A atenção ao parto, com sua vinculação aos aspectos artísticos do acompanhamento , é um dom que algumas pessoas possuem? Para ser uma boa parteira ou doula é necessário ser tocado pela por uma especial magia que é interditada à maioria dos mortais?
Não acredito. É no mínimo complicado dizer que esta habilidade seria um dom – portanto, inato – algo que já vem com o espírito que nasce. Prefiro acreditar que se trata de um talento – adquirido pelo treinamento – o qual pode ser adquirido através da educação continuada. Eu pergunto: cantar é um dom? E escrever, pintar ou dançar? Eu concordo que essa é uma questão controversa, mas olhar uma qualidade especial como um dom inato ou um presente divino pode ter um efeito paralisante. “Ahhh, não vou cantar; não nasci com esse talento”. “Ahhh, não consigo enxergar no parto além disso limites do corpo real; nasci cego para sua transcendência”. Nahh, não vejo assim. Creio que essas habilidades podem ser mais do que aprendidas ou treinadas, mas “despertadas”, já que fazem parte da bagagem de sentimentos e emoções que cada humano traz ao mundo como bagagem. Posso aceitar que a excelência de Mozart, Da Vinci, Michelangelo pode demandar uma explicação mais espiritual, transcendente, para além dessa experiência terrena, mas não a nossa – de meros mortais.
Nossa vinculação às habilidades pessoais pode ser feita aqui e agora, e podemos aprendê-la (ou despertá-la) aqui mesmo, com as ferramentas que temos a partir das surpresas que o mundo oferece.
O universo prisional oferece oportunidades para muitas reflexões, em especial para aqueles que pretendem fazer uso das experiências cotidianas para encontrar nelas sentido e propósito. O tempo ocioso entre os períodos de trabalho e a falta de contato com o mundo externo por meio das redes sociais oportunizam olhar para cada fato com mais cuidado e atenção.
Num determinado dia fui chamado pelo supervisor para avaliar um preso que estava machucado. Essa era a informação: sucinta, resumida e breve; nenhum outro detalhe me foi passado. Peguei meu aparelho de pressão e meu oxímetro e segui para o jumbo logo em frente à sala da supervisão, e quase ao lado do nosso ambulatório. Um “jumbo” é uma pequena cela gradeada que serve de entreposto entre as celas das galerias e algum outro lugar, que pode ser a sala da defensoria, a sala dos exames médicos, a ida até a UBS e até para aguardar a burocracia do Infopen (sistema de registro dos presos) para receber a tão aguardada liberdade.
No jumbo havia um corpo caído no chão. A imagem seria muito assustadora não tivesse eu trabalhado por alguns anos no Pronto Socorro. O preso estava sem camisa, descalço e vestia apenas a bermuda laranja do uniforme. Tinha não mais de 40 anos e um corpo forte. Mantinha-se gemente, com os olhos fechados e parecia não querer se mexer, com medo de sentir mais dor. Não havia nenhuma parte visível do seu corpo que não estivesse coberta sangue ou de machucados, arranhões e ferimentos de um vermelho muito vivo, como se houvesse caído numa trituradora industrial.
– Os canalhas me pegaram na trairagem – disse, antes que eu lhe fizesse alguma pergunta.
– Como eles te bateram?
– Facões, pedaços de pau, chinelos, o acrílico quebrado das janelas. E com a mão mesmo. Não consegui me defender direito, fui pego de surpresa.
Percebi que os antebraços eram a parte mais sensível. Estavam em carne viva, pois foram os únicos escudos que ele teve para se defender.
– Ainda assim consegui deixar dois com nariz sangrando.
Artemus era seu nome. Segundo o que os guardas depois me contaram, ele era irmão do líder de uma das facções e teria se envolvido com a mulher dele enquanto estava na rua. Sim, a cunhada. Depois de ser preso, o líder traído deu a ordem para que recebesse uma “lição”. Envolver-se com a mulher de um apenado é algo muito grave para a ética prisional: mulheres são elementos críticos na relação entre os presos. Mexer com a namorada ou companheira de alguém – ou mesmo simplesmente olhar durante a visita – pode causar morte. A isso chama-se “chocar visita”, que é considerado delito grave. Por isso os presos trabalhadores – como eu – viram o rosto para a parede quando as visitas transitam pela galeria, num ritual patriarcal chocante.
Aquele corpo jogado ao chão do jumbo era o resultado de um processo jurídico informal: queixa, denúncia, inquérito, processo, sentença e na minha frente, deitado em posição fetal e gemendo, estava o cumprimento da pena. Para quem admira linchamentos e uma justiça “sem demora” esta era a cena perfeita.
Examinei o rapaz com o máximo de cuidado, pois não havia como saber se havia fraturas. Depois de uma breve avaliação não me pareceu ter qualquer osso comprometido, e nem um corte profundo e extenso que necessitasse uma sutura. A impressão que eu tinha é que haviam passado uma lixa de areia pelo corpo todo do rapaz, para não deixar nenhuma parte com pele íntegra. Pedi que se levantasse e o levei ao nosso ambulatorio para lavar os ferimentos com água e sabão.
Avaliei sinais vitais e avisei à supervisão que nenhuma outra medida seria necessária, a não ser a troca de galeria. Apesar do aspecto muito feio, com os lábios inchados, o maxilar edemaciado e inúmeros pequenos cortes pelo corpo não haveria necessidade de chamar uma emergência.
O guarda me disse que não era a primeira vez que esse líder fazia isso. Ele era a lei suprema na galeria, e oprimia todo aquele que se negasse a colaborar ou tivesse um comportamento por ele considerado inadequado. A lei na prisão é dura, violenta e monocrática.
No dia seguinte comentei a cena com meus colegas trabalhadores da galeria, explicando o espancamento encomendado sobre o Artemus. Todos me contaram episódios parecidos com esse de que foram testemunhas, e falavam da brutalidade que os caracteriza. Alguns, como Artemus, ainda conseguem se defender, e mesmo acertar alguns socos. Outros apanham em silêncio pois não tem condição alguma de oferecer reação. E os opressores são quase sempre impunes; o que fazer com alguém que já tem toda a vida pela frente trancado numa prisão?
– A vitima desse espancamento era um homem forte, no auge do seu vigor físico. Agora imaginem o que ocorreria se o linchamento fosse com um garoto de 16 anos, caso eles fossem jogados dentro das galerias. Não sobraria nada. Garotos nesse ambiente seriam tratados como escravos, sem direitos, sem paz e sendo oprimidos constantemente. Na lei da selva eles seriam as presas – disse eu, tentando afastar da mente esta cena absurdo.
Meus colegas apenas suspiraram. José ainda me disse:
– Qualquer um que diga que uma criança de 16 anos deveria pagar seus crimes numa prisão comum, junto com adultos, não faz a menor ideia do que seja a vida num presídio, ou não se importa com a sobrevivência desses garotos. Ou então sabe, e por isso mesmo quer fazer da presença desses meninos a antessala do inferno, com a ilusão de que esse tipo de vingança poderia trazer algum benefício social.
Concordei com a fala do José, e percebi que apenas aqueles que mergulham nesse oceano de dor, sofrimento, culpa, remorso e rancor tem condições de entender plenanente o que acontece entre esses muros.
Esta é minha primeira coluna para o DCO desde o meu retorno. Continuo com o projeto de levar o debate dos direitos reprodutivos e sexuais para fora da bolha da humanização. É longo, mas oferece contexto para entender o que houve e o que está por vir.
Caros amigos:
“Esta é a primeira coluna que escrevo depois da minha libertação. Durante 1 ano fui interno do sistema prisional do meu estado e, para quem não sabe, meu crime foi levar adiante o compromisso de garantir às mulheres o protagonismo dos seus partos e respeitar a forma como elas decidem trazer seus filhos ao mundo. Por estes delitos jamais serei perdoado por aqueles que detém o poder sobre os corpos, mas a justiça, em boa hora, percebeu a brutal injustiça realizada, que impediu – entre outras irregularidades – que peritos pudessem se manifestar sobre o tema. Minha libertação se deve à gritante disparidade de armas no debate mas também à mobilização de ativistas que contestaram minha condenação injusta. Em meio a esse debate ocorreu a manifestação da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA – Washington) citando a mim – nominalmente – como uma vítima da perseguição realizada contra defensores de direitos humanos. Este fato notável favoreceu minha posição frente ao STJ e assim, na última terça feira, o Supremo Tribunal de Justiça anulou o júri. Saí do complexo prisional no dia 17 de abril. É importante ressaltar o papel da ReHuNa, da ABENFO e do Partido da Causa Operária (PCO), que encamparam de forma exemplar a luta pela liberdade e autonomia das mulheres. A estas instituições, nosso reconhecimento.
É do interesse de quem controla o nascimento tratar esse como um caso isolado de “má prática”. Entretanto, é evidente que esse evento está inserido em uma ação sistemática e programada de violência e perseguição contra profissionais que desafiam o paradigma tecnocrático da obstetrícia contemporânea, o qual objetualiza mulheres alienando-as das decisões sobre seus corpos e partos. Não se trata de um ataque a um sujeito irreverente e inquieto, mas contra a ideia de garantir às mulheres o direito de tomar decisões informadas sobre uma função fisiológica e natural como o parto. Mais além, se acreditamos que o parto faz parte da vida sexual normal das mulheres, aqueles que o controlam, alienando as mulheres de qualquer decisão, estão interferindo na própria manifestação da sua sexualidade. Esta é uma forma ancestral de estabelecer controle opressivo sobre as mulheres, designando a elas um papel secundário na ordem social. Por esta ótica, elas são tratadas como defectivas em essência, incapazes de determinar os próprios desejos, sempre demandando uma instância superior para tomar, por elas, as decisões relevantes de sua vida.
Este é o modelo de tutela, usado para crianças, anciãos interditados e para pessoas com deficiência mental, que são, por definição, incapazes de decidir por si mesmos. É desta forma diminutiva que a medicina enxerga as mulheres gestantes. Aqueles que negarem esta perspectiva de inferioridade essencial das mulheres, e que se opõem ao paradigma alienante na condução dos nascimentos, serão vistos como traidores do modelo obstétrico contemporâneo. Para eles se impõe primeiro o escárnio, depois o ostracismo e os boicotes e finalmente os ataques diretos, usando, quando necessário, o sistema jurídico para calar as vozes dissonantes.
Neste contexto, a verdade e as evidências científicas são, via de regra, elementos de pouca relevância na defesa dos profissionais que defendem o parto como elemento essencial na estruturação do sujeito. No meu caso, tratou-se de um bebê cujo parto ocorreu sem nenhum transtorno e que veio a óbito no hospital 24h depois de nascer, vítima de uma doença congênita, impossível de prever ou prevenir. Foi atendido em casa e enviado ao hospital em excelentes condições, tendo ficado mais de 4 horas em observação, sem medicação alguma, até ser finalmente medicado. O número de erros cometidos no hospital é impressionante, mas decidiu-se atacar o médico que aceitou atender a paciente no local que a mãe havia escolhido. Mais absurdo ainda é tratar este caso como “doloso”, algo que jamais ocorre nas centenas de óbitos que ocorrem após cesarianas, mesmo naquelas sem qualquer justificativa médica. Resta a pergunta: por que esta diferença no tratamento? Por que aqueles que defendem o parto normal são punidos, enquanto aqueles que abusam dos recursos cirúrgicos – aumentando os riscos – jamais são molestados?
Ora, porque as cesarianas e toda a parafernália médica que as acompanha – hospitais, médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, drogas, equipamentos, serviços de limpeza, advogados, administradores, etc – giram a “roda da fortuna” do capitalismo aplicado à saúde. Neste modelo todos lucram e todos abocanham uma parte do butim. Todos, menos mães e bebês, a parte mais frágil e desempoderada e que sofre diretamente com as consequências do abuso de intervenções. Mães e bebês são desconsiderados, e por isso correm maiores riscos, em curto e longo prazos, pela aventura tecnológica das cesarianas abusivas. Todavia, as mães e seus bebês ainda são impotentes para lutar contra uma máquina poderosa que os aliena de qualquer decisão. Enquanto isso, os partos normais e fisiológicos correm na direção contrária: são mais baratos, mais humanos, mais tranquilos e mais seguros. Porém, não servem à ideologia e ao monetarismo de quem os comanda. Por isso o ataque àqueles que os defendem. Atiram no mensageiro para atacar a mensagem.
Durante o meu período de reclusão uma ideia ficou sedimentada de forma muito segura em minha mente: se as mulheres não lutarem por seus direitos e por seu espaço ninguém vai lhes oferecer qualidade superior na atenção ao parto. Autonomia e liberdade são conquistas, jamais dádivas. Esperar que o parto humanizado seja bem-vindo em hospitais, que doulas e enfermeiras obstetras sejam recepcionadas com carinho e respeito e que as taxas de cesariana caiam por magia é pura ilusão. Tal conduta é o equivalente moderno à espera pelo príncipe encantado para nos resgatar da afasia. Nada disso vai ocorrer, e o mundo vai continuar a girar perversamente enquanto dormimos o sono dos ingênuos. Qualquer que seja a conquista, ela só vai ocorrer como resultado de uma luta incessante.
Por isso não resta dúvida de que não há como esperar qualquer mudança sem luta e mobilização. Para que uma revolução no parto venha a ocorrer é fundamental arregaçar as mangas. O projeto de humanização do nascimento será um movimento popular… ou não será.”
Fui avisado da minha liberdade há 10 dias, mas quando isso ocorreu já havia escrito uma mensagem para ser publicada. Achei a carta em meio a centenas de folhas manuscritas que guardei e estou organizando para lhes dar alguma coerência e destino. Aqui vai minha última mensagem do cárcere…
“Caros amigos:
Agradecido sempre pela lembrança, pelo carinho que vem de tantos lugares, pela ajuda financeira na luta por justiça e pelos avanços importantes na condução do nosso caso. Cito, em especial, o documento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), sediada em Washington, que reconheceu a perseguição contra profissionais que apoiam o parto humanizado e a garantia do protagonismo às mulheres, citando nominalmente não apenas a mim, mas também Zeza e meu colega Bráulio Zorzella como vítimas de uma trama para atingir os “mensageiros”, já que a mensagem — por ser escorada nas evidências científicas — é mais difícil de ser atingida.
Durante algum tempo anotei minhas caminhadas para saber o quão distante eu conseguiria chegar. Minha regra era: 1 hora de caminhada “puxada” igual a 6km. Ontem (14/4), completei 600 km de percurso nas minhas caminhadas, o que me deixa a pouco mais de 100 km de atingir minha “Santiago de Compostela virtual”. Assim, se eu tivesse feito o verdadeiro Caminho de Santiago, estaria chegando na mítica cidade de Sarria. Esta cidade fica a 115 km de Santiago de Compostela, e de onde saem os peregrinos mais “preguiçosos” (ok, e os velhinhos, as crianças e os debilitados) porque esta é a menor distância autorizada para receber o diploma de peregrino. Assim, cheguei próximo do meu destino e se tivesse mais algumas semanas de meditação compulsória teria alcançado a catedral e toda sua pompa. Quem sabe desta vez participaria do “Botafumeiro”.
Nos últimos dias, terminei a biografia de William Shakespeare e estou iniciando a do maior romancista francês, Honoré de Balzac. Você sabia que, enquanto o bardo de Stratford era vivo, suas peças foram encenadas apenas por atores homens, como na tradição Kabuki japonesa? Somente em 1660, após a Restauração, permitiu-se que mulheres participassem das montagens teatrais, 43 anos após a morte de William Shakespeare. Ou seja, durante as primeiras 5 décadas do século XVII, Romeu e Julieta, os amantes de Verona, foram encenados não por atrizes e atores como Olivia Hussey e Leonard Whiting (da versão Zeffireli), mas por uma dupla de garotos imberbes!
Tenho passado muito tempo a escrever: crônicas, histórias, observações do cotidiano e reflexões sobre o que sinto e vejo. Passo os dias fazendo infinitas analogias do microcosmo da prisão com a vida que existe fora dos muros. Neste tempo também resolvi reescrever minha novela “Pai”, dando-lhe uma nova roupagem e acrescentando um drama paralelo. Estou catalogando estes escritos para formarem um livro sobre meu percurso no universo prisional, pela perspectiva de um ativista dos direitos humanos.Sinto muitas saudades da família: dos filhos, netos, genro, nora, irmãos e amigos. Lembro-me de todos e, antes de dormir, tento pensar neles e desejar o melhor.
O mundo é feito de desafios e lutas. Algumas dessas lutas implicam reveses e derrotas. Algumas são muito duras, mas, se a causa é nobre, sempre vale a pena.
Este foi o livro que publiquei alguns dias antes de entrar no Mosteiro. Escrevi em homenagem ao trabalho silencioso e discreto do meu pai, Maurice Jones, na construção de um projeto de “espiritismo laico”, não religioso (no sentido de sectário, dogmático) e racionalista, baseado em quatro pilares: Deus (sentido cósmico), princípio espiritual, comunicação entre os planos e reencarnação. Sua perspectiva era a abolição dos moralismos, construções mundanas e temporais que servem muito mais como um torniquete mental, usado para moldar comportamentos que, em última análise, servem aos poderes constituídos.
Por desvendar a realidade do espírito, o espiritismo tem uma vocação transformadora e revolucionária, ao contrário do que se tornou: uma mera seita cristã reencarnacionista, contaminada pelo ritualismo sectário e afastada da visão científica e racional apregoada por Kardec. O livro tem duas partes: na primeira eu descrevo nossas conversas sobre vários temas, abordando de forma crítica alguns “dogmas” repetidos pela comunidade espírita e debatendo dilemas na compreensão do mundo espiritual, a partir de sua experiencia de mais de 70 anos de vivência no tema; já a segunda parte contém textos inéditos escritos por meu pai e jamais publicados em livro.
Caso seja do interesse de alguém, basta escrever para richerbertjones@gmail.com. O investimento é de 46 reais, despesas de envio incluídas.
A batalha pelos partos dignos está inserida na luta pelo domínios dos corpos. De um lado a ordem patriarcal e sua sanha de dominação e controle, e do outro lado todos aqueles que percebem que a evolução para uma sociedade mais justa e equilibrada passa pela garantia do protagonismo a todos nós, sejamos homens ou mulheres. Portanto, a humanização do nascimento é um embate entre as forças autoritárias da sociedade e as propostas democráticas que pretendem oferecer liberdade de escolha ampla.
“Parto não é algo que acontece às mulheres; é algo que elas fazem”. É uma construção onde os aspectos físicos e emocionais precisam estar equilíbrio para oferecer o máximo de segurança, para assim promover crescimento pessoal e um futuro dignos aos que nascem. Mulheres caladas, vítimas de violências múltiplas e cotidianas, não podem oferecer o melhor de si para seus partos. Por isso, a proposta da humanização do nascimento passa por uma vinculação inexorável com a liberdade de escolha.
Humanizar nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos tão somente a sofisticação de uma tutela anacrônica e ultrapassada.
Uma verdade difícil de aceitar, mas essencial para oferecer reais alternativas para as mulheres. A simples fantasia de ter um parto como a Gisele não qualifica uma gestante ao parto domiciliar. É necessário muito mais do que essa conexão emocional, em especial a consciência da responsabilidade por suas escolhas.
Escolher um parto num modelo contra-hegemônico e depois abandonar a equipe que a assistiu à própria sorte não é justo nem ético. As equipes de assistência domiciliar precisam desenvolver a habilidade para distinguir quem está verdadeiramente conectado ao paradigma da humanização e quem apenas se deixou seduzir pelo modismo. Dizer “não” é uma tarefa tão difícil quanto fundamental. Muitas das complicações encontradas em partos domiciliares, tanto para os pacientes quanto para as equipes de assistência, poderiam ter sido evitadas se o escrutínio sobre a real capacidade de enfrentar esse desafio fosse mais preciso. Na maioria das vezs nos deixamos seduzir pelos pedidos por um parto extra-hospitalar e pelo interesse expresso em fugir dos ambientes constrangedores e alienantes dos centros obstétricos. Entertanto, o desejo de se afastar das iatrogenias tão comuns no hospital não é motivo suficiente para escolher um parto em domicílio.
A razão para isso é que a pressão que vira do entorno será muito intensa, e apenas as perssoas que têm um preparo emocional adequado conseguirão suportar os revéses. o problema reside em descobrir a verdade que se esconde no espaço que separa as palavras, o que não é dito e não é revelado. E exatamente aí está uma das habilidades mais preciosas dos cuidadores: a leitura dos sentimentos de quem os procura.
“Se o seu instinto, quando qualquer coisa dá errado, é procurar alguém para culpar ou processar, o parto comunitário provavelmente não é para você. Assistentes independentes não têm as máquinas jurídicas dos hospitais para protegê-las de servirem como bodes expiatórios. Obstetras são para patologias. Hospitais são para pessoas que querem terceirizar a responsabilidade. Essa é simplesmente a realidade. Parteiras fracassariam se aceitassem todas as pessoas de baixo risco.” — Ashley Nicole
Sem trabalho de base, nossos avanços serão apenas fogo-fátuo.
“O esforço de todos aqueles que lutam e lutaram pela revolução no parto – na direção da autonomia e do protagonismo pleno – não poderá jamais se restringir a uma mera transformação nas estruturas de poder, no aperfeiçoamento de instituições e na capacitação daqueles que as controlam. Para ser efetiva, esta mudança precisa ser, acima de tudo, um câmbio profundo, radical e verdadeiramente poderoso da sociedade, incluindo homens e mulheres, por meio de suas consciências, de seus costumes, hábitos, valores e relações sociais. Sem essa perspectiva, continuaremos a apostar no revisionismo estéril, que jamais atinge o cerne da questão.
Não é suficiente mudar as estruturas de poder se não capacitarmos a sociedade a um novo tipo de participação decisória sobre os seus direitos. Precisamos de novos cuidadores tanto quanto necessitamos de uma nova geração de clientes dos serviços de saúde, agora mais informados e conscientes. A revolução do parto se inicia com as pessoas e para servir a elas. Uma verdadeira transformação jamais será verdadeira, consistente e perene se não for capaz de se expressar na estrutura íntima da sociedade. Portanto, mais do que mudar condutas, protocolos, rotinas e profissionais da assistência, é essencial criar uma nova cultura do parto, que inclua respeito à fisiologia e o reconhecimento das consequências últimas do nascimento como imprint indelével no corpo e na alma dos cidadãos. Somente com essa alteração de base poderemos manter as conquistas no campo social firmes e consistentes; do contrário, teremos apenas transformações fugazes e superficiais, baseadas tão somente na autoridade. É importante entender que, sem esta estrutura sólida na consciência coletiva, todo avanço será fugaz e qualquer progresso apenas ilusório.”
O “império do acaso” é uma das verdades mais difíceis de admitir. Nossa mente é condicionada a colocar os eventos em uma linha de causalidade, a qual nos dá o alívio de olhar para fatos, aprender com eles e repeti-los (ou evitá-los) no futuro. É dessa expectativa que surge a nossa impressionante adaptabilidade ao meio ambiente. Por isso, quando perguntamos a um sujeito de sucesso qual o caminho que ele seguiu para alcançá-lo, a resposta quase sempre será tentar colocar o objetivo alcançado antecedido de uma série de etapas cumpridas, que o levaram, por fim, ao topo. Invariavelmente, sua resposta será um amontoado de clichês e lugares-comuns como “acordei cedo”, “estudei quando todos dormiam”, “tive foco e persistência”, “nunca esmoreci” ou “sempre segui meus sonhos”. Sim, é verdade; ele não sabe a real razão pela qual venceu e atingiu seus objetivos, mas há algo ainda pior nessa equação: muitas vezes seu sucesso é uma brutal casualidade, um produto da sorte, alguém que sentiu o suave bafejar da fortuna, soprado pela deusa Álea – a divindade dos fatos fortuitos.
Entre as coisas ditas com frequência pelas pessoas vitoriosas é o indefectível: “trabalhei e me dediquei muito para chegar onde cheguei”, o que pode explicar alguns detalhes, tipo, “estar pilchado quando o cavalo passar encilhado”, no linguajar gauchesco, que significa estar pronto quando chegar a oportunidade. Todavia, isso não explica a imensa quantidade de pessoas que, com as mesmas capacidades e igual esforço, fracassaram de forma retumbante em seus projetos. O contrário também é verdadeiro: lembro bem de uma declaração do músico Zeca Pagodinho quando afirmou peremptoriamente que “fiz de tudo para implodir minha carreira, mas não consegui”. Chegou atrasado em gravações, faltou em shows, exagerou na bebida, faltou com a palavra, etc. Nada surtiu efeito: apesar do seu enorme esforço, ainda hoje ele é um grande sucesso.
Outro é exemplo curioso aconteceu no futebol. No ano de 2005 o Grêmio estava jogando a série B, e vários treinadores se sucediam, pois nenhum conseguia fazer aquele time jogar. Foi então contratado um jovem técnico que jamais havia treinado um time grande. Inexperiente, mas com muita vontade de vencer (como todo mundo), ele teve um desempenho irregular, até que foi jogar contra um time de Anápolis, em Goiás. Apesar da distância imensa entre a história desses clubes, o Grêmio perdeu por uma sonora goleada de 4 x 0. A diretoria se reuniu para decidir o futuro do treinador. Como já haviam ocorrido muitas trocas no comando técnico, e como o técnico estava há pouco no clube, resolveram lhe dar mais uma chance. Aqui foi seu primeiro golpe de sorte: bastaria um pouco de mau-humor em um membro da direção e ele teria sido demitido.
O Grêmio chegou à final do campeonato cambaleante, jogando mal e não convencendo a torcida e a crítica. Para voltar a série A no ano seguinte teria que, ao menos, empatar sua última partida, que ocorreria no estádio do adversário, clube que também subiria para a elite do futebol brasileiro caso vencesse. A partida foi da mais pura emoção; tensa, disputada, ríspida, com futebol de baixíssima qualidade, mas pura adrenalina. No primeiro tempo, pênalti contra o Grêmio, e a bola se choca contra o poste. O empate continuava a favorecer o time gaúcho. Faltando apenas 10 minutos para o fim da partida, o juiz marca outro pênalti, esse inexistente, contra o Grêmio. O caos se estabelece. Três jogadores gremistas são expulsos na confusão e, somados a um que já havia saído, restaram apenas 7 em campo, contra os 11 adversários. Faltavam 10 minutos, 7 jogadores contra 11 e um pênalti contra: nunca houve um momento no futebol tão desfavorável em uma final.
Um garoto, lateral da equipe da casa, corre para bater o pênalti depois de mais de 10 minutos de brigas, polícia em campo, dirigentes com o dedo na cara do juiz, etc. Bate…. e o goleiro defende. Euforia se mistura com incredulidade, mas é forçoso lembrar que ainda havia dez minutos para jogar e que restavam 11 jogadores adversários contra apenas 7 do time do Grêmio. Passados alguns poucos segundos e o zagueiro adversário bate no jogador do Grêmio e é expulso, e após a rápida cobrança, o jogador Anderson do tricolor gaúcho vence a defesa adversária e faz o gol da vitória. Nada mais poderia acontecer. Apesar de ser um jogo da série B, foi uma comemoração apoteótica, que demonstrou a imortalidade da equipe azul. Sim, para quem conhece, estou falando da “Batalha dos Aflitos”
No ano seguinte o Grêmio faz um excelente campeonato Brasileiro e se classifica na Libertadores. Quando a jogou no ano seguinte fez a final com o time do Boca Júnior, mas perdeu as partidas decisivas. Depois dessa final o técnico transferiu-se para o Corinthians em 2008, e teve uma carreira de 20 anos de sucesso, atuando em vários clubes brasileiros e vencendo muitos campeonatos.
Se fosse perguntado a ele a razão do seu sucesso, ele certamente diria “muito trabalho, dedicação e estudo”, mas eu sei que isso é apenas uma parte quase insignificante da verdade. As razões desse sucesso estão nas mãos invisíveis do acaso. Se o goleiro do Grêmio não tivesse defendido aquele pênalti, a derrota seria certa, a sua carreira como técnico de grandes times estaria liquidada e ele jamais chegaria à seleção brasileira – como efetivamente chegou. Nos pés do goleiro esteve a sua chance de alcançar o sucesso, e não no trabalho árduo e nas suas capacidades como estrategista, que por certo não seriam muito diferentes daquelas dos técnicos que o antecederam – e fracassaram.
Sim, eu sei o quanto de angústia existe em aceitar que somos governados pelo acaso. Sei também o quanto isso pode nos fazer perder as esperanças no esforço e na dedicação. Entretanto, não é disso que se trata, mas apenas reconhecer que o mérito que procuramos enxergar nas pessoas é muitas vezes enganoso: a posição que ele ocupa em nosso imaginário é muitas vezes fruto de uma confluência de fatores aleatórios dos quais ele não possui nenhum controle, e que as suas qualidades – quando existirem – não são suficientes para explicar a diferença entre o que ele alcançou e a multidão atrás de si que, com as mesmas habilidades, fracassou.
Por isso gosto tanto dessa manifestação de Christoph Waltz ao receber este prêmio. Poderia ter sido piegas, ter falado do seu enorme esforço, ter enumerado suas qualidades e mostrado como seu esforço o fez ser um ator premiado. Entretanto, teve a honestidade de dizer que o lugar que ocupava e o prêmio recebido eram obra 100% do acaso. Só por isso, por ser tão diferente da expectativa, acho sua manifestação uma obra de arte.
Muitos ainda insistem na defesa dos Estados Unidos como se este país fosse um “bastião em defesa da democracia”, mas bem o sabemos que esta postura é fruto de mais de um século de massiva propaganda que, ao mesmo tempo que exalta a democracia burguesa, tenta desumanizar e vilificar seus oponentes. Os árabes – como pode ser visto em “Reel Bad Arabs” – são, de longe, as principais vítimas dessas campanhas de descrédito, em função da importância geopolítica de Israel. Ora, nada poderia estar mais longe da verdade do que colocar os Estados Unidos como defensor dos valores democráticos, mas aqueles que ainda defendem o imperialismo o fazem como que dominados por uma religião irracional, carregando suas palavras de chavões desbotados pelo tempo, relíquias cafonas e empoeiradas da guerra fria. Usam até a retórica do Milei – um Bolsonaro ainda mais aloprado – que não passa de um maluco fracassado que empurrou a Argentina para o fundo do poço, piorando o que Macri já havia feito. Outro detalhe chamativo é a tentativa de atacar o Irã defendendo o “direito das mulheres”, como se houvesse qualquer interesse na defesa de mulheres muçulmanas, mortas de forma genocidária em Gaza há vários meses. Não, nunca foi esse o interesse, mas ele é usado como “peça de propaganda” para aglutinar identitários na causa imperialista.
O paradoxo que vemos agora é testemunhar a direita mais retrógrada cair “como um patinho” na retórica “woke”, o que demonstra que na falta de argumentos a direita aceita apoiar até mesmo o discurso dos identitários. A meu ver, apesar de críticas necessárias às questões de gênero em países do Oriente Médio, quando examinamos a realidade da situação das mulheres do Irã, é evidente que elas têm muito mais liberdade do que as ocidentais, basta ver o acesso delas às faculdades como engenharia e física, que no ocidente são majoritariamente masculinas. Ao lado disso, vemos o quanto as mulheres no ocidente são expostas e objetualizadas ao extremo, mas matar crianças e mulheres usando a desculpa de que, terminada a matança, as mulheres poderão mostrar os cabelos, é o extremo da perversidade, o cúmulo do pensamento assassino que a direita tanto dissemina. Criticar as vestimentas de uma cultura – e mesmo a prática perniciosa de alguns radicais – como forma de analisar a liberdade faz parte da retórica oportunista de quem se nega a olhar para qualquer assunto com a devida profundidade.
Escrevo este texto imediatamente depois do ataque americano às instalações nucleares do Irã, e antes da óbvia retaliação que virá. É importante deixar claro que os próprios especialistas americanos (vide abaixo), passada a fumaça e a poeira das bombas jogadas no deserto, deixaram claro que nada de grave aconteceu, nenhuma estrutura foi destruída e nenhum artefato nuclear danificado (havia sido removido há muito tempo). Enquanto isso, 1/3 de Tel Aviv está severamente danificada, e a tendência é se tornar muito pior. Somente os cegos e fanáticos não conseguem enxergar que o fundamentalismo sionista, racista, supremacista está desaparecendo, derretendo, sendo transformado em pó. O regime extremista e terroristas dos sionistas dará espaço a uma democracia próspera e vibrante depois de um belo espetáculo de destruição do regime racista em Israel. Agora estamos escutando os primeiros vagidos de uma nação palestina plural, democrática, sem muros, sem mortes, sem apartheid, sem racismo, sem supremacismo, sem “povo escolhido” e sem a tirania dos capitalistas e abusadores sexuais de Israel. Em breve veremos palestinos – judeus, cristãos e muçulmanos – livres das amarras totalitárias do sionismo.
Enquanto isso, Trump está correndo risco de vida, e querem nos fazer crer que ele será morto pelos iranianos. Netanyahu, em verdade, disse que isso iria acontecer; ele avisou explicitamente sobre a morte de Trump, e disse que o Irã desejava matá-lo. A verdade é que quem vai tentar isso será o Mossad, pois assim fazendo ganhará duplamente: eliminando um presidente rebelde e conseguindo uma ótima desculpa para a guerra total.
Neste ataque parece mesmo que Trump só bateu o ponto para justificar aos seus patrões sionistas de que algo foi feito contra o Irã. Na verdade, essas ações teatrais deixam cada vez mais claro que Trump está com medo de morrer.
“Um ato teatral. A grande boca de Trump o colocou em uma encruzilhada. O Irã não jogaria seu jogo. Então ele foi obrigado a bombardear o Irã para salvar a própria imagem. Para isso, bombardeou duas instalações vazias que já tinham sido atacadas por Israel e lançou seis bombas contra uma instalação indestrutível (Firdos), alegando destruição, apesar do contrário ser verdade. É isso; um ataque “controlado”, um fiasco. E este é o homem cujos apoiadores chamam de o maior líder do mundo. Ele é uma vergonha nacional”. (Scott Ritter)