Idolatria

 

“A idolatria faz mais vítimas que o ódio explícito. Ela é cega para os defeitos, enquanto ele para as virtudes. Entretanto, é melhor um defeito exagerado do que uma perversão dissimulada. Quanto às virtudes, elas aparecem, mais cedo ou mais tarde.”

Eleanor Sinclair, “Just above the Rainbow”, Ed. Aleph, pág 135.

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Sociedade e Espetáculos

Uma atriz famosa declara algumas particularidades de sua vida sexual íntima. Recebe críticas e elogios, seja por sua “imoralidade”, seja pela coragem de falar de suas fantasias íntimas.

Talvez a discussão esteja trocada. Não se trata de debater com quantas pessoas ela transou ao mesmo tempo. Esta é, concordo, uma discussão moralista e sem sentido. O desejo de cada um é patrimônio pessoal sobre o qual não podemos estabelecer critérios ou julgamentos. Usando sua própria lógica: “Quem não fantasiou? Quem podendo não faria?”

Por outro lado, o que eu considero digno de debater é a necessidade tipicamente pós moderna de expor publicamente assuntos absolutamente pessoais. O que veste por baixo da roupa, o que come, suas fantasias e com quem faz (ou fez) sexo. Parece que o mundo cibernético rompeu com todas as barreiras da privacidade.

Vejam que não se trata de IMPEDIR que seu mundo privado e íntimo seja publicizado. Nesse terreno é impossível adentrar sem igualmente invadir a liberdade do outro. Entretanto, caberia perguntar as razões pelas quais as sociedades contemporâneas desprezam tanto a intimidade e a privacidade.

A sociedade do espetáculo conseguirá, por fim, transformar cada sujeito em um performático de sua própria existência?

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Sororidades

“Quando nossas fraternidades e sororidades colidem frontalmente com nossos princípios éticos elas deixam de ser mecanismos de fortalecimento para se tornarem identitarismos reacionários.”

Martin Chambers, Chatanooga News, may 1995

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Feras e outras histórias de amor

Há exatos 40 anos tomei um decisão radical para a qual estava me nutrindo de coragem por algumas semanas. Convidei meu “crush” (mesmo que naquela época não houvesse esse nome) para ir ao cinema. Quem sabe as condições de pressão e temperatura pudessem quebrar o gelo que emperrava a minha iniciativa.

Havia vários filmes para ver na cidade, mas o escolhido foi King Kong, uma mega produção da época dirigida por John Guillermin e estrelada por Jeff Bridges, Jéssica Lange e…. Kong. No escurinho do cinema e após vários drops de anis eu tomei a coragem necessária para pedir a menina em namoro. Mal sabia eu que toda a minha vida seria determinada pelas escolhas daquela noite.

Exatamente 4 anos e meio depois daquele encontro eu casei com a moça simpática de olhos verdes e sorriso reservado. Todavia, o que sempre me causou espanto foi o fato de que o script da nossa vida em comum seguiu o roteiro que pautou nosso primeiro momento.

King Kong é “A Bela e a Fera” com final trágico. Uma história de amor marcada pela incompatibilidade. Como Bela, na animação da Disney, Dwan começa como cativa do monstro e com o tempo desenvolve por ele ternura, apreço e, por fim, afeto genuíno. Mas, ao contrário de Bela, que tinha a chance de reverter a maldição da Fera com seu amor, Dwan esbarrava no limite intransponível das espécies distintas e incompatíveis. O fim do monstro simiesco só poderia ser a tragédia.

É assim que também vi a minha história. Eu sempre fui o monstro incapaz de conter a fúria e a indignação. Durante anos persegui meus ideais mesmo recebendo os ataques inevitáveis de quem não aceitava a visão crítica e dura que eu apresentava. Segurando minhas convicções como Kong se apoiava no mastro do Empire States, recebi os inevitáveis disparos que surgiam de todos os lados. Por muitas vezes, durante todos estes anos de luta, a única coisa que me ofereceu um tímido consolo era o brilho dos olhos verdes da menina tímida cuja história se iniciou naquela sessão de cinema. Como o monstro da história, eu acabei percebendo que até o final dos meus dias seria este o olhar a me oferecer a força para seguir.


Quatro décadas nos separam daquela sessão de cinema. Dois filhos, dois netos, centenas de partos, muitas dores, tristezas, decepções e alegrias foram divididas. Nunca imaginei que um ogro pudesse ter tanta sorte, algo muito além do seu merecimento.

Agradeço a Zeza Jones a companhia pelos últimos 40 anos, que formaram o que sou. Desculpe ter sido o King Kong descontrolado e furioso, e obrigado por ser a Dwan que sempre me apoiou, em especial quando o meu mundo parecia ruir.

PS: para mostrar como sou um sujeito de sorte a alternativa para King Kong naquela noite de inverno há 40 anos era “Carrie, a estranha”.

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Parteiros Infalíveis

Uma revista de grande circulação publicou matéria sobre uma famosa parteira nordestina e seu trabalho de várias décadas na atenção ao parto. A revista prestava uma homenagem oportuna e justa, mas não foi para mim nenhuma surpresa o fato de terem informado um número exagerado de partos atendidos por ela (6 mil) além de terem acrescentado uma fala que merece uma análise mais aprofundada: “Nunca perdi um bebê“, disse ela.

Fiz um comentário discreto aqui em casa a respeito da matéria, mesmo porque sabemos que é politicamente incorreto questionar um mito muito antigo da obstetrícia: o número de partos atendidos por parteiras e médicos. Nesse terreno podemos afirmar sem medo que todos mentem sobre os famosos “múltiplos de mil” (menos eu, que anotei todos os quase dois mil que atendi na minha carreira de 30 anos).

Ora, cabe uma consideração sobre os seis mil partos que a parteira informa ter atendido durante sua carreira, sem que tenha ocorrido nenhum óbito neonatal. É importante salientar que os melhores serviços europeus de obstetrícia têm mortalidade neonatal ao redor de 4/1000 nascidos. Uma parteira que tenha atendido por volta de 6 mil partos (número obviamente inflacionado) teria o direito de perder 24 bebês. Sim …. 24!! Este é um número maravilhoso para qualquer serviço de excelência neonatal do mundo!! Portanto, essa ausência de óbitos parece deveras estranha, mas sabemos o quanto é tabu questionar tais números.

O grande problema dessas fantasias disseminadas no universo dos obstetras e parteiras é desnaturalizar a morte neonatal, como se a sobrevivência dos bebês dependesse unicamente da nossa capacidade, abnegação e compaixão. Essa perspectiva irreal torna toda morte neonatal uma tragédia, fazendo a culpa recair sobre o cuidador, que será visto como negligente e incompetente.

Babies die and shit happens“, já nos avisava Marsden Wagner, chefe do serviço Materno-Infantil da OMS para o leste europeu. Criar essa ilusão de excelência é péssimo para o trabalho de parteiras e médicos. A ilusão da infalibilidade é deletéria e produz efeitos nocivos. Criar uma aura de “erro zero” para os profissionais que atendem o parto pode produzir uma expectativa irreal sobre este trabalho, e a conta será inevitavelmente cobrada depois. Sem dó.

Essa postura onipotente poderá ter um preço muito alto. Uma vez vi o filho de uma paciente que havia falecido dizer para um colega médico a respeito do óbito de sua mãe: “Como assim morreu? Hoje em dia a medicina está tão avançada; como não houve cura para ela?“.

Quem brinca de Deus será odiado pelos desastres naturais“, como também dizia o mestre Marsden.

Aqui na província um velho professor (que não fazia plantões há mais de 30 anos) disse durante uma entrevista na TV local que atendeu “mais de 30 mil partos“, e disse essa baboseira com a cara mais impávida e serena. Não passa de um mentiroso e embusteiro. Quem trabalhou nessa área sabe que número de partos é tamanho de falo, com o perdão pela comparação grosseira. Todo garoto descreve proporções exageradas de si mesmo – sempre acima da realidade – mesmo porque poucos estão interessados em ver os “documentos comprobatórios”.

Todavia, é interessante notar que essa “ilusão de excelência” surgiu quando da confrontação do trabalho milenar das parteiras com o modelo médico hegemônico que se estabelecia, onde a morte se tornou palavra maldita e considerada uma falha. As parteiras, para quem a morte tinha outro significado, acabaram por adotar o paradigma da “morte-fracasso” que os médicos instituíram, o que é uma pena; lidar com a morte com mais naturalidade seria melhor para todos. Evidentemente que “encarar a morte como parte da existência” não significa abdicar da luta para manter a vida através da arte e da competência, usando de todos os meios para mantê-la, mas significa reconhecer que ela é nossa única certeza e nosso fim inequívoco.

Por mais que tentemos evitar sua presença obscura, ela faz parte do nosso cotidiano e dos nossos pesadelos mais sombrios. Porém, só os tolos disfarçam o medo que dela sentem ou afastam dos olhos sua miragem. Um bom obstetra ou parteira sabe o gosto que a morte tem e já sentiu seu hálito gelado a lhe trespassar a pele e congelar os ossos.

 

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