Humanos

A ideia de que adolescentes de 16 anos poderiam compartilhar celas de prisão com adultos só poderia surgir da cabeça de pessoas que não conhecem a realidade do sistema prisional. Entretanto, quando tento explicar a insensatez desta proposta meus argumentos eu percebo que minhas palavras atingem do lado de lá um rochedo argumentativo muito difícil de transpor.

Minha posição (e minha experiência pessoal) se baseia na constatação de que colocar pessoas dessa idade numa prisão comum é algo “desumano”. Entretanto, as pessoas que admitem que jovens de 16 anos devam ser presos sem qualquer regalia, caso tenham cometido crimes hediondos, usam como argumento que “se podem votar também podem ir para uma cadeia comum”. Esse é um argumento clássico da direita, e junto com ele vêm os indefectíveis “direitos humanos para humanos direitos” e “bandido bom é bandido morto”. Essa tríade de clichês nos remete ao núcleo da posição conservadora da direita sobre a questão prisional.

Em primeiro lugar, o argumento de que a idade de votar deveria coincidir com a possibilidade de ir para uma prisão regular só pode acontecer na mente de pessoas que acreditam que a maturidade para votar é a mesma requerida para suportar os desafios e os riscos do encarceramento, junto com as ameaças, as opressões, as vinganças, os ataques, os abusos de toda ordem e a tensão constante para sobreviver num ambiente violento. Some-se a isso os custos para o sujeito e a sociedade daí decorrentes. Acreditem, escolher um candidato e colocar seu nome na máquina de votação é muito diferente de esconder seu pedaço de pão para que não o roubem dentro da sua cela. Em segundo lugar, é preciso crer que a condição humana não é inata e garantida a qualquer um da nossa espécie, mas algo que só vai ocorrer na dependência de comportamentos específicos. Assim, você precisa ser “direito” para ter direitos humanos básicos. Da mesma forma como no capitalismo a cidadania é comprada e, nas suas vertentes mais radicais, você morre se não puder pagar a conta da sua insulina ou do soro antiofídico, em outros seus direitos como gente, como pessoa, estão condicionados ao seu comportamento; não são uma garantia básica de sua existência. Em terceiro, mas não menos importante, é a crença de que todos aqueles que se rebelarem contra uma sociedade que consideram injusta, através do ingresso no mundo do crime, ou aqueles que cometeram erros em função de sua vida e suas escolhas, não merecem viver. Bom mesmo seria estarem mortos. As pessoas que defendem estas penas para os “bandidos” são aquelas que acreditam na criminalidade como uma chaga moral do sujeito, e não a consequência lógica de uma sociedade de exclusão e injustiça. Assim, matando os “ruins” sobrariam apenas os bons, e teríamos uma sociedade cheia de luz e equilíbrio. E de assassinos legalizados.

O grande problema nesse debate é que afirmar que a junção de adolescentes com adultos nas prisões é uma atitude “desumana” não afeta os argumentos de quem defende tal prática. A razão é que prisões desumanas e brutais são exatamente o projeto que estas pessoas acreditam ser o melhor. “Quanto pior a cadeia, melhor. Isso vai fazê-los pensar melhor antes de roubar”. A desumanização dos prisioneiros é semelhante àquela feita com palestinos: estão sofrendo porque merecem, portanto não há porque tratá-los com dignidade ou respeito. Para quem defende a brutalidade como resposta, os presos não merecem dignidade, e seria melhor que morressem.

Colocar um adolescente no ambiente das penitenciárias não vai melhorar em nada a sociedade em que vivemos. Vai aumentar o ressentimento desses meninos, transformando sua vida em uma eterna busca por vingança. Pesquisas no mundo inteiro demonstram – há décadas! – que a perspectiva punitivista nunca produziu resultados sociais positivos em médio e longo prazos. O crime não vai acabar por meio da punição e das cadeias, mas com o fim da sociedade de classes e a exploração. Imaginar que setores da esquerda possam aceitar essa proposta nos sinaliza que é necessário rever o que se tornou a esquerda no nosso país.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos, prisão

Quantos votos você fez?

Talvez seja interessante entender a diferença entre um partido eleitoral e um partido revolucionário. A pergunta “quantos votos você fez” para um candidato de um partido revolucionário faz tanto sentido quanto perguntar para uma criança quanto de dinheiro ela tem. Sua mente não lida com esse valor e, para ela, isso não faz sentido. Votos dizem respeito a uma formulação política liberal que rejeitamos. Pensem um pouquinho: esse modelo liberal burguês, onde os candidatos são escolhidos pela burguesia – os verdadeiros donos do país – levou aos Estados Unidos a escolherem como seus dois últimos presidentes um demente e um abusador. Antes disso um negro que jamais colocou em prática qualquer iniciativa para diminuir a pobreza no seu país e, antes dele, um playboy inútil, alcoolista e usuário de drogas, filho de um ex presidente e que jamais teve um emprego na vida. Aliás, a trajetória de George W. Bush em muito se assemelha ao candidato das milícias.

No Brasil, em função da configuração do congresso e dos partidos, até mesmo um líder operário como Lula é obrigado a se vergar à Faria Lima e ao latifúndio do Agro, os verdadeiros proprietários do país. E isso porque, nesta configuração, não é possível para ele governar sem a interferência direta desses poderes. Todos vimos o que houve com Dilma que foi defenestrada sem ter cometido qualquer crime de responsabilidade – a única forma legal de retirar uma presidente eleita de seu posto. Ou seja: o sistema é feito para propiciar golpes. Por isso Lula não se atreve a dirigir-se à esquerda, pois sabe que seria facilmente retirado pelos conluios de gente ligada ao imperialismo e aos interesses do grande capital nacional. Para Lula cabe o papel medíocre de ser o gestor da massa falida do capitalismo brasileiro, sem poder realizar as mudanças necessárias para tirar o país do atoleiro.

Foi por perceber o “cul de sac” dessa política liberal que eu abandonei a modalidade eleitoral burguesa e suas ilusões. Percebi, a duras penas, que não é possível avançar as pautas do povo atrelado a um sistema burguês criado e mantido para que não aconteçam mudanças na estrutura de classes do país. Quem um dia prestar atenção no cenário das disputas políticas nacionais vai acabar percebendo que os candidatos apenas são eleitos quando ungidos pelo poder que realmente governa a nação: a burguesia, que pode pender para qualquer lado desde que seus ganhos sejam mantidos ou aumentados e que ninguém questione o sistema de classes. Para que uma real mudança venha a acontecer, será necessário que ocorra uma revolução. Foi assim nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, em Cuba, na Rússia czarista, no Vietnã e qualquer outro país que ousou pensar no futuro. A via da democracia liberal tem um horizonte limitado e que já se mostra esgotado: a crise na Europa e a decadência acelerada dos Estados Unidos (que observa os maiores índices de pobreza e a maior concentração de renda da sua história) são exemplos claros disso.

Quem se surpreende pela quantidade de votos que eu recebi apenas demonstra que não entendeu a opção que eu fiz. Um partido como o PCO pouco se importa com as eleições pois, na melhor das hipóteses, poderíamos eleger alguém como Lula, um presidente engessado e constrangido por uma estrutura política que impede mudanças relevantes e profundas na economia do país.

Eu recebi um pouco mais de 2300 votos, o que é absolutamente surpreendente para alguém que entregou a sua conta eleitoral no Banco do Brasil zerada, que não fez campanha, que não participou de debates e que apenas se limitou a oferecer seu nome ao partido para que daí viesse alguma visibilidade para as nossas propostas. Entretanto, é útil lembrar que o deputado estadual Márcio Canella (União Brasil) recebeu 197.178 votos nas eleições de 4 de outubro de 2026, sendo o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro. Ao contrário de mim, ele fez um enorme sucesso nas urnas. Canella foi preso pela Polícia Federal em 15 de outubro de 2026, na Operação Unha e Carne, que investiga suspeitas de ligação com organizações criminosas. Ele foi preso por ser líder das milícias do Rio de Janeiro, amicíssimo de Flávio Bolsonaro e parceiro de negócios do candidato das rachadinhas. Diante disso eu pergunto: é possível medir a integridade de um sujeito ou mesmo a adequação de suas propostas por meio da simples contagem dos votos que recebeu? É possível avaliar a qualidade de um sujeito pelo número de “seguidores”, pela quantidade de “likes”, pela votação que recebeu ou pelo dinheiro que possui?

Ou serão essas medidas externas propícias ao engano, pois revelam o exterior fulgurante de um sujeito enquanto escondem sua realidade interna e imaterial?

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Política

Quando você crescer

Encontrei um vídeo de uma moça, ativista da humanização do nascimento, chamada Ekaterina Mariposa (vejam que lindo nome). Ela morava no Geórgia, um pequeno país no leste da Europa, mas é de ascendência russa. Há 8 anos passados ela havia me entrevistado para conhecer um pouco do movimento de humanização do nascimento no Brasil. Quando vi seu vídeo novo, mandei um alô e lhe disse que gostava muito de ouvir o som do idioma georgiano e, mais ainda, do seu alfabeto tão peculiar. Ela ficou feliz de me reencontrar e combinamos uma nova entrevista.

Todavia, por causa desse encontro, o Facebook me colocou no algoritmo da Georgia, e começaram a pipocar músicas polifônicas de grupos georgianos. Uma delas me tocou profundamente pela sonoridade e delicadeza das vozes femininas. A música me impressionou de tal forma que passei a escutá-la repetidamente todo o dia, tentando acompanhar e cantarolar junto com as intérpretes e imaginando o que a letra poderia conter. Fui obrigado a apelar para o chat GPT para descobrir o nome da música cantada pelo grupo “Ialoni” da Geórgia. O nome da música é შენ რომ დიდი იქნები (Shen rom didi iknebi), e a tradução: “Quando você crescer”.

Esta noite minha neta Ava, de 5 anos, veio dormir comigo, mas ficava o tempo inteiro querendo conversar. Pedia que eu continuasse a “nossa” história sobre um grupo de crianças que está em uma excursão de ônibus e entra em um túnel estranho, que as leva para o passado. Lá encontram Pterodáctilos, Tiranossauros Rex, Tricerátops e muitos outros seres do passado. Depois de uma série de aventuras eles voltam para o ônibus, seguem pelo túnel misterioso, mas erram a bifurcação que as levaria à saída, sendo conduzidas ao mundo do futuro, onde são acompanhadas por um guia chamado Peter Wertenheim, que as ensina a usar seus braceletes anti-gravitacionais e jogar basquete voador. Apesar dos meus esforços, nada a fazia conseguir conciliar o sono, então resolvi colocar para tocar no celular a música que estava o tempo todo na minha cabeça, e logo depois ela dormiu. Só hoje descobri do que a música trata, e talvez a razão por ela estar tão fixada em minha mente.

O poema tem uma dedicatória: “À pequena Irma”. É uma declaração de amor de um avô à neta, imaginando o momento em que ela crescerá e ele já não estará vivo. O poema começa com o avô imaginando a neta adulta, quando ele já tiver morrido. Pede que ela se lembre dele, deixando que as lembranças cheguem como flocos de neve. Ele imagina que um dia a jovem voltará para casa e não o encontrará. Mesmo sem poder fazer mais nada por ela, promete permanecer dentro de sua alma. Quando a menina se tornar mulher e ele já estiver transformado em pedra, sua morte não significará o fim de seu amor. De algum lugar além da vida, ele continuará iluminando o caminho dela.

Na passagem final, o avô faz um pedido a Deus: deseja transformar-se em um cervo, adornar seus chifres com o amor da neta e caminhar pelas montanhas em homenagem a ela. A imagem do cervo é particularmente significativa porque o nome Irma está associado, no georgiano, à palavra que designa esse animal. Assim, o poeta transforma o nome da própria neta em uma metáfora de permanência, ternura e amor. É uma canção sobre a morte, mas, sobretudo, sobre a tentativa de tornar o amor maior do que ela. Faz todo o sentido.

Mando essa música para quem é ou será avô e consegue imaginar a dor de um dia ter que deixar a quem tanto ama.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Sem autocrítica

Nas redes sociais, logo após os resultados do primeiro turno das eleições de 2026, o sentimento era de surpresa e consternação. Era inacreditável que Lula pudesse estar perdendo o primeiro turno para um “desqualificado” como o filho do ex-presidente. Imediatamente começaram a aparecer as explicações, as interpretações e os culpados. Alguns influencers da esquerda liberal começaram sua campanha para “virar o jogo” com um pedido curioso: “não culpem a esquerda” por esta derrota. Respeitosamente expliquei aos meus amigos que este pedido é absurdo. “Vocês até podem pedir que eu vote em Lula, mas não admito que a resposta para esta derrota seja abolir a autocrítica”, respondi, mesmo sabendo que pouco seria levado em consideração. Além desse pedido, havia a solicitação de que os movimento identitários – feministas, antirracistas, transativistas – fossem poupados dos ataques, pois esta atitude apenas reforçaria o discurso daqueles que nos combatem. “Fogo amigo” diziam eles. Achar que perdemos para “fascistas” é outro erro absurdo do discurso da esquerda. Perdemos porque a esquerda saiu da rua e se tornou chapa branca, elitista e identitária – entre outros erros. O identitarismo tomou conta dos partidos à esquerda do espectro político, enquanto o PT se “endireitava”, colocando os conservadores da burguesia comportadinha e latifundiária em postos chave do governo. Observem o absurdo das falas da Janja (outra responsável pelos erros de comunicação) e vejam as políticas de subserviência ao um discurso anti-científico sobre trans. Isso ofendeu as mulheres do pais, que se obrigaram a chamar a si mesmas de “mulheres-cis”. Quem não percebeu o quanto isso afastou as mulheres simples da esquerda, então não prestou atenção.

“Não é o momento”, diziam eles, e “deveríamos unir forças dentro do campo progressista e popular para evitar o mal maior – a vitória do fascismo”. Esta foi a parte que achei mais insensata. Como eu repito exaustivamente há muitos anos, o identitarismo destruiu a esquerda ao corroer sua vinculação com as lutas operárias. E não foi por acaso: o objetivo das organizações identitárias é exatamente esse, mesmo que muitos dos seus participantes ainda não tenham percebido. Como organização parida nos criadouros do partido democrata, este sempre foi seu objetivo. Percebam como todos os principais nomes da linha de frente dos identitários receberam bolsas para se “aprimorar” nas universidades imperialistas? Manuela, Jean Wyllys, Márcia Tiburi – e muitos outros – foram financiados pelos Estados Unidos para os estudos de gênero ou sobre homossexualidade através de suas agências. E por quê? Porque sabiam que esse modelo de compreensão da realidade é impopular, agressivo, supremacista e anti-povo, mas principalmente porque produz a fragmentação das lutas de classe.

O resultado está aí na nossa cara, e não há como negar que a esquerda identitária se afastou do povo, tornou-se elitista, vendo mais humanidade em minorias supostamente oprimidas do que na grande massa do povo operário brasileiro, cuja opressão é real e econômica. A direita agiu de forma inteligente ao colocar em evidência os identitários e o feminicídio como temas para serem debatidos à exaustão. A maioria da população não concorda com a ênfase dada a estas questões; o pobre da periferia sabe o quanto a polícia mata garotos e estes meninos mortos também são uma tragédia para as famílias. Entretanto, os grupos identitários das universidades, afastados da realidade da gente comum, estabelece como prioridade as “identidades perseguidas e oprimidas”.

O povo não aceita mais isso. O debate estéril sobre pronomes e de banheiros idem. O trabalhador que acorda cedo – e que vota – está se lixando para estas questões. O identitarismo dividiu a população. Isso é operação de propaganda do imperialismo, mas se a a esquerda não compreender por meio de uma severa autocrítica as razões para esse fracasso teremos que suportar por décadas os governos de milicianos à frente do Evangelistão. Estou percebendo que o furo é mais embaixo, e que a necessária mea-culpa da esquerda ainda vai demorar muito a ocorrer. Se continuarmos a chamá-los de fascistas, colocando a crítica moral como o centro do nosso discurso, continuaremos perdendo. Enquanto não colocarmos o operário, o brasileiro comum, o pobre que vai ao culto, como centrais na nossa luta, afastando-nos do identitarismo que esfacela a sociedade, colocando pobres contra pobres, estaremos nos afundando no poço da arrogância. O PSOL já implodiu, o PDT idem, O centrão – direita limpinha – foi para o fundo do saco. Quem saiu vitorioso foi a extrema-direita, que se mobilizou e ofereceu uma esperança. Nós sabemos o quanto as promessas da direita são excludentes e destrutivas para a nação, mas não há como negar seu apelo popular. A esquerda perdeu porque o povo rejeitou sua politica supremacista e excludente – e isso precisa ser dito.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

O Vulto

O barulho ensurdecedor da festa da virada do ano invadia a cafeteria e disputava o espaço com o aroma de café e as pessoas que se amontoavam no balcão e nas mesas. Vez por outra foguetes explodiam e a os gritos que os seguiam penetravam no ambiente, atrapalhando a música que vinha da TV ligada pendurada na parede. Diogo tomava uma Coca Cola, mas sonhava com seu próximo aniversário, quando completaria 18 anos e poderia tomar cerveja como Lucas, seu primo. Célia estava com o olhar fixo na rua, imóvel há alguns instantes. Finalmente olhou para seu filho e, colocando a mão em seu braço, lhe disse:

— Diogo

— Sim?

— Lembra quando você era pequeno e sempre me perguntava quem era seu pai? Dizia que seu colegas na escola tinham pai que jogava bola com eles, enquanto você só tinha mãe. Dizia que um dia gostaria de vê-lo. E você queria saber como ele era, se era alto ou baixo, se o cabelo era parecido com o seu. Lembra disso?

— Sim, eu lembro. Eu era pequeno, depois perdi essa curiosidade. Já tem algum tempo que não penso mais nisso. Você disse que ele não morava mais nesse país e eu esqueci. Passou.

— É, faz alguns anos já. A gente fica velha e parece que tudo foi ontem. Eu tentava lhe explicar, mas você era pequeno, não entendia.

— Eu entendo mãe, não liga não. Criança é assim mesmo curiosa. Sem problema.

Duas crianças passaram espremidas por entre as mesas e empurraram com seus corpos as cadeiras. Célia sorriu pelas risadas marotas dos moleques, mas ainda pôde dizer “Cuidado!” quando eles quase derrubaram a garrafa à sua frente. Algumas gargalhadas cheias de álcool correram o pequeno salão vindo de um grupo de coroas que cantavam sem se preocupar com a afinação. Enquanto isso, os músicos do show da virada se intercalavam na cantoria da TV. Célia voltou a ficar com o olhar fixo no bar do outro lado da rua, que colocava cadeiras nas calçadas e servia bebidas e petiscos aos clientes.

— Preciso te contar uma coisa.

— O quê?

Ela indicou discretamente o bar à frente.

— Está vendo aquele homem de camisa vermelha?

Diogo procurou com os olhos.

— É seu pai.

O rapaz voltou-se para a mãe. Por algum tempo, não disse nada.

— Quer ir lá conhecê-lo?

O garoto baixou o olhar, bebeu o resto do refrigerante, e ficou olhando para o copo vazio por mais alguns instantes. Depois olhou para a mãe mais uma vez..

— Não. Não quero.

Eu olhava para Diogo e senti em seu olhar o peso daquela confissão. A história que Diogo me contou havia brotado entre uma conversa e outra, mas o sorriso nervoso que ele deu ao terminar o relato não deixou dúvidas sobre o significado daquele momento ocorrido há mais de 20 anos.

Depois de me relatar o não-encontro com seu pai ele ficou em silêncio por alguns instantes, e depois voltou a pintar umas peças de madeira com as tintas recebidas com o material do artesanato. Por instantes pensei ver seus olhos marejados, mas é provável que tenha sido o frasco de solvente aberto ao seu lado. Afinal, Diogo era bandido, e os bandidos não choram.

Deixe um comentário

Arquivado em Capítulos Livro, Pensamentos

Medo

Eu tenho muitos medos, e sei muito bem o que é o temor de perder a credibilidade.

Durante 30 anos fui médico de mulheres, e dei aulas e cursos em muitos lugares do Brasil e do mundo. Minhas amigas, colegas e a plateia para qual eu falava eram quase excluivamente formadas por mulheres. Por esta perspectiva aprendi, aos trancos e barrancos, a entender o mundo pelo discurso das mulheres. Escutava suas dores, seus sentimentos, a forma de ver e sentir o mundo e suas propostas para mudá-lo. Eu vivi durante a maior parte da minha vida adulta em um mundo feminino, com tudo que existe de criativo, doloroso e complexo neste universo. Minha visão era muito derivada da ótica especial que as mulheres me ensinaram. A consequência natural foi a adoção de uma perspectiva identitária, que me acompanhou durante décadas.

Porém, num determinado momento da minha vida, e a partir de um conjunto de decepções que me levaram a produzir uma reflexão muito profunda sobre minha visão de mundo e o meu trabalho, eu abandonei as minhas crenças e a perspectiva identitária, as quais carreguei durante toda a minha vida. Entretanto, ao mesmo tempo em que eu dava um giro nas minhas concepções, as pessoas que confiavam no meu trabalho continuavam conectadas a uma narrativa francamente ligadas aos valores do identitarismo, olhando o mundo de forma excludente, essencialista e moralista. O simples fato de questionar a realidade fazia com que estas pessoas se afastassem de mim; algumas simplesmente paravam de falar comigo. Fui expulso de uma comunidade com um “abaixo assinado” porque questionei ações que mais pareciam “corporativismo de gênero”, e não uma busca por equidade, justiça, cooperação e respeito mútuos. Ser um homem num contexto feminino e questionar a cola que as mantém unidas é um roteiro seguro para a exclusão.

Com o tempo percebi que uma das estratégias para sobreviver é simplesmente evitar temas muito delicados. Por exemplo, parei de falar nas redes sociais sobre a questão das mulheres, das trans, do ativismo gay e a respeito do racialismo. Achei que deveria centrar minha energia em coisas que não causariam tanta turbulência, brigas, incompreensãoes e cancelamentos. Naquela época, uma frase que cansei de escutar foi: “Puxa, você me decepcionou”. Por isso, eu entendo quem prefere ficar em silêncio e não se sente seguro de enfrentar uma massa raivosa lhe atacando pessoalmente pelas suas ideias e posturas. O episódio de mulheres sendo atacadas por mulheres por pensarem de forma diferente da maioria nas Universidades ou nos Partidos políticos sãoexemplos de como assumir uma postura contra-hegemônica pode ser agressivo e até perigoso. Tive experiência como esta no enfrentamento constante que tive na luta pela humanização do nascimento e sei muito bem como nos sentimos quando bombardeados desta forma.

E sim, tem gente que é casca grossa e enfrenta qualquer disputa sem pestanejar. Entretanto, muitas vezes é porque não há tanto em jogo, e estas pessoas não correm o risco de perder o emprego, até mesmo a profissão, o posto de chefia, a credibilidade e a confiança dos outros. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é… e cada um sabe até onde consegue segurar a barra. Para aqueles que um dia fraquejaram, a minha solidariedade. Fragilizar-se diante de suas posturas é natural, e por isso é importante pensarmos e agirrmos no coletivo. Quando um sente medo o outro o abraça com coragem.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Espiritismo e identitarismos

Há momentos históricos em que palavras aparentemente banais passam a carregar uma quantidade extraordinária de tensão. “Identidade”, “gênero”, “masculinidade”, “feminilidade”, “privilégio”, “opressão”, “woke”, “red pill” são algumas delas. Basta pronunciá-las para que imediatamente se organizem campos adversários, cada qual com seu vocabulário, suas certezas, suas vítimas, seus culpados e sua interpretação do mundo.

Para o espiritismo, entretanto, talvez a pergunta mais interessante não seja determinar qual desses campos está certo. Uma doutrina que se apresenta como espiritualista e progressiva deveria formular uma pergunta anterior: o que o aparecimento simultâneo desses movimentos revela sobre o homem contemporâneo?

A chamada cultura woke, os movimentos identitários, a reação anti-woke e o universo red pill são fenômenos muito diferentes. Não possuem a mesma origem, não defendem os mesmos valores e frequentemente são inimigos declarados. Seria intelectualmente pobre colocá-los todos no mesmo saco. Entretanto, observados de certa distância, apresentam uma curiosa semelhança: todos procuram responder a uma crise contemporânea de identidade, pertencimento, reconhecimento e significado. E é precisamente aí que o espiritismo talvez tenha algo particular a dizer.

A busca contemporânea por uma identidade

Uma das grandes transformações das sociedades modernas foi a progressiva perda da capacidade das instituições tradicionais de responder à pergunta mais elementar que uma pessoa pode fazer: quem sou eu? Durante séculos, religião, família, comunidade, profissão, nacionalidade e tradição ofereciam respostas relativamente estáveis. O indivíduo não precisava inventar completamente a própria identidade; em grande medida, recebia-a. A modernidade desfez parte dessas certezas. Isso trouxe enorme liberdade, mas também produziu desorientação. Quando estruturas antigas perdem autoridade, outras surgem para fornecer significado. A política passa então a ocupar espaços que anteriormente pertenciam à religião, à comunidade e à tradição. É nesse contexto que a chamada política de identidade ganhou enorme importância.

A literatura sociológica mostra que movimentos identitários procuram conectar experiência pessoal, pertencimento a grupos, relações de poder e ação política. Mary Bernstein observa que as próprias políticas de identidade envolvem debates sobre experiência, cultura, poder e sobre se determinadas identidades devem ser compreendidas como essenciais ou socialmente construídas. Assim, acontecimentos anteriormente percebidos como individuais podem ser reinterpretados por uma chave coletiva; o sofrimento deixa de ser apenas “o que aconteceu comigo” e passa a ser também consequência de uma estrutura. Para muitas pessoas, isso pode ser profundamente esclarecedor. Preconceitos que eram vividos silenciosamente tornam-se reconhecíveis; grupos historicamente invisibilizados ganham linguagem para descrever suas experiências; sofrimentos antes naturalizados podem ser questionados. Todavia, toda ferramenta interpretativa contém também um risco: aquele de transformar uma dimensão verdadeira da existência na explicação total da existência. Nestas circunstâncias, uma interpretação unívoca da realidade torna-se uma sedução muitas vezes de difícil dissipação. O ser humano pode então começar a desaparecer dentro de sua categoria.

A reação

Nenhum movimento cultural importante permanece sem produzir reação. Essa é uma característica da dialética em nossa cultura. O surgimento do Partido dos Trabalhadores e suas vitórias eleitorais no Brasil foi o berço da aparição de seu contraponto: as jornadas de junho em 2013, o MBL, o impeachment da presidenta eleita e a emergência da extrema direita no cenário nacional. Desta forma, o crescimento das políticas identitárias foi seguido pelo surgimento – inevitável, eu diria – de um amplo universo hoje chamado, de maneira bastante imprecisa, de anti-woke.

Não existe propriamente uma doutrina anti-woke. Sob essa expressão convivem liberais preocupados com liberdade de expressão, conservadores religiosos, críticos do pós-modernismo, pessoas incomodadas com políticas identitárias, grupos nacionalistas e também indivíduos simplesmente exasperados com determinados códigos culturais – como pronomes e banheiros. A reação, entretanto, pode reproduzir o mesmo mecanismo que pretende combater. Se uma política identitária reduz o indivíduo à identidade do grupo a que pertence, sua oposição pode começar a interpretar cada pessoa principalmente como representante da ideologia adversária. Neste contexto de oposição surge uma curiosa simetria. De um lado:

“Você fala assim porque pertence a determinada posição social.”

Do outro:

“Você fala assim porque foi capturado pela ideologia woke.”

Nos dois casos, existe o risco de deixarmos de ouvir a pessoa porque já sabemos previamente o que ela é. O rótulo passa a preceder o indivíduo e o sujeito carrega o peso da sua ideologia como um fiel depositário de seus conceitos, prisioneiro de seus conceitos e contradições.

A pílula vermelha

O fenômeno red pill acrescenta uma dimensão particularmente interessante a essa disputa. Sua metáfora fundadora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significa abandonar uma realidade ilusória e finalmente enxergar o mundo como ele realmente é. É difícil imaginar metáfora mais próxima de uma experiência de revelação. O homem que “toma a red pill” passa a reinterpretar suas experiências amorosas, fracassos, rejeições e relações entre homens e mulheres mediante um novo vocabulário: alpha, beta, hipergamia, simp, blue pill e inúmeras outras categorias. Aquilo que parecia uma sequência confusa de experiências individuais recebe uma explicação.

Não por acaso, um estudo acadêmico publicado em 2025 analisou explicitamente a “Red pill Community como comunidade espiritual”. As autoras, Weronika Karwoska e Natalia Brzezinska, identificaram elementos como narrativa de iniciação, sistema de valores, busca de autorrealização, respostas a questões existenciais, formação comunitária e recrutamento — funções historicamente desempenhadas por comunidades religiosas.   Mas cuidado; estas coincidências não nos permitem categorizar o movimento red pill como uma religião. Significa algo mais interessante: o impulso humano que produzia religião não desapareceu simplesmente porque as sociedades se secularizaram. A necessidade de significado permanece. Quando as religiões tradicionais deixam espaços vazios, esses espaços podem ser ocupados por ideologias, comunidades digitais, identidades políticas ou sistemas que prometem revelar aquilo que permanece oculto aos demais.

A estrutura da conversão

É curioso observar que movimentos absolutamente antagônicos podem desenvolver estruturas semelhantes. A sequência frequentemente é esta:

sofrimento → descoberta de uma explicação → aquisição de um novo vocabulário → reinterpretação do passado → pertencimento a uma comunidade → desejo de transmitir aos outros aquilo que se descobriu.

É a estrutura clássica de inúmeras experiências religiosas. Depois da conversão, o passado inteiro pode parecer diferente. O espírita olha para determinado sofrimento e pensa: “agora compreendo isso à luz da reencarnação”. O adepto da red pill olha para relacionamentos anteriores e pensa: “agora compreendo aquilo através da dinâmica entre homens e mulheres que antes desconhecia”. Da mesma forma, alguém que adere a determinada corrente identitária pode rever acontecimentos antigos e pensar: “agora reconheço aquela experiência como manifestação de uma estrutura de discriminação”. As conclusões podem ser inteiramente diferentes, muitas vezes absolutamente antagônicas, como no caso de grupos feministas identitários e aqueles que aderem à agenda red pill. Porém, o mecanismo humano, entretanto, é familiar. Em todos esses casos, uma linguagem nova reorganiza a memória. E toda linguagem produz visibilidade: depois que aprendemos uma categoria, passamos a encontrá-la em lugares onde anteriormente não a víamos.

E o que o espiritismo faz diante disso?

Aqui está, provavelmente, a contribuição mais radical da doutrina espírita para esse debate. Segundo O Livro dos Espíritos, nossa identidade fundamental não é masculina nem feminina. À pergunta 200 — “Têm sexos os Espíritos?” — a resposta que os espíritos enviam à Kardec é negativa: os sexos dependeriam do organismo no qual o espírito se insere. Nas questões seguintes, Kardec afirma que um mesmo Espírito pode encarnar como homem ou como mulher e que as diferentes condições corporais permitem adquirir experiências diferentes. Essa proposição produz consequências filosóficas extraordinárias. O espiritismo não nega a realidade do corpo, mas também não permite que o corpo encerre completamente a definição do indivíduo. Eu sou meu corpo durante esta existência, mas não sou apenas meu corpo. Da mesma maneira, não sou apenas minha classe social, minha raça, minha nacionalidade, minha orientação sexual, meu sexo, minha profissão ou minha posição política. Tudo isso pertence à experiência encarnada e pode ser decisivamente importante.

Entretanto, o espiritismo deixa muito claro, como um dos pilares da sua filosofia, que nenhuma dessas categorias esgota aquilo que somos. Sob a perspectiva espírita, antes de todas estas máscaras (personas) existe o Espírito. Essa ideia impede, ao menos teoricamente, dois reducionismos opostos. De um lado, dificulta transformar identidades sociais em essências absolutas; de outro, dificulta transformar diferenças biológicas em destinos espirituais absolutos. De acordo com a perspectiva espírita, um Espírito pode atravessar ambas as experiências sexuais ao longo de diferentes existências. No filme das mesmas diretoras de Matrix – as irmãs Wachowski, elas mesmas transsexuais – chamado “Cloud Atlas”, elas brincam com um grupo de pessoas que se encontram em múltiplas encarnações nas quais trocam de gênero no correr das gerações que se sucedem. É difícil imaginar conceito menos compatível tanto com uma metafísica rígida da masculinidade quanto com a ideia de que a identidade humana possa ser completamente encerrada numa única categoria social. Neste aspecto, o espiritismo inaugura uma visão revolucionária de gêneros ao coloca-los como apenas uma roupagem temporária que usamos para desempenhar tarefas e adquirir conhecimento advindo das distintas visões de mundo que eles compreendem.

Nem woke, nem anti-woke

É aqui que o espiritismo corre um risco contemporâneo. O risco de procurar em Kardec uma autorização para simplesmente escolher um dos exércitos disponíveis. Espíritas progressistas podem desejar transformar a doutrina numa confirmação religiosa das pautas identitárias contemporâneas enquanto os Espíritas conservadores podem desejar transformá-la numa arma contra essas mesmas pautas. Ambos deveriam ter cautela. Procurar respostas em “livros sagrados”, escritos há centenas ou milhares de anos, carrega o risco eterno de anacronismo, ou guerras interpretativas fragmentárias, que são uma característica das vertentes cristãs. Kardec escreveu no século XIX, e seus textos contêm ao mesmo tempo princípios surpreendentemente universalistas e afirmações marcadas pelas concepções sociais de sua época.

A questão 822 de O Livro dos Espíritos, por exemplo, defende inequivocamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres, afirma que qualquer privilégio concedido a um sexo é contrário à justiça e chega a dizer que a escravização da mulher acompanha a barbárie. Ao mesmo tempo, o comentário apresenta uma divisão tradicional oitocentista das funções masculinas e femininas. Não é necessário esconder essa tensão, assim como as questões relacionados ao “racismo” de Kardec, tão amplamente discutido. Ao contrário: reconhecê-la é profundamente kardequiano. Uma doutrina que afirma a existência do progresso não pode supor que todas as formulações sociais do século XIX sejam a última palavra sobre problemas humanos que continuaram evoluindo nos séculos seguintes.

O problema da red pill visto pelo espiritismo

Por sua vez, o movimento red pill parte frequentemente de sofrimentos masculinos reais. Solidão, rejeição afetiva, ruptura conjugal, dificuldades de relacionamento, perda de referências de masculinidade e sensação de inutilidade social não são invenções. Ignorá-los apenas porque alguns discursos que surgiram em torno deles são desagradáveis seria erro semelhante ao de negar sofrimentos relatados por movimentos identitários porque discordamos de determinadas interpretações políticas desses sofrimentos. Por outro lado, reconhecer um sofrimento não obriga a aceitar toda teoria construída para explicá-lo. “Domados: Como a Cultura Traiu o Homem Americano” (Stiffed: The Betrayal of the American Man) é um livro célebre da jornalista e feminista americana Susan Faludi, lançado em 1999. Neste livro a autora explica como, ao lado das mudanças econômicas, o fim de empregos industriais estáveis nas décadas de 1980 e 1990, os homens viram seus papéis tradicionais ruírem. O livro não foca em um embate culposo entre homens e mulheres e não se resume ao apontar de dedos. Pelo contrário, a grande questão da autora é por que os homens se recusam a se engajar em sua própria causa e por que não se revoltam ou tentam reverter esse esvaziamento da mesma forma que o movimento feminista fez. O movimento red pill vem exatamente nessa direção: para uma masculinidade posta à prova, e na tentativa de encontrar significado em um mundo onde os papéis sociais são voláteis e vicariantes, esta ideologia tenta oferecer um destino, um significado e um rumo para os homens.

É aí que a perspectiva espírita pode estabelecer uma diferença fundamental. Os red pills frequentemente procura uma explicação externa para o sofrimento do homem: a natureza feminina, o feminismo, a hipergamia, a transformação das relações sexuais ou determinadas estruturas sociais. O espiritismo desloca inevitavelmente parte da pergunta. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta pelo método mais eficaz de aperfeiçoamento moral. Dos espíritos recebe a velha resposta socrática: “Conhece-te a ti mesmo.”

Isso muda radicalmente a direção do olhar. Não elimina estruturas sociais e não absolve injustiças externas, mas impede que toda explicação de nosso sofrimento termine invariavelmente apontando para o outro. Antes de perguntar “o que as mulheres fizeram aos homens?” ou “o que os homens fizeram às mulheres?”, a ética espírita acrescentaria outra pergunta: “O que estou fazendo de mim mesmo diante dessa experiência?”

A tentação moral das tribos

Talvez o ponto comum mais perigoso entre movimentos identitários, anti-woke e red pill não esteja em suas doutrinas, mas em uma característica humana muito mais antiga: a facilidade com a qual transformamos pertencimento em superioridade moral. Todos estes grupos inevitavelmente produzem uma tendência ao supremacismo, a ideia de que somos superiores àqueles que ainda não conseguiram enxergar “a Verdade”.

Toda comunidade tende a produzir uma divisão entre quem compreendeu e quem não compreendeu a “mensagem”. É quase inevitável olhar para o mundo e dividi-lo entre “nós e eles”. Os esclarecidos e os alienados; os desconstruídos e os preconceituosos; os redpilled e os bluepilled; os que dormem e os woke; os progressistas e os reacionários. E, naturalmente, existem os bons espíritas e seu contraponto: aqueles que “ainda não compreenderam a doutrina”. Nesse momento, diferentes ideologias começam novamente a parecer umas com as outras. Kardec oferece um critério desconfortável para todos esses campos. Na questão 785 de “O Livro dos Espíritos”, o professor Rivail pergunta qual é o maior obstáculo ao progresso moral. A resposta oferecida pelos espíritos foi: “O orgulho e o egoísmo.”

Não diz direita;
Não diz esquerda;
Não diz capitalismo;
Não diz socialismo;
Não diz feminismo;
Não diz patriarcado;
Não diz conservadorismo;
Diz orgulho e egoísmo.

E justamente por serem universais eles podem aparecer em qualquer ideologia — inclusive naquela que acredita estar combatendo todos os outros.

Uma terceira posição

Talvez, portanto, o significado do surgimento simultâneo da cultura identitária, da reação anti-woke e da red pill para os espíritas seja menos o de escolher um lado do que o de reconhecer um fenômeno antropológico. Estamos diante de uma sociedade que continua desesperadamente procurando identidade, significado, comunidade e orientação moral. Em outras épocas, essas necessidades eram majoritariamente respondidas pelas religiões. Com o decréscimo das religiões como guias do pensamento humano e o roteiro para apaziguar nossas angústias, estas perguntas podem ser respondidas por comunidades políticas e digitais, e isso explica por que as discussões se tornam tão intensas. Porém. quando alguém critica uma opinião que temos, podemos mudar de opinião, mas quando alguém ameaça aquilo que define quem somos, a reação é completamente diferente. Talvez parte da ferocidade das atuais guerras culturais venha exatamente daí: muitas ideias deixaram de ser apenas ideias e passaram a funcionar como identidades. E identidade ameaçada produz defesa.

O Espírito antes da identidade

Existe uma resposta espírita possível a tudo isso, mas ela exige certa coragem. Ela consiste em afirmar simultaneamente duas coisas.

  • As experiências sociais importam.
    Sexo, gênero, raça, pobreza, riqueza, discriminação, violência, masculinidade, feminilidade e todas as condições concretas da existência produzem experiências reais. Negá-las em nome de uma espiritualidade abstrata seria transformar o espiritismo numa desculpa para não enxergar o mundo. Mas também:
  • Nenhuma dessas experiências define completamente o ser humano.
    O pobre não é apenas pobre.
    A mulher não é apenas mulher.
    O homem não é apenas homem.
    A pessoa trans não é apenas trans.
    O negro não é apenas negro.
    O conservador não é apenas conservador.
    O militante identitário não é apenas militante identitário.
    O redpiller não é apenas redpiller.

Todos são, antes disso, sujeitos de uma experiência humana que, para o espiritismo, ultrapassa imensamente a presente existência, e se espalha na poeira das estrelas, numa multiplicidade infinita de experiências e aprendizado. Talvez essa seja uma das ideias mais poderosas que a doutrina possa oferecer às guerras culturais contemporâneas: o homem é sempre maior do que a categoria utilizada para descrevê-lo.

A caridade como limite da ideologia.

Há ainda um critério bastante simples para testar qualquer sistema de pensamento. A questão 886 de “O Livro dos Espíritos” define caridade como “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”. A palavra importante talvez seja “todos”.

Não apenas aqueles cuja identidade reconhecemos.
Não apenas as vítimas que consideramos legítimas.
Não apenas os homens feridos.
Não apenas as mulheres feridas.
Não apenas aqueles que compartilham nossa interpretação da sociedade.
Todos.

Isso não significa neutralidade moral diante da injustiça. Significa apenas que o combate à injustiça não autoriza a desumanização daquele que identificamos como adversário. Talvez seja precisamente aí que todas as tribos contemporâneas — religiosas ou seculares — enfrentem sua prova mais difícil.

O aparecimento do red pill e do anti-woke

Para o espiritismo, portanto, o surgimento da red pill e das ondas anti-woke não deveria ser interpretado simplesmente como triunfo da reação, assim como o crescimento das políticas identitárias não deveria ser interpretado simplesmente como sinal de progresso. Todos esses fenômenos são também sintomas. Eles revelam uma sociedade discutindo desesperadamente quem somos, como devemos viver juntos, o que homens e mulheres significam uns para os outros, quem merece reconhecimento e de onde retiramos nossas referências morais. São perguntas religiosas em uma sociedade que muitas vezes deixou de usar linguagem religiosa, e talvez seja precisamente por isso que despertam tanta paixão. O espiritismo poderia entrar nessa arena oferecendo mais uma bandeira, mas seria provavelmente a contribuição menos interessante que poderia dar. Sua contribuição mais original talvez seja justamente outra: lembrar que antes da raça há o homem; antes do homem e da mulher há o Espírito; antes da ideologia há uma consciência; antes da tribo há uma individualidade em processo de aprendizado.

E que nenhuma identidade adquirida durante algumas décadas de existência pode esgotar uma criatura cuja história, segundo a própria doutrina, atravessa inúmeras vidas. Talvez seja essa a perspectiva que o tumulto contemporâneo convida os espíritas a recuperar. Não perguntar primeiro “de que lado estamos?”, mas… “O que todas essas disputas revelam sobre o estágio moral e espiritual em que nos encontramos?”. E, depois disso, uma pergunta ainda mais difícil: “Em que medida nossa própria necessidade de certezas está nos impedindo de enxergar o outro?”

Nesta perspectiva, sem desmerecer a importância das lutas sociais e da busca por espaço e relevância, o espiritismo oferece a possibilidade de o espírito funcionar como uma espécie de “metaidentidade”, que relativiza – sem apagar – todas as identidades da encarnação. Nesse ponto, a guerra cultural deixa de ser apenas um fenômeno externo. Transforma-se em exame de consciência. E aí voltamos, por um caminho inesperado, ao princípio talvez mais antigo e mais difícil de todos: conhece-te a ti mesmo.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Religião

Panis et circenses

Vale a pena escutar o que o Renan Santos fala da direita brasileira. Em uma entrevista feita para um podcast nas redes sociais ele descreve de forma muito clara como se organiza o pensamento da direita brasileira. Esta é uma análise muito boa e surpreendentemente lúcida. Renan foi o primeiro sujeito à direita do espectro partidário a admitir que o público médio da direita é muito menos inteligente que o da esquerda. Depois dele, foi a vez de José Medeiros (PL), candidato a senador pelo MS, dizer que seu eleitorado bebe detergente e chama ET com celular. Este é um reconhecimento que tem significado vindo de onde veio.

Neste vídeo ele descreve a direita como “entretenimento” e mostra como Nikolas, Bolsonaro e outros são palhaços cujo objetivo é divertir pessoas nas redes sociais e, acima de tudo, “não fazer nada”. Este, aliás, é o lema da nova direita americana: “nada acontece”. Não é à toa que Nikolas, Bolsonaro Pai, Flávio ou mesmo Zé Trovão têm uma produção parlamentar nula ou pífia. Ou seja: o papel que desempenham, desde o advento das redes sociais, não é “fazer algo”, “criar leis”, “abrir um debate” ou “defender uma proposta” de cunho popular e ligada aos valores da direita. Não, sua função é pura performance e a intenção é produzir um espetáculo circense, colocar peruca, debochar, gritar, invadir a passeata dos adversários, provocar parlamentares da esquerda, fazer selfies…. e mais nada.

Nunca os romanos estiveram tão certos: “panis et circenses”. A frase foi criada pelo poeta romano Juvenal no início do século II d.C., em sua obra Sátira X, e o significado original é uma crítica à falta de interesse da população romana pelas grandes decisões políticas. Na nossa metáfora atualizada, o pão se refere às emendas, milhões direcionados às suas bases eleitorais, comprando votos legalmente – mas de forma imoral. Isso sem falar das emendas secretas que foram um gigantesco escândalo no mundo político, e que ainda continuam a agitar os bastidores de Brasília. Já o circo está nas suas próprias atuações parlamentares, sempre pautadas pelo vazio, pela representação e pela atração de público pela via do divertimento. Flávio Bolsonaro, por sua profunda incapacidade intelectual para esta função, seria uma revivescência do governo “panis et circenses” do pai: espetáculo pastelão, deboche, cercadinho, viagens a Israel, privatizações criminosas e a volta da fome.

Que Deus tenha piedade de nós…

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Trevas e aprendizado

Há muitos anos vi uma palestra do Slavoj Zizek (que tem coisas fantásticas e outras ruins) na qual ele discorria sobre a opção que as esquerdas fizeram nas democracias liberais europeias. Zizek criticava o “bundamolismo” (o termo é meu, não dele) dos partidos socialistas europeus que, ao invés de puxar para o centro, procurando alianças e acertos com a direita, a burguesia e o imperialismo, deveriam ter radicalizando à esquerda, mantendo sua “pureza original”, mesmo que às custas de eventuais derrotas eleitorais.

Zizek ponderava que, ao fazer concessões à direita, distanciando-se do proletariado e do campesinato, os socialistas transformaram-se em partidos eleitorais e burocráticos. Desta forma, foram se afastando paulatinamente de sua origem operária e aos poucos foram perdendo a identidade. O mesmo se aplica às opções feitas pelo PT no Brasil, e é por esta razão que vimos com tanta naturalidade personagens como Tebet e Alckmin circulando na esquerda, como verdadeiros “camaradas”, o que seria impensável se o PT se mantivesse fiel à sua origem.

As vitórias econômicas tímidas do governo de Lula não mobilizaram a população a continuar votando no presidente. Por certo que houve avanços em relação ao desastre bolsonarista anterior, mas no imaginário popular isso não é suficiente. A direita soube (e teve dinheiro para) motivar sua base eleitoral, com o discurso punitivista, falsamente libertário, evangélico e moralista. O Brasil entrará num período longo de trevas, mas acredito que será um excelente aprendizado para as forças progressistas.

Aliás, o fato de Cury ter sido o terceiro colocado nesta eleição – um sujeito sem qualquer história na política e com uma trajetória de coach e escritor de literatura de autoajuda – fala muito sobre o estado da arte da política nacional. Seu livro mais famoso trata de Jesus como “o homem mais inteligente do mundo”. O que desejam dizer os eleitores desse sujeito ao lhe oferecer seu voto? Que mensagem este fato oferece sobre a política, os partidos, as propostas e a conjuntura da nossa democracia burguesa? Talvez essa informação seja tão relevante quanto tentar descobrir as falhas da esquerda.

Sabe o que dá raiva? Ver que o PCO e o Rui Costa Pimenta estavam – mais uma vez – certos sobre o desastre que fatalmente ocorreria quando o PT se mesclou com o identitarismo. Ora, por que um “partido dos trabalhadores” deveria abandonar a pauta do proletariado para apostar em um projeto criado nos laboratórios do imperialismo para dividir a classe trabalhadora? Os sinais eram claros, mas ninguém no PT quis enxergar. Se o identitarismo não for retirado da esquerda ele vai destruir o que ainda resta de luta popular. A politica de “frente ampla” fracassou, tanto na Europa quanto aqui. A esquerda precisa aprender o caminho para oferecer ao povo uma alternativa para se proteger do fim do capitalismo.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Classe média

Eu também odeio nossa classe média, e não me excluo dela. Crítico ferozmente essa classe até porque faço parte dela. Ela é rasteira, pedante, medíocre, odiosa, preconceituosa e arrogante. É uma classe composta majoritariamente por pequenos burgueses, que se estabeleceu acreditando estar afastada dos proletários, a quem desprezam, e próxima dos burgueses, os donos, os proprietários, por quem são desprezados.

Costumo olhar para a classe média como um sargento que se acha superior aos seus comandados mas que, pela sua grossura, falta de refino e cultura, é desprezado pelos oficiais. Na perspectiva do sargento, ele se acha especial por não se misturar com a soldadesca, mas na visão do oficialato ele não passa de um militar bruto e mais velho que os ajuda a controlar a massa de soldados.

A classe média tem uma carência crônica de consciência de classe. Sua escolha nas lutas sociais sempre é oportunista e ilusória. Ao invés de se unirem ao operariado na luta pela divisão equânime da riqueza produzida, preferem se unir aos opressores na ilusão de que eles os reconheçam como iguais. É o caso do médico, do advogado, do pequeno comerciante, do empresário, etc. Não por acaso, essa classe é profundamente reacionária, a base do bolsonarismo e da extrema direita.

Essa classe média deve ser trocada com uma classe combativa, que deseja a mudança e que lute ao lado do operariado e do campesinato por uma revolução estrutural no Brasil.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos