Arquivo do mês: janeiro 2022

O Corte

O fato de haver uma parte considerável da população que na terceira década do século XXI ainda debate a necessidade das episiotomias – corte no períneo para alargar o espaço de saída do bebê – dá a exata dimensão da misoginia estrutural da nossa cultura. Esta impressão fica mais intensa quando os próprios profissionais do parto confiam mais na superioridade da técnica do que na ancestral capacidade feminina de parir.

Há alguns anos me mostraram um vídeo onde professores da Faculdade de Medicina da minha cidade informavam a decisão de realizar um estudo randomizado sobre episiotomias. O antigo professor (e chefe do serviço) argumentava sobre a importância de se realizar uma análise para confirmar – ou não – pesquisas realizados em outros países. Achei surpreendente a decisão porque mais de 30 anos haviam se passado desde as pesquisas conclusivas sobre a ineficácia das episiotomias de rotina. Todavia, ficava claro que havia a esperança de se encontrar algum dado revelador no estudo realizado aqui no canto sul do planeta, além do desejo – inconfesso e inconsciente – de que algo surgisse para que fosse possível manter acesa a tênue chama de sua necessidade.

Em verdade, a falta de crítica sobre os significados últimos dos procedimentos médicos está na origem dessa aparente “curiosidade científica”. A episiotomia tem uma representatividade simbólica para a obstetrícia – desde sua origem – que ultrapassa seus efeitos clínicos. Ela é a cirurgia da onipotência, do poder fálico do escalpelo, a assinatura do patriarcado no corpo da mulher, a tomada de posse, a marcação do nome do autor na obra, mostrando quem realmente a produziu.

Sem entender as motivações inconscientes que nos levam a cortar o corpo de uma mulher no nascimento de seus filhos, nenhum estudo terá significado, pois enxergará apenas aquilo que a luz da pesquisa ilumina, deixando a chave dessa invasão ainda para ser descoberta, pois que se esconde na parte obscura da cena.

As episiotomias se mantém porque sua entrada na rotina dos nascimentos não se deu por questões racionais ou científicas; em verdade ela teve seu início triunfante por se adaptar às necessidades da obstetrícia nascente, que via na defectividade essencial das mulheres e seu mecanismo de parto a justificativa perfeita para que os cirurgiões pudessem usar sua arte para consertar e dar funcionalidade aos corpos equivocados, mal feitos, disfuncionais e essencialmente perigosos das mulheres.

O paradoxo entre as pesquisas mostrando a inutilidade dessa cirurgia (há mais de três décadas) e sua sobrevivência no imaginário e na prática obstétrica contemporânea só pode ser entendido se levarmos em conta as motivações poderosas e inconscientes que controlam a prática médica, assim como a percepção que a cultura tem das mulheres e seus corpos.

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O Dia em que Geni salvou a Terra

Um aspecto de Geni e o Zepelim – entre os inúmeros outros possíveis, além de infinitas metáforas e leituras – é aquele que o aproxima de “O dia em que a Terra Parou”, filme de 1951, dirigido por Robert Wise, estrelado por Michael Rennie e adaptado de “Farewell to the Master”, de Harry Bates.

Neste filme, realizado logo após a II Guerra Mundial e nos primórdios do império americano, uma nave alienígena chega à Terra trazendo uma ameaça dos líderes de outra parte do universo. Inicialmente Klaatu, o alien (auxiliado por seu escudeiro robótico Gort), tenta dialogar com os cientistas da Terra e, quando deixa claro que deseja se encontrar com os governantes para alertá-los das consequências de seus atos nefastos, passa a ser hostilizado e ameaçado pelos humanos.

Na música de Chico ocorre uma trama semelhante. Um Zepelim prateado desce à terra e seu comandante “cheirando a brilho e a cobre”, se espanta com nossa estupidez e “ao ver tanto horror e iniquidade” resolve tudo explodir. Entretanto, avisa que poderá mudar de ideia se a transexual Geni o satisfizer por uma noite. Tanto o forasteiro do Zepelim quanto Klaatu são portadores de uma ameaça externa por se chocarem com a realidade de um planeta governado pelo egoísmo e pela estrutura perversa da sociedade.

Em ambos os casos a solução vem pelo sacrifício e pelo amor. No caso de Chico, uma Geni que se entrega ao forasteiro temido e poderoso, salvando a Terra ao satisfazê-lo . Já na história de Harry Bates a salvação da civilização também ocorre pela tensão sexual que paira entre Klaatu e sua anfitriã, a senhora Helen Benson. Foi esse contato com o desejo que permitiu a Klaatu – mesmo ferido de morte – reconhecer a necessidade de dar à Terra uma nova chance.

Sim, eu reconheço uma leitura alternativa – e mais explícita – do filme dirigido por Robert Wise. Nesta visão, a película inaugura a “pax americana”. Os alienígenas – nobres, prateados, limpos e justos – seriam os americanos levando a democracia liberal e o capitalismo para os povos “bárbaros”, da Coreia ao Oriente Médio. Com estas regras vem o ultimato: comportem-se ou serão destruídos, no mínimo estrangulados como Cuba, Irã ou Venezuela.

Na história de Chico o mundo é salvo e tudo volta a ser “como dantes, no quartel de Abrantes”. Geni volta a ocupar o lugar social da puta desprezível e os preconceitos seguem inalterados. Um final muito mais triste do que a ficção científica de “O dia em que a Terra Parou”.

A música de Chico agora vai se transformar em filme e desde já me pergunto: haverá um Zepelim? Prateado mesmo? Geni será uma atriz trans? O final será melancólico como na música?

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Casamento

Na verdade eu acho que ainda é arriscado colocar “amor” e “casamento” na mesma frase quando estamos olhando para figuras da história. Essas instituições milenares não podem ser analisadas pelo prisma do “amor”, e por isso acredito ser justo colocar esta palavra entre aspas quando ela é analisada na perspectiva do tempo. Relações amorosas a unir as pessoas são um acontecimento recentíssimo na história da humanidade, algo de poucas gerações apenas.

Aliás, o casamento enquanto estrutura social sempre foi bastante estável, mas o grande responsável pela sua destruição foi o próprio amor. Enquanto o amor era dedicado a outras coisas – filhos, por exemplo – o casamento enquanto instituição estava a salvo. Foi sua entrada na equação dos encontros sociais o deflagrador da sua ruína, o desmanche do sólido castelo construído desde o início do patriarcado.

O amor e suas consequências significam a destruição dos casamentos. Se estabilidade social fosse um objetivo a buscar ele deveria ter se mantido na forma protocolar e insípida como foi 99% do tempo em que vivemos na terra.

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O Cipó

Eu já vi esse filme, e acho que podemos estar errando de novo. O supremo empoderamento da voz das pacientes e o descrédito da versão dos médicos pode eventualmente se voltar contra os próprios profissionais humanizados. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Criar demônios, desumanizando-os, não é certo nem justo. Criamos personagens sem matiz, a vítima e o carrasco, o bom e o mau, e isso raramente conta toda a história.

Hoje o foco das acusações é um intervencionista que muitos dizem ser arrogante, alguém que debochava da humanização e do parto no modelo de parteria. Espero que ele receba um julgamento justo por seus erros. Todavia, essa mesma energia vingativa que muitos lançam para ele pode voltar, como cipó de aroeira no lombo daqueles que agora apontam dedos. Já vi esse fenômeno, e sei como ocorre.

Eu recomendo cuidado com essas narrativas. No fundo não existe nenhuma diferença essencial entre médicos e pacientes; todos são gente, com suas falhas, erros, virtudes e acertos. Um certo cuidado com a história que se forma seria uma boa atitude.

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Sentidos

Eu vi muito da busca insaciável por sentido quando o tema é a morte. Diante do impacto que as despedidas oferecem aos que ficam, as pessoas não buscam descobrir a realidade da morte, do adeus, do infinito de separação inexorável; elas querem conferir à morte um sentido. Para isso precisam negar muito da realidade, não apenas sobre quem se foi mas também sobre a própria morte, como e porque ocorreu, de quem foi a culpa e a responsabilidade. Para conseguir este sentido não se furtam de colocar a morte numa linha de causalidade tão fantasiosa quanto aliviante e consoladora. Assim fazendo, pedem às mentiras que ofereçam um lugar seguro para, assim fazendo, garantir sentido ao caos.

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