Expectativas

Tábata Amaral rebate Ciro Gomes dizendo “A forma como sou criticada é por ser jovem e mulher“.

A afirmação da parlamentar está, em meu humilde juízo, errada e certa ao mesmo tempo. Errada está porque, mesmo reconhecendo o machismo estrutural de nossa sociedade, as críticas direcionadas a ela são claras e pontuais, em especial quanto à reforma da previdência na qual ela votou contrariando as diretrizes partidárias e de resto a própria história e o nome do partido (trabalhista). Se é verdade que é “alvo” por ser jovem e mulher também é verdade que esta condição foi fundamental para sua eleição. Vozes femininas que trouxessem renovação foram buscadas na última eleição, e ela foi uma beneficiária desse anseio. Não é admissível, entretanto, que sejamos eternamente complacente com as posturas políticas de alguém que usa a cartinha fácil do preconceito. A banca paga e recebe.

Por outro lado está certa quando percebemos que Tábata votou da mesma forma que os homens velhos que compartilham consigo a Câmara de deputados. Certamente sua condição de mulher, seu partido e sua juventude nos ofereciam uma expectativa completamente diversa. Desta forma é verdade que o voto conservador de uma jovem mulher que debutava na política foi muito mais frustrante do que o voto reacionário de um empresário branco e rico que se posicionou da mesma forma.

Assim, é inevitável que surjam frustrações com sua postura política, além de suas manifestacoes arrogante e desvinculadas do ideário do seu partido. Infelizmente, de onde se esperava renovação veio o mesmo padrão de política que há séculos oprime os trabalhadores.

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O Fim das listas

O Yahooo anuncia que as listas de discussão serão apagadas no dia 14 de dezembro, enterrando as memórias do surgimento de um dos mais importantes movimentos sociais ocorridos na virada do século, no bojo dos debates de gênero e sexualidade.

Não é justo dizer que a humanização do nascimento “nasceu” com os grupos de discussão da Internet. Afinal, a inconformidade já existia, os “encontros da Fadynha” todos os anos no Rio de Janeiro também e a ReHuNa havia sido criada em 1993, em Campinas. Porém, foi com a cumplicidade compartilhada via internet que essa grande massa de pessoas da classe média conseguiu um canal para o escoamento de ideias, propostas, indignações, reclamações, sonhos e projetos. Deixo claro meu reconhecimento de que os grupos de discussão foram, mesmo, um fenômeno burguês. Mulheres – em sua imensa maioria – que dispunham de tempo e recursos (no final do século passado um computador era uma pequena fortuna) começaram a debater sobre suas frustrações com os partos e com o que elas imaginavam ser um futuro possível. Eu sempre tive essa certeza das limitações de nosso discurso, mas antevia que essa narrativa um dia tomaria uma mudança radical. Certa feita, durante uma palestra na Bahia, fui confrontado educadamente por uma negra ativista e feminista que, diante do meu entusiasmo com as possibilidades oferecidas pela Internet na sedimentação do nosso ideário de humanização, me contestou, com um sorriso emoldurado por um cabelo cheio de contas multicoloridas: “Muito bonita sua proposta, doutor, mas quando isto será realidade para as mulheres pobres e faveladas da periferia de Salvador?

Minha resposta foi curta e simples: “Se essa proposta se revelar uma modinha para mulheres de classe média, que dispõem de um computador para desaguar suas insatisfações, será bom que termine rápido, como são as cores e roupas de verão. Entretanto, se for um projeto para destituir “podres poderes” que abusam da autonomia e da liberdade de escolha das mulheres sobre seus corpos, deverá atingir a todas as mulheres, em especial as destituídas e esquecidas de quaisquer periferias“.

Eu fui arrastado para este universo por desenvolver duas paixões – pelos computadores e pelo parto humanizado. Imediatamente me envolvi nos debates das listas que surgiram, sendo as mais expressivas a Partonatural, a Amigasdoparto e a sua sucedânea, a Partonosso. Foi neste espaço virtual que se solidificaram lideranças, amizades e – impossível evitar – algumas grandes inimizades. Como eu sempre disse, os espaços entre os dígitos de uma tela são preenchidos da mesma forma que os versículos da Bíblia, onde mais inserimos nossos valores, medos, frustrações, ressentimentos e (pre)conceitos do que retiramos ensinamentos. De qualquer modo, se não foi a semente da humanização, as listas de discussão rapidamente se tornaram o grande adubo para o crescimento desse movimento que, a cada dia que passa, se torna uma ameaça mais vívida aos poderes patriarcais estabelecidos sobre o controle dos corpos e sobre a expropriação espúria dos nascimentos.

Com os debates das listas de discussão do Yahoo serão enterradas as lembranças mais cálidas dos momentos de heroísmo de um movimento nascente. O que hoje é um consenso – por exemplo, o direito ao parto domiciliar planejado – naquela época era cercado de dúvidas e incertezas. Debatíamos questões hoje soterradas pelas evidências, como episiotomias e direito a acompanhante. Foi lá onde, pela primeira vez, houve um debate aberto e extensivo sobre um personagem que aos poucos se tornou o epicentro dos ressentimentos da classe médica: as doulas, mas que hoje são quase uma unanimidade entre os pesquisadores do bem-estar materno.

É triste ver uma parte da nossa história ser enterrada, mas também temos que comemorar o que esta etapa significou em nossas vidas. Sem estas listas talvez não houvesse SIAPARTO (Ana Cris seria uma mega-empresária no ramo de flores), não haveria um movimento nacional de doulas, não teríamos amigos de quase duas décadas morando a milhares de km e muitos contatos que hoje fazem parte dos nossos amigos mais presentes e calorosos estariam ainda distantes, guardando para si mesmos e seus parceiros ideias que, por este veículo, hoje encantam a todos.

Para todos os “herois da resistência” que enfrentaram os leões do patriarcado obstétrico, meu abraço e meu reconhecimento pela história que ajudaram a escrever. Para as pessoas com quem briguei, espero que me perdoem. Afinal, não se faz uma revolução como fizemos com tapinhas nas costas; algum nível de atrito sempre haverá. Para todos aqueles que aprendi a amar e admirar através das nossas listas, digo apenas que foi uma grande honra poder compartilhar essa aventura com vocês.

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Quebrando os Tabus

Sempre achei o “Quebrando o Tabu” um site “biscoiteiro”. Isto é: faz matérias para agradar sua audiência, sempre se posicionando ao lado do senso comum, exatamente como agora no caso do veto presidencial à notificação compulsória de violência contra a mulher. O grande problema é que, diante de temas complexos e multifacetados, muitas vezes o senso comum está errado, imerso no campo simbólico ainda conservador. Estar sempre do lado do time favorito tem seus reveses previsíveis

A defesa da mulher vítima de abusos e violências merece uma análise aprofundada PARA ALÉM do sentimento rasteiro de proteção policial. Foi muito oportuna a manifestação da Dra Melania Amorim e do seu coletivo mostrando o equívoco – científicamente evidenciado – de transformar profissionais da saúde em informantes das polícias, o que repetiria o descalabro com relação à notificação de casos de aborto provocado.

“Sem vínculo entre cuidador e paciente não há medicina”, já dizia meu colega Max. Aqui sempre enxerguei claras semelhanças entre a medicina e a pedagogia (que nada mais é do que o apice da ação médica). Este vínculo, como de resto todo processo pedagógico ou de cura, se estabelece na confiança que o aluno ou o paciente deposita nas mãos de quem o atende. Se essa confiança é quebrada TODO o processo se desfaz.

Se ao procurar ajuda para suas feridas físicas e emocionais as mulheres sentirem medo que isso acarrete a prisão de seu companheiro elas simplesmente recusarão esse atendimento. A abordagem precisa partir da proteção seguida do empoderamento para que elas mesmas possam dar conta do enfrentamento necessário. Colocar os profissionais de saúde na posição de informantes e delatores, quebrando a sacralidade do segredo profissional, é um absurdo, um erro e um equívoco irreparável.

Para concluir:

Para quem ainda não entendeu porque profissionais de saúde – médicos, enfermeiras e até agentes de saúde – não podem denunciar violência doméstica pense nos casos nos Estados Unidos onde mães e pais tem receio de levar uma criança machucada ao hospital por medo de que suas contusões sejam confundidas com maus tratos e isso acarrete ações penais e – até mesmo – a perda da guarda. Se o atendimento médico não for um lugar seguro para a atenção à saúde as pessoas vão naturalmente recusar o atendimento.

O mesmo problema ocorre com mulheres que, para fugir da violência obstétrica, procuram partos extra-hospitalares. Todavia, o pânico em receber represálias e maus tratos da equipe médica faz com que muitas vezes ocorra demora em procurar a assistencia do hospital, caso uma interferência acorra. Isso via de regra pode ter consequências muito ruins.

Por esta razão, o parto domiciliar tende a ser muito mais arriscado pela violência institucional do que pela falta de quipamentos, atenção ou pelo cuidado insuficiente. O maior risco do parto fora do hospital é o preconceito e o ressentimento do pessoal da retaguarda.

Hospital não é delegacia de polícia e profissionais de saúde não são delatores ou agentes de segurança pública.

Sem confiança nestes lugares e personagens sociais o serviço se torna precário.

Médico não é juiz para julgar suas escolhas.

Sem confiança não há vínculo e sem vínculo não há atenção digna e efetiva.

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DES – MEM – BRE

Estes últimos dias eu me debrucei sobre a dificuldade das pessoas de codificarem as mensagens em suas mentes e o problema de colarem temas uns nos outros sem perceber que são independentes, mesmo quando nos chegam dentro da mesma embalagem. Foi o meu amigo Túlio Ceci Villaça quem citou o termo “crossover” para demonstrar como uma determinada discussão produzia um “curto-circuito” que impedia que entendêssemos a autonomia das proposições. Assim, por exemplo, diante da notícia de que um homem foi condenado à morte na Índia por estupro, as posições são tomadas diante desse bloco, ao invés de perceber que há DOIS TEMAS independentes: pena de morte e estupro. Desta forma eu posso dizer “Que absurdo!!” me referindo à pratica medieval de assassinatos determinados pelo estado, sem estar sendo necessariamente condescendente com o OUTRO TEMA, que é o estupro. Mas…. os afoitos de plantão via de regra afirmam: “Ahh, então você está a favor do estupro daquela menina indefesa? Que decepção!!“. Infelizmente as pessoas (con)fundem as narrativas e, as vezes de propósito, entram nos debates para inserir SUAS AGENDAS pessoais, usando a notícia como mote e o tema como um pacote fechado onde as questões não podem ser tratadas de forma separada.

É fundamental aprender a DES-MEM-BRAR quando se vai debater!!!

Esta semana houve pelo menos três debates próximos de mim que tinham esta característica. Todos precisariam ser entendidos em seus temas separados, mas muitos resolveram tratá-los de forma monolítica, o que só gera discussões inúteis e ressentimentos. Vou listar apenas os 3 mais importantes na minha perspectiva.

1 – A menina que deu um tiro de espingarda em um pretenso abusador. Eu mesmo deixei claro que o caso específico da menina sequer cabe debater – em especial por haver poucos dados e por serem eles ainda bastante contraditórios. Além do mais, pela sua pouca idade ela é inimputável; discutir se ela está certa ou errada é tolice. O que me parecer digno de debater foi a repercussão disso na sociedade e a defesa da política bolsonarista de exterminio da população negra e o eco que se deu às palavras de genocidas como Witzel – de que a ação adequada para a violência é distribuir armas.

Aqui ficou claro o “crossover” de temas: para defender a menina e “todas as outras meninas-vítimas” do abuso e da morte rapidamente adotaram O MESMO DISCURSO GENOCIDA que está massacrando as populações pobres e negras do Brasil. Pior, argumentando que vale a pena entregar uma espingarda para uma menina de 12 anos para que ELA escolha quando um risco é real ou imaginário. ISSO sim deveria deixar a todos estupefatos. Pior ainda é achar que a vida de um homem (apenas por ser homem) é INFERIOR à vida de uma menina!!! É perfeitamente possível enxergar os dois temas: ser contrário a qualquer forma de abuso e igualmente ser contra a distribuição de armas – em especial para crianças.

2 – Um bebê nasceu de parto normal com 6 kg. Mãe e bebê estão felizes e “saudáveis” (não se pode ter certeza das repercussões desse sobrepeso para o resto da vida da criança). Mais uma vez o “crossover” de temas. Sim, é legal saber que até bebês de 6 kg podem nascer por via vaginal provando a elasticidade das estruturas femininas. Isso vai no contrafluxo dos mitos da obstetrícia contemporânea que começam a tratar bebês de 3.5 kg como “muito grandes para uma passagem tão estreita”, como muitos de nós já escutaram. Por outro lado – e igualmente importante – não, não é legal deixar passar diagnósticos de diabete mélito sem uma ação adequada. Houve provavelmente falhas no pré natal que precisariam ser esclarecidas para evitar casos como este – mas com consequências ruins. Misturar esses temas provoca essa confusão. É fundamental desmembrar todos os temas existentes em um fato, em especial os fatos sociais. Sim, é legal que seja comprovada a capacidade de mulheres darem à luz bebês muito grandes, mas não é legal que isso seja consequência de um pré-natal mal conduzido. Não é razoável que temas como este sejam respondidos com “sou contra” ou “sou a favor”, “que legal”, ou “que horror”. Isso limita de forma inadequada a abrangência do debate.

3 – Uma reporter do programa do Datena leva uma cusparada de um suspeito de crimes (pego em flagrante). Então vamos aprender com Jack e desmembrar o que se pode dizer sobre isso. É evidente que tratar uma mulher com indignidade não pode. Cuspir é uma ofensa odiosa. Aliás, quando o deputado Jean fez isso eu achei um absurdo, e aqui haveria um outro curto circuito de temas, mas deixa pra lá; não precisamos debater pois creio que todos concordam que cuspir nos oponentes não é uma boa forma de resolver impasses. Por outro lado, jornalismo LIXO que explora a miséria da exclusão social e a barbárie do capitalismo merece TAMBÉM ser exterminado. Para este tipo de mídia que explora pessoas em situação dramática, cuspir seria uma pena leve demais. Não é necessário que se misturem os temas. Cuspir numa mulher repórter é absurdo e merece punição. Entretanto, permitir a existência de programas lixo e apresentadores como Datena é muito mais indecente ainda. Portanto, eu posso combater a criminalidade e ao mesmo tempo combater o esgoto televisivo.

Penso que a maioria dos embates que vejo na internet se devem às misturas infelizes que fazemos de múltiplos temas. Sei que muitas vezes a pessoa vê na notícia uma forma de expressar suas paixões, medos, angústias e dores, e por esta razão enxerta sua visão particular sobre determinados temas sem levar em consideração todas as outras maneiras de perceber e traduzir os fatos. Se o Facebook tem algum propósito superior talvez seja ensinar as pessoas a raciocinarem de forma mais limpa e coerente.

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1200

Há exatos 20 anos, 1999, nos umbrais do século XXI, eu comecei a escrever. Velho mesmo, quase quarentão. De pronto deixo claro que não acredito em nenhum sujeito que começou a escrever depois de ser oficialmente ancião, mas eu não escrevia porque queria, apenas porque precisava. Não se tratava de prazer, mas de compulsão. Antes disso eu apenas lia, e com exceção de raros esquetes humorísticos (entre eles um chamado “O círculo do gelo”), eu não me interessava em escrever. Foi a dor, a angústia e a noção cada dia mais intensa de que me resta pouco tempo de vida que me fizeram colocar no papel tudo o que me passa pela cabeça. Literalmente tudo: pensamentos, histórias, chamamentos, citações descobertas e histórias. Histórias tristes ou bizarras. Piadas em profusão, inobstante serem engraçadas ou não – na minha família a regra é “o importante é a quantidade e não a qualidade”. Tenho medo de morrer e guardar comigo uma história que apenas eu sei.

Sei que me resta pouco tempo e gostaria de deixar em algum lugar todas as histórias que eu porventura tomei conhecimento. Fico triste ao saber que dezenas delas não podem ser contadas, pois as pessoas que dela participam poderiam se ofender. Por vezes eu penso em um parto, uma expressão de alguém, uma piada, uma historieta ou o projeto de um grande romance (como o do homem que lia na prisão, ou a história de Eneida, a mulher que fumava e fazia do sexo sua arma mais poderosa) e me apresso a escrever antes que os detalhes evaporem de minha memória.

Hoje escrevi o texto de número 1200 no meu blog, que comecei a organizar apenas em 2012. O que escrevi antes disso está soterrado nas listas de discussão das “Amigas do parto”, ou no “Parto Humanizado”. Outras poucas recuperei e usei como material para os meus dois primeiros livros, o “Memórias do Homem de Vidro” e “Entre as Orelhas”.

Sei da desimportância do que eu escrevo, mas realmente a qualidade da escrita nunca foi o meu objetivo máximo. Eu comparo esta compulsão com a árvore genealógica que meu pai me deu de presente há alguns anos. Era, em verdade, um pedido singelo para ser lembrado, poder ver o seu nome num quadradinho que, ao mesmo tempo que tinha suas raízes num passado distante, oferecia sementes para os que vinham abaixo. Um desejo ilusório, quase pueril, de imortalidade.

Também estou ciente do amargo que aguarda minha senectude, e sei o quanto será difícil para um velho ter que suportar o que virá. Outrossim, reitero que tudo faria de novo e que esta vida é curta demais para ser encarada com temor.

Evoé!!!

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