Enfermeiras

 

“Enfermagem é o pelotão de frente da atenção à saúde. O trabalho é árduo, complexo, multitarefa, humano, conflituoso e desafiador. O que existe de complicado na atenção à saúde não é essa fantasia de Dr. House, a aventura intelectual de achar diagnósticos brilhantes ou fazer cirurgias incríveis que duram horas e separam xifópagos. Tais eventos são raridades e, apesar de serem espetaculares, não produzem nenhum impacto sobre a saúde de uma população. O que é verdadeiramente difícil na arte de atender é olhar os pacientes nos olhos, encarar suas dificuldades e paradoxos e encontrar a SI MESMO nas falas de quem nos procura.

Eu lembro de um colega envolvido com pesquisa de infertilidade e que dizia, com ar de arrogância e superioridade, que “nem todos podem ser cientistas“, mas no meu íntimo eu achava que os “médicos cientistas” eram os mais frágeis, aqueles que se escondiam nos laboratórios para não ter que encarar as feras, os demônios de si mesmos, transformados em falas e dores que brotavam do discurso dos pacientes.

Para a enfermagem não há escolha, pois faz do dia-a-dia essa batalha. Não existe descanso. O acolhimento e o cuidado – elementos centrais do paradigma da enfermagem – não permitem o afastamento da pessoa real. Não há “carinho in vitro”, e nem consolo “virtual”. O olhar que afaga e a palavra de ânimo de uma enfermeira são essenciais para a resposta de cura que pode (ou não) surgir a seguir.

Entretanto, a sobrecarga e o peso da responsabilidade desse contato são fatores que podem desestabilizar. Quando não metabolizados adequadamente estes sentimentos podem resultar em raiva e ressentimento, que são respostas sempre possíveis no horizonte. Por esta razão, creio que toda enfermeira devia ter suporte psicológico para dar conta dos choques inevitáveis que sua ação profissional propicia.”

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Arquivado em Ativismo, Medicina

Lógica sexista

 

No mundo contemporâneo é necessário ter muito cuidado quando usamos uma determinada lógica para apoiar nossas convicções e sustentar nossos argumentos. Quando usada em uma situação específica – oportunista, eu diria – ela pode ser de utilidade considerável e pode nos valer alguns pontos em qualquer debate. O problema é que se esta lógica contiver elementos de preconceito ela será usada contra nós no futuro, de forma inexorável. Um exemplo ocorreu ontem quando uma pessoa da internet publicou um trabalho que insinuava que países governados por mulheres (ou com mais mulheres na política) são menos corruptos. A insinuação seria de que “aumentar o número de mulheres na política poderia combater a corrupção”, deixando implícita uma tese marcadamente sexista: mulheres são menos corruptas que homens.

Vi mulheres comemorando esse “achado”, sem se darem conta de que o uso de uma lógica sexista tem seus reveses imediatos. Acreditar que um gênero tem mais qualidades morais e intelectuais que o outro é o mais puro e cristalino sexismo. Se aceitamos para um lado teremos que admiti-lo para outro. As lógicas sexistas acabam, depois, cobrando um preço muito alto e que não é nada legal de pagar.

Há poucos meses foi revelado o maior escândalo de corrupção em um país extremamente rico, como a Coreia do Sul. Isso causou a queda de todo o governo e a prisão do chefe de estado. Neste caso, uma mulher, a presidente Park. Ser mulher não livra ninguém das tentações do poder, e a corrupção está na alma humana, não nos testículos.

O que leva uma sociedade ser menos corrupta não é a presença de mulheres. Também não será a presença de negros, travestis, transexuais ou qualquer religião. Em verdade, a presença desses atores sociais são o RESULTADO de uma maior consciência social. A relação entre mulheres na política e honestidade com a coisa pública não é vertical – de causa e efeito – mas horizontal.

Podemos entender essa relação como a nossa genealogia. Nós NÃO somos descendentes dos macacos, como alguns ingenuamente pensam, mas de um ancestral comum entre a nossa linha evolutiva e a dos grandes macacos. A esse elemento damos o nome de “Proconsul” e surgiu há 12-14 milhões de anos. Nosso parentesco com os chimpanzés não é de pai filho para pai, mas de primos distantes por eras.

Com a diversidade na política o mesmo. A diversidade de gênero e a condução honesta dos assuntos públicos não são causa e efeito, mas são filhos dos mesmos pais: a equidade/ justiça social e a educação. Portanto, AMBOS (pouca corrupção e diversidade) são “primos”, surgidos do mesmo “ancestral comum”: uma sociedade com mais justiça, equilíbrio e educação.

Quando usamos argumentos que tentam colocar um gênero como moralmente ou intelectualmente superior ao outro corremos o risco de autorizar e referendar TODOS os argumentos sexistas e essencialistas que por séculos os homens usaram para diminuir as mulheres. Não há como se calar diante desse argumento, pois eles contém o gérmen da separação e do preconceito, mesmo quando aparentemente nos beneficiam.

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Razão e emoção

 

“Nenhuma filiação a um grupo de ideias respeita ordenação racional. Você apenas assume suas crenças mais primitivas e as veste com uma roupagem racional. Somos um núcleo de medos cobertos por crenças e envoltos em uma tênue película de razão, uma fachada intelectual, que nos confere a suprema ilusão de sermos comandantes de nossa consciência.”

Almirante Henry Mulder, “Vignettes de la Voyage au Fin du Monde”, Ed. Printemps, pág 135

 

 

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Galaxie

 

O ano era 1984 e a aula recém havia terminado. Enquanto meus colegas se dirigiam para a porta da velha sala de aulas da Santa Casa eu ainda conversava com meu professor sobre temas da aula de ginecologia. Recém concursado para a vaga de monitor da cadeira de GO da faculdade de medicina eu era uma “esponja”, aflito por absorver todas as informações possíveis sobre o universo da obstetrícia. Resolvi fazer ainda aquela última pergunta, enquanto o professor guardava papéis dentro de uma pasta de couro. “Vamos indo para o estacionamento enquanto lhe explico“. Segui meu professor enquanto ele discorria sobre um assunto que se perdeu na poeira das décadas, e quando chegamos no estacionamento ele perguntou para onde eu ia. “Para o Hospital de Clínicas“, respondi. “Bem, disse ele, é para lá que eu vou. Quer uma carona?

Respondi afirmativamente, claro. Afinal, isso me garantiria meia hora a mais de descanso antes de começar a aula da tarde e um tempo a mais para almoçar.

Cheguei ao carro e senti uma sensação estranha. Um susto. Na verdade meu professor não tinha um carro, mas um Galaxie Landau azul, com estofamento em “jacquard” inglês e direção hidráulica. Fiquei estupefato de ver na minha frente um carro de cinema, que eu só conhecia da TV, ou de ver ao longe nas ruas.

Tive o cuidado dos pobres ao entrar no veículo, sabendo que se eu derrubasse alguma coisa jamais teria dinheiro para pagar. Ele me perguntou “Está quente. Quer que ligue o ar?

“Ar”? Como assim? Então ele ligou o ar condicionado do carro e o frescor súbito foi a sensação tecnológica mais impressionante da minha vida, só rivalizando com a primeira vez que falei num celular. Ar condicionado em carros era coisa de ricos, de gente “de bem” ou “grã-finos“. Tudo isso em um Galaxie Landau era a imagem do glamour. O presidente Sarney tinha um, e o meu professor também.

Nossa viagem durou os 10 minutos que separam a Santa Casa do Hospital de Clínicas, mas a sensação me acompanha até hoje, mesmo depois de 34 anos. Nos despedimos e nunca mais conversamos de novo. Este professor foi um dos pioneiros em clínicas de diagnóstico por imagem e ficou rico com suas ecografias. Para meus vinte e poucos anos de vida ele parecia uma luz, um exemplo de excelência.

Escrevi essa lembrança porque o impacto que a vida de luxo de um médico que investiu numa área charmosa e rica da medicina poderia ter me encantado a ponto de querer seguir seus passos. Os estudantes não aprendem muito com as aulas, mas com os exemplos de seus mestres. Um médico, professor na universidade, ligado às tecnologias de ponta e com sinais evidentes de sucesso é um exemplo difícil de não seguir.

Todavia, meu caminho foi no sentido oposto. Tecnologia nunca me seduziu e sempre acreditei que o verdadeiro desafio estava nos mistérios que se escondiam no vão que separa as palavras. Agora que aos poucos entendemos melhor os limites das ultrassonografias e reconhecemos seu impacto pífio nos resultados obstétricos, penso na força que estes exemplos produzem nos estudantes. Para os jovens que olham para o futuro com medo e excitação, o sucesso emoldurado por um estofado em “jacquard” inglês produz uma inequívoca fantasia de futuro radiante.

Menos de um ano depois comprei meu primeiro automóvel, que guardava de semelhança com o carro do meu professor apenas o número de rodas girando. Era um Fusca 1972.

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O parto de cada uma

 

A foto acima causou furor na internet ao mostrar uma mulher que recém havia parido tomando um refrigerante enquanto mexia no seu celular. Aos seus pés o bebê, com poucos  minutos de vida. A fúria de algumas pessoas causa espanto. Talvez tenham dificuldade para encontrar coisas realmente relevantes para se “enfurecer”. Tomar uma Coca Cola e a avisar os amigos pelo celular do nascimento de seu bebê está entre as milhares de atitudes que já testemunhei imediatamente depois do parto.

Entretanto, o comportamento das pessoas ao rejeitarem a imagem é revelador do conceito subjacente que os anima: a puérpera como um ser divino, angelical e puro, onde o mundano não tem vez e a química do refrigerante não passa de um veneno mortal a ameaçar seu leite sagrado.

Tolice. Basta ver mulheres recém paridas para perceber como suas perspectivas de mundo permanecem únicas. Se há aquelas que obedecem o ordenamento delas exigido (amor incondicional, lágrimas, promessas de amor, etc) existem outras cuja tranquilidade e senso prático tomam corpo e determinam seu comportamento. Aceitar que as mulheres possam ser diferentes do que esperamos delas é sinal de maturidade cultural na busca por equidade.

Por outro lado, essa foto é um artefato altamente pedagógico. Faz lembrar aquelas imagens de parto orgásmico, cheias de alegria esfuziante, onde as pessoas atónitas se perguntavam: “Como assim? Prazer? Não… isto está errado!!!”

Eu digo agora, jocosamente: “Como assim beber refrigerante e falar com os amigos? Não…. isto está errado!!!”

 

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