Arquivo do mês: dezembro 2019

Nobel

Um excelente químico deveria se manter fazendo experimentos em seu laboratório e não se aventurar na filosofia, pois que nesse ramo sua ignorância fica evidente

Dizer que a religião se tornará supérflua, inútil ou desnecessária é acreditar que um dia todas as dúvidas existenciais serão respondidas, todas as questões morais solucionadas, não restará nenhuma pergunta a ser feita e todo o sentido do universo caberá em uma fórmula química. Tal arrogância e prepotência só cabe nas mentes irracionais.

Imaginar tal cenário é o mesmo que olhar para o universo acreditar que tudo à nossa frente um dia caberá nos livros de exatas. Para pensar assim é necessário produzir um mergulho obscurantista nas doutrinas ateístas, que nada mais são que religiões niilistas baseadas na fixação pelo nada.

Isso não quer dizer que as religiões sejam justas e boas, ou que não sejam obscurantistas e atrasadas. Apenas afirmo que as religiões são da natureza humana, surgem de necessidades humanas, pela incessante inquietude por respostas e pela angústia do desconhecido. Anseiam por sentido e produzem modelos para o que não foi ainda descoberto. Imaginar um mundo sem essa inquietação é tão somente acreditar no fim do desejo humano.

Quanto mais ele despreza as religiões mais precisa criar uma para sustentar sua (des)crença.

Aos químicos, a química; aos filósofos, poetas e sonhadores tudo o que ainda resta descobrir.

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Silêncio

– Não, Petra, você está enganada. Não há paralisia neste silêncio que paira no ar. Não confunda com apatia a mudez da tempestade que antecede o trovão. Em verdade esse vazio nada mais é que a reverência da vida ao estrondo das mudanças inevitáveis.

Karl Batterman, “The Neverending War”, ed. Capri, pág. 135

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Benevolência

Ainda sobre as iniciativas pessoais para a ajuda aos necessitados…

Peço apenas cuidado com a exaltação (justa) de pessoas que ocupam o lugar que deveria ser do Estado democrático. Esta veneração ao sujeito bom e ao “herói” contemporâneo pode nos dar a entender que a solução para os desdentados, os famintos, os necessitados, os doentes e os pobres é a multiplicação de pessoas que usam seu tempo livre para fazer o que deveria ser feito pelos governos. O mesmo olhar reservado devemos lançar à benevolência dos bilionários que ajudam os necessitados com cestas básicas, atendimentos à saúde ou presentes de qualquer tipo.

Sim, é bom e bonito no varejo, mas cobra um preço muito alto no atacado. Tais ações insinuam ser correto colocar os deveres do Estado como “dádivas” de quem tem tempo e dinheiro para fazer caridade. Ao exaltar estas iniciativas colocamos dentes, comida, saúde, habitação, moradia e outras garantias da civilização como graças recebidas, e não como direitos que todos temos, pelos quais cabe luta e empenho pela sua universalização.

Temos vários exemplos disso que nos chegam pelos jornais diariamente, mas o resultado é sempre o mesmo: valorizamos o ato de benevolência e esquecemos suas raízes – a pobreza – e as repercussões em médio e longo prazo: colocar as obrigações do Estado como dádivas oferecidas por “anjos” com tempo e dinheiro para fazer tais ofertas, muitos até fazendo estas doações movidos por interesses menos nobres, como publicidade pessoal.

Se é justo aplaudir quem se dedica ao próximo mais importante ainda é cobrar do Estado que cumpra sua função de diminuir o sofrimento dos desassistidos e lutar por uma verdadeira justiça social.

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Mãe Floresta

“O mundo não verá nenhuma mudança significativa através da caridade interesseira dos bilionários, por aplicativos maravilhosos que facilitam a vida burguesa, pelas doações de 1% de sua bebida predileta para os pobres da África, pela eliminação de canudinhos ou banhos de chuveiro mais rápidos. Nenhuma das transformações superficiais de que somos estimulados a participar tem capacidade de produzir qualquer impacto real na vida deste planeta, mas cumpre a função de nos enganar de que algo está sendo feito, o que permite ao capitalismo continuar a exploração do planeta de forma predatória, destruidora e injusta.

O que poderá mudar nosso destino serão coisas antigas e fora de moda: política, leis, mobilização popular e taxação das fortunas. Tudo isso da base para o topo, através da conscientização das massas para que deixem de ser manobradas pelas elites, as mesmas que hoje espoliam o planeta em nome da imobilidade das castas – da qual são beneficiárias.”

Kabir Patel, “एक हेरानका दा मोए फ्लोरस्टा”(A Herança da Mãe Floresta), Ed. Aichologi, pag. 135

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Unanimidade

“Unanimidades são a marca indefectível da mediocridade. Se você faz algo realmente marcante e significativo deverá ameaçar uma legião de pessoas que resistem à mudança que você representa. Não desista pelas críticas ferozes que recebe. Analise seus objetivos com franqueza, refaça seus caminhos se necessário e siga adiante com sua missão.”

Jeremy Ash, “A tree is not a chair”, ed. Pergus pág. 135

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