Trevas e aprendizado

Há muitos anos vi uma palestra do Slavoj Zizek (que tem coisas fantásticas e outras ruins) na qual ele discorria sobre a opção que as esquerdas fizeram nas democracias liberais europeias. Zizek criticava o “bundamolismo” (o termo é meu, não dele) dos partidos socialistas europeus que, ao invés de puxar para o centro, procurando alianças e acertos com a direita, a burguesia e o imperialismo, deveriam ter radicalizando à esquerda, mantendo sua “pureza original”, mesmo que às custas de eventuais derrotas eleitorais.

Zizek ponderava que, ao fazer concessões à direita, distanciando-se do proletariado e do campesinato, os socialistas transformaram-se em partidos eleitorais e burocráticos. Desta forma, foram se afastando paulatinamente de sua origem operária e aos poucos foram perdendo a identidade. O mesmo se aplica às opções feitas pelo PT no Brasil, e é por esta razão que vimos com tanta naturalidade personagens como Tebet e Alckmin circulando na esquerda, como verdadeiros “camaradas”, o que seria impensável se o PT se mantivesse fiel à sua origem.

As vitórias econômicas tímidas do governo de Lula não mobilizaram a população a continuar votando no presidente. Por certo que houve avanços em relação ao desastre bolsonarista anterior, mas no imaginário popular isso não é suficiente. A direita soube (e teve dinheiro para) motivar sua base eleitoral, com o discurso punitivista, falsamente libertário, evangélico e moralista. O Brasil entrará num período longo de trevas, mas acredito que será um excelente aprendizado para as forças progressistas.

Aliás, o fato de Cury ter sido o terceiro colocado nesta eleição – um sujeito sem qualquer história na política e com uma trajetória de coach e escritor de literatura de autoajuda – fala muito sobre o estado da arte da política nacional. Seu livro mais famoso trata de Jesus como “o homem mais inteligente do mundo”. O que desejam dizer os eleitores desse sujeito ao lhe oferecer seu voto? Que mensagem este fato oferece sobre a política, os partidos, as propostas e a conjuntura da nossa democracia burguesa? Talvez essa informação seja tão relevante quanto tentar descobrir as falhas da esquerda.

Sabe o que dá raiva? Ver que o PCO e o Rui Costa Pimenta estavam – mais uma vez – certos sobre o desastre que fatalmente ocorreria quando o PT se mesclou com o identitarismo. Ora, por que um “partido dos trabalhadores” deveria abandonar a pauta do proletariado para apostar em um projeto criado nos laboratórios do imperialismo para dividir a classe trabalhadora? Os sinais eram claros, mas ninguém no PT quis enxergar. Se o identitarismo não for retirado da esquerda ele vai destruir o que ainda resta de luta popular. A politica de “frente ampla” fracassou, tanto na Europa quanto aqui. A esquerda precisa aprender o caminho para oferecer ao povo uma alternativa para se proteger do fim do capitalismo.

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Classe média

Eu também odeio nossa classe média, e não me excluo dela. Crítico ferozmente essa classe até porque faço parte dela. Ela é rasteira, pedante, medíocre, odiosa, preconceituosa e arrogante. É uma classe composta majoritariamente por pequenos burgueses, que se estabeleceu acreditando estar afastada dos proletários, a quem desprezam, e próxima dos burgueses, os donos, os proprietários, por quem são desprezados.

Costumo olhar para a classe média como um sargento que se acha superior aos seus comandados mas que, pela sua grossura, falta de refino e cultura, é desprezado pelos oficiais. Na perspectiva do sargento, ele se acha especial por não se misturar com a soldadesca, mas na visão do oficialato ele não passa de um militar bruto e mais velho que os ajuda a controlar a massa de soldados.

A classe média tem uma carência crônica de consciência de classe. Sua escolha nas lutas sociais sempre é oportunista e ilusória. Ao invés de se unirem ao operariado na luta pela divisão equânime da riqueza produzida, preferem se unir aos opressores na ilusão de que eles os reconheçam como iguais. É o caso do médico, do advogado, do pequeno comerciante, do empresário, etc. Não por acaso, essa classe é profundamente reacionária, a base do bolsonarismo e da extrema direita.

Essa classe média deve ser trocada com uma classe combativa, que deseja a mudança e que lute ao lado do operariado e do campesinato por uma revolução estrutural no Brasil.

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Hasbara

A hasbara – propaganda israelense – aumentou de forma exponencial as postagens em defesa do massacre israelense sobre o povo palestino. A tática, entretanto, mudou. Antes havia a negativa das mortes e mutilações, mas agora, diante das múltiplas evidências, a ideia é afirmar que não se trata de genocídio porque “apenas” 3% da população foi morta – sem contar as mais de 50 mil crianças que perderam pelo menos um membro nos ataques. Comparam a matança em Gaza com ataques pontuais nazistas na segunda guerra mundial e tentam provar que aquele foi o único genocídio legítimo da história. Nao aceitam perder o trono máximo de vítimas do preconceito. Até onde vai o delírio sionista?

Acaso acreditam que 73 mil mortos – entre eles 20 mil crianças – não constitui um genocídio? Querem nos fazer crer que 2/3 de baixas civis em um povo confinado em um campo de concentração, sem bunkers, sem proteção, sem armamento anti aéreo, não configura uma chacina covarde? É possível aceitar o argumento de que não foi genocídio porque muita gente sobreviveu se desviando de bombas em Gaza?

Por mais que a propaganda israelense seja brutal, é ilusão imaginar que muitos possam se aliar ao sionismo, um projeto colonial racista e supremacista de colonos ashkenazis que invadiram as terras palestinas com a desculpa de que “Deus lhes deu essa Terra há 3 mil anos”. Não há mais como “desver” o projeto colonial mais semelhante ao nazismo jamais criado. Em tudo se assemelham: extrema direita, brancos europeus, racismo, raça pura e superior, apartheid, muro, opressão, check points, campos de concentração, tortura em prisões, cães adestrados para estuprar. Quem poderia virar o rosto para as grandes instituições internacionais que confirmam o genocídio? Quem ousar se embrenhar nesse pântano acabará chegando à sombra do nazismo, ao sionismo mais abjeto e racista, ao colonialismo mais vil e degradante. O apoio a Israel representa um golpe na biografia de qualquer um, assim como foi o apoio ao nazismo no século passado ou à ditadura militar. Israel significa o resquício de um colonialismo que foi expulso da África, sendo a Palestina sua última ferida aberta.

Aliar-se ao sionismo é lamentável em todos os sentidos: humano, espiritual e político. Ele representa um retrocesso civilizatório, uma aposta no fracasso inevitável de um projeto racista e brutal. A posteridade não vai perdoar, assim como não perdoou aqueles que se uniram-se à visão de mundo de Adolf Hitler.

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Judeus do mundo

Os judeus são em essência um grupo como qualquer outro, nem mais nem menos em qualquer aspecto. Qualquer análise de superioridade ou inferioridade é tola e insustentável. Entretanto, não é sobre eles que está o problema, mas sobre uma ideologia à qual muitos – a maioria – adotaram como sinônimo de judaísmo: o sionismo.

Os sionistas são um grupo diferenciado, e podemos reconhecê-los pela forma como se posicionam diante de Israel. Nem todos os judeus são sionistas, e a maioria dos sionistas não são judeus – são evangélicos, especialmente americanos. Entretanto, é justo dizer que a maioria dos judeus hoje em dia é formada por sionistas. Os sionistas são um grupo diferenciado, e podemos reconhecê-los pela forma como se posicionam diante de Israel. São abertamente racistas, supremacistas, preconceituoso e arrogantes. Sua forma de ver o mundo estabelece uma hierarquia que os coloca no topo e os goyim (termo pejorativo usado para anunciar os “não escolhidos”) na parte de baixo, deixando para os árabes – termo que pela generalização sobre um grupo tão diverso já expõe o preconceito – as últimas posições. Fica claro que o objetivo daqueles que acusam os antissionistas de antissemitas é manter a confusão proposital entre judeus e sionistas, para ser possível acusar aqueles que acusam a barbárie assassina de Israel de antissemitas, ou seja, contrários aos judeus. Assim, imaginam esconder do mundo o que realmente estas pessoas estão fazendo: denunciando a matança deliberada de mulheres, crianças, médicos, enfermeiras e jornalistas e a destruição de escolas, mesquitas, hospitais e toda a vida social e urbana de um povo. Um crime contra a humanidade.

A imagem de Israel no mundo caiu em um abismo. A aversão ao colonialismo brutal e assassino de seus líderes sempre foi algo restrito aos grupos que se interessavam pelo povo palestino e sua história, de antes do Nakba até agora. Porém hoje, as imagens das crianças mortas, a tortura nas prisões, as bombas caindo sobre assentamentos de lona, a morte de jornalistas e as milhares de crianças amputadas que circulam pelas ruínas de Gaza estão nos smartphones de cada um de nós. Não há como esconder a perversão e a estupidez, a sombra da morte se debruçando sobre um povo que por mais de 80 anos experimenta perseguição, exclusão, humilhações cotidianas, mortes e torturas, e cuja punição se dá pela ousadia de existirem e resistirem Sequer as crianças são poupadas de prisões arbitrárias e abusos sexuais por parte do IDF. Não há mais como “desver” o que Israel traz de horror ao mundo.

NAZA trouxe tudo isso como uma confissão. Sim, existem israelenses cujo estômago também se contrai ao ver as imagens da limpeza étnica e do massacre. E eles se levantaram para cortar na própria carne, e apontar o dedo para os assassinos. Eles precisam ser exaltados como importantes persinagens na consciência global. Eles colocaram na boca dos soldados a banalidade do mal, a qual todos já sabíamos, mas que se tornou mais intensa vinda de onde veio.

Não há como melhorar a imagem dos judeus no Brasil e no mundo enquanto houver o interesse de confundir o judaísmo e o povo judeu com o racismo assassino dos sionistas. Enquanto não ocorrer esse divórcio haverá antissemitismo, e não vai adiantar mais e mais dinheiro gasto em hasbara (propaganda) para tentar “tapar o sol com uma peneira”. Todos estamos vendo, somos todos testemunhas dos crimes contra a humanidade levados a cabo por Israel e os monstros que o controlam.

Judeus do mundo todo, unam-se contra o sionismo. Esta é sua única chance.

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Cancelamento

A cultura do cancelamento foi a arma da esquerda identitária nos últimos 10 anos. Ela precisa ser enterrada.

Eu espero que a derrota da esquerda mostre o fracasso da cultura do cancelamento, do discurso punitivista de esquerda, do proibicionismo e da censura sobre músicas, piadas, pronomes e expressões. Este tipo de mentalidade “esquerdista” fracassou, destruiu a conexão dos partidos de esquerda com o povo, com os trabalhadores e com as pessoas comuns. Essa visão de mundo levou à derrota que agora sofremos. É preciso encarar nossas falhas com coragem.

As urnas não mostraram a adesão do cidadão a um político desqualificado e miliciano, mas a rejeição a esta postura arrogante e pretenciosa da esquerda identitária, cuja função se limita a chamar a polícia diante da discordância de ideias, propor censura e aumento de penas e tratar das questões políticas de forma punitivista.

Que esta dor que agora sentimos se transforme em luta, mas acima de tudo uma reflexão sobre o erro de esquecer a importância de ter o povo nas ruas. É hora de cancelar os cancelamentos e reviver as pautas da liberdade irrestrita de expressão.

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Luto

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar…

Rosa dos Ventos (Chico Buarque)

Se você está deprimido com os resultados das eleições e percebeu que o Brasil deu uma guinada em direção à escuridão, não é hora para desespero. Tenha fé na alvorada, que desde o início dos tempos, repele a escuridão da noite com a luz da manhã. Não chore, ou talvez, só um pouquinho, porque da lágrima brota a esperança. Não esqueça que “a vida é luta renhida. Viver é lutar, que aos fracos abate, mas que os fortes e bravos, só sabe exaltar”. Venha para a luta, para as ruas, calçadas, escolas e hospitais. É no meio do povo que a política assume sua verdadeira face transformadora.

Não desista. Não esmoreça. Assuma sua dor e seu luto. Entenda que uma sociedade justa jamais o será por dádiva, mas pela construção lenta e elaborada de todos, com os naturais avanços e retrocessos que sedimentam as conquistas. Agora é o momento mais adequado para reavaliar o que fizemos e, em especial, o que deixamos de fazer. Para isso, é bom lembrar que:

1. O povo não é burro. Há sabedoria nessas escolhas, mesmo quando nos parecem tolas;
2. Censura jamais será caminho de liberdade. Livre expressão dói, faz barulho, mas é melhor do que o silêncio imposto;
3. Identitarismo é uma força que divide e enfraquece. Fragmentar a luta jamais irá fortalecer nossas propostas;
4. A luta de classes deve ser a prioridade, mesmo quando alguma outra injustiça pontual nos trouxer lágrimas nos olhos e fizer o estômago revirar;
5. Não se faz socialismo apoiando alguns segmentos da classe operária e culpando outros. Esta é a tarefa dos reacionários;
6. O imperialismo hoje festeja, mas cabe a nós darmos o troco. Precisamos estar prontos quando o momento chegar, e…

Quando chegar o momento,
esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido,
esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada nesse meu penar.

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Mandato dos Sete Montes

A revolução comunista precisa ultrapassar essa Constituição e criar uma nova carta magna para o Brasil. Enquanto isso não ocorre, a decadência do modelo capitalista vai produzindo o absurdo e o bizarro cotidianamente. Entretanto, essa guerrilha aberta entre católicos e protestantes – simulando a luta ancestral da Irlanda – eu deixo para os religiosos debaterem. Nós que somos comunistas não adoramos ídolos, sejam eles Nossa Senhora ou Bolsonaro.

Cabe, todavia, um alerta. O Brasil, nas mãos do Flávio Rachadinha, pretende se tornar uma grande Israel, que alguns tanto admiram. Com isso a morte dos “palestinos brasileiros” – os pretos e pobres das favelas – será naturalizada, da mesma forma como é o destino de milhares em Gaza. Ou a direita nunca suspeitou do amor que a família Bolsonaro sempre devotou ao racismo e ao supremacismo de Israel?

Aliás, até eles mesmo sabem que a luta do Flávio contra os católicos e seus símbolos não é de agora. Flávio e Jair Bolsonaro – ambos católicos de formação – uniram-se à rafuagem evangélica mais apodrecida e corrupta, como Edir, Malafaia, Waldemiro e quetais, com evidentes propósitos eleitorais. Por trás disso, a Teologia do Domínio, o poder político para a “Gang do Templo”, com o objetivo de criar um grande Evangelistão, que nada deverá ao Talibã em termos de violência moralista e conservadora.

Segundo os defensores do “Mandato dos Sete Montes”, entre eles essa turminha evangélica sionista brazuca (que se enche de grana com turismo chinelão para Israel), os cristãos deveriam ocupar posições estratégicas nesses campos para transformar a sociedade conforme valores cristãos. A ideia central é que a sociedade estaria organizada em sete grandes áreas de influência, simbolizadas como “montes”:

Família
Religião
Educação
Governo e política
Mídia e comunicação
Artes e entretenimento
Economia e negócios

Na formulação mais branda – que se poderia chamar de identitária ou representativa – isso significa apenas participar e exercer influência. Na versão mais radical ou “dominionista”, significa conquistar o controle das instituições e submeter a vida pública a uma determinada interpretação do cristianismo. Quando Tariflávio diz que vai “entregar o Brasil a Jesus Cristo”, isso é a formulação “hard core” de dominação do pensamento nacional, que regride ao século XIX e institui uma religião oficial no Estado – outrora laico. Não há outro termo senão “retrocesso maligno”.

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As palavras…

“Palavras verdadeiras nem sempre são belas; palavras belas nem sempre são verdadeiras”

Minha mãe me deu, há muitos anos, esta frase escrita num pedacinho de papel. Em sua sabedoria simples e prárica ela queria me lembrar que eu não deveria ter medo de dizer a verdade, mesmo que minhas palavras viessem a desagradar os outros. Se é certo que as palavras verdadeiras podem machucar, também é verdade que as palavras belas muitas vezes são falsas, e por esta razão a ajuda que nos oferecem é tão somente ilusória.

Não por acaso eu tomei esta frase como um lema para a minha vida, agindo conforme determinava a minha consciência, dando menos importância à aceitação ou popularidade de minhas palavras e atos. Essa lembrança da minha mãe comprova que ela tinha uma caligrafia linda, “letra de professora”, mas também que ela tinha cabeleireira marcada para as 10h.

Este papelzinho devia fazer parte de algum exercício que estava fazendo em suas aulas. Apesar de estar escrito em francês – minha mãe era francofílica – a origem dessa frase é de Lao-Tzé e aparece no capítulo 81, o último, do Tao Te Ching. O original em chinês é:

信言不美,美言不信
Xìn yán bù měi, měi yán bù xìn.

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Vassalos

Os direitistas não conseguem entender qualquer tipo de organização social sem um dono, não é? Para estes, a fraternidade e a justiça social são utopias sem sentido. O mundo precisa ter imperialismo, Cuba necessita um dono que cumpras as ordens da Matrix. O mesmo com a China e a Coreia Popular. O mundo é determinado pelo imperialismo e o Brasil também deve se subordinar. A América Latina, com sua gente escura, merece ser o quintal americano; é o que determina nosso “destino manifesto” de inferioridade. Somos escravos por natureza, e eles – os brancos ricos e europeus – nossos mestres e donos. Mais além, qualquer país que se rebelar contra essa ordem será estrangulado, e os outros países devem aplaudir a crueldade dos nossos donos.

Olhem que curioso: Cuba, Vietnã e Coreia Popular são comunistas. Venezuela, Palestina e Irã são capitalistas. Entretanto, todos estes são atacados severamente pelo imperialismo americano porque compartilham um elemento em comum: não se ajoelharam diante do imperialismo, não se venderam, traçaram seu próprio destino, não se curvaram ao poder imperialista e romperam com a postura de vassalagem. É isso, e não o sistema econômico (como pode ser facilmente visto), o que torna um país uma “ditadura” e seus soldados “terroristas” (ou “traficantes”, dependendo do interesse).

O problema no Brasil é que por questões culturais, e por uma classe média entorpecida e reacionária, ainda não criamos no nosso povo a chama revolucionária para expulsar os interesses imperialistas do nosso país. Enquanto isso, continuamos atrasados, produtores de soja, desindustrializados, reféns do agro e constantemente ameaçados por militares tolos, corruptos e incompetentes.

Eu tenho inveja do povo do Irã, de Cuba, da Coreia Popular e da Palestina. Apesar das suas dificuldades e contradições, são cidadãos de países adultos, enquanto o Brasil continua em sua infinita adolescência, incapaz de sair de casa por medo de enfrentar a vida adulta.

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É proibido…

Não concordo com a proibição dos jogos. Por questões de coerência, quem é contra a criminalização das drogas não poderá aceitar a proibição do jogo, mesmo reconhecendo que se trata de vício, e muito destrutivo. Jogo, para algumas almas mais frágeis, é um vício, tão perigoso para a saúde quanto algumas drogas poderosas. Sou contra qualquer jogo de azar, mas assim como proibir as drogas não funciona, e não funcionou com as bebidas há 100 anos (lei seca), o único resultado certo a partir da proibição dos jogos será o ressurgimento dos jogos ilegais e irregulares. Isso é pior do que jogo legalizado. A proibição da venda e comercialização de bebidas nos Estados Unidos deveria ter nos ensinado algo sobre este tipo de medida. A chamada Lei Seca (Prohibition) nos Estados Unidos vigorou nacionalmente de 1920 a 1933, a partir da 18ª Emenda e do Volstead Act, proibindo a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas. Embora tenha provocado inicialmente uma forte redução do consumo — estimativas econômicas indicam queda para cerca de 30% do nível anterior, seguida de recuperação para 60–70% ainda durante a proibição —, a medida criou um vasto mercado clandestino, com contrabando, bares ilegais (speakeasies) e expansão de organizações criminosas que lucravam com a produção e distribuição de álcool.

Como se pode ver, mesmo que a ação inicial seja uma diminuição nos jogos, a reação do público acaba trazendo as taxas de consumo para muito próximo dos níveis anteriores à lei. Mas, se não for pela simples proibição, qual poderia ser a solução? Bem, podemos encarar de várias maneiras, sendo a mais efetiva o fim do capitalismo. Mas, antes disso, podemos restringir ao máximo o acesso aos jogos. É possível, por exemplo, colocar o imposto muito alto (como no cigarro, que chega perto de 80%), estabelecer um controle máximo de gastos pessoais por CPF, impedir jogo para menores de 21 anos, impedir publicidade ostensiva, etc. E, acima de tudo, educar as pessoas para que entendam o real sentido do jogo.

Essa é a peça mais importante. Nos jogos de azar o que se comercializa é a ilusão de ganhar dinheiro sem trabalhar, a ideia de enriquecer por um ato de sorte. Mais do que o problema na economia doméstica, a falência, as dívidas e a dissolução de famílias, a disseminação do jogo estimula as pessoas a acreditarem no ganho fácil, pela graça divina, sem ter o trabalho e o esforço pessoal como fundamentos. Quem apoia o trabalho, o salário ganho com o suor do rosto, não pode apoiar essas armadilhas liberais. Sim, eu sei do efeito deletério que as apostas têm sobre o futebol e outros esportes. Sei o quanto a jogatina desenfreada pode colocar a disputa honesta em perigo. Ainda assim, mesmo sabendo que mais escândalos podem ocorrer, sou obrigado a reconhecer que proibir é uma péssima – e inefetiva – solução.

“Proibicionismo é a política de proibir legalmente a produção, venda, posse ou consumo de determinadas substâncias ou práticas, geralmente com o objetivo de reduzir seu uso e seus efeitos sociais“. O termo é usado sobretudo em relação às drogas, mas também pode se referir à proibição do álcool, jogos de azar, prostituição etc. Porém, a história das legislações restritivas nos permite afirmar que a simples proibição dos jogos virtuais não vai vais funcionar – mais uma vez. O proibicionismo, sobre qualquer tema – prostituição, drogas, cigarro, jogo, partidos políticos – é um fracasso em todas as épocas da humanidade. Bebida foi proibida, o Partido Nazista foi cancelado e os abortos severamente restringidos. E todos eles estão aí, ilegais ou legais. Não se combate proibindo, mas educando.

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