Tiro no Pé

A deputada Érika Hilton (PSOL-SP) propôs uma emenda ao PL da Misoginia determinando que “O exercício da liberdade de expressão, de manifestação do pensamento, de convicção religiosa, filosófica, científica, acadêmica ou política NÃO constitui causa de exclusão da ilicitude”Ou seja: mesmo que você traga uma perspectiva filosófica, científica ou religiosa, se for caracterizada como “misoginia” (por quem?) isso não constituirá exclusão de ilicitude. Não adianta estar embasado, ter conteúdo de fé ou ser um ensaio filosófico: se falar “mal” das mulheres será considerado crime. Imagine a situação de um pesquisador que analisa a orientação espacial de homens e mulheres e descobre que mulheres têm dificuldades em grandes espaços, e isso explicaria a dificuldade com mapas ou para fazer baliza. Basta escrever um artigo científico que mostre essa deficiência nas mulheres e pronto: você é um criminoso misógino. E, sim, pode escrever o que quiser sobre os homens; críticas ao patriarcado são até mesmo estimuladas

Vemos entáo que, através dessa aberração jurídica, a super poderosa defensora das mulheres não esconde que seu objetivo é violar frontalmente a Constituição, criando uma quimera que abre as portas para o mais abjeto supremacismo. Assim como faz a Alemanha, ameaçando colocar na cadeia por até 14 anos qualquer cidadão que ousar questionar a existência do Estado terrorista de Israel, essa parlamentar quer criminalizar críticas a um gênero específico – as mulheres – mantendo os homens livres para serem esculachados e criticados. O nome disso é supremacismo e, assim como o sionismo, que se baseia no hocausto para se blindar de ataques, faz crer que o patriarcado pode justificar a proibição de críticas. Entretanto, criar leis e excepcionalidades jamais vai atuar em favor das mulheres e, pior, vai manter a ideia de que mulheres previsam ser eternamente tuteladas.

“Sim, mas qual a diferença das leis existentes que criminalizam o racismo?” Ora, talvez nenhuma, e por isso mesmo deveriam ser ambas combatidas. Censura é censura, para comunistas, cristãos, negros, sionistas, brancos, gays e mulheres. Ou a sociedade aceita que pessoas pensem diferente de nós ou então teremos estabelecida uma franca ditadura do pensamento. O Estado vai determinar o que você pode pensar ou dizer. Liberdade de expressão implica o direito de idiotas falarem abertamente sobre sua idiotice, mas acima de tudo, determina que as pessoas com quem não concordamos possam se expressar livremente. Não existe censura do bem!! Mais cedo ou mais tarde a censura se volta contra os oprimidos. Censurar críticas às mulheres é um tiro no próprio pé, e não ajuda as mulheres. Censura, por melhor que sejam as intenções, nunca funciona!!

Todavia, no atual contexto, duvido muito que a esquerda compreenda o valor do combate à censura. A esquerda se tornou autoritária, cega e surda aos desejos do povo. Por isso sceitou em suas fileiras esse discurso e essa postura identitárias, que criam divisões e isolam cidadãos em nichos, criadas em torno de suas identidades, fragmentado a classe operária e enfraquecendo as lutas sociais. Criar uma blindagem de censura para qualquer discurso que possa criticar as mulheres não vai diminuir nenhuma morte, mas vai tornar ainda piores as relações de gênero. Aviso: o resultado do proibicionismo e do punitivismo é sempre paradoxal. Ao contrário de proteger as mulheres estas medidas tendem a criar ressentimento e desconfiança. Ou seja, será um desastre para as próprias mulheres, e vai prejudicá-las ao invés de protegê-las.

PS: será essa crítica usada para me acusar de misoginia? Como saber?

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Punições

Na Turquia o governo está preocupado com a taxa abusiva de cesarianas, um drama que temos igualmente no Brasil. Até ops números de lá são semelhantes aos nossos. Entretanto, a atitude de punir médicos com excesso de cirurgias é uma solução fácil e, provavelmente errada. O punitivismo nunca será um caminho suficiente e, na maioria das vezes, sequer adequado para mudar padrões culturais. Essa postura parte da ideia de que a “culpa” pela taxa indecente de cesarianas reside apenas nos médicos, mas isso não é verdade. Em verdade, os médicos (policiais, juízes, professores) são um reflexo da sociedade onde estão inseridos. Podemos até colocar os médicos e a sua formação técnica como os principais responsáveis por este absurdo, mas se hoje, por um ato de mágica, todos os médicos indicassem cesarianas apenas com indicação médica, haveria muitos médicos presos e um princípio de convulsão social entre as usuárias.

A cultura exalta as cesarianas. Elas são limpas, seguras, indolores e modernas. As mulheres bebem nessa fonte e desejam o que a tecnologia pode lhes oferecer. Submeter-se às cesarianas parece a elas o ticket para ingressar no mundo moderno, enquanto o parto normal aparenta ser um evento resquicial de um passado de carências, dores e abandono. O mesmo fenômeno ocorreu com a amamentação, onde a mamadeira era vista como libertação e um bebê colado ao seio representava o passado, ou a algema que prendia as mulheres ao seu destino de reprodutoras.

Punir médicos pode trazer algum resultado parcial, assim como prender traficantes pode oferecer algum benefício ilusório no combate às drogas, mas estes serão sempre pífios e fugazes. No médio prazo as prisões ficam lotadas e o problema mantem-se intacto.Da mesma forma, as pessoas na sociedade capitalista demandam estupefacientes para suportar a angústia de viver numa sociedade distópica. Ao mesmo tempo, as mulheres também desejam cesarianas para, ilusoriamente, fugir das dores e da angústia da espera. A punição como solução não vai funcionar. Sim, a ação do governo turco demonstra umaa louvável preocupação com a epidemia de cesarianas e os resultados funestos que elas acarretam para a sociedade, mas isso é insuficiente. Além disso, como toda ação baseada no proibicionismo, seus resultados serão fracos ou até paradoxais. Da mesma forma como ocorreu com a lei seca nos anos 20 do século passado, uma “lei seca de cesarianas” teria o mesmo destino: o fracasso.

A solução? Não há solução simples para problemas complexos. Qualquer medida só poderá ocorrer agindo sobre a educação. Esta precisa ocorrer desde muito cedo, valorando o corpo das mulheres e exaltando suas habilidades inatas de gestar, parir e amamentar. Assim, a opção pela cesariana se tornaria a mais tola das escolhas. Também é essencial uma mudança estrutural na assistência ao parto, por meio da seleção dos profissionais mais adequados para a atenção ao parto – as parteiras – deixando os cirurgiões apenas para os quadros de risco. Todavia, para isso é preciso trocar o sistema de poder sobre os corpos, e isso demanda uma verdadeira revolução. Não há alternativa.

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Anti-vida e peso

Perdi uma amiga querida há 2 anos por causa do uso de antibióticos. Na época ela estava usando antibióticos profiláticos para um tratamento dentário. Ou seja: sequer havia a necessidade premente para tratar uma doença bacteriana em curso. O principal problema dos antibióticos é que eles não diferenciam bactérias boas (benéficas) das ruins. Ao eliminar os microrganismos que protegem o intestino, geram uma condição chamada disbiose, abrindo espaço para a proliferação descontrolada de bactérias nocivas, como a Clostridioides difficile, que causa inflamações graves. Essa foi a provável causa de sua diarreia, que evoluiu para desidratação severa, insuficiência renal, megacólon tóxico (dilatação grave do intestino) sepse, o choque e a morte. Tudo isso porque usou um antibiótico profilático em um tratamento dentário banal.

Sempre tive um cuidado imenso com antibióticos desde a entrada na escola médica. Pessoalmente, não uso antibióticos há praticamente 40 anos, e já passei por múltiplas amigdalites, neurites, cirurgias e adoecimentos em geral. Por estudar os efeitos dos antibióticos no corpo e a importância da interação entre nosso organismo e as bactérias que conosco convivem, sempre tive muito respeito pelos riscos associados aos medicamento anti-vida (anti-bio). Fiquei mais interessado ainda quando assisti um documentário sobre o microbioma do recém nascido e quando conversei com o professor Lars A. Hanson da Universidade de Gottemburgo em uma conferência nos Estados Unidos. O Prof. Lars A. Hanson é um dos maiores pioneiros mundiais em imunologia clínica, dedicou sua carreira a provar como a amamentação transfere anticorpos e sinalizações cruciais para moldar a microbiota protetora do bebê contra infecções. Ele me descreveu suas pesquisas no campo da microbiologia dos recém-nascidos e a importância das enterobactérias maternas na colonização do intestino dos pequenos. Esse tema me deixou ainda mais encantado pelo significado da flora intestinal e as pesquisas sobre a conexão intestino-cérebro. Lembro muito bem da frase “Uma menina leva nos intestino bactérias herdadas da sua avó”. Não é impressionante isso?

Em 1946, pesquisadores descobriram que adicionar baixas doses de antibióticos à ração de animais de fazenda (como frangos e porcos) acelerava o crescimento e o ganho de peso. Desde então, a indústria usou antibióticos em larga escala como promotores de crescimento. Embora o efeito em animais seja conhecido desde a década de 1940, a confirmação de que os antibióticos afetam o peso em humanos é um achado recente. Estudos modernos ligam o uso precoce ou repetido de antibióticos a alterações na microbiota, o que pode aumentar o risco de obesidade, principalmente em crianças. Ou seja, a epidemia de obesidade no mundo está seguramente ligada ao excesso de antibióticos prescritos, em especial na infância.

Agora “descobrimos” que a solução para a obesidade é a aplicação de uma caneta mágica, cujos resultados em médio e longo prazos ainda não foram descobertos. Ou então já foram, mas como tudo se resume a dividendos e lucros na indústria farmacêutica, estes dados estão bem escondidos, como foi feito recentemente com o Vioxx. Mas será mesmo que esta solução artificial vai exterminar um problema que evidentemente está relacionado com o estilo de vida moderno? Não será a obesidade a consequência esperada para a artificialização da alimentação e, em última análise, da própria vida?

Este texto abaixo que eu colhi na internet é de uma palestra que encontrei e que continha esta parte interessante…

“Sabemos desde a década de 1940, quando começamos a usar antibióticos em larga escala na agropecuária, que os antibióticos fazem as pessoas ganharem peso. Nós os administrávamos — ou melhor, fazíamos uso inadequado deles na criação de animais — para que os animais engordassem mais rapidamente, e fizemos isso durante cerca de cinquenta anos. E houve até mesmo — quando digo “nós”, refiro-me à comunidade médica da época — ensaios clínicos realizados nas décadas de 1950 e 1960 com crianças africanas desnutridas e famintas, às quais eram administrados antibióticos para que ganhassem peso.

O microbioma é uma parte crucial da explicação para a atual pandemia de obesidade. Os microrganismos transformam a dieta ultraprocessada que você consome em um fator que promove a obesidade. E fazem isso, entre outras formas, regulando as vias do GLP-1; elas fazem parte de toda essa história. O que estamos fazendo é prender as pessoas em um ciclo de obesidade porque tratamos mal o microbioma. E então a solução apresentada é um medicamento muito caro, que as mantém presas nesse ciclo. Esse medicamento não cura a obesidade; apenas mantém o paciente em um tratamento extremamente dispendioso que, no fim das contas, provoca ainda mais alterações no microbioma, gera efeitos secundários sobre a interação entre intestino e cérebro e desencadeia uma série de outros problemas. E nós ainda não compreendemos profundamente esse mecanismo. Até 2030, cerca de 30 milhões de pessoas nos Estados Unidos estarão tomando esses medicamentos diariamente. E os governos dizem: “Ótimo, aqui está a solução para a pandemia de obesidade; vamos todos tomar esses remédios.” Isso simplesmente não é verdade.”

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Ostomias

Recebi num grupo político do whatsapp um vídeo humorístico e mordaz que mostrava um ator homem interpretando uma médica entrevistando uma paciente no consultório. Essa mulher dizia à médica que seu marido gostaria que ela não desfizesse sua colostomia porque ele estava gostando de ter relações sexuais por aquela “via alternativa”. O vídeo é sarcástico e trata, de forma debochada, de uma questão que eu conheço há décadas: a história de que mulheres submetidas a colostomia são constrangidas a não fecharem suas cirurgias porque seus maridos desejam continuar a ter relações com elas pelo orifício cirúrgico.

Este relato eu escutei de muitas pessoas, de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e também de pessoas de fora da área médica. Diante de comentários deste tipo eu sempre questionava se havia algum relatório a respeito desse fenômeno ou se ele se restringia a este tipo de descrição anedótica. Via de regra, as pessoas se surpreendiam com a minha solicitação de evidências, como se eu estivesse numa posição de ingenuidade, sem saber como é feio “o mundo de verdade”. “Como você é ingênuo, Ric”, diziam elas. Outras afirmavam que “Sim, conheci muitas pessoas que me relataram essa história”, e ficavam indignadas se alguém questionasse a veracidade do relato. Acontecia sempre o mesmo: eu perguntava se havia alguma evidência científica relacionada a esta parafilia e a resposta imediata era “conheço uma amiga da minha prima que é enfermeira que me contou a seguinte história”. E sempre apareciam histórias indiretas, relatos, fatos contados por terceiros. Nada de concreto.

Quando recebi a mensagem no grupo de whatsapp imediatamente escrevi: “Eu acho que a antiga história do sujeito que pede para o médico não fechar a colostomia da esposa para poder continuar “usando” não passa de um mito médico, como tantos que circulam na cultura”. A reação do grupo (composto quase totalmente por mulheres) diante da minha observação foi de defesa da tese, e usando os mesmos argumentos: “Ahh, uma paciente me disse”, “isso é muito comum, você que não sabe”, “Ahh, vai dizer então que as mulheres estão mentindo?”.

Quando nos ocupamos de procurar na internet algo sobre o tema percebemos que os poucos relatos disponíveis costumam oferecer:

  • artigos sobre fetichismo médico;
  • revisões sobre coprofilia;
  • relatos de caso de parafilias incomuns;
  • discussões em comunidades de pessoas ostomizadas, onde ocasionalmente se menciona que alguns parceiros demonstram fascínio ou fetiche pela estomia, embora isso não constitua evidência científica.

Ou seja: relatos de pessoas esparsas, anônimas, sem que ninguém até hoje tenha contabilizado ou usado qualquer método para avaliar a prevalência desse evento. É notável o fato de que a ostomia não é reconhecida como um foco parafílico específico no DSM-5-TR nem na CID-11. Não existe um diagnóstico denominado “ostomy fetish” ou equivalente. É interessante isso porque, se uma pessoa quer ter sexo com cadáveres ou cães existe um nome específico para estas parafilias. Entretanto, o caso tratado como “comum” de uso das ostomias para a satisfação sexual de parceiros nunca foi classificado. Pode-se acreditar que não o foi porque, em verdade, é muito incomum, se é que ele realmente existe.

Para mim se trata realmente de um mito, mas segundo Claude Lévi-Strauss, um mito “uma forma de pensamento que organiza contradições fundamentais da experiência humana (vida e morte, natureza e cultura, masculino e feminino etc.) por meio de uma narrativa simbólica”. Quando escutava a manifestação desse mito relacionado à sexualidade masculina, sempre me questionei qual mensagem ele tentava simbolizar? Por que passei 40 anos escutando pessoas me dizendo que tal comportamente existe e é “mais comum do que se pensa”?. Sim, também escutei que as luas cheias traziam mais partos, e os relatos eram da mesma natureza: “a segunda feira passada era de lua cheia, e por isso tivemos 40 partos no plantão”. Nenhuma metodologia para avaliar a veracidade dessa prevalência aumentada, apenas um relato cru. Entretanto, existe uma razão que explica a emergência de mitos: no caso dos partos, a tentativa de colocar ordem no caos da natureza, como se a lua pudesse trazer alguma luz sobre a escuridão de um evento imprevisível como o parto.

E o mito das ostomizadas? Para mim é um mito de degradação da sexualidade masculina. É usado para reforçar a ideia de que o masculino é tóxico na nossa sociedade, e por isso esta mitologia é é tão fortemente disseminada por identitários. A ideia que subjaz é de que a sexualidade dos homens é doentia e obsessiva, incapaz de respeitar até mesmo as debilidades da parceira. Serve para criar a imagem de homens violentos e abusivos, ligados a mulheres frágeis, fracas, submissas e vitimizadas. Ficou sempre muito claro para mim que o foco não era sobre um fato aberrante, num sujeito que abusava de sua parceira de maneira cruel a despeito de suas dificuldades ou sofrimento. Não, a ideia era de mostrar que esta é a natureza da sexualidade masculina, de que os homens são assim mesmo, que isso faz parte da arquitetura normal do seu erotismo, intrinsecamente deteriorado e tóxico.

Creio que depois de décadas de feminismo e de sua luta justa por equidade e justiça é importante questionar até onde é correto este tipo de ataque à essência do masculino. Criar narrativas monstruosas sobre os homens e tratar historietas de corredor como se fossem uma verdade científica não auxilia as mulheres e afasta os homens de qualquer parceria. Criar a imagem de homens abusadores em potencial é injusto diante da gigantesca maioria de homens que jamais cometeram qualquer ato de violência contra as mulheres.Propagar mitos como se fossem verdades cristalinas acaba por revelar muito mais as dificuldades de quem os dissemina do que as fantasias de quem é acusado.  

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Teses

Apesar de todos os prognósticos apontando a França como campeã da Copa do Mundo 2026, a Espanha acaba de bater o favorito time de Didier Deschamps. Quem viu o jogo percebeu que a vitória não foi ocasional; a Espanha foi melhor, mais efetiva, mais agressiva e novamente sua defesa impediu os ataques da seleção francesa. Mais uma vez sua defesa não foi vazada. Mas o que podemos agora fazer com todas as teses criadas sobre o poderio tático e técnico superior da seleção francesa? Como adequar nossa perspectiva à realidade material do confronto? Agora todos os prognósticos francófilos vão cair na lata de lixo da história, assim como todos aqueles que artigos sofisticados escritos sobre as fragilidades e incompetências da seleção brasileira… quando foi campeã.

No entanto, o que seria da profissão de críticos de futebol se não fossem as “teses”, as explicações complexas sobre as vitórias e – em especial – as derrotas. Já li pelas redes sociais que o problema do fracasso da seleção canarinho foi a emergência das igrejas evangélicas no Brasil. Outra tese é de que termos jogadores que jogam no exterior é o grande obstáculo. Outra perspectiva é a mudança de um esquema europeu e o desprezo pelo “futebol brasileiro” – seja lá o que isso signifique. Ou então, nossos jogadores são ricos e não se interessam mais pelo Brasil – só pelo que ganham da publicidade e nos seus clubes. São tantas as explicações que fica claro que, existe uma tendência frenética e angustiante de colocar o fracasso de um time numa linha de causalidade. Isso nos permitiria entender as razões da derrota, para poder prever e prevenir um novo desfecho ruim. A gente só não consegue prever o acaso, mas o que seria do futebol sem ele? Nossa compulsão para interpretar qualquer coisa e dar-lhe um sentido transcendental é evidente no futebol. Esta semana, após nossa saída precoce da disputa, li aqui no Facebook as interpretações criativas (e oportunistas) das palavras proferidas por Neymar para Nyland, o goleiro da Noruega, antes – e depois – de bater o penalty, no apagar das luzes do jogo que nos desclassificou. Uma das interpretações – de uma moça de direita que desejava exaltar o garoto Ney – falava que aquelas farpas trocadas com o goleiro eram uma “aula de identidade”. Sério?

Identidade? Sério que é possível fazer uma tese rebuscada sobre um bate-boca de boleiros antes da cobrança de um penalidade máxima? Onde conseguiram enxergar naquela rápida troca de provocações um exemplo de identidade? Para a minha vã filosofia, aquela discussão foi apenas o resultado de um ego ferido, a cabeça quente do nosso jogador por ter perdido mais uma Copa. E Neymar, como sempre faz, falou por si mesmo, e não como brasileiro, como líder do seu time ou representante da sua “identidade” – seja ela qual for. “Comigo não”, foi o que disse. Ou seja, “você aí, grandão, pode debochar dos meus colegas e pode rir da tristeza deles, mas comigo não vai zoar”. Eu chamaria isso de individualismo, mas não acho justo julgar de forma muito dura um sujeito profundamente frustrado com o fracasso – mais um – da nossa seleção. Seria cruel exigir que Neymar tivesse uma postura diferente daquela de qualquer outro ser humano diante desse drama.

É muito bizarro tentar achar nessa troca de farpas algo muito bom, virtuoso e patriótico. Também é exagero tentar achar algo errado, muito ruim ou negativo. Isso é forçar uma narrativa de forma inconsequente e forçada. Até onde consegui ver foi apenas um desabafo depois de um jogo tenso. Entretanto, se ele tivesse dito “chupa” ou “vai buscar”, como eu mesmo cansei de gritar quando fazia gols no futebol de rua, imagine as interpretações que surgiriam por aí. Até teorias sexuais catastróficas e comprometedoras apareceriam.

Menos gente, menos…

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Direita e identitarismo

Muitas pessoas à direita do espectro político, por falta de educação adequada e estudo mais aprofundado, confundem o identitarismo com “comunismo”, porque ignoram que, pelo contrário, o comunismo é uma poderosa arma anti-identitária. Basta estudar a Revolução Soviética para entender que o acesso das mulheres a todos os postos da sociedade se deu pela revolução socialista, e não por meio de leis discriminatórias e muito menos pela segmentação da nossa sociedade em “tribos” onde a lei vai ser aplicada de forma seletiva. Tudo isso ocorre porque a direita e os conservadores confundem a luta em favor de parcelas desfavorecidas da sociedade capitalista com a defesa de identidades, o que é um grande erro. O identitarismo é um projeto conservador, que invadiu o campo da esquerda usando essa confusão. O identitarismo enfraquece a luta de classes e coloca no seu lugar a luta identitária, que fragmenta a classe operária e impede a união de classes, fortalecendo o imperialismo e as mazelas sociais produzidas pela brutal concentração de renda inerente ao modelo capitalista.

Tal confusão é uma pena. Como sempre, a direita mais raivosa escuta o galo cantar, mas não sabe de onde. Reconhece como importante a luta contra o identitarismo, por ser contrária à sua perspectiva individualista. Entretanto, não consegue perceber o quão reacionário o identitarismo é, e confunde isso com o comunismo, a libertação do proletariado e a luta de classes. Pergunta: quem promove o identitarismo no mundo todo? A resposta pode ser acessada com dois ou três cliques do mouse: Open Society Foundations do mega investidor George Soros. Financia iniciativas de direitos humanos, democracia, igualdade racial, direitos LGBTQ+, direitos de migrantes e justiça criminal em dezenas de países. Ford Foundation – Investe em projetos de justiça social, igualdade racial, direitos das mulheres, inclusão econômica e fortalecimento da sociedade civil. MacArthur Foundation – Apoia projetos voltados para direitos humanos, justiça social e combate à desigualdade. Arcus Foundation – Uma das principais financiadoras globais de projetos voltados aos direitos LGBTQ+. Gill Foundation – Atua principalmente no financiamento de iniciativas em defesa dos direitos LGBTQ+. Robert Wood Johnson Foundation – Financia pesquisas e programas sobre equidade em saúde e redução de desigualdades. Ou seja: as grandes instituições capitalistas financiam projetos identitários de mulheres, negros, trans, etc.

Curiosamente, a direita acredita erradamente que os comunistas apoiam o identitarismo porque colocamos “um celofane verde na frente dos olhos”. Entretanto, não percebem que a leitura errada que fazem de Marx é exatamente pela ideologia, que nada mais é do que essa lente esverdeada que usam para traduzir a realidade, partindo de uma posição conservadora, anti-popular e capitalista. Aliás, Millôr Fernandes estava certo quando dizia, “o mundo esta cheio de canalhas, mas só na mesa do lado”. Só os outros usam viseiras, só os outros são manipulados por ideologias; já nós temos a visão cristalina do mundo. Será mesmo?

Para a direita a solução para problemas como a violência doméstica é muito simples: o endurecimento das penas. Assim, a direita demonstra que, na verdade, não possui nenhum apreço pela ciência. Acusam os comunistas de recusarem a solução de aumentar penas somente para “agudizar as contradições”. Que tolice!!! A razão para não engrossar o coro punitivista é porque o aumento de penas proposto (em especial por identitários) e a judicialização dos preconceitos cientificamente não funcionam!! Veja o erro dos “3 strikes” do governo Clinton, o aumento exponencial da massa carcerária braseira (inclusive nos governos do PT) e a inutilidade da banalização dos aprisionamentos. Nenhum balizador dos índices de criminalidade diminui com a proposta de colocar na multidões na cadeia. Basta mostrar os resultados pífios da Lei Maria da Penha na violência doméstica ou o resultado que se conseguiu com o aumento de penas para frear o aumento de feminicídios. O resultado foi paradoxal: a violência doméstica aumentou, tanto de homens quanto de mulheres. Por isso que a viseira moralista, impede que se enxergue a realidade, pois o endeusamento do modelo capitalista se comporta, efetivamente, como uma religião individualista.

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Sionismo colorido

Quem fica muito ligado nas redes sociais mais politizadas – com menos selfie e fotos de pratos em restaurante – deve ter percebido a avalanche de publicidade sionista que tomou conta das “timelines” de todo mundo. Trata-se de material cujo objetivo é desviar a atenção do massacre contra o povo palestino perpetrado pela ocupação sionista. A tática é, na verdade, bem conhecida. Realizam-se ataques ao islamismo, ao Irã, aos jornalistas, à ONU, à Francesca Albanese e, nos últimos tempos, aos humanistas da “undécima hora”, os convertidos que não querem deixar o apoio ao genocídio como legado e querem desligar sua imagem do governo assassino de Israel. O objetivo é criar a ideia de que existe uma ameaça muçulmana contra o ocidente, que os palestinos estão fingindo suas mortes ou que aqueles que acusam Israel são, na verdade, antissemitas.

Entre os alvos principais estão Tucker Carlson, Candace Owens, Jackson Hincle e até Piers Morgan, que se rendeu às evidencias de crime contra a humanidade. Todos estes são conservadores, “MAGA arrependidos”, que estão cansados de apoiar um governo responsável pelas mortes de milhares de crianças, mulheres e jovens palestinos. Isso sem falar nas personalidades judias que há muitos anos se opõem à barbarie de Israel na faixa de Gaza e na Cisjordânia. Entre eles Noam Chomsky, Norman Finkelstein, Miko Peled, Max Blumenthal, Gideon Levi e tantos outros. Agira suas vozes são desmerecidas e silenciadas, mas o montante de evidências é tao gritante que não há mais como esconder o volume de corpos e os gritos de dor do povo palestino.

A máquina de propaganda sionista – Hasbara – trouxe um comandante brasileiro das forças sionistas para fazer propaganda de Israel no Brasil. Sua fala é puro negacionismo, como se não houvesse provas contundentes das execuções, da morte intencional de crianças, inclusive com o depoimento dos líderes políticos da nação a favor do completo extermínio da população de Gaza – seja de fome ou na bala. Sua fala nas redes sociais é patética.

A imagem de Israel está destruída. O isolamento foi inclusive reconhecido por J. D. Vance, ao afirmar que os Estados Unidos é o único país do mundo que ainda apoia Israel. Mesmo que de forma pouco contundente, ao meu ver, os países todos estão se afastando da imagem criminosa de Israel, procurando se distanciar dos crimes e do genocídio que ocorre na Palestina. Entretanto, ainda é preciso muito mais. O Brasil precisa adotar a postura firme de romper definitivamente com Israel. Discursos inflamafos do presidente usando palavras duras, são insuficientes. Israel vai cair pelo sufocamento produzido pelas nações do mundo inteiro. Os Estados Unidos não vão aguentar serem controlados pelo dinheiro de Israel por meio do AIPAC, usado para comprar políticos. Isso vai acabar.

Isso precisa acabar.

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Indignação

Vejo alguns influencers da direita brasileira reclamando das dificuldades de manter um partido à direita do espectro político, de ideias conservadoras, com a enfase na família, propriedade e religião. Dizem ser muito caro, que encontram resistências legais, que sofrem processos, etc…

Sim, é engraçado ler isso. Imagine como é para nós, do PCO, que não temos nenhum empresário interessado em nos ajudar economicamente para comprar nossa consciência – e votos – no parlamento. Sério que perceberam que democracia liberal não funciona? Mas isso as vezes me deixa com um ouco de esperança. Essa turma da direita ainda conseguem se indignar, e o conformismo da esquerda liberal é muito mais paralisante. Infelizmente esses jovens ainda não sabem – ou ainda não perceberam – que o sistema que apoiam é o real problema do planeta. O capitalismo, a propriedade privada dos meios de produção e a sociedade de classes produzem a destruição do planeta, e são projetos que precisam ser suplantados.

Infelizmente a direita ainda acredita nos mitos da guerra fria e, em nome de uma liberdade ilusória, atacam os projetos de emancipação da classe trabalhadora. Mas, assim como Israel sobreviveu por quase 100 anos por meio de propaganda e lavagem cerebral, o capitalismo também resiste e se mantém por aparelhos – o controle da mídia. Apesar disdo, sua desaparicao, assim como o modelo supremacista sionista, é uma questão de tempo. A propaganda um dia se esgota e a verdade vem à tona. O fim da sociedade de classes, a equidade e a fraternidade dos povos, por fim, será nossa vitória.

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Dor e luto

Eu entendo a dor, sei o quanto essa geração viu a importância da seleção brasileira decrescer no grande cenário mundial nos últimos 24 anos. Sei quanto dói perder para um país que tem a mesma população de alguns bairros de São Paulo. Porém…

Os ataques aos jogadores são injustos, porque nossos atletas são apenas comuns. Neymar é o nosso último craque excepcional e ele sofreu demais com as seguidas lesões, a falta de continuidade na equipe e também o excesso de dinheiro que nós pagamos a ele, assim como pagamos a todas estas estrelas. Quando o dinheiro de contratos e negócios paralelos é obsceno, e o futebol se torna apenas a vitrina que eles usam para vender seus produtos – entre eles as BETs – a fome passa. Como já dizia Renato Portaluppi, “só se joga com fome”, e por isso garotos de apartamento não prosperam no futebol. Da mesma forma, meninos milionários perdem o principal combustível para a excelência.

Uma análise mais ponderada por fim vai reconhecer a mediocridade dos nossos jogadores, a falta de talentos que desmontam nosdiscadversários e que possam decidir uma partida, assim como fizeram Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, etc. Não temos um Messi, um Mbapé ou um Haaland no nosso time, que decidem um jogo na única bola que recebem. Tivemos o jogo nas mãos por duas vezes contra os noruegos e não conseguimos marcar, por falha dos atacantes. Incapacidade? Inexperiência, talvez.

A maturidade também vai surgir quando pararmos de criticar a personalidade de Neymar para justificar nossos fracassos em campo, usando para isso seu bolsonarismo, seus negócios e seu comportamento. Ele estava na seleção para jogar bola, e não numa seletiva para genro. Mas eu sei exatamente como é essa dor, por isso vou aguardar que o luto passe e comecem a surgir as análises mais serenas e mais racionais.

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Tudissquitaí

Já repararam como a direita do mundo todo usa sempre a mesma narrativa? Os ataques à esquerda sempre são moralistas, ad hominem, violentos quanto às virtudes inexistentes, jamais estruturais. Além disso, nesses ataques a culpa é sempre do “sistema”, como se eles não representassem o próprio coração do sistema capitalista. Nos últimos dias manifestações ocorreram na Europa patrocinadas pela extrema direita e prometendo acabar com os políticos e o “sistrema” a quem eles obedecem. Mas, afinal, o que querem dizer quando afirmam que o povo está “reagindo ao sistema”? Por que esse ataque à “classe politica” surge como um mantra, repetitivo e até enfadonho, a fórmula clássica de ataque da direita? Por que a direita, para atacar a própria expressão da politica, usa o refrão de que “todo político é ladrão”?

A razão é simples: a política é a única e frágil salvação que as pessoas têm para resistir ao controle absoluto do capitalismo. Por mais defeituosa que seja, a política ao menos oferece a ilusão da participação do sujeito nas decisões do Estado, mesmo que pelas vias tortuosas da representatividade. Lembrem: políticos precisam de votos e podem ser excluídos pelo voto. Cadeiras no parlamento ainda precisam da escolha popular através do voto. Um presidente é escolhido dessa forma e com ele sua política e perspectiva de governança. Agora, digam qual foi a última vez que alguém votou para eleger o presidente da Meta, da Amazon, ou mesmo das Americanas!! Nunca, não é?

Pois é exatamente isso que a extrema direita deseja: um mundo controlado por corporações transacionais, onde o povo perdeu todas as razões objetivas para escolher representantes. Nesse mundo distópico de direita, controlado pelo capital, o Estado é tão diminuto e insignificante que de nada serve o seu voto, pois tudo seria dominado pela casta dos proprietários, dos burgueses, dos donos de tudo. O povo só poderia trabalhar, olhar, chorar e morrer; afinal não há como mudar o mundo privado.  A utopia capitalista seria materializada num tecno-feudalismo com classes sociais estanques e pétreas.

É por esta razão que tantos representantes da direita atacam o “sistema”. Na verdade, para eles o “sistema” é a própria democracia burguesa, o voto, as instâncias populares e a possibilidade de escolher representantes. Mesmo com todas as falhas das eleições e da escolha pelo voto, ainda assim essa possibilidade surge como uma ameaça ao totalitarismo ultra direitista. Estes se referem à “classe politica” com desdém porque odeiam qualquer anteparo democrático que exista entre a burguesia, suas posses e a riqueza produzida por todos nós. Quando você escuta um bolsonarista dizendo “tem que mudar tudissquitaí” ele, no fundo, está se referindo ao projeto direitista de eliminar seu direito participar do jogo.

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