Arquivo do mês: agosto 2013

Sobre “selinhos” e Pentelhos

Selinhos-Pentelhos

Primeiramente, o “selinho” do jogador Sheik não tem nada a ver com um exercício de liberdade sexual, ou uma demonstração de apoio à causa dos homossexuais. O jogador em questão é tosco demais para ter este tipo de refinamento intelectual e postura ideológica em favor da livre expressão da orientação sexual. Mais ainda: mesmo que fosse homossexual não admitiria publicamente exatamente porque seria refém de uma cultura machista (o futebol) que não admite qualquer desvio da sexualidade “normal”. Outro jogador, do citado clube São Paulo, até tentou romper a fechadura do armário da sua sexualidade, mas foi duramente ameaçado pelo presidente do clube e foi obrigado a voltar atrás. O caso do Sheik foi um golpe publicitário, nada mais. Ele beijou o dono do restaurante do qual ela acabava de virar sócio. “Como podemos chamar a atenção para o nosso negócio?” Ora, simples… todo publicitário sabe como armar um factoide. O jogador e seu sócio fizeram isso exatamente para serem comentados, discutidos, e acabássemos procurando saber quem é o outro personagem e em qual restaurante isso ocorreu. Posteriormente, com a repercussão do caso, as declarações do jogador acabaram desnudando sua óbvia incapacidade defender a causa da igualdade. Ele é tão preconceituoso e limitado quanto todas as outras pessoas que fizeram críticas à sua atitude. Ao fazer piadinhas com o rival São Paulo trouxe seu preconceito à tona. Portanto, o “caso do selinho” deve ser entendido como um “teaser comercial”, uma propaganda em que dois atores contracenam para vender um produto. Nada tem a ver com a postura de ambos quanto à temática da homossexualidade.

Os pentelhos de Nanda Costa são um outro assunto. É claro, pelo menos para mim, que ela fez aquilo de propósito, ou pelo menos com o óbvio interesse em gerar comentários. Posso acreditar até que depilou-se – de forma mais vigorosa – imediatamente após a sessão de fotos. Também podia ela estar atuando (ou não), mas isso pouco importa. O que eu acho digno de debater (porque a questão “higiene e saúde” é tão ridícula que eu me nego a abordar) é o olhar censurador da sociedade sobre a volúpia capilar genital das mulheres e as razões pelas quais entendemos os pelos revoltos como formas ameaçadoras.

Há algo no olhar contemporâneo que criminaliza os enfeites pubianos, a ponto de aceitarmos apenas aqueles milimetricamente recortados e “aparados”. Parece a nós que eles precisam ser delimitados e “controlados”. Uma vulva despudoradamente “cabeluda” parece fora de controle, selvagem, indômita. Cortar pentelhos é uma ação cerceadora, limitadora.

O medo que a sociedade patriarcal tem do desvario sexual feminino faz com que seja necessário manter esta força sob estrito controle. Nossa censura explícita aos pelos pubianos livres parece mesmo a expressão de um desejo de apoderamento sobre a sexualidade feminina. “Tirar o pelo pubiano de uma mulher é tirar sua força, já dizia Freud, em 1932.” Como de costume o velhinho se mantém atual.

Não é a toa que fazem isso, ou “pelo menos” – trocadilho proposital – faziam, em todas as mulheres grávidas que adentram o espaço de um centro obstétrico. Tal qual contrapontos femininos do herói Sansão, raspam-se as forças femininas retirando delas o que resta de poder. Assim é que se expressa o patriarcado falocrata; pelos (de novo) detalhes.

Pelos pubianos são cortados para que assim, curtinhos e comportados, não ameacem a ordem vigente.

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Archie Cochrane e a Revolução das Evidências

Cochrane 01

Archibald Leman Cochrane foi um médico escocês, nascido em 1909 na cidade de Galashiels. Ele foi um dos grandes revolucionários da medicina do século XX ao perceber, num movimento semelhante ao que Ignaz Phillip Semmelweiss havia feito na Áustria quase 100 anos antes, que a medicina tinha uma carência crônica de coerência, método e lógica aplicada. Ao invés de mandar seus colegas lavarem as mãos, como o fez o mestre húngaro, Archie pediu que eles estabelecessem protocolos racionais de condutas médicas, baseado em provas concretas experimentais e estudos abrangentes da aplicabilidade, segurança, eficácia e eficiência dos tratamentos. Muito do que aprendeu na medicina, a exemplo de Teofrastus (Paracelso), foi ao lado dos pacientes, sentado ao pé do leito, durante as guerras em que serviu como médico.

Em uma passagem brilhante de sua história, quando era prisioneiro na II Guerra mundial na Grécia, ele solicitou ao oficial alemão que conseguisse mais médicos para ajudá-lo, pois ele era o único para um campo de detenção com mais de 20 mil prisioneiros. Ao ouvir o pedido de Archie, o oficial respondeu: “Nein! Aerzt sind ueberfluessig!” (Não!! Os médicos são supérfluos!). Quando escutou estas palavras ele ficou furioso e até escreveu um poema sobre sua indignação. Algum tempo depois, por ser dotado de um excepcional senso crítico, ele se questionou se o oficial estava sendo sábio ou cruel. Chegou à conclusão de que o alemão estava verdadeiramente correto.

Mas o que me faz emocionar na história de Archie Cochrane é a sua vívida e intensa conexão com seus pacientes, mostrando que a ciência não precisa ser afastada da vida verdadeira, em carne, osso, fibras e lágrimas. Sua visão cristalina e abrangente das práticas médicas NÃO EXCLUI as emoções e o trato direto com os doentes. Sua descrição do trabalho nos campos de concentração nazistas mostra a determinação que ele possuía de dar o melhor que sua capacidade era capaz. Mesmo diante das piores adversidades e dramas, sempre havia a possibilidade de um auxílio real e humano. A história abaixo mostra que, como dizia Max, “os eventos do nascer e morrer são pontas que se tocam“. A mesma lógica de carinho, afeto e amor que ele demonstra por aquele que se vai, nós precisamos oferecer àqueles que chegam, assim como para as mulheres que carregam a tarefa de trazer os viajantes cósmicos para a morada terrena.

Amor e compaixão são as únicas respostas.

(Fragmentos do livro “Effectiveness and Eficiency: Random Reflections on Health Services“, de Archie Cochrane)

“Outro evento em Elsterhorst teve um efeito marcante em mim. Os alemães haviam despejado um jovem prisioneiro soviético em minha ala, tarde da noite. A ala estava cheia, então eu o coloquei em meu próprio quarto porque ele parecia estar moribundo e gritando e eu não queria acordar toda a enfermaria. Examinei-o e percebi que ele tinha uma brutal e óbvia cavitação bilateral , além de um atrito pleural grave. Imaginei que o atrito era a causa da dor e dos gritos. Eu não tinha morfina, apenas a aspirina, que não produziu nenhum efeito.

Senti-me desesperado. Eu sabia muito pouco de russo na época da guerra e não havia ninguém na enfermaria que o soubesse. Finalmente, eu me sentei instintivamente em minha cama e levei-o aos meus braços. Os gritos pararam quase que de imediato e ele morreu pacificamente em meus braços algumas horas mais tarde. Não foi a pleurisia o que causou os gritos e o desespero, mas a solidão. Esta foi uma lição maravilhosa sobre o cuidado com os moribundos. Eu tive vergonha do meu erro de diagnóstico e mantive esta história em segredo”

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Cala boca…. negro!

Ela ainda não acabou em nossos corações
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Até quando vamos fechar os olhos para a realidade dos excluídos?

Estávamos, eu e meu irmão Roger, assistindo uma partida de futebol nos anos 80, em um estádio da capital gaúcha. Os chutes incertos, as pisadas na bola, a monotonia do placar não ajudavam a melhorar aquela noite de quarta-feira. Não era a ruindade dos times, era…. a fase. Talvez uma sinistrose, uma falta de conjunções estelares adequadas, ou mesmo uma falha do esquema tático.

Fossem os anos 90 e diríamos: “Tem que jogar com três zagueiros para liberar os alas”. Mais recentemente diríamos: “Também, eles fizeram duas linhas de quatro, assim não dá para furar a retranca”. Talvez alguma dessas explicações pudesse se adequar à partida. Ou tratava-se simplesmente de azar. “Mau humor da Deusa Álea”, diria Maximilian, referindo-se à Deusa que coordena os eventos inesperados e imprevisíveis.

O jogo morfético repetia lances banais, sem que a periculosidade eminente de um gol nos oferecesse um estímulo para despertar. Com os queixos apoiados nas mãos devaneávamos deixando o jogo como pano de fundo para pensamentos mais produtivos.

Subitamente, o centroavante do nosso time, um negro possante, comprido e que não tinha na velocidade o seu mais forte atributo, vê escorrer por baixo dos pés a bola que, fosse dominada, poderia produzir calafrios no guarda-balas adversário. Ouviu-se um “Uuuuu”, pelo estádio, seguido de uma série de palavrões exclamativos usuais em estádios de futebol. Coisas desopilativas, exonerativas e fundamentais na catarse coletiva do esporte bretão. Passados alguns segundos, quando já se fazia o silêncio e as pessoas voltavam a se sentar, escuto o grito de um torcedor que estava sentado dois lances de arquibancada acima de nós.

“TE MEXE… NEGRO!!”

Voltei a cabeça para ver de onde vinha, e pude ver um jovem, não mais de 30 anos, sentado ao lado de um senhor mais velho. Ele apenas sorriu debochadamente quando viu que sua exclamação chamou a atenção de muitas pessoas em volta. Olho para o meu irmão, um tanto incrédulo, e pergunto: “Ele disse isso mesmo?”

Meu irmão baixou os olhos e aquiesceu. Depois olhou para mim e disse: ”Não te mete. Fica quieto”.

Sempre que escuto histórias de racismo e violência eu imediatamente recordo dessa cena da minha juventude. Curiosamente, o que mais me chamava à atenção não era a palavra grosseira, aquela mesma que os americanos chamam de “n word”, mas o hiato violento e obtuso que a precedeu. A brutalidade de um espaço entre as palavras corrói meus ouvidos e me envergonha até hoje. A distância entre “mexe” e “negro” é que tornou essa cena violenta, estúpida e inaceitável. Para mim soava como “Mexa-se, porque você é negro!!” A ênfase na cor funcionava como uma viagem de um século e meio para trás. Lá, em muitas partes desse país, um senhor de escravos teria dito a mesma coisa, e com as mesmas palavras, e por sobre os mesmos direitos presumidos. “Mexa essa carne escura que me pertence, Negro. Não esqueça que eu te dou de comer para que trabalhes na minha terra. Anda, negro, levanta. Deixa de ser mole.

Naquele dia senti vergonha de ser branco. Mais ainda, senti vergonha de ser humano. Senti vergonha do meu silêncio e da minha cumplicidade. Senti pena do homem que a disse, mas raiva por ter me omitido. Passou, agora eu lamento.

Esses pensamentos todos vieram a minha mente ao ler um relato de parto de uma mãe negra que foi publicado no blog “Blogueiras Negras” , de autoria de Raíssa Gomes.
(http://blogueirasnegras.org/2013/08/12/negra-gravida/)

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As discussões sobre humanização do parto e nascimento eram praticamente novidade total para mim quando me descobri grávida, em janeiro de 2011. Apesar de não ter muita informação, de cara eu já sabia que queria que meu filho ou filha viesse ao mundo por parto normal. Mal sabia eu a luta que precisaria enfrentar para que isso fosse possível.

A realidade dos atendimentos nos serviços de saúde não é animadora de um modo geral, e o quadro piora quando se trata de atendimento a mulheres negras. De acordo com Alaerte Martins (2000), as mulheres negras tem 7,4 vezes mais chances de morrer antes, durante ou pouco tempo após o parto, do que mulheres brancas. Além de doenças pré-existentes e falta de acesso a serviços de saúde, o atendimento prestado às mulheres negras pode ajudar a explicar esses números.

Eu comecei a me deparar com este tipo de atendimento quando, ao sofrer um sangramento, com apenas cinco semanas de gestação, imaginei, como a maioria das mulheres em início de gravidez, que aquilo significava que eu estava perdendo o filho que tinha acabado de descobrir que teria. Corri com a minha mãe para a emergência de um hospital particular de Brasília, demorei muito para ser atendida e, quando conseguimos realizar uma ecografia, o técnico responsável pelo exame, que foi grosseiro desde o início do atendimento, me disse: “Não tem NADA aí dentro de você.”

Não sei dizer exatamente o que me fez ficar calma naquele momento. Perguntei pra ele se eu havia perdido meu filho e ele disse, sem olhar nos meus olhos, que eu nunca havia estado grávida. Algo me dizia que eu deveria desconsiderar as palavras daquele homem. Vesti-me e fui para o consultório do obstetra que me acompanhava, sem saber direito o que pensar. “Durante a consulta, o médico me disse para ficar calma e fazer exames de sangue nos próximos dias, se as taxas que indicam a gravidez continuassem subindo, eu estava grávida, senão, não.”

Realizei os tais exames, a gravidez se desenvolveu muito bem. As consultas com o médico eram sempre tranquilizadoras e práticas, como eu achava que gostava. Mas sempre me colocavam num lugar de coadjuvante da gravidez. O que interessava era o bem estar do bebê e quem sabia tudo o que eu deveria fazer, era o médico.

Já aos nove meses de gravidez, esperando Malik chegar a qualquer momento, tive uma infecção urinária. Fui a uma emergência para conseguir tratar a infecção o mais rápido possível para que não fosse necessário cair numa cesariana por conta disso. Fui atendida por uma médica, que mais uma vez não olhou no meu rosto. Fez perguntas sobre porque estava ali, eu disse que estava com cistite. Ela disse com um tom irônico (sem me olhar): como você sabe? Eu respondi que já tinha tido isso anteriormente, solicitei o exame e saí da sala. Quando voltei com o resultado do exame, ela me passou um antibiótico fortíssimo, que eu tinha certeza que não poderia tomar estando grávida. E questionei: “Doutora, mulheres grávidas podem tomar esse medicamento?” e ela disse: “Você não me disse em momento nenhum que estava grávida”. Não sei se vocês vão concordar comigo, mas eu achei que com uma barriga dessas, não seria necessário avisar que estava grávida.

Eu grávida aos 9 meses de gestação

Naquele momento não consegui nem questionar a médica. Apenas disse que achei que minha gravidez era evidente tomei a receita da mão dela e saí totalmente revoltada do consultório. Tudo o que já tinha ouvido falar, lido, escutado e vivido na minha trajetória como mulher negra militante veio com toda força. Até que ponto conseguimos ser invisibilizadas mesmo com uma barriga deste tamanho? O que me tornou tão invisível? Chorei. Primeiro por passar por isso a essa altura e perceber que a minha vida e a do meu filho não valem nada na mão de pessoas que supostamente deveriam cuidar da nossa saúde, e depois porque não consegui reagir, não consegui me defender e nem defender meu filho desse racismo atroz contra o qual eu decidi dedicar a minha vida.

Algumas semanas depois, chegou o momento de Malik nascer. Eu tinha feito muitos exercícios, caminhada, subi e desci ladeiras. Já estávamos com 40 semanas e 3 dias de intimidade e eu morrendo de ansiedade para conhecê-lo e sofrendo os “avisos” do médico de que ele não deixaria a gravidez passar de 41 semanas (a OMS orienta que uma gestação normal pode chegar até 42 semanas sem risco para mãe e bebê).

Chegou o dia da consulta, o médico estava operando algumas mães para tirar os filhos dela via cesariana, e iria se atrasar. Fui então, para o hospital que tinha uma propaganda de humanização. O site mostrava salas com bolas, música ambiente, banqueta, um monte coisas. Corri pra lá. Fui atendida por uma médica plantonista, que fez um detestável exame de toque e me disse que eu estava com 4 centímetros de dilatação, mas que eu tinha que chamar meu médico, porque meu filho não poderia nascer naquele hospital, já que ela não ia deixar de atender 18 pessoas no plantão só para fazer UM parto. E que se fosse realmente necessário eu ter meu filho ali, ela iria me submeter a uma cesariana porque não poderia ficar esperando.

Saí, mais uma vez, indignada do hospital. Meu filho nasceu algumas horas depois, num parto muito diferente do que eu havia imaginado pra gente, mas, imagino, melhor do que o que poderia ter acontecido, com o auxílio do médico que acompanhou a gestação inteira, mas que imaginei que não estaria presente no momento do parto. Enquanto sentia a ocitocina sintética nas minhas veias e quase perdi o controle da situação, respirei fundo e conversei com Malik sobre como o momento que tanto esperávamos havia chegado. Não poderia permitir que as intervenções naquele momento fossem mais fortes e importantes do que o nascimento do meu filho e o meu nascimento como mãe. Respirei fundo, e enquanto sentia o meu corpo se mobilizando para o encontro de Malik com este mundo. Quando ele nasceu, olhando tudo e chorando forte, veio para os meus braços, nos olhamos e conversamos. Naquele momento, renasceu em mim toda a força e desejo de transformação possível. Com todo o medo e a responsabilidade de criar uma criança negra no Brasil, mas com a certeza de que eu e outras companheiras podemos transformar o mundo ao nosso redor, por nós e pelas que vieram antes de nós, por todos os meios necessários.

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