Arquivo do mês: setembro 2015

Pra não dizer que não falei de flores

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Doula NÃO é uma profissão, e talvez nunca seja. Uma profissão envolve regras, modelos, controle externo, conselhos de classe, punições, etc… Não sei se a “fraternidade instrumentalizada”, no dizer de Max, se adaptaria a este tipo de regramento. Seria possível a profissão de “amigo”? Poderíamos fazer cursos para que a amizade fosse mais sólida, mais honesta, consistente? Podemos regrar a compaixão e o carinho? “Olha, recomendamos massagens na região lombar até cinco minutos, em séries de no máximo cinco insistências. As evidências nos dizem que…”. Não acho que a subjetividade de um parto possa se adaptar a este tipo de protocolo.

Bem, se a doula não é uma profissão, ela é o quê?

Ao meu ver a doula é uma FUNÇÃO, que pode ser exercida por muitas pessoas e por várias profissões. A mãe pode ser, a irmã, a cunhada e até o marido. Todos os grandes estudos internacionais que atestam a importância e a qualidade da assistência prestada por doulas foram feitos com pessoas que exerciam essa função sem nenhum preparo prévio além da sua ligação afetiva com a gestante.

Ok, mas o marido pode ser doula? Sim, até o marido. Entretanto, mesmo sabendo que ele “pode” exercer a função de doula eu sempre digo que não é justo com ELE pedir para que tome conta dessa tarefa. E isso ocorre porque os maridos também estão diante de um processo transformativo difícil e penoso que é tornar-se pai. Existe para eles uma tensão muito grande, junto com medo, apreensão e angústia. Pedir a eles que exerçam essa função pode ser desgastante e complexo. Em outras palavras, os maridos também precisam ser “doulados“, em muitas circunstâncias.

Se a doula é uma função ela pode ser exercida por qualquer pessoa que tenha o desejo de ajudar e que tenha consciência dos LIMITES de sua atuação. Mas é claro que os LIMITES são as questões mais tensas no debate sobre as doulas.

Entender limites é olhar através de uma descrição do que a doula não é, a partir do que ela NÃO faz.

Uma doula não é uma profissional de saúde. Ela NÃO realiza nenhuma ação de enfermagem ou médica.

NÃO verifica pressão,
NÃO avalia apresentação ou dilatação do colo uterino,

NÃO verifica batimentos do bebê,
NÃO mede a barriga da paciente,
NÃO avalia bem estar materno ou fetal,
NÃO atende parto; atende gestantes em suas necessidades emocionais e físicas.

É claro também que uma médica obstetra, uma obstetriz ou uma enfermeira podem exercer o papel de doulas. Entretanto, se elas estiverem nessa função OUTRA PESSOA deverá estar ocupada com a assistência ao parto, sob pena de sobrecarregar a(o) profissional que presta o atendimento. Uma das características mais importantes das doulas é a possibilidade de que os profissionais se ocupem exclusivamente da atenção técnica do parto, deixando as ações de relaxamento, tranquilização, alimentação, movimentação etc.. com as doulas.

Para além das doulas nós temos os profissionais que são regulamentados para a atenção ao parto: médicos obstetras, médicos de família, enfermeiras e obstetrizes. São os “skilled attendants” que tanto exaltamos. As funções deles são razoavelmente claras: somente os médicos podem atender desvios da normalidade, as patologias e as cirurgias, e aos enfermeiros e obstetrizes cabe a atenção ao parto “eutócico”, sem anormalidades perceptíveis.

Doulas exercem uma função para a qual existem muitas técnicas no sentido de facilitar o bom posicionamento fetal, assim como acupressura, hidroterapia, massagem, ritmicidade etc, mas a excelência do seu trabalho está na transferência afetiva que ela pode oferecer às gestantes com a sua presença. Mesmo sem qualquer técnica ou qualidade especial a doula, ainda assim, terá uma grande ação para facilitar o trabalho de parto e o parto. As trocas emocionais que são produzidas pela presença da figura amorosa e carinhosa da doula são a chave para entender os resultados positivos da sua utilização. As técnicas, todas elas, vem como um valioso acréscimo.

Desta forma, não há porque confundir as ações das doulas com a de qualquer profissional da saúde na atenção ao parto. Doulas não fazem trabalho redundante e não tiram o lugar de ninguém. Elas vem se somar às equipes médicas e de enfermagem para que a paciente se sinta acolhida em TODAS as suas necessidades.

“Doulas são como flores de cactus brotando da aridez desértica da tecnocracia” (Max)

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Empatia

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A padronização da empatia.

“Sem a construção única, indizível e essencial da conexão nenhum regramento será possível para o contato terapêutico. Não é possível dissimular o vínculo mediado pelos sentimentos de empatia. Quando o gesto se contrapõe ao coração, o primeiro se plastifica, e o segundo desaparece.” (Max)

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Testosterona

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Sei que sou odiado por isso, mas concordo com a visão crítica que Camille Paglia tem do feminismo contemporâneo. Sua visão ácida e contra hegemônica me atrai por oferecer um contraponto ao lugar comum da visão feminista corrente.

Entretanto, existe um outro aspecto que considero importante, apesar de não ter sido tratado por ela nesta breve entrevista: a marginalização dos meninos na escola, prensados entre as dificuldades da formação da identidade masculina e uma educação feminina, gerenciada por mulheres e para meninas.

Entrevista com Camille Paglia – “As Mulheres Venceram”

Quem é homem, e sobreviveu à escola, sabe que nossas válvulas de escape eram as aulas de educação física, os combates épicos no futebol de “areião“, os gracejos desafiadores nas aulas, as brigas “na saída” e a baderna. O resto era o estímulo incessante a um comportamento feminino, dócil, cooperativo, educado e submisso aos poderes e autoridades.

Não se constrói uma sociedade que almeja mudanças colocando estes valores acima de todos os outros. Existe algo da insaciabilidade testosterônica que falta na educação tradicional. Há uma falha em reconhecer e trabalhar com a impetuosidade desafiante dos meninos, o que gera ressentimentos e inconformidades.

Se o seu filho nunca causou confusão na escola talvez você precise saber qual a razão de tanto conformismo.

A escola sempre ofereceu uma educação de mulheres e para meninas. E sempre foi machista. Portanto, dizer que a escola é “machista” e é para “meninas” é um falso dilema. Se as mulheres são oprimidas por uma educação machista (e o são, aparte da proteção que também recebem) isso não invalida que essa educação é para elas, levada a cabo por mulheres em sua imensa maioria, e que desconsidera as características masculinas.

O mundo não se explica apenas pela ótica da opressão feminina.

Esse modelo obstruir EM ESPECIAL a natural inserção testosterônica masculina, emasculando a sua força criativa.

A escola oferece uma educação em que os valores da feminilidade são exaltados e os da masculinidade reprimidos. É isso apenas o que digo, e nesse ponto estou de pleno acordo com a autora. Quem é MAIS prejudicado não é objeto da minha análise. A escola sofre as mesmas constrições do patriarcado como qualquer outra instituição humana, mas é – ao contrário de outras como a Igreja ou a medicina – supressora das características masculinas. E os meninos se ressentem por não terem uma educação que auxilie na resolução de seus conflitos e que não os valorize pelo que são. Não é à toa que a evasão escolar é MUITO maior entre meninos do que entre meninas. Eles vão “procurar a sua turma”.

Camille Paglia fala de masculino e feminino. Fala da cultura gay também. Essas generalizações são didáticas e procedem. Quando se diz que a competitividade é mais masculina também generaliza, mas está correta. A educação, insisto, é demasiado feminina e não precisava ser assim. Vale a pena comentar este ponto em particular das ideias de Camille porque acho que ela está correta. O isolamento feminino que ela aponta – pelo desaparecimento dos grupos de mães nas tribos e comunidades – é ainda mais marcado e cruel no parto e maternagem. O círculo de apoio feminino que as mulheres sempre receberam terminou com a “emancipação” feminina. Agora é “cada uma por si mesma”. As tarefas tradicionalmente femininas ficaram ainda mais pesadas, como gestar, parir, amamentar e maternar.

Os meninos são vítimas de um modelo que tem a educação feminina como paradigma. E também concordo que a performance superior das meninas na escola é uma “vitória de Pirro“, pois não se traduziu até agora em uma equalização nas relações de gênero. Ainda há muita coisa a ser feita nesse sentido.

Quanto a “ajudar” nas tarefas domésticas… ora, sejamos maleáveis. Estas foras as funções tradicionais das mulheres até duas gerações atrás. A ideia de dividi-las é muito recente. Entretanto, nada ouço sobre a divisão de tarefa dos lixeiros, operadores de britadeira, estiva, mergulhadores de profundidade e frente de combate. Se vamos exigir equidade, é para todos os lados. O que Camille saliente é que as mulheres venceram neste aspecto ideológico, mas é fácil perceber que o mundo ainda é regido pelo patriarcado, mesmo cambaleante e decadente. É disso que o texto dela trata, e não da necessidade de proteger as mulheres contra a violência.

Os homens querem mais participação das mulheres nas tarefas que matam milhares de homens todos os dias, como a polícia e o exército. É muito pesado para eles. Trocamos tal peso pela limpeza da louça suja e pela arrumação da casa.

Para debater a questão dos valores do masculino e do feminino você precisa concordar com a existência de valores culturalmente associados ao feminino. Caso contrário o debate torna-se estéril. Cooperação, docilidade, aceitação, afetividade em contraposição à competição, disputa, imposição, firmeza e luta.

As mulheres nascem nesta posição delicada no jogo de poderes porque ficam gravidas e frágeis. Só agora é que podemos igualar isso, através da tecnologia. O Velho Testamento, em especial, marca o surgimento teológico do Patriarcado. Entendam que isso está escrito na Bíblia para marcar uma sociedade com a “virtude varonil“. Podemos achar errado ou estranho tais conceitos hoje, mas há 5 mil anos os povos que assim se organizaram – através da força inegável do patriarcado – foram os vencedores, e foram esses povos que geraram mulheres de quem VOCÊ MESMA é descendente. Os povos mais igualitários, foram TODOS dizimados ou subjugados.

O patriarcado era uma necessidade vital para um mundo que acabava de ser apresentado à posse e ao sedentarismo. Suas descendentes que viviam naquela época JAMAIS aceitariam um mundo IGUAL !!!!! Elas precisavam de filhos e maridos fortes para protegê-las para que, assim seguras, pudessem parir seus filhos. Não há nenhuma superioridade moral em não fazer guerras. Se isso fosse verdade os paraplégicos seriam moralmente superiores, pois nunca vi um assaltando bancos ou matando gente. Ora… no mundo em ebulição na virada do neolítico era fundamental esta divisão de tarefas para garantir a posse da terra. Achar que a Bíblia desejava “oprimir” as mulheres por pura misoginia não encontra respaldo na ciência. A misoginia é a consequência de um mundo que precisa ser regido pela FORÇA, e não pela graça, charme ou beleza.

Com este tipo de entendimento mais abrangente do sistema de poderes sociais fica claro entender que as mulheres não nascem submissas, e nem os homens opressores. Elas nascem mais frágeis por causa do ciclo gravido-puerperal, e ISSO (e não a maldade dos seus maridos) as torna mais suscetíveis às ameaças. Todavia, como são importantes matrizes, as sociedades sempre as protegeram. O patriarcado se organizou nesse sentido: manter a terra e proteger as mulheres. A opressão é a consequência disso, e não sua origem. Mais uma vez convido a todos que se interessam pelo tema a ler os últimos achados antropológicos que confirmam esta ordenação clara sobre os modelos patriarcais, inclusive no que diz respeito às culturas primitivas pré agriculturais, que não eram opressoras mesmo na vigência da superioridade física dos homens.

E você sabe por quê? Porque os homens amam suas mulheres e são amados por elas. É por isso que o patriarcado vai acabar, pelo amor que eles sentem uns pelos outros. De nada vai adiantar o discurso de ódio contra os homens, e nem a misoginia violenta e degradante: a natureza é sábia e vai equalizar a sociedade baseando-se nesse princípio de desejo e amor.

O que me deixa triste é ver que as agressões contra as mulheres recebem o justo e firme combate da sociedade, mas o ódio aos homens e o desprezo pelos valores masculinos – explícito ou implícito – é considerado normal e mesmo exaltado como algo positivo e construtivo. Ódio não constrói nada, mas quando é que vamos incorporar essa verdade na nossa prática?

Falsa Simetria” é um mantra feminista. Ele equivale ao “holocaust card” que eu falei anteriormente. Quando se reclama que Israel mata, despedaça e humilha covardemente os palestinos, imediatamente um oportunista aparece com a “cartinha do holocausto” e coloca na mesa, imaginando ter em mãos as cartas definitivas que terminam qualquer debate. “Mas como queres falar de massacre contra mulheres, crianças, escolas e hospitais na Palestina, se os judeus foram massacrados na segunda guerra mundial em mais de 6 milhões. Isso é uma falsa simetria. Essas mortes em Gaza não são NADA comparadas ao que sofremos”. Com esse discurso QUALQUER arbítrio, assassinato e barbárie fica automaticamente justificado e perdoado.

Algumas feministas sempre usam esta retórica vitimista (mas que lucra com sua posição sofredora) para justificar o ódio e o preconceito contra o masculino e os homens, usando o fato (verdadeiro e digno de ser combatido ao extremo) de que muitas mulheres são discriminadas, mortas, abusadas e sofrem preconceito. Usam esse fato horroroso não para angariar simpatizantes – inclusive os poucos homens verdadeiramente dispostos a combater as amarras do patriarcado – e combatê-lo, mas para JUSTIFICAR os SEUS PRECONCEITOS (contra os homens serem doulas, contra homens terem guarda compartilhada, para exercer a nojenta alienação parental, etc…) dizendo que “isso é mimimi de macho, quem sofre mesmo somos nós”.

No campo do trabalho existem tarefas MORTAIS (o que faz com que a expectativa de vida dos homens seja MUITO menor do que a das mulheres em, qualquer lugar do mundo) que historicamente os homens realizaram, mas que as mulheres ainda continuam achando que “é natural que eles carreguem esse peso, afinal, eles são homens“. Quando uma mulher diz para o marido ir ver “que barulho foi esse na garagem“, isso é natural, afinal nesse EXATO momento (de perigo) ele é (oportunisticamente) o “homem da casa“. Mas experimente ver um marido dizer para uma mulher ir lavar a louça, afinal, essa é a “tarefa da mulher da casa“….

Ah, é mimimi de macho, não é? Mas… se as  verdadeiras defensoras da igualdade  de gênero (ou da equidade, se preferir) deveriam combater os preconceitos em TODAS as frentes, e não apenas naquelas que lhes oferecem vantagens.

Por último, eu acho que o diferencial biológico feminino torna as mulheres psicologicamente e culturalmente distintas dos homens, pois cultuam valores e modelos diferentes na tradução do mundo. Como dizia meu colega Max, “Carregar um filho no ventre não é uma tarefa impune“. Há um preço a pagar (e isso nada tem a ver com tarefas domésticas) e uma consequência: o surgimento da dor, da angústia e do amor.

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Slow Medicine

 

Marco Bobbio

 

Marco Bobbio e o “Slow Medicine”…

Faz algumas semanas eu publiquei uma série de mensagens sobre um autor que eu havia recentemente conhecido chamado Marco Bobbio e que liderava em seu país, a Itália, uma campanha semelhante a um movimento que existe nos Estados Unidos chamado “Choosing Wisely” que tem como mote principal a ideia de que “Fazer mais não é fazer melhor“. A proposta, que agora percebo se espalhar pelo mundo todo, é a “suavização” da prática médica diminuindo os exames, pesquisas e procedimentos em todas as áreas que não se mostram positivos e que podem inclusive induzir ao erro ou produzir dano.

Por uma coincidência maravilhosa o professor Bobbio esteve palestrando hoje ao anoitecer para um seleto grupo de não mais de 15 pessoas no hospital que eu atendo. Depois de uma maratona de 3 partos e mais de 24 horas sem dormir, fazendo “plantão” no hospital, ainda tive energias para escutar as suas palavras.

O que eu mais senti na palestra do Dr Marco Bobbio, além da necessidade urgente de modificar o modelo de atenção à saúde no mundo inteiro, foi a importância que ele – um cardiologista – percebe na atenção ao parto como um dos exemplos mais gritantes do uso excessivo de exames, diagnósticos e tratamentos. Ficou claro que o parto – pelas questões de gênero envolvidas – é um dos campos da medicina mais evidentemente afetado pela tecnocracia.

Por outro lado, outro sentimento se apossou de mim. Eu senti um orgulho muito grande do movimento de Humanização do Nascimento no Brasil que faz “slow medicina” (termo que está sendo difundido para uma medicina “low tech – high touch”) há mais de 22 anos através da ReHuNa. Entretanto, entre o discurso histórico da ReHuNa e os propagadores da “Choosing Wisely” existem diferenças marcantes e que são muito evidentes quando se observa a origem, percurso e visão de futuro que cada uma dessas proposta carrega e divulga.

O que se percebe no modelo proposto pelo Dr Marco Bobbio é que o “Choosing Wisely” americano ou a sua vertente italiana “Fazer mais não é fazer melhor” é que ainda são propostas medicamente centradas, iatrocêntricas e que ainda se baseiam em um modelo autoritário mesmo quando a proposta é produzir uma “horizontalização” da atenção. Muito se fala em MBE – Medicina Baseada em Evidências – como condutora principal das ações, mas ainda não é tão marcante a ênfase sobre os paradigmas, as mitologias contemporâneas (como a transcendência tecnológica) a pressão econômica e a violência das grandes corporações farmacêuticas como condutoras de ações na área da medicina. As ideias desses movimentos até abrangem a “medicina defensiva”, e o medo dos processos como propostas de hipermedicalização, mas não tangenciam de forma marcante e clara as outras forças sociais que impulsionam os tratamentos e a diagnose para um caminho diverso da excelência.

O que nós no Brasil temos como grande virtude é que a Humanização do Nascimento, durante os últimos 22 anos, nunca se deixou engolir por um discurso positivista, medicalizado e organicista. Pelo contrário: a Humanização do Nascimento iniciou como um movimento social e até hoje se mantém assim. Este discurso jamais foi cooptado pela Medicina, nem por outros ramos do saber, até porque é da sua origem entender que as verdadeiras mudanças só podem ocorrer pela base, e não por deliberações cientificamente determinadas por notáveis profissionais da saúde, portadores de verdades inquestionáveis. A característica única e marcante das nossas pautas – que mescla a Saúde Baseada em Provas com a ideia de um movimento social de mulheres consumidoras, parceiros(as), gestantes, psicólogas, médicos(as), enfermeiras(os) etc – é o que nos oferece singularidade e força.

Tive uma breve oportunidade de conversar com o Dr Marco Bobbio após a sua brilhante exposição, e pude lhe dizer da satisfação de ver este movimento crescer no mundo inteiro. É fundamental observar o momento de crise – ética, profissional, econômica – da Medicina para elevar a sua qualidade. Falei-lhe por poucos minutos da ReHuNa e seu compromisso com partos humanizados e recebi dele a chancela de que estamos no caminho correto. Disse-lhe ainda: “Sem que procuremos uma mudança paradigmática profunda na sociedade, este movimento não irá a lugar algum. O abuso de procedimentos não é uma crise médica, é uma crise da cultura, e é sobre ela que devemos agir de forma mais intensa e decisiva“.

O professor concordou com minhas palavras, apertou fortemente minha mão, e sorriu…

Arrivederci maestro!!!“, disse eu. Um dia para ficar na memória.

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Imigrante

Imigrante

 

Imagine a seguinte situação hipotética. Em função de erros na condução da minha vida pessoal e familiar, por culpa minha e do contexto em que vivo, sofro uma perda financeira catastrófica e fico incapacitado de manter-me no local onde sempre vivo com minha família. Essa é uma “pequena”tragédia familiar muito comum no mundo contemporâneo. Felizmente meu irmão, apiedando-se da minha situação dramática, me convida a morar em sua casa. Para lá me dirijo contrariado, levanto minha família e minhas frustrações, pois se pudesse desejaria continuar na minha casa. Infelizmente isso não é mais possível. Ela foi vendida, perdida, confiscada ou nem existe mais, e no seu lugar restam escombros.

Na casa do meu irmão é tudo limpo e chique. O ônibus pára na porta. Próximo de lá existe uma boa escola para os meus filhos. O bairro é seguro e tranquilo. Meu irmão e minha cunhada me tratam bem; minhas sobrinhas idem. Tudo parece bom.

Os moradores do prédio não falam comigo, mas apenas porque não me conhecem. O porteiro pediu para que eu subisse pelo elevador de serviço, mas expliquei que estava morando ali, no apartamento do meu irmão. Ele parece ter entendido, mas depois eu soube que ele ligou para confirmar com minha cunhada. Ele é uma boa pessoa, apenas se enganou.

Ontem meu irmão ralhou com sua filha por ela ter comido todo o doce que estava na geladeira, mas ela explicou que foi meu filho quem o comeu. Fiquei em silêncio e constrangido, mas meu irmão tentou dizer que se enganou e que, afinal, não havia problema algum. Meu filho chorou envergonhado. Minha mulher também ficou triste ao ouvir um comentário de que a conta de luz está mais alta ultimamente.

Precisei ligar para conseguir um emprego e, como meu irmão e minha cunhada não estavam em casa, pedi licença para a minha sobrinha de 7 anos para usar o telefone . Depois me senti envergonhado por ter feito isso. Humilhado seria um termo melhor.

Sou bem tratado aqui, pelo menos na minha frente todos são gentis e educados, mas sei que as pessoas falam pelas minhas costas. Os serviços são bons, e a escola é próxima. Minha mulher está bem adaptada. As crianças estão seguras. Como poderia ousar reclamar?

Entretanto – sei que é complexo entender – aqui eu sou convidado e minha presença é tolerada, pelas circunstâncias. Sou bem recebido no prédio, mas algumas mulheres mais ricas de lá simplesmente viram a cara para mim no elevador.

Se eu pudesse abriria mão de todas as aparentes vantagens que tenho para ter minha casa de volta. Não queria ter o constrangimento recidivante de não ser dono de nada, de não ser igual às pessoas com quem convivo no lugar onde moro. Ter autonomia e liberdade, ser reconhecido como um igual e com os mesmos direitos, não tem preço.

É possível que isso seja uma especial sensibilidade minha. “Frescura” diriam alguns, dizendo ser imoral reclamar com a barriga cheia. Já ouvi dizer de muitas pessoas que dão de ombros quando escutam “vá para sua casa”, “você não é bem vindo“, mas isso para mim tem uma sonoridade destrutiva.

Eu sei a dor de não ser dono do chão em que se caminha.

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