Arquivo do mês: janeiro 2021

Psicologia Espírita

Eu não acredito na existência de “Psicologia Espírita”, nem de “Medicina Espírita” e tampouco creio na existência de uma “Arte Espírita” Pelas mesmas razões, acho que não existe uma psicanálise com essa adjetivação. Creio que o espiritismo apresenta um sistema lógico para a compreensão da realidade espiritual, mas NÃO oferece um sistema terapêutico próprio. Terapia reencarnacionista não é terapia espírita, até porque o espiritismo não é o proprietário da ideia da reencarnação – que existe em muitas outras religiões. E por fim, o tratamento do inconsciente parte dos imbricamentos do discurso do analisando, os quais são interpretados pelo analista, mas não cabe a este profissional tirar conclusões a partir de suas crenças nas vidas passadas, mas apenas do material simbólico trazido pelo sujeito em análise.

É importante definir o que entendemos por “tratamento espiritual”. Pela minha experiência, o que vi durante décadas frequentando Casas Espíritas, este tipo de tratamento não passa de ajuda oferecida por pessoas despreparadas para a escuta das dores psíquicas de um sujeito, fazendo pregações de ordem moral – e moralista – para espíritos em sessões mediúnicas.

Perguntas: Qual a diferença de fazer escuta do sofrimento psíquico de um espírito desencarnado ou de um encarnado? Por que achamos que escutar um “morto” que chora e está desesperado pode ser feito por qualquer pessoa de bons sentimentos em uma casa espírita? A “terapia espiritual” se baseia nesses chavões, nessa “boa vontade”, nos conselhos compassivos e nesses discursos vazios? As pessoas que tomam para si a tarefa de ouvir o sofrimento alheio (mortos ou vivos) não deveriam ser capacitadas para isso? Não é verdade que uma escuta preconceituosa e moralista pode causar tragédias? Quantas destes desastres estaremos fazendo em casas espíritas por falta de preparo de pessoas movidas por boa vontade ou por não reconhecer a arrogância e vaidade dos “diretores de sessão” e seu desejo de serem reconhecidos como “curadores de espíritos”.

Outro ponto importante: quando falamos de problemas obsessivos de “mortos” e esquecemos que as verdadeiras obsessões estão entre os vivos. Não consigo perceber diferença alguma entre as influências espirituais e as materiais por um aspecto simples e fácil de entender: só existe obsessão se existir SINTONIA!! Você só encontra obsessores no seu caminho se estiver sintonizado em sua frequência vibratória – sejam eles desse mundo ou de outro. Portanto, qualquer tratamento só poderá enfocar o próprio SUJEITO, pois que este quando estiver equilibrado afastará qualquer influência maléfica externa que porventura puder influenciá-lo.

É uma ação meramente escapista – tipicamente exonerativa – responsabilizar elementos outros que não sejam internos ao sujeito sofredor. Colocar a culpa de nossas mazelas nos “obsessores” é a mesma manobra ingênua de dizer que uma pessoa se desvirtuou por causa das “más companhias“.

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Gênesis

É evidente que aqui não há nenhuma novidade: a novela da Record que fala do Gênesis da Bíblia recebeu críticas por ser “machista”? Mas eu pergunto: é sério que alguém acha possível que uma novela sobre o surgimento da humanidade num livro patriarcal e machista como a Bíblia poderia ser diferente? Acham mesmo que haveria como fazer uma versão “inclusiva”, “neutra” ou “feminista” da criação do mundo como narrada nos textos do velho testamento?

E se fizessem, não seria uma monstruosidade ainda maior???

Vamos ser justos; não se pode cobrar da Bíblia que suas metáforas reflitam os valores do mundo de hoje. O que se pode fazer a respeito de uma obra que celebra a visão do nascimento da humanidade sob a ótica do patriarcado nascente é não assistir – como eu faço – mas é absurdo pedir que um monumento ao patriarcado seja transformado no seu oposto, perdendo totalmente sua essência.

Em uma crítica que apareceu nas redes sociais um articulista usa o argumento do “anacronismo” das visões machistas da novela, mas para mim o faz de forma totalmente equivocada. Diz ele: “É simplesmente inaceitável que, em pleno 2021, com mulheres em postos de comando em todo o planeta, uma obra de grande apelo popular insista nesse tipo de mensagem”.

Pois eu afirmo que NÃO HÁ como mudar as histórias e as alegorias da Bíblia sem acabar com ela. Existem versões humorísticas como o sensacional “A Vida de Brian”, do Monty Python, os os vários esquetes da “Porta dos Fundos” (ao meu ver também hilários), mas eles não se propõem a fazer uma novela sobre o Gênesis, a Vida de Cristo ou sobre os 10 Mandamentos, apenas paródias críticas sobre estas histórias – o que me parece sempre super válido.

Retalhar uma obra escrita há centenas ou milhares de anos é algo criminoso. Para mim é como fazer um filme sobre Moby Dick de Herman Mellville – mantendo todo o enredo e todos os personagens – mas mudar o final da nova versão fazendo o Capitão Ahab fica amigo da baleia e não tentar matá-la, pressionado pelos ativistas da vida animal e até pela ameaça de boicote protagonizada pela PETA. Quem sabe até reescrever o “Sítio do Pica-Pau Amarelo” e transformar a tia Anastácia na proprietária do mesmo, para fugir do estigma de subalternidade da população negra. Ou mesmo proibir obras controversas como Lolita pelo seu conteúdo sexual.

Não se pode fazer isso com obras artísticas.; elas são representantes dos valores que circulavam pelo campo simbólico de sua época. Critiquem seus conteúdos, denunciem suas amarras aos preconceitos do tempo em que foram escritas, mas não as mutilem para servir aos propósitos de outros momentos e contextos.

A Bíblia é mesmo assim, e só o que se pode fazer é deixar claro que se trata de uma alegoria escrita há milhares de anos, cujas metáforas só podem ser lidas de forma simbólica, e que carregava valores sociais bastante diversos daqueles que valorizamos agora.

Para ler o artigo referido, clique aqui.

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Borboletas

Sonhei que estava em uma aula com várias moças muito jovens e alegres, que conversavam entre si alegremente enquanto eu me mantinha quieto. Um certo momento entra uma senhora mais velha, mas muito “faceira”. Apresenta-se, fala algumas poucas palavras, apresenta-se como a professora e diante da turma abre uma caixa de onde saem inúmeras borboletas multicoloridas.

“Será nossa aula de “borboletologia“, disse ela. Tirei do bolso um papel-sonho e anotei “Confirmar o nome ao acordar”. Foi o que fiz, e descobri que o nome da ciência que estuda as borboletas é a “lepidopterologia“, um ramo da entomologia.

Uma das borboletas, que mais parecia uma planta de jardim disfarçada, pousou bem à minha frente. Enquanto observava os detalhes curiosos de suas asas de matizes multicores a professora se aproximou de mim.

“Por que está cara tão fechada?”, disse ela, olhando bem em meus olhos com sua reprovação amorosa. “Veja quantas borboletas!!”. Só então me dei conta da tensão do meu rosto e da minha incapacidade de sorrir diante da surpresa que nos foi oferecida. Olhei ao redor e pude ver todas as minhas colegas alegremente correndo atrás delas com seus smartphones engatilhados e suas risadas fáceis.

Notei que as borboletas eram “camaleônicas” e se transmutavam, mudando o formato das asas e suas cores na medida em que falávamos com elas, isso tudo diante de nossos olhos incrédulos.

A professora tinha razão; não fazia sentido algum ser rabugento diante de tanta e tão efusiva beleza.

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Lixo

Já pensou a situação de um policial que prende o mesmo meliante todas as semanas cometendo o mesmo crime? Ou quando esse morre e percebe que outro ocupou a sua vaga?

O que dizer do médico que trata as verminoses das crianças que moram ao lado do valão imundo que atravessa a favela? E o mesmo profissional que trata indefinidamente uma hipertensão cujas causas estão debruçadas em uma vida já cheia de pressões e dramas terríveis? E a professora que pede que seu aluno, que mal se alimenta direito, leia os livros que ela recomenda?

Como se sente um profissional que percebe que sua atuação é insuficiente para mudar a realidade, e que tudo o que faz é enxugar o gelo de um problema cuja abrangência seu trabalho é incapaz de alcançar?

Há que ter muita força de vontade para enfrentar o cotidiano dentro de um sistema que nos esmaga, nos fere e nos maltrata. Na verdade, dentro desta sociedade somos meros lixeiros, e nos limitamos a retirar uma parte do lixo emocional e social que nos sufoca, pois que a cada dia se multiplica e se acumula.

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Moedinhas

Reflita: quando artistas e empresários doam remédios, cilindros de oxigênio, roupas e brinquedos para os necessitados durante calamidades como a que hoje estamos atravessando, eles apresentam sua caridade no Instagram e a chamam de “solidariedade”. Ainda nos fazem reclamar de outros empresários ou jogadores de futebol que nada fizeram para diminuir a dor dos desvalidos. Surge uma competição estúpida entre aqueles que são os “bons” e os “maus” milionários.

Estas doações são, via de regra, grandes ações de marketing para alavancar a imagem dos milionários. Nada de novo na história do capitalismo. Doam uma fração minúscula de seus ganhos diários para servir de alimento ao noticiário sensacionalista. Infelizmente, continuamos a nos ajoelhar diante das moedinhas jogadas por Rockefeller.

Todavia, essa máscara de benevolência não é o pior resultado deste tipo de exaltação midiática dos “benfeitores”. Com este tipo de manipulação reforçamos a ilusão de que a solução para as graves e insolúveis contradições do capitalismo se encontra na boa vontade dos ricos capitalistas em distribuir algumas migalhas e não na luta de classes e na justa distribuição das riquezas produzidas pelos trabalhadores de todo o mundo.

A caridade mantém intacta a injustiça, mas lhe oferece uma máscara reluzente – e falsa – de virtude. Em uma sociedade equilibrada, fraterna e igualitária nenhum ato caridoso seria necessário, pois a justiça social e a distribuição correta da riqueza já nos teria tornado – de fato – irmãos.

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