Arquivo do mês: janeiro 2016

Narrativas

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A razão pela qual eu não acho adequado participar de “guerra de artigos”, é que eles se referem a valores crus, biológicos e matemáticos, sem jamais considerarem o valor subjetivo de um parto. Isto é: o desejo da mulher não conta. Por essa falha na compreensão mais ampla do que significa um parto eu considero inútil a luta fálica de quem tem o melhor artigo ou estudo sobre o local de parto, como se NÓS – os que controlam a ciência – tivéssemos o direito de decidir como uma mulher vai parir.

Analisem por este especifico ponto de vista. Vocês sabiam que quando uma mulher branca se casa com um negro ela tem 4x mais chance de se separar? Sabiam também que uma separação prejudica – e isso pode ser cientificamente mensurado – a saúde dos filhos? Baseados nestas avaliações puramente científicas não seria razoável proibir relacionamentos interraciais em benefício das crianças que correm risco de sofrer com a separação dos pais?

“Ah, mas esse é um problema social. Quando acabar o racismo os casamentos entre brancos e negros serão como os “normais” das outras pessoas”. Sim, é um problema social, tanto quanto é o parto domiciliar. Quando o sistema de saúde, em especial os médicos, pararem de agredir e pressionar as mulheres e parteiras pelas suas escolhas o resultado para todos será muito melhor. Imaginem se os médicos fizessem isso com as mulheres que escolhem cesarianas, se fossem tratadas como lixo ao internarem para esta cirurgia. Portanto, a corporação CRIA as más condições para um parto domiciliar, e quando maus resultados ocorrem culpam a natureza “perigosa e imprevisível” do parto.

Se você procurar bem é ÓBVIO que vai achar artigos que dizem que os relacionamentos homossexuais são mais arriscados e produzem mais adoecimento. Se você quiser achar vai encontrar artigos da Escandinávia dizendo que episiotomia se relaciona com problemas do assoalho pélvico, mas não vai contar como esses partos são conduzidos naquele país, muito menos a forma como as mulheres se posicionaram para parir. Assim, sempre encontramos na ciência aplicada à saúde aquilo que mais desejamos.

Quando há um especial desejo envolvido, e evidentes interesses corporativos, varremos a autonomia feminina para baixo do tapete. Podemos até falar em “liberdade de escolha” mas apenas quando ela se limita às cesarianas, obviamente sob cuidado médico. Se for uma escolha pelo parto em casa, aí a escolha livre e independente da mulher se torna inadequada e inaceitável.

O grande problema – na maioria das vezes não percebido – é o SEQUESTRO do parto pelo discurso médico. O parto é contado dentro de uma narrativa de submissão e alienação por parte das mulheres, enquanto nessa mesma visão os médicos são heróis e salvadores da natureza cruel e traiçoeira que habita o corpo das mulheres.

Nessa narrativa “oficial” a mulher é sempre passiva, como uma Princesa Bela Adormecida, inútil, inerte, imóvel e que necessita do beijo intrusivo (aliás, não consentido) para salvá-la de seu corpo fraco e insuficiente. Porém, para que o parto continue a ser um processo masculino e fálico – pois penetra, invade, muda e repara – é necessário que a princesa continue dormindo. E ainda vemos MILHÕES de mulheres que seguem a narrativa heroica do príncipe que salva a ingênua princesa que colocou o dedo onde não devia. Dormem solenemente aguardando que a medicina venha a reparar seus corpos mal feitos e degenerados.

É fácil fazer disputas de artigos. Só acho inútil. Para as parteiras é fácil fazer críticas à corporação médica porque elas estão protegidas pela sua própria corporação. Para os médicos obstetras humanistas se trata de uma luta de David contra Golias, e por isso não pode ser surpresa a existência de uma onda de ataques da corporação contra os profissionais que ousam questionar a narrativa médica em contraposição à narrativa das próprias mulheres em relação ao parto.

É inegável que nos encontramos no meio de um processo de transição, mas enganam-se os que pensam que as evidências científicas – para qualquer lado – serão o fiel da balança. Aprendi a duras penas que a “verdade” (sintam-se livre para interpretar esta palavra como quiserem) não é capaz de puxar o gatilho das mudanças. As evidências científicas surgem apenas DEPOIS de mudarmos a cultura, e esta se modifica sempre de baixo para cima, através de uma transformação na forma de vermos OS MESMOS fenômenos, mas agora sob uma nova ótica. O parto – por ter sido sequestrado pelo discurso médico – é visto como um procedimento da medicina aplicado sobre um “paciente”, isto é, um sujeito passivo sobre cujo corpo atuamos, independente de sua aquiescência. O mesmo modelo é utilizado sobre quem vai operar um tumor de mama, uma pedra no rim ou tratar com antibióticos uma infecção pulmonar; o desejo do paciente é desimportante. A expropriação do parto pela medicina, retirada das mãos das mulheres e colocada nas mãos dos médicos, está na gênese da violência obstétrica e do intervencionismo desmedido.

Podemos acrescentar à esta equação o fato de que o parto ocorre no corpo das mulheres em um contexto de patriarcado decadente, mas ainda atuante, o qual coordena as relações sociais como um “cimento” forte o suficiente para produzir coesão. Assim, tal contexto produz mulheres que oferecem seus corpos à medicina em troca de uma suposta (e ilusória) segurança.

Da mesma forma como os sionistas em Israel precisam criar uma fantasia de “ataque iminente” dos pobres palestinos para justificar seus massacres, os médicos precisam exaltar os perigos tremendos escondidos nos corpos grávidos de suas pacientes para justificar as intervenções pelas quais determinam e mantém seu domínio.

Não há dúvida que todos os profissionais que ameaçarem a narrativa hegemônica vão sofrer os ataques de uma corporação acuada, de uma forma ou de outra. Os relatórios de violência obstétrica, desde os da Fundação Perseu Abramo e os demais que se seguiram, denunciam apenas a ponta do Iceberg. Os obstetras, pela primeira vez na história, sentem-se pressionados pela opinião pública, e os profissionais sentem-se confusos porque nunca imaginaram que a forma como vêem os partos pudesse ser apenas uma das maneiras de interpretá-lo, e não a “forma cientifica e correta”.

Os ataques aos médicos humanistas assemelham-se aos raids aéreos e as bombas sobre Gaza. É um aviso: “não ousem questionar nosso poder ou muitos mais sofrerão”.


 

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Iconoclastia

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Se é necessário jogar os velhos ídolos ao fogo na árdua tarefa de nós libertar de seu jugo sufocante, também creio ser fundamental fazê-lo de forma criteriosa.

Ainda considero válida a tese, que Max tanto admira, de que “as virtudes são do homem, os vícios de sua época”. Não há como criticar um personagem sem a necessária contextualização do sujeito no tempo e no espaço. Se não há “sujeito sem cultura, e cultura sem sujeito” então tudo o que somos surge dessa interação entre nossa subjetividade e o conjunto de valores que nos rodeiam no oceano de significantes e significados onde estamos submersos.

Por outro lado, o entendimento de figuras icônicas como sujeitos falíveis e limitados nos ajuda a humanizá-los. Tal tarefa é fundamental para que, assim identificados, possamos seguir seus ensinamentos com mais precisão. Enquanto forem divindades serão inatingíveis; ao nosso lado, passíveis de falhas e erros humanos, serão parceiros de travessia.

Entretanto, se posso perdoar a falta de amabilidade de Marx com seus filhos e seu caso extra conjugal, assim como as diatribes dos astros da TV ou do futebol, o mesmo não posso dizer de literatos cujas palavras escritas ferem preceitos básicos da civilidade e da dignidade humana. Por mais que sua genialidade transpareça e seja exaltada, e mesmo que as épocas sejam outras, a misoginia e o racismo de Fernando Pessoa ou Humberto de Campos são inaceitáveis e colocam a profundidade e dimensão de sua obra em questão. Se a imagem.que fazem de negros e mulheres era tão diminutiva e preconceituosa, que outras falhas de percepção podem ser piores?

Perder um ídolo é como arrancar uma parte de si mesmo; felizmente uma porção de nós que ainda nos prendia às fantasias e idealizações mais infantis.

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Servidão

 

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São 5:54 da madrugada. Acocorado no chão do banheiro, torturado pela insônia, com o pensamento quebrando o ponteiro do contagiros, penso que a peça que nos negamos a aceitar no quebra cabeças da opressão é o gozo pela servidão. Sem entender o quanto de nós existe no sofrimento que a nós é imposto, jamais poderemos entender a facilidade com que se estabelecem tais relações. Isso vale para sujeitos e coletivos, pessoas e nações.

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Eu Odeio Ser Mãe…

 

 

Rola pela Internet um texto que fala das agruras da maternidade e da quantidade enorme de mulheres que odeiam ser mães. É claro que os relatos das dificuldades são verdadeiros e reais; não há dúvida de de que o nascimento de um filho impõe – em especial às mulheres – um peso muito grande e uma enorme mudança paradigmática. É inquestionável a dureza da parentalidade, em especial num mundo em que para as crianças não basta mais o suprimento de suas necessidades básicas (comer, beber, ser amada, vestir-se, etc.), pois que já nascem envolvidas num universo de desejos infinitos e insaciáveis.

Por outro lado, depois de conviver por 35 anos ao lado das mulheres grávidas, resta uma dúvida e uma desconfiança. Se são verdadeiras as queixas e a tonelagem de atribuições massacrantes sobre as mães, as quais tornam insuportáveis a vida de relação e o prazer, fazendo da existência um tormento infrutífero e vazio, por que ainda está fixo na parede da minha memória aquele sorriso que teima em brotar de seus lábios? Qual a razão de ser daquelas meninas que, entre orgulhosas e emocionadas, estendem a mão em minha direção segurando, ainda trêmulas, um mísero pedaço de papel timbrado onde, no meio de letras espalhadas, números, datas e logotipos, sobressai uma única palavra, que faz seus olhos marejarem apenas por repeti-la?

“POSITIVO”, dizem elas com seus sorrisos enfeitiçados.

A história de dor, que a ninguém cabe duvidar, existente em cada gestação não pode ser completa sem que esse sorriso enigmático seja colocado na equação.

Como sempre acontece com esses textos sobre os “horrores da maternidade”, eles contam a dureza do trabalho sem relatar (espertamente) o gozo. Todos eles, sem exceção, mostram um fato pincelado com as tintas do sacrificio, escondendo a energia poderosa e libidinal que nos empurra em direção a esse precipício. O que há para além da dor que teimamos em omitir?

Eu poderia escrever o mesmo texto, usando as MESMAS palavras e copiando uma igual arquitetura para relatar as agruras de ter, por exemplo, um relacionamento afetivo.

* Sarcasm notification *

“Eu odeio ter namorado(a)”. Alguém é capaz de negar que tal condição implica na perda da liberdade, sobressaindo-se as críticas, a angústia, a saudade, a mudança de perspectivas, o afastamento dos antigos amigos, os ciumes e o medo corrosivo e destruidor de perder seu amor?

Tudo isso é verdade, e mesmo assim as pessoas continuam acreditando que amar é bom!!!! Escrevem livros sobre isso, romantizam relacionamentos, colocam fotos de casais felizes e as pessoas perdem a cabeça com aparente felicidade. Fazem até filhos para materializar essa alegria transbordante.

É tudo mentira!!!!

Na verdade as pessoas se escravizam mutuamente, mentem e se enganam. Mal se suportam e depois, sem que possamos perceber, regam seus travesseiros no meio da madrugada com as lágrimas do arrependimento e da desesperança.

Não é verdadeira ou real essa fábula do amor. As pessoas se “juntam” apenas por serem pressionadas pelo capitalismo a comprar fogões e geladeiras numa falsidade insuportável guiada pela sociedade de consumo. Somos marionete do capitalismo, fazendo dívidas e filhos apenas para dar conta do mercado.

Amar o outro é uma fraude, uma obrigação social criada pelo sistema escravizante que nos governa e aprisiona. Lutar para garantir o seu amor nada mais é do que esforçar-se na compra da própria prisão. Não é por acaso que “esposa” em espanhol se diz “algema”, alma gêmea.

Amar é a mentira que sempre nos contaram, deixando de lado todo o sofrimento e humilhação que acompanha este ato ingênuo e suicida. A dor de amar, de comprometer-se com alguém, não vale a pena ser paga. Somente os tolos e covardes admitem a escravidão como lenitivo amargo para escapar à solidão.

Mas… então, como explicar aquele sorriso? Será que perdemos algum detalhe pelo caminho?

Não se trata de colocar um “lado trash” da maternidade, mas de exaltar o espinho escondendo o perfume. O texto ao qual me referia não é reflexivo; é prescritivo. Por isso senti um desconforto ao me deparar com ele pois, ao invés de apontar para o fim das idealizações, aponta para OUTRA, mas com sinal invertido. Para combater o “padecer no paraíso” cria o mito da gravidez paralisante, que aprisiona mulheres sem nenhuma contrapartida de alegria ou prazer. Engravidar e ter filhos é uma “merda” (talvez porque a sua tenha sido, mas isso não implica em prescrever essa imagem para todas).

O texto peca pela falta de perspectiva e ausência de compreensão sobre a transcendência desta construção humana. Se é verdade que as mulheres são “escravas de sua raça e os homens escravizados pelas mulheres” também é verdade que a única razão pela qual esse sistema faz sentido é pelo misterioso elemento que lhe oferece sentido: o amor. Mas pode chamá-lo de desejo se “amor” lhe parece por demais assustador.

Entretanto, analisar um filho – ou um afeto – através dos olhos da praticidade ou da operacionalidade é desconfigurar a essência mais profunda do que nos torna humanos. Sem essa pitada de amor nada pode brotar do caldo de vida que nos constitui.

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Tecnologias

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Esta manhã estive conversando pelo inbox do Facebook com uma parteira recém formada (midwife) sobre um aumento de PCR pós parto. Ela é minha amiga há alguns anos, é búlgara e mora em Sófia, na Bulgária. Ao mesmo tempo eu dava orientações a respeito de uma ecografia com suspeita de circunferência cefálica reduzida, conjugada com a perda de tampão, para uma paciente que mora no Vietnam. Tudo isso no meu smartphone enquanto tomava café.

Se alguém me contasse isso há meros 20 anos eu diria que se tratava de fantasia tirada de livros juvenis de ficção científica. Seria impossível acreditar que um dia seríamos capazes de tais proezas.

O mundo virou MESMO, uma “aldeia global”, como havia previsto Marshall McLuhan no final dos anos 70. Somos conectados de forma instantânea com qualquer parte do planeta, e isso nos oferece um senso de “ubiquidade virtual” inédito nas sociedades humanas, a ponto de a tecnologia nos transportar para os mais distantes lugares de uma maneira que nos lembra pura magia.

Nossos filhos e netos serão educados nesse novo planeta minúsculo, praticamente sem distâncias reais, oportunizando a eles uma consciência mais planetária e menos tribal, de onde emergirá a verdadeira solidariedade humana baseada em valores universais.

Os meus netos, Oliver e Henry (por ora), eu os invejo por poderem testemunhar este novo mundo de proximidades crescentes. Não se deixem jamais capturar na armadilha do pessimismo e cultivem um olhar de esperança para o mundo que se descortina à sua frente. E, acima de tudo, ajudem a construir essa sociedade sem barreiras, a qual só me resta tempo para… sonhar.

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