Vida em plenitude

Ninguém falou sobre isso, eu acho, mas para mim há uma brutal contradição no experimento dos vidros com arroz que receberam palavras “boas” ou “ruins”, realizados em uma escola do Paraná. (a piada óbvia é que para um vidro se gritava “Lula” e para o outro “Moro”)

O resultado para mim foi muito confuso. Não a constatação objetiva do experimento, mas como foi interpretado pela professora e por muita gente.

Vejam bem: No pote que recebeu palavras “positivas” nada cresceu, como pode ser constatado na foto. Tudo se manteve estático e estéril. Não houve crescimento de bactérias ou fungos. Tudo ficou como estava antes de ser fechado. Por outro lado, no vidro da “negatividade”, houve crescimento, abundância e uma multiplicidade biológica impressionante. Ocorreu intensa diversidade e estímulo à vida.

Em outras palavras, o pote da negatividade produziu energia e vida e o pote da positividade estagnação e esterilidade.

Ou vocês acham que a vida em seu fulgor e energia incessantes deve acompanhar os nossos pueris preconceitos estéticos?

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Consciência e mudança

Por debaixo de um ato qualquer existe uma construção social e inconsciente que nos impele às ações. Mesmo quando o ato nos parece incongruente existe uma lógica que o sustenta além da nossa rasa compreensão. O que os torna fortes e longevos é sua conexão com o desejo, e não com a razão.

A episiotomia ocupa um lugar no próprio imaginário feminino, que aceita tais mutilações como o “preço a pagar” por ser mulher. O mesmo ocorre com as mutilações genitais na África, onde as próprias mulheres ainda aceitam esse destino como justo, talvez como culpa ancestral pela própria condição feminina, sempre ligada ao pecado e ao erro.

Na China nenhuma das alunas enfermeiras obstetras de diversas províncias chinesas realizava episiotomia de rotina. Ficaram escandalizadas quando falei da nossa taxa global de 56% (e de estados do centro-oeste com 70% de taxa de episiotomia). E isso em um país em que quase todos os partos são em litotomia. Para elas episiotomia é uma conduta estranha e violenta. Conseguiram manter a ideia de um períneo intocado mas infelizmente sucumbiram aos modismos ocidentais como parto deitado, máscara, esterilização, separação mãe-bebê, hospitalização, etc.

Mudar essa condição será possível quando trouxermos tal construção histórica à luz. A simples evidência de sua inutilidade e malefício (que conta mais de 30 anos) não é suficiente para erradicar uma prática violenta. É preciso mais do que razão; é necessário consciência política e organização social para pressionar pela extinção das más práticas.

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Rotinas hospitalares

As rotinas hospitalares são usadas, no dizer de Robbie Davis-Floyd e Brigitte Jordan como “tecnologias de separação“. Se existem raros casos em que esta distância e o confinamento de recém-nascidos são necessários o uso alastrado dessa prática tem muito mais significado pelo que carrega de forma invisível e simbólica. Esse afastamento manifesta uma atitude autoritária dos poderes delegados do Estado contra a autonomia da mulher sobre seu filho. O objetivo inconsciente destas condutas e rotinas é despojar a mulher do controle sobre seu filho, estabelecendo uma tirania da técnica e do conhecimento sobre a conexão mãe-bebê que recém se estabelece. Nesse momento especial é lançada a pedra fundamental para a construção de um sujeito subserviente ao Poder.

Nesses momentos sempre lembro a frase da minha amiga Mary, parteira da Holanda: “Você quer que seu filho nasça como paciente ou como cidadão?”

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Generalização

“Uma generalização negativa e demeritória sobre grupos, etnias, gêneros, religiões etc. com a qual não concordo. Caso concorde, então é apenas a verdade dura que precisa ser dita”.

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Profissionalização

“Oregon is voting In doula registry and insurance reimbursement. Because people never learn. Wanting the government to give you money removes your choices and freedoms.”

(Shannon Mitchell)

Há alguns anos iniciei uma (boa) treta a respeito das vantagens e desvantagens da profissionalização da doula, questionando o pleno conjunto de significados que “profissão” possui. Tive o cuidado de deixar claro que doula ainda não é uma profissão mas sim uma “ocupação”, que obviamente pode ser (bem) remunerada. Disse ainda que profissionalizar-se implicava uma série de obrigações e que o Brasil estava, no mínimo, 30 anos distante dessa realidade. Tornar-se profissão regulamentada era, ao meu ver, uma “faca de dois legumes”, pois cobrava da doula uma série de obrigações que ela não teria caso se mantivesse na informalidade e não lhe oferecia muito mais do que ela já tinha.

Muitos blocks depois surgem notícias da Matriz dando conta que as doulas do Oregon podem passar a pagar SEGURO (como os seguros médicos) para trabalhar. Afinal, se a doula fizer a massagem errada, abraçar muito apertado, cantar fora de tom, segurar errado a mão ou estiver descabelada isso pode gerar malefícios para a mãe e o bebê, tá serto? Com certeza esse seguro insensato e absurdo será uma fração apenas do que pagam médicos e parteiras, mas será um peso econômico a mais (em especial para doulas iniciantes) e um reflexo inequívoco do processo de profissionalização.

Continuo perguntando (porque Chico Anysio ensinou que perguntar não ofende) se vale a pena lutar por essa bandeira, mesmo sabendo que o destino das doula cabe apenas a elas decidir. O caminho deste processo já está pavimentado: burocracia, custos, penalizações, etc. Vale mesmo a pena?

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