Arquivo do mês: dezembro 2014

Negros

FMUFRGS 1985

Esta é a foto da minha formatura há 29 anos, na cidade de Porto Alegre. Tenho boas e más lembranças desta época, mas vejo que alguns dos meus colegas mantiveram um espírito crítico e uma visão positiva da profissão, apesar das agruras causadas pela “máquina de moer carne” da escola médica. Todavia, como se pode ver na imagem, não há nenhum negro representado na turma que posou para a foto na escadaria da velha escola médica. Aliás, durante os anos que frequentei a faculdade de Medicina conheci apenas um, que era sobrinho de um famoso político e que acabou também por seguir a carreira do tio. Nenhum outro negro, sequer mulato, compartilhava aquele espaço conosco. Claro, havia porteiros, serventes, auxiliares do biotério, faxineiras, e esses eram mais escurinhos. De resto todos brancos, claros, alvos e cristalinos. O que poderíamos entender do sofrimento de um negro?

Lembrei uma aula de quando eu estava no terceiro ano de medicina passando pela cadeira de semiologia. No ambulatório de clínica da universidade nos dividíamos para atender os prontuários que repousavam sobre a mesa. Nosso grupo ficou composto de 3 alunos, e a nós coube examinar um homem negro de meia idade, cujas queixas se perdem na névoa do tempo. Depois de feita uma anamnese, verificados os sinais vitais e colhida a história biopatográfica chamamos o professor para nos ajudar na continuação do atendimento. Nosso professor, já falecido há muitos anos, adentrou a sala e, ao notar que se tratava de um negro, disparou:

Queridos alunos. Quando temos pacientes “pardos” temos que pensar em três diagnósticos principais: hipertensão, escabiose e gonorreia. Já perguntaram sobre isso?

O senhor jazia deitado na mesa de exame e se manteve imóvel. Àquela época, passados mais de 30 anos, esta atitude não teria a mesma repercussão que hoje, mas mesmo assim eu fiquei estático e chocado. Olhei para o paciente deitado à nossa frente coberto com uma bata branca e esperei sua reação, enquanto eu me cobria de “vergonha alheia”. Passados alguns instantes sua atitude acabou sendo a pior possível, a mais terrível, a mais violenta e a que, por isso mesmo, mais me marcou.

Não, ele não se levantou e golpeou o professor. Sequer dirigiu-lhe palavras de indignação. Não, ele não reclamou do rótulo de promíscuo ou sujo. Ele também não tentou aclarar a situação, explicando as reais razões pelas quais ele procurava o serviço de medicina interna do hospital da universidade. Não, ele não mandou o professor se calar.

Ele apenas baixou o olhar, olhou para mim e tristemente sorriu.

Em seu sorriso eu podia ler toda a resignação com sua condição de negro, a qual nenhum de nós poderia jamais entender. Ser tratado dessa forma em um serviço público – que deveria entendê-lo e ampará-lo, acolhê-lo e tratá-lo sem julgamentos – era apenas mais um capítulo em sua longa história de humilhações cotidianas.

– De que adiantaria me indignar, jovem? disse ele em pensamentos durante seu breve sorriso amargo. Por acaso eu seria entendido? Tens alguma esperança de que o velho professor poderia entender o que é a dor de ser a vida inteira considerado inferior, sujo e indolente? Achas mesmo, menino, que meu sofrimento poderia ser captado, processado e transformado em empatia por alguém que nunca entendeu o que é nascer com “a cor errada”, ou ter o “cabelo ruim”? De que adiantaria gritar, esbofetear, reclamar ou sair correndo? De nada, meu jovem, de nada. Para vocês deixo apenas meu sorriso dolorido e meu silêncio. Talvez algum de vocês possa um dia entender o que significa nascer pintado de preto num mundo que só aceita o branco.

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Fotografia de Formatura

Formatura Medicina

É difícil que os médicos recém saídos das universidades consigam entender as reais necessidades da população que atendam, e por isso temos tantas dificuldades. Essas pessoas, os novos médicos, são de estratos sociais completamente diferentes daqueles a quem vão assistir e tratar. É complicado entender o sofrimento humano, principalmente as questões carenciais básicas, quando você tem uma casa, comida e afetos e não sabe o que é ter violência doméstica, falta de comida, crack, sujeira, tráfico, pobreza intensa e tantas outras mazelas contemporâneas.

Quando eu era residente escutei uma contratada dizer que achava que toda a ciência “psi” (da psicologia, passando pela psiquiatria até a psicanálise) era pura balela, pois que suas questões (sim, as dela…) eram todas resolvidas com um “banho de loja”, pois isso resolvia suas carências e conflitos. Não, ela não estava brincando; era verdade mesmo. Como ela poderia atender uma mulher em profundo sofrimento psíquico? Como ela poderia entender a dor de uma perda, de um remorso, de uma carência afetiva fundamental e trágica? Da mesma forma, como ela atenderia no posto de saúde uma mulher que não consultou antes porque não tinha dinheiro suficiente para pagar a passagem do ônibus? Será ela capaz de entender o que isso significa? Será ela capaz de entender a dor de ser negro em uma sociedade racista? Uma distância tão gigantesca entre perspectivas e visões de mundo pode ser superposta por boa vontade, empatia e uma visão “carinhosa” com os desvalidos? Ou seria fundamental que essas pessoas tivessem um mergulho nessas sub-culturas para que pudessem entender o que a saúde e os tratamentos significam para elas? Será possível esta visão em uma academia que prepara médicos (mormente especialistas) para dar atenção à burguesia através de tecnologias de ponta e tratamentos curativos terciários? Ou teremos que mudar radicalmente a abordagem à saúde e os sujeitos que a conduzem?

É inegável que existem médicos maravilhosos que conjugam valores técnicos com humanos, mas também é claro que a formação e o sistema abafam a real expressão desses valores. É difícil manter-se conectado a esses princípios diante de tantos estímulos em contrário. É quase impossível ser estudante universitário sem ser da classe média alta, principalmente em universidades públicas. As transformações estão acontecendo, mas uma REAL mudança demográfica nas universidades ainda levará uma geração para se consolidar.

A medicina e o direito, só para dar dois exemplos de cursos universitários clássicos, tradicionais e fáceis de entender, foram criados para servir uma burguesia que aos poucos se organizava. Estas intituições apenas a pouco começaram a ser oferecidas às classes populares. O direito, diferentemente da medicina, só há pouco tem “sistemas populares” de atendimento, como “pequenas causas” ou a defensoria pública. Meu pai me conta que só veio a conhecer um médico em sua vida com mais de 12 anos de idade, quando veio do interior para a capital. E “conhecer” é usado no sentido de “enxergar“, pois consultar com um desses profissionais era inviável há 70 anos.

Fazer essas profissões darem conta das necessidades do povo é um desafio cultural pois que, como eu disse anteriormente, os próprios atores sociais que as compõe não são – com raras e notáveis exceções – oriundos das classes mais baixas. Para se certificar disso basta olhar a história pessoal dos antigos médicos, os que hoje nomeiam enfermarias na Santa Casa, nomes de rua, professores catedráticos da universidade e ver de onde saíram: quase todos da burguesia abastada ou do latifúndio. Assim, democratizar a atenção oferecida por estas profissões – a saúde física da medicina e a saúde social do direito – é uma tarefa complexa e difícil, mas absolutamente necessária. Entretanto, para que ela atinja seus objetivos mais profundos, é fundamental que seus integrantes tenham pleno conhecimento da população que atendem, com seus dramas, valores, idiomas, tragédias e alegrias.

Para isso é necessário sentir na pele o que é ser como eles.

 

 

 

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Novelas e Cesarianas

Miracle of Birth 01

Na novela das oito (que não começa nesse horário há uns 20 anos) uma cesariana vai salvar uma vida (ou duas), mantendo no imaginário popular a falácia da segurança e da qualidade superior das intervenções sobre o parto.

Uma cultura se faz dessa forma. As novelas para o brasileiro são como os filmes e seriados para os americanos. O que se diz ali recebe uma marca de validação cultural, um “selo de verdade”, que será deglutido facilmente pelo telespectador. Sim, as verdades novelísticas não tem “osso nem casca”, portanto passam sem dificuldade pela garganta do consumidor. Uma lástima que isso ocorra exatamente agora, quando estão cada vez mais intensas as campanha governamentais a respeito dos perigos decorrentes da banalização da cesariana.

Quando eu vejo estas cenas logo me vem à memória o filme dos Monty Python de 1982 debochando da violência obstétrica – The Miracle of Birth – e percebo que há exatos 32 anos passados eles já percebiam o poder da mídia para – através do humor – estimular importantes transformações sociais. A Inglaterra pôde fazer sua grande virada na atenção obstétrica de agora porque há mais de três décadas plantou no coração de seus cidadãos a semente da indignação contra as práticas obstétricas agressivas, defasadas e que não levavam em consideração o desejo da mulher. Enquanto isso nós ainda mantemos o status-quo: um parto controlado por especialistas, mulheres sem autonomia e altas taxas de intervenção. Muito bom para os poderosos que controlam o nascimento, mas péssimo para mães e bebês, que continuam a pagar esta conta.

Mais uma vez a TV Globo atrapalha as conquistas da sociedade civil. Os que pensam na saúde das mulheres e seus bebês terão uma cota extra de mitos para desfazer.

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Violência Infantil

 

 

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Espancamento de crianças ainda é um FATO, e centenas de pessoas o aprovam. Acreditem, eu mesmo vi comentários sobre um clip que está rolando na Internet sobre uma mulher que bate no filho com um cinto e um policial dá um sermão na criança dizendo que ele mesmo faria isso se ele ousasse reclamar novamente. Os comentários abaixo desse clip são horrendos e absolutamente inaceitáveis. Todavia, eu acho que eles escondem uma outra realidade. Eu creio que a maioria das pessoas que escreve a FAVOR das chineladas sofreu este tipo de violência na infância. Ser a favor disso é uma forma de mostrar amor pelos seus pais, e tentar retirar de quem se gosta esta culpa. Isso acontece com as mulheres que protegem seus obstetras depois de uma cesariana claramente desnecessária. Vi isso milhares de vezes na Internet nos últimos 15 anos escrevendo em redes sociais, de “list servers” a Facebook. Mulheres submetidas a cesarianas defendiam seus médicos até o último argumento, dizendo que ele era consciente, que cordão enrolado era perigoso, que ele não permite “passar da hora”, que ele a protegeu da dor excruciante, que ele agiu de boa fé, que ele apoia o parto mas não é fanático e assim por diante. A “queda” que se seguia para algumas era normalmente espetacular. O momento em que se percebe que, por mais que você tenha afeto pelo profissional, ele lhe enganou, é terrível, e demanda muita coragem. Nós protegemos os nossos seres amados mais importantes, os pais, da mesma maneira, e por isso negamos que as palmadas tenham deixado marcas.

Eu apanhei do meu pai por causa de travessuras, mas tenho certeza que ele não se orgulha disso. Provavelmente hoje ele diria: “Estávamos nos anos 60. Era o modelo. A gente batia para impedir que más condutas se mantivessem, e tínhamos boas intenções. Educar era assim. A gente era a favor da virgindade, contra o divórcio, contra maconha, e tudo isso está caindo hoje em dia. O mundo muda, os valores se modificam, e só podemos ser julgados em nosso próprio tempo.”

Eu prefiro acreditar que as virtudes de um homem são dele, os pecados são de sua época. O que era racismo no século XVIII é diferente do que é hoje, pelo menos do ponto de vista do julgamento social, mesmo que os atos sejam os mesmos. Muitas coisas que fazemos hoje serão consideradas crimes inaceitáveis no futuro. Você acharia justo ser chamado de “assassino” por comer hoje carne de outros animais, coisa que no século XXII será proscrita? Ou comer carme é do nosso tempo, e tal fato só pode ser julgado pelos valores de agora?

O que eu acho incorreto é que HOJE, depois de tanta informação a respeito dos padrões que se repetem, criança espancada —> adulto espancador, ainda haja MUITA gente que defende esse paradigma. Gente demais, eu diria. Uma coisa é você bater no seu filho em desespero – por não saber o que fazer e se sentir pressionado – e ENTENDER que não se deve fazer isso. “Mea culpa, mea máxima culpa“, porque também agi assim. Outra coisa é bater em crianças que estão crescendo, que cometem erros, que estão olhando para o valores do mundo e tentando aprender com cada experiência, e achar que sua violência está “educando”.

Pior mesmo é vangloriar-se disso e chamar a todos os outros de idiotas.

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Elvis

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Eu tinha 17 anos e estava no último ano da escola. Naquele época se chamava “ginásio”, o que corresponderia ao nível médio hoje. Cheguei às 8h e abri a porta da sala de aula, ainda esbaforido pelos dois lances de escada obrigatórios para chegar ao andar superior. Mas eu estava impactado com o que havia escutado no rádio de casa apenas alguns minutos antes. Quando a porta se abriu a professora ainda não havia chegado e os colegas estavam arrumando seus pertences sobre as mesas de fórmica verde. O quadro negro ao meu lado esquerdo continha nomes de pessoas, desenhos rudimentares e uma fórmula matemática. As janelas olhavam para o norte, e não havia sol pela manhã a ultrapassar o vidro. As cortinas estavam escancaradas para melhorar a luminosidade. Do outro lado da rua podia-se ver a casa do João, colega de aula que, exatamente por morar ao lado da escola, sempre chegava atrasado, e sua corrida era testemunhada por todos nós, entre gracejos e gargalhadas. Postei-me em frente à turma, sem que eles de mim se apercebessem. Não me preocupei com a indiferença de todos, pois dentro de alguns minutos eles olhariam em silêncio e estarrecidos para mim, após dizer-lhes o que eu havia de contar. Encarei os colegas, imaginando que o que eu estava para dizer modificaria a vida de todos, daquele momento em diante. A minha, em especial, recebeu uma grande lição.

Um último gole de ar a inflar meus pulmões e falei, com voz alta o suficiente para que os últimos da classe, com as costas coladas à parede, pudessem me ouvir.

Amigos, Elvis Presley morreu esta manhã em sua mansão nos Estados Unidos. Ele tinha 42 anos.

E foi assim. Curto e duro.

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