Os direitistas não conseguem entender qualquer tipo de organização social sem um dono, não é? Para estes, a fraternidade e a justiça social são utopias sem sentido. O mundo precisa ter imperialismo, Cuba necessita um dono que cumpras as ordens da Matrix. O mesmo com a China e a Coreia Popular. O mundo é determinado pelo imperialismo e o Brasil também deve se subordinar. A América Latina, com sua gente escura, merece ser o quintal americano; é o que determina nosso “destino manifesto” de inferioridade. Somos escravos por natureza, e eles – os brancos ricos e europeus – nossos mestres e donos. Mais além, qualquer país que se rebelar contra essa ordem será estrangulado, e os outros países devem aplaudir a crueldade dos nossos donos.
Olhem que curioso: Cuba, Vietnã e Coreia Popular são comunistas. Venezuela, Palestina e Irã são capitalistas. Entretanto, todos estes são atacados severamente pelo imperialismo americano porque compartilham um elemento em comum: não se ajoelharam diante do imperialismo, não se venderam, traçaram seu próprio destino, não se curvaram ao poder imperialista e romperam com a postura de vassalagem. É isso, e não o sistema econômico (como pode ser facilmente visto), o que torna um país uma “ditadura” e seus soldados “terroristas” (ou “traficantes”, dependendo do interesse).
O problema no Brasil é que por questões culturais, e por uma classe média entorpecida e reacionária, ainda não criamos no nosso povo a chama revolucionária para expulsar os interesses imperialistas do nosso país. Enquanto isso, continuamos atrasados, produtores de soja, desindustrializados, reféns do agro e constantemente ameaçados por militares tolos, corruptos e incompetentes.
Eu tenho inveja do povo do Irã, de Cuba, da Coreia Popular e da Palestina. Apesar das suas dificuldades e contradições, são cidadãos de países adultos, enquanto o Brasil continua em sua infinita adolescência, incapaz de sair de casa por medo de enfrentar a vida adulta.
Não concordo com a proibição dos jogos. Por questões de coerência, quem é contra a criminalização das drogas não poderá aceitar a proibição do jogo, mesmo reconhecendo que se trata de vício, e muito destrutivo. Jogo, para algumas almas mais frágeis, é um vício, tão perigoso para a saúde quanto algumas drogas poderosas. Sou contra qualquer jogo de azar, mas assim como proibir as drogas não funciona, e não funcionou com as bebidas há 100 anos (lei seca), o único resultado certo a partir da proibição dos jogos será o ressurgimento dos jogos ilegais e irregulares. Isso é pior do que jogo legalizado. A proibição da venda e comercialização de bebidas nos Estados Unidos deveria ter nos ensinado algo sobre este tipo de medida. A chamada Lei Seca (Prohibition) nos Estados Unidos vigorou nacionalmente de 1920 a 1933, a partir da 18ª Emenda e do Volstead Act, proibindo a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas. Embora tenha provocado inicialmente uma forte redução do consumo — estimativas econômicas indicam queda para cerca de 30% do nível anterior, seguida de recuperação para 60–70% ainda durante a proibição —, a medida criou um vasto mercado clandestino, com contrabando, bares ilegais (speakeasies) e expansão de organizações criminosas que lucravam com a produção e distribuição de álcool.
Como se pode ver, mesmo que a ação inicial seja uma diminuição nos jogos, a reação do público acaba trazendo as taxas de consumo para muito próximo dos níveis anteriores à lei. Mas, se não for pela simples proibição, qual poderia ser a solução? Bem, podemos encarar de várias maneiras, sendo a mais efetiva o fim do capitalismo. Mas, antes disso, podemos restringir ao máximo o acesso aos jogos. É possível, por exemplo, colocar o imposto muito alto (como no cigarro, que chega perto de 80%), estabelecer um controle máximo de gastos pessoais por CPF, impedir jogo para menores de 21 anos, impedir publicidade ostensiva, etc. E, acima de tudo, educar as pessoas para que entendam o real sentido do jogo.
Essa é a peça mais importante. Nos jogos de azar o que se comercializa é a ilusão de ganhar dinheiro sem trabalhar, a ideia de enriquecer por um ato de sorte. Mais do que o problema na economia doméstica, a falência, as dívidas e a dissolução de famílias, a disseminação do jogo estimula as pessoas a acreditarem no ganho fácil, pela graça divina, sem ter o trabalho e o esforço pessoal como fundamentos. Quem apoia o trabalho, o salário ganho com o suor do rosto, não pode apoiar essas armadilhas liberais. Sim, eu sei do efeito deletério que as apostas têm sobre o futebol e outros esportes. Sei o quanto a jogatina desenfreada pode colocar a disputa honesta em perigo. Ainda assim, mesmo sabendo que mais escândalos podem ocorrer, sou obrigado a reconhecer que proibir é uma péssima – e inefetiva – solução.
“Proibicionismo é a política de proibir legalmente a produção, venda, posse ou consumo de determinadas substâncias ou práticas, geralmente com o objetivo de reduzir seu uso e seus efeitos sociais“. O termo é usado sobretudo em relação às drogas, mas também pode se referir à proibição do álcool, jogos de azar, prostituição etc. Porém, a história das legislações restritivas nos permite afirmar que a simples proibição dos jogos virtuais não vai vais funcionar – mais uma vez. O proibicionismo, sobre qualquer tema – prostituição, drogas, cigarro, jogo, partidos políticos – é um fracasso em todas as épocas da humanidade. Bebida foi proibida, o Partido Nazista foi cancelado e os abortos severamente restringidos. E todos eles estão aí, ilegais ou legais. Não se combate proibindo, mas educando.
Eu comecei a escrever sobre a Palestina há uns 15 anos, quando tudo era mato no debate público do Oriente Médio. Claro, não entre os intelectuais e ativistas originais, mas na opinião pública e nas mídias sociais nascentes. Eu era adolescente quando ocorreu a guerra do Yom Kippur, e os meus colegas de escola tratavam Moshe Dayan como um “herói contemporâneo” de histórias em quadrinhos, com aquele tapa-olho de piratas. Levariam ainda 30 anos para eu descobrir que ele era um monstro. Na minha juventude, defender os “terroristas” da Palestina, que atacavam Israel com suas bombinhas feitas em casa, ainda era considerado uma heresia. Afinal, Israel era a única democracia no Oriente Médio, “a villa in the jungle“, como eles mesmos se declaravam, ou as “flores que brotam no deserto”. Os palestinos não passavam de fanáticos muçulmanos, que sacrificavam a si e aos seus filhos em nome de suas ideias religiosas obscuras e imorais. Nesta época assisti um documentário sobre a Palestina onde um interlocutor inglês dizia, referindo-se aos palestinos: “É impossível debater com fanáticos”.
Todavia, essas definições nunca foram suficientes para mim. Alguma coisa me incomodava na descrição que faziam do problema e dos habitantes da região. Civilizados contra fanáticos; pessoas de bem contra terroristas. Um grupo de pioneiros que retorna para “sua terra” e é atacado por gente primitiva e ignorante que os agride por “antissemitismo”. Homens maduros que usam seus próprios filhos como “escudos humanos“. Havia algo de estranho nessa definição pasteurizada e maniqueísta. Apesar das opiniões serem muito negativas em relação aos palestinos, eu me perguntava: o que faz um sujeito tirar a própria vida em nome de uma ideia? Seria possível usar os filhos para se defender? Quem faria isso? As mães palestinas não amam seus filhos? O que faz esse povo continuar lutando apesar da imensa disparidade de forças e o suporte que seus adversários recebem da maior potência do mundo? O “fanatismo” explica isso?
A resposta para estas perguntas e minha mudança interior iniciou-se quando fui convidado a comparecer ao Festival Internacional de Cinema no Rio de Janeiro para acompanhar minha amiga Debra Pascali-Bonaro, que apresentaria “Orgasmic Birth“, o filme que ela produziu e no qual fiz uma pequena aparição. Depois da nossa apresentação no festival eu assisti a entrevista de um diretor libanês que estava apresentando um documentário sobre a guerra de resistência do Líbano contra Israel. O documentário se chama “Entre deux Fronts” O tema é justamente a retirada israelense do sul do Líbano em maio de 2000 e a situação que se seguiu, com o Hezbollah assumindo o controle da região e antigos membros do Exército do Sul do Líbano (aliado de Israel) ficando frente a frente com integrantes do Hezbollah. Eu fiquei impactado com a descrição daquele diretor, pois pela primeira vez eu havia visto um sujeito da região falando da luta do seu povo contra um agressor. Eles pareceram, pela primeira vez, pessoas humanas, indignadas e com um propósito nobre. Não tinham jeito de fanáticos.
Depois disso comecei a ler sobre o assunto. Consegui baixar um documentário chamado “Cinco Câmeras Quebradas“, sobre um palestino que usava uma câmera para gravar o cotidiano de humilhações, agressões, violência, medo e abusos que os palestinos eram obrigados a suportar em Gaza e na Cisjordânia. O título se refere às câmeras quebradas pelos israelenses durante a produção de seu documentário caseiro. Depois de assistir este filme a minha cabeça já estava completamente transformada, e pela primeira vez eu me sentia na pele do povo que lutava em nome da própria soberania contra os ataques de potências ocidentais – como Israel. E foi então que tive a experiência, pela primeira vez, de ser chamado de “antissemita”, apenas por fazer perguntas e por defender a autodeterminação do povo palestino. Mal sabia eu que essa marca, tatuada na testa de quem ousa questionar o supremacismo sionista, é feita para dar a quem a usa uma marca moral de degradação.
Cabia para mim a pergunta: por que eu nunca havia visto ou escutado esta história na perspectiva dos povos ocupados? Por que nunca ninguém me contara a história da Palestina na visão das pessoas que moravam lá e que foram expulsas pelos colonos europeus que chegaram por meio do movimento sionista do início do século XX? Por qual razão a perspectiva dos oprimidos sempre foi silenciada? Nesta época de efervescência eu conheci o documentário “Reel Bad Arabs – How Hollywood Vilifies a People” e a estigmatização fabricada dos árabes começou a fazer sentido. Depois que eu descobri que eu havia sido enganado a vida inteira é que surgiram personagens como Schlomo Sand, Miko Peled, Norman Finkelstein, Max Blumenthal, Gideon Levy e Ilan Pappe. Eu não estava sozinho em minha inquietude.
Daquele dia em diante perdi o medo de ser acusado de “antissemita”. Se essa palavra significava lutar pela liberdade do povo palestino, para que eles reconquistassem a sua dignidade e sua terra, então eu não mais me importaria de ser tratado dessa forma. Hoje podemos perceber que essa ofensa perdeu completamente o valor; de tanto ser usada para calar dissidências ela virou palavra morta, um xingamento sem sentido. E o mundo inteiro hoje se levanta para celebrar um mundo onde a Palestina estará, finalmente, livre do sionismo.
Hoje (18/09/2026) foi publicada na Internet uma manifestação dos clubes brasileiros em defesa das BETs. Clubes da Série A e federações de futebol se mobilizaram contra a possibilidade de o Governo Federal proibir os jogos de cassino on-line, argumentando que uma mudança brusca na regulamentação das apostas teria forte impacto financeiro no futebol brasileiro. As BETs autorizadas investem mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios, beneficiando desde grandes clubes até equipes menores, futebol feminino, categorias de base e projetos sociais. No manifesto, as entidades reconhecem os riscos sociais associados às apostas e defendem maior fiscalização, prevenção e proteção aos consumidores, mas sustentam que a regulamentação é preferível à proibição, pois permite tributação e controle das empresas e combate às plataformas clandestinas, para as quais, segundo elas, os apostadores poderiam migrar caso o mercado legal fosse restringido.
O manifesto dos clubes brasileiros tem razão em alguns pontos, em especial ao dizer que poderia haver uma quebradeira nos clubes. Há contratos firmados com as BETS e muitos contratos de jogadores caros, comprados no exterior, estão ligados às receitas que seriam esperadas com tais contratos. É claro que estes aspectos não podem ser desconsiderados. A bancarrota de clubes tradicionais do Brasil, que fazem parte da malha de sustentação da cultura brasileira, e aquilo que nos define na mente de milhões de estrangeiros, não pode ser algo visto como positivo. Não se trata, portanto, de utilizar um remédio que, de tão forte, viesse a matar o paciente. os clubes brasileiros, em sua maioria, estão com situação financeira calamitosa, e o dinheiro das BETs ajuda e diminuir o impacto dos desastres financeiros causados por seus dirigentes.
Entretanto, enfrentar os assaltos a banco e prender os criminosos que os promovem também deixa muitas famílias em necessidade. Não há como justificar as BETs apenas porque ela ajuda o futebol a pagar suas contas. Existem inúmeros estudos mostrando o desastre que as apostas causam nas famílias do Brasil. O Banco Central estimou que, apenas entre janeiro e agosto de 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros fizeram apostas on-line, movimentando aproximadamente R$ 20,8 bilhões por mês. O problema é especialmente grave entre famílias de baixa renda: análise do TCU encontrou cerca de 802 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família que, em janeiro de 2025, comprometeram mais de 2% de sua renda com apostas, faixa considerada de alto risco para despesas essenciais e endividamento. Além da perda financeira, o Ministério da Saúde relaciona o jogo problemático a endividamento, conflitos e rompimento de vínculos familiares, problemas de saúde mental, perda de emprego e maior risco de suicídio, estimando, com base na literatura científica, que cada pessoa que desenvolve transtorno do jogo pode afetar outras seis ao seu redor. A preocupação tornou-se suficientemente grande para que o governo passasse a impedir beneficiários do Bolsa Família e do BPC de manter contas nas plataformas licenciadas; até agosto de 2026, cerca de 3 milhões de beneficiários haviam sido bloqueados.
Há um outro fator importante. Quanto mais dinheiro é envolvido nas apostas maior será a sedução para alterar o resultado dos jogos para favorecer apostadores. O aspecto particularmente preocupante da era das BETs on-line é o spot-fixing: não é mais necessário combinar quem vai ganhar ou perder a partida. Um jogador pode manipular algo aparentemente secundário — tomar um cartão, cometer uma falta, provocar um escanteio ou alterar uma estatística individual — e isso já pode movimentar apostas. Foi justamente esse modelo que apareceu com força na Operação Penalidade Máxima brasileira. Inúmeros jogadores e clubes estiveram envolvidos em escândalos dessa natureza, e as absolvições de alguns deles certamente passa por uma ação paternalista da justiça com clubes de enorme torcida. Entre eles temos Bruno Henrique (Flamengo), Ivan Toney (Inglaterra), Sandro Tonalli (Itália), Alef Manga (Coritiba) e muitos outros, inclusive de equipes menores que sequer tomamos conhecimento. E isso não ocorre apenas no futebol; no Beisebol ocorreram escândalos semelhantes. No Chicago White Sox, em 1919, oito jogadores foram acusados de participar de um esquema para entregar partidas da World Series para o Cincinnati Reds. Todos foram banidos. Também no basquete, onde Jontay Porter em 2024 foi banido da NBA por passar informações confidenciais a apostadores sobre o próprio desempenho.
Eu também sou contra o proibicionismo. Acho que devemos dar a liberdade às pessoas para que estas façam escolhas informadas sobre seu destino – inclusive seu dinheiro. Entretanto, vejo na questão das BETs um fenômeno parecido com aquele que eu testemunhei há mais de 30 anos quando cortaram a publicidade do cigarro da Formula 1 e posteriormente das televisões. Isso acarretou um lento e sustentado declínio do tabagismo, que se sustentava não por uma adesão livre do sujeito ao cigarro, mas por um massacre de propaganda e vinculação desse hábito com o “sucesso”. Bastou cortar a fonte de publicidade e o consumo de cigarros iniciou seu declínio, o que causou uma melhoria importante na taxa de mortes por câncer de pulmão. A logica é que se percebe na reação dos clubes pelo temor que o novo governo possa obstaculizar as BETs é exatamente essa. Lembro do Armindo Antônio Ranzolin, radialista e dirigente da ABERT nos anos 90, lendo uma carta aberta da sua associação onde se posicionavam de forma veemente contra a proibição de propagandas de cigarro na TV. Veja, não tiveram sequer escrúpulos para defender propaganda de cigarro, que matava milhões no mundo todo, um veneno reconhecido há décadas. A grana do cigarro deixou de fluir, e o mesmo poderá acontecer com as BETs.
O futebol está sendo sustentado por gente doente, apostadores que vendem a alma pelos seus vícios. Não existe “diversão” em apostar; esta é uma mentira vendida para disfarçar os mecanismos psicológicos que prendem um sujeito ao jogo. Devemos permitir que isso aconteça? Podemos considerar que a opção por jogar é uma opção livre? Podemos desconsiderar a pressão da propaganda massiva sobre a população? É lícito não reconhecer o efeito hipnótico dos ganhos fáceis em uma população massacrada pela barbárie do capitalismo decadente? Ou devemos escolher uma opção sanitária, baseada na diminuição dos danos, constrangendo os empresários de apostas que se aproveitam do desespero da população para lucrar? Cabe salientar o momento em que esta campanha veio à tona: um mês antes das eleições. Os dirigentes de futebol do Brasil são em sua imensa maioria pertencentes às classes mais altas, e muitos deles são do partido de direita do ex presidente Bolsonaro. Não existiria aí a intenção de colocar as torcidas do Brasil contra a esquerda, que por muitas vezes cogitou ações contra o “Império Milionário das BETs”?
O fim das BETs provavelmente traria uma convulsão no mundo do esporte, mas com o tempo o futebol se adaptaria. Talvez tenham que pagar menos de 2 milhões mensais para técnicos importados da Europa. É possível que alguns jogadores tenham seus salários cortados pela metade ou bem menos. Mas com o tempo isso seria bom para o futebol.
Os dois cineastas israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor, que produziram o documentário NAZA, já opdem ser considerados heróis contemporâneos. NAZA (2026) é uma investigação sobre o funcionamento interno da máquina militar e de inteligência de Israel durante a guerra em Gaza. Construído principalmente a partir dos depoimentos anônimos de 24 integrantes e ex-integrantes das forças armadas e dos serviços de inteligência israelenses, o filme revela como sistemas de vigilância, inteligência artificial e critérios burocráticos são empregados na seleção de alvos para bombardeios, incluindo cálculos prévios do número de civis que poderão morrer — justamente a ideia expressa pelo termo militar “NAZA”, relacionado às baixas civis esperadas. Filmadas discretamente, muitas vezes à noite em telhados de Tel Aviv, as entrevistas descrevem decisões tomadas diante de telas, nas quais casas habitadas e famílias inteiras podem ser reduzidas a números e parâmetros operacionais. Em vez de recorrer principalmente a imagens gráficas da destruição, Abraham e Szor concentram-se na burocratização e desumanização da violência, mostrando como pessoas comuns passam a funcionar como pequenas peças de um sistema capaz de produzir mortes em escala industrial. É inegável seu esforço em expor para o mundo as imagens do genocídio que ocorre na Palestina. Seu filme mostrou a podridão da sociedade israelense, a depravação racista e supremacista do sionismo. Centenas de jornalistas, pensadores, historiadores, intelectuais e ex-soldados do IDF há décadas nos alertam para os crimes de Israel, mas nada como um documentário feito por judeus israelenses para trazer aos nossos olhos depoimentos dos próprios criminosos, confessando seus delitos. Ambos provaram, com imagens e documentos, a matança vergonhosa de Israel e a psicopatia dos seus governantes.
O filme, pela reação do público no Festival de Veneza (25 minutos de aplausos, um recorde) e pela repercussão internacional parece ser um verdadeiro divisor de águas. Nas redes sociais só o que se fala é “quando chega aqui?”. A recepção mundial do documentário mostra que Israel está vivendo seus estertores, seu final aterrorizante e sua derrocada definitiva, ao mesmo tempo em que testemunhamos o despertar da consciência sobre o horror da sociedade de Israel. O apartheid, o racismo, o colonialismo, as expulsões de terras, as humilhações, o culto à morte, o assassinato de crianças, os massacres em campos de refugiados e nas filas por comida, as crianças queimadas vivas ou esfomeadas de propósito; nada disso poderia ser escondido eternamente.
O Nakba – a catástrofe da tomada da Palestina por sionistas europeus – não foi um fato ocorrido e circunscrito no passado, mas um evento em curso. A segregação, os muros, o racismo, a proibição de circular pelo próprio país dos seus ancestrais estão acontecendo nesse instante para os palestinos, agora mesmo, enquanto você lê este texto. O mundo acordou para a necessidade de exterminar o supremacismo de Israel. Não há mais como a civilização conviver com apartheid, etnocracias e colonialismo.
Já existem retaliações e ameaças dirigidas aos diretores do documentário, mas ao mesmo tempo mais de mil cineastas israelenses assinaram um documento em apoio aos colegas, ameaçados inclusive de serem expulsos de Israel. Mas, com o passar do tempo, os sionistas que serão penalizados pelos seus crimes, e o mundo inteiro se levantará contra o sionismo abjeto e criminoso que destrói milhares de vidas na Palestina. Malditos sejam aqueles que tentam normalizar ou justificar a morte de 20 mil crianças. Nem os piores nazistas aceitariam isso.
Eu também odeio essa classe média, e não me excluo dela. Eu a critico ferozmente até porque a conheço muito bem e faço parte dela. Ela é rasteira, pedante, medíocre, odiosa, preconceituosa e arrogante. É uma classe composta majoritariamente por pequenos burgueses, que se estabelece acreditando estar afastada dos proletários, a quem desprezam, e próxima dos burgueses, os donos, os proprietários, por quem são desprezados.
Costumo definir a classe média como um sargento que se acha superior aos seus comandados mas que, pela sua grossura, falta de refino e cultura, é desprezado pelos oficiais. Na perspectiva do sargento, ele se acha especial por não se misturar com a soldadesca, mas na visão do oficialato ele não passa de um militar bruto e mais velho, que os ajuda a controlar a massa de soldados.
A classe média tem uma carência crônica de consciência de classe. Suas escolhas no palco das lutas sociais sempre são oportunistas e ilusórias. Ao invés de se unir ao operariado na luta pela divisão equânime da riqueza produzida, a pequena burguesia prefere se unir aos opressores na ilusão de que eles a reconheçam como iguais. É o caso do médico, do advogado, do pequeno comerciante, do empresário, etc. Não por acaso, essa classe é profundamente reacionária, a base do bolsonarismo e da extrema direita.
Essa classe média que não olha para a sua própria natureza deve ser trocada com uma classe combativa, que deseja a mudança e que lute ao lado do operariado e do campesinato por uma revolução estrutural no Brasil.
Eu não acredito em Jesus e não tomo como verdade praticamente nada do que foi escrito sobre a vida dele.
Não reconheço a Bíblia como um documento histórico e não considero válida nenhuma das referências indiretas da sua existência. Acredito apenas que um judeu reformista de um grupo zelote tentou tomar o poder dos romanos durante a ocupação romana na Palestina. Sua proposta era mundana, política e violenta. Na minha visão particular (sujeita a críticas), Cristo é uma criação coletiva, surgida do campo simbólico da Europa de um pouco menos de 2 mil anos passados, com o gigantismo de Roma e suas conquistas e respondendo aos anseios e aspirações de uma grande massa de camponeses e os escravos que se dirigiram ao centro do poder imperial. Pouca ou nenhuma relação existe com o “Cristo real”, que perambulou pela palestina e foi morto pelos romanos por sedição.
Nada do que aparece no Novo Testamento atribuído a esse personagem, chamado Jesus, se refere realmente a ele. Foram textos escritos entre 50 e 90 anos após sua morte, por pessoas que não o conheceram pessoalmente, através de tradição oral e adaptados ao gosto e aprovação do poder central – os romanos. Colocar Jesus como um “mensageiro” de Deus, um “Avatar”, um profeta inserido num “plano divino” é a mais absoluta insensatez, e não resiste às análises mais simples. A história de Jesus foi escrita para dar conta da angústia dos operários e escravos de Roma. O cristianismo, em verdade, é uma ideia genial de Paulo. Esse personagem é o Edir Macedo de 2 mil anos atrás, ou semelhante ao que fez Billy Graham no evangelismo americano. Usou um personagem que não chegou a conhecer para criar uma religião (ou uma vertente) baseada nessa figura mítica – e irreal.
Continuar olhando para Jesus da forma como as religiões o fazem – incluída aí a “religião espírita” – nos vincula ao atraso e ao modelo dogmático das religiões. Para fazer o espiritismo evoluir é necessário romper essa barreira. A cristolatria estanca a evolução cientifica e filosófica do espiritismo.”
Tenho visto alguns pensadores questionando o vazio de sociedades espíritas, em especial a ausência de jovens frequentadores. Falam da violência urbana, problemas para estacionar, dificuldades variadas para o acesso. Entretanto, eles mesmos dizem que tais explicações não são suficientes para dar conta do fenômeno.
Minha visão desse problema talvez não agrade os próprios espíritas. Eu frequentei sociedades espíritas na época em que Dr. Fritz, Arigó, Chico Xavier, Gasparetto, João de Deus e depois Divaldo Franco eram ícones culturais. Roberto Carlos e outros artistas se diziam admiradores do espiritismo. A doutrina espírita estava “na crista da onda”. Era legal e charmoso ser espírita, algo que atraía intelectuais e artistas. Todavia, o espiritismo cristão, que cultura personalidades e se comporta como uma seita cristã reencarnacionista, está fadado a este destino: ser uma versão progressista do catolicismo. Nada mais do que isso. Esta alternativa não atrai mais a juventude como antes. Na sociedade contemporânea é muito mais sedutor para os jovens a versão evangélica, que se adapta de forma precisa ao modelo neoliberal, ao ethos capitalista e “desmoralizador” (isento de conteúdo moral) das vertentes pentecostais. Ninguém alcança sucesso e dinheiro no espiritismo, porém esta proposta está implícita no chamado das igrejas evangélicas. Os evangélicos assumiram – por méritos – a posição que o espiritismo tinha no imaginário social há 50 anos.
Perceba como a juventude espírita floresceu na minha época, final dos anos 70 e início das anos 80. Lembro bem das “tardes juvenis” com 200 jovens, e CONJERGS (congresso da juventude espírita do RS) lotadas de jovens de todo canto do Estado, mas começou a declinar exatamente com o surgimento das igrejas evangélicas, como a Igreja Universal do Edir Macedo. Ao meu ver, lá estão agora os antigos jovens espíritas, seduzidos pelas promessas de redenção da narrativa neoliberal que se iniciou com Reagan e Thatcher, exatamente nesta época, início dos anos 80. Por outro lado, qual o grande problema do vazio das instituições espíritas? O espiritismo não é uma religião, e muito menos uma religião de massas. Reclamar que somos poucos é o mesmo o que questionar porque as salas de música erudita estão vazias e os bailes funk estão sempre lotados. As razões são semelhantes: no primeiro uma proposta de estudo, aprofundamento de ideias, dúvidas, pesquisas, enquanto no segundo a sedução inescapável da vida fulgurante de som, dança, alegria e erotismo. Não há como competir. O espiritismo produz uma seletividade natural, e necessariamente minoritária na cultura.
Entretanto, as mudanças estão aí para serem, testadas Convocar pessoas para estudar espiritismo num sistema horizontal e aberto é um bom caminho, mas para isso a versão espírita laica e científica é a melhor (única?) solução. Para iniciar, seria muito bom abandonar o igrejismo, como alguns espiritas progressistas apontam. É fundamental se afastar da cristolatria espírita, das vinculações com as crenças místicas cristãs, assumir uma postura verdadeiramente universalista e que seja útil e compreensível a todas as culturas. Para além disso, é essencial estimular o estudo científico, o debate filosófico e abandonar a visão moralista que sempre caracterizou nossas instituições.
O ano era 1937. Na sala de estar da casa de paredes altas, o tempo parecia correr mais devagar, ditado pelo tique-taque do relógio e pelo chiado baixo de uma vitrola antiga. Alheia à severidade do pequeno busto de gesso de Beethoven que a observava de cima de um móvel, uma menina de apenas quatro anos esticou o braço por baixo do sofá. Buscava um brinquedo — talvez uma boneca de louça, talvez uma bola de couro. Ao recolher o membro com o objeto em mãos, o antebraço trancou-se contra a madeira maciça do móvel. O peso do próprio corpo forçou a articulação. Houve um estalido seco.
A menina não deu muita importância na hora. Voltou a brincar, ignorando a pontada incipiente. Mas a dor, silenciosa e persistente, fincou raízes. Dias depois, o braço começou a mudar de cor e a inchar de forma alarmante. O choro, antes contido, tornou-se evidente. Diante do inchaço crescente, seu pai, meu avô Olinto Blum, tomou uma decisão difícil. Naquela década, uma visita ao médico era um evento raro para um cidadão comum, um luxo ou um sinal de extrema gravidade.
Aflito, meu avô levou a filha até o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O diagnóstico dos médicos foi um golpe brutal: uma infecção profunda no osso — o que hoje a medicina presumiria ser uma osteomielite severa. Na era pré-antibiótica, sem a existência da penicilina para combater as bactérias, a infecção era uma sentença de morte por sepse. A única solução apresentada para salvar a vida da menina era a amputação imediata do braço esquerdo.
Arrasado e sem chão, Olinto deixou o quarto de hospital. Sentia-se esmagado pela culpa e pela impotência. Caminhou mecanicamente até a cafeteria da instituição, desabou em uma cadeira e ali ficou, tentando colocar os pensamentos em ordem enquanto o mundo desmoronava ao seu redor.
Foi quando um jovem médico, percebendo o sofrimento profundo daquele homem, aproximou-se. Com um gesto simples de empatia, convidou Olinto para tomar um café. No calor daquela mesa, o pai abriu o coração e relatou a tragédia iminente. O jovem doutor ouviu com atenção e se apresentou. Ele acabara de retornar do exterior, onde testemunhara o uso de uma técnica médica experimental na Europa: uma raspagem minuciosa do osso infectado combinada com a aplicação de substâncias antissépticas recém-descobertas. É provável que se tratassem das sulfonamidas, recém descobertas. Era uma aposta arriscada, dolorosa e cara, mas era a única esperança de manter o braço da menina. Olinto aceitou imediatamente. O tratamento esvaziou as poucas economias da família, mas funcionou. A menina preservou o membro, carregando para o resto da vida uma cicatriz vistosa no antebraço.
Anos mais tarde, já adulta, aquela menina explicava o infortúnio sob uma ótica espiritual profunda. Dizia que estava traçado que ela deveria perder o braço devido ao seu carma. Em existências passadas, em campos de guerra esquecidos pelo tempo, usara aquele mesmo braço para cometer atos condenáveis. Essas ações haviam gerado um escurecimento magnético, uma falha e uma fragilidade em seu envoltório perispiritual que se manifestaram fisicamente naquele acidente de 1935.
Contudo, ela sempre enfatizava: o carma não é um destino imutável, mas uma dívida. E a dívida pode ser amortizada. Pelas boas ações, pelos pensamentos elevados e pelos sacrifícios diários ao longo da vida, aquele resgate severo que exigia a perda de um membro foi sendo suavizado pelas leis maiores, transformando-se em uma infecção curada e em uma cicatriz vistosa.
Mas existe mais um elemento extra nessa história: como eu interpretei o acidente e sua explicação para ele. Pelo relato da minha mãe eu sempre achei que ter a mim como filho foi uma forma de saldar essa conta. Assim, minha mãe deve a mim a chance que teve de terminar seus dias com os dois braços. Minha existência em sua vida – arteiro e contestador – foi o peso que ela teve que suportar para amortizar sua dívida.