Arquivo do mês: novembro 2015

Medicina Industrial

medicina e tecnologia

Muito se tem falado sobre a forma impessoal como os atendimentos ocorrem nos dias de hoje, além da frieza e descomprometimento dos médicos em relação ao trabalho junto aos pacientes. Uma forma de melhorar essa forma insípida de atenção é chegar mais próximo dos clientes e poder enxergá-los em seus próprios domínios para apreender toda a gama de informações que se pode absorver de suas histórias.

O atendimento domiciliar oferece esse mergulho do profissional na vida de relação do paciente. A assistência ao seu sofrimento (ou à sua “passagem” no caso dos partos) é “in vivo” ao contrário da atenção nas clínicas e consultórios, que é artificializada e descontextualizada. Isto é: ” in vitro”.

A industrialização e massificação da atenção à saúde leva a uma crescente insatisfação dos consumidores, que pode ser notada em alguns bolsões de pensamento, em especial da classe média. As queixas se unificam em torno da impessoalidade e coisificação do paciente, que passou a ser tratado muito mais por máquinas e equipamentos do que por pessoas. O positivismo obliterante dos protocolos e a incapacidade de enxergar a doença como caminho, negando-se a ela qualquer propósito, nos afastam das dimensões verdadeiramente curativas da medicina.

A medicina se faz com vínculo. No dizer do psicanalista húngaro Ballint “o melhor remédio que um médico pode oferecer é ele mesmo“. Todo modelo, por mais eficiente que possa parecer, que nos afasta da dimensão única e subjetiva dos pacientes será um entrave às mais nobres propostas da arte de curar.

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Casa Sagrada

Bebe utero

Casa sagrada
De paredes vermelhas
Tantas vezes tuas lágrimas
Pintaram o alvo lençol
Quantas vezes teus lábios
Falaram comigo em meus sonhos

 Acalentou meus filhos
Quando lá os deixei
Nutriste seus sonhos
E os guardaste para mim
Agora que vais
Leva meu adeus e a certeza
Da gratidão eterna pelo bem
Que fizeste à vida.

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Fofocas

 

Anestesista

 

Estava operando uma paciente na noite de domingo quando o anestesista – um antigo e simpático colega de faculdade – interrompe minha conversa com Ana para me contar algo que havia escutado…

– No último congresso de anestesia, este ano em Florianópolis, surgiu uma grande novidade. Vocês ficariam felizes em saber…

– Diga aí qual é, disse eu, esperando uma nova técnica anestésica superior às analgesias combinadas peridural e raqui.

Ele sorriu discretamente e disse:

– A grande novidade é que… “as doulas não são inimigas dos anestesistas“. Essa foi a principal notícia do evento.

Achei que meu colega estava brincando. Afinal, não são incomuns suas tiradas irônicas. Perguntei-lhe se estava de gozação, mas ele prontamente confirmou.

– É sério, disse ele sorrindo por detrás da máscara. No congresso brasileiro de anestesia anterior a este as doulas eram as piadas certeiras nos grupinhos de anestesistas que se amontoavam nos intervalos em volta de cafés e biscoitos. Nossa visão sobre elas era de clara unanimidade: bisbilhoteiras, místicas, invasivas, briguentas e inadequadas. Bastaram poucos meses para essa ideia mudar.

Levantei o olhar por sobre o campo estéril que nos separava e perguntei:

– O que houve? O que produziu esta mudança? Meu questionamento veio ainda que um esboço de resposta já houvesse em minha mente. Ele continuou seu relato:

– Como em toda a corporação existem aquelas pessoas que detém o controle político das condutas e dos protocolos. Na anestesia este controle está no mais importante estado do país, São Paulo. Lá uma anestesista é quem “dá as cartas”. Pois ela foi fazer uma visita a um grande serviço americano que tem como rotina o atendimento de doulas. Como era de se esperar, voltou impressionada e encantada com o resultado do trabalho delas. Sua mensagem foi clara: “Elas não são inimigas dos anestesistas. Vieram para somar. E vão ficar“.

– Bem, disse eu sorrindo, para cada notícia ruim de perseguição, injustiça, ataques pessoais e violência existem notícias positivas como essas para nos oferecer o devido equilíbrio.

Meu colega continuou sua “fofoca”…

– Sempre que algum anestesista insistia em uma fala debochada ou irônica dois ou três ao seu lado lhe diziam: “Não resista. Não tem volta. O trabalho das doulas está invadindo os hospitais. E elas não estão contra nós“.

Terminei a minha cirurgia feliz com a novidade, que mais uma vez confirmou minha velha tese: as transformações NÃO ocorrem através de abordagens cognitivas, racionais, intelectivas. Elas vão se processar no terreno das emoções, dos sentimentos e dos sentidos mais epidérmicos. Foi preciso que uma figura de autoridade de uma grande corporação médica (a chefona dos anestesistas) fosse tocada pelo trabalho das doulas para que pudesse sentir – mais do que saber – o quanto a abordagem psicológica, emocional, social e espiritual das doulas podia fazer a diferença.

Não foi pela “Razão”, mas pela vivência subjetiva, pessoal e afetiva que ela mudou sua visão sobre a atuação das doulas. E por sua autoridade acabou por imprimir uma transformação na maneira como os anestesistas enxergam o trabalho sutil e delicado das doulas.

Ele ainda emendou uma última frase:

– Mas lá fora elas tem código de ética, o que evita os problemas que ainda se vê por aqui com doulas que interferem em condutas médicas ou que jogam as pacientes contra seus médicos. Isso não pode acontecer.

Não pode mesmo. Um código de ética para as doulas é mais do que necessário, é mandatório. Para isso seriam necessárias etapas iniciais, como um congresso de doulas, uma associação nacional, uma diretoria, várias comissões, etc. Para aquelas que acham que as doulas deveriam ser uma profissão estas etapas iniciais deveriam ser cumpridas em primeiro lugar. Para os que acham que ser uma profissão não é essencial (nem desejável) estes passos ainda assim precisam ser perseguidos para que o trabalho das doulas seja ainda mais reconhecido e respeitado.

O caminho é longo, mas o percurso sabemos qual é. De uma fase de escárnio e desconsideração passamos para a etapa do enfrentamento e do conflito. Agora estamos inseridos em uma fase de lenta aceitação. Schoppenhauer já tinha nos avisado como isso aconteceria.

A exemplo do que vi no discurso do presidente da Febrasgo a nova postura dos anestesistas mostra um caminho que não tem saída: as doulas vieram para ficar. A abordagem delicada e carinhosa que elas trouxeram ao parto mudou a face da atenção ao nascimento. Não há como regredir, e os bons médicos já reconheceram isso.

Todavia, alguns profissionais vão continuar a criar barreiras e agredir o novo paradigma, mas suas vozes aos poucos serão cada vez mais fracas e vazias. Com o tempo as barreiras ao trabalho das doulas serão vistas como marcas de um passado distante onde o bem estar das mulheres não era nossa mais sagrada missão.

Que venha esse novo tempo…

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Arquivado em Ativismo, Parto

Tatuagens

tatuagens-costas-zeus

 

Eu escrevi uma vez sobre minha curiosidade com o fenômeno das tatuagens, mas era num enfoque psicológico. Num mundo de inconstância as marcas na pele oferecem uma perenidade que o mundo contemporâneo sonega. Os relacionamentos, outrora firmes e seguros , tornaram-se frágeis e temporários. Os papéis sociais antes fixos e determinados nos ofereciam uma segurança de posição no desenho da cultura. Hoje isso é passado e a metamorfose é a regra; o que fomos é apenas lembrança, e não mais o que nos constitui e estrutura.

Se isso nos descortina infinitas possibilidades e construções diárias de um destino incerto, ao mesmo tempo nos oferece um vazio de valores perenes e imutáveis. Parece que nada sobra do que fomos. Sem uma certeza do que, em última análise, nos constitui recorremos às marcas na pele. Elas nos dizem que, a despeito do mundo em constante transmutação, teremos para sempre a marca do dragão, a marca tribal, a rosa, a serpente ou o nome do filho imprimindo para todo o sempre (má non tropo) o sentido de um momento, captura eterna de um fragmento de emoção.

Mas existe um outro aspecto que deveria ser explorado: a intoxicação causada pelas substâncias injetadas na derme. E essa é uma preocupação crescente. Algo tão “na moda” mereceria ter uma abordagem de saúde pública.

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Arquivado em Pensamentos

Palavras e Palestina

Palestinas

 

Minha proposta é mudar as palavras e a forma de nos reportarmos aos problemas entre israelenses e palestinos, e isso pode ser um bom começo. NÃO EXISTE “conflito” entre esses dois polos em disputa, da mesma forma como não havia conflito entre nazistas e judeus na Alemanha de Hitler. Para que haja um conflito é necessário que ocorra uma paridade relativa de forças, o que evidentemente não havia no Holocausto e também não ocorria na vigência do Apartheid na África do Sul. Os nazistas massacraram os judeus neste período negro da história, assim como a população branca sul-africana oprimiu por décadas os negros que lá viviam. A mesma situação de disparidade de forças ocorre no Oriente Médio onde um povo sem exército, sem armamento, e sem condições mínimas de vida é subjugado há 70 anos por um grupo invasor que se apossou de suas terras e tem um dos exércitos mais poderosos do mundo. Desta mesma forma, a ocupação da Palestina e o aprisionamento a céu aberto dos Palestinos em Gaza e Cisjordânia não podem se configurar “conflitos”, mas sistemas claros de opressão contra uma sociedade e um povo.

“Segundo Bobbio, 1986, pode-se definir conflito a partir de seus componentes. “Existe um acordo sobre o fato de que o conflito é uma forma de interação entre indivíduos, grupos, organizações e coletividades que implica choques para o acesso e a distribuição de recursos escassos. No caso da guerra, fala-se não do conflito pessoal, mas do conflito social.

O conflito, em algumas escolas da sociologia, é enxergado como o desequilíbrio de forças do sistema social que deveria estar em repouso, isto é equilibrado, quanto à forças que o compõe. Segundo essa teoria, não se enxerga mais o grupo como uma relação harmônica entre órgãos, não suscetíveis de interferência externa.”

O conflito pode ser compreendido como “um despertar simultâneo de dois ou mais motivos que sejam incompatíveis” (R. Minadeo) e está associado a “situações onde a capacidade da sociedade em resolvê-lo por meio de mecanismos reguladores, tais como tribunais ou estruturas sociais (por exemplo, clãs) fracassou, e as partes envolvidas no mesmo recorrem à violência.” (http://extensao.cecierj.edu.br/material_didati…/…/aula01.htm)

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