Sobre justiça e mérito

Para esclarecer: a origem da palavra “mérito” nada tem a ver com justiça.

Mérito (do latim “meritus” [ˈmɛ.rɪ.tʊs]: “bondade”, “serviço”) ou merecimento, é a qualidade atribuída a uma pessoa cujo acto ou actividade foram reconhecidos como de grande valor (meritório) em favor da coletividade, a partir de um julgamento moral. Ocasionalmente, o reconhecimento público do mérito é demonstrado através da concessão de medalhas, condecorações, títulos ou diplomas, para destacar os atos reconhecidos.”

Quando ocorre de um sujeito rodeado de privilégios sociais – em especial, branco, heterossexual, classe média, homem – alcançar uma sucesso qualquer, como passar no vestibular, conquistar uma posição, vencer uma disputa ou ganhar um Nobel podemos desvalorizar a sua conquista com o argumento de que não houve “mérito” em função dos privilégios que recebeu graciosamente da vida?

Minha posição é contrária à esta tese. Para mim é claro que suas vitórias carregam mérito próprio, desde que não tenham ocorrido fraudes. Serem JUSTAS é outro assunto, mas não há como negar o mérito de ter vencido seus iguais.

Existe mérito nestas vitórias, sem dúvida. Houve concorrência e dentro das regras do jogo eles venceram. Se você admitir que não há mérito algum nestas vitórias pessoais então NADA NO MUNDO será capaz de reivindicar mérito, pois sempre alguém poderá dizer “sim, você venceu, mas e os indígenas? E os negros? E quanto às mulheres e homens trans? E os pobres?” Com este tipo de critério não haverá mérito em absolutamente nenhuma ação humana.

Se por acaso foi um negro quem conquistou algum benefício por mérito próprio, ainda assim alguém poderá insinuar: “sim, mas você é da classe média. Não há mérito já que os pobres não puderam competir com você“. Mas, se você for negro e pobre igualmente não terá mérito pleno porque precisa ser gay ou trans e assim sucessivamente até acharmos o fundo do poço, um ser imaginário que concentra em si todas as agruras e sobre quem recaem todos os preconceitos sociais. Um anjo perdedor, ungido, por ser o único capaz de reivindicar mérito por suas conquistas. Sabemos onde está esse sujeito… apenas na nossa imaginação.

Portanto, eu não nego as injustiças e as desigualdades. Mais do que isso; eu as combato e denuncio nos limites da minha ação social. Entretanto, não podemos confundir falta de justiça social e disparidade nas oportunidades com ausência de mérito. Não é justo com o esforço de tanta gente diante de suas dificuldades.

Mérito há, porque houve uma disputa para um determinado lugar, concorrendo com seus iguais (como qualquer um de nós fazendo vestibular, mesmo sendo da classe mais privilegiada). Por outro lado, mesmo reconhecendo o mérito, somos obrigados a aceitar que a disputa não é JUSTA, pois a iniquidade social abre um fosso gigantesco impossibilitando que tenhamos todos as mesmas condições de sucesso.

Assim, mesmonreconhecndo a brutalidade de nossas diferenças, eu não posso concordar que se confunda ausência de JUSTIÇA com ausência de MÉRITO.

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O perdão impossível

Infelizmente parece mesmo que só os pastores evangélicos conseguem acolher pessoas que cometem erros, mesmo os mais terríveis. Enquanto isso, a sociedade só joga pedra. Acusa, destrói, promove vingança e é sempre inexorável nos seus julgamentos. Nao adianta mofar anos na prisão, é preciso incinerar, picotar e cuspir em cima. Aqui, esquerda e direita se encontram, no submundo dos sentimentos mais rasteiros.

Já os evangélicos, muito mais por marketing do que por virtude, recebem os “pecadores” e lhes oferecem o benefício (ou a possibilidade) da “redenção”. O resto da sociedade joga pedra na Geni. “Enquanto existirem Suzanes todas as minhas maldades e perversões serão aliviadas”. As Genis são tão odiadas e desprezadas quanto…. necessárias.

Não reclamem, pois, pelo crescimento acentuado do fundamentalismo mais tacanho e emburrecedor no nosso meio; participamos desta bestialidade ao oferecer aos párias sociais apenas esta possibilidade de ler os ensinamento cristãos – e a esperança do perdão, que é universal.

O que nos incomoda em Suzane é ver que não somos tão diferentes dela quanto gostaríamos…

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Circuncisão

Um tema que sempre me atropela quando venho visitar a Matriz (gringolândia) é a luta de muitos ativistas – “red stained men” é um deles – contra a circuncisão. Aqui este é um tema atual e que suscita muitos debates acirrados. Entretanto, nunca ouvi nenhuma menção dessa questão no Brasil, pois que ela é restrita e exclusiva dos grupos religiosos, em especial os judeus. O contrário acontece por aqui no centro do Império: quase todos os meninos passam por esse ritual que em muito se assemelha às episiotomias, em especial porque são feitas sem o devido consentimento e sobre as zonas erógenas.

Vendidos como “procedimentos médicos” seguros e higiênicos (no caso da circuncisão) e necessários para proteger o bebê (no caso das episiotomias) suas vantagens nunca foram comprovadas pelas evidências científicas. Inobstante a ausência de benefícios, estas cirurgias se disseminaram no imaginário americano por cumprirem os três princípios fundamentais que compõem um ritual: repetitivos, padronizados e (acima de tudo) simbólicos. Junto com a tonsilectomia (a tradicional retirada de amígdalas na adolescência, que era comum até bem pouco tempo) estas cirurgias podem ser entendidas como “cirurgias ritualísticas e mutilatórias” da medicina ocidental – como contraponto à clitoridectomia, usada no Oriente. Violentas, traumáticas, injustificáveis e medievais, não passam de fósseis culturais que sobreviveram à razão e à ciência. Todavia, exatamente por serem ritualísticas e refratárias à razão, sua erradicação é tão difícil.

Entretanto, há ainda um outro detalhe que me chama a atenção. Boa parte dos ativistas contra esta mutilação sexual masculina é composta de…. mulheres. Sim, elas mesmas.São em especial mães que se debruçaram sobre o assunto, perceberam os traumas e dramas envolvidos, conheceram casos dramáticos e resolveram combater uma prática que, além de nunca ter se comprovado benéfica, expropria há séculos os meninos de sua plena capacidade de prazer sexual.

Apesar da suposta usurpação de um “lugar de fala”, de ser uma sensação erótica por elas desconhecida, de advogar em nome do outro gênero e de falar sobre o que ocorre na intimidade do corpo dos homens, estas mulheres se sentem no direito de combater uma prática obsoleta e arcaica apenas porque acreditam que o mal que é feito aos homens afeta não apenas a eles, mas a toda a coletividade humana – inclusive as mulheres que eles um dia vão amar. Sim, a luta delas é plena de valor porque se fundamenta na legítima proteção daqueles homens a quem tanto amam.

Quando os homens – existem muitos hoje em dia – se dedicarem ao parto e nascimento na defesa dos direitos de mães e bebês seria bom que este princípio também fosse amplamente respeitado. Defender as mulheres – seus direitos e seu protagonismo no parto – é, em última análise, defender a humanidade inteira. Não esqueça que, mesmo que você não tenha parido, certamente nasceu do corpo de uma mulher. O parto, inexoravelmente, afeta a todos nós…

ENGLISH VERSION

Male mutilation and birth

One issue that always strikes me when I come to visit the United States is the fight of many activists – “Bloodstained Men &Their Friends” is one of them – against circumcision. Here in USA, this is a current topic and it raises many heated debates. However, I have never heard any mention of this debate in Brazil, since it is restricted and exclusive to religious groups, especially the Jews. The opposite happens here in the center of the Empire: almost all boys go through this male ritual that very much resembles the episiotomies, especially because they are done without the proper consent and in the erogenous zones

Sold by the medical establishment as safe and hygienic “medical procedures” (in the case of circumcision) and necessary to protect babies and perineum (in the case of episiotomies) their advantages have never been proven by scientific evidence. In spite of the lack of benefits, these surgeries have spread in the American imaginary by fulfilling the three basic principles that make up a ritual: repetitive, standardized and (above all) symbolic. Along with the tonsillectomy (the traditional withdrawal of tonsils in adolescence, which was common until very recently) these surgeries can be understood as “ritualistic and mutilating surgeries” of Western medicine as a counterpoint to clitoridectomy, used in the East. Violent, traumatic, unjustifiable, and medieval, they are no more than cultural fossils that have survived reason and science. However, precisely because they are ritualistic and refractory to reason, their eradication is so difficult.

However, yet another detail strikes me. A good part of the activists against this male sexual mutilation is composed of …. women. Yes, mothers, girlfriends, spouses and grandmothers. These are especially women who have studied the subject, perceived the traumas and dramas involved, experienced dramatic cases and decided to combat a practice that, in addition to never being beneficial, expropriated for centuries the children of their full capacity of sexual pleasure.

In spite of the supposed usurpation of a “place of speech”, being an erotic sensation unknown to them, advocating on behalf of the other gender and of talking about what occurs in the intimacy of the men´s bodies, these women feel the right to fight an obsolete and archaic practice. The reason for that relies on their belief that the evil done to men affects not only them, but the whole human collective – including the women they will love someday. Yes, their struggle is full of value because it is based on the legitimate protection of those men whom they love so much.

When men – believe me, there are many nowadays – dedicate themselves to childbirth in defense of the rights of mothers and babies, it would be good if this principle was also widely respected. Defending women – their rights and their role in childbirth – is ultimately to defend the whole humanity. Do not forget that even if you did not give birth, you were certainly born from a woman’s body.

Childbirth, inexorably, affects all of us.

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Abusadores

Sobre as punições aos abusadores

Estupro não tem nada a ver com pinto. Este nobre apêndice é tão somente um instrumento mais fácil para o exercício da opressão, mas até as mulheres podem estuprar – mesmo sem pênis. Sabemos também que, ainda que sem penetração, a violência sexual pode acontecer. “Cortar pênis” ou proceder castrações químicas são apenas vinganças medievais; não solucionam e não diminuem em nada os níveis de violência, mas servem ao gozo punitivista. São os cintos de castidade do século XXI.

Lembro que Alan Turing foi punido pelo “crime” de ser gay há poucas décadas, mas pergunto se tais ações teriam algum efeito na contenção da (sua) homossexualidade. Os desejos e as taras não se escondem “entre as virilhas” ou nas circunvoluções da massa cinzenta, mas nos calabouços do inconsciente. Em verdade, tais violências somente tentam matar no outro sentimentos que recalcamos em nós. Não é por acaso que as masculinidades mais frágeis se encontram entre os mais violentos homofóbicos.

Ninguém é contra a necessária contenção – e até a restrição de liberdade – para quem usa de violência sexual, em especial contra crianças. Será sempre necessário um duro combate aos abusadores. A pena, porém, precisa ser algo que ajude a comunidade e proteja os mais frágeis e não um simples exercício de “maldade reversa”.

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As Histórias

Estive lendo o artigo de uma amiga (ainda não publicado) sobre as diversas formas de ensino da atenção ao parto, em especial no que diz respeito às parteiras tradicionais (TBA), cujo formato de aprendizado direto é substancialmente diferente do ensino formal que se obtém nas universidades.

O artigo demonstrava a importância dos “relatos de histórias” na construção – e disseminação – do conhecimento das parteiras. Para elas, qualquer explicação relativa à um determinado procedimento estava necessariamente atrelada a uma narrativa, vívida e pessoal, de como cada uma das múltiplas situações havia sido resolvida. Para estas parteiras (de ascendência Maya) não havia como descrever um caso clínico hipotético; era necessário buscar os fatos na memória pessoal e coletiva que envolvesse situações reais, com exemplos reais; mulheres e bebês de verdade.

Esta informação me fez pensar que em vários aspectos o parto é um aprendizado absolutanente particular. Diferente de matérias como química, física, matemática e até geografia, o nascimento possui uma complexidade de elementos que só podem ser entendidos – e relatados – com máxima precisão se estiverem anexados a uma história real, com gente de verdade, com todas as circunstâncias, contextos, emoções, ideias, perspectivas e vivências pregressas.

Aqui ficou para mim um grande aprendizado. As escolas de medicina organizam seminários inteiros sobre partos pélvicos, hipertensões, distócias, diabetes e todo tipo de patologia, mas os sujeitos por trás destas enfermidades, via de regra, são invisíveis ou inexistentes. Falamos de abstrações – as doenças – sem levar em consideração que elas só podem existir no corpo doente. Mas…. que corpo é este que se desequilibrou? Por qual razão? Com qual objetivo? Em que contextos?

Uma apresentação pélvica nunca terá a mesma história em duas gestantes distintas. Assim também será também o tratamento oferecido a elas. Enquanto uma pode aceitar o parto pela via natural, a outra se congela e trava de medo. Uma “se abre” enquanto a outra “se fecha”. Como poderíamos oferecer um protocolo de atenção a ambas, que conpartilham o mesmo quadro, sem considerar a diversidade absoluta entre estas duas pacientes, suas vidas e seu passado?

As histórias – ahhh, quantas histórias – oferecem a oportunidade fantástica de conhecer as patologias em sua subjetividade, seu contexto e sua dinâmica única. Não se trata mais da natureza da doença ou do desequilíbrio, mas o respeito à subjetividade e à construção pessoal de cada quadro único de desequilíbrio que transborda das narrativas obstétricas. Com isso humanizamos a doença, dando-lhe sentido e propósito.

A sabedoria milenar das parteiras pode nos ensinar um aspecto fundamental do entendimento das gestantes: o caráter especial de cada gravidez que só pode ser plenamente compreendido se, por trás de cada enfermidade ou transtorno, conseguirmos visualizar a vida em sua intensidade única.

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