Arquivo do mês: maio 2026

Em busca de um movimento popular

Esta é minha primeira coluna para o DCO desde o meu retorno. Continuo com o projeto de levar o debate dos direitos reprodutivos e sexuais para fora da bolha da humanização. É longo, mas oferece contexto para entender o que houve e o que está por vir.

Caros amigos:

“Esta é a primeira coluna que escrevo depois da minha libertação. Durante 1 ano fui interno do sistema prisional do meu estado e, para quem não sabe, meu crime foi levar adiante o compromisso de garantir às mulheres o protagonismo dos seus partos e respeitar a forma como elas decidem trazer seus filhos ao mundo. Por estes delitos jamais serei perdoado por aqueles que detém o poder sobre os corpos, mas a justiça, em boa hora, percebeu a brutal injustiça realizada, que impediu – entre outras irregularidades – que peritos pudessem se manifestar sobre o tema. Minha libertação se deve à gritante disparidade de armas no debate mas também à mobilização de ativistas que contestaram minha condenação injusta. Em meio a esse debate ocorreu a manifestação da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA – Washington) citando a mim – nominalmente – como uma vítima da perseguição realizada contra defensores de direitos humanos. Este fato notável favoreceu minha posição frente ao STJ e assim, na última terça feira, o Supremo Tribunal de Justiça anulou o júri. Saí do complexo prisional no dia 17 de abril. É importante ressaltar o papel da ReHuNa, da ABENFO e do Partido da Causa Operária (PCO), que encamparam de forma exemplar a luta pela liberdade e autonomia das mulheres. A estas instituições, nosso reconhecimento.

É do interesse de quem controla o nascimento tratar esse como um caso isolado de “má prática”. Entretanto, é evidente que esse evento está inserido em uma ação sistemática e programada de violência e perseguição contra profissionais que desafiam o paradigma tecnocrático da obstetrícia contemporânea, o qual objetualiza mulheres alienando-as das decisões sobre seus corpos e partos. Não se trata de um ataque a um sujeito irreverente e inquieto, mas contra a ideia de garantir às mulheres o direito de tomar decisões informadas sobre uma função fisiológica e natural como o parto. Mais além, se acreditamos que o parto faz parte da vida sexual normal das mulheres, aqueles que o controlam, alienando as mulheres de qualquer decisão, estão interferindo na própria manifestação da sua sexualidade. Esta é uma forma ancestral de estabelecer controle opressivo sobre as mulheres, designando a elas um papel secundário na ordem social. Por esta ótica, elas são tratadas como defectivas em essência, incapazes de determinar os próprios desejos, sempre demandando uma instância superior para tomar, por elas, as decisões relevantes de sua vida.

Este é o modelo de tutela, usado para crianças, anciãos interditados e para pessoas com deficiência mental, que são, por definição, incapazes de decidir por si mesmos. É desta forma diminutiva que a medicina enxerga as mulheres gestantes. Aqueles que negarem esta perspectiva de inferioridade essencial das mulheres, e que se opõem ao paradigma alienante na condução dos nascimentos, serão vistos como traidores do modelo obstétrico contemporâneo. Para eles se impõe primeiro o escárnio, depois o ostracismo e os boicotes e finalmente os ataques diretos, usando, quando necessário, o sistema jurídico para calar as vozes dissonantes.

Neste contexto, a verdade e as evidências científicas são, via de regra, elementos de pouca relevância na defesa dos profissionais que defendem o parto como elemento essencial na estruturação do sujeito. No meu caso, tratou-se de um bebê cujo parto ocorreu sem nenhum transtorno e que veio a óbito no hospital 24h depois de nascer, vítima de uma doença congênita, impossível de prever ou prevenir. Foi atendido em casa e enviado ao hospital em excelentes condições, tendo ficado mais de 4 horas em observação, sem medicação alguma, até ser finalmente medicado. O número de erros cometidos no hospital é impressionante, mas decidiu-se atacar o médico que aceitou atender a paciente no local que a mãe havia escolhido. Mais absurdo ainda é tratar este caso como “doloso”, algo que jamais ocorre nas centenas de óbitos que ocorrem após cesarianas, mesmo naquelas sem qualquer justificativa médica. Resta a pergunta: por que esta diferença no tratamento? Por que aqueles que defendem o parto normal são punidos, enquanto aqueles que abusam dos recursos cirúrgicos – aumentando os riscos – jamais são molestados?

Ora, porque as cesarianas e toda a parafernália médica que as acompanha – hospitais, médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, drogas, equipamentos, serviços de limpeza, advogados, administradores, etc – giram a “roda da fortuna” do capitalismo aplicado à saúde. Neste modelo todos lucram e todos abocanham uma parte do butim. Todos, menos mães e bebês, a parte mais frágil e desempoderada e que sofre diretamente com as consequências do abuso de intervenções. Mães e bebês são desconsiderados, e por isso correm maiores riscos, em curto e longo prazos, pela aventura tecnológica das cesarianas abusivas. Todavia, as mães e seus bebês ainda são impotentes para lutar contra uma máquina poderosa que os aliena de qualquer decisão. Enquanto isso, os partos normais e fisiológicos correm na direção contrária: são mais baratos, mais humanos, mais tranquilos e mais seguros. Porém, não servem à ideologia e ao monetarismo de quem os comanda. Por isso o ataque àqueles que os defendem. Atiram no mensageiro para atacar a mensagem.

Durante o meu período de reclusão uma ideia ficou sedimentada de forma muito segura em minha mente: se as mulheres não lutarem por seus direitos e por seu espaço ninguém vai lhes oferecer qualidade superior na atenção ao parto. Autonomia e liberdade são conquistas, jamais dádivas. Esperar que o parto humanizado seja bem-vindo em hospitais, que doulas e enfermeiras obstetras sejam recepcionadas com carinho e respeito e que as taxas de cesariana caiam por magia é pura ilusão. Tal conduta é o equivalente moderno à espera pelo príncipe encantado para nos resgatar da afasia. Nada disso vai ocorrer, e o mundo vai continuar a girar perversamente enquanto dormimos o sono dos ingênuos. Qualquer que seja a conquista, ela só vai ocorrer como resultado de uma luta incessante.

Por isso não resta dúvida de que não há como esperar qualquer mudança sem luta e mobilização. Para que uma revolução no parto venha a ocorrer é fundamental arregaçar as mangas. O projeto de humanização do nascimento será um movimento popular… ou não será.”

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Missiva derradeira

Fui avisado da minha liberdade há 10 dias, mas quando isso ocorreu já havia escrito uma mensagem para ser publicada. Achei a carta em meio a centenas de folhas manuscritas que guardei e estou organizando para lhes dar alguma coerência e destino. Aqui vai minha última mensagem do cárcere…

“Caros amigos:

Agradecido sempre pela lembrança, pelo carinho que vem de tantos lugares, pela ajuda financeira na luta por justiça e pelos avanços importantes na condução do nosso caso. Cito, em especial, o documento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), sediada em Washington, que reconheceu a perseguição contra profissionais que apoiam o parto humanizado e a garantia do protagonismo às mulheres, citando nominalmente não apenas a mim, mas também Zeza e meu colega Bráulio Zorzella como vítimas de uma trama para atingir os “mensageiros”, já que a mensagem — por ser escorada nas evidências científicas — é mais difícil de ser atingida.

Durante algum tempo anotei minhas caminhadas para saber o quão distante eu conseguiria chegar. Minha regra era: 1 hora de caminhada “puxada” igual a 6km. Ontem (14/4), completei 600 km de percurso nas minhas caminhadas, o que me deixa a pouco mais de 100 km de atingir minha “Santiago de Compostela virtual”. Assim, se eu tivesse feito o verdadeiro Caminho de Santiago, estaria chegando na mítica cidade de Sarria. Esta cidade fica a 115 km de Santiago de Compostela, e de onde saem os peregrinos mais “preguiçosos” (ok, e os velhinhos, as crianças e os debilitados) porque esta é a menor distância autorizada para receber o diploma de peregrino. Assim, cheguei próximo do meu destino e se tivesse mais algumas semanas de meditação compulsória teria alcançado a catedral e toda sua pompa. Quem sabe desta vez participaria do “Botafumeiro”.

Nos últimos dias, terminei a biografia de William Shakespeare e estou iniciando a do maior romancista francês, Honoré de Balzac. Você sabia que, enquanto o bardo de Stratford era vivo, suas peças foram encenadas apenas por atores homens, como na tradição Kabuki japonesa? Somente em 1660, após a Restauração, permitiu-se que mulheres participassem das montagens teatrais, 43 anos após a morte de William Shakespeare. Ou seja, durante as primeiras 5 décadas do século XVII, Romeu e Julieta, os amantes de Verona, foram encenados não por atrizes e atores como Olivia Hussey e Leonard Whiting (da versão Zeffireli), mas por uma dupla de garotos imberbes!

Tenho passado muito tempo a escrever: crônicas, histórias, observações do cotidiano e reflexões sobre o que sinto e vejo. Passo os dias fazendo infinitas analogias do microcosmo da prisão com a vida que existe fora dos muros. Neste tempo também resolvi reescrever minha novela “Pai”, dando-lhe uma nova roupagem e acrescentando um drama paralelo. Estou catalogando estes escritos para formarem um livro sobre meu percurso no universo prisional, pela perspectiva de um ativista dos direitos humanos. Sinto muitas saudades da família: dos filhos, netos, genro, nora, irmãos e amigos. Lembro-me de todos e, antes de dormir, tento pensar neles e desejar o melhor.

O mundo é feito de desafios e lutas. Algumas dessas lutas implicam reveses e derrotas. Algumas são muito duras, mas, se a causa é nobre, sempre vale a pena.

Um beijo a todos, Ric”

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Viver e Conviver

Este foi o livro que publiquei alguns dias antes de entrar no Mosteiro. Escrevi em homenagem ao trabalho silencioso e discreto do meu pai, Maurice Jones, na construção de um projeto de “espiritismo laico”, não religioso (no sentido de sectário, dogmático) e racionalista, baseado em quatro pilares: Deus (sentido cósmico), princípio espiritual, comunicação entre os planos e reencarnação. Sua perspectiva era a abolição dos moralismos, construções mundanas e temporais que servem muito mais como um torniquete mental, usado para moldar comportamentos que, em última análise, servem aos poderes constituídos.

Por desvendar a realidade do espírito, o espiritismo tem uma vocação transformadora e revolucionária, ao contrário do que se tornou: uma mera seita cristã reencarnacionista, contaminada pelo ritualismo sectário e afastada da visão científica e racional apregoada por Kardec. O livro tem duas partes: na primeira eu descrevo nossas conversas sobre vários temas, abordando de forma crítica alguns “dogmas” repetidos pela comunidade espírita e debatendo dilemas na compreensão do mundo espiritual, a partir de sua experiencia de mais de 70 anos de vivência no tema; já a segunda parte contém textos inéditos escritos por meu pai e jamais publicados em livro.

Caso seja do interesse de alguém, basta escrever para richerbertjones@gmail.com. O investimento é de 46 reais, despesas de envio incluídas.

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Os corpos

A batalha pelos partos dignos está inserida na luta pelo domínios dos corpos. De um lado a ordem patriarcal e sua sanha de dominação e controle, e do outro lado todos aqueles que percebem que a evolução para uma sociedade mais justa e equilibrada passa pela garantia do protagonismo a todos nós, sejamos homens ou mulheres. Portanto, a humanização do nascimento é um embate entre as forças autoritárias da sociedade e as propostas democráticas que pretendem oferecer liberdade de escolha ampla.

“Parto não é algo que acontece às mulheres; é algo que elas fazem”. É uma construção onde os aspectos físicos e emocionais precisam estar equilíbrio para oferecer o máximo de segurança, para assim promover crescimento pessoal e um futuro dignos aos que nascem. Mulheres caladas, vítimas de violências múltiplas e cotidianas, não podem oferecer o melhor de si para seus partos. Por isso, a proposta da humanização do nascimento passa por uma vinculação inexorável com a liberdade de escolha.

Humanizar nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos tão somente a sofisticação de uma tutela anacrônica e ultrapassada.

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Como dizer não

Uma verdade difícil de aceitar, mas essencial para oferecer reais alternativas para as mulheres. A simples fantasia de ter um parto como a Gisele não qualifica uma gestante ao parto domiciliar. É necessário muito mais do que essa conexão emocional, em especial a consciência da responsabilidade por suas escolhas.

Escolher um parto num modelo contra-hegemônico e depois abandonar a equipe que a assistiu à própria sorte não é justo nem ético. As equipes de assistência domiciliar precisam desenvolver a habilidade para distinguir quem está verdadeiramente conectado ao paradigma da humanização e quem apenas se deixou seduzir pelo modismo. Dizer “não” é uma tarefa tão difícil quanto fundamental. Muitas das complicações encontradas em paryos domiciliares, tanto para os pacientes quanto para as equipes de assistência, poderiam ter sido evitadas se o escrutínio sobre a real capacidade de enfrentar esse desafio fosse mais preciso. Na maioria das vezs nos deixamos seduzir pelos pedidos por um parto extra-hospitalar e pelo interesse expresso em fugir dos ambientes constrangedores e alienantes dos centros obstétricos. Entertanto, o deejo de se afastar das iatrogenias tão comuns no hospital não é motivo suficiente para escolher um parto em domicílio.

A razão para isso é que a pressão que vira do entorno será muito intensa, e apenas as perssoas que têm um preparo emocional adequado conseguirão suportar os revéses. o problema reside em descobrir a verdade que se esconde no espaço que separa as palavras, o que não é dito e não é revelado. E exatamente aí está uma das habilidades mais preciosas dos cuidadores: a leitura dos sentimentos de quem os procura.

“Se o seu instinto, quando qualquer coisa dá errado, é procurar alguém para culpar ou processar, o parto comunitário provavelmente não é para você. Assistentes independentes não têm as máquinas jurídicas dos hospitais para protegê-las de servirem como bodes expiatórios. Obstetras são para patologias. Hospitais são para pessoas que querem terceirizar a responsabilidade. Essa é simplesmente a realidade. Parteiras fracassariam se aceitassem todas as pessoas de baixo risco.” — Ashley Nicole

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