Espiritismo e identitarismos

Há momentos históricos em que palavras aparentemente banais passam a carregar uma quantidade extraordinária de tensão. “Identidade”, “gênero”, “masculinidade”, “feminilidade”, “privilégio”, “opressão”, “woke”, “red pill” são algumas delas. Basta pronunciá-las para que imediatamente se organizem campos adversários, cada qual com seu vocabulário, suas certezas, suas vítimas, seus culpados e sua interpretação do mundo.

Para o espiritismo, entretanto, talvez a pergunta mais interessante não seja determinar qual desses campos está certo. Uma doutrina que se apresenta como espiritualista e progressiva deveria formular uma pergunta anterior: o que o aparecimento simultâneo desses movimentos revela sobre o homem contemporâneo?

A chamada cultura woke, os movimentos identitários, a reação anti-woke e o universo red pill são fenômenos muito diferentes. Não possuem a mesma origem, não defendem os mesmos valores e frequentemente são inimigos declarados. Seria intelectualmente pobre colocá-los todos no mesmo saco. Entretanto, observados de certa distância, apresentam uma curiosa semelhança: todos procuram responder a uma crise contemporânea de identidade, pertencimento, reconhecimento e significado. E é precisamente aí que o espiritismo talvez tenha algo particular a dizer.

A busca contemporânea por uma identidade

Uma das grandes transformações das sociedades modernas foi a progressiva perda da capacidade das instituições tradicionais de responder à pergunta mais elementar que uma pessoa pode fazer: quem sou eu? Durante séculos, religião, família, comunidade, profissão, nacionalidade e tradição ofereciam respostas relativamente estáveis. O indivíduo não precisava inventar completamente a própria identidade; em grande medida, recebia-a. A modernidade desfez parte dessas certezas. Isso trouxe enorme liberdade, mas também produziu desorientação. Quando estruturas antigas perdem autoridade, outras surgem para fornecer significado. A política passa então a ocupar espaços que anteriormente pertenciam à religião, à comunidade e à tradição. É nesse contexto que a chamada política de identidade ganhou enorme importância.

A literatura sociológica mostra que movimentos identitários procuram conectar experiência pessoal, pertencimento a grupos, relações de poder e ação política. Mary Bernstein observa que as próprias políticas de identidade envolvem debates sobre experiência, cultura, poder e sobre se determinadas identidades devem ser compreendidas como essenciais ou socialmente construídas. Assim, acontecimentos anteriormente percebidos como individuais podem ser reinterpretados por uma chave coletiva; o sofrimento deixa de ser apenas “o que aconteceu comigo” e passa a ser também consequência de uma estrutura. Para muitas pessoas, isso pode ser profundamente esclarecedor. Preconceitos que eram vividos silenciosamente tornam-se reconhecíveis; grupos historicamente invisibilizados ganham linguagem para descrever suas experiências; sofrimentos antes naturalizados podem ser questionados. Todavia, toda ferramenta interpretativa contém também um risco: aquele de transformar uma dimensão verdadeira da existência na explicação total da existência. Nestas circunstâncias, uma interpretação unívoca da realidade torna-se uma sedução muitas vezes de difícil dissipação. O ser humano pode então começar a desaparecer dentro de sua categoria.

A reação

Nenhum movimento cultural importante permanece sem produzir reação. Essa é uma característica da dialética em nossa cultura. O surgimento do Partido dos Trabalhadores e suas vitórias eleitorais no Brasil foi o berço da aparição de seu contraponto: as jornadas de junho em 2013, o MBL, o impeachment da presidenta eleita e a emergência da extrema direita no cenário nacional. Desta forma, o crescimento das políticas identitárias foi seguido pelo surgimento – inevitável, eu diria – de um amplo universo hoje chamado, de maneira bastante imprecisa, de anti-woke.

Não existe propriamente uma doutrina anti-woke. Sob essa expressão convivem liberais preocupados com liberdade de expressão, conservadores religiosos, críticos do pós-modernismo, pessoas incomodadas com políticas identitárias, grupos nacionalistas e também indivíduos simplesmente exasperados com determinados códigos culturais – como pronomes e banheiros. A reação, entretanto, pode reproduzir o mesmo mecanismo que pretende combater. Se uma política identitária reduz o indivíduo à identidade do grupo a que pertence, sua oposição pode começar a interpretar cada pessoa principalmente como representante da ideologia adversária. Neste contexto de oposição surge uma curiosa simetria. De um lado:

“Você fala assim porque pertence a determinada posição social.”

Do outro:

“Você fala assim porque foi capturado pela ideologia woke.”

Nos dois casos, existe o risco de deixarmos de ouvir a pessoa porque já sabemos previamente o que ela é. O rótulo passa a preceder o indivíduo e o sujeito carrega o peso da sua ideologia como um fiel depositário de seus conceitos, prisioneiro de seus conceitos e contradições.

A pílula vermelha

O fenômeno red pill acrescenta uma dimensão particularmente interessante a essa disputa. Sua metáfora fundadora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significa abandonar uma realidade ilusória e finalmente enxergar o mundo como ele realmente é. É difícil imaginar metáfora mais próxima de uma experiência de revelação. O homem que “toma a red pill” passa a reinterpretar suas experiências amorosas, fracassos, rejeições e relações entre homens e mulheres mediante um novo vocabulário: alpha, beta, hipergamia, simp, blue pill e inúmeras outras categorias. Aquilo que parecia uma sequência confusa de experiências individuais recebe uma explicação.

Não por acaso, um estudo acadêmico publicado em 2025 analisou explicitamente a “Red pill Community como comunidade espiritual”. As autoras, Weronika Karwoska e Natalia Brzezinska, identificaram elementos como narrativa de iniciação, sistema de valores, busca de autorrealização, respostas a questões existenciais, formação comunitária e recrutamento — funções historicamente desempenhadas por comunidades religiosas.   Mas cuidado; estas coincidências não nos permitem categorizar o movimento red pill como uma religião. Significa algo mais interessante: o impulso humano que produzia religião não desapareceu simplesmente porque as sociedades se secularizaram. A necessidade de significado permanece. Quando as religiões tradicionais deixam espaços vazios, esses espaços podem ser ocupados por ideologias, comunidades digitais, identidades políticas ou sistemas que prometem revelar aquilo que permanece oculto aos demais.

A estrutura da conversão

É curioso observar que movimentos absolutamente antagônicos podem desenvolver estruturas semelhantes. A sequência frequentemente é esta:

sofrimento → descoberta de uma explicação → aquisição de um novo vocabulário → reinterpretação do passado → pertencimento a uma comunidade → desejo de transmitir aos outros aquilo que se descobriu.

É a estrutura clássica de inúmeras experiências religiosas. Depois da conversão, o passado inteiro pode parecer diferente. O espírita olha para determinado sofrimento e pensa: “agora compreendo isso à luz da reencarnação”. O adepto da red pill olha para relacionamentos anteriores e pensa: “agora compreendo aquilo através da dinâmica entre homens e mulheres que antes desconhecia”. Da mesma forma, alguém que adere a determinada corrente identitária pode rever acontecimentos antigos e pensar: “agora reconheço aquela experiência como manifestação de uma estrutura de discriminação”. As conclusões podem ser inteiramente diferentes, muitas vezes absolutamente antagônicas, como no caso de grupos feministas identitários e aqueles que aderem à agenda red pill. Porém, o mecanismo humano, entretanto, é familiar. Em todos esses casos, uma linguagem nova reorganiza a memória. E toda linguagem produz visibilidade: depois que aprendemos uma categoria, passamos a encontrá-la em lugares onde anteriormente não a víamos.

E o que o espiritismo faz diante disso?

Aqui está, provavelmente, a contribuição mais radical da doutrina espírita para esse debate. Segundo O Livro dos Espíritos, nossa identidade fundamental não é masculina nem feminina. À pergunta 200 — “Têm sexos os Espíritos?” — a resposta que os espíritos enviam à Kardec é negativa: os sexos dependeriam do organismo no qual o espírito se insere. Nas questões seguintes, Kardec afirma que um mesmo Espírito pode encarnar como homem ou como mulher e que as diferentes condições corporais permitem adquirir experiências diferentes. Essa proposição produz consequências filosóficas extraordinárias. O espiritismo não nega a realidade do corpo, mas também não permite que o corpo encerre completamente a definição do indivíduo. Eu sou meu corpo durante esta existência, mas não sou apenas meu corpo. Da mesma maneira, não sou apenas minha classe social, minha raça, minha nacionalidade, minha orientação sexual, meu sexo, minha profissão ou minha posição política. Tudo isso pertence à experiência encarnada e pode ser decisivamente importante.

Entretanto, o espiritismo deixa muito claro, como um dos pilares da sua filosofia, que nenhuma dessas categorias esgota aquilo que somos. Sob a perspectiva espírita, antes de todas estas máscaras (personas) existe o Espírito. Essa ideia impede, ao menos teoricamente, dois reducionismos opostos. De um lado, dificulta transformar identidades sociais em essências absolutas; de outro, dificulta transformar diferenças biológicas em destinos espirituais absolutos. De acordo com a perspectiva espírita, um Espírito pode atravessar ambas as experiências sexuais ao longo de diferentes existências. No filme das mesmas diretoras de Matrix – as irmãs Wachowski, elas mesmas transsexuais – chamado “Cloud Atlas”, elas brincam com um grupo de pessoas que se encontram em múltiplas encarnações nas quais trocam de gênero no correr das gerações que se sucedem. É difícil imaginar conceito menos compatível tanto com uma metafísica rígida da masculinidade quanto com a ideia de que a identidade humana possa ser completamente encerrada numa única categoria social. Neste aspecto, o espiritismo inaugura uma visão revolucionária de gêneros ao coloca-los como apenas uma roupagem temporária que usamos para desempenhar tarefas e adquirir conhecimento advindo das distintas visões de mundo que eles compreendem.

Nem woke, nem anti-woke

É aqui que o espiritismo corre um risco contemporâneo. O risco de procurar em Kardec uma autorização para simplesmente escolher um dos exércitos disponíveis. Espíritas progressistas podem desejar transformar a doutrina numa confirmação religiosa das pautas identitárias contemporâneas enquanto os Espíritas conservadores podem desejar transformá-la numa arma contra essas mesmas pautas. Ambos deveriam ter cautela. Procurar respostas em “livros sagrados”, escritos há centenas ou milhares de anos, carrega o risco eterno de anacronismo, ou guerras interpretativas fragmentárias, que são uma característica das vertentes cristãs. Kardec escreveu no século XIX, e seus textos contêm ao mesmo tempo princípios surpreendentemente universalistas e afirmações marcadas pelas concepções sociais de sua época.

A questão 822 de O Livro dos Espíritos, por exemplo, defende inequivocamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres, afirma que qualquer privilégio concedido a um sexo é contrário à justiça e chega a dizer que a escravização da mulher acompanha a barbárie. Ao mesmo tempo, o comentário apresenta uma divisão tradicional oitocentista das funções masculinas e femininas. Não é necessário esconder essa tensão, assim como as questões relacionados ao “racismo” de Kardec, tão amplamente discutido. Ao contrário: reconhecê-la é profundamente kardequiano. Uma doutrina que afirma a existência do progresso não pode supor que todas as formulações sociais do século XIX sejam a última palavra sobre problemas humanos que continuaram evoluindo nos séculos seguintes.

O problema da red pill visto pelo espiritismo

Por sua vez, o movimento red pill parte frequentemente de sofrimentos masculinos reais. Solidão, rejeição afetiva, ruptura conjugal, dificuldades de relacionamento, perda de referências de masculinidade e sensação de inutilidade social não são invenções. Ignorá-los apenas porque alguns discursos que surgiram em torno deles são desagradáveis seria erro semelhante ao de negar sofrimentos relatados por movimentos identitários porque discordamos de determinadas interpretações políticas desses sofrimentos. Por outro lado, reconhecer um sofrimento não obriga a aceitar toda teoria construída para explicá-lo. “Domados: Como a Cultura Traiu o Homem Americano” (Stiffed: The Betrayal of the American Man) é um livro célebre da jornalista e feminista americana Susan Faludi, lançado em 1999. Neste livro a autora explica como, ao lado das mudanças econômicas, o fim de empregos industriais estáveis nas décadas de 1980 e 1990, os homens viram seus papéis tradicionais ruírem. O livro não foca em um embate culposo entre homens e mulheres e não se resume ao apontar de dedos. Pelo contrário, a grande questão da autora é por que os homens se recusam a se engajar em sua própria causa e por que não se revoltam ou tentam reverter esse esvaziamento da mesma forma que o movimento feminista fez. O movimento red pill vem exatamente nessa direção: para uma masculinidade posta à prova, e na tentativa de encontrar significado em um mundo onde os papéis sociais são voláteis e vicariantes, esta ideologia tenta oferecer um destino, um significado e um rumo para os homens.

É aí que a perspectiva espírita pode estabelecer uma diferença fundamental. Os red pills frequentemente procura uma explicação externa para o sofrimento do homem: a natureza feminina, o feminismo, a hipergamia, a transformação das relações sexuais ou determinadas estruturas sociais. O espiritismo desloca inevitavelmente parte da pergunta. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta pelo método mais eficaz de aperfeiçoamento moral. Dos espíritos recebe a velha resposta socrática: “Conhece-te a ti mesmo.”

Isso muda radicalmente a direção do olhar. Não elimina estruturas sociais e não absolve injustiças externas, mas impede que toda explicação de nosso sofrimento termine invariavelmente apontando para o outro. Antes de perguntar “o que as mulheres fizeram aos homens?” ou “o que os homens fizeram às mulheres?”, a ética espírita acrescentaria outra pergunta: “O que estou fazendo de mim mesmo diante dessa experiência?”

A tentação moral das tribos

Talvez o ponto comum mais perigoso entre movimentos identitários, anti-woke e red pill não esteja em suas doutrinas, mas em uma característica humana muito mais antiga: a facilidade com a qual transformamos pertencimento em superioridade moral. Todos estes grupos inevitavelmente produzem uma tendência ao supremacismo, a ideia de que somos superiores àqueles que ainda não conseguiram enxergar “a Verdade”.

Toda comunidade tende a produzir uma divisão entre quem compreendeu e quem não compreendeu a “mensagem”. É quase inevitável olhar para o mundo e dividi-lo entre “nós e eles”. Os esclarecidos e os alienados; os desconstruídos e os preconceituosos; os redpilled e os bluepilled; os que dormem e os woke; os progressistas e os reacionários. E, naturalmente, existem os bons espíritas e seu contraponto: aqueles que “ainda não compreenderam a doutrina”. Nesse momento, diferentes ideologias começam novamente a parecer umas com as outras. Kardec oferece um critério desconfortável para todos esses campos. Na questão 785 de “O Livro dos Espíritos”, o professor Rivail pergunta qual é o maior obstáculo ao progresso moral. A resposta oferecida pelos espíritos foi: “O orgulho e o egoísmo.”

Não diz direita;
Não diz esquerda;
Não diz capitalismo;
Não diz socialismo;
Não diz feminismo;
Não diz patriarcado;
Não diz conservadorismo;
Diz orgulho e egoísmo.

E justamente por serem universais eles podem aparecer em qualquer ideologia — inclusive naquela que acredita estar combatendo todos os outros.

Uma terceira posição

Talvez, portanto, o significado do surgimento simultâneo da cultura identitária, da reação anti-woke e da red pill para os espíritas seja menos o de escolher um lado do que o de reconhecer um fenômeno antropológico. Estamos diante de uma sociedade que continua desesperadamente procurando identidade, significado, comunidade e orientação moral. Em outras épocas, essas necessidades eram majoritariamente respondidas pelas religiões. Com o decréscimo das religiões como guias do pensamento humano e o roteiro para apaziguar nossas angústias, estas perguntas podem ser respondidas por comunidades políticas e digitais, e isso explica por que as discussões se tornam tão intensas. Porém. quando alguém critica uma opinião que temos, podemos mudar de opinião, mas quando alguém ameaça aquilo que define quem somos, a reação é completamente diferente. Talvez parte da ferocidade das atuais guerras culturais venha exatamente daí: muitas ideias deixaram de ser apenas ideias e passaram a funcionar como identidades. E identidade ameaçada produz defesa.

O Espírito antes da identidade

Existe uma resposta espírita possível a tudo isso, mas ela exige certa coragem. Ela consiste em afirmar simultaneamente duas coisas.

  • As experiências sociais importam.
    Sexo, gênero, raça, pobreza, riqueza, discriminação, violência, masculinidade, feminilidade e todas as condições concretas da existência produzem experiências reais. Negá-las em nome de uma espiritualidade abstrata seria transformar o espiritismo numa desculpa para não enxergar o mundo. Mas também:
  • Nenhuma dessas experiências define completamente o ser humano.
    O pobre não é apenas pobre.
    A mulher não é apenas mulher.
    O homem não é apenas homem.
    A pessoa trans não é apenas trans.
    O negro não é apenas negro.
    O conservador não é apenas conservador.
    O militante identitário não é apenas militante identitário.
    O redpiller não é apenas redpiller.

Todos são, antes disso, sujeitos de uma experiência humana que, para o espiritismo, ultrapassa imensamente a presente existência, e se espalha na poeira das estrelas, numa multiplicidade infinita de experiências e aprendizado. Talvez essa seja uma das ideias mais poderosas que a doutrina possa oferecer às guerras culturais contemporâneas: o homem é sempre maior do que a categoria utilizada para descrevê-lo.

A caridade como limite da ideologia.

Há ainda um critério bastante simples para testar qualquer sistema de pensamento. A questão 886 de “O Livro dos Espíritos” define caridade como “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”. A palavra importante talvez seja “todos”.

Não apenas aqueles cuja identidade reconhecemos.
Não apenas as vítimas que consideramos legítimas.
Não apenas os homens feridos.
Não apenas as mulheres feridas.
Não apenas aqueles que compartilham nossa interpretação da sociedade.
Todos.

Isso não significa neutralidade moral diante da injustiça. Significa apenas que o combate à injustiça não autoriza a desumanização daquele que identificamos como adversário. Talvez seja precisamente aí que todas as tribos contemporâneas — religiosas ou seculares — enfrentem sua prova mais difícil.

O aparecimento do red pill e do anti-woke

Para o espiritismo, portanto, o surgimento da red pill e das ondas anti-woke não deveria ser interpretado simplesmente como triunfo da reação, assim como o crescimento das políticas identitárias não deveria ser interpretado simplesmente como sinal de progresso. Todos esses fenômenos são também sintomas. Eles revelam uma sociedade discutindo desesperadamente quem somos, como devemos viver juntos, o que homens e mulheres significam uns para os outros, quem merece reconhecimento e de onde retiramos nossas referências morais. São perguntas religiosas em uma sociedade que muitas vezes deixou de usar linguagem religiosa, e talvez seja precisamente por isso que despertam tanta paixão. O espiritismo poderia entrar nessa arena oferecendo mais uma bandeira, mas seria provavelmente a contribuição menos interessante que poderia dar. Sua contribuição mais original talvez seja justamente outra: lembrar que antes da raça há o homem; antes do homem e da mulher há o Espírito; antes da ideologia há uma consciência; antes da tribo há uma individualidade em processo de aprendizado.

E que nenhuma identidade adquirida durante algumas décadas de existência pode esgotar uma criatura cuja história, segundo a própria doutrina, atravessa inúmeras vidas. Talvez seja essa a perspectiva que o tumulto contemporâneo convida os espíritas a recuperar. Não perguntar primeiro “de que lado estamos?”, mas… “O que todas essas disputas revelam sobre o estágio moral e espiritual em que nos encontramos?”. E, depois disso, uma pergunta ainda mais difícil: “Em que medida nossa própria necessidade de certezas está nos impedindo de enxergar o outro?”

Nesta perspectiva, sem desmerecer a importância das lutas sociais e da busca por espaço e relevância, o espiritismo oferece a possibilidade de o espírito funcionar como uma espécie de “metaidentidade”, que relativiza – sem apagar – todas as identidades da encarnação. Nesse ponto, a guerra cultural deixa de ser apenas um fenômeno externo. Transforma-se em exame de consciência. E aí voltamos, por um caminho inesperado, ao princípio talvez mais antigo e mais difícil de todos: conhece-te a ti mesmo.

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Panis et circenses

Vale a pena escutar o que o Renan Santos fala da direita brasileira. Em uma entrevista feita para um podcast nas redes sociais ele descreve de forma muito clara como se organiza o pensamento da direita brasileira. Esta é uma análise muito boa e surpreendentemente lúcida. Renan foi o primeiro sujeito à direita do espectro partidário a admitir que o público médio da direita é muito menos inteligente que o da esquerda. Depois dele, foi a vez de José Medeiros (PL), candidato a senador pelo MS, dizer que seu eleitorado bebe detergente e chama ET com celular. Este é um reconhecimento que tem significado vindo de onde veio.

Neste vídeo ele descreve a direita como “entretenimento” e mostra como Nikolas, Bolsonaro e outros são palhaços cujo objetivo é divertir pessoas nas redes sociais e, acima de tudo, “não fazer nada”. Este, aliás, é o lema da nova direita americana: “nada acontece”. Não é à toa que Nikolas, Bolsonaro Pai, Flávio ou mesmo Zé Trovão têm uma produção parlamentar nula ou pífia. Ou seja: o papel que desempenham, desde o advento das redes sociais, não é “fazer algo”, “criar leis”, “abrir um debate” ou “defender uma proposta” de cunho popular e ligada aos valores da direita. Não, sua função é pura performance e a intenção é produzir um espetáculo circense, colocar peruca, debochar, gritar, invadir a passeata dos adversários, provocar parlamentares da esquerda, fazer selfies…. e mais nada.

Nunca os romanos estiveram tão certos: “panis et circenses”. A frase foi criada pelo poeta romano Juvenal no início do século II d.C., em sua obra Sátira X, e o significado original é uma crítica à falta de interesse da população romana pelas grandes decisões políticas. Na nossa metáfora atualizada, o pão se refere às emendas, milhões direcionados às suas bases eleitorais, comprando votos legalmente – mas de forma imoral. Isso sem falar das emendas secretas que foram um gigantesco escândalo no mundo político, e que ainda continuam a agitar os bastidores de Brasília. Já o circo está nas suas próprias atuações parlamentares, sempre pautadas pelo vazio, pela representação e pela atração de público pela via do divertimento. Flávio Bolsonaro, por sua profunda incapacidade intelectual para esta função, seria uma revivescência do governo “panis et circenses” do pai: espetáculo pastelão, deboche, cercadinho, viagens a Israel, privatizações criminosas e a volta da fome.

Que Deus tenha piedade de nós…

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Trevas e aprendizado

Há muitos anos vi uma palestra do Slavoj Zizek (que tem coisas fantásticas e outras ruins) na qual ele discorria sobre a opção que as esquerdas fizeram nas democracias liberais europeias. Zizek criticava o “bundamolismo” (o termo é meu, não dele) dos partidos socialistas europeus que, ao invés de puxar para o centro, procurando alianças e acertos com a direita, a burguesia e o imperialismo, deveriam ter radicalizando à esquerda, mantendo sua “pureza original”, mesmo que às custas de eventuais derrotas eleitorais.

Zizek ponderava que, ao fazer concessões à direita, distanciando-se do proletariado e do campesinato, os socialistas transformaram-se em partidos eleitorais e burocráticos. Desta forma, foram se afastando paulatinamente de sua origem operária e aos poucos foram perdendo a identidade. O mesmo se aplica às opções feitas pelo PT no Brasil, e é por esta razão que vimos com tanta naturalidade personagens como Tebet e Alckmin circulando na esquerda, como verdadeiros “camaradas”, o que seria impensável se o PT se mantivesse fiel à sua origem.

As vitórias econômicas tímidas do governo de Lula não mobilizaram a população a continuar votando no presidente. Por certo que houve avanços em relação ao desastre bolsonarista anterior, mas no imaginário popular isso não é suficiente. A direita soube (e teve dinheiro para) motivar sua base eleitoral, com o discurso punitivista, falsamente libertário, evangélico e moralista. O Brasil entrará num período longo de trevas, mas acredito que será um excelente aprendizado para as forças progressistas.

Aliás, o fato de Cury ter sido o terceiro colocado nesta eleição – um sujeito sem qualquer história na política e com uma trajetória de coach e escritor de literatura de autoajuda – fala muito sobre o estado da arte da política nacional. Seu livro mais famoso trata de Jesus como “o homem mais inteligente do mundo”. O que desejam dizer os eleitores desse sujeito ao lhe oferecer seu voto? Que mensagem este fato oferece sobre a política, os partidos, as propostas e a conjuntura da nossa democracia burguesa? Talvez essa informação seja tão relevante quanto tentar descobrir as falhas da esquerda.

Sabe o que dá raiva? Ver que o PCO e o Rui Costa Pimenta estavam – mais uma vez – certos sobre o desastre que fatalmente ocorreria quando o PT se mesclou com o identitarismo. Ora, por que um “partido dos trabalhadores” deveria abandonar a pauta do proletariado para apostar em um projeto criado nos laboratórios do imperialismo para dividir a classe trabalhadora? Os sinais eram claros, mas ninguém no PT quis enxergar. Se o identitarismo não for retirado da esquerda ele vai destruir o que ainda resta de luta popular. A politica de “frente ampla” fracassou, tanto na Europa quanto aqui. A esquerda precisa aprender o caminho para oferecer ao povo uma alternativa para se proteger do fim do capitalismo.

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Classe média

Eu também odeio nossa classe média, e não me excluo dela. Crítico ferozmente essa classe até porque faço parte dela. Ela é rasteira, pedante, medíocre, odiosa, preconceituosa e arrogante. É uma classe composta majoritariamente por pequenos burgueses, que se estabeleceu acreditando estar afastada dos proletários, a quem desprezam, e próxima dos burgueses, os donos, os proprietários, por quem são desprezados.

Costumo olhar para a classe média como um sargento que se acha superior aos seus comandados mas que, pela sua grossura, falta de refino e cultura, é desprezado pelos oficiais. Na perspectiva do sargento, ele se acha especial por não se misturar com a soldadesca, mas na visão do oficialato ele não passa de um militar bruto e mais velho que os ajuda a controlar a massa de soldados.

A classe média tem uma carência crônica de consciência de classe. Sua escolha nas lutas sociais sempre é oportunista e ilusória. Ao invés de se unirem ao operariado na luta pela divisão equânime da riqueza produzida, preferem se unir aos opressores na ilusão de que eles os reconheçam como iguais. É o caso do médico, do advogado, do pequeno comerciante, do empresário, etc. Não por acaso, essa classe é profundamente reacionária, a base do bolsonarismo e da extrema direita.

Essa classe média deve ser trocada com uma classe combativa, que deseja a mudança e que lute ao lado do operariado e do campesinato por uma revolução estrutural no Brasil.

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Hasbara

A hasbara – propaganda israelense – aumentou de forma exponencial as postagens em defesa do massacre israelense sobre o povo palestino. A tática, entretanto, mudou. Antes havia a negativa das mortes e mutilações, mas agora, diante das múltiplas evidências, a ideia é afirmar que não se trata de genocídio porque “apenas” 3% da população foi morta – sem contar as mais de 50 mil crianças que perderam pelo menos um membro nos ataques. Comparam a matança em Gaza com ataques pontuais nazistas na segunda guerra mundial e tentam provar que aquele foi o único genocídio legítimo da história. Nao aceitam perder o trono máximo de vítimas do preconceito. Até onde vai o delírio sionista?

Acaso acreditam que 73 mil mortos – entre eles 20 mil crianças – não constitui um genocídio? Querem nos fazer crer que 2/3 de baixas civis em um povo confinado em um campo de concentração, sem bunkers, sem proteção, sem armamento anti aéreo, não configura uma chacina covarde? É possível aceitar o argumento de que não foi genocídio porque muita gente sobreviveu se desviando de bombas em Gaza?

Por mais que a propaganda israelense seja brutal, é ilusão imaginar que muitos possam se aliar ao sionismo, um projeto colonial racista e supremacista de colonos ashkenazis que invadiram as terras palestinas com a desculpa de que “Deus lhes deu essa Terra há 3 mil anos”. Não há mais como “desver” o projeto colonial mais semelhante ao nazismo jamais criado. Em tudo se assemelham: extrema direita, brancos europeus, racismo, raça pura e superior, apartheid, muro, opressão, check points, campos de concentração, tortura em prisões, cães adestrados para estuprar. Quem poderia virar o rosto para as grandes instituições internacionais que confirmam o genocídio? Quem ousar se embrenhar nesse pântano acabará chegando à sombra do nazismo, ao sionismo mais abjeto e racista, ao colonialismo mais vil e degradante. O apoio a Israel representa um golpe na biografia de qualquer um, assim como foi o apoio ao nazismo no século passado ou à ditadura militar. Israel significa o resquício de um colonialismo que foi expulso da África, sendo a Palestina sua última ferida aberta.

Aliar-se ao sionismo é lamentável em todos os sentidos: humano, espiritual e político. Ele representa um retrocesso civilizatório, uma aposta no fracasso inevitável de um projeto racista e brutal. A posteridade não vai perdoar, assim como não perdoou aqueles que se uniram-se à visão de mundo de Adolf Hitler.

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Judeus do mundo

Os judeus são em essência um grupo como qualquer outro, nem mais nem menos em qualquer aspecto. Qualquer análise de superioridade ou inferioridade é tola e insustentável. Entretanto, não é sobre eles que está o problema, mas sobre uma ideologia à qual muitos – a maioria – adotaram como sinônimo de judaísmo: o sionismo.

Os sionistas são um grupo diferenciado, e podemos reconhecê-los pela forma como se posicionam diante de Israel. Nem todos os judeus são sionistas, e a maioria dos sionistas não são judeus – são evangélicos, especialmente americanos. Entretanto, é justo dizer que a maioria dos judeus hoje em dia é formada por sionistas. Os sionistas são um grupo diferenciado, e podemos reconhecê-los pela forma como se posicionam diante de Israel. São abertamente racistas, supremacistas, preconceituoso e arrogantes. Sua forma de ver o mundo estabelece uma hierarquia que os coloca no topo e os goyim (termo pejorativo usado para anunciar os “não escolhidos”) na parte de baixo, deixando para os árabes – termo que pela generalização sobre um grupo tão diverso já expõe o preconceito – as últimas posições. Fica claro que o objetivo daqueles que acusam os antissionistas de antissemitas é manter a confusão proposital entre judeus e sionistas, para ser possível acusar aqueles que acusam a barbárie assassina de Israel de antissemitas, ou seja, contrários aos judeus. Assim, imaginam esconder do mundo o que realmente estas pessoas estão fazendo: denunciando a matança deliberada de mulheres, crianças, médicos, enfermeiras e jornalistas e a destruição de escolas, mesquitas, hospitais e toda a vida social e urbana de um povo. Um crime contra a humanidade.

A imagem de Israel no mundo caiu em um abismo. A aversão ao colonialismo brutal e assassino de seus líderes sempre foi algo restrito aos grupos que se interessavam pelo povo palestino e sua história, de antes do Nakba até agora. Porém hoje, as imagens das crianças mortas, a tortura nas prisões, as bombas caindo sobre assentamentos de lona, a morte de jornalistas e as milhares de crianças amputadas que circulam pelas ruínas de Gaza estão nos smartphones de cada um de nós. Não há como esconder a perversão e a estupidez, a sombra da morte se debruçando sobre um povo que por mais de 80 anos experimenta perseguição, exclusão, humilhações cotidianas, mortes e torturas, e cuja punição se dá pela ousadia de existirem e resistirem Sequer as crianças são poupadas de prisões arbitrárias e abusos sexuais por parte do IDF. Não há mais como “desver” o que Israel traz de horror ao mundo.

NAZA trouxe tudo isso como uma confissão. Sim, existem israelenses cujo estômago também se contrai ao ver as imagens da limpeza étnica e do massacre. E eles se levantaram para cortar na própria carne, e apontar o dedo para os assassinos. Eles precisam ser exaltados como importantes persinagens na consciência global. Eles colocaram na boca dos soldados a banalidade do mal, a qual todos já sabíamos, mas que se tornou mais intensa vinda de onde veio.

Não há como melhorar a imagem dos judeus no Brasil e no mundo enquanto houver o interesse de confundir o judaísmo e o povo judeu com o racismo assassino dos sionistas. Enquanto não ocorrer esse divórcio haverá antissemitismo, e não vai adiantar mais e mais dinheiro gasto em hasbara (propaganda) para tentar “tapar o sol com uma peneira”. Todos estamos vendo, somos todos testemunhas dos crimes contra a humanidade levados a cabo por Israel e os monstros que o controlam.

Judeus do mundo todo, unam-se contra o sionismo. Esta é sua única chance.

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Cancelamento

A cultura do cancelamento foi a arma da esquerda identitária nos últimos 10 anos. Ela precisa ser enterrada.

Eu espero que a derrota da esquerda mostre o fracasso da cultura do cancelamento, do discurso punitivista de esquerda, do proibicionismo e da censura sobre músicas, piadas, pronomes e expressões. Este tipo de mentalidade “esquerdista” fracassou, destruiu a conexão dos partidos de esquerda com o povo, com os trabalhadores e com as pessoas comuns. Essa visão de mundo levou à derrota que agora sofremos. É preciso encarar nossas falhas com coragem.

As urnas não mostraram a adesão do cidadão a um político desqualificado e miliciano, mas a rejeição a esta postura arrogante e pretenciosa da esquerda identitária, cuja função se limita a chamar a polícia diante da discordância de ideias, propor censura e aumento de penas e tratar das questões políticas de forma punitivista.

Que esta dor que agora sentimos se transforme em luta, mas acima de tudo uma reflexão sobre o erro de esquecer a importância de ter o povo nas ruas. É hora de cancelar os cancelamentos e reviver as pautas da liberdade irrestrita de expressão.

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Luto

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar…

Rosa dos Ventos (Chico Buarque)

Se você está deprimido com os resultados das eleições e percebeu que o Brasil deu uma guinada em direção à escuridão, não é hora para desespero. Tenha fé na alvorada, que desde o início dos tempos, repele a escuridão da noite com a luz da manhã. Não chore, ou talvez, só um pouquinho, porque da lágrima brota a esperança. Não esqueça que “a vida é luta renhida. Viver é lutar, que aos fracos abate, mas que os fortes e bravos, só sabe exaltar”. Venha para a luta, para as ruas, calçadas, escolas e hospitais. É no meio do povo que a política assume sua verdadeira face transformadora.

Não desista. Não esmoreça. Assuma sua dor e seu luto. Entenda que uma sociedade justa jamais o será por dádiva, mas pela construção lenta e elaborada de todos, com os naturais avanços e retrocessos que sedimentam as conquistas. Agora é o momento mais adequado para reavaliar o que fizemos e, em especial, o que deixamos de fazer. Para isso, é bom lembrar que:

1. O povo não é burro. Há sabedoria nessas escolhas, mesmo quando nos parecem tolas;
2. Censura jamais será caminho de liberdade. Livre expressão dói, faz barulho, mas é melhor do que o silêncio imposto;
3. Identitarismo é uma força que divide e enfraquece. Fragmentar a luta jamais irá fortalecer nossas propostas;
4. A luta de classes deve ser a prioridade, mesmo quando alguma outra injustiça pontual nos trouxer lágrimas nos olhos e fizer o estômago revirar;
5. Não se faz socialismo apoiando alguns segmentos da classe operária e culpando outros. Esta é a tarefa dos reacionários;
6. O imperialismo hoje festeja, mas cabe a nós darmos o troco. Precisamos estar prontos quando o momento chegar, e…

Quando chegar o momento,
esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido,
esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada nesse meu penar.

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Mandato dos Sete Montes

A revolução comunista precisa ultrapassar essa Constituição e criar uma nova carta magna para o Brasil. Enquanto isso não ocorre, a decadência do modelo capitalista vai produzindo o absurdo e o bizarro cotidianamente. Entretanto, essa guerrilha aberta entre católicos e protestantes – simulando a luta ancestral da Irlanda – eu deixo para os religiosos debaterem. Nós que somos comunistas não adoramos ídolos, sejam eles Nossa Senhora ou Bolsonaro.

Cabe, todavia, um alerta. O Brasil, nas mãos do Flávio Rachadinha, pretende se tornar uma grande Israel, que alguns tanto admiram. Com isso a morte dos “palestinos brasileiros” – os pretos e pobres das favelas – será naturalizada, da mesma forma como é o destino de milhares em Gaza. Ou a direita nunca suspeitou do amor que a família Bolsonaro sempre devotou ao racismo e ao supremacismo de Israel?

Aliás, até eles mesmo sabem que a luta do Flávio contra os católicos e seus símbolos não é de agora. Flávio e Jair Bolsonaro – ambos católicos de formação – uniram-se à rafuagem evangélica mais apodrecida e corrupta, como Edir, Malafaia, Waldemiro e quetais, com evidentes propósitos eleitorais. Por trás disso, a Teologia do Domínio, o poder político para a “Gang do Templo”, com o objetivo de criar um grande Evangelistão, que nada deverá ao Talibã em termos de violência moralista e conservadora.

Segundo os defensores do “Mandato dos Sete Montes”, entre eles essa turminha evangélica sionista brazuca (que se enche de grana com turismo chinelão para Israel), os cristãos deveriam ocupar posições estratégicas nesses campos para transformar a sociedade conforme valores cristãos. A ideia central é que a sociedade estaria organizada em sete grandes áreas de influência, simbolizadas como “montes”:

Família
Religião
Educação
Governo e política
Mídia e comunicação
Artes e entretenimento
Economia e negócios

Na formulação mais branda – que se poderia chamar de identitária ou representativa – isso significa apenas participar e exercer influência. Na versão mais radical ou “dominionista”, significa conquistar o controle das instituições e submeter a vida pública a uma determinada interpretação do cristianismo. Quando Tariflávio diz que vai “entregar o Brasil a Jesus Cristo”, isso é a formulação “hard core” de dominação do pensamento nacional, que regride ao século XIX e institui uma religião oficial no Estado – outrora laico. Não há outro termo senão “retrocesso maligno”.

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As palavras…

“Palavras verdadeiras nem sempre são belas; palavras belas nem sempre são verdadeiras”

Minha mãe me deu, há muitos anos, esta frase escrita num pedacinho de papel. Em sua sabedoria simples e prárica ela queria me lembrar que eu não deveria ter medo de dizer a verdade, mesmo que minhas palavras viessem a desagradar os outros. Se é certo que as palavras verdadeiras podem machucar, também é verdade que as palavras belas muitas vezes são falsas, e por esta razão a ajuda que nos oferecem é tão somente ilusória.

Não por acaso eu tomei esta frase como um lema para a minha vida, agindo conforme determinava a minha consciência, dando menos importância à aceitação ou popularidade de minhas palavras e atos. Essa lembrança da minha mãe comprova que ela tinha uma caligrafia linda, “letra de professora”, mas também que ela tinha cabeleireira marcada para as 10h.

Este papelzinho devia fazer parte de algum exercício que estava fazendo em suas aulas. Apesar de estar escrito em francês – minha mãe era francofílica – a origem dessa frase é de Lao-Tzé e aparece no capítulo 81, o último, do Tao Te Ching. O original em chinês é:

信言不美,美言不信
Xìn yán bù měi, měi yán bù xìn.

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