Arquivo do mês: janeiro 2013

Tragédia de Santa Maria

Nesse momento de dor e sofrimento, em que estamos consternados e tristes pela tragédia que vitimou tantos jovens em Santa Maria, eu fico feliz em escutar minha filha falando da sua especial maneira de analisar o que ocorreu. Infelizmente muitas pessoas gastam seu tempo no justiciamento, na raiva, no ódio e com pensamentos de vingança. O que aconteceu para os proprietários dessa casa noturna, assim como para o jovem da banda (cujos nomes eu não quero saber), TAMBÉM foi uma tragédia, e nem os mais empedernidos e raivosos fascistas acreditam que eles, por algum momento, imaginavam que isso pudesse ocorrer, e muito menos que tinham o desejo de carregar o peso de tantas mortes pelo resto de suas existências. Mesmo reconhecendo como fundamental a apuração de TODOS os fatos relevantes deste caso, o que inclui a adequada punição dos culpados, o desejo de linchamento que eu percebo em muitas pessoas (inclusive jornalistas) é lamentável.

Pior ainda: quanto mais tentamos colocar as culpas nas pessoas (pois tal atitude parece nos confortar de alguma estranha forma) menos lições positivas tiramos do caso. A tragédia de Santa Maria precisa ser vista como um marco, a partir do qual as condições que lá estavam presentes não se repitam. Enquanto Fulano e Sicrano forem os culpados não se torna necessário olhar para dentro de nós e descobrir o que precisa ser mudado, o que está equivocado, inclusive nas nossas próprias atitudes.

Bebel me disse: “Perdemos tempo demais em atitudes ruins, pensamentos raivosos, disseminando as “energias negativas” do ódio, rancor e mágoa. Não vejo razão em odiar alguém em meio a tanta dor, e estes sentimentos jamais construíram algo de bom para a humanidade. Os responsáveis devem ser punidos pela lei, mas apenas para que suas culpas (onde houver) sejam reconhecidas e nos ajudem a evitar mais desastres, e não pelo prazer de ver mais gente sofrendo.

Nenhum ódio é capaz de trazer essas vidas de volta. Nenhum linchamento, físico ou moral, poderá nos ajudar. Espero que, entre as lições que a tragédia possa nos dar, o perdão e a compreensão possam estar presentes, tanto quanto a necessária e indispensável justiça para aqueles que cometeram erros.

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Entrevista

 

Entrevista com o médico obstetra Ricardo Jones, Janeiro/2013

O termo “parto humanizado” ainda é desconhecido por boa parte das mulheres. Então, do que se trata o parto humanizado? No que ele se difere do “parto normal”? 

Parto normal normalmente se refere a parto vaginal, aquele que ocorre de acordo com a programação normal do processo de parturição, fisiologicamente estabelecido que culmina de forma o mais natural possível. Usamos o termo “parto normal” para contrapor à cesariana, ou nascimento cirúrgico. O parto “natural” normalmente é aquele que também chama­mos de “humanístico”, ou “parto humanizado”.  O conceito de parto humanizado passa pelo entendimento da mulher como condutora do processo, colocada na posi­ção de protagonista, e não na posição objetual e coisificada na qual é frequentemente colocada na atenção obstétrica cotidiana. Sem a restituição do protagonismo à mulher todos os esforços na atenção ao parto poderão apenas sofisticar a tutela a ela imposta. Além disso, o parto humanizado se es­mera em oferecer às parturientes uma assistência baseada em evidências científicas atualizadas e um ambiente propício ao estado alterado de consciência que ocorre no transcorrer de um parto, principalmente pela ação do coquetel de hormônios que são produzidos durante o processo. A humanização do nascimento é uma corrente de pensamento que existem no mundo inteiro e que se propõe a dignificar o parto combatendo as interferências desnecessárias no processo fisiológico.

Sobre as intervenções, como elas são vistas pelos médicos humanizados? Existem algumas que são aceitáveis, ou o parto humanizado não admite nenhuma delas?

Intervenções no âmbito da assistência ao parto podem salvar a vida de ambos: mãe e bebê. Entretanto o abuso destas práticas está acima de qualquer consideração. É inegável que esta elas deveriam ser usadas em casos extremos, mas inegavelmente são utilizadas por razões outras além dos possíveis benefícios para a paciente. Entre as intervenções usadas de forma abusiva destaca-se a cesariana. Esta cirurgia de grande porte deve ser evitada dentro dos limites de segurança, pois aumenta consideravelmente os riscos para mães e bebês. Os números variam nas centenas de estudos que avaliam os riscos e be­nefícios das modalidades de nascimento, mas todos são categóricos ao afirmar que, de maneira inequívoca, a cesariana acrescenta riscos ao processo, por ser uma ci­rurgia e invadir a intimidade do corpo. Além dos riscos maternos, podemos afirmar que a cesariana dificulta grandemente a amamentação por atrapalhar o processo de vinculação inicial entre mãe e bebê imediatamente após o nascimento, naquilo que os pesquisadores Klauss e Kennell convencionaram chamar de “A Hora Dourada”. Além da cesariana sabemos que qualquer intervenção ao processo natural e fisiológico do parto apresenta riscos inerentes, pois não existe nenhum substituto para o nascimento natural que seja mais seguro do que o processo construído nos milênios de adaptação. Entretanto, em situações patológicas, algumas intervenções corrigem trajetórias perigosas para o binômio mãe-bebê. A utilização de drogas como o sulfato de magnésio em casos de pré-eclâmpsia (pressão alta no final da gravidez) é um caso exemplar. Antibióticos para o tratamento de infecções maternas, o uso de um hormônio, a oxitocina, para corrigir transtornos de contração do útero, assim como outras intervenções, podem trazer segurança e auxiliar no processo de parto em casos selecionados. Nossa crítica será sempre direcionada ao abuso de tecnologia aplicada ao parto, e não contra a essência da tecnologia aplicada em benefício do homem. O parto normal é o melhor aprendizado possível para os dilemas e dificuldades de criar um bebê pleno de necessidades e sequioso de aten­ção. Diante do questionamento frequente sobre os limites da utilização de tecnologia, eu estabeleci uma proposta de as­sistência humanizada ao nascimento que se assenta sobre um tripé conceitual:

  • O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisti­cando a tu­tela” imposta durante milênios pelo patriarcado.
  • Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de “pro­cesso bi­oló­gico”, e alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igual­mente valorizados, e suas específicas necessi­dades atendidas.
  • Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, deixando claro que o mo­vimento de “Humanização do Nascimento”, que hoje em dia se espalha pelo mundo in­teiro, funciona sob o “Império da Razão”.

Quais são as vantagens de um parto via vaginal tanto para a mãe quanto para o bebê?

Primeiramente, não existe nenhuma “desvantagem” em oferecer às mulheres o que existe de mais moderno em termos do que a ciência médica nos fala da segurança aplicada ao parto. O parto humanizado tem suas condutas “amarradas” aos protocolos mais atuais no que diz respeito à segurança e à proteção do nascimento, entendendo-o como elemento vital na estruturação do sujeito. Uma postura mais ativa e participativa prepara a mulher, e por consequência o casal, para os dilemas da maternagem e os cuidados com o bebê. Como diria a antropóloga Barbara Katz-Rothman, “Parir não é apenas fazer bebês, mas fazer mães capazes e competentes para enfrentar as dificuldades da maternidade”. Entre­tanto, a humanização do parto pressupõe uma participação efetiva do casal em todas as decisões. Desta forma, com a adoção de um modelo centrado na mulher, a alienação que frequentemente observamos nos partos institucionais no Brasil tende a diminuir, pois a gestante e seu companheiro passam a ser participantes do processo, ao in­vés de meros espectadores. A responsabilidade passa a ser compartilhada. Se é óbvio que os profissionais continuam a ser responsáveis pela parte técnica, é também verda­deiro que o casal passa a ter uma posição muito mais importante na tomada de deci­sões. É deste debate entre a proteção do protagonismo da mulher e a proteção dos profissionais que surgirá um modelo mais eficiente e seguro. Muitos países estão adiantados nesta discussão, que precisa conclamar os profissionais que atendem nascimentos, o poder público, o judiciário, os homens e, evidentemente, as próprias mu­lheres.

Assunto espinhoso, até imagino a resposta, mas é preciso fazer o papel de “advogada do diabo”: os médicos e ativistas pró parto humanizado são “contra” a cesárea (é a imagem que muita gente tem)? Como eles se posicionam em relação a essa cirurgia?

Quando se estabelece uma crítica contra o abuso de uma atividade é natural que muitas pessoas pensem que ela se refere ao “uso” desta conduta. Entretanto, o movimento de humanização do nascimento surgiu no mundo inteiro como uma crítica à prática inadequada, excessiva e abusiva destas intervenções sobre o nascimento. Jamais os ativistas da humanização se posicionaram contra um procedimento que pode salvar vidas, tanto de mães quanto de bebês. As nossas queixas se direcionam ao excesso de cirurgias, drogas e outros procedimentos utilizados sem uma devida investigação quanto aos potenciais malefícios à mãe e ao bebê. A cesariana é uma operação maravilhosa, capaz de resgatar para a vida mulheres que, sem ela, estariam condenadas à morte. Todavia, o abuso de sua realização vem evitando a necessária queda na mortalidade materna mesmo em países desenvolvidos como os Estados Unidos. Questionar os excessos na sua utilização é fundamental para implantar boas práticas e acrescentar segurança no nascimento.

O que o Sr. diria para uma mulher que prefere cesárea porque tem muito medo de parir naturalmente? 

Minha postura diante dessa escolha é a de acolher seus medos e tentar trabalhar com eles. Entretanto, negar à elas a possibilidade de escolher é que me parece inaceitável, mas poucas mulheres se aventuram a falar sobre isso, e preferem desfiar justificativas intermináveis. O problema para mim nunca foi mulheres escolherem cesarianas por medo de sentirem uma dor temida e imaginada, mas quando essa “dor” é estimulada por práticas arcaicas, pela solidão, pelo uso exagerado de medicamentos, pelo afastamento da família e pela absurda proibição da presença de doulas em alguns hospitais como vimos ocorrer ultimamente. Para estas mulheres acena-se com a cesariana salvadora, e para elas parece que esta é a única opção digna existente. Se o parto normal fosse imposto às mulheres eu também sairia às ruas como defensor das escolhas informadas. Infelizmente o que se lê nos debates sobre a cesariana ainda é a ladainha desagradável e anacrônica do “menos mãe” e as explicações enfadonhas para cesarianas realizadas, na sua maioria injustificáveis à luz da Medicina Baseada em Evidências.

Em que momento um parto humanizado pode virar uma cesárea? Essa cesárea pode ser “humanizada”?

Um parto normal poderá virar cesariana em qualquer momento em que os riscos de manter a assistência natural e fisiológica do parto suplantarem – de forma inequívoca e clara – os riscos inerentes de uma cesariana. Esse momento deveria ser de aparição muito mais rara do que ocorre na modernidade. Muitas vezes os médicos agem por medo e despreparo, realizando um procedimento invasivo e perigoso por terem medo das possíveis consequências para si mesmos do uso da paciência e do bom senso. Não consideramos que uma cesariana possa ser “humanizada”, pois, por ser ela uma cirurgia de grande porte e controlada por profissionais médicos, ela não é “feita” pela paciente, como um parto normal. Por essa razão, por lhe faltar o necessário protagonismo restituído à mulher, ela não pode ser chamada de “humanizada”. Entretanto, ela pode ser digna, respeitosa, afetiva, correta, humana, gentil e embasada em evidências, desde a sua indicação (alicerçada em evidências) até o último ponto realizado no abdome.

Em linhas gerais, por que hoje é tão difícil conseguir um parto humanizado?

Temos poucos profissionais com coragem suficiente para serem questionadores, críticos, estudiosos e desejosos de defender a integridade – física, psicológica, emocional – de suas pacientes, correndo o risco de serem desconsiderados por seus pares e tratados como hereges. Além disso, na vigência da “mitologia da transcendência tecnológica”, muitas pacientes ainda acreditam na superioridade da tecnologia sobre a natureza, mesmo que tenhamos infinitos estudos demonstrando o contrário. Para mudar a forma de nascer precisamos repensar nossos valores culturais e nossas crenças, e tal empreendimento demanda tempo e paciência. Tais valores de uma sociedade não se alteram por decreto; são modificados pela lenta erosão de crenças antigas, substituídas por modelos que explicam melhor a realidade, num infindável embate entre teses digladiantes. No futuro, os profissionais humanistas – aqueles que colocam a paciente e seu bebê acima de qualquer outra consideração – serão escolhidos pelas próprias pacientes para serem ajudantes de um novo modelo de atenção que terá a horizontalidade como ética, a participação como norma e o protagonismo respeitado como lei.

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Os Dilemas da “cura” do Câncer

Eu nunca me interessei por trabalhar com câncer ginecológico e seus tratamentos, apesar de reconhecer ser este um campo muito interessante e promissor, e evidentemente com um mercado imenso em função do estilo de vida ocidental e do envelhecimento das populações. Entretanto, desde os primeiros contatos com a oncologia eu entendia os tratamentos para o câncer como grosseiros e bizarros. “Como assim usar um tóxico sistêmico, destruidor da capacidade de multiplicação celular em TODO o organismo, para tratar um pequeno grupo de células em crescimento descontrolado?” Isso me parecia estranho e sem sentido. As radioterapias também me pareciam tão insensatas quanto as cauterizações à fogo nos ferimentos de bala que eu via nos filmes de bang-bang. Para mim, não havia um sentido “superior” de tratamento (apesar de reconhecer vantagens locais, parciais e paliativas), pois aparentemente tais métodos apenas mascaravam o câncer, escondiam a sua aparência exterior, usando a famosa “técnica do gato”, de colocar terra por cima dos excrementos. O câncer era algo que eu via como uma enfermidade sistêmica, geral, e que integrava os aspectos emocionais, psicológicos, hormonais e bioquímicos. O “tumor” não era mais do que a capacidade orgânica de produzir localização, envolvendo-o por um contingente grande de células normais, com a mesma lógica de localizar e “cercar” um corpo estranho qualquer no organismo. Além disso, eu notava que os pacientes cancerosos tinham uma rica história de recalques emocionais importantes que faziam parte do conjunto de elementos a construir a sua doença.

Mais que tudo, um câncer é sempre uma entidade abstrata, pois só existe aninhado num sujeito, o que lhe confere uma estrada de desenvolvimento absolutamente única. Um câncer pode evoluir para a cura espontânea (existem infinitos relatos anedóticos sobre isso), cursar por 4 anos ou ficar praticamente inerte por duas décadas, dependendo do sujeito que o alberga. Intoxicar o organismo, ou cauterizar células com radiação não poderiam mais do que tangenciar a localização manifesta dessas doenças, e não a sua essência. Entretanto, sempre respeitei esses modelos de tratamentos exatamente por não poder oferecer nenhuma alternativa que fosse suficientemente segura para os pacientes e para os cuidadores. Tratar uma paciente de câncer com homeopatia ou fitoterapia é inaceitável para o modelo cientificista atual. Por outro lado, é absolutamente natural e compreensível que um paciente morra em consequência dos tratamentos químicos violentos usados pela medicina contemporânea. O que é preciso é avançar no estudo das verdadeiras variáveis que compõem as neoplasias, e os tratamentos que tratam a essência dessas patologias, e não apenas a aparência – externa ou interna – que elas produzem.

Eu, assim como Freud, acredito que “Não há grito do corpo que não venha de Eros“. Não existe doença crônica que não esteja profundamente relacionada com as emoções do sujeito. Sua forma de viver, de sentir, de amar, ou de não-amar, são os alicerces de qualquer enfermidade. Portanto, a “cura” só pode ser através desse caminho. Qualquer outra forma terapêutica que não envolva a compreensão profunda do sofrimento como forma de expressão integral, psicológica, emocional, fisiológica e por fim anatômica, está fadada a ter resultados meramente estéticos, parciais e/ou superficiais.

Por essa razão achei interessante a análise que está sendo realizada sobre as mitologias que cercam o tratamento convencional do câncer, que a cada dia criam sobre si mais suspeitas.

Para maiores informações sobre este tema controverso e instigante vá em:

http://drsircus.com/medicine/cancer/oncologists-conceal-toxicity-issues-bias

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A Internet de todos nós

 

A internet mostra o pior e o melhor de todos nós. Todos ficamos estupefatos com a realidade da pedofilia, problema social que sempre existiu, mas que a Internet tornou uma calamidade global. Entretanto, ela só apareceu porque agora os pedófilos podem ficar incógnitos atrás do manto protetor do anonimato. Os perversos de toda ordem encontram abrigo nas ondas cibernéticas da rede, fazendo dela um escoadouro de suas mazelas pessoais, disseminando rancor, mágoa e violência. Os exemplos estão por toda parte. Qualquer matéria criminal produz de imediato uma onda de ódio, raiva, violência e clamores por vingança (que as pessoas normalmente confundem com “justiça”). Basta ler uma matéria nos jornais, com reportagens interativas, para ver os comentários.

Há algumas semanas, diante da notícia de um jovem de 20 anos que morreu de acidente de automóvel durante a madrugada, eu li alguns comentários, logo abaixo do corpo da informação. O primeiro deles era: “Já vai tarde, bêbado“…

Argumentei com o cidadão de que ele não sabia as circunstâncias do acidente, e mesmo que fosse o que ele acusava, deveria se lembrar que havia uma família enlutada, sofrendo o martírio da perda de um filho, um irmão e um amigo. Ler essas palavras, ditas por um estranho e alguém que não tinha suficientes informações para acusar dessa maneira, poderia ter um efeito terrível aos olhos de quem conhecera a vítima. Recebi do sujeito uma série de gargalhadas como réplica. Os reacionários, os perversos, os machistas, os grosseiros, os pedófilos e tantos outros doentes encontraram na escuridão da internet – pela primeira vez na história em grande escala – a possibilidade de externar seu ódio, seu preconceito e seus desejos descontrolados.

Por outro lado, nunca houve tanta disseminação de afeto, boa informação, debate sério, contraditório e discussão “do bem”, o que nos deixa com uma ferramenta que, por ser meramente utilitária, pode nos levar para a paz ou para a violência. Nós é que escolhemos.

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Racismos

Uma página do site do hospital que proíbe doulas mostrava uma criança negra, linda por sinal, e uma pergunta abaixo da imagem: “Minha filha tem os cabelos excessivamente crespos. Com que idade posso fazer alisamento”? Muitas pessoas se indignaram com a pergunta (fictícia ou não) dessa mãe, por entenderem que se tratava de racismo, além de estimular vaidade em crianças muito pequenas. Depois da chuva de protestos contra a proibição absurda e grosseira da presença de doulas, a página que continha essa pergunta sobre cabelos de bebês também saiu do ar.

Tenho uma história que pode lançar uma luz sobre isso. Claro, entendam como uma história que ocorreu há 30 anos, em um hospital da minha cidade, no sul do Brasil.

Estava na fila do hospital para o almoço. Era residente do primeiro ano do Hospital e meu irmão residente de segundo ano. Conversávamos sobre tratamentos clínicos, interações entre pediatras e obstetras (meu irmão estava terminando a residência em pediatria aquele ano) quando um casal com um bebê se aproximou. Era um casal de negros. O homem um sujeito de estatura média, cabelos raspados ao estilo “afro”. A mulher era uma negra, com o tom da pele bem mais “café com leite”, uma cor, aliás, bem brasileira, que dificilmente se vê nos Estados Unidos, pois que os puritanos americanos a achavam degradante. Nosso “cadinho de raças” tem, para muitos estudiosos, esta raiz cultural. Somos um país mulato, misturado e, como diria o nosso ex-presidente Fernando Henrique, “só é racista quem não conhece sua árvore genealógica”. Eu, por exemplo: nome inglês, cara de branquelo, pai pernambucano, avós ingleses, bisavós espanhóis e portugueses do Alentejo. Do Alentejo uma pele mais escura, da “mouraria”. Dos mouros para a África, e de lá venho eu. Mas, voltando à história, o pai do bebê chamou meu irmão, que estava na fila, e pediu para falar-lhe. Marcus afastou-se da fila e por alguns minutos falou com o casal, que mostrava para ele uma ficha verde, para onde apontavam com insistência. Alguns minutos depois meu irmão volta para a fila com um ar assustado.

– Que houve, perguntei.
– Não vais acreditar o que eles estavam solicitando. Eu fui o pediatra que atendeu o nascimento daquele bebê há dois dias. O papel que eles me mostravam era a ficha pediátrica. Nela estavam escritos os dados principais do nascimento do menino: peso, comprimento, apgar, e … cor. Evidentemente eu coloquei a cor como sendo “negra”. Pois o pai estava solicitando para que eu mudasse a cor do bebê na ficha. Sim, ele queria que seu filho fosse oficialmente… “branco”.
– Mas… como assim?, disse eu. Eu vi o casal, o pai era preto, a mãe mulata. E também vi a criança. Você por acaso não esqueceu de fazer o…
– Sim, ele disse… claro que eu fiz o “teste do saquinho”. É preto, cara, claro que é…
– Mas por quê? Qual a razão para isso? perguntei
– Só um mundo ainda racista pode explicar isso, disse meu irmão desanimado…

Uma sociedade que criminaliza a cor da pele, que desvaloriza o ser humano pela etnia e afasta seres humanos por graus variáveis de melanina acaba produzindo cenas como essa. O pai dessa criança estava apenas tentando tirar do seu filho a penalização social de ser negro em uma sociedade dominada e controlada pelos brancos. Eliminar a negritude de seu filho parecia o melhor a fazer, pois tal ação poderia livrá-lo de um fardo pesado que carregaria por toda a sua vida. Ser negro, nos anos 80, era muito pior do sê-lo hoje em dia. Agora temos o sistema de cotas, que de uma forma rápida tenta equalizar o fosso que que a cultura escravagista cavou nesse país, separando negros e brancos pelas diferenças de oportunidade. Somente agora estamos vivendo em uma sociedade mais respeitosa, e ainda assim alguns abusos são encontrados.

Entretanto, muito ainda há a fazer para se construir uma sociedade justa e digna para todos. Eliminar o racismo é uma dessas tarefas que precisamos tratar com urgência.

A mãe que quer livrar a filha dos cabelos crespos não está fazendo algo semelhante ao que este pai desejava para seu filho, há 30 anos?

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