Flávio Disparue

Flávio fugiu para os Estados Unidos. Sorrateiramente, certamente com a ajuda do governo americano, a quem ele evidentemente presta serviços. Essa fuga estava sendo anunciada desde antes das eleições, mas virou “trending topic” depois da eleição e a consequente vitória do Lula. Nunca ninguém duvidou que a saída para mais um componente da família era fugir para o país que tanto admiram e onde são tão bem acolhidos.

Mas eu convidaria aos eleitores do Flávio Bolsonaro uma análise mais profunda sobre quem eles votaram. Vocês conseguem compreender o abismo ético que separa a família Bolsonaro do presidente Lula? Não se trata de exaltar o presidente, e nem mesmo esquecer as críticas necessárias aos seus governos que flertaram com o liberalismo. Entretanto, lembram que várias delegações estrangeiras convidaram Lula para se refugiar no território seguro das embaixadas após sua sentença, mas ele se negou e se entregou voluntariamente, porque sempre soube que não era culpado? Lula tinha a segurança dos inocentes, e sabia que, mais cedo ou mais tarde, a verdade viria à tona. Apesar das falhas grosseiras de um judiciário capenga, ele ficoi e enfrentou seus acusadores porque seu caso não tinha sustentação; era a armação de um juiz corrupto com a ajuda de um promotor canalha e fanático de extrema direita.

Agora Flávio foge, como um rato. Saiu pelo esgoto, e vai usufruir na gringa dos milhões que ele roubou aqui. Suas rachadinhas agora serão transformadas em “bigMac” e Coca Cola. Coloquem a mão na consciência, vocês que votaram nesse sujeito, e reconheçam a sua responsabilidade na construção de uma quase tragédia. Agora o mundo inteiro celebra a vitória de Lula enquanto seu adversário foge como um criminoso comum, pela porta dos fundos.

Como puderam comparar Bolsonaro (qualquer um) com o presidente Lula? Por mais que seja possível fazer críticas ao presidente, é inegável que ele está em um patamar completamente distinto desse do Flávio, cuja fuga comprova todas as suspeitas que tínhamos sobre sua falta de honestidade.

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Bacurau

Chora bolsominion, mas manda áudio. Vocês nunca souberam perder. Agora ameaçam melar a eleição. Ora, o meu time sacramentou uma expressão em 1977, quando ganhou um campeonato e a torcida invadiu o campo: “taça no armário, bicho no bolso e torcida na rua não se muda em tribunal”. O próprio Flavio Rachadinha pediu para estender o tempo de votação, pois achava que isso poderia beneficiá-lo. Na hora da “virada fugaz” alguns bolsominions rejeitaram o entusiasmo, e inclusive o próprio Flávio pediu calma, pois já naquela hora era evidente que a vitória de Lula estava encaminhada. Não adiantava mais nada; a vitória já estava sacramentada.

Foi uma vitória épica, espetacular, de virada e com a juventude nas ruas. Foi uma vitória Bacurau: o povo simples fazendo justiça com as próprias mãos. Vencemos as big-techs, as BETs, os Estados Unidos e a imundície sionista. Vencemos também a Globo e as empresas de midia do Brasil. Derrotamos a Faria Lima e os milicianos, os matadores de Ana Clara e o clã Bolsonaro. Nesta segunda feira pós vitória de Lula a civilização respira aliviada. Vamos agora derrubar Trump e Netanyahu, mas lá, ao contrário daqui, a alternativa a estes dois não nos oferece qualquer esperança.

Ahh… e hoje já estou na oposição marxista a este governo liberal do PT

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Comparações

Sou comuna e não abro mão de criticar os governos do Lula por uma perspectiva marxista e pela luta de classes. Sei o quanto do crescimento do bolsonarismo está ligado às falhas dos governos petistas, insistindo em não trazer o povo para as ruas. Sei também o erro cometido pelo PT ao governar apenas pelos conchavos, acordos, negociações e alianças espúrias com a direita. Entretanto, quando vejo bolsonaristas atacando a biografia do Lula para exaltar o representante do crime organizado, eu não posso deixar de me indignar. Por mais que eu critique Lula, nada justifica colocá-lo na mesma prateleira onde estão os Bolsonaro, pai ou filho. Essa comparação é ofensiva.

Porém, na falta de argumentos positivos, parece ser necessário falar mal do Lula para conseguir justificar o voto num miliciano, num criminoso vulgar. Pense o escândalo que a direita faria se o Lula tivesse feito 10% das falcatruas comprovadas de Flávio. Rachadinhas, compra de inúmeros imóveis com dinheiro vivo, a mansão em Brasilia (incompatível com seu salário), a defesa de assassinos de crianças, a loja de chocolate que era uma lavanderia de dinheiro, a ilha roubada do Richarlyson, os negócios com o “irmãozão” Vorcaro e o escritório compartilhado com o careca do INSS. Mas como não há coragem para encarar o fato de que a alternativa ao atual presidente é um bandido, a solução é falar mal do Lula.

O presidente, aliás merece muitas criticas, não por combater a extrema direita que deseja entregar o Brasil aos Estados Unidos, mas sim por não levar adiante uma agenda mais à esquerda. Lula – que os bolsonaristas odeiam por ser de origem pobre, nordestino, proletário e o maior dirigente sindical da história desse país – é um anjo se comparado a qualquer um da familia Bolsonaro. Compare. Mostre as provas de qualquer deslize ético de Lula. Mostre um recibo, um carro, uma mansão, um telefonema, uma negociata, uma propina, uma rachadinha, imóveis, joias ganhas como “presente” de ditadores árabes, um contrato fraudulento ou uma mala cheia de dinheiro vivo. Mostre as propriedades de Lula ou de sua família. Mostre um bandido que Lula chamou de “Merrmão”. Mostre qualquer crime feito por Lula. Façam o que a esquerda faz: provar os crimes cometidos pelos Bolsonaro, pai ou filho. Sobre Lula não há nada, nada mesmo.

E na economia, comparem o governo Bolsonaro com qualquer dos governos Lula. Vamos, qualquer um. Completem a seguinte frase: “Tenho saudade do governo Bolsonaro porque o ….. estava muito melhor que hoje”. Mostrem algo que ficou melhor durante o governo Bolsonaro. Qualquer coisa. Mas o ódio de classe é mais forte, não é? Imagine… um retirante nordestino mandando em nós. “Se fosse um filósofo como Fernando Henrique, ainda vá. Mas um nordestino, inculto, com aquela cara de pobre, sem curso superior e sem dedo!!!” Melhor votar num miliciano que empregava a família de um matador de aluguel no seu gabinete do que num líder de trabalhadores, cujo pior defeito é ser agregador, conversador e acreditar na balela da conciliação de classes.

Parabéns. Anotem o que vem pela frente. Mas tenham certeza que cada um de nós comunistas estaremos aqui para dizer “Nós avisamos”.

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Doutor, é grave?

Após ouvir seu nome ele entrou na sala segurando a mão da mãe. Difícil saber se sua postura retraída era causada por medo ou vergonha. A cabeça baixa, o medo de sentir dor, o andar relutante. Sua mãe deu dois passos na saleta acanhada, acomodou-se em uma das duas cadeiras e apontou a outra para seu filho. À frente deles o homem de avental branco levantou rapidamente os olhos da ficha em sua mesa, girou a caneta entre os dedos e disparou perguntas banais. A mãe respondeu sem precisar pensar muito. Sim, 12 anos, sim, sim, sim, não, sim, não come, muito pequeno, ele é magro demais. Poucos minutos de conversa até que o homem escreveu algo num papel, entregou à mãe e apontou a porta. Mãe e filho saíram sem mais nada dizerem. O menino olhou para trás e ainda conseguiu ver o homem sério parado na porta.

Meu pai tinha 12 anos e foi a primeira vez que viu um médico. Um encontro que nunca esqueceu.

Um pouco mais de 40 anos após esta cena, meu filho me perguntou o que era um médico, talvez curioso para saber o que eu fazia. Essa é uma pergunta genial, que só as crianças são capazes de fazer. Na minha mente ainda surgiu a frase célebre Voltaire: “É verdade que, durante muito tempo, de cada cem médicos, noventa e oito foram charlatães”, mas deixei-a guardada em minha mente. Preferi que ele guardasse uma imagem boa daqueles profissionais que se esforçam para que o sofrimento inalienável da condição humana seja mais suportável. Por outro lado, a resposta mais simples para dar a ele seria seguir a linha da formalidade. “Um sujeito é médico quando faz uma faculdade de Medicina reconhecida e ganha um diploma, o qual fica dependurado na parede do consultório”. Essa resposta seria razoável, mas para um criança de 5 anos seria necessário ainda explicar outros termos como “diploma”, “faculdade”, etc. Além disso, o que significa “se formar” numa faculdade”?

Criada em 17 de agosto de 1220, a Faculdade de Medicina de Montpellier, na França, é considerada a primeira faculdade de medicina do mundo a receber reconhecimento. Naquela data, o cardeal Conrad de Urach, concedeu os primeiros estatutos à Universitas Medicorum Montispessulani, estabelecendo oficialmente uma instituição universitária dedicada ao ensino da medicina. Há uma disputa com a Universidade de Salerno, mas ao contrário dessa, a universidade de Montpellier criou uma estrutura que pode ser reconhecida como de uma verdadeira escola médica. Isso propicia uma questão incômoda. Oito séculos do surgimento da primeira escola de medicina é “ontem” quando se leva em consideração a idade da nossa espécie. Temos por volta de 200 mil anos como “sapiens”. Desde que criamos a civilização existem apenas 10 mil anos de percurso. Desta forma, a formalização do ensino médico só ocorreu em menos de 10% do tempo em que vivemos em cidades. Resta então a pergunta: e antes disso? Quem eram os médicos “sem papéis” que atenderam as milhares de gerações de gentes que sofreram antes de existir uma escola regular de ensino de sua arte? Não deveriam ser chamados “assim “médicos” apenas porque não ostentam um documento pendurado na sala de espera de um consultório de classe média em uma cidade moderna?

Antes de existir qualquer formalidade para o reconhecimento da profissão os estudantes procuravam médicos experientes e passavam a acompanhá-los durante anos. Nesta trajetória de aprendizado estes garotos observavam os pacientes, aprendiam a reconhecer sintomas, participavam dos tratamentos e estudavam os conhecimentos transmitidos pelo mestre. O próprio Juramento de Hipócrates revela essa organização. Neste texto, o pai da medicina estabelece obrigações do discípulo para com seu mestre e seus descendentes, mostrando como o ensino médico estava associado a relações pessoais e familiares. Ou seja, a escolha pela medicina era algo pessoal e muitas vezes uma tradição familiar, da mesma forma como se observa na parteria tradicional com o aprendizado direto, modelo de “aprenticeship” que se observa ainda hoje. Assim, responder que um médico é alguém que passou pela faculdade e se graduou retira da foto milhões de personagens da história que cuidaram dos seus semelhantes sem este tipo de documento.

Talvez, para ser justo e abrangente, um médico seria alguém cujo objetivo essencial é ajudar quem sofre. Mas não apenas pelo exercício da fraternidade, que não pode ser característica de apenas uma categoria profissional, posto que é uma qualidade humana. É necessário que este cuidado sofra contínuo e ininterrupto aprimoramento, através do estudo, da experiência e da ytoca de informações. Se utilizarmos este conceito, o cuidado médico é aquele onde o sujeito instrumentaliza, através do estudo formal ou informal, seu natural desejo de tratar a dor alheia. A medicina seria assim, a “Fraternidade instrumentalizada“, a cura mediada pelo conhecimento.

Foi assim que eu tentei explicar ao meu filho o que significa ser médico. Quando analisamos os elementos constitutivos mais essenciais dessa prática, sobra apenas aquilo que nos caracteriza como uma espécie gregária e social: a fraternidade. Esse elemento constitutivo de nossa alma é a semente da qual brotam todas as perspectivas terapêuticas, entre elas a medicina, que sempre esteve ao lado dos pacientes para oferecer um pouco de alívio diante da inexorável angústia de viver.

Parabéns aos doutores cuja simples presença é o maior remédio jamais criado.

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Humanos

Aideia de que adolescentes de 16 anos poderiam compartilhar celas de prisão com adultos só poderia surgir da cabeça de pessoas que não conhecem a realidade do sistema prisional. Entretanto, quando tento explicar a insensatez desta proposta eu percebo que minhas palavras atingem, do lado de lá, um rochedo argumentativo muito difícil de transpor.

Minha posição, e minha experiência pessoal, se baseiam na constatação de que colocar pessoas dessa idade numa prisão comum é algo “desumano”. Entretanto, as pessoas que admitem que jovens de 16 anos devam ser presos sem qualquer regalia, caso tenham cometido crimes hediondos, são as mesmas que usam como argumento que “se podem votar também podem ir para uma cadeia comum”. Esse é um argumento clássico da direita, e junto com ele vêm os indefectíveis “direitos humanos para humanos direitos” e “bandido bom é bandido morto”. Essa tríade de clichês nos remete ao núcleo da posição conservadora da direita sobre a questão prisional.

Em primeiro lugar, o argumento de que a idade de votar deveria coincidir com a possibilidade de ir para uma prisão regular só pode acontecer na mente de pessoas que acreditam que a maturidade para votar é a mesma requerida para suportar os desafios e os riscos do encarceramento, junto com as ameaças, as opressões, as vinganças, os ataques, os abusos de toda ordem e a tensão constante para sobreviver num ambiente violento. Some-se a isso os custos para o sujeito e a sociedade daí decorrentes. Acreditem, escolher um candidato e colocar seu nome na urna eletrônica é muito diferente de esconder seu pedaço de pão para que não o roubem dentro da sua cela. Em segundo lugar, é preciso crer que a condição humana não é inata e garantida a qualquer um da nossa espécie, mas algo que só vai ocorrer na dependência de comportamentos específicos. Assim, você precisa ser “direito” para ter direitos humanos básicos. Da mesma forma como no capitalismo, a cidadania é comprada e, nas suas vertentes mais radicais, você morre se não puder pagar a conta da sua insulina ou do soro antiofídico. Para os extremistas, seus direitos como gente, como pessoa, estão condicionados ao seu comportamento; não são uma garantia básica de sua existência. Em terceiro, mas não menos importante, é a crença de que todos aqueles que se rebelarem contra uma sociedade que consideram injusta, através do ingresso no mundo do crime, ou que cometeram erros em função de sua vida e suas escolhas, não merecem viver. Bom mesmo seria estarem mortos. As pessoas que defendem estas penas para os “bandidos” são aquelas que acreditam na criminalidade como uma chaga moral do sujeito, e não a consequência lógica de uma sociedade de exclusão e injustiça. Assim, matando os “ruins” sobrariam apenas os bons, e teríamos uma sociedade cheia de luz e equilíbrio. E de assassinos legalizados.

O grande problema nesse debate é que afirmar que a junção de adolescentes com adultos nas prisões é uma atitude “desumana” não afeta os argumentos de quem defende tal prática. A razão é que prisões desumanas e brutais são exatamente o projeto que estas pessoas acreditam ser o melhor. “Quanto pior a cadeia, melhor. Isso vai fazê-los pensar melhor antes de entrar no crime”. A desumanização dos prisioneiros é semelhante àquela feita com palestinos: estão sofrendo porque merecem, portanto não há porque tratá-los com dignidade ou respeito. Para quem defende a brutalidade como resposta, os presos não merecem consideração; melhor seria mesmo que morressem.

Colocar um adolescente no ambiente das penitenciárias não vai melhorar em nada a sociedade em que vivemos. Vai aumentar o ressentimento desses meninos, transformando sua vida em uma eterna busca por vingança. Pesquisas no mundo inteiro demonstram – há décadas! – que a perspectiva punitivista nunca produziu resultados sociais positivos em médio e longo prazos. O crime não vai acabar por meio da punição e das cadeias, mas com o fim da sociedade de classes e a exploração. Imaginar que setores da esquerda possam aceitar essa proposta nos sinaliza que é necessário rever o que se tornou a esquerda no nosso país.

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Quantos votos você fez?

Talvez seja interessante entender a diferença entre um partido eleitoral e um partido revolucionário. A pergunta “quantos votos você fez” para um candidato de um partido revolucionário faz tanto sentido quanto perguntar para uma criança quanto de dinheiro ela tem. Sua mente não lida com esse valor e, para ela, isso não faz sentido. Votos dizem respeito a uma formulação política liberal que rejeitamos. Pensem um pouquinho: esse modelo liberal burguês, onde os candidatos são escolhidos pela burguesia – os verdadeiros donos do país – levou aos Estados Unidos a escolherem como seus dois últimos presidentes um demente e um abusador. Antes disso um negro que jamais colocou em prática qualquer iniciativa para diminuir a pobreza no seu país e, antes dele, um playboy inútil, alcoolista e usuário de drogas, filho de um ex presidente e que jamais teve um emprego na vida. Aliás, a trajetória de George W. Bush em muito se assemelha ao candidato das milícias.

No Brasil, em função da configuração do congresso e dos partidos, até mesmo um líder operário como Lula é obrigado a se vergar à Faria Lima e ao latifúndio do Agro, os verdadeiros proprietários do país. E isso porque, nesta configuração, não é possível para ele governar sem a interferência direta desses poderes. Todos vimos o que houve com Dilma que foi defenestrada sem ter cometido qualquer crime de responsabilidade – a única forma legal de retirar uma presidente eleita de seu posto. Ou seja: o sistema é feito para propiciar golpes. Por isso Lula não se atreve a dirigir-se à esquerda, pois sabe que seria facilmente retirado pelos conluios de gente ligada ao imperialismo e aos interesses do grande capital nacional. Para Lula cabe o papel medíocre de ser o gestor da massa falida do capitalismo brasileiro, sem poder realizar as mudanças necessárias para tirar o país do atoleiro.

Foi por perceber o “cul de sac” dessa política liberal que eu abandonei a modalidade eleitoral burguesa e suas ilusões. Percebi, a duras penas, que não é possível avançar as pautas do povo atrelado a um sistema burguês criado e mantido para que não aconteçam mudanças na estrutura de classes do país. Quem um dia prestar atenção no cenário das disputas políticas nacionais vai acabar percebendo que os candidatos apenas são eleitos quando ungidos pelo poder que realmente governa a nação: a burguesia, que pode pender para qualquer lado desde que seus ganhos sejam mantidos ou aumentados e que ninguém questione o sistema de classes. Para que uma real mudança venha a acontecer, será necessário que ocorra uma revolução. Foi assim nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, em Cuba, na Rússia czarista, no Vietnã e qualquer outro país que ousou pensar no futuro. A via da democracia liberal tem um horizonte limitado e que já se mostra esgotado: a crise na Europa e a decadência acelerada dos Estados Unidos (que observa os maiores índices de pobreza e a maior concentração de renda da sua história) são exemplos claros disso.

Quem se surpreende pela quantidade de votos que eu recebi apenas demonstra que não entendeu a opção que eu fiz. Um partido como o PCO pouco se importa com as eleições pois, na melhor das hipóteses, poderíamos eleger alguém como Lula, um presidente engessado e constrangido por uma estrutura política que impede mudanças relevantes e profundas na economia do país.

Eu recebi um pouco mais de 2300 votos, o que é absolutamente surpreendente para alguém que entregou a sua conta eleitoral no Banco do Brasil zerada, que não fez campanha, que não participou de debates e que apenas se limitou a oferecer seu nome ao partido para que daí viesse alguma visibilidade para as nossas propostas. Entretanto, é útil lembrar que o deputado estadual Márcio Canella (União Brasil) recebeu 197.178 votos nas eleições de 4 de outubro de 2026, sendo o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro. Ao contrário de mim, ele fez um enorme sucesso nas urnas. Canella foi preso pela Polícia Federal em 15 de outubro de 2026, na Operação Unha e Carne, que investiga suspeitas de ligação com organizações criminosas. Ele foi preso por ser líder das milícias do Rio de Janeiro, amicíssimo de Flávio Bolsonaro e parceiro de negócios do candidato das rachadinhas. Diante disso eu pergunto: é possível medir a integridade de um sujeito ou mesmo a adequação de suas propostas por meio da simples contagem dos votos que recebeu? É possível avaliar a qualidade de um sujeito pelo número de “seguidores”, pela quantidade de “likes”, pela votação que recebeu ou pelo dinheiro que possui?

Ou serão essas medidas externas propícias ao engano, pois revelam o exterior fulgurante de um sujeito enquanto escondem sua realidade interna e imaterial?

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Quando você crescer

Encontrei um vídeo de uma moça, ativista da humanização do nascimento, chamada Ekaterina Mariposa (vejam que lindo nome). Ela morava no Geórgia, um pequeno país no leste da Europa, mas é de ascendência russa. Há 8 anos passados ela havia me entrevistado para conhecer um pouco do movimento de humanização do nascimento no Brasil. Quando vi seu vídeo novo, mandei um alô e lhe disse que gostava muito de ouvir o som do idioma georgiano e, mais ainda, do seu alfabeto tão peculiar. Ela ficou feliz de me reencontrar e combinamos uma nova entrevista.

Todavia, por causa desse encontro, o Facebook me colocou no algoritmo da Georgia, e começaram a pipocar músicas polifônicas de grupos georgianos. Uma delas me tocou profundamente pela sonoridade e delicadeza das vozes femininas. A música me impressionou de tal forma que passei a escutá-la repetidamente todo o dia, tentando acompanhar e cantarolar junto com as intérpretes e imaginando o que a letra poderia conter. Fui obrigado a apelar para o chat GPT para descobrir o nome da música cantada pelo grupo “Ialoni” da Geórgia. O nome da música é შენ რომ დიდი იქნები (Shen rom didi iknebi), e a tradução: “Quando você crescer”.

Esta noite minha neta Ava, de 5 anos, veio dormir comigo, mas ficava o tempo inteiro querendo conversar. Pedia que eu continuasse a “nossa” história sobre um grupo de crianças que está em uma excursão de ônibus e entra em um túnel estranho, que as leva para o passado. Lá encontram Pterodáctilos, Tiranossauros Rex, Tricerátops e muitos outros seres do passado. Depois de uma série de aventuras eles voltam para o ônibus, seguem pelo túnel misterioso, mas erram a bifurcação que as levaria à saída, sendo conduzidas ao mundo do futuro, onde são acompanhadas por um guia chamado Peter Wertenheim, que as ensina a usar seus braceletes anti-gravitacionais e jogar basquete voador. Apesar dos meus esforços, nada a fazia conseguir conciliar o sono, então resolvi colocar para tocar no celular a música que estava o tempo todo na minha cabeça, e logo depois ela dormiu. Só hoje descobri do que a música trata, e talvez a razão por ela estar tão fixada em minha mente.

O poema tem uma dedicatória: “À pequena Irma”. É uma declaração de amor de um avô à neta, imaginando o momento em que ela crescerá e ele já não estará vivo. O poema começa com o avô imaginando a neta adulta, quando ele já tiver morrido. Pede que ela se lembre dele, deixando que as lembranças cheguem como flocos de neve. Ele imagina que um dia a jovem voltará para casa e não o encontrará. Mesmo sem poder fazer mais nada por ela, promete permanecer dentro de sua alma. Quando a menina se tornar mulher e ele já estiver transformado em pedra, sua morte não significará o fim de seu amor. De algum lugar além da vida, ele continuará iluminando o caminho dela.

Na passagem final, o avô faz um pedido a Deus: deseja transformar-se em um cervo, adornar seus chifres com o amor da neta e caminhar pelas montanhas em homenagem a ela. A imagem do cervo é particularmente significativa porque o nome Irma está associado, no georgiano, à palavra que designa esse animal. Assim, o poeta transforma o nome da própria neta em uma metáfora de permanência, ternura e amor. É uma canção sobre a morte, mas, sobretudo, sobre a tentativa de tornar o amor maior do que ela. Faz todo o sentido.

Mando essa música para quem é ou será avô e consegue imaginar a dor de um dia ter que deixar a quem tanto ama.

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Sem autocrítica

Nas redes sociais, logo após os resultados do primeiro turno das eleições de 2026, o sentimento era de surpresa e consternação. Era inacreditável que Lula pudesse estar perdendo o primeiro turno para um “desqualificado” como o filho do ex-presidente. Imediatamente começaram a aparecer as explicações, as interpretações e os culpados. Alguns influencers da esquerda liberal começaram sua campanha para “virar o jogo” com um pedido curioso: “não culpem a esquerda” por esta derrota. Respeitosamente expliquei aos meus amigos que este pedido é absurdo. “Vocês até podem pedir que eu vote em Lula, mas não admito que a resposta para esta derrota seja abolir a autocrítica”, respondi, mesmo sabendo que pouco seria levado em consideração. Além desse pedido, havia a solicitação de que os movimento identitários – feministas, antirracistas, transativistas – fossem poupados dos ataques, pois esta atitude apenas reforçaria o discurso daqueles que nos combatem. “Fogo amigo” diziam eles. Achar que perdemos para “fascistas” é outro erro absurdo do discurso da esquerda. Perdemos porque a esquerda saiu da rua e se tornou chapa branca, elitista e identitária – entre outros erros. O identitarismo tomou conta dos partidos à esquerda do espectro político, enquanto o PT se “endireitava”, colocando os conservadores da burguesia comportadinha e latifundiária em postos chave do governo. Observem o absurdo das falas da Janja (outra responsável pelos erros de comunicação) e vejam as políticas de subserviência ao um discurso anti-científico sobre trans. Isso ofendeu as mulheres do pais, que se obrigaram a chamar a si mesmas de “mulheres-cis”. Quem não percebeu o quanto isso afastou as mulheres simples da esquerda, então não prestou atenção.

“Não é o momento”, diziam eles, e “deveríamos unir forças dentro do campo progressista e popular para evitar o mal maior – a vitória do fascismo”. Esta foi a parte que achei mais insensata. Como eu repito exaustivamente há muitos anos, o identitarismo destruiu a esquerda ao corroer sua vinculação com as lutas operárias. E não foi por acaso: o objetivo das organizações identitárias é exatamente esse, mesmo que muitos dos seus participantes ainda não tenham percebido. Como organização parida nos criadouros do partido democrata, este sempre foi seu objetivo. Percebam como todos os principais nomes da linha de frente dos identitários receberam bolsas para se “aprimorar” nas universidades imperialistas? Manuela, Jean Wyllys, Márcia Tiburi – e muitos outros – foram financiados pelos Estados Unidos para os estudos de gênero ou sobre homossexualidade através de suas agências. E por quê? Porque sabiam que esse modelo de compreensão da realidade é impopular, agressivo, supremacista e anti-povo, mas principalmente porque produz a fragmentação das lutas de classe.

O resultado está aí na nossa cara, e não há como negar que a esquerda identitária se afastou do povo, tornou-se elitista, vendo mais humanidade em minorias supostamente oprimidas do que na grande massa do povo operário brasileiro, cuja opressão é real e econômica. A direita agiu de forma inteligente ao colocar em evidência os identitários e o feminicídio como temas para serem debatidos à exaustão. A maioria da população não concorda com a ênfase dada a estas questões; o pobre da periferia sabe o quanto a polícia mata garotos e estes meninos mortos também são uma tragédia para as famílias. Entretanto, os grupos identitários das universidades, afastados da realidade da gente comum, estabelece como prioridade as “identidades perseguidas e oprimidas”.

O povo não aceita mais isso. O debate estéril sobre pronomes e de banheiros idem. O trabalhador que acorda cedo – e que vota – está se lixando para estas questões. O identitarismo dividiu a população. Isso é operação de propaganda do imperialismo, mas se a a esquerda não compreender por meio de uma severa autocrítica as razões para esse fracasso teremos que suportar por décadas os governos de milicianos à frente do Evangelistão. Estou percebendo que o furo é mais embaixo, e que a necessária mea-culpa da esquerda ainda vai demorar muito a ocorrer. Se continuarmos a chamá-los de fascistas, colocando a crítica moral como o centro do nosso discurso, continuaremos perdendo. Enquanto não colocarmos o operário, o brasileiro comum, o pobre que vai ao culto, como centrais na nossa luta, afastando-nos do identitarismo que esfacela a sociedade, colocando pobres contra pobres, estaremos nos afundando no poço da arrogância. O PSOL já implodiu, o PDT idem, O centrão – direita limpinha – foi para o fundo do saco. Quem saiu vitorioso foi a extrema-direita, que se mobilizou e ofereceu uma esperança. Nós sabemos o quanto as promessas da direita são excludentes e destrutivas para a nação, mas não há como negar seu apelo popular. A esquerda perdeu porque o povo rejeitou sua politica supremacista e excludente – e isso precisa ser dito.

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O Vulto

O barulho ensurdecedor da festa da virada do ano invadia a cafeteria e disputava o espaço com o aroma de café e as pessoas que se amontoavam no balcão e nas mesas. Vez por outra foguetes explodiam e a os gritos que os seguiam penetravam no ambiente, atrapalhando a música que vinha da TV ligada pendurada na parede. Diogo tomava uma Coca Cola, mas sonhava com seu próximo aniversário, quando completaria 18 anos e poderia tomar cerveja como Lucas, seu primo. Célia estava com o olhar fixo na rua, imóvel há alguns instantes. Finalmente olhou para seu filho e, colocando a mão em seu braço, lhe disse:

— Diogo

— Sim?

— Lembra quando você era pequeno e sempre me perguntava quem era seu pai? Dizia que seu colegas na escola tinham pai que jogava bola com eles, enquanto você só tinha mãe. Dizia que um dia gostaria de vê-lo. E você queria saber como ele era, se era alto ou baixo, se o cabelo era parecido com o seu. Lembra disso?

— Sim, eu lembro. Eu era pequeno, depois perdi essa curiosidade. Já tem algum tempo que não penso mais nisso. Você disse que ele não morava mais nesse país e eu esqueci. Passou.

— É, faz alguns anos já. A gente fica velha e parece que tudo foi ontem. Eu tentava lhe explicar, mas você era pequeno, não entendia.

— Eu entendo mãe, não liga não. Criança é assim mesmo curiosa. Sem problema.

Duas crianças passaram espremidas por entre as mesas e empurraram com seus corpos as cadeiras. Célia sorriu pelas risadas marotas dos moleques, mas ainda pôde dizer “Cuidado!” quando eles quase derrubaram a garrafa à sua frente. Algumas gargalhadas cheias de álcool correram o pequeno salão vindo de um grupo de coroas que cantavam sem se preocupar com a afinação. Enquanto isso, os músicos do show da virada se intercalavam na cantoria da TV. Célia voltou a ficar com o olhar fixo no bar do outro lado da rua, que colocava cadeiras nas calçadas e servia bebidas e petiscos aos clientes.

— Preciso te contar uma coisa.

— O quê?

Ela indicou discretamente o bar à frente.

— Está vendo aquele homem de camisa vermelha?

Diogo procurou com os olhos.

— É seu pai.

O rapaz voltou-se para a mãe. Por algum tempo, não disse nada.

— Quer ir lá conhecê-lo?

O garoto baixou o olhar, bebeu o resto do refrigerante, e ficou olhando para o copo vazio por mais alguns instantes. Depois olhou para a mãe mais uma vez..

— Não. Não quero.

Eu olhava para Diogo e senti em seu olhar o peso daquela confissão. A história que Diogo me contou havia brotado entre uma conversa e outra, mas o sorriso nervoso que ele deu ao terminar o relato não deixou dúvidas sobre o significado daquele momento ocorrido há mais de 20 anos.

Depois de me relatar o não-encontro com seu pai ele ficou em silêncio por alguns instantes, e depois voltou a pintar umas peças de madeira com as tintas recebidas com o material do artesanato. Por instantes pensei ver seus olhos marejados, mas é provável que tenha sido o frasco de solvente aberto ao seu lado. Afinal, Diogo era bandido, e os bandidos não choram.

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Medo

Eu tenho muitos medos, e sei muito bem o que é o temor de perder a credibilidade.

Durante 30 anos fui médico de mulheres, e dei aulas e cursos em muitos lugares do Brasil e do mundo. Minhas amigas, colegas e a plateia para qual eu falava eram quase excluivamente formadas por mulheres. Por esta perspectiva aprendi, aos trancos e barrancos, a entender o mundo pelo discurso das mulheres. Escutava suas dores, seus sentimentos, a forma de ver e sentir o mundo e suas propostas para mudá-lo. Eu vivi durante a maior parte da minha vida adulta em um mundo feminino, com tudo que existe de criativo, doloroso e complexo neste universo. Minha visão era muito derivada da ótica especial que as mulheres me ensinaram. A consequência natural foi a adoção de uma perspectiva identitária, que me acompanhou durante décadas.

Porém, num determinado momento da minha vida, e a partir de um conjunto de decepções que me levaram a produzir uma reflexão muito profunda sobre minha visão de mundo e o meu trabalho, eu abandonei as minhas crenças e a perspectiva identitária, as quais carreguei durante toda a minha vida. Entretanto, ao mesmo tempo em que eu dava um giro nas minhas concepções, as pessoas que confiavam no meu trabalho continuavam conectadas a uma narrativa francamente ligadas aos valores do identitarismo, olhando o mundo de forma excludente, essencialista e moralista. O simples fato de questionar a realidade fazia com que estas pessoas se afastassem de mim; algumas simplesmente paravam de falar comigo. Fui expulso de uma comunidade com um “abaixo assinado” porque questionei ações que mais pareciam “corporativismo de gênero”, e não uma busca por equidade, justiça, cooperação e respeito mútuos. Ser um homem num contexto feminino e questionar a cola que as mantém unidas é um roteiro seguro para a exclusão.

Com o tempo percebi que uma das estratégias para sobreviver é simplesmente evitar temas muito delicados. Por exemplo, parei de falar nas redes sociais sobre a questão das mulheres, das trans, do ativismo gay e a respeito do racialismo. Achei que deveria centrar minha energia em coisas que não causariam tanta turbulência, brigas, incompreensãoes e cancelamentos. Naquela época, uma frase que cansei de escutar foi: “Puxa, você me decepcionou”. Por isso, eu entendo quem prefere ficar em silêncio e não se sente seguro de enfrentar uma massa raivosa lhe atacando pessoalmente pelas suas ideias e posturas. O episódio de mulheres sendo atacadas por mulheres por pensarem de forma diferente da maioria nas Universidades ou nos Partidos políticos sãoexemplos de como assumir uma postura contra-hegemônica pode ser agressivo e até perigoso. Tive experiência como esta no enfrentamento constante que tive na luta pela humanização do nascimento e sei muito bem como nos sentimos quando bombardeados desta forma.

E sim, tem gente que é casca grossa e enfrenta qualquer disputa sem pestanejar. Entretanto, muitas vezes é porque não há tanto em jogo, e estas pessoas não correm o risco de perder o emprego, até mesmo a profissão, o posto de chefia, a credibilidade e a confiança dos outros. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é… e cada um sabe até onde consegue segurar a barra. Para aqueles que um dia fraquejaram, a minha solidariedade. Fragilizar-se diante de suas posturas é natural, e por isso é importante pensarmos e agirrmos no coletivo. Quando um sente medo o outro o abraça com coragem.

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