Arquivo do mês: janeiro 2014

Sobre as críticas

Consulta médica

Há mais de 15 anos debatendo diariamente a questão do parto inserido no universo da tecnocracia eu percebi que discutir casos particulares de partos ou indicações de cesarianas (a minha cesariana, a cesariana da minha mulher, a cesariana de uma conhecida ou da vizinha) é INÚTIL e desnecessário. Não se trata de acusar uma específica pessoa que foi vítima de uma assistência inadequada, mas fazer uma crítica forte ao modelo, o sistema e o paradigma de atendimento às gestantes. É nisso que precisamos focar. Criticar cesarianas, ou mesmo partos, sem estar na pele de quem teve que tomar as decisões é INJUSTO e CRUEL. Esqueçam os médicos cesaristas; eles são prisioneiros deste sistema e frágeis demais para lutar contra ele. Precisamos focar nas mulheres e no seu empoderamento, para que ELAS mudem o parto na sociedade em que estamos inseridos. Com uma sociedade transformada os profissionais que atendem parto mudarão naturalmente.

Por certo que esta é uma questão dialética. Não seria justo desonerar os médicos de qualquer responsabilidade na mudança do modelo. O contato com a experiência única e transformadora do parto deveria moldar a visão destes profissionais a respeito da natureza especial deste evento. Entretanto, o parto medicamente absorvido, transforma-se em uma mera cirurgia de extirpação fetal. Desta forma, despido de simbolismos, o nascimento se esvazia dos seus conteúdos mais significativos. Eu percebi que a principal função do médico é a pedagogia. Cabe a ele mostrar os caminhos da saúde, ensinar o auto cuidado e fazer com que a paciente descubra dentro de si mesma o sentido subjetivo de gestar e parir. Quando o pré-natal se reduz às medições antropométricas e burocracias ele perdeu sua grandiosidade. Diante de um momento épico e sem precedentes este encontro tão singular entre profissional e cliente nada mais faz do que resumir à mulher a um contêiner fetal, desprovida de transcendência que um nascimento impõe. Pois este empobrecimento típico da cultura tecnocrática ocidental contemporânea é responsabilidade dos profissionais, pois todas as gestantes que conheci perceberam claramente a importância do pré natal como período valioso de aprendizado e crescimento.

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Pais expulsos do parto

Pais e Filhos

Insistir nesse equívoco – “expulsar” os pais (homens) da sala de parto – atrapalha historicamente os projetos e objetivos da humanização do nascimento. E por “equívoco” eu considero QUALQUER determinação EXTERNA que não parta da MULHER.

INSERIR o pai ou expulsá-lo é a MESMA COISA, se nos negamos a olhar cada mulher e cada parto como únicos e especiais. Sem o protagonismo poderemos apenas sofisticar tutelas. Expulsar o pai PIORA O PARTO, inseri-lo no ambiente de parto como regra fixa TAMBÉM. Quando é que vamos parar com estas regras ridículas as quais as mulheres devem se submeter, determinações apriorísticas que não levam em consideração o contexto, seu desejo, sua vontade e a sua subjetividade?

A ideia original do Michel (Odent) é de que, para que o parto possa ser levado em segurança é fundamental que a paciente não se sinta observada, resguardando assim a sua privacidade e intimidade. Com isso elevaremos os níveis de ocitocina e manteremos a adrenalina baixa, produzindo uma harmonização do ambiente psicológico e hormonal, regularizando as contrações e alcançando o progresso adequado do trabalho de parto. O entorno é fundamental, como diria Grantly Dick-Read; a “psicosfera” é determinante, como diria meu colega Max. Este parece ser um ponto pacífico, e quase ninguém parece discordar dele.

Entretanto, criar sobre este PRINCÍPIO GERAL uma “regra”, um “protocolo”, um determinante externo ao desejo da mulher é tratar as mulheres como bichos desprovidos de subjetividade e de linguagem. Estabelecer que todos os pais devem sair do ambiente de parto é um equívoco; determinar que todas as mães amamentem na primeira hora também. Obrigar a euforia e a felicidade após cada parto é uma imposição cruel e desumana. Não tem saída: o único caminho dentro da trilha da linguagem é olhar para este fenômeno como algo especial, irreproduzível e infinito em suas particularidades e detalhes.

Quantas vezes será necessário repetir que “intimidade” é um valor SUBJETIVO, pessoal e determinado por circunstâncias de ordem cultural, circunstancial e contextual?

O que era intimidade há 200 anos hoje não é. Dormitórios para os pais diferente daquele dos filhos parece uma obviedade hoje em dia, mas há poucos anos o contrário era o padrão. A intimidade – de um casal ou de uma mulher parindo – é uma criação de caráter social, e não um valor biológico para os humanos. As análises etológicas, que estudam o comportamento animal, são excelentes fontes de ensino, mas não podemos expandir a compreensão de comportamentos – como no sexo e no parto – daquilo que observamos em animais para os seres humanos, dotados de linguagem e cultura. Portanto, o que é válido para uma vaca, uma cabra, um felino ou um equino não é necessariamente adequado para seres humanos!!

Uma mulher pode se sentir vigiada estando sozinha em uma sala, e pode se sentir plenamente segura e com intimidade estando rodeada de amigos, familiares e profissionais que a atendem. Criar proibições para este evento tão delicado não parece ter embasamento científico e lógico, e não parece ser adequado ou justo.

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O problema aqui dentro…

Drogas
A medicina ocidental contemporânea, desde os tempos de Pasteur, sofre de um mal crônico e limitador do pensamento. Trata-se da visão exógena da doença, colocando sobre o agente agressor – seja ele químico, físico, biológico ou psicológico – um peso determinante no surgimento e na manutenção dos eventos mórbidos de qualquer natureza. Assim é com a antibioticoterapia, e a crença resultante do malefício das bactérias, vistas há mais de um século como agentes agressores e maléficos para o equilíbrio orgânico. Somente agora, a partir das novas concepções do “biota” e a importância dos elementos probióticos, é que estamos percebendo o imenso significado dos elementos microscópicos que compartilham o espaço físico com o ser humano.

No terreno das drogas ocorre o mesmo. Por razões óbvias acreditamos que as “drogas” – aqui entendidas como aquelas ilegais – são ruins por natureza, por determinarem uma dependência orgânica natural e inexorável. “É da essência da droga viciar“, diz a velha escola dos teóricos do vício drogal. Com isso continuamos a acreditar que o elemento EXTERNO – a substância psicoativa – é a chave para o entendimento da drogadição, negligenciando, mais uma vez, as questões do “terreno predisponente”.

A mim não parece que a ligação sujeito-droga assim se estabeleça, da mesma forma – como disse Pasteur no fim de sua vida – que para que haja uma infecção qualquer é indispensável que exista uma “diátese”, um terreno propício para a sua ocorrência. A partir desta perspectiva, tão cara aos estudiosos da homeopatia, não é a droga que merece ser combatida, mas as condições nas quais está inserido o sujeito drogado, o seu entorno biopatográfico, físico, contextual e psicológico. Sem este entendimento, que eu chamaria de “capacidade mórbida reativa”, continuaremos a investir em uma guerra absolutamente fracassada e sem futuro, e que nunca deu resultado em qualquer lugar que tivesse sido implementada. Lutar contras “as drogas” é tão equivocado como a velha piada de tirar o sofá da sala; as drogas apenas ocupam um espaço deixado vago pelas fragilidades de um sujeito previamente doente.

Por outro lado, sabemos a quem esta guerra inútil e custosa interessa: aos policiais corruptos, agentes políticos e traficantes, que se beneficiam com o submundo das drogas, infestado de propinas, lutas fratricidas por pontos e mercados, subornos e assassinatos em profusão. O que é novidade é perceber que ela também serve aos cientistas que vivem de pesquisas nesta área, e que insistem em colocar como preponderantes os agentes externos – as drogas – sem perceber que até mesmo a drogadição é algo se que processa – primeiramente – entre as orelhas.

Para um sujeito feliz e livre qualquer droga não é mais do que uma enorme perda de tempo. O problema está dentro de nós, e não do lado de fora…

Pois os mesmos questionamentos que fazemos em relação ao uso de drogas podemos fazer em relação ao parto. Para o nascimento também temos as gaiolas que modificam o evento, transformando-o em uma caricatura daquilo que foi outrora.  Tudo o que sabemos sobre a obstetrícia contemporânea é observando mulheres “enjauladas” em hospitais. As pesquisas, os valores, os dados, as estatísticas, toda a informação é colhida de mulheres inseridas no modelo hospitalar. Por mais que o ambiente procure ser menos agressivo (o que ocorre apenas em alguns contextos mais modernos), o contato com pessoas desconhecidas, os ruídos estranhos, as máquinas frias e as substâncias exógenas (como anestésicos e ocitocina) injetadas na corrente sanguínea acabam por TRANSFORMAR o evento do nascimento, descaracterizando-o de sua expressão natural e original. Não é mais o PARTO que estamos observando, mas o parto hospitalar, o parto médico, o parto confinado e o parto artificial. Como diria Maximilian, “não é mais no parto, mas seu simulacro“.

Assim como um rato não se comporta da mesma forma estando preso em uma gaiola, as mulheres não agem com a mesma naturalidade confinadas em um ambiente hospitalar.

O ambiente, por sua vez, produz inequívocas manifestações no sujeito nele inserido, e um ambiente hospitalar inspira medo, temor, apreensão e angústia. Estes sentimentos, por sua vez, acionam o sistema simpático, através da adrenalina, que atua na economia orgânica no sentido de produzir reações de “fuga ou luta”. Além disso, este hormônio inibe a ação da ocitocina na produção do apagamento neocortical e nas necessárias contrações rítmicas uterinas. A resultante é a ativação da adrenalina e a supressão da ocitocina, produzindo a disfuncionalidade típica dos partos que ocorre em nossos hospitais. Esta disfunção é frequentemente corrigida com a adição exógena de ocitocina e o uso da analgesia peridural (pois as contrações artificiais induzidas pela primeira são dificilmente suportáveis sem o recurso analgésico) e a consequência é a perda total da possibilidade de uma vivência fisiológica do parto.

O parto da forma como é realizado nos hospitais do ocidente é PREJUDICIAL à fisiologia do nascimento exatamente pela falha do sistema médico em trabalhar e reconhecer os aspectos emocionais, psicológicos, sociais, espirituais e contextuais relacionados com o nascimento de um bebê.

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Agendar o Inagendável

 

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Eu sou do tempo em que a cesariana era um recurso utilizado em circunstâncias especiais. Diante de uma impossibilidade de parto ela era usada, mas sempre com uma espécie de “pesar”. Para o obstetra a cesariana também era entendida como um  “fracasso”. Pensávamos: “O que poderíamos ter feito? Onde erramos? Fomos apressados? Insistimos demais? Foi a posição do bebê? Ou foi algo “entre as orelhas”?

Naquela época, em meados dos anos 80, operar um ventre estufado de vida era algo com muitos significados. Os professores de outrora ainda cultivavam a fama de “parteiros”. Haviam, muitos deles, aprendido com parteiras hospitalares, mulheres do povo que haviam ascendido à condição de “enfermeiras” (mesmo sem título) que atendiam partos em hospitais através do aprendizado direto. Eu mesmo, há 25 anos, conheci muitas parteiras que trabalhavam em hospitais da periferia da minha cidade e cujo aprendizado foi exatamente esse: olhando, auxiliando, comandando e depois fazendo.

Muita coisa aconteceu desde então, e o parto foi perdendo importância enquanto evento feminino. Mas uma transformação de tal monta nunca se processa sem que seja necessário alterar a forma como o entendemos. Era necessário retirar do parto sua importância na formação do ser feminino, passando a ser visto a partir de então como uma fragilidade, um erro, um equívoco natural e algo a ser modificado através do conhecimento científico. O mundo contemporâneo precisava arrasar os significados subjetivos de um parto, para que a modalidade cirúrgica de nascer pudesse ser vista primeiro como uma “alternativa”, e depois como “o padrão”.

Muito ainda se falará sobre a derrocada do nascimento feminino e a ascensão do nascimento tecnológico. Entretanto, nunca se dirá tudo o que é necessário para que se entenda a profundidade dos significados culturais desse movimento. Eu fui testemunha desta história, e estava presente quando esta mudança se procedeu. Da natureza em direção à tecnologia o nascimento foi reconstruído primeiramente pela palavra. Para quem tinha ouvidos de ouvir, ficava muito claro perceber que, para se mudar o nascimento de um evento feminino e natural para um evento médico e cirúrgico, era necessário transformar o olhar que tínhamos para o processo. Mudando o olhar tínhamos que transformar as palavras. Se ao princípio estas palavras tinham um som “duro” e causavam estranhamento, sua repetição acabava por dessensibilizar nossas concepções, agora entendidas como “ultrapassadas”.

Foi ainda no século passado que, pela primeira vez, escutei a expressão “parto cesáreo“. Não por acaso, “cesáreo” é uma palavra que não existe, mas que foi masculinizada pela palavra que o antecede. Os “partos” acabaram também se tornando uma extensão do universo masculino, apartados da lógica feminina. O tempo, as rotinas, os protocolos, a normatização e as intervenções “salvadoras” deslocaram a mulher do centro decisório dos nascimentos, colocando-as na periferia, alienado-as de si mesmas. Elas eram agora assistentes da arte médica, espectadoras de algo que ocorria em seus próprios corpos, expropriadas de si mesmas e nas mãos de profissionais altamente treinados na interferência cirúrgica dos processos biológicos.

Mas era necessário transformar a cesariana em uma “modalidade de parto“. Não mais o recurso último, a cirurgia que se explicava ao velho professor como quem confessa um pecado. Não, ela agora seria um tipo de nascimento, igual àquele criado há alguns milhões de anos a partir do surgimento da viviparidade. A cesariana é, na mente contemporânea, a sucedânea do parto vaginal, aquela que livra as mulheres das agruras de um procedimento cuja espera, tensão e dor não encontram nenhuma justificativa nas mentes positivistas atuais. Ela veio para livrar a mulher da crueldade imposta por uma natureza madrasta; algo pelo qual esperávamos há milênios, desde que as mulheres foram a ela condenadas pelo pecado da luxúria… e do saber.

Portanto, nada mais natural do que observar que os hospitais contemporâneos não tem mais nenhum pudor em “agendar partos”. Sim, nós sabemos que eles estão se referindo às cesarianas, e sabemos também por que elas são chamadas na “modernidade” de “Partos Cesáreos“. Mas a naturalidade com que estas coisas aconteceram nunca deixará de me espantar. Sou um velho, quanto a isso não há mais dúvida alguma. Mas, quando tudo puder ser agendado, previsto e conhecido por antecedência, o que mais restará para nos emocionar?

Ninguém se escandaliza com o fato de perdermos mais um pedaço da emoção que o bolo da vida nos oferece?

Como é possível agendar o imprevisível?

O que sobrará do nascimento quando retirarmos dele a circunstância inesperada, a surpresa, a alegria incontida de uma notícia e o telefonema cheio de lágrimas avisando, no frio da noite, a chegada de um bebê?

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As Cores da Humanização

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A humanização do nascimento é um movimento gestado a partir dos questionamentos sobre a sexualidade surgidos nos anos 60 e 70. Apesar dos trabalhos de Grantly Dick-Read terem sido produzidos nos anos 40 e Robert Bradley ter começado seu trabalho de “desmedicalização do parto” e a inserção do parceiro no ambiente do nascimento nos anos 50, foi após a publicação de “Birth Without Violence” de Fréderick Leboyer que a discussão de uma nova abordagem no parto tomou um forte impulso. Se o lema dos hippies era “Faça amor e não faça a guerra” – numa crítica aberta a participação americana na guerra do Vietnã – e a atitude era de franca liberação sexual, a abordagem não violenta do parto proposta por Leboyer estabelecia uma clara consonância com tais pressupostos.

Não por acaso a inquietação com a intervenção desmedida e a violência implícita nos atos médicos que ocorria em ambientes hospitalares disseminou-se pelo mundo inteiro com a força de uma “nova ordem”. Entretanto, a forma como estas ideias eram adaptadas a cada contexto cultural variava enormemente. Por exemplo: o termo “humanização do nascimento”, muito usado no Brasil, é quase desconhecido nos Estados Unidos. Lá a ideia se disseminou com os termos “amigáveis”: “Motherbaby Friendly Childbirth Initiative”, é como o movimento de humanização se chama por lá. Na Inglaterra, por seu turno, a associação que luta por partos mais suaves é “AIMS”, uma associação que luta pela melhoria dos serviços de maternidade, e a forma mais comum de se tratar do parto humanizado é chamando-o de “Parto Ativo”. Cada país imprime suas características específicas para estas ideias.

Por razões históricas a humanização entrou no Brasil junto com a contracultura hippie, que veio acoplada com o orientalismo que impregnou todo esse movimento, a começar pela aproximação dos próprios Beatles com Maharishi Mahesh Yogi. Aqui, o Yoga deixou o movimento com as cores do misticismo e das práticas orientais indianas. A introdutora desta discussão no Brasil foi uma professora de Yoga chamada Maria de Lurdes Teixeira, mas que atende pelo apelido de Fadynha. Em meados dos anos 80 ela criou um instituto de Yoga no Rio de Janeiro chamado “Instituto Aurora” que realizava encontros com casais grávidos de preparação para o parto natural. Desses encontros surgiu a necessidade de um encontro nacional de “parto natural e consciente”, que já está na sua 23ª edição. Estes encontros foram a porta de entrada para os debates sobre as humanização do nascimento, e foi dele que surgiu no ano de 1993, em Campinas, a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. A partir destes encontros foram se agregando ao movimento de humanização profissionais de várias áreas – obstetras, pediatras, enfermeiras, parteiras, obstetrizes, doulas, etc. – em torno de uma série de reivindicações que estruturam o ideário do movimento. De início eram ideias centradas nos problemas do excesso de intervenções e a necessidade de “suavizar” a prática médica. Não havia ainda uma clara noção do que deveria ser feito, mas uma indignação compartilhada do que não deveria continuar ocorrendo.

No final do século passado surgiu um novo fenômeno na cultura mundial que acabou por modificar de maneira inquestionável todas as relações sociais, inclusive a forma como entendíamos a humanização do nascimento. A Internet diminuiu distâncias e aproximou pessoas com ideias semelhantes. Um pouco antes da virada do século surgiram os “list servers” que eram listas de discussão temática na internet e que abordavam infinitos assuntos. A primeira de lista de discussão de nascimentos chamava-se “Parto Natural”, e ainda está ativa. Seguiram-se a ela a “Amigas do Parto” (nome criado para criar parecença com o grupo Amigas do Peito, que luta pela amamentação livre) que depois viria a se chamar  Parto Nosso”, ainda em atividade. Estas listas foram multiplicadoras de vozes sobre o tema da humanização, congregando, como por encanto, ativistas distantes milhares de quilômetros, em diversas partes do Brasil. A entropia gerada pelas listas de discussão acabou por fomentar um amadurecimento sem precedentes da estrutura ideológica dos movimentos de humanização do parto. Aquilo que anteriormente era indignação e desassossego com a tecnocracia obstétrica passou a oferecer alternativas de atenção centradas em um modelo de nascimento mais moderno e mais em sintonia com os desejos das mulheres. O surgimento, ainda nos ano 90, da “Casa de Parto 9 Luas” no Rio de Janeiro foi um exemplo desta nova atitude propositiva. Apesar da ideia não ter vingado – por problemas na própria concepção da casa de parto, que em verdade era uma pequena clínica e não uma Casa de Parto – este foi um dos primeiros modelos alternativos de atenção apresentados à sociedade. Se não continuou a oferecer atendimentos, pelo menos serviu como um exemplo de que muitas coisas eram possíveis de fazer em se tratando de modelos de atenção centrados na família, no afeto e no parto fisiológico.

A internet mudou a cara da humanização. Médicos obstetras, enfermeiras, doulas, psicólogas, pediatras, epidemiologistas e – principalmente – mulheres gestantes e seus companheiros juntaram-se no país inteiro através do espaço cibernético. As listas de discussão criaram um espaço amplo e democrático de encontro de ideias, e dos choques e embates gerados pelo conflito natural de propostas diferentes – por vezes divergentes – surgiu uma estrutura muito mais sólida, mesmo sem se pretender monolítica, que embasa as propostas de humanização do nascimento.

Em função de suas raízes, e da personalidade quem introduziu de forma sistemática este movimento, o Yoga impregnou a humanização do parto com as cores do misticismo e das práticas orientais indianas. Para alguns colegas de outros países isso soa muito estranho, talvez tão estranho quanto a relação estreita entre homeopatia e espiritismo, que entraram no Brasil pela mesma via, o médico lionês Benoit Mure, e acabaram se confundindo por muito tempo, o que causa uma rara estranheza em colegas franceses e alemães.

O que se questiona por ora é se essa específica vinculação entre a humanização do nascimento com sua origem ligada ao Yoga é natural, necessária ou deletéria. Para algumas pessoas, a humanização do nascimento caminha na mesma direção das ações “desmedicalizantes” do Yoga e outras práticas alternativas, e não é à toa que muitas mulheres que procuram partos humanizados também criticam o modelo médico contemporâneo ocidental e procuram formas de tratamento mais “suaves” e menos drogais. O Yoga é uma destas formas de procurar saúde sem a inserção de drogas no organismo.

Entretanto, para muitas mulheres cosmopolitas, a vinculação com essas práticas NÃO É natural e sequer desejada. Se acreditarmos que os pressupostos básicos da humanização sejam o protagonismo restituído, a visão interdisciplinar e a vinculação com a medicina baseada em evidências então nenhuma vinculação necessária existe com práticas não ortodoxas para a assistência humanizada ao parto. Podemos ser absolutamente ligados a uma medicina tradicional, alopática e endorcista sem ferir qualquer dos pressupostos fundamentais da humanização.

Isto parece certo, e parece não haver dúvidas quanto a este fato. Por outro lado, não vejo porque rechaçar a visão plural que estas práticas podem acrescentar, desde que entendamos que partos humanizados não significam (da forma como pejorativamente falam seus opositores) partos “naturebas”, em que se estimula um rechaço sistemático e dogmático à ciência oficial e aos tratamentos drogais e invasivos.

Assim, creio que a humanização do nascimento é uma casa grande e cheia de portas, por onde podem entrar várias formas de expressão do nascimento. Se as paredes forem mantidas de pé, com os pilares do protagonismo, a visão interdisciplinar e a vinculação com a medicina baseada em evidências, então as cores locais da humanização, sejam da Yoga, do budismo, ou até de um agnosticismo crítico, serão bem vindas.

A pluralidade das visões e o respeito às perspectivas diferentes devem ser pressupostos centrais no debate sobre o nascimento. Se existem infinitas maneiras de parir, tantas quantas forem as mulheres no mundo, então a forma como entendemos este movimento e suas expressões também precisa ser de incontáveis maneiras, tantas quantas forem as cabeças e mãos a construi-lo.

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