Uma história curta

 

A gorda senhora entra na emergência do hospital pálida, fraca, sem quase conseguir respirar. Vinha acompanhada da filha, uma moça de rara beleza – e talvez por isso a história continue viva para mim. Esta segura as mãos sobre o peito e pede que ajudemos sua mãe,  que há muitos anos sofre do coração.

Enquanto os enfermeiros e médicos instalam oxigênio e pegam suas veias para colocar o soro a senhora me encontra com o olhar, e no meio da confusão hipóxica de seus pensamentos me pergunta afirmando: “Eu vou ficar boa, não é doutor?”.

Envaidecido por ser confundido com um médico enquanto ainda estudante eu lhe confirmo: “Pode ter certeza que sim”. Ela responde com o olhar sonolento, desfaz seu sorriso frágil, sua face perde a expressão e fecha os olhos pela última vez.

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Champagne

 

Quando a gente fica velho as coisas passam a ter um valor relativo. É mais difícil ficarmos vivamente emocionados com um show de música ou mesmo um filme, mesmo que sejam realmente bons.

Lembro do meu amigo, Major Rogério, que me contava da vez em que foi convidado a experimentar uma Champagne de uma cave exatamente dessa região região da França. O anfitrião vinha de um longa família de tradicionais vinicultores franceses na região mais famosa do mundo desse cultivo e nessa prática.

A abertura da garrafa empoeirada na adega escura e úmida foi rodeada de cerimônia.  Um ar circunspecto e solene envolvia as ações do velho champanheiro. O ambiente foi marcado pela mais austera religiosidade, e as ações eram pontuadas de rituais que confirmavam a gravidade da abertura da garrafa há tanto tempo guardada.

Ploc!! O som da rolha liberta de sua camisa de força vítrea ecoou pelos porões da mansão e liberou o gás naturalmente formado pela fermentação.  Abriu-se a caixa com as taças de cristal e o líquido borbulhante chiou em efervescência diante do seleto grupo. O contato com o sabor se fez obedecendo o protocolo mais rígido.

O major me relatou da seguinte forma sua experiência:

“Eu sequer ousava pensar o quanto custariam os poucos goles daquele líquido se houvesse eu que pagar por eles. Entretanto, o sabor foi tão diferente e tão inusitado que produziu efeitos insólitos e paradoxais. Primeiro, e mais importante, me garantiu uma memória gustativa inesquecível e perene. Tenho certeza que em meus derradeiros momentos de vida ainda terei a lembrança dessa preciosidade. Por outro lado essa experiência produziu para mim uma condenação triste e solitária: daquele dia em diante eu nunca mais fui capaz de tomar champanhe comum com o mesmo prazer e entusiasmo. A excelência daquela maravilha matou algo genuíno que eu tinha: o prazer simples das coisas comuns.”

Ficar velho e experiente lhe faz desconfiar das “novidades”. Isso é bom, mas as vezes triste.

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Justiça

 

“Temos hoje, acima de tudo, a falência do direito como elemento regulador da sociedade. Quem aceita uma justiça parcial quando lhe convém está alimentando os corvos que, no futuro, comerão seus olhos.”

 

 

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Tipos de Ultrassom

 

O ultrassom é outra novela capitalista. Existem três tipos fundamentais: ultrassons médicos, sedativos e recreativos.

Os ultrassons MÉDICOS  possuem como característica “uma pergunta, uma resposta e uma ação“, sendo esta última diretamente ligada à resposta oferecida pelo exame. São exames raramente feitos, mas são os únicos justificáveis.

Os ultrassons SEDATIVOS são subproduto da indústria do medo. As pacientes durante o pré natal são tão danificadas emocionalmente pelo modelo médico que passam a desconfiar de sua capacidade de produzir bebês saudáveis. Por esta razão, precisam de um reforço visual, uma comprovação do bem-estar fetal pela via tecnológica. As lágrimas na sala de ecografia não são – via de regra – de alegria, mas de alívio.

Os ultras sons RECREATIVOS são para olhar, espiar, socializar o bebê e para descobrir seu gênero antes do nascimento. Hoje em dia são exigidos pelas famílias como um ritual tecnológico de apropriação e introdução social do “nascituro”. Uso essa palavra controversa de propósito, exatamente porque as ecografias contribuem para a noção contemporânea do “feto como sujeito”, que tanto estrago traz às mulheres, tanto no debate sobre o direito ao aborto quanto na ocorrência de uma perda gestacional. É sabido também que tanto este tipo de ultrassom quanto o “sedativo” são incapazes de produzir melhora nos resultados perinatais.

Em verdade, as ecografias na gravidez como método de RASTREIO (em mulheres com gestações saudáveis) não oferecem nenhuma vantagem para mães e bebês do ponto de vista do decréscimo da morbi-mortalidade materna, fetal e neonatal. São “brinquedos eletrônicos” que, na imensa maioria das vezes,  não  justificam – com resultados positivos – a quantidade enorme de recursos neles aplicados.

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Vanguarda do Atraso

Existe uma cidade nos Estados Unidos que fica no meio de uma região muito careta, mas o que a salva é ser um polo universitário muito grande, o que traz estudantes do mundo inteiro que oferecem a diversidade e a pluralidade de gostos, jeitos, caras, cheiros e idiomas que se entrelaçam na malha social. Estou falando de Austin, Texas.

Pois esta cidade tem um “bumper stick”, um adesivo famoso e que se vê em muitos lugares: automóveis, jornais, lojas e até nas casas. Nele se lê: “Keep Austin Weird” – Mantenham Austin Bizarra – normalmente acompanhado de uma foto de algo muito estranho que ocorre na cidade, como uma corrida de gente pelada, festival de tatuados, galerias de arte com amostras curiosas, arte e eventos LGBT, gente jovem de qualquer combinação de gêneros se beijando, etc. Para os moradores de Austin, ser “weird” significa ser diferente, ser progressista, desafiar os limites e enfrentar corajosamente as mentes mais atrasadas que se recusam a avançar. Ser bizarro é um orgulho para seus moradores, e algo pelo que querem ser conhecidos.

Quando vejo isso fico pensando nas mentes atrasadas e estúpidas que regulam nossa sociedade. Somos comandados pela vanguarda do atraso do Brasil, e não é à toa que a nossa obstetrícia obedece ao mesmo padrão de caretice e anacronismo. Mesmo quando o mundo inteiro já tiver se dado conta da imperiosa necessidade de trocar o modelo obstétrico baseado em cirurgiões – que falhou no mundo inteiro – por um controlado por parteiras profissionais, o Rio Grande do Sul se manterá atrelado aos sistemas de poderes que oferecem supremacia para uma corporação, mesmo em detrimento do bem-estar de mães e bebês. Aqui o atraso é chique, a abertura das mentes uma dor insuportável, e a perseguição aos dissidentes um ato de desespero que se dissimula como “defesa da família” ou “práticas consagradas”.

O que testemunhamos hoje em dia é uma brutal humilhação para quem conheceu uma Porto Alegre que prometia a pluralidade, a diversidade e o sonho de “um mundo novo possível”. O que acontece agora, esse salto para trás, é muito triste e deprimente, mas tem tudo a ver com um estado que sempre se orgulhou de seus fracassos.

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Arquivado em Ativismo, Livro 3, Parto