Arquivo do mês: outubro 2014

Das onze à meia-noite

Futsal

Há alguns anos eu costumava jogar bola nos domingos à noite com meu filho Lucas e sua turma de amigos da escola. Imaginem o tiozão, 20 anos mais velho que todos, mas que se esforçava para jogar de igual para igual. O jogo ocorria no famoso “Gauchão”, quadra de esportes próxima de nossa casa onde hoje fica a Terceira Perimetral. O local foi demolido para a construção de um condomínio de edifícios e dizem as más línguas que o maior acionista dos prédios era o colega que recolhia a nossa contribuição para o famoso embate “das onze à meia-noite“.

As regras dos confrontos eram simples, e foram cumpridas de forma correta por muitos anos. Todos eram amigos. Não se discutia o jogo depois de acabado. Quem chegasse atrasado era zoado por todos e ia imediatamente para o gol. Não era permitido brigar ou discutir de forma ríspida. Não podia faltar e deixar seu time capenga. Não podia tomar gol de propósito para sair do gol mais rápido. Semana que vem sempre tinha mais.

Era para ser assim, mas evidentemente ocorriam deslizes. Um desses deslizes aconteceu em uma partida na qual eu perdi a cabeça com a falta de dedicação de alguns para o jogo, o fato de não passarem a bola ou exagerarem nas firulas. Jogadas mais ríspidas e um certo deboche da equipe que estava ganhando. Briguei com os meninos, xinguei, falei mais alto e nitidamente perdi a cabeça. Até eles acharam que eu estava estranho. Não confraternizei com ninguém após o jogo e logo fui embora. Ainda dirigindo o carro de volta para casa argumentei com o Lucas que não se tratava de futebol, mas que aquilo era um ensinamento para o resto da suas vidas, e que eu tinha a obrigação de mostrar a eles as condutas e comportamentos que poderiam ser danosos para o desenvolvimento emocional de adolescentes. Lucas apenas me respondia “Mas pai, é apenas um jogo de futebol no domingo. Nós até podemos perder a cabeça, afinal somos adolescentes. Você é que não pode se comportar dessa maneira“.

Cheguei em casa ainda irritado com os acontecimentos do jogo. Pensei que era a minha obrigação mostrar a eles a maneira correta, a forma adequada, o brio, a disputa leal, a determinação, o empenho, a lealdade e o companheirismo. O que eu havia visto se afastava disso. Parecia a mim importante não deixar que um comportamento assim passasse sem um contraponto. Afinal, eu era o adulto no lugar, e eles precisavam aprender regras de convivência enquanto ainda eram jovens.

Passei algumas horas pensando nisso e depois adormeci. No dia seguinte o meu destempero e as minhas palavras duras ainda ecoavam na minha cabeça. Entretanto, aos poucos as brumas da irritação foram se dissipando e eu comecei a enxergar o episódio com outros olhos. Mais do que uma oportunidade de mostrar a importância da disciplina e do empenho aqueles fatos do jogo de domingo poderiam me oportunizar um outro ensinamento.

Sim, lentamente pude perceber que os valores mais importantes a aprender daquele fato eram a temperança, a calma e a serenidade. Mais do que o foco no jogo e suas consequências, a visão de uma postura conciliatória e pacífica. Lucas tinha mesmo razão: era apenas um jogo de meninos, e minha reação extrapolava os limites do aceitável.

Encontrei Lucas à frente do seu computador e apenas lhe disse: “Sim, meu filho. Você tem razão. É apenas um jogo. Não podemos brigar por causa disso. Somos amigos, companheiros, parceiros. Um jogo de futebol não pode ser uma fonte de mágoas, rancores e ressentimentos. Vamos manter nossos desacertos apenas dentro da quadra e chutar em frente o resto“.

Lucas sorriu e até hoje sinto seu contentamento por perceber a lição que todos tivemos naquele jogo “das onze à meia-noite“.

Convido a todos para que pensem nisso quando o calor da disputa eleitoral passar dos limites. Somos todos amigos, irmãos. Vamos deixar o debate eleitoral no seu devido lugar, e não permitir que ele invada nossos corações destruindo afetos e histórias bonitas de convivência.

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Palmada

Violência Crianças

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6 de outubro de 2014 · 04:24

Palavras

Olizinho Palavras

“As palavras, vovô, as palavras. Nelas estão as verdades, codificadas, escondidas, nobres guardiãs de sentidos sutis. Conte para mim o que elas dizem, e mais ainda, o que não dizem. Explique para mim aquele silêncio perturbador que habita o vão que as separa. Diga, vovô, qual a razão para tantas palavras”.

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