Vejo os ataques ao Lula pelos crimes mais variados. Estes ataques são, em geral, ataques à esquerda e são a marca registrada da direita no mundo todo – pânico moral, China, costumes, Coreia Popular, Cuba, corrupção, inchaço da máquina publica, “quebradeira” de estatais, Estado desequilibrado, financiamento a ditaduras e ditadores, impostos, inflação. A lista é muito grande, mas se concentra nestes temas. Porém, as críticas tendem a se direcionar muito pouco para a estrutura do Estado e muito sobre os valores de caráter dos governantes.
Para o pessoal de direita eu costumo perguntar se diante de tantas e variadas falhas morais o melhor seria votar nos candidatos da direita, como Flávio Bolsonaro. Eu questiono: essas máculas que vocês enxergam nos governos Lula não ocorreram também no período recente de Temer/Bolsonaro? Não houve escândalos de corrupção? As estatais cumpriram sua função? Não houve inflação? Não houve aparelhamento? Não houve desvios? O Brasil teve um surto de progresso? Ninguém roeu osso? Não voltamos ao mapa da fome? Não sucateamos de propósito as universidades? A educação foi valorizada?
Ou seja, você acredita que Lula e as esquerdas são o mal a ser evitado, e isso porque as pessoas corruptas, incompetentes e de má índole escolhem naturalmente o viés de esquerda para atuarem. No seu modo de ver, as pessoas “direitas” escolhem os partidos à direita, é isso?
Eu sou um sujeito crítico aos governos do Lula e do PT, mas não perco meu tempo centrando minhas críticas nos aspectos morais. Prefiro criticar a tendência dos governos petistas em pender para a direita, deixando de lado as reformas necessárias em direção aos valores socialistas e ao desenvolvimento centrado na atuação firme do Estado. A análise “moral” serve apenas aos interesses de quem não quer debater política e nem a estrutura do Estado.
As avaliações de ordem moral só proliferam porque existe a crença de que as opções políticas do sujeito são conectadas aos seus valores mais profundos, aqueles que moldam seu caráter. Assim o Lula seria um ladrão inveterado como uma marca de personalidade, algo que o acompanha desde o princípio de sua vida pública – mesmo que tenha sido impossível encontrar o fruto de tantos roubos nos últimos 40 anos de pente fino sobre a vida do presidente.
Por outro lado, à direita concentram-se as pessoas de bem, que jamais aceitariam fazer negócios com ditaduras e ditadores – tipo monarquias absolutistas do Oriente Médio, ou com um país que nos últimos anos matou, de forma direta ou indireta, por volta de 4.7 milhões de pessoas em 8 países diferentes. Curiosamente, este país é governado pela direita há 250 anos, o que torna difícil sustentar esta afirmação. Outra característica da direita é falar de “paz”, mas fica estranho ao se ver a adoração que nutrem pelo Estado de Israel, um país governado pela extrema direita e protagonista de um massacre onde 75 mil pessoas foram mortas diretamente desde 2023, sem falar nos que já morreram e os que ainda estão morrendo de fome e por falta de assistência médica. O número, segundo o jornal médico The Lancet, chega a 190 mil. Eu citei dois países que, não por acaso, são os paradigmas da direita mundial e são amados e exaltados pela direita brasileira.
Fica difícil olhar para a divisão política do mundo e encontrar virtudes morais em um lado enquanto no outro só vemos decrepitude, incompetência e devassidão. Quando olhamos para os exemplos admirados pela direita cabe a pergunta: é isso que vocês querem para o Brasil?
E sobre “competência”, também fica complicada esta divisão quando a China – a “ditadura” do PCC – tem salários médios muito maiores que os do Brasil e Estados Unidos, é o país mais avançado do mundo, tem um sistema democrático muito mais avançado que o ocidental, há mais liberdade e mudancas estruturais no governo são frequentes. Porém, a “esqueda” governa o país há quase 80 anos. Em 1949 era o pais mais pobre do mundo, em 1997 tinha o PIB igual ao do Brasil, e hoje já é dez vezes maior do que o do nosso e quase igual ao americano.
Por isso, é muito difícil entender a separação moral que fazem entre a direita e a esquerda quando os exemplos que encontramos no mundo não estão em sintonia com a ideia de pureza da direita e de depravação da esquerda.










