A Coisa em Si

 

A melhor citação de Hegel, segundo a opinião de Zizek, é de que “o mais importante efeito da Guerra do Peloponeso é o fato de Tucídides ter escrito um livro sobre ela”. Essa visão curiosa – que faz a descrição da coisa ser mais relevante do que a coisa em si – poderia ser emprestada a Euclides da Cunha e “Os Sertões”, onde o mais relevante aspecto da rebelião de Antônio Conselheiro seria o livro que a expõs à consciência nacional. Minha filha, com raro sentido de síntese, já afirmava: “Tudo vale se do fato sobra uma bela história a contar”

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Arquivado em Pensamentos

A Cafeteria na Esquina do Mundo

“A escolha do local do encontro não foi por acaso. Foi naquela exata esquina que há 30 anos havia tomado um café aguado e amargo, mas que cabia no seu bolso de menino. A nostalgia de uma juventude que lhe saía do corpo junto com seus poucos cabelos se misturava com a vertigem das paredes íngremes e cheias de luzes que brotavam do cimento cru da Broadway. Em três décadas a cidade se tornara ainda mais agitada e frenética, com a amálgama de sotaques e feições a traçar sua silhueta. O frio do outono abria frestas no sobretudo de Jerry, deixando passar o hálito gelado da cidade. Com as mãos no bolso e às orelhas escondidas no gorro de lã ele aguardava na esquina espantando o frio que lhe subia pelas pernas. Sua vontade era entrar na cafeteria, mas tinha medo de não perceber a chegada de Annie.

Enquanto espantava o gelo da rua movimentando o corpo de um lado para o outro tentava resgatar da memória os detalhes que lhe restavam de Annie depois de tantos anos. Mais de uma década os separava de sua última conversa, a mais tensa e mais dura de todas. Agora o destino os colocava de novo na mesma cidade, no coração do mundo, talvez a última oportunidade para curar dois corações que se haviam perdido nas rotas tortuosas da vida.

Em sua mente volitavam imagens dispersas de sorrisos e lágrimas, momentos ternos e tristes misturados com aromas, cheiros, lugares e penumbras. Por alguns instantes pensou ser melhor que ela não viesse, que o passado ficasse onde estava, que as feridas antigas fossem esquecidas e que os bons momentos ficassem envoltos em suspiros e sorrisos dissimulados. Todavia, não ousava deixar aquela esquina com medo de perder uma oportunidade que fatalmente não se repetiria.

Um senhor gordo de chapéu e luvas pretas caminha em sua direção com a cabeça baixa desviando o rosto das navalhas de vento a lhe cortar a face e congelar a barba. Quando por fim é ultrapassado pelo seu corpanzil, Jerry escuta uma voz surgida de trás, a qual atingiu um ponto sensível de suas lembranças.

– Jerry?

Voltou seu corpo na direção da voz suave e encontrou o sorriso tímido de Annie, emoldurado por vincos esculpidos pela vida. Sua expressão era uma mistura de alegria, apreensão e surpresa, como quem ainda não sabia se aquele encontro seria suave ou amargo. De resto a vida havia preservado sua beleza ímpar e seu jeito de menina, mesmo já sendo uma mulher madura.

– Annie, Como vai? respondeu, ensaiando um sorriso encabulado.

Pelo menos agora achou que o frio lhe ajudava, pois o gorro azul escondia sua cabeça calva. Sentiu vergonha de ter vergonha, pensou na tolice de sua vaidade e fixou-se nos olhos castanhos de Annie.

– Está frio, não? Podemos entrar?

O calor da cafeteria se chocou contra seu rosto como um sopro quente, devolvendo um pouco da expressão perdida pelo frio e pelo impacto do encontro com Annie. A jovem atendente perguntou sobre qual mesa preferiam e Jerry levantou a mão esquerda mostrando dois dedos e acrescentando “perto da janela”. Com o menu nas mãos a jovem os encaminhou para próximo da vidraça ampla, cujo vidro grosso deixava como tela o ritmo apressado da rua, com seus teatros, caminhantes e táxis amarelos buzinando impacientes.

– Sente-se aqui, de frente para a rua. Já conheço bem essa cidade, Annie, e você recém chegou. Prefiro vê-la pelo brilho dos seus olhos.

Annie sorriu de sua poesia canhestra. Era o jeito de Jerry, ela bem o sabia.

O café fumegante que logo chegou trouxe uma bruma para anuviar os olhares que se cruzavam. Havia uma década de distâncias que precisavam ser esclarecidas e muitas emoções estavam para aflorar daquele encontro.”

Ric Jones, “Walking in the Edge of the Cliff”, cap 3, pag 135

 

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Arquivado em Ficção

Imperativos éticos

 

“Vendo a reação das pessoas aos “anjos caídos” dá para ter certeza que o ódio está no ar. Não há perdão, contexto, compreensão e sequer desejo de justiça. O que se sente é a oportunidade de vingança, e usando as mesmas armas que os inimigos sempre usaram.

Assim sendo, existe razão ao se pedir moderação nos linchamentos virtuais. A civilidade impõe que a punição não pode jamais suplantar o crime cometido, e a resposta da vítima não pode se igualar à do algoz. Sem esse imperativo ético não é possível distinguir justiça de revanche.”

Edwin Rupert McAllister, “Virtual Lynch”, Ed. Barroblanco, pág. 135

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Arquivado em Citações

Personagens de si mesmos

 

Lembrei hoje de um fato entre tantos de posturas preconceituosas e sexistas de professores de medicina. Este fato ocorreu há 38 anos durante um curso de verão na enfermaria de Medicina Interna. O professor por certo já é falecido.

Estávamos em um “round” debatendo casos da enfermaria quando o professor anunciou que precisaria se afastar por uma hora para acompanhar as entrevistas de seleção para os novos residentes do serviço. Continuamos nas prescrições e questionamentos aos residentes (eu estava no 3o ano de medicina) até que o professor voltou da sua tarefa e perguntamos a ele como haviam sido as entrevistas.
Medianas“, respondeu com ar de enfado. “Nenhum candidato se sobressaiu. Todos ganharam notas médias, nada de mais“.
Nesse momento ele parou por uns instantes sua fala e resolveu nos dar uma informação extra.
Só um deles recebeu de mim a nota zero“.
Para os estudantes presentes essa poderia ser uma informação valiosa. Ficamos todos tentando imaginar o que levaria um professor a zerar a nota de um candidato na entrevista para uma vaga de residente em Medicina Interna. Talvez sabendo do erro cometido poderíamos evitá-lo quando nossa vez chegasse.
Não me contive e perguntei ao professor a causa da nota baixa, sem me dar conta que a observação havia sido feita com o único propósito de firmar uma posição e expor um princípio.
Ele desmunhecou“, disse ele, imitando o gesto afeminado com as mãos grossas, arrancando sorrisos acanhados dos estudantes e residentes presentes na sala. Eu não ri, e ele tomou minha seriedade como uma censura.
Eu não permitiria que um degenerado fosse residente nesse serviço, disse ele visivelmente contrariado, me fuzilando com seus olhos azuis. Tu gostarias que um sujeito como esse atendesse teu pai, tua mãe ou um irmão teu?
Não consegui responder, e minha apatia dói até hoje. Eu era um menino de 20 anos enfrentando, com o olhar parado e uma expressão atônita, um professor rico e famoso com idade para ser meu pai. Meu silêncio até hoje me incomoda, tantas vezes revi a cena e ensaiei respostas para o homem à minha frente. Mas naquele dia meu silêncio e meu medo me venceram. Não consegui dizer do meu horror de imaginar um jovem médico sendo barrado no seu sonho apenas por sua orientação sexual.
No ano seguinte um querido amigo homossexual foi selecionado para residência em pediatria naquele mesmo hospital e fiquei imaginando que sua entrada só ocorreu porque, durante a entrevista, teve que encenar, da forma mais cínica possível, um personagem que não despertasse desconfiança nos professores à sua frente.

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Invasão Fascista

É verdade que a decisão sobre o aborto acaba sendo tomada por um punhado de homens brancos, burgueses e ricos que conhecem as clínicas clandestinas “classe A” para levar suas mulheres, namoradas, filhas ou amantes. Esta decisão nunca está na mão da mulher negra e pobre que será submetida ao risco e à indignidade das agulhas, pílulas do mercado ilegal e dos aborteiros da favela.

Entretanto, muitas dessas mulheres votaram no pastor sedutor e no empresário falastrão, os mesmos que agora roubam sua esperança de dignidade e segurança na atenção à saúde. Só existe uma forma justa de mudar esse cenário: encarar a invasão da direita fascista evangélica como uma real ameaça às mulheres e seus direitos.

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Arquivado em Ativismo, Política