Terror

Muitos associam, anda hoje, o ativismo palestino com o terrorismo, um fenômeno dos anos 80. Citam o recente ocorrido em 7 de outubro, os homens bomba dos anos 80 e o ataque aos atletas olímpicos de Israel. Sim, esta última foi uma ação heroica e arriscada de um comando Palestino contra atletas de Israel em Munique. Não vou justificar ações terroristas, por certo, mas o que sempre me impressiona com as pessoas que criticam o terrorismo (que deve ser mesmo questionado) é porque nunca se perguntam as razões pelas quais jovens realizam ações desta natureza, inclusive suicidas. É como se chamá-los de “loucos” ou “fanáticos” fosse suficiente para explicar a motivação para tais atos.

A resposta está no “fugdán al-amal”, um termo usado na Palestina para descrever uma sensação de profunda desesperança e a perda da vontade de viver. Este estado de espírito se segue aos traumas psíquicos decorrentes da morte das pessoas a quem amamos. Por isso os exemplos dados, como 7 de outubro e as Olimpíadas de 1972 soam tão ridículos e até infantis porque dão a entender que as ações terroristas surgiram do nada, criadas por geração espontânea, tão somente pela “maldade” ou “crueldade” de “fanáticos”. Seriam levadas à cabo por sujeitos degenerados movidos por crenças místicas.

Quem afirma isso não entende nada de seres humanos e apenas desnuda um profundo desconhecimento da realidade Palestina. Não há mais como negar a realidade. Hoje em dia o que era escondido foi tornado visível com o advento da Internet, em especial o genocídio Palestino, os ataques terroristas à Cisjordânia e a destruição de Gaza. Acreditar que o motor da teacao palestina é o “fanatismo” não passa de uma ofensa à memória das décadas de horror contra o povo palestino.

Na verdade, para a ocorrência dos atos de terror como estes citados é preciso que a situação seja tão deteriorada e humilhante que até atos extremos e terríveis como estes passam a fazer sentido. Até mesmo a mais primitiva das pulsões – a preservação da própria vida – se torna desimportante diante da dor e da desesperança. Somente depois de anos de assassinatos, mortes, sequestros, violência, abusos e humilhações estas ações passam a fazer sentido no campo simbólico de um povo. Esta é a linha final de um sofrimento insuperável, não seu início.

Eu pergunto: se você tivesse seus pais mortos num bombardeio covarde, sua mulher abusada por soldados num check-point, seus filhos espancados indo para a escola, seus irmãos presos e estuprados numa masmorra de Israel e sua vida fosse miserável desde as suas primeiras e mais remotas lembranças, não consideraria um ato extremo de terror, diante da evidência de que nada que foi tentado resolveu a sua dor e nada impediu o massacre continuado ao qual seu povo é submetido?

Responda com sinceridade…

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Já pensou?

Vejo as publicações nas redes sociais versando sobre a disputa eleitoral marcadamente centradas naquilo que pouco interessa. Defensores de ambos os lados gastam tempo insistindo na luta entre esquerda e direita, Lula x Bolsonaro. Quando vão acordar para a inutilidade disso? É claro que Bolsonaro representa a entrega do país aos Estados Unidos, e também é certo que Lula patina porque teme romper os laços com a direita mais trevosa e oportunista, da,qual é nitidamente um refém. Sim, a tal da governabilidade.

O problema é que as questões morais – via de regra falsas ou adulteradas – ocupam o lugar central do debate, o qual deveria ser estrutural. Isso me lembra as disputas no campo político do imperialismo. Democratas e republicanos se digladiam ferozmente sobre pronomes, direitos gays, ajuda aos pobres e a conduta moral dos representantes. Nesse contexto produzido por pura propaganda e pouca realidade, Obama é considerado moral e correto por ser casado há anos com a mesma mulher, e nao ter escândalos sexuais no seu governo (ao contrario de Clinton, Biden e Trump) inobstante a carnificina que protagonizou em 7 países, sendo responsável pela morte direta ou indireta de milhões de pessoas. Já Trump é considerado canalha pelas tolices e pela falta de respeito com as mulheres, mesmo que – em essência – seja tão imperialista, racista, machista e maligno quanto qualquer um dos outros presidentes que o antecederam.

Quando observamos de fora, daqui do sul global, que diferença pode haver entre presidentes que, apesar de condutas pessoais e trajetórias distintas, abraçam o imperialismo, a cultura da força, o belicismo e a opressão econômica como uma religião comum? Nenhuma. Por isso cabe a pergunta: que diferença estrutural pode haver com a vitória de qualquer um dos candidatos à presidência, se ambos se ajoelham diante do Deus mercado e das questões de classe?

Nao é por outra razão que no Brasil devemos abandonar com coragem e determinação as discussões estéreis sobre a moralidade dos atores políticos. Se houver crime, que a polícia avalie. Para o campo popular é preciso radicalizar à esquerda se quisermos fazer a diferença. Nada de acertos espúrios, de conchavos, de agrados à grande imprensa ou ao sistema financeiro. Precisamos de um choque popular de caráter socialista e humanista, sem concessões ao mesmismo das disputas entre esquerda liberal e direita neoliberal. Nossa resposta deve ser de oposição à burguesia e à sociedade de classes. De verdade, sem atalhos.

Já pensou?

* na imagem minha Camélia carregada de flores vermelhas anunciando um futuro mais humano, mais fraterno e socialista.

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Democracia chinesa?

Quando influencers da direita brasileira falam da “ditadura chinesa” eu logo penso: esse cara nunca foi à China, nunca estudou o modelo chinês, não sabe como é o sistema eleitoral de lá e nem como funciona o sistema de participação popular da China. Talvez não saibam sequer apontar a China no mapa. Eles certamente desconhecem que a China tem 8 partidos políticos, que a organização partidária é livre e que existem partidos que inclusive defendem a volta ao capitalismo. Por certo que diante do sucesso espetacular do socialismo chinês e do fracasso retumbante do capitalismo ocidental (em especial o do Brasil) não haveria como este último ser muito popular. Não se trata de idolatrar o sistema chinês que, como construção humana, é cheio de falhas, como se poderia esperar. Entretanto o fetiche liberal com a China é revelador das próprias fraquezas do capitalismo.

Lembrem apenas que no ano 2000 o PIB da China era igual ao do Brasil. Por que estagnamos e a China já tem até naves pousadas na lua? Por que o salário médio chinês é maior do que o brasileiro há mais de uma década e semelhante ao americano? Sim, as empresas (como a Apple do IPhone) não vão para lá para economizar em mão de obra, mas pela qualidade do trabalhador chinês e pela quantidade de engenheiros altamente capacitados.

Dizer “ditadura chinesa” é prova de ignorância e fanatismo, fruto do desconhecimento sobre o país que lidera a tecnologia no mundo e não precisa estabelecer seu papel no cenário tecnológico mundial distribuindo exércitos e ameaçando países.

Que miséria!!!

Por que continuam com essa retórica atrasada, mística e religiosa sobre a democracia liberal? Pensem que esse tipo de “democracia burguesa” só permite que chegue ao poder quem concorda com os ditames da burguesia, os donos, os latifundiários e os proprietários dos meios de produção. A todos os outros é vedado o acesso. Veja o Brasil onde mesmo um presidente que se negasse a assumir uma postura de esquerda é constantemente ameaçado, e onde uma presidenta sofreu um golpe por nao agradar os conservadores.

Analisem também os Estados Unidos cujos dois últimos presidentes são clinicamente diagnosticados como dementes, mataram por volta de 10 milhões de pessoas em guerras fora do seu país e  condenam boa parte do país à pobreza, à miséria e à desassistência. A burguesia elege presidentes dementes, que podem iniciar uma guerra mundial!!! Pensem no Brasil que elegeu Bolsonaro, um sujeito cujo filho se refugiou nos Estados Unidos para fugir da justiça. e que disse “I Love You” para Trump, produzindo uma brutal humilhação.

Enquanto isso, estudem a biografia do presidente Xi, que antes de ser presidente passou 40 anos trabalhando nas administrações de cidades e estados do seu país. E mais, para quem acha que o modelo chinês é uma ditadura, reconheçam que nenhum país fez tantas mudanças estruturais e políticas como a China nos últimos 20 anos, muito mais do que qualquer país europeu. Tais mudanças sempre foram guiadas pelo interesse dos chineses, com participação direta popular. Os Estados Unidos é muito menos democrático que a China, pois tem um partido único composto de duas alas, que se intercalam no poder. Esses partidos se unem no culto ao imperialismo e na doutrina do “destino manifesto”, e por isso são parceiros em todas as guerras. Da mesma forma os partidos de Israel se unem no sionismo e na destruição dos palestinos como a cola nacional. Não há real democracia em ambos os países.

Para conhecer a China, perguntem para quem estuda o modelo chinês. O professor Eric X. Li tem uma excelente palestra sobre o tema.

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Dona Solange

Vejo Dona Solange por todos os lados. Ela costumava se esconder, mas eu sempre a via. Sempre com a canetinha vermelha na mão, como um chicote, caminha de um lado para o outro, olha atrás das portas, abre gavetas, revira os armários. Seu vestido comprido, seu cabelo curto de menino e seu óculos redondos, tipo “pince-nez”, vagueiam pelas salas e quartos, passeiam pelas cozinhas e banheiros, se enfiam nas frestas das palavras, abrindo buracos que se enchem com o fel vermelho de sua caneta. “Isso não pode!” – grita ela, grudando no rosto uma máscara raivosa. Cruza os braços indignada, bate os calcanhares e dá meia volta.

Depois de crispar a boca e os dentes durante um dia inteiro ela volta para casa, cheia de dores nas mãos, abre a revista de moda, passa um batom sobre os lábios finos, voa até as nuvens e sonha com rendas, lingerie, cosméticos e um anjo de músculos fortes que a agarra pela cintura e lhe chama de “Sol”.

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Consentimento

Na perspectiva do médico o corpo dos pacientes – não só o corpo da mulher – reveste-se de um caráter objetual, observado e tratado como um “corpo real”, diferente de um corpo animado – com alma. Diante do profissional não está uma pessoa, com suas idiossincrasias, histórias e características, mas o objeto que ele deseja tratar, consertar ou apenas examinar.

Esse é o paradigma médico, o modelo de intervenção sobre a economia do corpo que é ensinado na escola médica. Para romper esse modelo de pensar e encarar o outro é necessário fazer uma reflexão bem mais complexa. Para re-humanizar o paciente – tornado objeto pela medicina – é preciso focar na sua condição de sujeito e reinventar um indivíduo que possui soberania sobre seu território mais elementar: seu próprio corpo. Acreditem, isso não é fácil, muito menos simples. Abstrair a humanidade dos clientes ajuda a suportar a carga emocional que estes depositam nos médicos. O peso se torna mais leve para carregar quando retiramos dos pacientes aquilo que os aproxima de nós: sua condição humana.

Perceberam quantos médicos existem que procuram especialidades nas quais o paciente só existe como referência, não em presença real? Ora, isso ocorre porque a tarefa mais complexa da medicina não é a do cientista no laboratório analisando tecidos, imagens ou pesquisando doenças de letras miúdas, mas o contato cotidiano com o universo que habita cada narrativa de dor, angústia e sofrimento. Do choque dessas narrativas com o seu sofrimento pessoal surge a angústia por identificação.

Entretanto, acho mesmo que a melhor maneira para um estudante de medicina entender o drama do “paciente enquanto sujeito” é mergulhando nesta condição, sentindo a dor da impotência e da submissão inerentes a esta posição subjetiva. Assim como, via de regra, a dor só se aprende quando a sentimos na carne, o respeito ao paciente só é plenamente entendido quando nos colocamos no seu lugar e vestimos seus sapatos.

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Fora da URSAL

Já fui muitas vezes a Buenos Aires. Aliás, foi lá que levei Michel Odent para o meu quarto de hotel e fiquei a noite conversando com ele, mas isso eu explico no meu próximo livro. Mas lá fui agredido na rua por falar português e já fui chamado de “muerto de hambre” quando caminhava na capital e nos escutaram conversando na nossa língua. Na Copa América nos chamavam de “macaquitos”, até mesmo eu, um branquela azedo. Não é por acaso a ligação da Argentina com Israel, e também não é de agora. Foi na Argentina que Eichman se escondeu, e para lá foram muitos nazistas. Essa conexão não ocorre apenas pela grande população judaica de lá (maior que a brasileira em um país 5 vezes menos populoso) mas porque os projetos nacionais são parecidos: tanto na Argentina quanto em Israel houve a proposta de uma colônia europeia encravada em solo indígena e a estratégia dos colonizadores foi de aniquilar sua cultura e destruir seu patrimônio étnico e linguístico, ao contrário de produzir sincretismo e miscigenação como encontramos aqui, apesar dos nossos pecados igualmente condenáveis no processo de criar o que se chama Brasil.

Se não há como “condenar a nação por umalguns vídeos que circulam na Internet” também não dá para passar pano para o racismo que perpassa a história da Argentina desde o massacre dos Quilmes. Este massacre, e o posterior exílio do povo Quilmes, ocorreu em 1667, durante as Guerras Calchaquíes, no norte do país, na província de Tucumán. Após resistirem bravamente às invasões espanholas por mais de um século, os indígenas foram rendidos pela fome, enviados como escravizados e forçados a uma marcha mortal de 1.200 km a pé até Buenos Aires. Já no século XIX, ocorreu o projeto de embranquecimento promovido pelos presidentes argentinos da virada dos séculos XIX e XX. Os principais foram Domingo Faustino Sarmiento, presidente mais frequentemente associado à ideia de “europeização” da Argentina, que defendia a dicotomia “civilização versus barbárie”, na qual associava a civilização aos povos europeus e via indígenas, gaúchos e outros grupos como obstáculos ao progresso. Igual a ideia de “a villa in the jungle” usada pelos sionistas no projeto de desumanização e posterior aniquilação da população palestina. Impossível não traçar este paralelo entre as propostas de colonização destes países. Sarmiento incentivou fortemente a imigração europeia como forma de modernizar e transformar a composição social do país. Também tem Julio Argentino Roca (em homenagem a quem se criou a “Copa Roca” e a criação da cidade gaúcha de “Roca Salles”). Este foi o presidente que liderou a chamada Conquista do Deserto (semelhante à “Conquista do Oeste”, dos EUA), campanha militar que resultou na morte, deslocamento e submissão de milhares de indígenas da Patagônia e da região pampeana. Durante seus governos, a imigração europeia foi intensificada, consolidando a visão de uma Argentina predominantemente europeia.

Bem, se não devemos acreditar na manifestação do próprio presidente Alberto Fernández (de esquerda!!), quando disse ser um europeu, afirmando que “os brasileiros vieram da selva, os argentinos chegaram de barcos”, ou nas manifestações dos próprios argentinos, se dizendo europeus e negando sua conexão com a América Latina, então em que tipo de narrativa devemos confiar? Mesmo sendo manifestações que não podem ser entendidas como o pensamento único daquele povo, não é justo fazer de conta que tal postura não existe ou que não é um conceito pairando no campo simbólico que constitui aquela nação.

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Gol Contra

Esta semana as redes sociais foram sacudidas pela entrevista do compositor João Bosco ao jornal O Estado de São Paulo. Em sua fala ele criticou a patrulha ideológica identitária e as críticas a uma música sua, “Gol Anulado“, que descreve uma mulher que vibra com o gol do Zico. Seu marido, contrariado por ser vascaíno, bate nela “até cansar”. A reação de censura à violência explícita da letra provocou o comentário de João Bosco, mas o debate mostrou de um lado o próprio compositor defendendo a liberdade de retratar a sociedade daquela época (50 anos atrás) e do outro grupos identitários que reclamam de uma suposta banalização da violência contra a mulher.

Ao meu ver, a explicação do João Bosco e seu posicionamento contra a patrulha identitária são perfeitas. O que se vê agora é um monte de gente tentando usar um dos maiores compositores do Brasil como escada para fazer vídeos na Internet e lacrar, usando essa divisão para ganhar notoriedade. Aliás, esse debate é igual ao debate da direita que defende a pena de morte: se você se posicionar contra a pena capital, então é automaticamente a favor de bandidos e do crime. Neste caso da música de João Bosco, se você abomina a censura e defende a liberdade de expressão ampla, você esta ao lado dos espancadores de mulheres. Falso dilema, perceberam?

Essa esquerda liberal – que adora censura – acredita que se você não falar de alguma coisa ruim esta coisa desaparece. Basta não falarmos de violência e…. pufff, acabam as guerras, as lutas, as agressões e os ataques covardes. Estamos diante de um real delírio identitário: ao invés de expor a realidade, apresentar os problemas, trazer o pus à flor da pele, escondemos, censuramos, cerceamos, calamos e proibimos palavras e pronomes. João Bosco descreve um personagem em suas músicas!!! Woody Allen também, Machado de Assis e Chico Buarque idem. Como censurar literatura e música baseando-se nessa leitura torta e oportunista dos identitários? Como aceitar que um personagem não seja a imagem exata de um problema social? Como podemos, no século XXI, defender abertamente a censura mais abjeta, que amordaça a arte e detém a transformação social?

Pois quando alguém perguntar as razões do crescimento da extrema direita aqui teremos um bom início de conversa. Sou um sobrevivente dos anos de chumbo e lembro bem do clima da época da ditadura militar. Naquela época gritávamos contra a censura, que usava da violência para nos calar a voz. Se não aceitávamos que milicos grosseiros e ignorantes passassem caneta vermelha nas nossas músicas, por que deveríamos aceitar a censura dos identitários? Por que continuamos a aceitar que o neoliteralismo empobreça nossa literatura? Leiam as justificativas de hoje para calar os artistas: o bem maior, o drama da violência, as ideias que ameaçam a estrutura da família. Estas não passam de ecos tétricos das desculpas de ontem! Tanto antes como agora estas vozes representam as forças conservadoras, a serviço da direita. Enquanto isso, a esquerda está cada vez mais parecida com o que outrora combatia, tornando-se paulativamente mais moralista, antidemocrática, censuradora, oficialista, oportunista, identitária e desconectada dos reais desejos nacionais.

Censurar músicas? Sério? E a literatura? Cinema também? Revisonismo identitário?

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Tiro no Pé

A deputada Érika Hilton (PSOL-SP) propôs uma emenda ao PL da Misoginia determinando que “O exercício da liberdade de expressão, de manifestação do pensamento, de convicção religiosa, filosófica, científica, acadêmica ou política NÃO constitui causa de exclusão da ilicitude”Ou seja: mesmo que você traga uma perspectiva filosófica, científica ou religiosa, se for caracterizada como “misoginia” (por quem?) isso não constituirá exclusão de ilicitude. Não adianta estar embasado, ter conteúdo de fé ou ser um ensaio filosófico: se falar “mal” das mulheres será considerado crime. Imagine a situação de um pesquisador que analisa a orientação espacial de homens e mulheres e descobre que mulheres têm dificuldades em grandes espaços, e isso explicaria a dificuldade com mapas ou para fazer baliza. Basta escrever um artigo científico que mostre essa deficiência nas mulheres e pronto: você é um criminoso misógino. E, sim, pode escrever o que quiser sobre os homens; críticas ao patriarcado são até mesmo estimuladas

Vemos entáo que, através dessa aberração jurídica, a super poderosa defensora das mulheres não esconde que seu objetivo é violar frontalmente a Constituição, criando uma quimera que abre as portas para o mais abjeto supremacismo. Assim como faz a Alemanha, ameaçando colocar na cadeia por até 14 anos qualquer cidadão que ousar questionar a existência do Estado terrorista de Israel, essa parlamentar quer criminalizar críticas a um gênero específico – as mulheres – mantendo os homens livres para serem esculachados e criticados. O nome disso é supremacismo e, assim como o sionismo, que se baseia no hocausto para se blindar de ataques, faz crer que o patriarcado pode justificar a proibição de críticas. Entretanto, criar leis e excepcionalidades jamais vai atuar em favor das mulheres e, pior, vai manter a ideia de que mulheres previsam ser eternamente tuteladas.

“Sim, mas qual a diferença das leis existentes que criminalizam o racismo?” Ora, talvez nenhuma, e por isso mesmo deveriam ser ambas combatidas. Censura é censura, para comunistas, cristãos, negros, sionistas, brancos, gays e mulheres. Ou a sociedade aceita que pessoas pensem diferente de nós ou então teremos estabelecida uma franca ditadura do pensamento. O Estado vai determinar o que você pode pensar ou dizer. Liberdade de expressão implica o direito de idiotas falarem abertamente sobre sua idiotice, mas acima de tudo, determina que as pessoas com quem não concordamos possam se expressar livremente. Não existe censura do bem!! Mais cedo ou mais tarde a censura se volta contra os oprimidos. Censurar críticas às mulheres é um tiro no próprio pé, e não ajuda as mulheres. Censura, por melhor que sejam as intenções, nunca funciona!!

Todavia, no atual contexto, duvido muito que a esquerda compreenda o valor do combate à censura. A esquerda se tornou autoritária, cega e surda aos desejos do povo. Por isso sceitou em suas fileiras esse discurso e essa postura identitárias, que criam divisões e isolam cidadãos em nichos, criadas em torno de suas identidades, fragmentado a classe operária e enfraquecendo as lutas sociais. Criar uma blindagem de censura para qualquer discurso que possa criticar as mulheres não vai diminuir nenhuma morte, mas vai tornar ainda piores as relações de gênero. Aviso: o resultado do proibicionismo e do punitivismo é sempre paradoxal. Ao contrário de proteger as mulheres estas medidas tendem a criar ressentimento e desconfiança. Ou seja, será um desastre para as próprias mulheres, e vai prejudicá-las ao invés de protegê-las.

PS: será essa crítica usada para me acusar de misoginia? Como saber?

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Punições

Na Turquia o governo está preocupado com a taxa abusiva de cesarianas, um drama que temos igualmente no Brasil. Até ops números de lá são semelhantes aos nossos. Entretanto, a atitude de punir médicos com excesso de cirurgias é uma solução fácil e, provavelmente errada. O punitivismo nunca será um caminho suficiente e, na maioria das vezes, sequer adequado para mudar padrões culturais. Essa postura parte da ideia de que a “culpa” pela taxa indecente de cesarianas reside apenas nos médicos, mas isso não é verdade. Em verdade, os médicos (policiais, juízes, professores) são um reflexo da sociedade onde estão inseridos. Podemos até colocar os médicos e a sua formação técnica como os principais responsáveis por este absurdo, mas se hoje, por um ato de mágica, todos os médicos indicassem cesarianas apenas com indicação médica, haveria muitos médicos presos e um princípio de convulsão social entre as usuárias.

A cultura exalta as cesarianas. Elas são limpas, seguras, indolores e modernas. As mulheres bebem nessa fonte e desejam o que a tecnologia pode lhes oferecer. Submeter-se às cesarianas parece a elas o ticket para ingressar no mundo moderno, enquanto o parto normal aparenta ser um evento resquicial de um passado de carências, dores e abandono. O mesmo fenômeno ocorreu com a amamentação, onde a mamadeira era vista como libertação e um bebê colado ao seio representava o passado, ou a algema que prendia as mulheres ao seu destino de reprodutoras.

Punir médicos pode trazer algum resultado parcial, assim como prender traficantes pode oferecer algum benefício ilusório no combate às drogas, mas estes serão sempre pífios e fugazes. No médio prazo as prisões ficam lotadas e o problema mantem-se intacto.Da mesma forma, as pessoas na sociedade capitalista demandam estupefacientes para suportar a angústia de viver numa sociedade distópica. Ao mesmo tempo, as mulheres também desejam cesarianas para, ilusoriamente, fugir das dores e da angústia da espera. A punição como solução não vai funcionar. Sim, a ação do governo turco demonstra umaa louvável preocupação com a epidemia de cesarianas e os resultados funestos que elas acarretam para a sociedade, mas isso é insuficiente. Além disso, como toda ação baseada no proibicionismo, seus resultados serão fracos ou até paradoxais. Da mesma forma como ocorreu com a lei seca nos anos 20 do século passado, uma “lei seca de cesarianas” teria o mesmo destino: o fracasso.

A solução? Não há solução simples para problemas complexos. Qualquer medida só poderá ocorrer agindo sobre a educação. Esta precisa ocorrer desde muito cedo, valorando o corpo das mulheres e exaltando suas habilidades inatas de gestar, parir e amamentar. Assim, a opção pela cesariana se tornaria a mais tola das escolhas. Também é essencial uma mudança estrutural na assistência ao parto, por meio da seleção dos profissionais mais adequados para a atenção ao parto – as parteiras – deixando os cirurgiões apenas para os quadros de risco. Todavia, para isso é preciso trocar o sistema de poder sobre os corpos, e isso demanda uma verdadeira revolução. Não há alternativa.

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Anti-vida e peso

Perdi uma amiga querida há 2 anos por causa do uso de antibióticos. Na época ela estava usando antibióticos profiláticos para um tratamento dentário. Ou seja: sequer havia a necessidade premente para tratar uma doença bacteriana em curso. O principal problema dos antibióticos é que eles não diferenciam bactérias boas (benéficas) das ruins. Ao eliminar os microrganismos que protegem o intestino, geram uma condição chamada disbiose, abrindo espaço para a proliferação descontrolada de bactérias nocivas, como a Clostridioides difficile, que causa inflamações graves. Essa foi a provável causa de sua diarreia, que evoluiu para desidratação severa, insuficiência renal, megacólon tóxico (dilatação grave do intestino) sepse, o choque e a morte. Tudo isso porque usou um antibiótico profilático em um tratamento dentário banal.

Sempre tive um cuidado imenso com antibióticos desde a entrada na escola médica. Pessoalmente, não uso antibióticos há praticamente 40 anos, e já passei por múltiplas amigdalites, neurites, cirurgias e adoecimentos em geral. Por estudar os efeitos dos antibióticos no corpo e a importância da interação entre nosso organismo e as bactérias que conosco convivem, sempre tive muito respeito pelos riscos associados aos medicamento anti-vida (anti-bio). Fiquei mais interessado ainda quando assisti um documentário sobre o microbioma do recém nascido e quando conversei com o professor Lars A. Hanson da Universidade de Gottemburgo em uma conferência nos Estados Unidos. O Prof. Lars A. Hanson é um dos maiores pioneiros mundiais em imunologia clínica, dedicou sua carreira a provar como a amamentação transfere anticorpos e sinalizações cruciais para moldar a microbiota protetora do bebê contra infecções. Ele me descreveu suas pesquisas no campo da microbiologia dos recém-nascidos e a importância das enterobactérias maternas na colonização do intestino dos pequenos. Esse tema me deixou ainda mais encantado pelo significado da flora intestinal e as pesquisas sobre a conexão intestino-cérebro. Lembro muito bem da frase “Uma menina leva nos intestino bactérias herdadas da sua avó”. Não é impressionante isso?

Em 1946, pesquisadores descobriram que adicionar baixas doses de antibióticos à ração de animais de fazenda (como frangos e porcos) acelerava o crescimento e o ganho de peso. Desde então, a indústria usou antibióticos em larga escala como promotores de crescimento. Embora o efeito em animais seja conhecido desde a década de 1940, a confirmação de que os antibióticos afetam o peso em humanos é um achado recente. Estudos modernos ligam o uso precoce ou repetido de antibióticos a alterações na microbiota, o que pode aumentar o risco de obesidade, principalmente em crianças. Ou seja, a epidemia de obesidade no mundo está seguramente ligada ao excesso de antibióticos prescritos, em especial na infância.

Agora “descobrimos” que a solução para a obesidade é a aplicação de uma caneta mágica, cujos resultados em médio e longo prazos ainda não foram descobertos. Ou então já foram, mas como tudo se resume a dividendos e lucros na indústria farmacêutica, estes dados estão bem escondidos, como foi feito recentemente com o Vioxx. Mas será mesmo que esta solução artificial vai exterminar um problema que evidentemente está relacionado com o estilo de vida moderno? Não será a obesidade a consequência esperada para a artificialização da alimentação e, em última análise, da própria vida?

Este texto abaixo que eu colhi na internet é de uma palestra que encontrei e que continha esta parte interessante…

“Sabemos desde a década de 1940, quando começamos a usar antibióticos em larga escala na agropecuária, que os antibióticos fazem as pessoas ganharem peso. Nós os administrávamos — ou melhor, fazíamos uso inadequado deles na criação de animais — para que os animais engordassem mais rapidamente, e fizemos isso durante cerca de cinquenta anos. E houve até mesmo — quando digo “nós”, refiro-me à comunidade médica da época — ensaios clínicos realizados nas décadas de 1950 e 1960 com crianças africanas desnutridas e famintas, às quais eram administrados antibióticos para que ganhassem peso.

O microbioma é uma parte crucial da explicação para a atual pandemia de obesidade. Os microrganismos transformam a dieta ultraprocessada que você consome em um fator que promove a obesidade. E fazem isso, entre outras formas, regulando as vias do GLP-1; elas fazem parte de toda essa história. O que estamos fazendo é prender as pessoas em um ciclo de obesidade porque tratamos mal o microbioma. E então a solução apresentada é um medicamento muito caro, que as mantém presas nesse ciclo. Esse medicamento não cura a obesidade; apenas mantém o paciente em um tratamento extremamente dispendioso que, no fim das contas, provoca ainda mais alterações no microbioma, gera efeitos secundários sobre a interação entre intestino e cérebro e desencadeia uma série de outros problemas. E nós ainda não compreendemos profundamente esse mecanismo. Até 2030, cerca de 30 milhões de pessoas nos Estados Unidos estarão tomando esses medicamentos diariamente. E os governos dizem: “Ótimo, aqui está a solução para a pandemia de obesidade; vamos todos tomar esses remédios.” Isso simplesmente não é verdade.”

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