Arquivo do mês: junho 2019

Índigos e Cristais

A ideia de uma leva de crianças especiais, chamadas de “indigo” e depois de “cristal” veio no pacote místico da Nova Era, que nos trouxe Enya, comida vegana, incenso e até parto humanizado. Se é verdade – ou não – eu acho difícil de provar. Não há elementos fáticos a nos oferecer qualquer indício, quanto menos garantias, de que estas crianças que agora nos chegam tenham qualquer vantagem emocional, espiritual, afetiva ou intelectual sobre as gerações que as antecederam.

Eu, em verdade, sou até mais propenso a acreditar que a vida pós-moderna cosmopolita nos ofereceu crianças e adolescentes mais toscos e ignorantes do que outrora. Jared Diamond falava disso em “Armas, Germes e Aço” e creio ser uma ideia bastante sedutora. Aconteceu com o cães – cuja proximidade com os humanos os deixou mais burros – por que não ocorreria conosco?

Nesse sentido apenas lembro que minha geração inteira escutou Genesis, Chico, Caetano, Bob Dylan enquanto hoje os jovens escutam sertanejo machista. A arte popular se tornou refém do mau gosto capitalista. Mas, para além disso, a alimentação, os brinquedos, o medo parental (pais mais velhos) e o meio ambiente não são propícios ao desenvolvimento de criatividade, liderança e desafio. Criamos uma geração de tolos, mimados, frágeis, medrosos e super protegidos. Uma geração “show flake”, tediosa e superficial. Certo, mas esta é apenas a minha sensação, sem evidências claras. Não posso provar isso, mas é uma sensação legítima e compartilhada por muitos

Entretanto, existe uma outra questão sobre a exaltação de “castas” infantis: as expectativas criadas sobre suas pretensas virtudes e a sensação de exclusão por parte das crianças sobre as quais não recai esse rótulo.

Essa é uma preocupação que TODO pai e mãe de celebridade tem: ao reconhecer o filho de “deu certo” corre o risco de desmerecer os outros filhos menos aquinhoados pelo talento. O peso negativo para estes pode ser maior do que os benefícios para quem foi bafejado pela “sorte”.

Preferi tratar meus filhos sempre como crianças absolutamente normais, iguais a todas as outras, sem vantagens especiais. Na verdade, um espelho do que julgo de mim mesmo. Com os meus netos não me afasto um centímetro dessa ideia. Gente normal; inteligentes, criativos, corajosos e curiosos como todas as crianças. Não acho justo estragá-los considerando que pertençam a uma categoria especial. Que Deus os livre disso.

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Médicos do bem

O fato de existir ainda uma escassez de médicos em ambientes de humanização prova a minha tese de que é preciso seduzi-los a entrar.

A questão que eu considero relevante é a posição de destaque do médico no contexto tecnocrático e em relação aos conhecimentos autoritativos.

Como exemplo trago a conversa que tive por Skype com uma ativista do parto no Japão, especificamente em Kyoto. Ela viu uma palestra minha e queria me perguntar algumas coisas sobre o Brasil e o modelo interdisciplinar de atenção ao nascimento. Ela me relatou não haver “birth doulas” na sua cidade, apenas doulas para pós parto. Disse também que fará em um futuro próximo um curso para doulas nos Estados Unidos, mas reconhece que terá dificuldade para trabalhar porque nenhum médico aceita essa função no Japão. O Japão está uns 20 anos atrasado em relação a nós no que diz respeito ao movimento de doulas. (desculpe falar assim, mas essa deve ser a unica cousa que estamos na frente deles).

Eu argumentei com minga amiga japonesa que sem essa “fissura na ordem médica” – isto é, a existência de um(a) obstetra humanizado(a) em um contexto tecnocrático – as doulas de parto ficam de mãos amarradas. Entretanto, o surgimento de UM médico apenas sendo “convertido” abrirá as portas para dezenas de doulas – e até parteiras. Eu mesmo sou um exemplo vivo disso; outros médicos no nosdo país também.

Portanto, não se trata de valorizar mais os médicos, mas de reconhecer que seu poder na atenção ao parto é estratégico. Por que não usá-lo em nosso favor?

Lembro quando Marsden Wagner dizia que odiava ser chamado de “doutor, mas notava que quando era obrigado a se anunciar assim “todas as portas se abriram facilmente”. Portanto, por que não permitir que os “doutores” possam abrir portas para os que vem atrás? Por que não usar esse poder médico a favor da humanização do nascimento?

Quem conheceria Marsden Wagner se ele não tivesse se tornado um médico rebelde e fosse – por exemplo – uma doula ou parteira? E Michel Odent? E Klauss, Kennell, Caldeto-Barcia e Paciornik? Quem leria Leonardo Boff se ele não fosse um padre heterodoxo e “herege”?

Poisceu afirmo que as suas condições DISTÓPICAS dentro de suas corporações é que lhes garantitam a merecida notoriedade, a qual estaria escondida se estivessem ocupando outras funções menos autoritativas.

Por isso os médicos convertidos são tão importantes do ponto de vista estratégico. Eles abrem as picadas e trilhas no meio da selva da tecnocracia, que depois poderão ser pavimentadas pelos outros atores da cena do parto, como as doulas e parteiras.

Eu seria o último sujeito do mundo a olhar para o movimento de humanização como uma organização “medicalizada”. Aliás, lutei toda minha vida contra a medicalização do parto. Entretanto, sou obrigado a reconhecer a importância capital dos obstetras e neonatologistas como pontas de lança na mudança de paradigma.

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Para os bebês que demoram


Minha filha nasceu também com 41 semanas de gestação quando eu estava há poucos dias de me graduar em medicina. O tempo mais demorado e angustiante que eu lembro na minha vida foi entre as 40 e as 41 semanas. Os dias pareciam não passar, cada hora se arrastava e parecia me dizer que algo não estava certo, mesmo que as datas colocassem o nascimento que se aproximava dentro da mais absoluta normalidade.

Minha dor era ainda mais pungente pois, como futuro obstetra, parecia a mim que “algo devia ser feito”; apenas um sintoma do velho “imperativo tecnológico” de que somos afetados. Mas eu sempre mantive minha fé que Bebel nasceria no tempo dela e na hora exata em que escolheu. Isso serviu de ensinamento por toda a vida, pois que todos os seus outros “nascimentos” também ocorreram em seus tempos próprios, não nas fantasias que criamos para ela. Cada um de nós carrega essa centelha mágica de subjetividade que nos faz ser únicos e diferentes. Não importam as pressões do mundo para que sejamos iguais; há em nós uma força interna igualmente poderosa para que a vida tenha um caráter especial e distinto, e siga seu caminho único.

Cada bebê parece estar mostrando a fagulha de personalidade que já carrega ainda quando se encontra encerrado no mundo idílico do claustro materno. Seu tempo de nascer é determinado pelos hormônios que ele mesmo produz; portanto, esta é sua primeira oportunidade de dizer quem é e como quer ser entendido. Um novo ser já traz consigo suas características mais profundas, que se manifestam tão logo nossa atenção se volta para elas .

Para as mães que sofrem a angústia da espera e que carregam seus “bebês preguiçosos”, eu só peço que tenham paciência e confiança. Se estão no tempo justo de nascer nada há de errado em “cozinhar em fogo brando”, por mais que esta espera toque nas nossas inseguranças e temores. Também peço que não se culpem por sentir medo ou angústia; faz parte da maternidade aprender com a dor de aguardar.

Um beijo para todas vocês e que o parto tão esperado seja um dia de grandes conquistas para todos.

* Este texto escrevi para Derik e Márcia, a quem tive a honra de atender no parto da Valentina e que agora esperam a chegada de mais um bebê…

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#MauroMentiu

A mulher entrou no escritório do marido sem bater e o encontrou usando sobre o corpo nada mais que suas cuecas. A jovem secretária em seu colo vestia apenas uma provocante lingerie.

– Mauro!!! O que é isso?

Os dois se ergueram de sobressalto mas em silêncio. Enquanto Dr Mauro colocava as calças a jovem auxiliar se retirou apressadamente pela porta.

– Não aconteceu absolutamente nada, disse ele. Coisas normais na relação entre patrão e empregada.

– Você enlouqueceu, Mauro? Coisas normais? Sem roupa no seu colo? Acha que sou besta?

Ele abotoou os botões da camisa calmamente. Sem mudar o semblante, explicou:

– Minha secretária me trouxe um café mas eu, estabanado, virei sobre a calça. Como o café estava muito quente tirei a calça rapidamente e entreguei a ela. A camisa também estava manchada, então resolvi tirar e guardar na gaveta onde tenho umas peças de roupa sobressalentes. Quando fechei a gaveta ela prendeu no vestido da minha secretária que se rasgou de cima abaixo quando ela se encaminhava para fora da sala. Tão nervosa ficou que tropeçou no fio do telefone e caiu no meu colo. Nesse instante você chegou.

A esposa não conseguia esconder o espanto e o terror.

– É serio? Essa é sua explicação para a cena que eu vi com meus próprios olhos? É essa história que tem para me contar, Mauro?

– Sim. Uma história comum. Acontece toda hora em muitos escritórios pelo Brasil. Nada de excepcional. Não percebo nada de inadequado na minha atitude e não há nenhum delito aqui configurado.

A esposa, até então estupefata, desarmou-se diante de justificatvas tão convincentes.

– Bem, Mauro, como você é um juiz famoso e respeitado, muito querido por tantos e admirado por multidões só me resta acreditar. Desculpe ter desconfiado. Então vou para casa e lhe aguardo. Ainda tenho que buscar as crianças na escola.

– Ok querida. Não se preocupe; eu entendo sua preocupação. Mais tarde chego em casa para o jantar.

Ela se aproximou da porta e quando ultrapassou o batente voltou-se para o marido e perguntou:

– Quer que eu leve sua roupa suja de café para lavar?

– Não será necessário, disse Dr. Mauro

– Por quê? indagou ela

– Porque eu já deletei…

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Decisões

Há uns trinta e tantos anos eu estava de plantão em um hospital quando adentraram na emergência dos pacientes baleados. O estado de ambos era crítico. A esposa de um deles contou que o bar onde trabalhavam foi assaltado e seu marido reagiu. Na troca de tiros ele foi atingido na cabeça, mas antes disso conseguiu acertar o bandido que invadiu o estabelecimento.

Eu era um estudante plantonista e fui designado para a neurocirurgia do dono do bar. Meu colega acompanhou o cirurgião para a outra cirurgia, na sala ao lado, a ser feita no assaltante que havia sido atingido no peito.

Ao entrar na sala soube que ambos os casos eram dramáticos. A cirurgia no cérebro é sempre delicada e seria minha primeira vez a acompanhar uma delas como auxiliar. Naquela época já era claro para mim que este tipo de trabalho jamais seria a minha rotina de vida, mas ainda assim era algo excitante e desafiador.

No meio da cirurgia nossa sala foi invadida pela dupla de médicos da sala ao lado. Abraçados e rindo alto gritavam “acabamos com o bandido!!!”. Entre risadas jocosas diziam que a cirurgia havia “corrido com perfeição”, e que suas habilidades foram colocadas à prova “com sucesso”. As risadas foram compartilhadas pelos cirurgiões da minha sala. Eu fiquei confuso…

Não sei o que aconteceu com o nosso paciente, mas lembro de termos terminado a cirurgia com ele vivo. A delicadeza do caso não poderia nos oferecer nenhuma garantia.

Entretanto, a reação dos médicos da sala do lado nunca saiu da minha lembrança. Prefiro acreditar até hoje que o paciente não resistiu à severidade e extensão dos seus ferimentos e que o que se seguiu foi apenas uma manifestação de humor diante do insucesso. Não conseguiria acreditar que médicos deixassem de usar seu talento para salvar uma vida guiados pelas considerações de caráter moral de seus paciente. Um bandido, um terrorista ou o Papa são iguais diante da ética que deve orientar o proceder dos médicos.

Não há nenhuma desculpa para quem revoga seu compromisso com a ética profissional. Os pacientes acreditam que não serão julgados por sua cor, religião ou condição social, inobstante o que tenham feito. Essa é a premissa que suporta a atenção médica. Até na guerra, o ferimento do inimigo vale tanto quanto os dos nossos soldados.

A sensação de estranhamento com esta cena me voltou à memória quando escutei essa semana pessoas defendendo a validade das ações de um juiz que liderava uma cruzada contra um partido. A mesma falha ética, o mesmo desrespeito com os elementos mais basilares da função social que desempenha. O mesmo abuso de poder baseado na crença de sua infalibilidade e superioridade.

Uma medicina que escolhe quem merece viver ou morrer é tão danosa e maléfica quanto uma justiça que decide pela culpa ou inocência baseando-se em valores alheios aos fatos julgados. Sem essa confiança na isenção nenhuma atenção será digna e nenhuma justiça será possível.

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