Os Civilizados

Os comentaristas Hasam Piker e Cenk Uygur do TYT, programa progressista liberal dos Estados Unidos, ligado (financiado) ao partido democrata americano, foram banidos de entrar no Reino Unido por suas declarações contra Israel e seu governo sionista, responsável pelo assassinato de milhares de cidadãos de Gaza, em sua maioria mulheres e crianças, sem falar de uma quantidade ainda maior de amputados vitimados pelos snipers de Israel.

Lembram quando eles, os Europeus, se chamavam de “democracia”? Lembram quando eles falavam de liberdade de expressão como um atributo inalienável das democracias europeias? Diziam que a censura só existia onde a selvageria era o modelo de governança. Faz pouco tempo havia uma ditadura sangrenta no Brasil e os europeus nos viam como estes selvagens. Os tempos agora são outros, e bastou ameacar seu poderia econômico para que a nudez do fascismo, que se escondia por trás de suas rebuscadas vestes, aparecesse de forma despudorada. O mesmo ocorre na Alemanha, onde uma sionista pode exibir descaradamente a bandeira de Israhell nas ruas, mas ativistas são presos por defender a vida de criancas palestinas. Para estas prisões arbitrárias é suficiente usar a velha desculpa de “antissemitismo”.

Os antigos diziam que “um liberal é um fascista comum que ainda não foi assaltado”. Essa frase se torna cada vez mais verdadeira quando percebemos que o “assalto” ao modelo colonial racista de Israhell e o questionamento cada vez mais intenso ao apartheid contra o povo palestino levou as democracias burguesas europeias a retirar a velha fantasia a mostrar sua cara horrenda e fascista.

O general russo Georgy Zhukov, um dos principais comandantes militares da União Soviética afirmou logo após o conflito que “Nós derrotamos Hitler e o nazismo, e a Europa jamais vai nos perdoar por isso”. O mais dramático dessa frase é que, quase um século após o surgimento do nazismo, a Europa novamente se nazifica, e os focos aparecem em vários países ao mesmo tempo, como Alemanha, Portugal, França e Itália, todos travestidos em partidos de extrema direita ligados à luta contra a imigração e com um ilusório discurso antissistema. Todos sabemos que o surgimento e proliferação desses partidos e ideologias estão ligados ao fracasso das propostas liberais, e a engenharia mental dos seus ideólogos nos faz acreditar que a culpa é dos imigrantes ou do Estado obeso.

O mais chocante da morte lenta da soberba europeia – hoje um mero puxadinho do Império americano decadente – é que antes de morrer sua economia, pela falta de competitividade com a China, quem agoniza são seus valores, outrora vistos como o bastião da civilização. O passo para uma total guinada da Europa ao nazismo já foi dado, e talvez a Rússia não seja suficiente para salvá-la mais uma vez.


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A culpa das mulheres

Uma reportagem do jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul relata o aumento da taxa de cesarianas ocorrida nos últimos anos em uma cidade do interior do estado, e apresenta a tese – que os próprios médicos oferecem – de que o aumento na idade das pacientes e a incidência aumentada de fatores negativos associados estaria na gênese do incremento das opções cirúrgicas para o parto. No Hospital de Clínicas (HC) da cidade – que podemos imaginar se tratar de um hospital público – a proporção de cesarianas saiu de 56% em 2021 para 64% em 2025, enquanto os partos normais recuaram de 42% para 35%. Ou seja: hoje, neste hospital do interior do RS, somente 1/3 das pacientes de um hospital público conseguem parir de forma fisiológica e com um baixo risco. E a culpa é das mulheres, certo?

Sim, mas é preciso entender que as explicações dadas para o número escandaloso – e crescente – de cesarianas são insuficientes para justificar as taxas inaceitáveis. A melhor explicação para este fenômeno não está no perfil das pacientes, mas no perfil dos cuidadores do parto, os profissionais que detém o poder e a responsabilidade sobre os atendimentos. Não é difícil entender que “existe uma tendência nos cirurgiões de realizarem cirurgias”. Sim, parece uma piada, mas enquanto o parto for comandado por profissionais que trabalham na lógica da intervenção o resultado nunca será diferente. A ideia de que as cesarianas aumentam porque os casos são de maior risco é uma meia verdade contada ad nauseum há décadas, que tenta colocar nas condições das pacientes a indicação abusiva de cirurgias. Essa explicação não se sustenta nos fatos. Talvez pudesse aumentar um ou dois pontos percentuais, mas o que vemos é uma franca epidemia de cesarianas que aumenta os riscos para mães e bebês e torna os partos muito mais caros – que no sistema público é uma conta que todos nós pagamos. Além disso, muito do que é apresentado como justificativa deveria ser visto de forrma oposta. Uma hipertensa, por exemplo, tem uma razão a mais – a pressão alta – para evitar uma cirurgia, pois o aumento da pressão multiplica os ricos de uma grande cirurgia. Entretanto, esta condição é vista como “indicação”.

Há muitos anos, ao participar de um congresso nacional de obstetras, fui interpelado por um professor de uma universidadee paulista que me afirmava que a culpa pelo excesso de cesarianas era a miscigenação de negras e brancos no Brasil. Ou seja: aparte da postura racista do colega percebi que existe um padrão de culpar as vítimas pelos abuso de cirurgias, para que não observemos os interesses e incentivos corporativos, judiciais e econômicos dessa opção. A verdade é que as intervenções no parto ocorrem porque médicos têm uma crescente incompetência para o tipo de assistência que um parto demanda, que não se encaixa na sua lógica e na perspectiva que têm do evento. O parto normal está ligado à “lógica do cuidado”, e pertence à parteria, e não à medicina. Por isso abandonei as propostas reformistas há 2 décadas; não haverá modificação no perfil da assistência ao parto enquanto os mesmos cuidadores concentrarem o poder, como ocorre com a obstetrícia. Só teremos avanço se a medicina for retirada do atendimento primário às gestantes de risco habitual, e se concentre nos casos de alto risco, deixando o parto para a atenção das parteiras profissionais, como ocorre no norte da Europa e Japão. As questões jurídicas e econômicas completam o pacote da “cesariana inevitável”, onde os médicos que atendem parto normal sofrem perseguições da corporação e da justiça e têm muito menos incentivos econômicos para a sua atividade. Não é difícil entender porque minha postura revolucionária – e o abandono das posições idealistas – produziu o ódio com o qual minha corporação sempre me tratou.

Entretanto, sou um otimista. Houve avanços nos últimos 27 anos que acompanho o desenvolvimento de políticas para o parto e participo de instituições como a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. Mas estes avanços são lentos. Muito conseguimos com a popularização das doulas, algo que introduzimos no Brasil no ano 2000, com os primeiros cursos de capacitação que foram realizados no Brasil e em Portugal. Outro fator importante foi a “Lei do Acompanhante“, de 2005, que mudou o direito dda família de acompanhar a mulher durante o trabalho de parto e o parto. Desde que os familiares, em especial maridos, puderam testemunhar oque ocorria no centro obstétrico, houve uma clara transformação na estética do parto. Diminuíram os gritos e as ameaças de forma considerável. Mas isso não mudou a taxa de cesarianas, que continua crescendo. Conseguimos ao menos deixar os médicos envergonhados pelo atendimento ruim que oferecem, expondo sua falta de capacidade para o atendimento ao parto. Muito há ainda para fazer, e isso depende de nossa capacidade de indignação.

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Culto

Uma notícia de algumas horas, associada a um editorial claramente reacionário do jornal “O Estado de São Paulo” dá conta de que o escândalo envolvendo as ligações obscenas entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro não retirou muitos pontos entre aqueles que pretendiam votar no “mitinho”, o filho do Mito. Percebem o significado dessa posição do eleitorado de extrema direita? Nunca foi contra roubo, corrupção, possíveis conchavos ou a desonestidade com que os bolsonaristas e a direita corporativa acusavam Lula e o PT, mesmo sem apresentar provas e tendo que apelas para um golpe judiciário que envolveu promotores fascistas e um juiz corrupto. O que se vê agora é que, para o eleitor cativo de Bolsonaro, não há problema nenhum em roubar, fazer maracutaias, pedir propina, comprar mais de 100 apartamentos – 51 deles com dinheiro em espécie – ganhando apenas salário de deputado. Tudo isso é permitido, natural e justo, desde que os beneficiários dessas tramoias não sejam do PT.

O inaceitável, para a direita, é um nordestino pobre, migrante e sem dedo se meter a besta e ocupar a presidência de um dos maiores e mais ricos países do mundo, um lugar reservado apenas àqueles do andar de cima da nossa sociedade de classes. O fato de um pernambucano e operário da Villares como o Lula tornar-se representante dos pobres e dos trabalhadores é o que o torna indigno de perdão por parte da burguesia atrasada e corrupta desse país. Por isso a direita perdoa Bolsonaro & Filhos pelos seus crimes e até a roubalheira do Master e Vorcaro, mas jamais aceitará que um retirante como Lula seja o mandatário do país, por mais honesto que ele seja.

Sim, os estrategistas da direita apostam em uma total dissonância cognitiva combinada com uma narrativa messiânica para sabotar o Lula 4. É preciso uma ligação mística, um culto, onde eleitores são tratados como prosélitos de uma religião salvacionista. Por isso que a demonstração da desonestidade essencial de membros da Família Bolsonaro é pouco efetiva para conquistar corações e mentes dos eleitores desse campo. Para derrotar o “mal socialista’, o comunismo, as esquerdas e a perda da “liberdade” que eles representam é possível até fazer um pacto demoníaco e colocar pessoas sabidamente desonestas no poder.

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Crime

Todos somos confrontados cotidianamente com o problema do crime – tanto na sua vertente “organizada” quando a parcela caótica e orgânica. Por certo que a tentação – para muitos incontrolável – é olhar para os sujeitos que abraçam o crime como portadores de uma mácula moral, como se algo ruim, egoístico e malévolo estivesse determinando suas atitudes. Eles seriam conduzidos por forças maléficas, por espíritos das trevas e, por isso, deveriam ser dominados ou destruídos. O simplismo dessa ideologia maniqueista se torna ainda mais dramático quando o “combate ao crime” é tratado apenas de forma punitiva, com a ideia de que, separando esses indivíduos da sociedade (ou eliminando-os, como sonha a direita), esta se tornaria limpa de sua sujeira moral e apenas sobrariam os trabalhadores, os éticos, os corretos e os honestos. O fim dos “vagabundos” traria paz social e progresso.

Com essa perspectiva punitivista e inexorável, somente sobrariam no capitalismo aqueles conformados com a dura realidade de suas vidas de trabalho, apenas aqueles que aceitam sem queixas sua subalternidade essencial, sua condição de classe, e o fato de que o mundo é construído para oferecer aos ricos as benesses e aos pobres o suor. Este modelo oferece ao 0.1% mais rico 14% da riqueza produzida por todos, ou seja, 1 milésimo dos americanos ganha 14% do bolo nacional, e metade da sua população mais pobre recebe apenas 2.5% da riqueza, um recorde impressionante. Nos Estados Unidos 133 mil famílias ganharam nesse período mais US$ 6 trilhões em riqueza líquida, principalmente devido ao aumento no valor das ações e de investimentos no mercado financeiro.

O problema é que esse modelo de eliminação dos insatisfeitos não leva em consideração as causas da criminalidade. Esta visão moralista não explica porque há tantos crimes no Brasil e tão poucos no Japão. Quando muito, apela para a velha retórica moral: os japoneses são mais éticos que os brasileiros, moralmente superiores – que o digam a Yakuza e seus métodos éticos ou o massacre de milhões de chineses e coreanos na II Guerra Mundial.

Mais ainda: o modelo de encarceramento é um fracasso absoluto em todos os países ou comunidades onde foi aplicado. Até mesmo no país que condena à morte crianças, como os Estados Unidos – que os Bolsonaro adoram – está diminuindo a volúpia prisional pelo fracasso do modelo dos “3 strikes” da época do presidente Clinton. Aumentar a massa carcerária estimula o crime, por colocar de volta à sociedade sujeitos ainda mais ressentidos com o sistema injusto que os governa.

Ou seja: não se trata crime com mais crime. Não se solucionam problemas estruturais de distribuição de renda de um país com cadeia. O problema é o capitalismo, a propriedade privada dos meios de produção a sociedade de classes e a distribuição obscena de riquezas. Colocar os que se insurgem contra as injustiças – mesmo que de forma criminosa – atrás das grades nunca será solução definitiva, e apenas oferece um sentido de vingança, passageiro, fugaz e ineficiente. Ainda que possa aplacar a raiva das vítimas, é incapaz de mudar a realidade e ainda estimula a criação de novos criminosos pela abertura de vagas no mercado.

Sem olhar para as causas vamos continuar indefinidamente a combater as consequências, e com a mesma ineficiência de sempre.

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Língua

“Gosto de roçar a minha língua na língua de Camões” (Caetano Velloso)

Ontem presenciei um curto debate nas redes sociais a respeito do uso de uma palavra: “alevantar”. Um sujeito, ao ler a expressão, criticou o que julgou ser o uso errado do idioma, dizendo se tratar de “coisa de petista”. Acho que cabem algumas considerações, até porque a forma como falamos e escrevemos tem a ver com questões políticas e de classe.

Mesmo aqueles que afirmaram que “alevantar” estava certo também, de certa forma, estavam errados. Digo isso porque o conceito de “certo” e “errado” em se tratando de língua portuguesa não faz sentido nenhum. Como dizia meu filho, quando tinha uns 10 anos, “falar ‘menas’ é uma questão de tempo”. Se as pessoas usarem desta forma no futuro irá verter para o cotidiano da fala e, posteriormente, para o vernáculo mais erudito. Tratar da fala como errada ou certa é, em verdade, uma forma de estabelecer diferença de classes, baseando-se na maneira como as pessoas falam. O debate poderia ser entre “norma culta” x “norma popular”, mas até esse debate já está um pouco defasado, porque, para alguns autores, existem tantas línguas quanto falantes, e nos comunicamos porque reconhecemos semelhanças entre as nossas falas – nossos idiomas pessoais – e as de nossos interlocutores.

Dizer que uma expressão é “errada” é um equívoco conceitual, pois não leva em consideração a função precípua dos idiomas. Usando um exemplo que li do linguista Marcos Bagno, dizer que “alevantar” está errado seria o mesmo que afirmar que uma cobra é um animal “errado” porque não tem pernas. Ora… errado em relação ao quê? Uma cobra é absolutamente adaptada ao seu meio ambiente – aliás, a mais tempo do que nós. Pela mesma perspectiva, uma expressão funciona se está adaptada à comunicação de ideias e se transmite conceitos e símbolos aos outros falantes, e “alevantar” cumpre essa função, pois todos que a leem entendem o que significa. O preconceito linguístico é uma forma clara de estabelecer barreiras de classe, por isso é usado em qualquer comunidade. Entretanto, é importante ter uma postura crítica em relação a estas diferenças culturais, para evitar exclusões baseadas na forma específica como as pessoas se comunicam. Por certo que, se uma pessoa fala e/ou escreve na norma popular será discriminada por não conhecer o idioma das classes “superiores”. Entretanto, essa forma de falar não é errada, feia ou menor; ela é o motor das transformações da fala. Na verdade, ela está na linha de frente da construção do idioma. A norma culta olha para o passado; a popular para o futuro.

Questionar o preconceito de classe que se insere nas críticas ao modo de falar, em especial das pessoas mais simples, não significa desprezo pelo aprendizado da norma culta. Ela é importante para que as pessoas falem em círculos de poder superiores, como na academia ou nas empresas. Entretanto, a língua que falam em casa ou com seus iguais não está “errada”, e nem é culturalmente inferior. Desta forma, acreditar que uma expressão está errada, apelando para um positivismo linguístico maniqueísta, deturpa a própria função dos idiomas. Uma língua falada funciona como os seres vivos, que por meio de metamorfoses infinitas se ajustam às necessidades oferecidas pelo meio ambiente mutante. Da mesma forma, a língua se modifica em decorrência das necessidades dos humanos, implicando na transformação dinâmica dos idiomas, dos sotaques, das expressões e das gírias com as quais estes se expressam

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Meu nome é Enéas

Enéas é o político sempre lembrado pela direita conservadora raivosa, mas era um “antissistema” sem muita noção da política. Era médico (portanto, reaça), militar da reserva (nem precisa explicar) e católico fervoroso (outro grupo conservador). Era o “hat trick” dos reacionários pós ditadura. Na atualidade, o personagem mais parecido com ele, pelo perfil, é o Ronaldo Caiado que é médico, católico e latifundiário; entretanto, pelas falas enérgicas e pela postura pública, quem mais se aproxima é o Rubão. A gente sente saudades de personalidades como o Enéas pela sua postura nacionalista, pela defesa do capitalismo nacional e a favor da soberania da Pátria, pois estas eram características da velha guarda das forças armadas, inclusive da turma de 64. Hoje em dia os militares são plenamente dependentes – econômica e ideologicamente – dos Estados Unidos, e não existe mais o fervor nacionalista de outrora.

Já a direita brasileira atual é absolutamente entreguista, ligada à subserviência ao Império americano. Para os garotos do MBL qualquer defesa da soberania nacional e em favor da independência em relação ao imperialismo é vista com desdém pelos seus seguidores. Os líderes dos paretidos de direita no Brasil – mas também na Argentina, como Milei – são ligados umbilicalmente à ordem imperialista, e não existe limite para a submissão humilhante ao ditames americanos. Observem o comportamento de capacho da família Bolsonaro, onde o ex-presidente chegou a dizer “I love you” para o canalha do Trump. Ali foi o ponto mais baixo do acadelamento da nação, a maior humilhação pública de um chefe da nação em relação ao seu “patrão”.

Entretanto, por mais que suas ideias econômicas fossem ideologicamente neoliberais e falassem mais do mesmo, e não acrescentasse em seu programa o necessário combate à sociedade de classes, Enéas JAMAIS se ajoelharia a um poder estrangeiro como fazem os atuais militares e os líderes da direita entreguista brasileira. Enéas agora é lembrado pelo seu real patriotismo, mas não passava de um político comum, que inclusive mentiu – como é comum entre os candidatos ligados ao grande poder econômico – sobre a promessa de jamais se candidatar a cargos menores, desejando apenas a presidencia. Foi o deputado federal mais votado de São Paulo. Morreu de leucemia mas deixou a saudade de muitos pela sua postura nacionalista.

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Medicina, capitalismo e desastres

Enquanto a medicina for inserida dentro do capitalismo, a venda de drogas continuar a ser um dos maiores negócios transnacionais e a sua publicidade liberada – prometendo beleza, saúde, juventude eterna, felicidade e o fim da angústia – casos como o do jovem fisiculturista encontrado morto ainda serão muito comuns. Os elementos que mais chamam a atenção nesse caso são a idade, a aparência saudável e o gênero da vítima. Sim, estas tragédias são muito mais comuns nas mulheres, que são afetadas por estes tratamentos “mágicos” há milhares de anos, submetendo-se a tratamentos, cirurgias, dietas e drogas na ilusão de permanecerem eternamente desejáveis. Nem precisa lembrar os “pés de lótus“, que deformava os pezinhos das chinesas no período imperial, os “espartilhos“, as “canetinhas” e as cirurgias estéticas abusivas a que se submetem há milênios. Até dietas absurdas e restritivas foram causadoras de milhões de mortes. De acordo com estimativas, só no ano de 2023 dietas inadequadas foram causadoras de mais de 4 milhões de mortes por cardiopatia isquêmica (infartos). Também foram perdidos 97 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (o chamado índice DALY). Trata-se, portanto de uma mortandade superior às guerras!!

No início deste século perdi uma amiga parteira jovem que se submeteu a uma lipoaspiração apenas poucas semanas do nascimento da sua filha. As gordurinhas a mais lhe pareceram insuportáveis, e isso a levou psrs s cirurgia e ao trágico desfecho. Por muito tempo acreditei que essa morte poderia ser evitada com adequado aconselhamento. Pensava “se eu tivesse conversado com ela”, e isso me torturou por muito tempo. Entretanto, hoje eu penso com mais realismo. Que conselho poderia dar que seria capaz de suplantar a avalanche de publicidade que ela recebia desde a mais tenra infância sobre a necessidade de um corpo perfeito? O massacre publicitário a que ela se submeteu está em toda parte, nos filmes, novelas, revistas e na imagem do ser humano “moderno”, com seus corpos altamente “trincados”. Para isso criaram uma quantidade gigantesca de drogas e tratamentos – sem falar nos influencers – que lucram com essa indústria. A morte desse jovem vai para a conta desse modelo de sociedade que faz da imagem corporal uma indústria de lucro e morte.

Claro, não se trata de criticar o natural e saudável desejo de ter saúde, e nem a eventual necessidade de usar algum medicamento para este fim. Porém, neste caso específico, fica muito claro que não se trata de uma busca por saúde. Havia o interesse por uma imagem idealizada de poder, um falo gigantesco usado para expressar externamente valores da masculinidade – assim como fazem as mulheres com sua feminilidade, abusando das inserções de silicone ou cirurgias exageradas. O preço para estes exageros fica muito claro: doenças e até a morte precoce, antes mesmo de atingir a maturidade. A indústria de drogas lava as mãos, pois afinal o sujeito é livre para usá-las e não cabe a ela o dever de fazer avaliações morais ou estéticas sobre quem faz uso de seus produtos. Enquanto isso, as mortes por drogas legais se acumulam, tanto aquelas relacionadas com hormônios quanto com as famosas “canetinhas” emagrecedoras, cujos resultados funestos ainda não apareceram por completo, mas podem ser descobertos em médio e longo prazos.

Uma vida mais saudável, sem drogas de qualquer natureza – salvo em clara e evidente necessidade – deveria ser a conduta de todos. Esta deveria ser, em especial, a recomendação dos médicos, pois estes estudaram os efeitos ruins dos remédios que prescrevem, e os riscos associados ao seu uso. Entretanto, é da essência da medicina capitalista a adoção de tratamentos e remédios, cirurgias e intervenções sobre os corpos. Médicos são despachantes de drogas que, ao lado de auxiliarem o sujeito em algumas doenças, causam a alienação do paciente sobre a condução de sua própria saúde. Além disso, sáo os médicos os mais afetados pela publicidade da indústria farmacëutica, refém de uma indústria bilionária que precisa de suas prescrições. É pouco provável que surja por parte da corporação médica uma reação forte capaz de evitar este tipo de influência. Resta esperar que as pessoas, adequadamente orientadas, afastem-se das soluções mágicas e das propostas estéticas fantasiosas, aceitando a naturalidade dos seus corpos e o cuidado natural de sua saúde.

Leia mais aqui e aqui.

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A ilusão do conhecimento

Em inúmeros campos do conhecimento é possivel ver de forma clara a relação promíscua entre saber e poder, bastando para isso que tenhamos a atenção e a coragem necessárias para reconhecer nossa parte nesse latifúndio. Na assistência ao parto, campo no qual atuei por mais de três décadas, nossa arrogância nos impediu de enxergar a evidência cristalina de que não havia – e não há – falta de conhecimento ou informação para adotar as melhores práticas. Em verdade, não há dificuldade alguma para encontrar as evidências cientificas que sustentam a atenção humanizada ao parto, em especial após o advento da internet. Assim, a prática cotidiana se exerce pelo exercício autoritário de poder sustentado pela narrativa cientificista. Essa transformação, que se estabeleceu nos umbrais do século XX, exterminou o saber milenar das parteiras em nome do conhecimento médico na maior parte do mundo ocidental . Apesar de hoje ser possível avaliar as repercussões dessa mudança e estabelecer críticas sobre ela, não é justo desmerecer a importância dos avanços científicos da obstetrícia, mas é necessário questionar a dificuldade em reconhecer suas falhas e inconsistências. Em especial, é essencial avaliar o que e o quanto perdemos com a aventura tecnológica no parto.

Para manter perspectivas equivocadas intocadas é fundamental realizar sobre as práticas emergentes uma série de ataques e criar desconfianca sobre seus resultados. Uma forma de fazer isso é por meio da dissonância cognitiva, que ficou conhecida no bolsonarismo. Tudo vira uma “opinião”, portanto, relativo e subjetivo. Parto normal é opinião, episiotomia é opinião e cesarianas em excesso são uma questão de gosto pessoal do cirurgião. Chomsky tratou desse tema ao questionar os “consensos manufaturados”, explicando como os grandes meios de comunicação em democracias capitalistas ajudam a moldar a opinião pública de forma favorável aos interesses políticos e econômicos dominantes. Desta forma, a repetição incessante de uma determinada visão de mundo cria um sentimento de identidade entre aqueles que a adotam. Ser aceito pelos seus pares é uma das necessidades humanas mais primitiva, e por isso muitos absurdos que testemunhamos na época Bolsonaro – a chamada de ETs por celular, as marchas ridículas, a continência para pneus, o anti-intelectualismo, o deboche com as vítimas da Covid, etc – produziram uma enorme energia de coesão social, mesmo oferecendo um espetáculo ridículo para a posteridade. O mesmo acontece com os médicos, jogados em um sistema onde essas inverdades são repetidas até se tornarem verdades.

Na questão dos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, em um mundo gerenciado pelo modelo patriarcal, é tolice continuar apostando em informação e conhecimento como suficientes para moldar consciências e mudar a prática, sem reconhecer que a inércia na atenção ao parto é devida às questões de poder e de quem o controla, o que impede as mulheres de conhecerem uma perspectiva alternativa para os seus partos. Sem tocar na ferida da ideia do parto como “evento médico”, controlado por cirurgiões e em hospitais especialmente criados para tratar pessoas debilitadas e doentes, não vamos avançar no atendimento à fisiologia do parto. Desta maneira, controlados pela ilusão do conhecimento objetivo e sem encarar a luta política por partos normais, seremos incapazes de salvar o nascimento humano de seu destino macabro: dele restará uma foto na página amarelada dos livros de medicina cibernética do século XXII, cuja legenda será um melancólico “parto ancestral”.

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Golfinhos e mosquitos

Um dos objetivos mais claros do sionismo sempre foi a desumanização da população nativa da Palestina. Uma das formas de realizar esta tarefa é jamais chamando os palestinos pela sua identidade nacional. No lugar disso, usam um nome genérico para eles como “árabes”, de forma a cortar qualquer ligação visceral e ancestral daquele povo com sua terra.

A desumanização objetiva a impossibilidade de estabelecermos com estes povos um ponto de identificação e empatia. Para esse tipo de conexão é necessário enxergar no outro elementos que existem igualmente dentro de nós, criando uma ponte de afinidades. Assim, é possível sofrer pela morte de golfinhos, baleias, cães e gatos, mas quase nenhuma lágrima derramamos pela morte de atuns, tubarões, mosquitos e serpentes. O primeiro grupo parece ter os mesmos sentimentos que nos animam, mesmo que de forma embrionária e pouco desenvolvida; o segundo grupo parece completamente destituído de alma, e por isso é que matá-los não nos causa grande desconforto.

Para levar a cabo o Nakba e sua continuação, chegando até o genocídio de Gaza na atualidade, esta foi a grande tarefa dos ideólogos do sionismo. Era uma tarefa primordial não reconhecer neles as emoções que fazem parte da nossa arquitetura emocional. O amor pelos filhos palestinos, pelos irmãos e amigos, não é o mesmo que vemos nas crianças loiras europeias. A dor deles não é a mesma que nos tortura os sentidos. parecemos ser diferentes em essência.

Nesta semana, cinco pessoas morreram em um ataque a tiros no Centro Islâmico de San Diego, na Califórnia, entre eles os dois atiradores e um segurança, Amin Abdullah. O centro islâmico, localizado no bairro de Clairmont, em San Diego, é a maior mesquita do Condado de San Diego, e visitado por milhares de seguidores da fé islâmica. Os atiradores foram encontrados mortos dentro de um carro, provavelmente após tirarem suas próprias vidas.

Um exercício interessante seria imaginar se esse crime tivesse ocorrido dentro de uma sinagoga americana, lotada de jovens judeus exercendo sua fé, levado a cabo por um sujeito de origem árabe. Por certo que a opinião pública estaria sendo inflamada pela imprensa sionista, dizendo tratar-se de um crime de terrorismo, um ataque antissemita, oferecendo combustível para a crescente islamofobia do país. Alguns, mais afoitos, estariam conclamando multidões para uma represália indiscriminada ao Islã, não obedecendo a nenhum critério ou linha de demarcação geográfica. O ataque contra uma comunidade judia seria visto como uma grave ameaça aos judeus e ao judaísmo, um crime de ódio religioso.

Entretanto, as vítimas do ataque eram muçulmanos americanos. Não eram “como nós”, e por isso a questão será tratada como a ação isolada de dois garotos incel, um problema geracional, um assunto privado que diz respeito aos problemas psicológicos de adolescentes mimados numa cultura armamentista. A ninguém da imprensa americana ocorrerá chamar esta ação de “terrorista’. O lobby sionista americano, que controla a mídia corporativa, já está tratando de limpar a cena do crime, para que não se fale da motivação óbvia desse massacre. Entretanto, sabemos que não se trata de uma questão local, mas um novo capítulo de uma série chamada “Terrorismo sionista contra o Islã”. Quando a polícia investigou o automóvel onde os dois adolescentes morreram, encontrou escritos anti-islâmicos desenhados nas próprias armas, cartas estimulando ódio racial e imagens e textos que sugeriam quen seriam combatentes diante de uma “guerra santa” contra o Islã. Nada disso ocorreu de forma espontânea, pela livre vontade dos atiradores; trata-se do resultado direto do envenenamento a que foram submetidos por uma longa lavagem cerebral.

É importante atentar para mais uma tentativa de silenciar as vozes que acusam essas mortes como parte do terror sionista, que tem no sionismo internacional sua origem, projeto e execução, usando mentes frágeis de adolescentes como massa de manobra para estes crimes.

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Generalizações

Generalizar contra negros, gays ou imigrantes usando uma minúscula fração desses grupos – a parcela que cometeu erros ou mesmo crimes – parece ser errado, por tomar uma pequena parte para representar o todo. Creio que ninguém é capaz de discordar disso, não? Quaisquer textos que iniciem com “os negros são”, “as mulheres gostam”, “os judeus pensam que” ou “os gays preferem” parecem inexoravelmente contaminados por preconceitos inaceitáveis, que colocam um rótulo de gênero, orientação sexual ou etnia acima da suprema riqueza da subjetividade humana.

Pois… quem concorda com o paragrafo acima, poderia explicar por que ainda aceitamos o preconceito incoerente contra os homens, tão na moda nos dias de hoje? Por que lemos cotidianamente nas redes sociais manifestos contra os homens – e o masculino – sem revirar os olhos como fazemos com os textos racistas ou machistas? Por que parece justo afirmar que os homens são “naturalmente violentos”, “abusadores” (que apenas aguardam a adequada oportunidade) e “est*pradores em potencial”, apenas porque uma parcela ínfima (vide abaixo) de homens realmente pratica tais atos condenáveis? Além disso, que dizer das mulheres que igualmente agem mal, cometem deslizes e crimes, mesmo sabendo que esta proporção é também diminuta? Seria justo acusar um gênero inteiro pelo erro de algumas poucas, colocando a culpa na essência e não nas circunstâncias? Taia ataques aos homens enquanto gênero ocorrem exatamente num momento em que as sociedades valorizam tanto a liberdade e a subjetividade. Porém, ao chamar homens de agressores e estupradores de forma irrestrita e generalizada abre-se a “caixa de pandora” para generalizar também as mulheres a partir de uma ínfima minoria. Mas não foi essa a justa reclamação que segmentos feministas sempre fizeram?

“Homens”, “mulheres”… quando generalizamos dessa forma os gêneros, isso abre um flanco enorme para o contra-ataque, que sempre vem com cara de misoginia – e é mesmo. Só que tratar todos os homens de maneira uniforme é… como é mesmo que se chama o reverso da moeda? Isso não significa que as questões de gênero não devam ser debatidas e a violência combatida com todas as forças, em especial aquela exercida no ambiente doméstico contra as mulheres e as crianças, os grupos mais frágeis e mais propensos a sofrer este tipo de opressão. Entretanto, extrapolar o problema de menos de 1% dos homens para que o abuso e a opressão criminosa se tornem a marca tatuada na testa de todos é um erro que me parece inaceitável.pois tais acusações contra o gênero masculino são, via de regra, grosseiras e injustas. Como se pode ver em inúmeros estudos, mais de 99% dos homens jamais agrediu uma mulher ou cometeu qualquer crime.

Defendo o masculino porque passei 50 anos da minha vida profissional lutando contra as generalizações demeritórias que eram feitas contra as mulheres, contra sua fisiologia, sua sexualidade, seus ciclos e seus partos. Ver mulheres cometendo a mesma injustiça contra os homens – e se achando moderninhas porque os atacam – me deixa tristeb e indignado. A imagem que me vem à mente quando vejo texto inflamados que acusam os homens por toda e qualquer chaga do mundo, desferindo impropérios contra o gênero enquanto grupo é: essas mulheres não tem pai, marido, filhos, irmãos? É isso que elas enxergam neles? Seriam eles também agressores ressentidos, violentadores em potencial? Essa visão do masculino veio de onde? Ou “seus homens” seriam diferentes, especiais, “desconstruídos”, e essa fala é apenas sobre os “outros homens”?

E não adianta me acusar de “machista” apenas porque “atacaram os homens”, ou que “não suporto ler verdades”. Não é correto, nem justo. Sei o quanto os homens precisam se adaptar a um mundo mutante, onde os papéis – outrora fixos e estáveis – agora são voláteis e vicariantes. Homens e mulheres precisam se adaptar às transformações violentas nos costumes, no trabalho e na expressão de suas sexualidades. Forçoso é aceitar que existem homens que não concordam com esse confronto, com uma dicotomia estabelecida pelo ressentimento, e muitas mulheres também não aceitam que seus filhos, irmãos e amigos sejam julgados de forma tão negativa. Generalizar serve aos interesses apenas de quem fomenta ódio.

Vocês sabiam?

👨 99,16% dos homens brasileiros jamais cometeram algum tipo de crime ou violência.

➡️ Dos 103.662.286 de homens brasileiros, apenas 0,83%% cometem crimes segundo todos os dados oficiais.

👉 Mesmo se os dados fossem extrapolados com subnotificações desconhecidas, o número seria de 97,5% dos homens brasileiros que nunca cometeram nenhum tipo de crime ou violência. Estes dados foram coletados e analisados com base em estatísticas oficiais do IBGE, SISDEPEN e CNJ.”

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