Arquivo do mês: março 2013

Dom Giordano

Restaurante Buffet
Dom Giordano me falou que a próxima falta não será tolerada, e depois disso perderemos o direito de pedir copos limpos na hora do almoço. Ele disse também que não está bravo, e que o fato de termos repetido a sobremesa NÃO significa nenhuma represália tola, como a que você insinuou na última vez que estivemos lá. Não existe isso de cuspir no prato, que isso é uma paranóia sua, e que se alguma vez foi utilizado (se é que foi um dia utilizado) estava relacionado com pessoas absolutamente desagradáveis que entraram no restaurante cantando músicas de Agnaldo Rayol. Disse também que o fato de você ir sem camisa no restaurante também não foi o causador da sua expulsão, e que, numa próxima vez, isso pode ser contornado, desde que você não esteja usando um sutiã lilás, o que causou uma espécie de “sensação de desconforto” (palavras dele) nos clientes do buffet.

Assim sendo, em função da nossa antiga amizade e as ligações que ele tem com a nossa família (não se esqueça que durante a guerra, o pai do Dom Giordano espremeu uma espinha nas costas do nosso avô durante a batalha de Harves) ele quer passar uma borracha nos desentendimentos que ocorreram recentemente, e terá o maior prazer em nos receber de braços abertos. Espero que isso lhe sirva de estímulo para voltar a almoçar lá. Você sabe muito bem que restam poucos restaurantes no centro da cidade em que podemos entrar sem que a polícia seja acionada, e tudo isso poderia ter sido evitado não fosse a sua insistência em levar a sua rã de estimação para almoçar. Até eu achei uma demasia, mas você discutia com os gerentes de forma raivosa, e é compreensível que eles tenham se incomodado. Ok, botar os cachorros na gente foi exagero, mas não há como culpá-los. Portanto, pense bem na proposta do Dom Giordano, avise a Lúcia e vamos esquecer os problemas que tivemos no passado.

Lembre que a nossa única alternativa é o churrasquinho de gato, e ambos juramos que jamais desceríamos tanto. Conto com a sua compreensão.

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Trotes

Trote Universitario

Pode ser que eu esteja ficando mesmo muito velho, eis uma hipótese a se considerar. Entretanto, eu tenho uma opinião a respeito de trote universitário. Eu acho muito chato. Chato mesmo, irritante e me incomoda ver a maneira como continua sendo conduzido. Aqui em Porto Alegre eles iniciaram de novo, no centro da cidade, o trote com tinta, farrapos, roupas ridículas e pedidos de “esmola”. Todos sabemos que a “esmola” irá para a cerveja dos veteranos, que vão se divertir alcoolicamente com a humilhação dos calouros (e a colaboração dos incautos).

Sim, eu também sei que os calouros não se importam, e isso faz parte do exibicionismo dos “geniais” alunos que passaram na universidade federal.
Mas eu pergunto: “E o que eu tenho a ver com isso?” Terei eu que patrocinar a cerveja de marmanjos, filhos de papai, classe média alienada, que fazem esse tipo de trote chato, cafona, exibicionista, brega e desagradável? Quando os universitários se aproximam eu respondo com um sorriso e um abano, mas fico pensando que ainda prefiro dar as moedas para um sem teto do que financiar a beberagem de universitários ricos. E isso sem falar das tragédias que, vez por outra, acontecem. Lembram do rapaz japonês em São Paulo, na piscina? Uma tragédia, que foi fruto deste tipo de abuso. Eu acho que este tipo de “rito de passagem” poderia terminar, pelo menos neste formato.

O triste é ver a perpetuação do modelo. Os próprios “bixos”, depois de passado o trote, já ficam imaginando a “vingança” com os calouros do próximo ano, num circulo vicioso sado-masoquista que só pode terminar quando alguém tiver a coragem de se levantar e dizer: “Gente, isto aqui é um modelo brega e sem graça. Está na hora de amadurecer esse processo. Vamos fazer uma coisa mais produtiva. Quem sabe agradecer o fato de estarmos numa universidade pública, financiados pelo povo, que paga a nossa entrada aqui. Não haverá uma forma mais politicamente madura de passar por esse rito?”

O trote PÚBLICO é o que me irrita… cortaram o meu cabelo em casa quando eu passei. Sei que isso era também um tipo de exibicionismo da minha parte, mas não me importei porque não foi forçado e nem agressivo. Fazia parte da brincadeira da família e dos amigos. Mas expor publicamente os alunos me parece grosseiro e desnecessário. Mostra apenas uma face sádica daqueles que estão na universidade.

Cena presenciada pelo meu sobrinho na esquina da Av. Ipiranga com a Ramiro Barcelos. Os “bixos” pedindo esmola para os carros que paravam no semáforo e sendo expulsos pelos pedintes “donos do ponto”, pois os calouros estavam afastando os seus “fregueses”. É ridículo ver meninas de classe média aos berros com os mendigos, pelo acesso aos carros. É muito tolo isso, e mostra a profunda alienação dos estudantes com o significado de entrar em uma universidade. Existe um afastamento completo da noção de responsabilidade social que carrega um estudante que chega ao ensino superior. E isso se expressa desde cedo, na própria entrada na Universidade, com o tipo de ritual que se impõe. Como diria a professora Robbie Davis-Floyd, um ritual se compõe de 3 elementos básicos: repetição, padronização e simbolismo, todos eles presentes no trote. Mas o simbolismo de um ritual nos leva ao âmago dos valores propostos por uma sociedade, e o simbolismo do trote, com sua necessária humilhação e degradação, nos mostra que os valores dessa sociedade são individualistas e egocêntricos, e não valorizam a participação dos “escolhidos” na melhoria das condições de vida da população que os sustenta na universidade.

Eu gostaria de saber quantos alunos efetivamente curtiram ser pintados e quantos foram constrangidos, e só permitiram o trote para poderem ser aceitos por seus pares. E o pior para mim não é o trote, mas a humilhação e a desconexão com com a sociedade ao redor. As vezes eu encaro os trotes da mesma forma que vejo os casos de assédios; quem vê de fora parece consentido, mas no fundo existe uma pressão para que a pessoa se comporte de uma determinada forma. Sei que posso estar exagerando, mas já vi pessoas me descrevendo trotes exatamente assim. Um constrangimento para se comportar como um palhaço, caso contrário os veteranos não terão um bom conceito de você.

Ok, ritualizemos as conquistas e as passagens, mas de uma forma mais civilizada, nobre e inteligente. Por isso eu admiro o “trote solidário” que meu filho está promovendo na sua faculdade, a Ciência da Computação: doação de sangue. Este é um exemplo entre tantos outros do que se pode fazer de positivo para integrar alunos em sua “nova casa”, a universidade. Sem humilhações, sem degradação e sem exibicionismo do tipo “passei na faculdade, olhe para mim como sou maravilhosa(o)“.

Apenas participação na sociedade, fraternidade e solidariedade.

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Ode ao parto

 
 

Nós, os humanistas do nascimento, não temos interesse em tratar o nascimento fisiológico, também chamado de “parto normal” (mas que, infelizmente não se expressa de forma “normal” no mundo contemporâneo), como se fosse um bem, uma comodity a ser adquirida com qualidades acima das concorrentes. A humanização do nascimento não se propõe a isso, e quem preferir entender nossas palavras como uma “ode ao parto natural” então as leu de forma equivocada. O que pretendemos é lançar um contraponto à alienação que a cultura contemporânea propõe pela intromissão excessiva no fenômeno do nascimento. A evidência de hospitais brasileiros com quase 100% de cesarianas está ACIMA de qualquer discussão, mas curiosamente a própria sociedade (com exceção dos poucos humanistas) não os acusa de propor uma “ode às cesarianas”, esta sim, sem dúvida.
Parece que escutamos as palavras proféticas de Bertold Brecht: “Dos rios dizemos violentos, mas não chamamos violentas as margens que o oprimem“. Dos humanistas “temos medo”, com sua “ode ao parto natural”, mas não temos pânico de ver uma cultura endeusar a tecnologia e desprezar a capacidade feminina de gestar e parir com segurança. A destruição sistemática de uma capacidade humana como o parir, e o desprezo pelas milenares habilidades de cuidar do parto humano, não causam medo em muitas pessoas, e a invasão tecnológica no parto, sem que ela ofereça melhorias na atenção, é saudada com o nome de “progresso”. Por favor, permitam que nos escandalizemos com isso. Escutem o que temos a dizer, antes de nos condenar por um ingênuo conceito de “fanatismo”. Por outro lado, percebemos sempre, e de forma padronizada, o mesmo discurso, em qualquer lugar: “Eu fiz cesariana, não sou menos mãe por isso, e se não a tivesse feito teríamos morrido, eu e meu bebê”. Mesmo reconhecendo que essa frase pode estar correta (existem cesarianas que são realmente salvadoras) a sua multiplicação nas inúmeras vozes femininas, para muito além do que seria de se esperar, apenas nos demonstra que ela é usada para camuflar uma verdade que se esconde por detrás de tais palavras. Em verdade, poucas dessas cirurgias seriam justificáveis à luz da medicina baseada em evidências, mas quase todas as mulheres se agarram a esta explicação sobre a necessidade de suas cesarianas (muitas vezes cômica) como quem se agarra a um pedaço de madeira, depois do naufrágio. A explicação do médico cesarista parece, muitas vezes, o suporte para manter a autoestima quando ela parece querer afundar. Por isso é que eu acho compreensível a dor que se expressa com certa crueza nas palavras de mulheres que fizeram cesarianas e que suspeitam, mesmo que secretamente, que não havia, para elas, uma real necessidade.
Para terminar, quero deixar claro que “retrógrado” é o discurso alienante de não discutir a invasão de corpos e mentes por uma ideologia que considera as mulheres inferiores, e seus corpos defectivos, anômalos e imperfeitos. Retrógrado é olhar para as cesarianas desmedidas, a mortalidade materna aumentada, a violência institucional praticada contra as gestantes e ficar em silêncio, apenas por uma promessa inconsciente de calar-se diante da violência que também sofreu, mas que teme confessar.
Para melhorar o nascimento é necessário modificar o mundo ao redor, e o primeiro lugar a fazer isso é o interior de nossas mentes, pois que o nascimento, em verdade, é algo que ocorre “entre as orelhas”.

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Ideologias

marioneteA mais elementar definição de ideologia é provavelmente a conhecida frase do livro de Marx, “O Capital”…

Eles não sabem o que fazem, mas ainda assim, o fazem”.
Nada se aplica de forma mais clara e cristalina à conduta obstétrica contemporânea. Lembro um exemplo muito simples, que aparece no texto da professora Simone Diniz. Lá se insere a fala de uma jovem obstetra que afirma de forma singela: “Eu sei que não devo fazer a episiotomia, mas minha mão vai sozinha“.
Essa frase sempre me intrigou, porque nunca pude crer que se tratava de uma fala sincera. Minha resposta a ela, se pudesse lhe oferecer, seria: “Não, doutora, sua mão não vai sozinha. Uma mão, composta de carnes, fibras, nervos e veias, não se move por vontade própria. Há um determinante inconsciente, algo do obscuro e “não sabido” que determina a ação e conduz seus movimentos. Sua mão vai porque, mesmo que não saibas a razão do gesto, ele se faz guiado por uma força para além de sua consciência. Sua mão é guiada pela ideologia, doutora.“.
A reluzente tesoura – que corta sem pudor o tecido inocente da genitália – sequer imagina que as ideologias que permeiam a assistência ao parto operam como cordões invisíveis a nos prender a modelos constituídos sobre os valores fundamentais desta cultura e neste tempo. No nascimento humano, tais forças implacáveis são determinadas por uma visão da mulher como ser defectivo, a condescendência com a intromissão no seu corpo e a complacente intervenção sobre seus ritmos e sua natureza.
Somos todos, pacientes e médicos, governados pelas ideologias aplicadas à atenção à saúde. Como o ar que respiramos, elas nos envolvem sem parecer que estão ali, por toda parte, penetrando nossas narinas e pulmões, ao mesmo tempo que nos iludem com sua invisibilidade.
Para mudar o nascimento, e assim também a humanidade por consequência natural, há que mudar a própria ideologia sobre a mulher, a natureza, a fisiologia alargada do nascimento e o entendimento que temos do mundo. Parafraseando o mestre Odent, “Para modificar o nascimento é necessário mudar o mundo em que vivemos, e o primeiro lugar a transformar é o interior de nossas mentes, para que o olhar que lançamos para fora realce o valor que tais momentos nos oferecem”.

 

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Linhas Retas

Não existem linhas retas na natureza, e as linhas do universo simbólico são necessariamente tortas. Entre um ponto e outro de nossa compreensão se entrecruzam fatores que as ciências exatas não podem medir. Se é verdade que não podemos creditar todos os eventos humanos às “artimanhas do inconsciente” (o mestre já dizia que muitas vezes “um charuto é apenas um charuto”) também é verdade que não podemos nos cegar às evidências de que as intencionalidades recônditas precisam ser encaradas com discernimento e coragem. Sem os antigos psicologismos, manifestos pela volúpia do “furor interpretans“, a visão de causalidade emocional pode nos oferecer múltiplas chaves para a compreensão dos enigmas do adoecimento. Mas não todas, por certo.

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