Arquivo do mês: agosto 2022

A esquerda que não aprende

Ontem (11/08) ocorreu a leitura da “carta pela democracia“, que foi lida em mais de 20 capitais do país, numa festa pelas liberdades democráticas. Entretanto cabe a pergunta: que democracia é esta que os participantes desejam? Que tipo de manifestação recebe apoio da USP, através do seu Reitor Carlos Alberto Carlotti, Telma Andrade, a secretária da CUT, a representante das lutas antirracistas Beatriz Lourenço Nascimento e muitos militantes de esquerda, mas também Blairo Maggi (homem forte do agronegócio), Guilherme Peirão Leal (o presidente da Natura), Eduardo Vassimon (banqueiro ligado ao BBA), Horácio Piva (da Klabin), Walter Schalka (da Suzano), Roberto Setúbal (do Itaú), Pedro Moreira Salles (da Febraban) e muitos outros bilionários que abrilhantaram com suas fortunas o manifesto lido ontem em nome da democracia e das liberdades constitucionais.

Com esta pluralidade de integrantes cabe a pergunta, que nos parece mais do que natural, mas necessária: a que tipo de “democracia” se referem estas personalidades? Como podemos imaginar que a mesma democracia seja defendida pelos trabalhadores, antirracistas, representantes da universidade e ao mesmo tempo por banqueiros e industriais bilionários que controlam o país e o mantém como eterna esperança de “nação do futuro”?

A resposta triste é que sobra um ilusório fervor patriótico onde falta consciência de classe. A democracia que serve aos banqueiros e industriais não pode ser a mesma que anima a militância de esquerda, pois para aqueles a democracia é o respeito aos seus privilégios intocáveis, enquanto para esta existe o desejo de que as riquezas imensas desse país sirvam para melhoria de vida de sua população. Esta democracia liberal, que interessa à classe burguesa e que acredita nos mecanismos eleitorais para a solução dos grandes dilemas nacionais, não pode ser a motivação da classe trabalhadora. A realidade não nos permite ter dúvidas quanto à potencialidade limitada dos mecanismos eleitorais e representativos para suplantar o capitalismo no Brasil. Mesmo os governos progressistas do Partido dos Trabalhadores, que operaram transformações mínimas na questão da distribuição de renda, se mostraram insuficientes para debelar a tragédia da exclusão, e bastou a chegada de um maníaco à presidência – através de um claro golpe institucional e midiático – para que as conquistas tímidas da esquerda fossem jogadas no ralo.

É necessário que as esquerdas percebam o quanto estas “cartas”, “abaixo-assinados”, “marchas pela paz” e “manifestos” são inócuos para os donos do poder. Tais manifestações servem como “cortina de fumaça”, uma fantasia de democracia para esconder o corpo disforme da tirania. Funcionam como a representatividade negra na cultura, que exalta personalidades e exibe uma “face de diversidade”, mas que jamais desafia o modelo de exclusão que nos atinge através de um rígido sistema de classes que serve se presta à acumulação de dinheiro e poder.

As armadilhas e arapucas da democracia liberal precisam ser expostas e denunciadas. Não há como compor com banqueiros e industriais, pois que os seus interesses são antagônicos àqueles das classes operárias e da imensa maioria da população brasileira. Abandonar a ilusão de uma “frente ampla” com a burguesia é um passo à frente na plena consciência de classe, elemento importante e essencial para as lutas de libertação.

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O Homem de Mil e Uma Faces

Após a morte de Jô Soares acontecida em 5 de agosto de 2022, muitas pessoas lembraram de outro gênio do humor brasileiro que nos deixou há uma década. O “homem de mil e uma faces”, o cearense Chico Anysio, coloriu minha infância com a multiplicidade de personagens hilários. Dono de um humor refinado, sutil e essencialmente brasileiro, suas caracterizações eram plenas de sofisticação e genialidade.

Não acredito estar exagerando ao dizer que nenhum artista brasileiro teve tanto ecletismo, tanta veemência e tanta diversidade. Músico, poeta, ator, comediante, humorista, roteirista, escritor e criador obstinado. Era dono de uma voz possante e de um olhar penetrante. Saltava em uma fração de segundos da doçura de uma mulher para a mais grosseira caracterização de um machão. Transitava da seriedade à mais escrachada palhaçada sempre com refino técnico e apurada capacidade de apreensão dos costumes. Mais do que fazer rir, nos fazia pensar com seu humor.

Seus inúmeros e eternos personagens farão parte do acervo artístico desse país. Perdemos o homem, muito precocemente para os padrões atuais, mas a sua obra se manterá viva na cabeça de milhões de crianças sexagenárias como eu, que cresceram dando gargalhadas intermináveis da fina ironia deste que foi o maior artista brasileiro do século XX.

Chico Anysio está no panteão dos maiores e mais inteligentes artistas brasileiros. Desde sua morte está encarregado de fazer os anjos sorrirem e aplacar com tuas piadas e histórias a ira dos Deuses. Sua imagem multifacetada ficará para sempre presente nessa cabeça de menino que me nego a abandonar.

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Sol e Lua

Por certo que precisamos de propostas para a melhoria da atenção ao parto e a todos os fenômenos relacionados aos ciclos femininos, mas é necessário fugir do idealismo que, tal qual uma sereia sedutora, nos leva a crer em soluções parciais para problemas estruturais. É importante reconhecer que as ideias por si só são estéreis, incapazes de produzir as mudanças que pretendemos. Um exemplo clássico é de que as episiotomias são inúteis e prejudiciais, um fato comprovado há mais de três décadas, e mesmo assim ela continua sendo usada indiscriminadamente em nosso meio, exatamente porque a mudança nestas atitudes sedimentadas pela cultura médica não se dá pelas ideias, mas pela confrontação e pela luta. Precisamos, portanto, de uma perspectiva materialista para o nascimento.

O mesmo ocorre com a ideia – bem estabelecida por estudos multicêntricos ocorridos há várias décadas – de que é essencial para a saúde coletiva interromper o abuso de cesarianas, assim como as centenas de outras intervenções indevidas que ocorrem no ambiente hospitalar do parto, reconhecidamente inúteis e perigosas para o binômio mãe-bebê. Portanto, a agenda – além de positiva – precisa ser propositiva, centrada nas lutas que garantam o protagonismo e que estabeleçam uma relação centrada na liberdade ampla e irrestrita de escolhas, respeitando amplamente os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres e suas famílias. Mais importante ainda é entender que essa luta será conduzida pelas mulheres, legítimas condutoras do processo, contando com a valiosa ajuda dos profissionais de vanguarda da obstetrícia e da parteira.

Fora dessa perspectiva resta apenas o que se pode chamar de “reformismo obstétrico”, uma plataforma de propostas que se baseia na perspectiva da solução para os dilemas obstétricos através da simples proliferação de obstetras humanistas – profissionais mutantes e bizarros, fixados em sua perspectiva de respeito às evidências – que não passam de meia dúzia de ilhotas minúsculas em um oceano gigantesco de “mesmices” que apenas replicam o modelo anacrônico, personalista, intervencionista, misógino e centrado nos valores do capitalismo que caracteriza a assistência ao parto nos grandes centros do ocidente. Imaginar que a reforma estrutural da obstetrícia se dará sobre as mesmas diretrizes intervencionistas de hoje – mantendo os mesmos atores no comando – é uma ilusão que não podemos nos permitir.

A ruptura com o reformismo obstétrico – que pretende mudar a fachada para não transformar a estrutura – será a grande tarefa da nova geração de ativistas e cuidadores.

Por fim, uma curiosa constatação: no que se refere ao parto as mulheres são o sol, enquanto seus cuidadores são a lua. Aquelas produzem a energia e a luz feérica do nascimento enquanto estes refletem com humildade e respeitosamente o brilho que capturam do momento. Qualquer inversão destes papéis significa uma perversão significativa na essência desse evento, um eclipse que desfaz o brilho de um às custas da intromissão do outro.

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Adeus Eugênio Soares

É curioso que quase todo mundo lamenta a perda do Jô Soares e fala das suas entrevistas, mas na minha cabeça eu lembro de forma muito viva da Família Trapo (um brincadeira com a família Von Trapp, da Noviça Rebelde) na antiga TV Record (antes de ser um antro de pilantras como agora), com Ronald Golias; Renata Fronzi; Otello Zeloni; Ricardo Corte Real; a (agora) vereadora Cidinha Campos, Ronald Golias (Carlo Bronco Dinossauro) e o gordinho desengonçado Jô Soares. (vide abaixo)

Também recordo vivamente dos seus múltiplos personagens, os quais apresentava em seus programas de humor, como Planeta dos Homens, Satiricom, Faça Humor não faça Guerra, Viva o Gordo etc, maravilhosos, cada um deles uma aula de psicologia, comportamento, política e sociologia. E tudo isso durante a ditadura, onde o talento tinha que ser contido e cuidadoso, basta lembrar o nome do seu show de stand-up: “Viva o Gordo e Abaixo o Regime!!”.

Queria ressaltar apenas os meus personagens prediletos: Capitão Gay (identiraries hoje cancelariam), Múcio, Gardelón, Alvarenga, Bô Francineide, Padre Cosme, Padre Carmelo, Zé da Galera e tantos outros. Penso naquele humor da ditadura e percebo que era muito mais livre – e engraçado – do que este controlado pela geração woke.

A única mácula foi o programa reacionário com a nata do jornalismo golpista da Globo chamado de “As Meninas do Jô”, de triste memória, mostrando que o atraso e o fascismo estavam entranhados há muito tempo na emissora onde trabalhava.

Os meus heróis do humor da juventude já se foram: Golias, Chico Anysio e Jô Soares. Sobra a esperança de que eu possa desfrutar do talento deles depois que eu me for também.

A pergunta que me fizeram hoje foi: Jô ou Chico Anysio? Minha resposta foi que Chico era superior como humorista e ator, enquanto Jô foi o melhor enquanto artista e personalidade pública. Mas… vamos combinar que estas comparações acabam desmerecendo sem necessidade. Ambos são, para, mim as melhores lembranças de humor da minha infância. A dobradinha Jô Soares-Max Nunes está no mesmo nível de Chico Anysio-Arnaud Rodrigues. Aliás, acho que está acima. O humor de personagens no Brasil teve nessas duplas o seu ápice.

Lembrei uma característica engraçada do meu pai. Ele era um sujeito sério e intelectual, reservado e sofisticado; um verdadeiro lorde inglês. Um domingo cheguei para almoçar e escutei gargalhadas vindo de um quarto da casa dele. Quando cheguei na sala de TV o vi se dobrando de rir com uma piada dos Trapalhões. Imediatamente o “repreendi” confessando minha surpresa por vê-lo dar risadas das trapalhadas circenses de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Ele deu de ombros e continuou rindo…

Pode ser uma imagem de 16 pessoas e texto

PS: a respeito do Chico Anysio, eu lembro da manifestação do meu pai quando estreou o programa “Chico City”, onde ele circulava com enorme talento entre inúmeros e diversificados personagens. Ele me confessou, muitos anos depois, que não percebeu que era o Chico em todas aquelas figuras e só descobriu porque foi avisado no dia seguinte pelos colegas de trabalho. (veja aqui outro texto que escrevi sobre Chico Anysio)

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Polícia

Meu amigo Max ligou hoje como faz regularmente de vez em quando, ou mais provavelmente quando lhe dá na telha. Parecia agitado, como quem acordou e teve um sonho muito louco. No meio da conversa ele me disse que teve uma visão, e que precisava me contar.

– Diga…
Max pigarreou e começou a me contar sobre seu devaneio.
– Cara, é o seguinte. Imagine que as polícias de uma hora para outra acabassem. Escolha o método: epidemia, terremoto, desistência, demissão, ataque externo, ETs etc. Não importa a forma do desaparecimento para minha ideia; elas apenas desapareceram. O que ocorreria?
– Caos…
– Ok, eu concordo. Seria caótico. Saques em supermercados, ataques a concessionárias de carros. Roubo de postos e estoque de gasolina. Mais ou menos como na distopia de “Ensaio sobre a cegueira”. Mas e depois? Conte como seria o “day after” dessa catástrofe.
– Bem, as pessoas teriam que se proteger de alguma forma contra aqueles que tentam roubar o que é seu. Sua casa, seu carro, sua loja, sua comida.
– Sim, mas as pessoas não fariam isso sozinhas, certo? Logo depois eles pediram ajuda do companheiro, da esposa, dos filhos, dos amigos, dos parentes; depois dos vizinhos da rua do bairro, etc. Todos juntos com tacos de beisebol, armas, facas, defendendo as suas coisas. Barbárie explícita, ao estilo “Walking Dead”.
– Exato…
– Mas lá pelas tantas grupos maiores iriam se organizar, não apenas para guardar suas coisas, mas pela via da força pegar e garantir a propriedade de tudo que fosse possível pegar. Pura sobrevivência.
– Sim, pode ser…
– As cidades então seriam divididas em grandes grupos de milícias, que garantiriam a posse para seus líderes. Estes controlariam as propriedades saqueadas da cidade, tornada sem lei, pois que a força e a organização das milícias seria a única regra neste mundo distópico.
– Sim, parece plausível.
– Mas imagine que, eventualmente, alguém tem a ideia de unificar as milícias para que o saque seja repartido entre os líderes, com menos disputas e mortes, mas mantendo a garantia da posse do saque para o grupo de líderes. As propriedades saqueadas estariam na mão dos líderes que mais bem se organizaram no caos e as milícias unificadas seriam a proteção do que foi recolhido de todos durante o período de rapina.
– Sim, como um cartel de milicianos controlando tudo sob o mando dos líderes.
– Exato…
– E daí?
– Sabe como seria o nome dado a estas milícias?
– Hummm, não sei… qualquer um…
– Ora, como se chamaria a instituição criada para evitar que as grandes massas reclamem o que é seu e para proteger as posses saqueadas pelos líderes que as tiraram o povo?
– Bem, você quer dizer que…
– ……
– Max, você está aí? Alô?

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