NAZA

Os dois cineastas israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor, que produziram o documentario NAZA são heróis contemporâneos. NAZA (2026) uma investigação sobre o funcionamento interno da máquina militar e de inteligência de Israel durante a guerra em Gaza. Construído principalmente a partir dos depoimentos anônimos de 24 integrantes e ex-integrantes das forças armadas e dos serviços de inteligência israelenses, o filme revela como sistemas de vigilância, inteligência artificial e critérios burocráticos são empregados na seleção de alvos para bombardeios, incluindo cálculos prévios do número de civis que poderão morrer — justamente a ideia expressa pelo termo militar “NAZA”, relacionado às baixas civis esperadas. Filmadas discretamente, muitas vezes à noite em telhados de Tel Aviv, as entrevistas descrevem decisões tomadas diante de telas, nas quais casas habitadas e famílias inteiras podem ser reduzidas a números e parâmetros operacionais. Em vez de recorrer principalmente a imagens gráficas da destruição, Abraham e Szor concentram-se na burocratização e desumanização da violência, mostrando como pessoas comuns passam a funcionar como pequenas peças de um sistema capaz de produzir mortes em escala industrial. É inegável seu esforço em expor para o mundo as imagens do genocídio que ocorre na Palestina. Seu filme mostrou a podridão da sociedade israelense, a depravação racista e supremacista do sionismo. Centenas de jornalistas, pensadores, historiadores, intelectuais e ex-soldados do IDF há décadas nos alertam para os crimes de Israel, mas nada como um documentário feito por judeus israelenses para trazer aos nossos olhos depoimentos dos próprios criminosos, confessando seus delitos. Ambos provaram, com imagens e documentos, a matança vergonhosa de Israel e a psicopatia dos seus governantes.

O filme, pela reação do público no Festival de Veneza (25 minutos de aplausos, um recorde) e pela repercussão internacional parece ser um verdadeiro divisor de águas. Nas redes sociais só o que se fala é “quando chega aqui?”. A recepção mundial do documentário mostra que Israel está vivendo seus estertores, seu final aterrorizante e sua derrocada definitiva, ao mesmo tempo em que testemunhamos o despertar da consciência sobre o horror da sociedade de Israel. O apartheid, o racismo, o colonialismo, as expulsões de terras, as humilhações, o culto à morte, o assassinato de crianças, os massacres em campos de refugiados e nas filas por comida, as crianças queimadas vivas ou esfomeadas de propósito; nada disso poderia ser escondido eternamente.

O Nakba – a catástrofe da tomada da Palestina por sionistas europeus – não foi um fato ocorrido e circunscrito no passado, mas um evento em curso. A segregação, os muros, o racismo, a proibição de circular pelo próprio país dos seus ancestrais estão acontecendo nesse instante para os palestinos, agora mesmp, enquanto você lê este texto. O mundo acordou para a necessidade de exterminar o supremacismo de Israel. Não há mais como a civilização conviver com apartheid, etnocracias e colonialismo.

Já existem retaliações e ameaças dirigidas aos diretores do documentário, mas ao mesmo tempo mais de mil cineastas israelenses assinaram um documento em apoio aos colegas, ameaçados inclusive de serem expulsos de Israel. Mas, com o passar do tempo, os sionistas que serão penalizados pelos seus crimes, e o mundo inteiro se levantará contra o sionismo abjeto e criminoso que detroi milhares de vidas na Palestina. Malditos sejam aqueles que tentam normalizar ou justificar a morte de 20 mil crianças. Nem os piores nazistas aceitariam isso.

Chega.

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Classe média

Eu também odeio essa classe média, e não me excluo dela. Eu a critico ferozmente até porque a conheço muito bem e faço parte dela. Ela é rasteira, pedante, medíocre, odiosa, preconceituosa e arrogante. É uma classe composta majoritariamente por pequenos burgueses, que se estabelece acreditando estar afastada dos proletários, a quem desprezam, e próxima dos burgueses, os donos, os proprietários, por quem são desprezados.

Costumo definir a classe média como um sargento que se acha superior aos seus comandados mas que, pela sua grossura, falta de refino e cultura, é desprezado pelos oficiais. Na perspectiva do sargento, ele se acha especial por não se misturar com a soldadesca, mas na visão do oficialato ele não passa de um militar bruto e mais velho, que os ajuda a controlar a massa de soldados.

A classe média tem uma carência crônica de consciência de classe. Suas escolhas no palco das lutas sociais sempre são oportunistas e ilusórias. Ao invés de se unir ao operariado na luta pela divisão equânime da riqueza produzida, a pequena burguesia prefere se unir aos opressores na ilusão de que eles a reconheçam como iguais. É o caso do médico, do advogado, do pequeno comerciante, do empresário, etc. Não por acaso, essa classe é profundamente reacionária, a base do bolsonarismo e da extrema direita.

Essa classe média que não olha para a sua própria natureza deve ser trocada com uma classe combativa, que deseja a mudança e que lute ao lado do operariado e do campesinato por uma revolução estrutural no Brasil.

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Cristolatria anacrônica

Eu não acredito em Jesus e não tomo como verdade praticamente nada do que foi escrito sobre a vida dele.

Não reconheço a Bíblia como um documento histórico e não considero válida nenhuma das referências indiretas da sua existência. Acredito apenas que um judeu reformista de um grupo zelote tentou tomar o poder dos romanos durante a ocupação romana na Palestina. Sua proposta era mundana, política e violenta. Na minha visão particular (sujeita a críticas), Cristo é uma criação coletiva, surgida do campo simbólico da Europa de um pouco menos de 2 mil anos passados, com o gigantismo de Roma e suas conquistas e respondendo aos anseios e aspirações de uma grande massa de camponeses e os escravos que se dirigiram ao centro do poder imperial. Pouca ou nenhuma relação existe com o “Cristo real”, que perambulou pela palestina e foi morto pelos romanos por sedição.

Nada do que aparece no Novo Testamento atribuído a esse personagem, chamado Jesus, se refere realmente a ele. Foram textos escritos entre 50 e 90 anos após sua morte, por pessoas que não o conheceram pessoalmente, através de tradição oral e adaptados ao gosto e aprovação do poder central – os romanos. Colocar Jesus como um “mensageiro” de Deus, um “Avatar”, um profeta inserido num “plano divino” é a mais absoluta insensatez, e não resiste às análises mais simples. A história de Jesus foi escrita para dar conta da angústia dos operários e escravos de Roma. O cristianismo, em verdade, é uma ideia genial de Paulo. Esse personagem é o Edir Macedo de 2 mil anos atrás, ou semelhante ao que fez Billy Graham no evangelismo americano. Usou um personagem que não chegou a conhecer para criar uma religião (ou uma vertente) baseada nessa figura mítica – e irreal.

Continuar olhando para Jesus da forma como as religiões o fazem – incluída aí a “religião espírita” – nos vincula ao atraso e ao modelo dogmático das religiões. Para fazer o espiritismo evoluir é necessário romper essa barreira. A cristolatria estanca a evolução cientifica e filosófica do espiritismo.”

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Onde estão os espíritas?

Tenho visto alguns pensadores questionando o vazio de sociedades espíritas, em especial a ausência de jovens frequentadores. Falam da violência urbana, problemas para estacionar, dificuldades variadas para o acesso. Entretanto, eles mesmos dizem que tais explicações não são suficientes para dar conta do fenômeno.

Minha visão desse problema talvez não agrade os próprios espíritas. Eu frequentei sociedades espíritas na época em que Dr. Fritz, Arigó, Chico Xavier, Gasparetto, João de Deus e depois Divaldo Franco eram ícones culturais. Roberto Carlos e outros artistas se diziam admiradores do espiritismo. A doutrina espírita estava “na crista da onda”. Era legal e charmoso ser espírita, algo que atraía intelectuais e artistas. Todavia, o espiritismo cristão, que cultura personalidades e se comporta como uma seita cristã reencarnacionista, está fadado a este destino: ser uma versão progressista do catolicismo. Nada mais do que isso. Esta alternativa não atrai mais a juventude como antes. Na sociedade contemporânea é muito mais sedutor para os jovens a versão evangélica, que se adapta de forma precisa ao modelo neoliberal, ao ethos capitalista e “desmoralizador” (isento de conteúdo moral) das vertentes pentecostais. Ninguém alcança sucesso e dinheiro no espiritismo, porém esta proposta está implícita no chamado das igrejas evangélicas. Os evangélicos assumiram – por méritos – a posição que o espiritismo tinha no imaginário social há 50 anos.

Perceba como a juventude espírita floresceu na minha época, final dos anos 70 e início das anos 80. Lembro bem das “tardes juvenis” com 200 jovens, e CONJERGS (congresso da juventude espírita do RS) lotadas de jovens de todo canto do Estado, mas começou a declinar exatamente com o surgimento das igrejas evangélicas, como a Igreja Universal do Edir Macedo. Ao meu ver, lá estão agora os antigos jovens espíritas, seduzidos pelas promessas de redenção da narrativa neoliberal que se iniciou com Reagan e Thatcher, exatamente nesta época, início dos anos 80. Por outro lado, qual o grande problema do vazio das instituições espíritas? O espiritismo não é uma religião, e muito menos uma religião de massas. Reclamar que somos poucos é o mesmo o que questionar porque as salas de música erudita estão vazias e os bailes funk estão sempre lotados. As razões são semelhantes: no primeiro uma proposta de estudo, aprofundamento de ideias, dúvidas, pesquisas, enquanto no segundo a sedução inescapável da vida fulgurante de som, dança, alegria e erotismo. Não há como competir. O espiritismo produz uma seletividade natural, e necessariamente minoritária na cultura.

Entretanto, as mudanças estão aí para serem, testadas Convocar pessoas para estudar espiritismo num sistema horizontal e aberto é um bom caminho, mas para isso a versão espírita laica e científica é a melhor (única?) solução. Para iniciar, seria muito bom abandonar o igrejismo, como alguns espiritas progressistas apontam. É fundamental se afastar da cristolatria espírita, das vinculações com as crenças místicas cristãs, assumir uma postura verdadeiramente universalista e que seja útil e compreensível a todas as culturas. Para além disso, é essencial estimular o estudo científico, o debate filosófico e abandonar a visão moralista que sempre caracterizou nossas instituições.

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Carma

O ano era 1937. Na sala de estar da casa de paredes altas, o tempo parecia correr mais devagar, ditado pelo tique-taque do relógio e pelo chiado baixo de uma vitrola antiga. Alheia à severidade do pequeno busto de gesso de Beethoven que a observava de cima de um móvel, uma menina de apenas quatro anos esticou o braço por baixo do sofá. Buscava um brinquedo — talvez uma boneca de louça, talvez uma bola de couro. Ao recolher o membro com o objeto em mãos, o antebraço trancou-se contra a madeira maciça do móvel. O peso do próprio corpo forçou a articulação. Houve um estalido seco.

A menina não deu muita importância na hora. Voltou a brincar, ignorando a pontada incipiente. Mas a dor, silenciosa e persistente, fincou raízes. Dias depois, o braço começou a mudar de cor e a inchar de forma alarmante. O choro, antes contido, tornou-se evidente. Diante do inchaço crescente, seu pai, meu avô Olinto Blum, tomou uma decisão difícil. Naquela década, uma visita ao médico era um evento raro para um cidadão comum, um luxo ou um sinal de extrema gravidade.

Aflito, meu avô levou a filha até o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O diagnóstico dos médicos foi um golpe brutal: uma infecção profunda no osso — o que hoje a medicina presumiria ser uma osteomielite severa. Na era pré-antibiótica, sem a existência da penicilina para combater as bactérias, a infecção era uma sentença de morte por sepse. A única solução apresentada para salvar a vida da menina era a amputação imediata do braço esquerdo.

Arrasado e sem chão, Olinto deixou o quarto de hospital. Sentia-se esmagado pela culpa e pela impotência. Caminhou mecanicamente até a cafeteria da instituição, desabou em uma cadeira e ali ficou, tentando colocar os pensamentos em ordem enquanto o mundo desmoronava ao seu redor.

Foi quando um jovem médico, percebendo o sofrimento profundo daquele homem, aproximou-se. Com um gesto simples de empatia, convidou Olinto para tomar um café. No calor daquela mesa, o pai abriu o coração e relatou a tragédia iminente. O jovem doutor ouviu com atenção e se apresentou. Ele acabara de retornar do exterior, onde testemunhara o uso de uma técnica médica experimental na Europa: uma raspagem minuciosa do osso infectado combinada com a aplicação de substâncias antissépticas recém-descobertas. É provável que se tratassem das sulfonamidas, recém descobertas. Era uma aposta arriscada, dolorosa e cara, mas era a única esperança de manter o braço da menina. Olinto aceitou imediatamente. O tratamento esvaziou as poucas economias da família, mas funcionou. A menina preservou o membro, carregando para o resto da vida uma cicatriz vistosa no antebraço.

Anos mais tarde, já adulta, aquela menina explicava o infortúnio sob uma ótica espiritual profunda. Dizia que estava traçado que ela deveria perder o braço devido ao seu carma. Em existências passadas, em campos de guerra esquecidos pelo tempo, usara aquele mesmo braço para cometer atos condenáveis. Essas ações haviam gerado um escurecimento magnético, uma falha e uma fragilidade em seu envoltório perispiritual que se manifestaram fisicamente naquele acidente de 1935.

Contudo, ela sempre enfatizava: o carma não é um destino imutável, mas uma dívida. E a dívida pode ser amortizada. Pelas boas ações, pelos pensamentos elevados e pelos sacrifícios diários ao longo da vida, aquele resgate severo que exigia a perda de um membro foi sendo suavizado pelas leis maiores, transformando-se em uma infecção curada e em uma cicatriz vistosa.

Mas existe mais um elemento extra nessa história: como eu interpretei o acidente e sua explicação para ele. Pelo relato da minha mãe eu sempre achei que ter a mim como filho foi uma forma de saldar essa conta. Assim, minha mãe deve a mim a chance que teve de terminar seus dias com os dois braços. Minha existência em sua vida – arteiro e contestador – foi o peso que ela teve que suportar para amortizar sua dívida.

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Quanto?

Ele me falou o preço sem me olhar no rosto. Disse em voz baixa, por desintetesse ou quiçá descaso. O número era quebrado em noves, para enganar os sentidos, mas não podia fazer brotar algo da aridez dos meus bolsos. O vendedor já tinha me avaliado de cima abaixo quando entrei na loja. “Chinelão”, pensou, mas foi educado o suficiente para evitar que o pensamento descesse à boca. Não tentou sequer falar de parcelamentos, facilidades, prestações ou descontos. Era evidente que aquilo estava muito além das minhas possibidades.

Mas era preciso. Eu tentava não demonstrar, mas era evidente o quanto eu desejava aquilo. Ele também sabia, mas não podia descer o valor. Cumpria ordens, e a sua margem de desconto não faria muita diferença.

– É caro – falei, olhando para baixo. – Não digo que não tenha o valor que você diz, mas está muito distante da minha realidade.

O vendedor levantou o olhar da planilha à sua frente e o olhou para o homem com uma espécie de benevolência. Falou quase com doçura.

– Esse nem é o modelo mais caro, mas elas normalmente custam os olhos….

Interrompeu a frase pela metade para não ferir os sentimentos de um homem com óculos tão grossos, quase ofensivos.

O homem manteve-se em silêncio por alguns instantes. Olhou para o rosto do vendedor atrás do balcão, que se mantinha dividido entre a planilha e o monitor que cuspia dígitos à sua frente. Finalmente, o homem colocou os óculos “fundo de garrafa” no bolso do casaco, virou-se de costas, colocou as mãos sobre o rosto e ficou a remexer na sua face. Repetiu o gesto até escutar um clique seco. Voltou-se novamente para o vendedor, mostrou a mão espalmada à frente e falou:

– Vou ficar com ela. Pode embrulhar.

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Novidade eleitoral

Parece que apareceu o candidato ideal para os religiosos envergonhados. Sim, aquela turma “do bem”, que é caridosa, que ajuda os pobres, que se emociona com filmes da sessão da tarde, que colabora na Igreja, que doa roupas na sociedade espírita, que toma passe no terreiro, que tem amigos negros e um parente gay. Chegou o cara para os “nem-nem”, o sujeito que pode nos livrar de votar no filho do miliciano, o mesmo que está por trás do crime organizado, totalmente entranhado nas milícias, envolvido no Dark Horse (O Pangaré Preto) e que se borra quando fica nervoso.

A sua chegada também ajuda quem não quer votar na esquerda, não porque seu candidato se afastou do povo, “endireitou-se”, buscou alianças espúrias com as elites predatórias, frustrou expectativas, não melhorou a condição da classe média e não incentivou a transformação radical do país na direção do socialismo. Não, isso é menos importante do que evitar que um candidato retirante nordestino e sem curso superior venha a ganhar novamente eleições, até porque do nordeste seus eleitores só curtem as praias e nem gostam muito “daquela gente”.

Talvez esse candidato também não confie na entrega do Brasil no colo dos americanos e a consequente perda da autonomia e soberania nacionais. Por outro lado, é possível que esse candidato acredite que a esquerda no poder pode nos levar ao “comunismo”, mesmo com um presidente explicitamente anti-comunista. Certamente ele se equilibra bem sobre o muro. E sobre o identitarismo, ele já veio com a fórmula perfeita: tecnologia, usando drones para pegar maridos abusivos. Que sacada!!

Esse cara, pelo vazio de suas propostas, pela falta de talento político, pela superficialidade de sua literatura de autoajuda e pela sua inexperiência no trato com a coisa pública, é o candidato ideal para os místicos, os “Jesus te ama”, a turma do “amor vencerá”, do empreendedorismo oportunista e para o pessoal do “pensamento positivo”. Ao mesmo tempo em que exalta o “espírito empreendedor”  para transformar todo brasileiro pobre em dono de “start up”, ele enxerga o comunismo como uma ameaça por demais radical, mesmo que possa melhorar a vida de 90% dos brasileiros. Não há como saber ainda, mas é possível que seu sonho molhado seja que o nosso atual presidente seja sequestrado pelos americanos e seu sucessor possa oferecer aos invasores nossas riquezas. Sem lutas e revoluções, usando apenas a ferramenta do amor. 

Enquanto isso, o candidato diferente de tudo isso que encontramos nas entrevistas da Globo, e que deseja romper com a divisão da sociedade em classes, a propriedade privada dos meios de produção e que luta por uma sociedade justa e solidária não tem espaço para oferecer sua alternativa ao grande público. Para a Globo e o TSE, esse candidato é “apimentado” demais para o capitalismo brasileiro.

 Veremos onde isso vai dar…

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Ney – Ney

No episodio Ney x Xuxa, devo dizer que sempre soube que Ney Matogrosso é de direita. Um clássico individualista. O típico direitista que se diz “nem-nem”. Suas posições políticas sempre foram, ao meu ver, deploráveis. Tirou fotinho com o Garoto Kim Kataguiri na época do Impeachment e depois disse que “não conhecia”. Nunca teve uma postura questionadora ou engajada, e nunca o vimos na defesa de uma causa específica. Ele sempre foi do time Roberto Carlos, que curtia uma ditadura militar.

Eu não gosto dele como cantor, mas se trata apenas do meu gosto pessoal, portanto, irrelevante. E mais importante ainda é que não misturo sua arte com sua vida pessoal, incluindo aí sua adesão à direita. Muitos dos meus ídolos na música, e até na literatura, foram notáveis patifes. Leiam as biografias de Borges e Neruda, gênios com vidas reprováveis, ou mesmo de um reacionário genial como Nelson Rodrigues. O inferno dos canalhas tem uma ala só para os gênios da arte.

Portanto, “pouco se me dá” (adoro essa expressão que velho usa) que Ney Matogrosso seja um idoso reaça; ele é um ícone da música brasileira, um grande artista e um sujeito que revolucionou a música brasileira com sua interpretação. O resto é choro…

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Milícias e Escândalos

Sabem porque eu acho que revelar as ligações do Flávio com o crime organizado e as milícias não vai surtir um grande efeito eleitoral? Na verdade, creio que estas ligações com o submundo não produzem nenhum efeito deletério para as candidaturas da direita. Digo isso porque o brasileiro médio não acha a milícia uma coisa ruim. Lembram do Bolsonaro exaltando os grupos de extermínio da Bahia e convidando para virem ao Rio estabelecer seu domínio? Na época quem reclamou? Quem se escandalizou? Quem deu voz de prisão a ele? O mesmo com os elogios ao Brilhante Ustra. Quem agiu em nome da democracia e dos direitos humanos? Quem bradou contra esse crime?

Poucos….

No Brasil, e em muitos outros lugares, as pessoas não são contra a tortura e o extermínio feitos pela polícia. Olhem os comentários nas notícias de linchamentos de assaltantes, ou dos ladrões que foram perseguidos pela vítima e morreram atropelados por furtarem um celular. Lembrem do governador “Na cabecinha Witzel” e seu elogio à execução sumária e os pulinhos ridículos de comemoração? O brasileiro médio deplora a tortura que sofre, e pelas múltiplas formas que ela lhe atinge, mas não a tortura aplicada aos outros – em especial pretos e pobres.

O mesmo ocorre com a ligação aos grandes escândalos financeiros, como a ligação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Para boa parte do eleitorado da direita brasileira, esse envolvimento apenas demonstra o poder do candidato, capaz de influenciar a pauta nacional e movimentar somas gigantescas. O fato de solicitar intervenção americana na soberania brasileira também é um sinal de poder. De acordo com as definições modernas, que nos permitem chamar os tempos atuais de “A era dos Canalhas“, Flávio Bolsonaro incorporaria os elementos do herói neoliberal, sem caráter e sem escrúpulos, mas vitorioso no embate pelo poder. 

Não quero criminalizar a sensação de insegurança do povo e o alívio que um extermínio do “mal” ilusoriamente oferece, mas não podemos ser ingênuos de acreditar que somos um povo pela paz. Ofereçam milicianos e muitos vão aplaudir. Diante de um sujeito imoral e canalha, muitos vão acreditar que se trata da melhor escolha. Mortes causadas pela polícia da mesma forma passam a ser celebradas. Enquanto tivermos uma sociedade de classes haverá insurgentes contra sua injustiça estrutural, e essa reação fará o pobre achar que estará mais seguro sendo “protegido” por milicianos e contraventores. 

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Críticas

Estariam os críticos do espiritismo pegando pesado demais nas avaliações das questões mediúnicas? Por que existem analistas que desempenham um papel tão desctrutivo quanto aquelas feitas pelo Padre Quevedo, uma fugura caricata dos anos 90? E mais intrigante ainda, qual a razãode espíritas estarem fazendo estes “ataques”, comportando-se como verdadeiros “cavalos de Troia” a minar a confiança dos seguidores de Kardec, a ponto de não ser possível acreditar que ainda se consideram espíritas? Não deveríamos equilibrar o teor da crítica, não caindo na descrença absoluta e nem na aceitação acrítica das manifestações?

Talvez a resposta para este importante questionamento esteja contida em sua própria indagação: é provavel que a melhor escolha seja uma posição equidistante entre o ceticismo estéril que inválida a própria adesão do sujeito ao espiritismo e o ufanismo espiritista quem em tudo crê – nas mensagens e suas autorias, nas reencarnações “planejadas”, na autoridade do médium, etc – e de forma entusiasmada, empolgada em demasia e crédula, deixando de lado a necessária postura crítica. Entretanto, qualquer ciência para assim afirmar-se precisa ser falsificável. Esses sujeitos, um tanto descrentes da mediunidade, prestam um relevante serviço de depuração do fenômeno espírita. Não é raro vermos no espiritismo toda sorte de enganações, algumas até politicamente motivadas. Não raro aparecem mensagens exaltando a ditadura militar ou personagens menos nobres da política (e do judiciário) nacional vindas de médiuns que usam de sua autoridade para fortalecer estas ideias. Seriam elas verdadeiramente de outro plano?

Meu pai, que foi um conhecido pensador espírita, diante desse tipo de provocação, usava uma ferramenta bem prática, a qual considero válida neste e em outros campos do conhecimento. Dizia ele que, os personagens que conhecemos no plano material não se transformam radicalmente após o desenlace físico. Por isso mesmo, é possível reconhecer traços de personalidade, o estilo, o modo de escrita, as ideias e as manias inseridas em um texto psicografado. Além disso, estes espíritos não se tornam toti-conscientes após o desencarne. Talvez digam besteiras e asneiras do lado de lá também. Os erros reconhecidos nas obras espíritas – em especial as fantasias de vidas nos planetas do sistema solar – deveriam nos mostrar que esses erros podem ocorrer. Talvez sejam até a regra, não a exceção

Em função disso, sua regra era simples: escute a mensagem mediúnica como se ele tenha sido dita por um encarnado, um amigo mais velho e experiente, nada mais do que isso. Não há como oferecer estatuto de verdade a algo apenas por ter surgido de uma manifestação espiritual e distinta dos conselhos cotidianos. Espíritos são gente, apenas invisíveis. Assim, ele aplicava semprecessa máxima: se a mensagem fizer sentido e for útil, então ela tem valor; caso contrário ela carece de importância e relevância. Conheci sociedades espiritualistas onde o líder espiritual da casa governava de forma despótica seus seguidores por meio das mensagens supostamente espirituais que recebia, usando a mística da manifestação das almas para lhes garantir autoridade e poder. Por certo que ninguém ousava questionar a origem da mensagem e o fenômeno em si, pois isso significaria romper o sistema de autoridade e hierarquia da casa. Este não me parce um modelo livre pensador no qual o movimento espírita laico poderia se inspirar.

Por fim, não creio que o excessivo ceticismo de alguns espíritas com certos fenômenos mediúnicos deva nos assustar ou incomodar, pois eles estão a testar continuamente nossa hipótese. E, como afirmava Kardec, o espiritismo precisa ter condições de encarar a razão – e a ciência – em qualquer época da humanidade. Afinal, se ela for uma quimera, acabará desaparecendo inexoravelmente. Entretanto, se o espiritismo contém porções de verdades ele florescerá mais cedo ou mais tarde, a despeito de qualquer crítica ou descrédito. Não acredito que o espiritismo proponha uma “nova ciência”, tão somente um novo objeto. Ciência é fundamentalmente método. O método científico pode ser aplicado aos fenômenos espíritas, adaptando-se a necessidade de avaliar fenômenos carregados de subjetividade. O mesmo se aplica à psicanálise ou à homeopatia, mas não podemos permitir que nosso desejo de acreditar seja mais forte que nosso saudável ceticismo.

E viva a ciência!

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