inaugurado pelo falecido Dr. Hans Braun, nos anos 50.

Não queria me sentir entusiasmada demais, mas aquele poderia ser o laboratório. Antigo, tradicional, próximo ao centro, com uma praça em frente! Isso correspondia à descrição sumária que minha mãe havia me oferecido. Eu não conseguia me conter de emoção, mas precisava ter calma. Tinha medo de assustar a moça da recepção com perguntas indiscretas, mas precisava investigar.

– Tem como eu saber o resultado de um exame antigo que foi feito aqui?

A recepcionista sorriu e me disse: “Particular ou convênio?”

– Olha, eu não sei, mas isso não importa muito. Na verdade ele foi feito há muito tempo.

A recepcionista olha para o lado e pega um caderno de capa dura. Abre algumas páginas e pergunta:

– Qual o mês que foi feito?

– Junho, respondi, de….

– Como?

– … de 1979.

A menina ficou olhando estaticamente para mim enquanto vagarosamente fechava seu livro de capa dura.

– Olha moça, exames assim a gente não tem acesso. É sério isso que a senhora está dizendo?

– Olha, disse eu, não me entenda mal. Preciso saber se um exame pedido por um médico de nome Emerson foi feito neste laboratório. A data é de junho de 1979.

Eu sabia da data porque deveria ser 9 meses antes do meu nascimento. Desde que minha mãe me revelou da inseminação eu procurei saber quando ela deveria ter ocorrido, e um calendário gestacional me apontava para algo ao redor de 14 de junho de 1979. A moça ficou visivelmente desconcertada e disse que resultados de exames só podiam ser dados aos pacientes, e que isso tinha a ver com sigilo, e que se quisesse teria que ter um mandato judicial, e…

– Calma, calma. Não quero ver nenhum resultado. Quero apenas saber se o pedido foi feito. Quero saber se isso ocorreu aqui. Acredite, isso é muito importante para mim.

Comecei a chorar, mas não sei se era emoção por ter me aproximado de uma possibilidade ou apenas porque estava com medo de chegar tão perto e mais uma vez me frustrar.

– Calma moça, disse ela, calma. Não precisa ficar nervosa. Os exames ficam guardados no computador, e depois de 5 anos eles vão para o arquivo morto. Não tenho acesso aqui, mas talvez eles tenham sido guardados em algum lugar. A senhora precisa falar com a Odete. Ela é a responsável pelos cadastros e arquivos antigos do laboratório. Talvez ela possa lhe ajudar, mas agora ela não está aqui. Só amanhã de manhã.

Eu sequei minhas lágrimas, pedi desculpas, agradeci a menina e fui para casa. Meu peito transbordava de esperança. Talvez essa fosse a pista fundamental. Talvez houvesse um arquivo, algo muito velho, que contivesse alguma informação.

Dormi mal aquela noite. Sonhos conturbados, cheios de angústia. Acordei com alívio, por poder terminar um sono desagradável. Levantei muito antes do necessário e cheguei à porta do instituto de análises antes mesmo que ele abrisse.

Quem me atendeu foi a recepcionista da manhã. Eu disse apenas que precisava falar com Odete, e que já havia explicado o caso para a sua colega da tarde.  A menina pediu que eu aguardasse na recepção que ela falaria com Odete. Alguns minutos depois ela abre a porta e me pede para entrar.

– A senhora Odete está lhe aguardando na sala à esquerda.

Caminhei pelo corredor acarpetado da clínica até chegar em uma porta em que se lia “arquivo”. Entrei e me deparei com uma sala cheia de papéis, livros, armários e canetas jogadas sobre uma velha mesa. No canto, uma cafeteira sobre um frigobar. Na ponta da mesa um monitor. O cheiro da sala era uma mistura de café com papel velho. Sentada atrás da mesa estava Odete, uma senhora de meia idade, entre 50 e 60 anos, de óculos e um vestido vermelho. No cabelo a indefectível “henna” vermelha para enganar os brancos teimosos, e na boca um batom de um vermelho acima do natural.

– Boa tarde, disse ela. Estás procurando um exame antigo, não?

– Sim estou, mas como sabe?

– Ora, desculpe. É que a menina da recepção me ligou para casa ontem avisando que você chegaria pela manhã. Ela estava com medo que fosse alguma coisa judicial ou algo fora da lei. Disse que lhe explicou que nenhum resultado de exame pode ser dado para uma pessoa que não seja o próprio paciente, a não ser em caso de impossibilidade deste, quando deverá ser apresentada uma procuração. A senhora deve entender este tipo de zelo, não é? É uma questão ética, de sigilo e respeito à privacidade.

– Olha Dona Odete, eu compreendo perfeitamente o que a senhora está explicando, e jamais lhe pediria qualquer coisa que não fosse legal. Não quero burlar a lei e muito menos lhe causar qualquer constrangimento. Quero apenas descobrir se um exame foi feito neste laboratório, ou “instituto” em junho de 1979, solicitado por um médico chamado Emerson. Nada mais. Não procuro saber o “resultado” deste exame, mas apenas se ele foi feito, e quem estava presente.

Ela continuava a me fitar com ares de preocupação. Estava naturalmente desconfiada.

– Eu entendo sua desconfiança, Dona Odete. Mas veja: a legislação não permite que resultados de exames sejam revelados, mas não falam nada sobre revelar se um médico realizou um exame aqui. Não quero sequer saber o nome dos pacientes, pois isto eu já sei. Quero confirmar o médico, se ele esteve aqui, e se há alguma anotação ao lado do seu nome.

Dona Odete agora estava aparentemente mais tranquila. Continuou a me olhar com firmeza, e seu rosto estava sério.

– Isso parece ser muito sério para você, moça.

Ela havia visto uma lágrima fugidia brotar do canto dos meus olhos.

– Sim, dona Odete. É muito importante, mais do que a senhora pode imaginar.

Depois de olhar mais um pouco para mim ele disse:

– Me acompanhe, vamos a uma outra sala.

Subi para uma espécie de mezanino do laboratório. Havia uma porta fechada com um cadeado, que ela abriu com um molho de chaves gigantesco.

Quando a porta se abriu estava tudo escuro, mas no centro da sala havia uma lâmpada pendurada do teto que ela acendeu girando o contato. O cheio era de velharia, e impregnava as narinas. Parecia um sótão de uma casa abandonada, mas as paredes todas estavam lotadas de cadernos velhos onde se liam referências como “Patologia 2000-2002”, ou “Análises 1990-1995”.

Estávamos no arquivo morto. O cemitério das informações. Olhei para aqueles arquivos e fiquei imaginando as emoções alegres, esfuziantes, dramáticas e terríveis que eles continham. Resultados de gravidez, biópsias de câncer, exames negativos e positivos. Eles representavam décadas de alegrias e sofrimentos codificados em suas linhas.

– Qual o ano que você está mesmo procurando?

– É 1979, disse eu.

– Me ajude a procurar. Você olha para este lado que eu olho para este.

Comecei a olhar os rótulos nos cadernos velhos e percebi que muitos estavam misturados. Haviam realizado alguma pesquisa mas não haviam colocado na ordem cronológica. A tarefa seria mais difícil do que fazer uma pesquisa n o Google, por certo. Entretanto, depois de uns 15 minutos, escutei a dona Odete dizer: “Exames análise 1978-1982”. Se houver alguma coisa deve estar aqui.

Ela se aproximou do centro da sala e postou-se logo abaixo da lâmpada. Abriu o caderno de capa dura antigo e começou a folhear as páginas amareladas e empoeiradas.

– Qual é mesmo o mês e o dia?

– É junho, 1979, mas o dia é incerto. Talvez ao redor do dia 14.

Dona Odete percorria com os dedos as linhas manuscritas. Datas, horários, material.

– Nada no dia 14. Vamos ver 13… também não.

E se não tivessem registrado para não deixar rastros? E se o Dr. Emerson fosse um mafioso que mandara apagar os registros por meio de suborno? E se não houvesse nada, e meu palpite apontava para o laboratório errado?

– No dia 15 também não há nada no nome desse médico.

– Quem sabe 12 de junho, dia dos namorados, sorri.

– Porque não?

Vi seu dedo percorrer a linha e subitamente parar a descida vertical. Depois seu dedo trafegou lentamente para a direita até chegar em um ponto, próximo à dobra central do caderno.

– Como era mesmo o nome do médico?

Minha voz tremia, assim como todo o meu corpo.

– Emerson. O nome dele é Emerson…

– Aqui está o exame. Dr. Emerson. Dia 12 de junho de 1979. “Material sêmen“. Recepcionista Marilda.

– Meu Deus, meu Deus! Meu corpo todo tremia. Minhas pernas mal conseguiam sustentar meu peso e chacoalhavam sem parar.

– Você achou seu exame, moça. Pelo tipo de material posso imaginar o que há por trás dessa descoberta.

– Por favor, dona Odete, há mais alguma informação?

– Sim, há. Imaginei que me perguntaria. Na linha seguinte há uma anotação.

– E o que diz? Diga!

– “Material colhido pelo paciente…”

– Sim?

Ricardo, esse é o nome que está aqui.

 

24.

 

– Naquela tarde eu descobri que meu pai se chamava Ricardo, que tinha ido a um laboratório, doado sêmen, e que desaparecera.

Meu pensamento fugidio, apesar da emoção da moça à minha frente, me fez lembrar que a atendente debochada se chamava “Marilda”. Que Deus a tenha…

– Por anos procurei por esse nome. Agora eu sabia que o doador se chamava Ricardo, e que era meu pai biológico. Mas eu queria ir mais longe. Desejava saber que “Ricardo” era esse, porque nunca mais se interessou por saber o que havia ocorrido com a inseminação. Sentia que minha tarefa ainda não estava cumprida. Precisava encontrar essa pessoa de fato, concretamente. Carne e osso.

– E qual foi sua ideia? perguntei

– Eu não tinha uma ideia, continuou ela. Tinha um palpite.

– Qual era?

– Achei que se eu procurasse no Pronto Socorro eu poderia achar alguma referência. A vida do Dr. Emerson era voltada ao trabalho. Trabalhou muitos anos naquele lugar, e suas relações deviam se concentrar por lá.

– Um palpite bem razoável eu diria.

– Resolvi voltar a falar com a moça da secretaria do Pronto Socorro Particular. Perguntei se havia uma funcionária muito antiga, alguém que estivesse aqui em 1979, e que tivesse conhecido o Dr. Emerson. Era bem provável que todas as pessoas que trabalhavam naquela época em que a inseminação foi feita não estavam vivas ou trabalhando lá. Mas talvez houvesse alguma pessoa que poderia lembrar de algo, algum amigo, outro médico, um conhecido. Qualquer coisa poderia ser útil.

A secretária foi muito amável, mais uma vez. Disse-lhe que queria informações sobre o Dr. Emerson porque ele havia sido um grande amigo do meu pai e eu estava interessada em escrever um livro sobre ele.

– Vocês por acaso teriam as escalas de plantão daquela época?

– Talvez, respondeu a secretária. Naquela época o plantão era dividido em dois: uma dupla de interno e médico para atendimentos no posto, e outra dupla para os atendimentos externos, domiciliares.  Quando vim trabalhar aqui ainda era assim. Para os internos, estudantes de medicina, o pagamento era feito por plantão. Eles assinavam na folha que ficava ao lado da escada e isso servia como “caderno ponto”. Recebiam por produtividade. Os médicos eram pagos regularmente, com carteira assinada.

– Seria possível ver uma escala dessas?

– De 1979? Humm, só se formos no sótão procurar nos “arquivos”.

Eu já havia me acostumado com esses ambientes. Não me custaria muito comer mais um pouco de poeira. Achei, mais uma vez, que poderia haver uma peça valiosa do quebra-cabeça. Subimos a escada em espiral que levava ao sótão. Entre mesas ginecológicas enferrujadas, prateleiras de ferro e estantes empoeiradas achamos caixas com rótulos escritos com pincel atômico do lado de fora. Fiquei olhando os números 1990, 1989 e descendo. Cheguei em uma caixa de papelão amarrada com uma corda em que se lia “1979”.

– Posso abrir?

A secretária apenas deu de ombro e sacudiu a cabeça.

– Se você acha que algo de útil pode estar aí, fique à vontade. No que me diz respeito isso é apenas lixo.

Abri o pacote com poucas expectativas. Havia recibos assinados por várias pessoas. Recibos de “serviços prestados”. Muita papelada, mas pouca coisa útil. No fundo encontrei umas folhas tipo A4, maiores. Peguei um maço dessas folhas e vi que eram calendários em que cada folha representava 1 mês, e cada quadrilátero se referia a um dia. Estes continham assinaturas diversas. Era o tal “cartão ponto” afixado à parede que a secretária havia me descrito. Procurei as escalas de plantão à procura do Dr. Emerson, e não foi difícil achar. Havia mesmo dois médicos de plantão por noite e o Dr. Emerson estava sempre de plantão nas quartas-feiras.

Foi aí que meu coração deu um novo sobressalto. Durante todo o ano de 1979 havia um nome escrito no mesmo quadrinho em que assinava o Dr. Emerson. Esse nome era Ricardo.

– Aqui é o nome do interno? Esse Ricardo é um estudante de medicina?

– Bem, se existem dois nomes no quadrinho e um deles é do médico, o outro só pode ser do interno.

Olhei as outras folhas de 1979 e os dois estavam sempre em dupla. Sempre. Em alguma delas o nome “Ricardo” estava rabiscado e em cima lia-se “Ricardino”. Uma brincadeira, talvez. Um apelido colocado pelos colegas. Ricardo era um estudante de medicina. Não pode haver uma coincidência tão grande. Amigos e parceiros de plantão. O médico mais velho, com autoridade e amizade, pede que ele seja o doador. Ele se prontifica, oferece o material e desaparece.

É ele! É o meu pai !!

– Tem como eu saber o nome completo deste estudante aqui?, disse apontando para o quadradinho com o nome da dupla.

– Olhe dentro da caixa. Os recibos de “RPA” devem estar aí dentro.

Havia muitos espalhados pela caixa, para cada estudante que fez plantões naquele ano. Precisava encontrar um que contivesse o seu nome. Eu estava muito excitada. Estava a um passo de encontrar o nome completo do meu pai biológico.

Remexo ansiosamente a caixa até que aparece um papel assinado. Uma letra vistosa e cheia de voltas. Ali estava à minha frente a última peça do quebra-cabeças que me traria até aqui.

– No pequeno recibo do Pronto Socorro estava escrito o seu nome, Dr. Ricardo. Seu nome completo.

 

25.

 

Olhei para a moça a minha frente. Parecia exausta. A descrição de sua epopeia tinha sido emocionalmente estafante. Seus olhos demonstravam este cansaço, mas parecia ter tirado 100 quilos das costas. Eu a olhava demoradamente, analisando cada aspecto, e aos poucos fui percebendo que sua semelhança com minha filha não se resumia aos cabelos. Tinha um olhar vivo, firme, decidido e penetrante. Suas palavras eram bem escolhidas, precisas, exatas. Seu sorriso era contido e sua postura tinha nobreza. Ela poderia ter a mesma fibra e a inteligência fina de minha filha, mas novamente eu caía na sedução do determinismo genético.

– Você conseguiu, parabéns.

– Obrigada, Ricardo.

– Deixe pelo menos eu te contar a razão da minha surpresa. Eu jamais esperaria te encontrar, e jamais pensaria nessa possibilidade. Eu fui enganado, ludibriado e feito de bobo pelo meu colega Emerson.

Durante alguns minutos expliquei a ela a conversa na quarta-feira seguinte à doação, na cozinha do Pronto Socorro. Ele havia me garantido que o material havia se desfeito, que não houve possibilidade de fazer a inseminação artificial. Durante mais de três décadas eu pensei que aquele assunto havia terminado ali, que nada mais poderia ocorrer. Material desfeito, uma nova inseminação em São Paulo. Assunto encerrado, fim da linha.

Ela escutou com atenção e creio que compreendeu a minha atitude. Falei a ela da minha legítima, porém ingênua, vontade de ajudar um casal. Ficou sensibilizada com minhas palavras, e sorriu timidamente.

– Eu não sei o que te dizer, complementei. Não tenho nada para falar. Posso apenas te dizer que sou seu pai. Sei que sua história é verdadeira e posso ler a verdade em seus olhos. Não sei como agir também, o que dizer para a minha mulher e meus filhos. Você foi uma surpresa total, algo inacreditável, uma hecatombe de emoções que eu não esperava mais enfrentar nesta vida. Você me desculpe se estou sem jeito e sem palavras. Você é minha filha, mesmo que seu pai “verdadeiro” tenha lhe amado, respeitado e cuidado por todos esses anos. Vou procurar a partir de agora respeitar e honrar o trabalho que ele fez.

Ela sorriu e mais uma lágrima se desprendeu do calabouço das emoções.

Tinha vontade de abraçá-la, mas temia ser piegas demais. Não sabia como agir, estava confuso. Não tinha como acabar a conversa, mas não sabia como continuar.

– Sabe, Ricardo, não foi nem um pouco fácil vir aqui. Escolhi esse horário porque sabia que seria a última paciente, pois não queria atrapalhar o seu dia de trabalho. Há alguns meses que eu ensaio esta visita, mas sempre me faltava coragem. Quando te vi, as últimas resistências caíram. Seu rosto e suas feições ao vivo me confirmaram o que no íntimo já tinha certeza.

Sou sua amiga no Facebook, sabia? Acompanho suas postagens, suas viagens, seus filhos e seu neto. Muito fofo!! Sei das coisas que lhe acontecem e da sua luta. Muitas vezes eu curto algo que publica apenas para ter a secreta fantasia de que você vá perguntar quem sou. Sei que isso é impossível, porque as redes sociais são um oceano de faces desconhecidas, rostos sorridentes e identidades variadas. Mas eu lhe via, pensava em vir lhe dizer quem eu sou, e quem você é para mim.

– Não posso negar que tinha muito medo. Medo mesmo, de ser maltratada, escorraçada, ofendida, chamada de oportunista ou outras coisas menos nobres, mas nutria a clara confiança de que não seria assim. Pensava que você teria compaixão e confiança no meu relato e na minha grande aventura de descoberta. Eu estava certa. Obrigada.

– Não há o que agradecer, você sabe disso.

– Eu agora preciso ir. Preciso reorganizar a minha vida. Vou falar para a minha mãe que eu finalmente o encontrei. Não fique triste e nem bravo com ela, caso ela não queira lhe ver. Pode ser muito constrangedor para ela saber que vocês nunca se viram, mas tem um filho em comum.

Sorri ao pensar nessa ideia.

– Fique tranquilo, jamais atrapalharei você, sua família e seus planos. Se você quiser, isso ficará entre nós. Não vejo necessidade alguma de envolver outras pessoas. Essa sempre foi uma jornada solitária que eu me determinei a percorrer.

Olhou para mim com um sorriso doce e se despediu.

– Fique com Deus.

Levantou-se e pegou a bolsa que repousava no chão ao seu lado. Seu gesto foi cheio de glamour e sofisticação, e a forma como se ergueu e deu o primeiro passo em direção à porta lembrava de forma claro os trejeitos da minha filha.

– Espere, disse eu. Seu endereço verdadeiro está na ficha?

– Sim, disse ela sorrindo.

– Posso ligar, marcar uma conversa, trocar umas ideias? Eu quero… não, eu preciso saber mais de você. Preciso saber o que você faz, onde está, o que pensa fazer, que ideias tem. Por favor, agora que você apareceu, não me abandone.

Ela juntou os lábios franzidos e seu rosto se iluminou.

– Claro. Vou aguardar sua ligação.

Dei um passo adiante, meio sem jeito. Seu corpo ficou parado em alerta. Olhei fundo em seus olhos verdes e abri os braços. Ela levantou o olhar e, enquanto nossos corpos se aproximavam, percebi suas pálpebras se fechando. Seus braços me cercaram e senti no seu abraço a suavidade de uma menina, enquanto suas lágrimas molhavam minha camisa.

 

EPÍLOGO

 

Já passamos das 19h e minha secretária avisa que a última paciente chegou.  Ela me informa que a moça está aguardando, mas avisa que ela quer apenas “conversar” rapidamente. Olho para a ficha à minha frente e não lhe reconheço o nome. Talvez seja alguém que deseja fazer uma pergunta sobre “humanização do nascimento”, ou quer saber sobre custos de partos, hospitais ou outros detalhes técnicos. Talvez uma menina perguntando pelo próximo curso de doulas, quem sabe. Vejo pela agenda que a consulta estava marcada há muito tempo, portanto não deveria ser algo urgente, ou de última hora. Faço minhas últimas considerações no Facebook e respondo perguntas sobre minha próxima palestra em Rondônia. Ajeito a bagunça da mesa, recolho os papéis das consultas anteriores, enrolo o esfigmomanômetro e retiro o estetoscópio do pescoço. Ajeito as bolinhas imantadas sobre a o mármore da mesa e recolho a xícara de café ainda guardando o calor da última dose do vício diário.

– Pode passar a paciente, digo enquanto arrumo a camisa e confiro se está com a gola ajustada.

Ela entrou com o olhar fixo em mim. Era loira, linda, cabelos cacheados, boca vermelha. Devia ter uns 35 anos, um pouco menos talvez. Era alta para uma mulher, mas talvez estivesse de salto. Vestia um “tailleur” bonito e sofisticado, e os brincos na orelha eram delicados e discretos. As unhas pintadas eram sóbrias mas muito cuidadas, e seu porte denotava uma espécie de nobreza. Ficou séria me olhando, sem dizer palavra. Digo um “boa tarde”, mas percebo pela falta de luminosidade que um “boa noite” não seria inadequado.  Ela parecia calma, examinando cada detalhe do meu rosto, como se procurasse por algo. Alguns angustiantes segundos se passaram e ela finalmente respondeu.

– Boa tarde, doutor. Boa tarde… Ricardo, acho que posso lhe chamar assim, não?

Ela sorriu, timidamente e ajustou o corpo na cadeira de braços largos. Seu cabelo era bonito e sedoso, mas me deu a impressão que havia sido preparado recentemente, como alguém que acaba de sair de um instituto de beleza. Para quê, pensei eu, arrumar-se dessa maneira para conversar com um obstetra?

– Claro que pode me chamar assim. Fico até mais moço. O que posso fazer para lhe ajudar?

Olhei firmemente para ela e conferi a ficha que repousava à minha frente. Ela tinha 34 anos, solteira e morava na zona sul.

– Seu nome é…

– Edna, respondeu ela. Edna, com “d” mudo.

– O que você faz Edna? Em que trabalha?

– Ah, sou enfermeira. Trabalho com neonatologia. Queria colher algumas informações.

– Claro, sem problemas.

Olhei para o lado esquerdo da minha sala e meus olhos caíram sobre uma foto. Nela estavam meus filhos, sorridentes e jovens, ainda adolescentes.

Olho mais uma vez para a ficha e vejo que Edna havia nascido em 1980. Nessa época eu fazia plantões no Pronto Socorro Particular. Era uma vida movimentada, cheia de aventuras e novidades. Era um “interninho“, um “carrega maleta”, ou “padioleiro”, como dizia o meu pai. Os plantões eram carregados de ensinamentos positivos e negativos, mas sempre sobrava algo para depois podermos classificar como “experiência”.

Nessa época meu grande parceiro de plantões era o Dr. Emerson. Dividíamos as quartas-feiras por anos a fio. Era um encrenqueiro, mal humorado, grosseiro e brigão, mas nossas conversas rendiam madrugadas a dentro, e ele tinha sempre boas histórias para contar.  Uma vez, me recordo bem, tivemos que resgatá-lo na porta de sua casa quando se engalfinhou com o marido de uma paciente que havia sido destratada por ele. “Aqui já acabou tudo. Resolvemos tudo na porrada“, disse ele.

Mas de todas as histórias com Dr. Emerson a mais marcante aconteceu quando ele me encontrou subitamente no corredor do Pronto Socorro e me perguntou “Qual a sua altura, Ricardino?

Claro que eu achei estranho, e muito mais estranha ainda a história que se seguiu. Ele me falou de um casal, cujo marido tinha azoospermia, incapaz de gerar filhos, infértil “como aquela porta ali do banheiro”.

– E o que tem a ver a minha altura e o meu peso com isso, falei?

Ele explicou que se impressionou com o fato de eu ser muito parecido com o marido e que pensou em me convidar para ser doador de sêmen.

“Como assim?” perguntei? Aí ele me explicou como seria o procedimento, a coleta do material, a inseminação com uma seringa, etc.

Eu respondi que não via nenhum problema nisso, afinal seria um ato mecânico e biológico. Dizia meu colega: “Pense assim: trata-se de uma doação de material, como uma córnea, um fígado ou medula óssea. Com isso você pode auxiliar um casal que precisa muito de sua ajuda e do seu apoio.”

Combinamos de falar isso no próximo plantão. Pensei na possibilidade legítima de ajudar um casal doando minha carga genética para fazer um casal feliz e mais unido. A ideia me entusiasmava, e não pensei no que isso poderia representar.

Terminado o plantão peguei minha moto no estacionamento e rumei para casa. Eram já 8h da manhã e eu precisava correr para chegar a tempo de assistir as aulas na faculdade. Sentia sono, cansaço e até fome – não tive tempo de tomar café no Pronto Socorro – mas sabia que era assim mesmo. Pelo menos eu tinha saúde e juventude, e esses exageros não me afetavam tanto.

O dia na faculdade passou correndo e depois das 19h era tempo de voltar para casa. Mesmo exausto resolvo passar na casa da namorada e tomar um café por lá. Minha motocicleta Turuna 125 rasgou as ruas da cidade e logo cheguei à sua casa.

– Novidades no plantão, perguntou ela?

– Bêbados, cortes, diarreias, desmaios. O normal. Nada fugiu muito do usual. Ah, recebi um convite interessante.

– Diga…

– Dr. Emerson me perguntou se eu poderia ser doador de sêmen para um casal infértil.

– Como? Doar sêmen? perguntou ela.

– É sim, isso se faz muito na Europa. Uma coisa de primeiro mundo. Parece que o marido é infértil. Sem girinos, zero. Dr. Emerson me explicou que “seria uma doação de material, como uma córnea, um fígado ou medula óssea“.

– E o que você respondeu para ele, perguntou ela com os olhos arregalados.

– Disse que me proponho a ajudar.

Ela ficou em silêncio por alguns instantes, como se estivesse esperando eu contar o fim da piada.

– Você está fora de si? Bebeu gasolina?  Ficou maluco? gritou ela.

– Não sei do que você está falando. Acho que você não entendeu o que eu falei. Eu não preciso dormir com ninguém, vou apenas doar “material”, saca? Genes, espermatozoides. Ele me disse que isso pode ser feito sem qualquer envolvimento, totalmente sigiloso e secreto. Qual o problema?

– Escuta, gênio da lâmpada. Você se deu conta do que isso significa? Percebeu que de qualquer maneira terá um filho? Entendeu que fazer uma criança não é um ato “biológico” ou material, e que envolve muito mais do que isso? Acha mesmo que é possível fazer um bebê e deixá-lo à própria sorte?

– Mas que diferença faz se eu jamais vou conhecê-lo?

– Porque isso é impossível! Talvez nunca o conheça, mas jamais vai esquecê-lo. Ele habitará para sempre os seus pensamentos, como uma maldição. Ele ficará lá, latente, como uma farpa, ardente e corrosiva. Um pedaço seu que vaga pelo mundo, como um fantasma vivo.

Levantou-se da mesa deixando metade do seu café na xícara.

– E quer saber? Não quero mais falar sobre esse assunto. Se você pretende fazer uma bobagem dessas acho bom procurar uma mulher que aceite que seu namorado saia por aí fazendo filhos à granel. E boa noite.

Deu as costas para mim, retirou-se da sala e me deixou com um pedaço de pão na boca.

Saí da sua casa ainda confuso. Resolvi parar para comer algo, já que meu café foi interrompido por uma crise de fúria de uma namorada enciumada.

Sentado na cafeteria fiquei pensando nas repercussões da minha atitude. Olhei para as pessoas em volta, cada uma com suas expressões, suas caretas, seus jeitos, e tudo isso construído pelas tais “hélices entrelaçadas”. Pela primeira vez me dei conta de que, caso aceitasse o convite, poderia encontrar um dia a minha filha biológica passeando pela cidade sem que eu soubesse. Poderia encontrar em uma cafeteria como essa um filho que tive e nunca fiquei sabendo. Percebi que minha vida seria um absoluto tormento, um martírio insuportável, uma busca incessante pelo filho desconhecido que vagava pela cidade, ou pela filha que nunca pude conhecer. Minha namorada tinha razão, seria um sofrimento terrível, uma dor sem fim. Qualquer jovem que se aproximasse de mim provocaria esta sensação, a dúvida maligna de pensar na possibilidade de ser meu “filho perdido”.

Paguei minha conta e consegui terminar meu trajeto para casa.

Na semana seguinte procurei o Dr. Emerson no plantão. Como sempre ele me cumprimentou efusivamente e falou algumas barbaridades costumeiras. Resolvi lhe perguntar sobre o pedido que havia me feito na semana passada. Ele apenas respondeu: “Falei com eles e não aceitaram a proposta. Preferem adotar uma criança. Não precisa se preocupar“.

Pronto, terminou. Não havia mais com o que se preocupar. Acabou antes de começar.

Entretanto aquela cena, e a fantasia de um filho desconhecido, me acompanhou pela vida inteira. Muitas vezes pensei “e se eles tivessem aceitado?“, “e se eu tivesse doado sêmen?“. Como seria a minha vida esperando que a qualquer momento um filho perdido entraria pela porta da minha sala dizendo que, depois de muito tormento, havia encontrado o pai que tanto desejava conhecer?

Edna, continuava sentada à minha frente. Quando ela nasceu eu estava trabalhando no Pronto Socorro. Seus olhos verdes, seu “tailleur” bem ajustado, sua voz suave e firme e sua postura nobre eram encantadoras. Uma mulher bonita e charmosa.

Olhei demoradamente para ela mais uma vez e pensei: “Ela poderia ser minha filha“…

 

FIM

 

 

 

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Arquivado em Ficção

Saber Parir

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Tentem me imaginar explicando as múltiplas vantagens das posições verticalizadas (cócoras, joelhos, em pé com apoio) em meu primeiro ano de residência, há 28 anos, para os meus colegas. Depois de ler “Aprenda a Parir com os Índios”, do obstetra Moysés Paciornik, um mundo enorme de possibilidades se abria à minha frente, e meu entusiasmo era grande, quase tão grande quanto a minha ingenuidade. Eu só conseguiria entender a razão para a rejeição a estas ideias muitos anos depois. Após me escutar discorrendo emocionadamente sobre o parto de cócoras, um destes colegas, hoje um famoso mastologista, me fuzilou com os olhos e calmamente falou: “Ric, você só não cai no meu conceito porque de onde você está não há como cair“. E isso apenas porque eu achava que a posição de parir era inadequada, absurda, insensata e “ilegal” (pois ia contra a mais antiga das leis deste planeta: a “lei da gravidade”).

Porém, a posição em que o médico se coloca durante o segundo estágio do parto (da dilatação completa até a expulsão do bebê) tem muito mais a ver com questões semióticas e políticas do que com a biomecânica do parto. Médicos “acima” e pacientes “abaixo” transmite uma potente mensagem para a paciente: “Obedeça, seja dócil, estou aqui em cima, controlando tudo. Eu sou o médico e tudo está em minhas mãos, mesmo que você não as possa ver”.

Essa postura física implica, por sua vez, uma “postura” subserviente e subalterna das pacientes, e isso é tudo o que desejamos: docilidade e complacência. Por isso é que, mesmo que TODAS s evidências científicas do mundo demonstrem há décadas – e por várias maneiras e perspectivas – as posturas verticais como sendo melhores para mães e bebês, basta fazer uma visita por qualquer maternidade no Brasil para perceber que o parto deitado (posição de “frango assado”) ainda é preponderante. Conheço colegas que me confessam que “nuca fiz diferente, ademais não saberia como conduzir um parto que não fosse com a paciente deitada na cama e com as pernas amarradas“.

Mas porquê tanta resistência e dificuldade? Ora, a razão para isso é porque não se trata de uma questão racional, que possa ser combatida com evidências e estudos, mas ligada ao desejo. Assim, a posição da paciente em um parto cai na definição clara de um ritual, conforme a visão de Robbie Davis-Floyd: uma ação caracteristicamente repetitiva, padronizada e simbólica, carregada de valor cultural. O simbolismo expresso na posição de parto é a dominação sobre o corpo da mulher e a manipulação deste pelo saber racional, desconsiderando a sabedoria intrínseca que a mulher carrega (o “chip” de parto nativo) sobre os modos de parir e, em especial, o SEU modo específico de fazê-lo.

Mudar este padrão é tarefa difícil, pois há muito mais do que simplesmente uma posição. A própria visão que os profissionais tem da mulher e suas habilidades é que precisa mudar…

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