Arquivo do mês: janeiro 2022

Chorar

Uma mulher não chora apenas por um homem, mesmo que seja o seu. Ela chora – principalmente!! – por ela mesma, suas dúvidas, fraquezas, fracassos, tristeza e perdas, mas também diante de suas vitórias e alegrias. O maior e mais completo homem do mundo (que monstro seria esse?) não tem o poder de evitar a tristeza e a dor de uma mulher.

Não há sujeito que possa controlar, neste nível, o sentimento de alguém. Afinal, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, e não existe homem ou mulher capaz de ser o antídoto para a angústia e a finitude que todos carregamos como destino.

Não ofereçam toda essa importância ao homens, muito menos aos outros. Alienar-se da responsabilidade pelo próprio destino produz apenas ressentimento e estagnação.

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Cancelamento

A tragédia de eleger ídolos é o fato inexorável de que eles sempre vão trair esse amor, mais cedo oi mais tarde. Cancelar suas próprias músicas em nome de um movimento “woke” absurdo, autoritário, reacionário e cafona exatamente agora, quando essa moda está em plena decadência, é uma tristeza e uma decepção.

Mas será que ele vai cancelar o resto? Quer apostar como é fácil achar machismo em TODAS as suas músicas, dependendo da paranoia de quem analisa? Pois agora vou cantar “Com açúcar, com afeto” com mais prazer ainda, e vou fazer isso como uma profissão de fé na liberdade da arte e um libelo contra o obscurantismo autoritário da geração “woke”.

Anotem aí: é por esse tipo de censura sobre obras artísticas – ou seu nome atual, “cancelamento” – que a direita ganha força. É uma TRAGÉDIA ver gente da esquerda aplaudindo que músicas, quadros, livros, artigos e debates sejam cancelados, interrompidos e/ou proibidos.

O desastre que a “geração floco de neve” produz no pensamento de esquerda é imensurável. Oferecer a grupos específicos o direito de apagar a memória, cancelar a história e desvirtuar os acontecimentos do passado é digno dos piores pesadelos orwelianos. Quando vejo críticas ao autoritarismo e à censura que estes grupos apregoam é com tristeza que percebo que elas partem da direita, e as vezes até de seus grupos mais extremistas.

Com essa esquerda identitária e autoritária que temos, quem precisa de direita?

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Abusos sexistas

Na mesma semana que uma música de Chico Buarque é cancelada por ser pretensamente “machista” uma lojista e “influencer” de São José dos Campos-SP coloca um cartaz proibindo a entrada de homens na frente da sua loja no shopping – porque sua presença seria incômoda para as mulheres. As desculpas para estes atentados à livre expressão e à livre circulação, ao meu ver, são absurdos e indecentes.

Não são apenas os fanáticos religiosos e os anticomunistas as ameaças à democracia, até porque estes nunca ousaram cancelar músicos e proibir a entrada de um gênero em um espaço de uso público. Os identitários e sua perspectiva autoritária, sectária são um risco ainda maior porque suas propostas são travestidas de “boas intenções” e “proteção às minorias”.

Imaginem um bolsonarista impedindo gays, trans ou negros de entrar em seu estabelecimento. Pensem no escândalo que seria. E se fossem judeus? Entretanto, vetar expressões artísticas e proibir circulação de homens dentro de lojas não causa nenhum furor – ou infinitamente menos do que deveria. Quantos abusos mais serão necessários até percebermos que a lei é para proteger a todos, e não apenas os grupos que desejamos beneficiar?

Não há defesa para discriminação e sexismo. O cartaz é discriminatório, inconstitucional e francamente ilegal. Posso entender o que a levou a fazer isso, mas nada justifica esse tipo de discriminação de gênero.

Imaginem se fosse o contrário: “Proibido Mulheres” em um bar, no estádio de futebol, ou na Casa do Estudante – um caso famoso aqui em Porto Alegre nos anos 80. Pior: imagine que um grupo de transexuais tivessem, por mais de uma vez, entrado no estabelecimento fazendo zoeira, bagunça, falando alto ou apenas sendo inconvenientes. Em função destes contratempos a dona, cheia de justificativas, coloca um cartaz à vista de todos: “Proibido entrada de transexuais”.

IMAGINEM O (JUSTO) ESCÂNDALO!!!

Vejam… a situação é grave porque a dona do estabelecimento não se refere aos comportamentos inadequados na loja, tipo espiar, ficar olhando as modelos, censurar namoradas, etc. Não… ela acusa o gênero masculino, todos os homens, sem distinção. Se alguém faz isso com negros, gays, indígenas ou mulheres isso tem um nome: preconceito, e inclusive tal conduta está tipificada no código penal. Por que poderia ser justo impedir que o gênero masculino fosse proibido de entrar em uma loja quando uma ínfima minoria causou problemas?

O argumento do “código de vestimenta” – ou seja, impedir que alguém sem camisa entre na loja – não cabe. Você pode pedir para que um sujeito sem camisa saia da loja, mas não pode aceitar um sujeito ser expulso por ser gay ou negro. E também não poderia expulsar um sujeito (ou impedir sua entrada em áreas publicas) por ser homem.

Se a gente quer banir os preconceitos precisa ser contra todos, sem exceção, e não apenas os preconceitos que nos atingem. Discriminar os homens pelo mau comportamento de alguns poucos não pode ser tolerado.

Sexismo e racismo são iguais em sua expressão danosa e destrutiva.

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Blockbuster

Hoje eu pensei num filme que ainda não existe, mas bem que um diretor desses de Oliúde poderia se interessar por este roteiro.

Imaginem um juiz brazuca que se corrompe e ganha grana “por fora” para destruir empresas brasileiras que incomodam as suas concorrentes no exterior. E ganha muito dinheiro, porque esta empresa vale bilhões e é alvo de cobiça de construtoras de outros países. O problema é que esse dinheiro grosso não tem como simplesmente aparecer na conta do juiz, porque ficaria óbvio que esses valores só poderiam vir de algum lugar sujo. Todo mundo sabe o quanto ganha um juiz e a esposa dele, e sabe que ele não tem dinheiro de família, negócios paralelos ou qualquer outra fonte de renda. Então, como fazer essa grana ganha ficar “limpa”? Levando ela em um “lava jato”? Não, seria muita bandeira…

Solução? Sempre se acha….

Depois que este juiz se afasta da magistratura a empresa Alvaral e Marcez – a que mais lucrou com a quebradeira das empresas brasileiras contrata esse cara para ficar um ano inteiro no exterior como “aspone”, batendo ponto, indo na firma pra tomar cafezinho e ganhando um salário nababesco de mais de 3,5 milhões. Depois de um ano coçando o saco, ele volta para o Brasil, com a sua propina limpinha para depositar na sua conta no Banco do Brasil, e ainda por cima resolve entrar na política para ser o presidente do país que ele saqueou.

Não é um roteiro genial? Só não garanto que seja original….

Claro que isso nunca aconteceu, mas bem que poderia ser um roteiro muito maneiro para um filme com George Clooney no papel do juiz sacana, Julia Roberts no papel da esposa dele

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Morte e inexistência

Minha pergunta é bem simples: qual seria o sentido de uma vida ética onde não se pode constatar nenhuma recompensa? Essa lógica não faz sentido no universo imediato que nos rodeia, onde nossas ações – inclusive as mais altruísticas – são em verdade, mediadas por interesses pessoais – mais ou menos evidentes. O ato de ajudar um pobre alivia nossas culpas burguesas, o ato de amar nos promete (mesmo que ilusoriamente) sermos amados em retorno, o ato de compaixão traz a promessa de ser cuidado de volta, nossa luta pelas causas nos oferecem um sentido de viver, etc. A própria solidariedade é questionável pois em cada ato fraterno existe a fagulha egocêntrica que dispara a ação.

Portanto, agir para o bem alheio acreditando verdadeiramente na inexistência de uma vida após a morte agride essa lógica. Repetindo: se para a posteridade não faz NENHUMA diferença o bem que se fez, se não resta culpa, remorso, tristeza, saudade ou lembrança qualquer, quem racionalmente agiria contra seu gozo e satisfação imediatos? Por que? Qual o sentido dessa ação?

Não creio em éticas fora da construção humana. Um leão despedaça uma gazela sem dó. Só o humano enxerga nisso algo cruel. Como explicar a fraternidade fora de um sentido absolutamente egoístico?

Pois eu digo que diante da morte o que nos move é a incerteza. Ninguém aqui tem certeza absoluta e inquebrantável do nada que o aguarda. A ninguém é dado esse saber, transformado em confiança pétrea na inexistência póstuma. Por isso, por ter consigo escondida essa dúvida sobre as consequências últimas de nossas ações, escolhemos a solidariedade, a fraternidade, o amor ao próximo. Não por uma ética natural, por uma moral adaptada de uma força incorpórea da natureza, mas pela dúvida, pela incerteza corrosiva do destino que nos aguarda.

Por isso a pergunta, que para mim continua válida: se o nada nos aguarda, qual o sentido de uma ética voltada ao outro?

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Cabiria

Agora falando sério…

Há algumas semanas eu escrevi um conto onde o personagem principal não tinha nome. Quando fui descrever sua principal obra, precisei escolher um nome para o personagem e uma palavra veio à minha cabeça: “Cabiria”. O livro desse escritor fictício (chamado James Wilbur) então se chamou “Echoes of Cabíria”.

Depois que escrevi isso fiquei pensando porque havia escolhido esse palavra que brotou espontaneamente na minha cabeça (que eu não sabia sequer se era um lugar ou uma pessoa).
Depois que terminei de escrever o conto fui procurar no Google e me surpreendi com o que descobri. Cabiria é o nome da personagem principal do filme de Federico Fellini “Le notti do Cabiria” (As Noites de Cabiria) de 1957, estrelado por Giulietta Masina (que na época era esposa de Fellini) e que conta as desventuras de Cabiria, uma prostituta de uma pequena cidade italiana. O filme é belíssimo ao apresentar a fantasia romântica das mulheres, o culto ao amor, o sofrimento, as decepções, a tristeza e a esperança que teima em resistir mesmo diante de todas as adversidades.

A atuação de Giulietta Masina é impressionante. Umas das atuações femininas do cinema que mais me marcaram. Quem é mais velho vai lembrar de Dirce Migliaccio como uma das “irmãs Cajazeiras” da novela O Bem Amado de Dias Gomes. Ambas elétricas, engraçadas e pequeninas. Cabiria é vibrante, firme, forte, enérgica, “barraqueira” e ao mesmo tempo feminina, dócil, frágil, delicada e doce. O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1958, e não poderia ser mais merecido.

Passei muito tempo tentando entender por qual razão esse nome brotou do meu inconsciente. Por certo havia um “saber não sabido” que me direcionou para essa escolha, mas por quê? O que me atraía num filme que jamais havia assistido? E por que me impressionou tanto?

A verdade é que, ao terminar o filme, eu fui obrigado a exclamar:
– Put* que p*riu, que filme!!! Que atriz, que história, que beleza…

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Dos Olhos para Dentro

Muito vi no consultório, em especial atendendo pacientes carentes na Liga Homeopática, mulheres que me descreviam situações de maus tratos, grosseria, abuso financeiro e até agressões físicas no ambiente doméstico. Diante de histórias de colorido trágico a tentação era sempre se posicionar ao lado da suposta (porque até uma construção fantasmática seria possível) vítima e orientá-la a romper esse laço. Quem não se deixaria tocar pela injustiça transformada em violência e abuso? E por certo que avancei o sinal algumas vezes embarcando junto com elas em sua narrativa de dor, angústia, mágoa e ressentimento.

Entretanto, com o tempo percebi que o máximo a fazer é oferecer ouvidos compassivos, uma atenção respeitosa e encaminhá-las para uma instância de proteção, quando necessário. Tentar orientar, aconselhar, interpretar e desbaratar os laços contraditórios e caóticos que amarram o desejo é uma tarefa que não me cabia. Nessas horas eu olhava para a face sofrida dessas mulheres e pensava no infinito que se encerrava de suas retinas para dentro, o mundo de cores, dores, alegrias, aflições, gozos e tragédias que todas carregam. Qualquer conselho seria um desrespeito com sua história, sua subjetividade e sua unicidade.

Cada um sabe onde seu sapato aperta, cada um conhece seu desejo, ou percebe para onde ele aponta. Ou, com o diria Caetano Veloso…

“Eu não sou cachorro não
A gente não sabe o lugar certo
onde colocar o desejo
Todo beijo, todo medo,
todo corpo em movimento
está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto, todo pranto,
todo manto está cheio de inferno e céu
O que fazer com o Deus nos deu
O que foi que nos aconteceu
Quando a gente volta o rosto
para o céu e diz
olhos nos olhos da imensidão
Eu não sou cachorro não….”

(Pecado original) 

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Nada

Meus avós morreram há 30 anos. Lembro ainda, mas meus filhos quase nada guardam deles. Em três décadas eles foram sendo lentamente apagados da lembrança direta de quase todos. Quando eu e meus irmãos – e alguns poucos primos – morrermos as últimas imagens de nossos avós descerão à tumba conosco. Ficarão em algum livro, numa foto em preto e branco, num registro fotográfico perdido em um sótao.

Minha avó paterna, um pouco antes de morrer com mais de 90 anos, me dizia “Eu tive oito filhos, mas queria ter doze. Sammy foi quem não quis mais”. Ela me ensinou que não se pode julgar os valores de alguém fora do contexto em que estavam inseridos. Hoje em dia suas escolhas seriam escândalo; em sua época, um reforço da sua feminidade e um sentido de propósito nobre e belo. Nunca esqueci aquela curta conversa à beira do seu leito enquanto ela me falava de suas vida e seus tesouros.

Minhas avós ainda estão guardadas na minha mente, com carinho e saudade, mas sou da última geração que ainda vai carregá-las na lembrança.

Em pouco tempo eu também vou abandonar este plano terreno e bem o sei que em alguns poucos anos ninguém se lembrará de mim. Vejo meus netos pequenos e fico nutrindo a ilusão que eles se lembrarão de mim, contarão as minhas histórias, guardarão minhas piadas e caretas. Desejo avidamente que eles guardem algo de mim, mas sei que não é justo pedir isso a eles; não há como querer que eles me garantam a imortalidade. O meu destino – o nosso – é virar esse fragmento, esse pedaço ínfimo de alma que constitui cada um que segue nossos caminhos.

Falo ainda bastante dos meus pais para os meus filhos, como a dizer “guardem eles com vocês quando eu me for”, mas sei o quanto o tempo é cruel – e sábio – ao nos fazer esquecer um pouquinho dos antigos amores a cada dia que se passa.

Daqui a pouco nada restará de mim. Ninguém saberá quem fui e o que fiz. Nenhuma pessoa terá a menor ideia de minha curta passagem por aqui. Serei um minúsculo ponto apagado, sem luz. Por esta razão, creio que o momento de agora é o único que temos para oferecer algum sentido à nossa vida. No fim nada ficará, nada restará por muito tempo.

Nada.

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Padaria

Ideia para padaria hipster:

“Pão de Mia”

**Venha se contaminar com nossas especialidades. Uma epidemia de sabores e variedades. Covid seus amigos e venha nos conhecer.**

Nossas especialidades:
Massa acrítica
Fermento Pfizer
Receita Moderna
Responsabilidade técnica, chef Eva Sinah

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Olavão

Muitos chamam Olavão de burro, ignorante e idiota. Acusam-no de ser um embusteiro e um farsante. Acho isso bastante errado. Olavo de Carvalho escrevia muito bem – mesmo seus críticos admitem – e tinha cultura e erudição incomuns. Leu muito mais autores clássicos do que 99% dos seus críticos.

Burrice e ignorância vem da falta de conhecimento e de informação, o que não é o caso dele. Olavo tinha outros perversão do saber, um conhecimento e uma erudição a serviço de ideias fixas, controladas por uma personalidade paranoica. Isso não é burrice, é o uso doentio do conhencimento. Sua cultura era uma ferramenta de guerra, uma arma para destruir, não para iluminar. Mas, assim como inumeros outros personagens da história, está longe de ter sido um sujeito ignorante.

Agora Olavão morreu, ainda jovem (mais jovem que Lula, por exemplo). Não há como negar a importância de Olavo de Carvalho no pensamento conservador no Brasil e não se trata de execrá-lo (muito menos exaltá-lo) em sua morte. A mim interessa mais entender porque um sujeito como ele fez tanto sucesso. A extensão e o significado de suas ideias no pensamento de uma parcela da população é algo que precisa ser entendido. Conheci alguns de seus seguidores e vejo o quanto de fascinação ele exercia sobre essas pessoas.

Olavo deixa uma importante lição. Uma não, centenas. Um sujeito que elege um presidente pela força de suas ideias tem muito a ensinar. Se a gente não prestar atenção em Olavão, suas estratégias e a sedução que exerceu sobre milhões de pessoas, seremos obrigados a repetir o drama de sua influência.

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