Arquivo do mês: dezembro 2021

Idade

Não se deixem enganar tão facilmente pelos filtros, maquiagens, jogos de luz e cirurgias plásticas. De manhã cedo, logo ao acordar, no trajeto entre a cama e o banheiro, todo mundo tem a exata idade da certidão…

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Cirurgia… de verdade

Uma lembrança que tive hoje de uma história antiga sobre as inúmeras hipocrisias na medicina.

Em um hospital de periferia no qual trabalhei logo após me formar em medicina diagnostiquei uma paciente com um tumor ovariano. Como era jovem e tinha características chamativas na ecografia (um ovário aumentado, com materiais densos como dente, osso, cabelo, etc) percebi que se tratava de um teratoma cístico benigno, tumor de células totipotenciais do ovário que produz este tipo de material. Nada grave, mas pelo tamanho valia a pena ser retirado.

Marquei a cirurgia para a semana seguinte. No dia marcado, solicitei que a paciente subisse ao centro cirúrgico para o preparo e fui me escovar. Ao entrar na sala encontrei a paciente em uma posição pouco usual (deitada de costas com as pernas afastadas) e perguntei à enfermeira do bloco a razão por terem deixado a paciente nesta posição.

– Ora, para a cirurgia doutor. Não vai manipular o colo?

– Não. Essa é uma ooforectomia (retirada de ovário) por teratoma. Olhe na grade de cirurgias. Vocês confundiram a paciente?

– Não doutor, claro que não!!! Sabemos que é uma cirurgia de “ovário”. Por isso a preparamos assim.

Disse isso e fez com os dedos das mãos curvados o sinal de aspas enquanto falava “ovário”.

Puxei a enfermeira para o lado enquanto o anestesista preparava seus equipamentos para anestesiar a paciente. Falei com um misto de espanto e rispidez, mas sussurrando para não causar desconforto na sala. A enfermeira, também surpresa, me explicou a situação.

– Desculpe doutor, eu não sabia que era uma cirurgia de ovário de verdade!! Por favor, me perdoe. Já vou arrumar a paciente na mesa como o senhor quiser.

– Ok, mas explique porque isso, por favor…

Ainda envergonhada ela explicou.

– Acontece que os médicos da cidade usam “cirurgia de ovários” para falsear os relatórios de ligadura tubária. Sempre que vemos essa cirurgia marcada na grade do bloco cirúrgico sabemos que se trata de outra coisa. Por isso preparamos a paciente para a ligadura, na forma como é usualmente feita.

No início dos anos 90 as ligaduras eram proibidas ou seguiam uma burocracia muito difícil de ser alcançada. Boa parte delas era realizada secretamente durante as cesarianas. Quem não se atrevia a engravidar apenas para “desligar” acabava engrossando a estatística de tumores ovarianos. Até hoje lembro do espanto da enfermeira quando lhe expliquei que a cirurgia era mesmo no ovário. Sim, de verdade. Juro…

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Imperdoável

Muito melhor do que “Não olhe para cima” é o último filme da Sandra Bullock, “Imperdoável”. Relata a história de uma mulher que sai da prisão após duas décadas de encarceramento e sua busca para resgatar o que resta da sua vida. Muitos momentos do filme foram preciosos, mas em uma de suas fala ela responde a alguém “As pessoas da prisão são iguais às daqui“, e isso sempre me pareceu uma verdade que tentamos esconder.

Para aceitar as ações selvagens e indignas impostas aos prisioneiros é necessário desumanizá-los, enxergá-los como animais ou como se fossem de outra espécie, diferente da nossa. Esta é a mesma estratégia que usamos ao tratar os inimigos em uma guerra ou os escravos que nos servem. Apenas quando criamos uma barreira entre a nossa essência e a deles é que se torna possível aceitar a violência que lhes impomos, seja produzindo ou testemunhando

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Não olhe para o lado…

Assisti “Don’t look up” porque não resisti à pressão. Todavia, pude entender como é possível enxergar os dois polos do espectro político tentando se apoderar da narrativa. Os complacentes, pró BigPharma, admiradores do Bill Gates podem se ver na história como “mocinhos”, da mesma forma como a extrema direita, anti globalista que admira o Steve Bannon, pode se enxergar na pele daqueles que “avisaram desde o princípio” a intenção dos poderosos. E todos falam em nome da (sua) ciência, cada qual olhando o livro sagrado pela sua própria perspectiva.

* Acho, aliás, bem ridículas essas gravurinhas que colocam algumas figuras nacionais ao lado dos seus respectivos representantes na história. A vida é mais complexa que esses clichês cafonas. *

Também não acho que seja comédia, apesar de ser paródia. A parte final do filme, inclusive, onde se tentou oferecer humor, não ficou legal e pareceu forçado. O que sobrou para mim foi o tema que sempre tentei debater: não existe ciência isenta no capitalismo. Não existe conhecimento infenso às influências do seu tempo e do capital. A verdadeira pandemia é o capitalismo, sua concentração obscena de poder, a divisão de classes e a manipulação das mentes em nível global para evitar a convulsão social que se aproxima.

Sabe o que mais? Na minha perspectiva o filme é de um otimismo irreparável. O cometa não é o fim do mundo (assim como aquele dos dinossauros também não foi) mas a sua restauração. O cometa é a revolução dos desvalidos, dos excluídos, dos descamisados, dos sem terra e dos sem teto. A bola de fogo que se aproxima vai varrer o velho modelo que está destruindo o planeta – e nos levando junto. O capitalismo pode enviar quantos foguetes quiser, quantas bombas desejar, mas não vai impedir que a história siga seu caminho; o cometa manterá seu rumo. Afinal,

“Quem vai evitar que os ventos
Batam portas mal fechadas
Revirem terras mal socadas
E espalhem nossos lamentos
E enfim quem paga o pesar
Do tempo que se gastou
De las vidas que costó
De las que puede costar?”

(Pablo Milanez & Chico Buarque)

O filme é uma razoável imagem dos nossos tempos, mas não é uma receita para o que devemos fazer…

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Cada Tempo em seu Lugar

É verdade esse bilete…

Tem algumas pessoas que eu acompanho na Internet porque acho talentosas e promissoras. Têm opiniões fortes, talento para escrever, boas ideias e princípios. Entretanto, vez por outra, vejo nelas explosões de autoexaltação, exposição desnecessária de feitos e conquistas, explicações inúteis, brigas com detratores e exaltação do ego, demonstrando uma falha nítida de sua autoestima que se expressa pela necessidade de afirmar-se publicamente.

Muitas vezes chego a escrever para estas pessoas uma nota em privado, com o sincero objetivo de mostrar que esse caminho não é o melhor. Escrevo algo como:

“Querido(a) amigo(a)… Defender-se dessa maneira não faz mais do que acusar o golpe. Quem gostava de você não gostará mais apenas porque publicou seu currículo para mostrar autoridade. Listar suas qualidades e conquistas mostra que você não as considera tanto assim, por isso precisa olhar para elas escritas na tela à sua frente para enxergar nelas o valor que acredita possuírem. Não alimente os trolls; essa e a regra mais básica da Internet!!! Não responda o fogo dos franco atiradores, pois ao responder você expõe onde se encontra, e mostra seus pontos fracos.

Seja humilde, não se leve tão a sério. Aceite a discordância e até a tolice alheia. Não permita que alguém com ódio lhe contamine. Meu pai já dizia ‘Só podes me fazer mal se me fizeres mau’. Acredite, até você tem ‘pontos cegos’ e muitas burrices particulares. Seja caridoso(a) com as falhas alheias e procure como virtude essencial a generosidade do saber. Em qualquer discussão virtual fale seu ponto de vista sem medo e sem pudor; caso eles não gostem ou não aceitem, o problema não é seu; seu pecado será apenas calar por covardia.

Lembre-se: ninguém convence ninguém pela internet; não há conversões e não somos capazes de iluminar mentes com meia dúzia de palavras bonitas e bem costuradas. Falamos muito mais para nós mesmos do que para os outros, mas nossas palavras podem se associar ao pensamento de alguém que se julga solitário em sua visão de mundo. Isso pode ajudá-lo a se sentir menos só em seus projetos e perspectivas. Não se leve tão a sério; todos somos absolutamente desprezíveis no grande contexto. Em muito pouco tempo não seremos mais do que o nome em uma lápide e nada além de uma lembrança que se apaga lentamente na memória dos afetos que nos cercaram.”

Apesar de me iludir que isso poderia ajudar alguém, nunca tive a coragem de mandar a mensagem efetivamente, pois acho que soaria pedante, arrogante e intrometido. Acabo desistindo, apagando tudo o que escrevi e pensando com os meus botões:

“Por pior que isso possa parecer, existem coisas que só aprendemos com o tempo, caindo ao solo para só depois levantar. Aí eu me lembro que essas pessoas são jovens, tem ímpetos de mudar o mundo, acreditam-se poderosas e imantadas por uma missão grandiosa na vida e que na idade delas eu pensava de forma muito semelhante. Minha semente de ponderação e autocrítica encontraria um terreno pouco propício, e daria a clara impressão de inveja ou despeito. Mais ainda, sou obrigado a concordar que no lugar deles eu não daria ouvidos a um velho arrogante tentando me dar conselhos.”

Nesses momentos eu lembro da música “Cada Tempo em seu Lugar” do Gilberto Gil, cujo nome é o resumo desses meus pensamentos: Ela diz em seu final:

“Cada tempo em seu lugar
A velocidade, quando for bom
A saudade, quando for melhor
Solidão: Quando a desilusão chegar”

Para cada um de nós há o tempo em que nos desiludimos, em especial sobre nós mesmos. Esse é um dia triste, chuvoso, frio e escuro, mas um dia para celebrar. Afinal, ainda é melhor vermos o dia feio e úmido como ele verdadeiramente é do que manter-se eternamente rodeado de ilusão e engano.

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