Arquivo do mês: dezembro 2019

Nobel

Um excelente químico deveria se manter fazendo experimentos em seu laboratório e não se aventurar na filosofia, pois que nesse ramo sua ignorância fica evidente

Dizer que a religião se tornará supérflua, inútil ou desnecessária é acreditar que um dia todas as dúvidas existenciais serão respondidas, todas as questões morais solucionadas, não restará nenhuma pergunta a ser feita e todo o sentido do universo caberá em uma fórmula química. Tal arrogância e prepotência só cabe nas mentes irracionais.

Imaginar tal cenário é o mesmo que olhar para o universo acreditar que tudo à nossa frente um dia caberá nos livros de exatas. Para pensar assim é necessário produzir um mergulho obscurantista nas doutrinas ateístas, que nada mais são que religiões niilistas baseadas na fixação pelo nada.

Isso não quer dizer que as religiões sejam justas e boas, ou que não sejam obscurantistas e atrasadas. Apenas afirmo que as religiões são da natureza humana, surgem de necessidades humanas, pela incessante inquietude por respostas e pela angústia do desconhecido. Anseiam por sentido e produzem modelos para o que não foi ainda descoberto. Imaginar um mundo sem essa inquietação é tão somente acreditar no fim do desejo humano.

Quanto mais ele despreza as religiões mais precisa criar uma para sustentar sua (des)crença.

Aos químicos, a química; aos filósofos, poetas e sonhadores tudo o que ainda resta descobrir.

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Silêncio

Não, Petra, você está enganada. Não há paralisia neste silêncio que paira no ar. Não confunda com apatia a mudez da tempestade que antecede o trovão. Em verdade esse vazio nada mais é que a reverência da vida ao estrondo das mudanças inevitáveis.

Karl Batterman, “The Neverending War”, ed. Capri, pág. 135

Karl Batterman é um escritor inglês nascido em Leicester em 1869. Filho de pai operário e de uma família de 10 irmãos (entre eles o líder do “Labour Party” Jeffrey Batterman, morto na revolta dos trabalhadores de Manchester em 1902) escreveu várias novelas que eram publicadas em jornais de Londres. Contemporâneo de Sir Arthur Conan Doyle, rivalizava com ele na preferência popular. Escreveu “A Study in White” como uma sátira à obra de seu compatriota, falando da história do Inspetor Legendre, um policial beberrão e desastrado que, com muita sorte e ações do acaso, conseguia desvendar casos em que a polícia inteira fracassava. Sua obra “The Neverending War” escrita em 1905 foi tomada por muitos críticos contemporâneos como uma previsão sarcástica dos fatos que redundaram na eclosão de duas grandes guerras mundiais. De uma certa forma, seus personagens agiam diante da inevitabilidade de uma catástrofe iminente, o que, de fato, acabou tragicamente ocorrendo. Morreu em Suffolk em 1915.

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Benevolência

Ainda sobre as iniciativas pessoais para a ajuda aos necessitados…

Peço apenas cuidado com a exaltação (justa) de pessoas que ocupam o lugar que deveria ser do Estado democrático. Esta veneração ao sujeito bom e ao “herói” contemporâneo pode nos dar a entender que a solução para os desdentados, os famintos, os necessitados, os doentes e os pobres é a multiplicação de pessoas que usam seu tempo livre para fazer o que deveria ser feito pelos governos. O mesmo olhar reservado devemos lançar à benevolência dos bilionários que ajudam os necessitados com cestas básicas, atendimentos à saúde ou presentes de qualquer tipo.

Sim, é bom e bonito no varejo, mas cobra um preço muito alto no atacado. Tais ações insinuam ser correto colocar os deveres do Estado como “dádivas” de quem tem tempo e dinheiro para fazer caridade. Ao exaltar estas iniciativas colocamos dentes, comida, saúde, habitação, moradia e outras garantias da civilização como graças recebidas, e não como direitos que todos temos, pelos quais cabe luta e empenho pela sua universalização.

Temos vários exemplos disso que nos chegam pelos jornais diariamente, mas o resultado é sempre o mesmo: valorizamos o ato de benevolência e esquecemos suas raízes – a pobreza – e as repercussões em médio e longo prazo: colocar as obrigações do Estado como dádivas oferecidas por “anjos” com tempo e dinheiro para fazer tais ofertas, muitos até fazendo estas doações movidos por interesses menos nobres, como publicidade pessoal.

Se é justo aplaudir quem se dedica ao próximo mais importante ainda é cobrar do Estado que cumpra sua função de diminuir o sofrimento dos desassistidos e lutar por uma verdadeira justiça social.

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Mãe Floresta

O mundo não verá nenhuma mudança significativa através da caridade interesseira dos bilionários, por aplicativos maravilhosos que facilitam a vida burguesa, pelas doações de 1% de sua bebida predileta para os pobres da África, pela eliminação de canudinhos ou banhos de chuveiro mais rápidos. Nenhuma das transformações superficiais de que somos estimulados a participar tem capacidade de produzir qualquer impacto real na vida deste planeta, mas cumpre a função de nos enganar de que algo está sendo feito, o que permite ao capitalismo continuar a exploração do planeta de forma predatória, destruidora e injusta.

O que poderá mudar nosso destino serão coisas antigas e fora de moda: política, leis, mobilização popular e a penalização da usura através da taxação das fortunas. Tudo isso da base para o topo, através da conscientização das massas para que deixem de ser manobradas pelas elites, as mesmas que hoje espoliam o planeta em nome da imobilidade das castas – da qual são beneficiárias.

Kabir Patel, “एक हेरानका दा मोए फ्लोरस्टा”(A Herança da Mãe Floresta), Ed. Aichologi, pag. 135

Kabir Padel é um escritor indiano nascido em Lucknow, em Uttar Pradesh na Índia em 1962. Cresceu entre a alta sociedade da casta brahmane porque seu pai era um industrial da área de tecidos e sua mãe uma artista plástica. Muito cedo foi morar na Inglaterra para estudar economia a pedido do seu pai, mas rapidamente se deu conta que seu caminho não era nas salas climatizadas das empresas do pai, ou comandando empregados nas fábricas de corantes. Seu percurso seria compreender as disparidades da sociedade onde cresceu, nos limites da Índia, quase na divisa com o Nepal. Sentiu a necessidade de investigar as estruturas que sustentam tamanhas diferenças, onde a opulência e o desperdício convivem com a escassez e a miséria. Abandonou os estudos de economia e entrou para a faculdade de Sociologia onde passou a estudar os elementos de organização popular, em especial os grupos de mães e mulheres que surgem espontaneamente nas comunidades indianas. Escreveu um livro baseado na sua tese de doutorado, “Matriarcado na Índia Rural”, que foi muito bem recebido pela crítica e abriu suas portas para o interesse de outras editoras. Em “A Herança da Mãe Terra” Kabir traça uma linha entre a pobreza extrema de algumas regiões da Índia e o modelo neoliberal que pauperiza milhões em nome da acumulação predatória de poucos, dentro de um contexto de destruição sistemática da natureza que ameaça a própria sustentabilidade de Gaia.

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Unanimidade

“Unanimidades são a marca indefectível da mediocridade. Se você faz algo realmente marcante e significativo deverá ameaçar uma legião de pessoas que resistem à mudança que você representa. Não desista pelas críticas ferozes que recebe. Analise seus objetivos com franqueza, refaça seus caminhos se necessário e siga adiante com sua missão. Acima de tudo não tema a ferocidade dos ataques. Pelo contrário: exalte seu aparecimento, pois apenas os medíocres agradam a todos. Não há como ser um vetor de mudanças se não houver discordância; toda luz que se forma produz sombra.”

Jeremy Ash, “A Tree is Not a Chair”, ed. Pergus pág. 135

Jeremy Ash é um escritor americano nascido em Cedar City em Utah em 1956. Escreve livros de autoajuda e sobre temas religiosos. Foi adepto da religião Mórmon até 2015 quando decidir se retirar junto com centenas de adeptos dessa religião nos Estados Unidos que foi ocasionada pela controvérsia a respeito do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Jeremy Ash tem um irmão gay, líder do “Gay Christian Group Utah” e por essa razão cortou todas as relações com a comunidade mórmon onde cresceu. É casado com a cantora de música religiosa cristã Maya Albrecht. Tem 6 filhos biológicos e mais 4 adotivos. Mora em Salt Lake City.

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