Arquivo do mês: agosto 2017

Betting on Zero

 

Há 25 anos eu fui convidado por um grupo de colegas do hospital onde eu trabalhava para participar de uma reunião a respeito de um “novo modelo de negócios” que poderia render milhões. Alguns colegas foram, eu não. Não acredito, inclusive hoje, que eu poderia vender coisa alguma na vida; seria uma tremenda perda de tempo. O mais entusiasmado entre eles era um colega pneumologista, que voltou da reunião absolutamente apaixonado pela ideia, e completamente envolvido pelo clima da proposta.

A reunião era da Amway, uma ideia “revolucionária” onde você não precisava vender nada, apenas convencer outras pessoas a vender por você. Você seria um gerente, um coordenador de equipe, o cabeça, o organizador. O chefe. O que poderia ser mais sedutor?

A regra do sucesso? Nunca desistir, mesmo quando parece estar fracassando. O método de convencimento? Ora, ainda hoje é usado por igrejas no mundo inteiro: a promessa da redenção. Lembro de encontrar meu colega uns dias depois e dizer a ele que este modelo se parecia demais com uma “pirâmide”, e que não seria possível em um modelo como esse que todas as pessoas se beneficiassem. “Não é uma questão de de talento ou empreendedorismo, mas de matemática”, expliquei a ele.

Ele ficou furioso com a minha observação. Sua resposta foi:”Eu estava enganado quanto à sua capacidade de se envolver em um negócio maravilhoso como este, mas agora estou desconfiado da sua capacidade intelectual“. Essa é a resposta óbvia de alguém que “viu a luz” em uma espécie de viagem astral e não aceita que outros não a tenham visto. Meu colega levantou-se e saiu indignado da sala.

Nunca mais falei sobre ele sobre esse episódio e alguns meses depois eu mesmo saí do hospital. Quando encontrei um amigo em comum muitos anos depois lhe perguntei se o nosso amigo ainda estava envolvido no “negócio” para o qual tinha nos convidado. Meu colega respondeu que ele havia abandonado um ano depois e que foi “uma grande decepção, a qual não gostaria de comentar”.

Digo isso apenas porque ontem assisti o documentário da Netflix “Betting on Zero” e achei muito bom, pois me parece um documentário que fala mais do que o gigantesco modelo de negócios e sonhos da Herbalife, mas vai além e nos faz questionar as bases do capitalismo: a ilusão disseminada de que, se você tiver méritos e resiliência, poderá ser um vencedor, mesmo quando as regras do jogo são predeterminadas e na sua mão jamais haverá cartas boas para apostar. O capitalismo está na estrutura filosófica que sustenta estes negócios através da promessa escatológica de redenção.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Psicólogo

“Psicólogo é o sujeito que ousa chegar na beirinha para olhar o abismo de todos nós.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Ricos

“Não creio que os ricos tenham um comportamento social diferente por um defeito de caráter ou uma perversidade inata da alma. Esta é uma questão cultural. Vejam que eu aqui uso “rico” para me referir ao sujeito que anda com seu próprio avião e coleciona Porsche, e não o que popularmente chamamos assim, apenas porque tem uma casa bonita e um carro novo. Seu comportamento diferente de nós não se dá por  uma questão essencial, mas a compreensão de que o acúmulo de poder em forma de capital – em especial desde a mais tenra idade –  faz com que os absurdamente abastados vivam em um mundo à parte, com seus valores próprios, onde os outros não possuem o mesmo valor que eles se atribuem, por isso mesmo se escondem no Olimpo gradeado onde vivem. Sequer as coisas que seu muito dinheiro compra valem o quanto sentimos que valem, em nosso mundo de valores poucos.

Por isso acredito que a riqueza, assim como a pobreza, a beleza extremada e até a delicadeza são fardos que o sujeito carrega, por mais estranho e paradoxal que isso possa parecer. Se possível fosse, pediria antes de chegar a este mundo que não recebesse o fardo da beleza, para não sucumbir à vaidade e à puerilidade. Também não gostaria de ser rico para não tratar meus iguais como coisas etiquetadas, retirando deles todos sua condição humana. Pediria que a delicadeza fosse temperada com pitadas generosas de força para não correr o risco de sucumbir aos baques do mundo por faltar-me a força e a energia. Em suma, pediria que estes fardos fossem aliviados para que nenhum deles fosse capaz de obstruir a tarefa de conquistar a humildade.

Nunca esquecerei da frase enigmática que o meu pai disse quando eu estava em plena adolescência e na angústia natural de conseguir dinheiro e independência: “Se quiseres me destruir basta me dar 1 milhão e estarei arruinado“. Para mim sua frase parecia totalmente incompreensível, mas hoje, ao ver diminuir paulatinamente o valor monetário de qualquer coisa ao meu redor, sua frase pode, finalmente, fazer sentido.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Tarefas domésticas

Zeza Jones me lembrou dessa historia de mais de 30 anos passados.

O cenário era de filhos pequenos, pouca grana, muito trabalho, tarefas domésticas sendo divididas dentro do possível, numa adaptação difícil (em especial para mim) do modelo patriarcal que estruturou nossas próprias infâncias. Plantões de ambos os lados, noites fora de casa, louça se acumulando para lavar.

Diante da gravidade da situação, lá vou eu lavar a pilha indecente de louça. Da janela da cozinha vejo a vizinha, já falecida, me alcançando com os olhos por cima do muro.

Parabéns, doutor. É isso mesmo. Muito bonito mesmo. Tem que ajudar em casa. Gostei de ver. Assim é que se faz. Que lindo!!

Sorri encabulado para ela enquanto dei uma piscada para Zeza. “Viu como elas me valorizam?“, brinquei.

Dois dias depois chego em casa do hospital e me atiro no sofá. Desta vez Zeza estava na pia lavando a louça quando me viu. Ao lembrar da cena de alguns dias antes, não perdoou. Abriu a janela da cozinha e gritou:

Vizinha, não perde essa. Olha eu lavando louça. Também quero elogio!! Vem aqui ver!! Olha como sou maravilhosa!!!

Gritava na janela e se finava de rir. Eu entendi a crítica aos padrões sociais e às expectativas de gênero e me associei às risadas. Nós homens somos elogiados por fazer o mínimo enquanto o trabalho doméstico para a mulher “não passa da sua obrigação”. Não se trata de criticar o elogio, mas de reclamar do silêncio diante de um trabalho tão duro quanto invisível.

Concordei com a lição e a queixa, mas deixei Zeza lavando a louça. Afinal, era o dia dela.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Fogo amigo

“Algumas pessoas que aparentemente se situam no espectro da humanização divulgam – com especial ênfase e alarde – notícias de punições a parteiras por erros cometidos. Eu posso entender a importância da autocrítica dentro de qualquer movimento social, do combate ao racismo ao feminismo, passando pela defesa LGTB e pela humanização do nascimento. O que eu tenho dificuldade de entender é o sentido de engrossar o coro das forças conservadoras que procuram qualquer brecha para destruir um movimento frágil e iniciante como o nosso. Certamente que a motivação é pessoal, mas ainda assim eu me assombro com a intensidade e a crueldade que testemunho em algumas manifestações.

Dos cesarianas eu posso entender a violência, mas o “fogo amigo” sempre me pega de surpresa.”

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto