Arquivo do mês: agosto 2020

Modas

ISSO SIM QUE ERAM MULHERES DE VERDADE

Basta aparecer uma mulher – ou um homem – vestido com as roupas dos anos 50 ou 60 para a gente dizer que no tempo atual perdemos nosso senso estético. “Naquele tempo as mulheres eram muito mais femininas”, é uma frase bem cliché para estes momentos.

Cada época tem sua beleza, e não há beleza superior pois que estas são construções sociais. Via de regra achamos mais bonitos os homens e as mulheres da nossa época, de quando descobrimos nossa sexualidade, ou até antes. Fixar-se na beleza e seus significados de uma época passada é natural, mas é apenas uma percepção subjetiva. Afirmar “no meu tempo é que…” só revela nossa dificuldade de adaptação a novas estéticas e novos valores, e não uma real qualidade das coisas do passado.

A moda, a música, os valores morais, são construções sociais, mutantes, dinâmicas e que refletem os valores sobre os quais nos assentamos. Não faria sentido que as mudanças sociais e tecnológicas não viessem a imprimir transformações na estética e nos comportamentos, mas isso não significa que as coisas de hoje são “melhores” ou “piores” do que as do passado, apenas que se adaptam às transformações e os entornos sociais.

A sociedade – o outro – dita as regras através dos costumes. Somos prisioneiros disso em certo nível. Por isso mesmo existem as “modas”, as “tendências”, no vestir, no falar, no pensar, na ciência, no próprio enxergar. Imaginar a absoluta independência do sujeito ao olhar da sociedade seria absurdo e irreal.

Em verdade é até possível arriscar um enfrentamento em alguns assuntos mais superficiais, como o tamanho do biquíni, a sunga de crochê ou o ritmo do momento, mas os valores mais profundos ligados ao patriarcado e ao capitalismo – vigas mestras da sociedade – são guardados de forma muito cuidadosa, pois que asseguram a estrutura da sociedade como a conhecemos.

Em tese um homem ou uma mulher se veste “como quiser”. Na prática são tantos os condicionamentos e barreiras que acabamos vestindo e usando os padrões ditados pela cultura.

As mulheres do meu tempo eram charmosas, elegantes e tinham sua sensualidade, mas é tolice dizer que hoje as meninas e meninos, envoltos em outros valores e contextos, também não a tenham. O melhor é aceitar que esta perspectiva é apenas minha forma particular de ver o mundo, e não “o padrão”, que lamentavelmente se perdeu no tempo.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Espaços estanques

Estava eu aqui pensando nos limites entre “vida profissional” e “vida privada” quando lembrei de um dos meus encontros com as parteiras do México – em especial Angelina Martinez, de quem tenho a honra de ser amigo até hoje. Em uma de nossas visitas à sua Casa de Parto em Temixco, próximo de Cuernavaca, depois de uma manhã atribulada resolvemos fazer uma pausa para almoçar.

Enquanto comíamos a deliciosa comida que sua nora nos preparava vi Angelina cruzar a cozinha da casa e entrar em seu quarto segurando a mão de uma grávida. Alguns minutos depois, saiu com a gestante, despediu-se dela e se uniu à nós na mesa. Intrigado com a cena, perguntei-lhe quem era.

Ahh, disse Angelina, apenas uma cliente que veio fazer “rebozo”. Como os leitos da Casa de Parto estavam todos ocupados eu a trouxe para cá e fiz a “sobada” e o rebozo na minha própria cama mesmo.

A sua explicação me deixou espantado. Tendo passado muito tempo nos Estados Unidos visitando consultórios médicos – onde o contato é restrito aos rígidos limites profissionais e onde sequer o telefone pessoal do médico se tem acesso – aquela cena me chocou. A naturalidade com que Angelina mesclou espaços privados com públicos estava muito além da minha experiência até então.

Pensei nas roupas brancas, no estetoscópio pendurado no pescoço, no dialeto mediquês, nas várias salas que precisa-se vencer até chegar ao profissional, na mesa que separa corpos e hierarquias, nos diplomas na parede e no discurso empolado e pude perceber com inusitada clareza que são todos tão somente artifícios produzidos para afastar os médicos de seus pacientes, numa espécie de redoma de significados e palavras que, ao mesmo tempo que os protege, também os exalta. Criamos barreiras para não permitir que o paciente enxergue nossa humanidade, permitindo a eles apenas a visão idealizada que constroem sobre nós.

Angelina não precisava desses signos e por esta razão não usava nenhuma barreira para afastar seu mundo do mundo de suas “gorditas”. Depois desse dia passei a enxergar de forma mais crítica todas as formas que criamos para manter separados estes espaços.

Obrigado também por isso, Angelina.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Corporação

Sobre brigas na corporação…

Uma coisa sempre me chamou a atenção no comportamento dos médicos: nunca encontrei neles qualquer superioridade (ou inferioridade) moral ou intelectual quando comparados a qualquer outra profissão, mesmo as mais “humildes”. Médicos são humanamente imperfeitos como qualquer sujeito.

Isso me marcou desde o tempo de faculdade quando vi famosos professores da minha área fazendo fofocas mordazes para grupinhos de residentes atacando seus colegas de cátedra. Eu pensava: “mas… a vida na Academia é assim mesmo, como um recreio de escola?

Sim, sem tirar nem por. Esses personagens podem ser tão violentos e agressivos nas críticas quanto os piores políticos do baixo clero. Não havia nenhuma sofisticação neste grupo, o que foi um choque de realidade que agradeço por me alertar para a natureza humana.

Entretanto, apesar de achar natural que haja lados e perspectivas distintas a defender, eu acho curioso esse ataque à legalização do aborto por parte de setores da corporação. Sério que existem facções na AMB, no CFM e até na FEBRASGO contrárias à legalização do aborto? Agora a moda é atacar candidatos por serem favoráveis ao aborto seguro, “lenientes” com a “invasão” das doulas e por reconhecerem a existência de violência obstétrica. Mesmo?

Pois vejamos; ser contra as doulas é uma bobagem. Elas já ganharam o jogo, estão presentes em todo os lugares. Legislações municipais e estaduais se multiplicam. Lutar contra elas é perda de tempo, e a atitude correta é essa mesma: adaptar-se a essa nova realidade, firmar parcerias, regulamentar e assimilar. As doulas representam um avanço com embasamento científico e aceitação popular, uma viagem que não tem volta.

Quanto à violência obstétrica, o mesmo. Fingir que não existe é estupidez. Uma atitude sábia é reconhecer e, pelo menos, se comprometer em combatê-la. Negar é suicídio, tolice, burrice.

Ser a favor da descriminalização e posterior legalização do aborto não é uma questão moral, mas de saúde pública. Ponto. Os médicos deveriam estar na linha de frente da defesa desse DIREITO.

É triste ver como as organizações médicas frequentemente andam a reboque da história. Há alguns anos apoiaram descaradamente a candidatura de Aécio. Depois disso foram parceiros no golpe de 2016 e ainda agora associam-se ao bolsonarismo, assumem posturas anacrônicas como o combate à liberalização do aborto, a exaltação da Cloroquina, o desmonte do SUS e o apoio à um genocida na presidência.

Não acredito que a saúde do Brasil pode se fortalecer sem a presença de médicos comprometidos com o oposto destas posturas, que alguns integrantes de relevância nas suas entidades abraçam. Por enquanto a medicina brasileira está tristemente parecida com o pior de sua política.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

Tempo

No início do século XX iniciou-se a instalação de telefones residenciais em Paris. Além de serem caros eles receberam o rechaço inicial do segmento mais rico da população, exatamente quem teria dinheiro para adquirir uma linha.

Mas por quê? Ora, porque o telefone invadia as casas; as linhas que chegavam na sala ou na biblioteca entravam através das paredes sem cerimônia alguma e a voz de um desconhecido podia ser escutada na intimidade do lar. Era como se alguém, qualquer pessoa, entrasse na sua sala de estar sem ser anunciado. Lembro vagamente de uma descrição de Marcel Proust dizendo pela boca de um personagem “Fulano é desses novos ricos, sem estirpe, que tem até telefone em casa“.

Estamos no ocaso da vida privada. A ideia antiquada de privacidade está desaparecendo. Câmeras nas ruas, nas praças, nos smartphones e em todos os lugares públicos demonstram que intimidade é um conceito que tende a desaparecer.

Essa derrocada da vida íntima também ocorre no campo das profissões. Cada vez mais vemos clientes (ab)usando os recursos cibernéticos para acessar os profissionais à distância, tornando-se necessário estabelecer limites claros para os atendimentos, sejam eles quais forem.

Não há dúvida de que jogar seus limites na cara do outro é uma arrogância no mínimo desagradável. Também é certo que uma mensagem por whatsapp enviada de madrugada pode ser vista no início da manhã, sem fazer disso um drama ou uma discordância. Equilíbrio é essencial, mas esse parece ser um caminho sem volta.

Eu recebi a vida inteira consultas simples de pacientes por whatsapp e Messenger (e antes disso por telefone), e até mesmo de completos desconhecidos de outros países (algo que você não encontra nos Estados Unidos, por exemplo, onde estes limites são muito rígidos). Reconheço que todos eram cuidadosos ao invadir esse espaço e sempre os atendi muito bem porque tenho prazer em ajudar e dissipar angústias gratuitamente – mas não exijo isso de ninguém e muito menos cobro isso de pessoas que fazem do conhecimento seu ganha-pão.

Por outro lado eu entendo que pessoas expressem seus limites, e de forma muito clara, nos âmbitos profissional e pessoal. Conheço médicos obstetras que viajam em fins de semana alargado para lugares sem celular ou TV, incomunicáveis, deixando seus colegas cuidando de seus casos. Meu professor de obstetrícia na faculdade jogava futebol numa cidade vizinha com os amigos todos os sábados, e quem entrasse em trabalho de parto nesse dia jamais conseguiria encontrá-lo. Todavia, todas as suas pacientes tinham conhecimento disso. Estaria errado? Não creio. Esse era o seu limite.

Existem obstetras que trabalham em hospitais, centros de saúde, UPAS ou clínicas para os quais às 18h de sexta feira nenhum assunto do seu trabalho poderá atrapalhar seu fim de semana. Prezam a privacidade, a família e o lazer. Estariam sendo errados e caindo no egoísmo? Não creio.

Existem, por outro lado, médicos que colocam sua vida inteira à disposição da sua clientela particular, que dão conselhos e orientações por telefone (e whatsapp), que atendem fora de hora, que saem de casa às 2h da madrugada para atender partos, emergências ou cirurgias. Serão eles heróis?

Nada disso, são apenas sujeitos que estabelecem limites mais alargados entre vida profissional e pessoal. Não existe apenas altruísmo em suas ações; há benefícios pessoais para quem se comporta desta forma, desde financeiros até psicológicos.

Dizer que um estilo de trabalho – de médicos, professores, advogados ou marceneiros – é “melhor” ou “mais nobre” do que o outro é injusto. A única queixa válida é para quem vende disponibilidade e não entrega, até porque ser um profissional à disposição de seus clientes é a parte mais custosa e cara do trabalho destas pessoas.

Na era da extrema facilidade de comunicação seria óbvio que esta mistura de espaços ocorreria. Desta forma, cada vez mais cabe a cada profissional deixar de forma explícita os limites preciso do tempo que se compromete a ceder para seus clientes, para que isso não venha a gerar angústias e ressentimentos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Xenofilia

Conheci durante minha vida um tipo curioso de brasileiro, facilmente destacado nas rodinhas de médicos em corredores de hospital e nas salas de conforto dos centros cirúrgicos. Eu o chamo de “xenofílico“.

Defino esse sujeito como o oposto do xenofóbico; é o cara que ama o que vem de fora. É um sujeito – via de regra muito pouco viajado – que não se cansa de elogiar tudo que vem de outros países, em especial da Europa, enquanto adora depreciar tudo e todos à sua volta por serem “brasileiros”. Adoram contar a piada de que Deus fez o país mais lindo e mais rico do mundo, mas em compensação encheu com esse “povinho” medíocre, egoísta, escurinho, subletrado e ignorante.

Enquanto descreve as mazelas de ser brasileiro, descreve com água na boca a cidade de Buenos Aires e sua população “culta e loira”, seus cafés, suas livrarias e depois nos conta com indisfarçável prazer da viagem que fez a Paris e como se sentiu em casa diante de toda aquela civilização. Conta dos museus, das roupas, das ruas limpas, mas sempre esconde as feridas que nestas sociedades ainda se mantém.

Esse sujeito, além disso, não se enxerga brasileiro. Não se sente responsável pelo atraso que testemunha. Acredita-se vivamente injustiçado, pois que seu lugar seria justamente próximo de seus iguais. Acha-se um europeu asilado. Como na música de Chico, acredita que Deus é um sujeito gozador e adora fazer brincadeiras e, só por isso, na barriga da miséria ele nasceu brasileiro – e ainda no Rio de Janeiro.

Aqui no sul os xenofílicos tem sobrenome italiano ou alemão. Lia-se nos para-choques de seus carros “Mi son talian, grazie Dio“, que em dialeto vêneto quer dizer “Graças a Deus sou italiano”.

Mesmo? Onde? Em verdade a frase justa e honesta seria “Graças a Deus eu não sou brasileiro“, porque realmente não se consideram como o resto da população. São de outra cepa, muito mais limpa e nobre. Olham com desprezo para os outros, os “pelo duro”, com suas peles mais morenas e cheias de Silvas, Souzas ou Oliveiras nos nomes, uma infinidade de mesmices patronímicas vulgares que desvelam a ausência de estirpe.

Em Bacurau estão representados naquele casal que olha para os gringos e lhes dizem: “nós somos como vocês“, alguns minutos antes de serem exterminados pelos estrangeiros, os mesmos que tanto admiravam. Para estes xenofílicos, a posição “diferenciada” em relação aos seus irmãos brasileiros parece palpável, mas aos olhos de quem os governa são todos igualmente “cucarachas“.

Eu também sonho com uma sociedade sem fronteiras e sem barreiras de qualquer tipo. Entretanto, não acredito que esta sociedade será construída pela simples supressão da autoestima dos povos por ora oprimidos. E acho muito mais honesto – apesar do meu nome cheiro de referências estrangeiras – assumir-me gloriosamente brasileiro, chinelão, cucaracha, com tudo o que isso representa de bom, de triste, de inovador e de poderoso.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos