Arquivo do mês: setembro 2012

Pré-história da Cidadania

Depois das turbulências sobre parto domiciliar, onde a população civil, a liberdade e a autonomia das mulheres saíram vitoriosas (as determinações do CREMERJ foram solenemente cassadas e nenhuma sanção foi aplicada ao nosso colega), resta ainda uma pergunta para qual não tivemos resposta: Porque a preocupação tão vigorosa com os partos domiciliares por parte do CREMERJ? Será mesmo para “proteger” mães e bebês? Se isso for verdade, porque NUNCA houve um alerta vigoroso contra as cesarianas desmedidas e abusivas, que são comprovadamente perigosas para o binômio mãe-bebê e NÃO TEM respaldo de NENHUMA instituição internacional como a OMS, Biblioteca Cochrane, FIGO, RCOG entre tantas outras? Pelo contrário: o Brasil é visto como um país de abusos, de falta de rigor científico, de apatia do setor público e de uma libertinagem médica no que tange à realização de cesarianas.
Ao mesmo tempo em que o Parto Domiciliar é atacado, mesmo provando ser seguro por fontes diversas – e de forma reiterada – a cesariana imposta à população de mulheres desse país não é combatida pelas entidades representativas dos médicos. Se o interesse era “proteger a população”, qual a razão para o silêncio diante da epidemia de cesarianas? Porque se calam as entidades quando a proteção das mulheres esbarra nos interesses corporativos? Afinal, essas entidades se interessam em resguardar a saúde da população, ou apenas salvaguardar benefícios, vantagens e o poder conquistado?
Queremos, nós médicos, um CFM que se coloque AO LADO da saúde das mulheres, e não afastado delas, olhando para o próprio umbigo. Atitudes como a do CREMERJ colocam os médicos como vilões da modernidade, atrelados aos interesses menores e pessoais, sem uma visão de saúde ligada à liberdade, assim como às escolhas e recusas informadas.

Por quanto tempo ainda nos manteremos na pré-história da cidadania?

 

 

Veja o link abaixo:

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O Capeta

Essa é uma velha piada da família. O Lucas, quando era pequeno, adorava essa música “Capeta”, que é MUITO antiga, mas foi relançada nos anos 80 pelo Sérgio Mallandro. No meu segundo livro, no capítulo chamado “Paternidade” eu falo dessa passagem quando menciono que…
“… Ele, então, sorriu graciosamente. Desfez a cara de choro e deu mais um salto. Pulou de satisfação. Girou, rodopiou. Lançou-se ao vazio. Gritou como se não houvesse espaço nem tempo. Cantou mais uma música de palavras embaralhadas. Sorriu um sorriso gigantesco e mágico. Talvez ele estivesse percebendo, na sua cabecinha prodigiosa de criança, que, ao seu lado, seu pai acabara de nascer.”

Pois nessa música o Lucas cantava “Onecy” e não adiantava a gente explicar que a letra da música era “Conheci um capeta em forma de guri“. Ele sapateava e dizia que era assim e pronto. Um dia estávamos todos assistindo ao programa do Sérgio Mallandro na TV, em que as crianças se apresentavam num show de variedades, quando uma delas pediu para cantar uma música. Oferecendo o microfone, Sérgio Mallandro perguntou “Qual a música?”, ao que o menino (que tinha a idade do Lucas, uns 5 anos) respondeu “A música do Capeta!!”. Eu e a Zeza imediatamente chamamos o Lucas dizendo: “Lucas, aprende agora como se fala. Presta atenção como é a letra verdadeira da música”.

Então a criança esperou os primeiros acordes do playback e disparou:
“O-necy, um Capeta em forma de guri!!”

Bem, fomos obrigados a escutar um “Eu não falei!!!“… e a partir desta data resolvemos que era inútil tentar dizer qualquer outra coisa.

Hoje em dia até eu tenho sérias dúvidas sobre como é a verdadeira letra dessa música…

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Pensar Diferente

Há alguns dias eu coloquei um texto aqui exatamente tratando dessa questão: a importância do contraditório, do estranho, do diferente e do aparentemente absurdo. Acho que foi a velhice que me deixou assim: se alguém entrar na minha página do Facebook para falar de cesariana a pedido, eu apenas digo: “Traga a sua tese em poucas palavras, e vejamos se há algo de interessante nela para debater“. Não acho indecentes essas propostas, e nem inadequadas por si. Mais ainda, acho que a única forma de energizar as nossas convicções é colocá-las constantemente à prova. Debater as convicções que nos são mais caras é a melhor maneira de deixá-las firmes e fortes.
Meu pai diz que criou seus filhos mais velhos com essa ideia em mente: fomentar o debate e a contradição. Para isso, estimulou que um fosse gremista e o outro colorado (quem é do sul sabe que isso é mais complicado do que a relação entre israelenses x palestinos) , colocando-se (mentirosamente, depois soube) como “isento”. Com isso eu passei a infância inteira tendo que conviver com um cara que gostava de outro time, aguentar as “flautas”, aprender a debater e respeitar a grandeza do outro clube. Não foi fácil, mas isso me ajudou a suportar as agruras de combater sempre junto aos pensamentos minoritários.Todos queremos ser amados e receber a aprovação das pessoas que estão ao nosso lado. Assim sendo, pensar “diferente” é um esforço complexo diante da sedução constante de agradar seus pares. Contestar, brigar por teses contra-hegemônicas e sustentar suas convicções com a coragem para mudar é um aprendizado que deveria começar na primeira infância. Depois disso fica sempre mais difícil…

 

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Cesariana “Humanizada”

O problema de expressões como “cesariana humanizada” ocorre porque existe um conceito no mundo da humanização do nascimento de que tal procedimento cirúrgico não pode ser chamado de “humanizado”, pois lhe falta um elemento essencial na humanização: o protagonismo. Sem o resgate do protagonismo nunca haverá verdadeira humanização. Portanto uma cesariana pode ser “humana”, gentil, digna e respeitosa, mas jamais “humanizada”, pois carece do elemento mais fundamental para contemplar essa definição. Não existe “apendicectomia humanizada”, “histerectomia humanizada”, ou qualquer cirurgia que mereça esse epíteto, pois o protagonismo é do médico, e não da paciente. Numa cesariana a mesma coisa. Cesariana é cirurgia obstétrica, não é parto; portanto é um procedimento técnico, regido por protocolos médicos, e nesse contexto as mulheres são necessariamente passivas.
O parto, pelo contrário, é ATIVO. É algo que a mulher FAZ, e não ao qual é submetida. Somente aí poderão aparecer os elementos constitutivos e definidores da humanização: o protagonismo, a visão integrativa (bio-psico-social-emocional-espiritual) e a vinculação com a medicina baseada em evidências.
Hoje em dia eu acredito que o ativismo só tem sentido quando está focado no bem estar das pessoas. Veja bem, até a biblioteca Cochrane se vacinou contra esse tipo de essencialismo obliterante e homogeneizante ao difundir a Medicina Baseada em Evidências. Eu escrevi um capítulo no meu segundo livro só para tratar desse tema, pois acredito que as nossas convicções, por mais adequadas e humanistas que sejam, não podem solapar a individualidade. Sou um defensor da liberdade, e acredito mesmo que o individualismo – mesmo com sua tendência egocêntrica – é o único anteparo que temos à barbárie. Com a ideia SEMPRE PRESENTE de que CADA MULHER É DIFERENTE DA OUTRA fica impossível dizer “eu jamais faria isso”. No que concerne a um evento tão complexo como o parto, é injusto condenar mulheres que optam por uma cesariana “sem andar 100 km dentro dos seus mocassins”, assim como não é adequado julgar um médico que, por alguma razão BEM ESPECÍFICA E RARA, realizou uma cesariana a pedido, sem indicações clínicas evidentes. Se isso não nos autoriza a realizar cesarianas à rodo, pelo menos nos mostra que existem exceções, e que algumas vezes elas podem ser justificadas.
A multiplicidade das circunstâncias e a infinidade incontável de histórias constitutivas do sujeito fazem do parto um evento absolutamente único, vinculado às formas mais primitivas de organização psíquica. O nascimento conjuga no mesmo evento morte, vida e sexualidade, no dizer de Holly Richards. Como imaginar, então, que sua manifestação não seja repleta de dilemas únicos e de profunda complexidade? Portanto, a partir do momento em que aceitamos a visão complexa e subjetiva do fenômeno humano, expresso no nascimento, as posturas “fechadas” como “eu sempre” ou “eu nunca” acabam se tornando slogans do passado, um pouco cafonas, que apenas nos lembram dos ímpetos da juventude, mas que necessitam da  sabedoria que vem com o amadurecimento.
Mesmo que não compactuemos com a barbárie das cesarianas desmedidas, isso não pode significar abandonar as pessoas em função de suas escolhas. Podemos condenar as CESARIANAS sem indicação clínica, mas não as PESSOAS que por traumas, sofrimentos passados ou até desinformação fazem escolhas que nos parecem tolas e inadequadas. Nosso compromisso é em primeiro lugar com aqueles que precisam de nossa ajuda, e em segundo lugar com nossos ideais. Mas entenda que isso não significa abrir mão da radicalidade de nossas propostas, que se direcionam ao bem estar, a segurança, a liberdade e a autonomia de nossos pacientes. Nada disso; tal posicionamento reforça a ideia de que não nos cabe julgar as motivações recônditas que direcionam as escolhas que nossos pacientes fazem.
Quando defendemos o arrefecimento das posturas radicais, não o fazemos pela desistência aos ideais. Pelo contrário: é para que os mesmos sonhos não se dissolvam no calor da arrogância ou na insensatez dos extremismos. Todas as ideias renovadoras na humanidade precisam ser bafejadas pela visão humanista, que coloca o Homem como centro de nossas ações. Nossa luta por partos humanizados só pode ter sentido se nos lembrarmos constantemente de que as ideias de nada valem sem as pessoas.
 E só pode ser para elas, em sua característica única, a nossa atenção.

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Função Paterna


Esse éo livro que eu ainda vou escrever e que se chama “Função paterna no nascimento. O pai (dis)funcional”. Minha posição de homem no nascimento me propiciou muitos momentos delicados em que a função paterna determinou o sucesso de um parto. Entre tantos, lembro-me do episódio de um parto que acompanhamos, eu e Zeza, em Coimbra Portugal (essa história vai para esse livro).
Estávamos acompanhando o António, grande parteiro português, em um atendimento domiciliar. O local era ermo, distante da cidade. Uma espécie de sítio bem afastado. Lá estava uma menina de uns 17 anos em suas dores. Primeiro filho. O namorado tinha uns 20, mas se comportava como se tivesse 16. Lá também se encontravam o pai da menina e a namorada deste (a mãe morava na Inglaterra). Ah, detalhe importante: eram todos ingleses, que moravam em Portugal. Lá pelas tantas, no período de transição, ela começou a fazer os resmungos que nós tão bem conhecemos, típicos da famosa “fase de transição”: “não aguento”. “parem tudo”, “me deixem”, “quero uma cesariana” e assim por diante. Continuou com esse comportamento por muitos minutos, enquanto na sala contígua, eu e o pai dela conversávamos, tentando desviar a atenção das tensões inexoráveis de um trabalho de parto. Num determinado momento, incomodado com as reclamações da menina, e sem sair da sala em que nos encontrávamos, o pai se levantou e bradou:
– Escute aqui, pare com essa choradeira. Você escolheu isso. Vai continuar até o bebê nascer. Você não tem outra escolha. Agora feche a boca e se concentre em ganhar esse bebê!
Ele disse isso no limite tênue que separa a “voz alta” do grito; a firmeza da grosseria. Eu achei que o comportamento do pai havia resvalado para a rudeza desnecessária, mas o que se viu a seguir foi deveras interessante. Depois dos brados paternos só o que se ouviu foi o silêncio. Mais nenhuma palavra, muxoxo, reclamação ou pedido. Apenas um leve ranger de dentes entremeado com suspiros profundos. Da sala próxima só podíamos imaginar o que ocorria no quarto, onde António acompanhava a parturiente, ladeada da madrasta e de uma irmã. Mais alguns minutos e ouvimos os sons graves que anunciam um bebê achegando-se ao portal vaginal; o limite último do túnel que o leva à luz e à vida.
As palavras de António nos anunciaram a chegada do menino antes que ele pudesse chorar. As mulheres gritavam e podíamos escutar os seus abraços, mesmo que seja difícil definir a sonoridade que eles produzem. Alegria, lágrimas e a festa que tanto conhecemos.
O que restou como interrogação para mim foi a intervenção paterna, cortando um ciclo de vitimização, numa espiral de fragilidade que a estava levando a uma desistência. Sua voz firme e autoritária pode ter cumprido uma função que mesmo eu, no papel de médico, jamais poderia realizar. Para mim, havia, sim, alternativas. Não me caberia acabar com a possibilidade de desistência, pois que nunca poderia julgar os desafios que só ela poderia aquilatar. Desistir de um parto é, apesar da dor que possa nos causar, uma das alternativas válidas. Mesmo que isso possa ser motivo de um eterno arrependimento, qualquer intervenção da equipe médica nessa decisão entra na categoria de “tutela”. Não nos cabe tomar esse tipo de deliberação; apenas a mulher pode decidir em que ponto de suas dores – do corpo ou da alma – ela considera ter alcançado seu limite.
Entretanto, a intervenção moral das palavras do pai teve um efeito apaziguador. Parecia que a ela faltavam o “limite”, a contenção e a borda. Quando ele bradou, exigindo que ela mantivesse seu propósito original, a mim pareceu que ela acordou (mesmo que ainda dentro do seu sonho de partolândia) para um compromisso maior, anteriormente firmado.
Funcionou. Mesmo que seja um espaço impossível de ocupar por quem aceita o pleno protagonismo feminino no parto, tal ação com a marca da função paterna parece ter algum ensinamento a nos oferecer.

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