Abolicionismo

*Bota na cadeia e joga fora a chave!!!*

Peço humildemente que pensem um pouco sobre o uso dessa retórica para se referir às personalidades das quais discordamos no cenário atual. Creio que é importante que troquemos esse discurso agressivo de exigir a prisão dos nossos adversários. Não importa quem sejam; ninguém precisa ir para a prisão e perder seu bem mais valioso: a liberdade.

Nenhum criminoso se cura numa prisão e a sociedade não melhora quanto mais construímos cadeias e presídios. Presídios são como avenidas: abri-las não melhora o tráfego, pois convida mais motoristas a dirigir por elas. Presídios apenas produzem a reciclagem de criminosos, que são o produto inexorável de uma sociedade intrinsecamente injusta.

Vamos deixar de lado por um breve instante os assassinos cruéis e os perversos, que são muito menos do que 0.1% dos prisioneiros, e focar na grande massa de apenados que lá estão pelo apartheid social e racial do nosso planeta. Sobre estes sujeitos – cujo afeto foi destruído por vivências precoces catastróficas – precisamos descobrir alternativas que não se choquem com os direitos humanos, mas que protejam a sociedade.

Mandar “prender, matar e arrebentar” é o discurso de personagens como Moro e Dalanhol e de boa parte da blogosfera nazifascista. É o discurso fascista travestido de “justiça depurativa”. Essa é a fala da direita punitivista – botar os maus na cadeia para sobrarem apenas os “cidadãos de bem” – invariavelmente brancos e de classe média. Nós da esquerda progressista precisamos oferecer uma alternativa humanista, solidária e compreensiva melhor do que esta.

E isso não tem NADA a ver com abrir mão da necessária indignação com o estado de coisas contemporâneo!!! Se me permitem a audácia, peço que comecemos a nos expressar de uma forma mais justa e em sintonia com nossa visão de mundo. Precisamos exigir que as pessoas que destroem nosso país “sejam responsabilizadas“, que “paguem pelo seu erro“, ou que “ofereçam o devido ressarcimento à sociedade pelo mal que fizeram“, mas sem continuar incluindo em nosso discurso os métodos desumanos e medievais que não representam os ideais de solidariedade e fraternidade que trazemos ao debate com nossas propostas e ideias.

Não se associar ao discurso malévolo da direita fascista e dos punitivistas racistas é uma ferramenta fundamental para mudar a narrativa de forma global e, assim, mostrar o quanto a violência gera apenas mais violência e não nos oferece nenhuma solução para os dilemas sociais.

Uma sociedade sem prisões é uma utopia da esquerda – solidária, humana e justa. Cabe a nós devolvermos toda essa violência com uma postura superior e acolhedora.

Abolicionismo penal já!!
Por um mundo SEM prisões!!

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Selvageria

Creio que um bom terapeuta jamais procura “segundas intenções” ou o “sentido oculto das coisas” em seus pacientes. Não por virtude, mas porque percebe a inutilidade dessa busca.

Primeiro, porque TODAS as ações tem intenções outras, para além de sua operacionalidade superficial. Porém, a simples procura por sua raiz é uma busca estéril. A descoberta das razões para o comportamento aberrante ou aparentemente paradoxal de um analisando não possui nenhuma utilidade, a não ser que ele próprio descubra – e por si mesmo – os truques dessa engenharia mental inconsciente. Interpretar e jogar por sobre o paciente essas elucubrações com base em teorias psíquicas não passa de “análise selvagem” – ou pura crueldade arrogante. O sentido “oculto” das coisas não deve jamais ser uma busca para o terapeuta, mas um guia para o paciente. Pouco importa ao psicólogo “descobrir” que o ódio pela ex mulher encobre uma atração residual ou uma relação que teima em sobreviver através do rancor. Só haverá sentido se o paciente encontra as vias para enxergar POR SI PRÓPRIO esta realidade.

A pergunta é: interpretar para quê? De que nos valeria chegar no consultório de um psicólogo e antes mesmo de sentarmos ele dizer: “Seus problemas estão relacionados às sobras de um triângulo amoroso que se estabeleceu na aurora de sua vida, o qual forma a estrutura de sua sujeição à linguagem: você, sua mãe e alguém além dela. Pronto, pode se levantar. Interpretei seu drama existencial e cheguei ao âmago de suas angústias mais primitivas.”

Muito bem interpretado e, no meu modesto ver, até correto. Mas é daí? Que valor há numa descoberta cujo caminho doloroso não foi trilhado pelo sujeito? De que servem essas palavras corretas, justas e estéreis?

Para mim a interpretação de um nó psíquico é como Santiago de Compostela. Como cidade… bem, já vi melhores. Mas se você chegou lá caminhando 850 km com seus próprios pés então essa cidade tem um sentido único, e que pode ser transformador.

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Prisões

“A prisão mais efetiva é aquela que vem fantasiada de liberdade”.

Será uma tarefa difícil convencer a população de que a “liberdade” de escolher cesarianas em verdade esconde a subordinação das gestantes aos interesses de instituições e corporações. Tudo isso para que o nascimento continue propriedade dos profissionais e sob o controle da medicina.

Em verdade a falsa “liberdade de escolha” das gestantes que escolhem a cesariana tem tanto sentido quanto escolher o Bolsonaro pela sensação de ter votado contra o “sistema”.

Não… escolher cesariana é abraçar-se ao sistema mais alienante e que mais agrada ao modelo patriarcal dominante. Contrário senso, a escolha pelo sexo, pela alegria, pela indignação e pelo parto normal são opções de enfrentamento a um modelo social injusto em nome da liberdade e da autonomia.

Se você não conhece suas escolhas elas não são escolhas verdadeiras, mas opções que alguém determinou para você.

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Arquivado em Ativismo, Parto

Morrer

Minha mãe morreu em casa, como todos que têm a possibilidade de escolher deveriam cogitar.

Em verdade, esta escolha se fez há alguns anos quando de sua última internação por um problema neurológico. Muito piores que as dores e angústias do seu transtorno físico foram as burocracias relacionadas à internação. Apesar do notável o esforço da equipe de enfermagem em diminuir o desconforto com a situação, nada foi suficiente diante da objetualização natural a que passam todos os velhos confinados em hospital.

“Para um velho a rotina é um alívio”, diz meu pai. Seu argumento é de que a mudança de um padrão diário de atividades produz a inevitável necessidade de readaptação às novidades. Esse exercício de mudança é simples e estimulante para os jovens, mas angustiante e até mesmo aterrador para os velhos. Quando minha mãe acordava de madrugada e não encontrava meu pai ao seu lado isso produzia um sofrimento diretamente proporcional ao seu grau de confusão. Este foi apenas um dos múltiplos efeitos da internação; as medicações estupefacientes, a falta de luz solar, as pessoas uniformizadas ao seu redor, a impessoalidade, as visitas restritas, a cerimônia, a “papelada”… tudo contribui para a piora do quadro psíquico dos idosos.

Com o meu pai ocorreu o mesmo. Quando de sua internação por um AVC o drama foi muito mais o hospital do que a própria doença. As visitas, as rotinas, as drogas, a troca da equipe de enfermagem, as avaliações médicas relâmpago, o atraso dos neurologistas e as “normas de segurança” tornaram a internação um suplício, tanto para ele quanto para nós, os familiares.

Não quero demonizar hospitais e profissionais que lá trabalham, mas alertar apenas do custo muito alto de manter pessoas idosas em tais lugares. A escolha para levar e manter idosos no hospital deveria ser por exclusão. No hospital deveriam permanecer apenas quem dele pode se beneficiar.

Por isso nos mantivemos firmes em não internar minha mãe diante da sua piora e da proximidade do seu quadro final. Mesmo sabendo da dificuldade de suportar a tensão do último suspiro de quem tanto amamos, a escolha de permitir que a passagem se faça com suavidade e na paz do lar vale o sacrifício.

Assim como nascer, a morte deveria ser um momento pleno de afeto e cuidado, e junto aos seus. Os polos da vida se encontram na necessidade de oferecer significado aos momentos mais importantes da nossa breve estada. Nascer e morrer deveriam ser momentos sagrados, resguardados da intervenção exagerada dos sistemas de poder.

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Generosidade do Saber

Foucault confessou que escrevia de forma rebuscada e hermética para poder ser aceito pela intelectualidade. Dizia ele que, se ousasse escrever de forma simples e compreensível, seria tratado como um autor raso, superficial e “popular”. Uma pena que ainda exista na academia esta propensão ao pernosticismo, a busca por uma falsa sofisticação nas palavras, mas que tão somente esconde a incapacidade dos autores de comunicarem suas ideias de forma a que os outros, meros mortais, possam entender.

Aliás, Freud – entre outros – é um exemplo de pensador que possui como virtude a “generosidade do saber”, que é quando um autor se coloca no lugar do leitor e tenta explicar suas ideias e projetos como se este estivesse escutando tais conceitos pela primeira vez. Sua clareza e sua didática sempre me impressionaram. Essa empatia é essencial para transformar um sujeito de grandes propostas em alguém que pode transformar o mundo através da disseminação do seu conhecimento.

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