Calar

Para que entendam:

Há uns 15 anos fui procurado por uma jornalista para falar sobre parto domiciliar para um jornal local, que nem existe mais. Na entrevista, falei o básico: direito de escolha, experiência internacional, estudos, pesquisas, protocolos, riscos, Holanda, Inglaterra, etc. Terminei a entrevista sem saber que haveria um contraponto, o qual foi feito por outro profissional. O convidado foi um representante do conselho médico, cesarista, bolsonarista e que sempre atacou os pressupostos da humanização do nascimento.

Mentiu sobre riscos, sobre taxas de parto domiciliar e sobre mortalidade neonatal no norte da Europa. Houve três grandes mentiras e algumas menores. Quando vi a matéria no jornal não me surpreendi: esse era mesmo o tom do debate nessa época. Mentir sobre o tema era o padrão entre os profissionais da obstetrícia, assim como ainda hoje se mente sobre o comunismo, a II Guerra Mundial, palestinos, etc.

Todavia, eu não estava preparado para ser chamado no conselho médico para ser punido por tratar desse assunto. A justificativa era que, se eu falasse de parto domiciliar em público, tal abordagem poderia convencer (seduzir seria um termo melhor?) as mulheres a esta abordagem, e isso causaria, na pior das hipóteses, riscos a mães e bebês.

Esqueçam os estudos, as provas, as metanálises, as publicações de vários países.  Nada disso tem valor, só o poder de proibir. Da mesma forma, na Palestina esqueçam os vídeos, depoimentos e laudos sobre o genocídio. O que vale é o poder de quem detém a força.

Na época escrevi uma longa defesa cujo centro argumentativo era (adivinhem) este: não é admissível que se possa censurar a livre expressão de uma ideia disseminada pelo mundo todo. Não seria justo com as mulheres esconder delas uma alternativa, sem que se usem argumentos consistentes e provas clínicas, e não o simples exercício abusivo do poder de silenciar dissidências.

“Se não concordam com esse pedido, que vem primariamente das mulheres, abram uma frente de debate acadêmico sobre o tema e vamos conversar. Podem até me calar, mas não vão silenciar todas as mulheres por todo o tempo”, foi o que escrevi como minha defesa.

Escrevi isso agora para que entendam que quando a gente quer censurar um cara por dizer uma merda gigantesca, defendendo o sionismo, o nazismo ou o mais inveterado machismo, a censura é absolutamente contraproducente. Mas existe algo ainda muito pior: quando censuramos – com a melhor das intenções – uma fala considerada abjeta, porque teoricamente poderia causar dano, abrimos as portas para, logo ali adiante, sermos as vítimas da censura. E aí, como vamos nos defender?

Não existe censura do bem. Toda a censura é uma autodeclaração de incapacidade. Nao se combate mentira com silêncio, mas com a verdade.

se voce falar em Israel que as mortes de 7 de outubro foram causadas pelos helicópteros Apache israelenses será censurado. Afinal, isso pode colocar a segurança do país em risco. Pense nisso.

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Apagamentos

A ideia de falar sobre qualquer tema sem freios e com plena liberdade ainda causa controvérsias. Para muitos, em especial para a esquerda identitária, alguns debates são opressivos, pois ofendem grupos oprimidos e podem gerar dano. É o que se chama “palavras que matam”, ou “discurso de ódio”. Isso está por trás de projetos como o da Misoginia ou o famigerado projeto para criminalizar críticas a Israel, pois levariam ao antissemitismo e ao holocausto.

Para quem defende essas pautas existem temas que não podem ser expressos publicamente. Por essa lógica, não poderemos falar de coisas que podem afetar negativamente as pessoas. Tipo, comunismo. Não pode falar, afinal o comunismo “matou milhões”. Não podemos criticar Israel, pois…. ora, Holocausto. Não podemos falar da ditadura militar pois ela salvou o Brasil do… comunismo, ora. E a lista vai ao infinito, mas chama a atenção que o rol de proibições é feito sempre por quem tem poder de calar a voz dos outros.

Talvez alguns não entendam minha reação alérgica à censura, isso porque são muito jovens. Já eu sou do tempo em que as mentiras eram combatidas com a verdade e não com a censura. Aliás, levei borrachada da Brigada Militar por dizer “censura nunca mais”. Ora vejam só que ingênuo eu era. A censura, como debate público, ressurgiria com muita força exatamente na esquerda e entre os movimentos identitários ali inseridos, nos dando a entender que censurar, afinal de contas, poderia ser uma… coisa boa. “Vamos proteger minorias criando uma blindagem do discurso para eles”, mas só para eles. Homens héteros, brancos e cis são os nossos ‘inimigos” e para eles continua valendo a nossa natural virulência. Essa precisa permanecer assegurada.

Opressão mata mesmo, mas a opressão verdadeira, não os “gatilhos”, as “palavras mortais” ou o “discurso de ódio” – um conceito vago e impreciso exatamente para poder caber nele o que nos interessa. Opressão é matar palestinos, é fome, bloqueio, invasão, violência, miséria, e não chamar um cara de “viado”. O fato de algo ser ofensivo e preconceituoso não significa que ele é ilegal. As palavras precisam ser livres, incluindo aí as ofensas, pois sem isso obstruímos o debate, moralizando o discurso e impedindo que ele chegue nas feridas mais profundas da sociedade.

Por último, a ideia da “censura do bem” é um erro brutal sobre o funcionamento psiquico humano. Parte da ideia de que, se uma coisa não é dita ou não é escrita, ela pode enfraquecer e até desaparecer. Será que Freud precisa reencarnar para nos ensinar de novo sobre o “retorno do recalcado”? Será que as pessoas não viram que os partidos comunistas sempre foram proibidos e estão cada vez mais fortes? Não notaram o recrudescimento das células nazistas apesar de organizações e símbolos serem proibidos há décadas? Não perceberam o quanto proibir homossexualidade é absurdo? E, por fim,  não perceberam o quanto silenciar a expressão de inconformidade apenas atrasa o surgimento das ideias, fazendo-as retornar ainda mais poderosas?

Liberdade de expressão é quando alguém diz o que você não quer ouvir. Sem tratar esse valor como sagrado, todos os outros direitos fundamentais são atingidos. E quem não consegue combater nazismo, sionismo, machismo e qualquer outra ideologia apresentando argumentos tenho uma má notícia: você não acredita na sua verdade, por isso quer tanto destruir a fala de quem se opõem a ela.

Proust fala sobre isso em um de seus livros, “A Fugitiva”. Nele, o narrador, Marcel, vive a perda de Albertine, que o abandona inesperadamente. A partir daí, ele tenta obsessivamente recuperá-la e compreender sua partida, recorrendo inclusive a intermediários e procurando descobrir detalhes sobre a vida dela. A situação muda radicalmente quando recebe a notícia da morte de Albertine. Ou seja, ao invés de apagar as lembranças e tentar esquecer a mulher que o abandonou fez exatamente o oposto: foi atrás dela para entender sua fuga, e só assim, confrontando a realidade dura, ser capaz de superar seu luto. Essa é uma aula memorável de Marcel Proust ao mundo (e à psicanálise): de nada adianta apagar ou calar aquilo que nos desagrada; a única solução é a superação, e esta só ocorre por meio da confrontação

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Pureza e Depravação

Vejo os ataques ao Lula pelos crimes mais variados. Estes ataques são, em geral, ataques à esquerda e são a marca registrada da direita no mundo todo – pânico moral, China, costumes, Coreia Popular, Cuba, corrupção, inchaço da máquina publica, “quebradeira” de estatais, Estado desequilibrado, financiamento a ditaduras e ditadores, impostos, inflação. A lista é muito grande, mas se concentra nestes temas. Porém, as críticas tendem a se direcionar muito pouco para a estrutura do Estado e muito sobre os valores de caráter dos governantes.

Para o pessoal de direita eu costumo perguntar se diante de tantas e variadas falhas morais o melhor seria votar nos candidatos da direita, como Flávio Bolsonaro. Eu questiono: essas máculas que vocês enxergam nos governos Lula não ocorreram também no período recente de Temer/Bolsonaro? Não houve escândalos de corrupção? As estatais cumpriram sua função? Não houve inflação? Não houve aparelhamento? Não houve desvios? O Brasil teve um surto de progresso? Ninguém roeu osso? Não voltamos ao mapa da fome? Não sucateamos de propósito as universidades? A educação foi valorizada?

Ou seja, você acredita que Lula e as esquerdas são o mal a ser evitado, e isso porque as pessoas corruptas, incompetentes e de má índole escolhem naturalmente o viés de esquerda para atuarem. No seu modo de ver, as pessoas “direitas” escolhem os partidos à direita, é isso?

Eu sou um sujeito crítico aos governos do Lula e do PT, mas não perco meu tempo centrando minhas críticas nos aspectos morais. Prefiro criticar a tendência dos governos petistas em pender para a direita, deixando de lado as reformas necessárias em direção aos valores socialistas e ao desenvolvimento centrado na atuação firme do Estado. A análise “moral” serve apenas aos interesses de quem não quer debater política e nem a estrutura do Estado.

As avaliações de ordem moral só proliferam porque existe a crença de que as opções políticas do sujeito são conectadas aos seus valores mais profundos, aqueles que moldam seu caráter. Assim o Lula seria um ladrão inveterado como uma marca de personalidade, algo que o acompanha desde o princípio de sua vida pública – mesmo que tenha sido impossível encontrar o fruto de tantos roubos nos últimos 40 anos de pente fino sobre a vida do presidente.

Por outro lado, à direita concentram-se as pessoas de bem, que jamais aceitariam fazer negócios com ditaduras e ditadores – tipo monarquias absolutistas do Oriente Médio, ou com um país que nos últimos anos matou, de forma direta ou indireta, por volta de 4.7 milhões de pessoas em 8 países diferentes. Curiosamente, este país é governado pela direita há 250 anos, o que torna difícil sustentar esta afirmação. Outra característica da direita é falar de “paz”, mas fica estranho ao se ver a adoração que nutrem pelo Estado de Israel, um país governado pela extrema direita e protagonista de um massacre onde 75 mil pessoas foram mortas diretamente desde 2023, sem falar nos que já morreram e os que ainda estão morrendo de fome e por falta de assistência médica. O número, segundo o jornal médico The Lancet, chega a 190 mil. Eu citei dois países que, não por acaso, são os paradigmas da direita mundial e são amados e exaltados pela direita brasileira.

Fica difícil olhar para a divisão política do mundo e encontrar virtudes morais em um lado enquanto no outro só vemos decrepitude, incompetência e devassidão. Quando olhamos para os exemplos admirados pela direita cabe a pergunta: é isso que vocês querem para o Brasil?

E sobre “competência”, também fica complicada esta divisão quando a China – a “ditadura” do PCC – tem salários médios muito maiores que os do Brasil e Estados Unidos, é o país mais avançado do mundo, tem um sistema democrático muito mais avançado que o ocidental, há mais liberdade e mudancas estruturais no governo são frequentes. Porém, a “esqueda” governa o país há quase 80 anos. Em 1949 era o pais mais pobre do mundo, em 1997 tinha o PIB igual ao do Brasil, e hoje já é dez vezes maior do que o do nosso e quase igual ao americano.

Por isso, é muito difícil entender a separação moral que fazem entre a direita e a esquerda quando os exemplos que encontramos no mundo não estão em sintonia com a ideia de pureza da direita e de depravação da esquerda.

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Discurso de Ódio e Direitos Absolutos

Perceberam como o uso da expressão “nenhum direito é absoluto” sempre aparece quando se torna necessario encobrir uma ilegalidade ou um abuso cometido contra direitos fundamentais – em especial o direito de livre expressão? Tipo, rejeitam a fala de um sujeito ou sua manifestação controversa e, na ausência de argumentos satisfatórios, apresentam o silenciamento, argumentando que este preceito constitucional nao pode ser “levado aos extremos”, e que não é um “direito absoluto”.

Outra forma de atacar a liberdade é acusar as críticas ferozes de serem “discursos de ódio”. E desde quando o ódio passou a ser proibido? Como estes “arautos da paz” acreditam que os países e os povos se libertaram da opressão e da escravidão? Por acaso creem que as tiranias – todas elas – foram abolidas com discursos, abaixo-assinados ou tapinhas nas costas? Como negar a potência transformadora do ódio para remover estruturas recalcitrantes e opressivas? Por qual razão achamos razoável criminalizar a inevitável aspereza das palavras, as adjetivações duras e os ataques severos, se isso faz parte da linguagem humana?

Pois eu afirmo que as acusações de “discurso de ódio” e a defesa da inexistência de “direitos absolutos” são estratégias conservadoras, usadas para que verdades nao venham à tona – ou demorem a aparecer na superfície do discurso. A falácia do “discurso de ódio” é amplamente usada para bloquear as críticas ao Estado Terrorista de Israel, criando a ideia de que a mera análise crítica e acusatória ao colonialismo na Palestina é um ato racista e moralmente condenado. O mesmo ocorre com os outros identitarismos, onde criticar mulheres, negros, trans ou gays virou crime de ódio, mesmo que as críticas sejam direcionadas exclusivamente à sua atuação profissional ou política. E se o sujeito reclama do cerceamento do seu direito de expressão recebe como resposta: “nenhum direito é absoluto” e pronto.

Um projeto político que não encare de frente a proteção do sagrado direito de livre manifestação não pode ser considerado de esquerda, e muito menos socialista. Quem prioriza seus vínculos identitários, colocando-os acima da plena liberdade, sem estes subterfúgios oportunistas, não terá moral para reclamar quando sua voz for definitivamente silenciada.

Como dizia Rui Costa Pimenta, sou do tempo que a mentira era combatida com a verdade, não com a censura.

* As imagens que ilustram esta postagem são do tempo em que eu, ainda menino, acreditava no fim definitivo da censura. Acervo da UFRGS.

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Óleo de Cobra

A direita brasileira não aceita as derrotas para os candidatos do campo progressista. Sempre reclama quando perde, e a virulência do discurso de Aécio Neves após sua derrota em 2014 foi o estopim das convulsões sociais que se seguiram. Bolsonaro sabia de antemão que o tal “voto impresso auditável” era inviável para a eleição de 2022. Seria impossível trocar o sistema eleitoral por um modelo que jamais se comprovou superior àquele em uso. Exatamente por isdo, ele plantou nesse pedido pela troca – e na criminosa reunião com embaixadores – a semente da desconfiança nas urnas e a posterior justificativa para o golpe. Sempre foi uma preparação golpista.

Mas é importante ressaltar que a ideia de uma “direita democrática”, “civilizada” ou que “sabe usar os talheres” só existe enquanto ficção. O golpismo inato dessa turma não deveria suscitar nenhuma surpresa; está no DNA. A direita só é democrática na aparência. Fala de liberdade, de pátria e de Deus, mas é fascista em essência, entreguista e vassalagem do imperialismo – vide Bolsonaro – e capaz de todas as imoralidades condenáveis pelo Evangelho.

A distância entre um discurso de respeito à democracia e uma ação evidentemente golpista se desfaz com rapidez, bastando para isso algum fato que ameace – mesmo que de leve – a dominação da burguesia. Vide 54, 64, 16 no Brasil, ou o golpe de 73 no Chile. Bastou algo necessário, como a discussão sobre os monopólios, o imperialismo, a reforma agrária ou uma consultoria da dívida externa para o mais sensato entre os admiradores do Milton Friedmann se transformar em um Pinochet, um Netanyahu ou no próprio Adolf.

Quem acredita num direitista democrata acredita até em tratamento a base de óleo de cobra pra rejuvenescer.

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Inteligência artificial

Era uma vez um sujeito que tinha um cachorro que jogava xadrez. Ele sentava numa mesinha com o tabuleiro pintado na praça da cidade e ficava toda a tarde jogando com seu totó. Os passantes ficavam encantados com a cena. Todos se maravilhavam com o espetáculo inusitado. Até o jornal da cidade fez uma matéria sobre o caso. Não havia na cidade quem não conhecesse o caso insólito do cão enxadrista.

Ou melhor, todos menos o seu Gouveia. Seu Gouveia frequentava a mesma praça e, vestindo seu indefectível abrigo da Adidas azul com listras brancas, aproveitava o tempo de sobra da sua aposentadoria para fazer seus exercícios diários. Ele costumava completar suas voltas na praça e depois se postava ao lado da dupla em seus jogos diários de tabuleiro. Entetanto, ao contrário do resto do assistentes, fazia-o sempre de cara amarrada, contorcendo a face em caretas e com um ar contrariado. Seu comportamento destoava da pequena multidão que se aglomerava em torno da dupla.

Certa feita uma senhora, acompanhada do filho, estava vendo o jogo do cão e seu dono quando percebeu o incômodo do seu Gouveia. Intrigada, perguntou-lhe por qual razão ele era o único que não se encantava com a cena. Apesar de todos elogiarem efusivamente a dupla, ele se mantinha irritado e inquieto. Seu Gouveia tirou as mãos do bolso, olhou com ar severo para a moça, e exclamou:

– Esta brincando? E não é para se irritar? Tudo o que vejo é o cão enxadrista mais medíocre da história. Nos últimos três dias só ganhou duas partidas e pediu empate em outras três; o resto perdeu!!

Moral: não se deixe encantar tão rápido pela forma esquecendo a importância do conteúdo.

* A imagem que ilustra este texto foi criada por inteligência artificial

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Indignação

Sobre o silêncio compulsório

Ficou claro que a argumentação usada para a proibição da manifestação do Sr. Herédia – ex-marido da Sra. Maria da Penha – é semelhante àquela usada pelos defensores do impeachment da Presidenta Dilma: “Ora, ela foi julgada, o congresso decidiu e ela foi deposta. Tudo muito legal. Tudo dentro da lei, e aqui está o STF para ratificar”

Vou explicar – mais uma vez – meu ponto de vista, que coincide com o de algumas pessoas que se manifestaram e vai de encontro à visão de outros. Quero mostrar que este trâmite aparentemente “legal” é exatamente o que contestamos. Dizer que o Sr Herédia ao dar entrevistas, citar o caso e comentar os personagens envolvidos vai revitimizar é uma explicação, ao meu ver, inaceitável. Para não ferir os sentimentos de quem acusa, a solução seria a mordaça, o silêncio compulsório? Pois para mim, censurar desta forma é absurdo e atenta contra os direitos humanos mais básicos – mesmo que tenha percorrido os caminhos legais de um processo.

Vou expor minha perspectiva: no mundo todo centenas de condenações foram revistas porque os condenados, indignados pelo que consideravam uma injustiça, nunca aceitaram se calar. Somente por este espítito inquebrantável de pessoas inocentes que não aceitaram o erro judiciário é que foi possível reparar imensos equívocos. Permitam citar um caso emblemático:

“Exonerated Five” é o nome dado a cinco adolescentes — Kevin Richardson, Antron McCray, Raymond Santana, Korey Wise e Yusef Salaam — condenados injustamente em Nova York, em 1989, pelo estupro de uma corredora no Central Park. As condenações se apoiaram fortemente em confissões falsas obtidas em interrogatórios, apesar de o DNA não corresponder a nenhum deles. As condenações foram anuladas em 2002, depois que o verdadeiro autor confessou e seu DNA confirmou a autoria. Estes meninos nunca aceitaram a condenação e jamais aceitaram se calar. Suas famílias mantiveram acesa a chama da indignação.

Em função do grande número de casos em que as condenações ocorrem por pressão popular, linchamentos virtuais ou porque se encaixam na narrativa e no campo simbólico de um determinado tempo e latitude, criou-se o Innocence Project, que é uma organização jurídica sem fins lucrativos criada em 1992 por Barry Scheck e Peter Neufeld. Ela investiga condenações possivelmente injustas e atua judicialmente para conseguir a exoneração de pessoas condenadas por crimes que não cometeram, historicamente com grande uso de testes de DNA e, hoje, também contestando outras formas de provas falhas – como aquelas baseadas unicamente no testemunho da vítima.

Existe ainda a Innocence Network, uma rede que reúne organizações desse tipo nos EUA e em outros países, oferecendo assistência jurídica e investigação gratuitas a pessoas que alegam inocência. Inclusive, existe o Innocence Project Brasil, inspirado nesse movimento.

Ou seja, existe um preceito reconhecido no mundo inteiro de que se indignar diante do que considera uma injustiça é um direito inalienável. Não se trata sequer de negar-se a respeitar o devido processo legal que, como vemos todos os dias, pode cometer falhas. Se até com o presidente podem errar, imagine com um mero e vulgar cidadão. Assim, indignar-se, falar publicamente, “espernear”, apontar a injustiça e não aceitar a culpa, são sentimentos humanos e não podem ser punidos ou cerceados.

Não fosse por isso, pela voz dos garotos de Nova York e por milhares de outras pessoas julgadas erradamente, estes personagens estariam até hoje pagando por crimes que jamais cometeram.

A corredora do central park estava errada. Só ela?

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Silêncio

Se você quiser saber onde existe uma fraude, vou te apresentar uma boa dica: procure os assuntos que você está proibido de debater. Tipo, holocausto judeu e palestino. Também agora o caso Maria da Penha. Quando pessoas são presas por dizer sua perspectiva ou porque desejam descobrir a verdade, isso deveria ligar um alerta. Quando sofrem agressões e boicotes simplesmente por tocar nesse assunto é porque alguma coisa está sendo escondida.

Ao que tudo indica, muitos ainda aprovam a censura, desde que seja para o que consideram ser “o bem”. O problema dessa seletividade é determinar quem determina o que é bem ou mal, verdade ou mentira. Hoje calam o marido da Maria da Penha. Amanhã será o comunista, como já fizeram milhares de vezes. Depois será o cidadão comum reclamando de qualquer coisa. Liberdade de imprensa é falar o que muitos não querem ouvir; sem isso teremos apenas censura. E quem acha que a liberdade só pode ser “relativa” apenas entenda que essa é a brecha lógica que um dia vai impedir que a verdade seja dita.

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É proibido…

Quando alguém lhe perguntar porque o proibicionismo não funciona podem citar o caso do marido da Maria da Penha. Aposto que 90% das pessoas não sabiam que o caso é cercado de inúmeras controvérsias, inclusive gravitando em torno do núcleo central do processo: a ausência de provas que confirmaram o dolo. As pessoas tomam a Maria da Penha como heroína e seu marido como um monstro, e as primeiras informações do caso realmente permitiam esta perspectiva. Entretanto, depois da proibição, muitas pessoas agora desejam se informar melhor sobre o caso e inclusive gostariam de assistir o tal documentário produzido pela fascistalha do BP.

A verdade é que estas proibições não funcionaram com o cristianismo, com os movimentos burgueses, com os separatistas, com os independentistas, com os nazi e muito menos com os comunistas. Pior: demonstram que quando se proíbe algo é porque existem interesses escusos na manutenção de uma única versão, e a investigação poderia trazer verdades inconvenientes à tona.

Sabe quem mais desejaria que o Herédia falasse? Maria da Penha. Seja porque ela nada teme ou porque impedi-lo de falar vai fazer todo mundo questionar porque o sujeito precisa ser calado.

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Luta

Ric Jones, candidato ao Senado – PCO

Sim, vamos à luta

Mais uma campanha eleitoral está prestes a começar. Devemos nos preparar para o mesmo tipo de campanha que existe no país há muitas décadas, baseadas em pirotecnia, alarmismo, acusações falsas, negativismo, etc. Vejo os políticos dizendo tudo o que já foi dito, com os mesmos clichês e ataques pessoais aos demais candidatos. Ao seu lado, dando a eles suporte, existe um exército de ressentidos que agora querem sair do anonimato, falando as velhas tolices. No nosso campo, é claro que teremos que escutar as mesmas lorotas anti-comunistas dos anos 60. A educação popular em torno das ideias socialistas é um campo muito difícil, pois temos que nadar contra a corrente da ideologia dominante. Apesar disso, continuamos, pois o tempo continuou sua marcha contínua, o capitalismo já mostra sua falência inconteste, o imperialismo torna evidente sua face autoritária e assassina e os países da periferia como Irã, China, Rússia – e até o Brasil – começam a assumir protagonismo no mundo que, lentamente, se torna multipolar.

Apesar disso, uma fração da classe média ressentida sempre vai achar erro nesta trajetória, saudosa do tempo em que os apartamentos já vinham com dependência de empregada e que os serviços eram baratos porque as pessoas pobres não tinham como negociar o valor do seu trabalho. Esses personagens envelhecidos acreditam que havia virtude no modelo semi-escravocrata, determinado pelo berço, onde o sujeito branco e de classe média podia usufruir as benesses de um capitalismo em expansão e onde o emprego ainda crescia. Esse mundo acabou, e essa garotada que tinha dinheiro para ficar em casa tocando guitarra agora tem raiva da nova cara do mundo.

Estes que antes se deleitavam com o ciclo de crescimento capitalista agora percebem, com rancor, a decadência inescapável da sociedade de classes e da propriedade privada dos meios de produção. Um novo mundo precvis nascer, mas o velho teima em parmanecer, como alertava Gramsci. Porém, os velhos ressentidos são sempre tristes; já a política deve ser feita de esperança e desejo. É só por isso que resolvi dar a cara a bater e participar de algo que jamais pensei durante toda a vida: concorrer a um cargo eletivo. Meu objetivo é mostrar no ideário do PCO sua absoluta vinculação com uma postura antissistema, baseada na necessária ruptura com as velhas amarras do capitalismo, como a sociedade de classes, a opressão do homem pelo homem, a propriedade privada dos meios de produção e os engodos criados pelo imperialismo, como o identitarismo, usados para dividir nossa luta.

Se existe algo realmente diferente nas eleições, por certo que poderemos encontrar entre aqueles que abandonaram as ilusões do liberalismo, tanto à esquerda quanto à direita. Não vamos encontrar a ruptura necessária para um novo caminho entre aqueles que há décadas dizem o mesmo, e fazem dos ataques, das lacrações e dos ataques pessoais seu principal (por vezes único) discurso.

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