Já fui muitas vezes a Buenos Aires. Aliás, foi lá que levei Michel Odent para o meu quarto de hotel e fiquei a noite conversando com ele, mas isso eu explico no meu próximo livro. Mas lá fui agredido na rua por falar português e já fui chamado de “muerto de hambre” quando caminhava na capital e nos escutaram conversando na nossa língua. Na Copa América nos chamavam de “macaquitos”, até mesmo eu, um branquela azedo. Não é por acaso a ligação da Argentina com Israel, e também não é de agora. Foi na Argentina que Eichman se escondeu, e para lá foram muitos nazistas. Essa conexão não ocorre apenas pela grande população judaica de lá (maior que a brasileira em um país 5 vezes menos populoso) mas porque os projetos nacionais são parecidos: tanto na Argentina quanto em Israel houve a proposta de uma colônia europeia encravada em solo indígena e a estratégia dos colonizadores foi de aniquilar sua cultura e destruir seu patrimônio étnico e linguístico, ao contrário de produzir sincretismo e miscigenação como encontramos aqui, apesar dos nossos pecados igualmente condenáveis no processo de criar o que se chama Brasil.
Se não há como “condenar a nação por umalguns vídeos que circulam na Internet” também não dá para passar pano para o racismo que perpassa a história da Argentina desde o massacre dos Quilmes. Este massacre, e o posterior exílio do povo Quilmes, ocorreu em 1667, durante as Guerras Calchaquíes, no norte do país, na província de Tucumán. Após resistirem bravamente às invasões espanholas por mais de um século, os indígenas foram rendidos pela fome, enviados como escravizados e forçados a uma marcha mortal de 1.200 km a pé até Buenos Aires. Já no século XIX, ocorreu o projeto de embranquecimento promovido pelos presidentes argentinos da virada dos séculos XIX e XX. Os principais foram Domingo Faustino Sarmiento, presidente mais frequentemente associado à ideia de “europeização” da Argentina, que defendia a dicotomia “civilização versus barbárie”, na qual associava a civilização aos povos europeus e via indígenas, gaúchos e outros grupos como obstáculos ao progresso. Igual a ideia de “a villa in the jungle” usada pelos sionistas no projeto de desumanização e posterior aniquilação da população palestina. Impossível não traçar este paralelo entre as propostas de colonização destes países. Sarmiento incentivou fortemente a imigração europeia como forma de modernizar e transformar a composição social do país. Também tem Julio Argentino Roca (em homenagem a quem se criou a “Copa Roca” e a criação da cidade gaúcha de “Roca Salles”). Este foi o presidente que liderou a chamada Conquista do Deserto (semelhante à “Conquista do Oeste”, dos EUA), campanha militar que resultou na morte, deslocamento e submissão de milhares de indígenas da Patagônia e da região pampeana. Durante seus governos, a imigração europeia foi intensificada, consolidando a visão de uma Argentina predominantemente europeia.
Bem, se não devemos acreditar na manifestação do próprio presidente Alberto Fernández (de esquerda!!), quando disse ser um europeu, afirmando que “os brasileiros vieram da selva, os argentinos chegaram de barcos”, ou nas manifestações dos próprios argentinos, se dizendo europeus e negando sua conexão com a América Latina, então em que tipo de narrativa devemos confiar? Mesmo sendo manifestações que não podem ser entendidas como o pensamento único daquele povo, não é justo fazer de conta que tal postura não existe ou que não é um conceito pairando no campo simbólico que constitui aquela nação.













