Arquivo do mês: abril 2015

O machismo de cada um

 Machismo-II

Eu não sou um machista (porque racionalmente rejeito qualquer tese de supremacia masculina sobre a mulher), mas vivo num mundo controlado pelo patriarcado. Assim sendo, muitas vezes minhas ações são comandadas por este paradigma. Por exemplo: dirigir o carro quando a família toda está junto; pagar a conta do restaurante; ter um comportamento de proteção quando minha mulher e minha filha estão comigo.

Machismos? Não creio… marcas dos milênios de patriarcado. Portanto, o patriarcado está embebido nas minhas células determinando de forma invisível minha maneira de agir e proceder. Todavia, ele também compõe a matéria que forma as células das mulheres. Elas também vivem nesse sistema e esperam que ele lhes ofereça alguma vantagem e proteção. O problema é que, depois de 10 mil anos de vigência é hora de exterminá-lo por algo que ofereça uma condição melhor para as mulheres, mas também para os homens. Se ele teve sua importância no mundo a ponto de ser usado em toda parte, agora está caduco e não serve mais aos propósitos deste mundo. Para acabar com isso é necessário tocar nas fundações profundamente fincadas em nosso código valorativo, e isso não se faz sem dor.

Da mesma forma que a passagem da infância para a adolescência nos propicia um acréscimo de liberdade às custas de uma perda da proteção paternal, a queda do patriarcado também se fará com o necessário sofrimento, para os homens – que sofrem as dores da perda de uma identidade forjada há milênios como provedores e propietários das mulheres – e para as mulheres, que terão que aprender a se defender sozinhas em um mundo em que a liberdade sempre cobra altos preços. É isso o que vemos hoje em dia: mulheres muitas vezes solitárias pelas perdas de companheiros, mas orgulhosas dos passos que deram em direção à liberdade e à autonomia. A literatura e o cinema nos oferecem exemplos magníficos dessa fase de transição.

Por seu turno vemos homens que se despedem da roupagem controladora e machista de “propietários“, e que sentem-se confusos e desnorteados, perdidos num limbo identificatório sem precedentes. “Se não sou mais o provedor, o que sai pelo mundo na caça e na luta, se as mulheres não mais precisam de mim para sobreviver, se não sou mais o braço forte em um mundo mecanizado e cibernético, para o que sirvo, afinal? Qual o sentido do masculino no mundo? Seremos fêmeas sem útero?”

Estas são as perguntas de homens e mulheres, cujas respostas nos aguardam nos próximos séculos. Certamente que o mundo que virá será diferente, mas espero que, apesar dos embates necessários e da reacomodação das placas tectônicas dos papéis sociais, os homens continuem amando suas mulheres e que elas continuem nutrindo por eles a paixão que é a chama indelével que nos transforma em humanos.

Se não sobrar nenhuma marca cultural e artificial que nos defina, que o desejo e a complementariedade permaneçam para nos dar esperança no futuro.

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Feminismo e Humanização

 

 

discussao

 

Aqui estão reflexões sobre a Humanização do Nascimento conforme tenho observado.

Nos últimos meses temos visto muitas brigas intestinas dentro do movimento exatamente no momento em que ele se torna mais forte e abrangente. Muitas destas divergências poderiam ser tratadas internamente, esperando que os ataques venham daqueles que não concordam com nossas ideias, mas infelizmente vemos brigas entre pessoas que comungam com a mesma base de pensamento, divergindo apenas nos detalhes.

De uma certa forma isso é compreensível, visto que essas lutas são causadas quase que exclusivamente pelas  vaidades inerentes a qualquer coração que se deixa tomar por uma paixão, e o trabalho com o parto está dentro das grandes paixões que imantam profissionais do mundo inteiro.

Sei que minhas palavras desagradam muitas pessoas e não tiro minha culpa sobre estes julgamentos. Sou falante demais, opiniático e intrometido. Por outro lado sou alguém que acredita que o diálogo pode ser a única forma de resolver conflitos de forma civilizada, e para isso é fundamental escutar o que o outro tem a dizer, suportar o contraditório e (ó dor…) aprender com a experiência alheia. Por isso creio que o movimento de humanização precisa fazer uma reflexão sobre as questões inerentes ao ritmo e direcionamento de suas lutas.

Por transitar pelo universo feminino há mais de três décadas acabei me tornando um observador atento das nuances e características dos movimentos com os quais tive contato e aproximação: o feminismo e a humanização do nascimento.

É importante esclarecer que, do meu ponto de vista, a humanização do nascimento não é um assunto “feminista”. É um assunto sobre o qual as feministas precisam se debruçar de forma crescente, já que foi por elas negligenciado por décadas, mas que não pertence ao escopo de assuntos que pertencem ao feminismo. O parto é múltiplo, inúmeras facetas e vieses cabem no seu entendimento. Se é verdade que ocorre nos corpo das mulheres, TODOS somos nascidos deste processo, conferindo à totalidade da humanidade o direito de ter voz neste debate. Todavia, é evidente que  a imensa maioria das ativistas de ambos os movimentos sociais são mulheres. No feminismo, a totalidade, mas na humanização do parto a gigantesca maioria, e isso dá às mulheres uma especial posição de autoridade para falar de um tema que as toca de forma muito marcante. Posso ser visto como um dos poucos homens que se aventura a falar e defender de forma desabrida o protagonismo feminino como o ponto nevrálgico desta mudança paradigmática na atenção ao parto.

Como observador atento das nuances de discurso nos dois movimentos, muito do que vejo no feminismo é o mesmo que observo no movimento de humanização do nascimento: para algumas defensoras existe uma clara confusão conceitual entre o “problema” e quem o “representa“.

Na humanização do nascimento, o qual acompanho desde o final do século passado, ao invés de focarmos nossas forças na mudança de um SISTEMA perverso e ineficaz (nossas taxas de mortalidade materna nos comprovam isso) perdemos muito tempo nos elementos que – concordando ou não com ele – o representam; no caso do parto, os obstetras. Assim, muita energia é dispensada em atacar ferozmente médicos que atuam dentro de um sistema que não respeita a subjetividade, a autonomia e a liberdade das mulheres. Infelizmente, muitas vezes estes próprios médicos atacados são até sujeitos interessados em fazer mudanças na sua postura e na sua prática, mas são forçados a se proteger em suas corporações porque TUDO o que observam partindo do outro lado (as ativistas) é formado por acusações, agressões, violências verbais e rancor. Como seria possível chamar estes profissionais para fazer parte de uma grande mudança se não lhes oferecemos o carinho e a acolhida necessárias, exatamente o que reclamamos para as pacientes que entram em um hospital para dar à luz?

O mesmo acontece no feminismo. Eu mesmo, que tenho 30 anos de lutas para fortalecer a autonomia e o protagonismo das mulheres no parto, fui duramente atacado pela “tropa de choque” das feministas por um conceito (que sequer é meu, é de Engels) sobre as origens do patriarcado. Quando eu vi a enxurrada de acusações e violências (repletas de clichês do tipo “vaza“, “já vai tarde“, “não passará“, “machista“, “misógino mentiroso“, etc..) desferidas a mim eu pensei: “Bem, se eu não sirvo para essa luta, quem serve? Que tipo de obstetra seria correto e adequado para as feministas? Que tipo de profissional poderia cumprir todos os requisitos para servia à causa da humanização? Que tipo de obstetra concordaria com qualquer agressão à sua corporação sem sequer ter o direito de defesa? Que obstetra aceitaria participar de uma luta em que, qualquer discordância, o faria ser tratado como lixo?

Trinta anos buscando auxiliar a causa do protagonismo feminino não servem de nada diante das exigências das mulheres sobre o “correto comportamento e o adequado discurso de um homem quando fala sobre as mulheres“.

Mas antes que as defesas apareçam, é claro que não são todas as feministas que agem assim, talvez sejam uma minoria, mas são as que tem mais voz e que causaram mais estragos nas tentativas de diálogo.  No caso destes grupos mais radicais o objetivo implícito em muitas manifestações é uma total humilhação dos homens, uma vingança completa e final pelo “mal” que causaram às mulheres em todos estes séculos, sempre recheada de clichês (vaza macho, não passarão, mascus, esquerdomacho, etc.).

Na humanização do nascimento temos um grupo semelhante e muito vocal, acostumado a criticar abertamente o comportamento dos médicos com piadas, deboches, apelidos e críticas onde os fatos sequer foram totalmente esclarecidos, fazendo com que qualquer intervenção médica seja julgada com desconfiança. Para estas, o “extermínio” dos obstetras é uma espécie de “solução final”, pois eles representam todo o mal e toda a dor das mulheres na assistência.

Nenhuma destas soluções é possível (ou mesmo suportável), mas os discursos de culpa contra homens e médicos se multiplicam de forma inaceitável, pelo menos para quem sonha com mudanças.

Para quem deseja avanços surgindo no horizonte, mesmo que lentos e seguros, ver a humanização do nascimento adotar as mesmas táticas do feminismo mais violento pode retardar estas transformações por décadas. Atacar de forma agressiva e irracional – com palavras  recheadas de rancor e mágoa – os profissionais que atuam no parto, nos fará apenas regredir nas conquistas até aqui conseguidas. Esse comportamento apenas incentiva o surgimento e crescimento de reações óbvia daqueles que se sentem (justa ou injustamente) atingidos: os grupos machistas e o “dignidade médica“.

Sem uma postura de congraçamento e diálogo, isto é, uma postura mais “feminina“, nada será feito de forma consistente em um futuro próximo.

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Camille Paglia

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Fiquei emocionado ao ler esta entrevista da Camille Paglia e perceber que suas idéias sobre gênero, feminismo e maternidade são as mesmas que defendo há tantos anos, pelas quais já paguei um preço bastante salgado. Sinto-me também aliviado ao perceber que os ataques a estas propostas e visões de mundo não são exclusivas de celebridades como ela, mas de todos que ousam estabelecer uma crítica e um olhar severo sobre os (des)caminhos da cultura ocidental, mormente no que diz respeito aos choques inexoráveis entre homens e mulheres na luta por sentido em suas vidas.

Camille Paglia tem a segurança e a firmeza que apenas as pessoas verdadeiramente cultas e preparadas possuem, e suas palavas – por vezes ácidas – tornam-se doces ensinamentos quando permitimos que se aproximem de nossa razão mais profunda.

Veja abaixo a entrevista dada à Folha SP

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Ódio

Hate

Mulheres que odeiam homens não precisam ler o que escrevo ou dissemino nos meus escritos e postagens, e podem guardar de mim uma distância respeitosa. Aliás, a mesma que me separa dos homens que odeiam mulheres, ou que as tratam como bibelôs idiotizados. Apenas entendam que o ódio que guardam dos homens não é espetaculoso ou explícito, mas opera nas sutilezas do discurso, nos silêncios e nos vãos que separam as palavras. O ódio que destilam pelos homens aparece nos pequenos detalhes dos comentários ou nos “calabocas” frequentes, que tentam impedir que um homem se manifeste sempre que a mulher é o assunto. Além disso, quando me dizem “eu não odeio os homens, tanto que casei com um” para mim faz tanto sentido quanto o velho clichê “não sou racista, já namorei uma negra“.

Homens que odeiam mulheres e as mulheres que os odeiam não precisam ler ou frequentar minhas ideias. Eu os respeito, mas não se faz necessária nenhuma proximidade.

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Proselitismo

Proselitismo

A humanização do nascimento tem se tornado fonte de grandes debates no cenário da atenção ao parto exatamente porque ela estabelece uma crítica aos pressupostos que historicamente governavam o cuidado com este momento tão delicado da vida de uma mulher e o início da existência de todos nós. Muitas são as formas de entender o que esta corrente do pensamento significa para a cultura, e mesmo quais são os limites de atuação dos profissionais que atuam nesta esfera conceitual. Para evitar confusões, consideramos que a atenção humanizada se apoia sobre um tripé conceitual, a saber:
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  1. O protagonismo restituído à mulher, fazendo dela a condutora do processo, que só poderá ocorrer de acordo com seus desejos, aspirações e vontades. Cabe aos cuidadores serem instâncias consultivas, de suporte e aconselhamento, agindo apenas quando o processo se distancia da fisiologia e estabelece riscos para o binômio mãe-bebê.
  2. A visão interdisciplinar, colaborativa e integrativa do processo de nascimento, alargando o seu entendimento para além da visão biologizante e mecanicista, observando-o como um evento humano e subjetivo
  3.  Uma vinculação visceral com a medicina baseada em evidências, demonstrando que as propostas desta visão sobre o parto estão assentadas sobre a rocha firme da razão e da ciência, e não se constituem em uma visão romântica sobre um processo vital e significativo na cultura.

Assim, os chamados “humanistas do nascimento” são profissionais que se esmeram em produzir uma prática alicerçada na autonomia das mulheres sobre seu corpos e destinos, ao mesmo tempo que procuram oferecer o cuidado mais abrangente e mais cientificamente embasado para elas. Também é tarefa destes a educação para o nascimento fisiológico, procurando desfazer mitos e ideias errôneas historicamente disseminadas pelos milênios de visão patriarcal a embaçar a real habilidade feminina de gestar e parir com confiança e segurança. É tarefa de todos que buscam um parto mais seguro orientar as mulheres no caminho mais seguro e empoderador sobre este evento.

Por outro lado, tentar convencer mulheres a parir de parto normal não passa de um colonialismo intelectual e afetivo, um proselitismo inútil e anacrônico, que desconsidera a capacidade das mulheres de fazerem escolhas corretas diante de informações corretas e precisas. Humanização do nascimento é uma ideia a ser exposta, jamais imposta. Não nos cabe agir autoritariamente, desreconhecendo sua subjetividade e o direito de escolher seus próprios caminhos. Em longo prazo torna-se muito mais efetivo direcionar nossos esforços para as mulheres que realmente desejam parir, lembrando que “desejar” é diferente de “querer”. O “desejar” se relaciona com as emoções mais densas, que brotam dos estratos abissais do inconsciente, regulados pela bruma diáfana de nossas experiências mais remotas. O “querer“, por seu turno, é consciente e superficial, racional e objetivo, portanto, enganoso, pois nossa mente frequentemente burla nossas vontades mais profundas.

Para estas que demonstram sua vinculação afetiva, psicológica e espiritual com o nascimento fisiológico devemos devotar nosso tempo e nossa arte. Para as que estão em dúvida e demonstram vontade de aprender e se informar, todo o esforço de conscientização dos benefícios do parto normal é válido. Todavia, para aquelas cuja decisão pela cesariana já fez casa em seus corações só nos resta desejar o melhor resultado possível para os desafios de uma cirurgia.

Fazer pressão em nome de NOSSAS convicções é um desrespeito à liberdade alheia.

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