Arquivo do mês: abril 2016

Aborto

feto

 

Tenho profundo respeito pela temática do aborto e o considero um dos temas mais importantes e emblemáticos no que diz respeito ao empoderamento das mulheres e para a conquista do protagonismo feminino.

Mas debater este tema me produz imenso desconforto…

Desconforto me descreve, por isso nunca debato abertamente este tema. Peço inclusive que as pessoas que são a favor da humanização do nascimento não tragam essa pauta para os debates. Ela é tão poderosa, e mexe tanto com as emoções, que muitas vezes o movimento pela humanização do nascimento fica eclipsado pelo debate da descriminalização do aborto.

É claro que sou contrário ao aborto, mas quem seria a favor?

Prefiro não debater abertamente a questão do aborto, e por isso que peço que as pessoas que são a favor da humanização do nascimento não tragam essa pauta para os debates. Ela é tão poderosa, e mexe tanto com as emoções, que muitas vezes o movimento pela humanização do nascimento fica eclipsado pelo debate da descriminalização. Eu acho que os congressos e os simpósios de humanização do nascimento deveriam evitar discutir uma temática tão arrebatadora como o aborto. Existem fóruns especiais para isso, e quando misturamos estes temas eles geram muita divisão. No movimento de humanização do nascimento existem defensores dos dois grupos: contra e a favor da legalização. Se nós incentivarmos que a humanização do nascimento se vincule a um deles perderemos pessoas que poderiam estar ao nosso lado mas que se afastarão pela questão do aborto.

Nos Estados Unidos, por exemplo, uma parte considerável das ativistas são cristãs. isto é: são pró-vida. Seria desnecessário e contraproducente estabelecer que os partidários da humanização do nascimento tivessem que se vincular a uma das correntes “pro life” ou “pro choice”. Como eu disse, tenho grande admiração por quem carrega esta bandeira, mas este tema é grande demais para nós, e pode produzir uma divisão desnecessária se ocupar tempo demasiado nos nossos questionamentos.

Entretanto, nada impede que cada um de nós carregue as bandeiras que quiser. Eu, por exemplo, defendo a Palestina Livre e o fim da ocupação, mas não aceitaria que esse tema fosse debatido em um simpósio de parto humanizado, mesmo sendo de imensa importância e estar vinculado com a saúde das mulheres que sofrem no cerco a Gaza.

O problema é que sou inexoravelmente a favor da vida e falar de sua terminação é desconfortável, por mais que eu apoie a descriminalização do aborto e tenha esperança de ver as mortes femininas evitáveis diminuírem com a sua implantação. Respeito quem faz do aborto livre uma bandeira feminina, mas não gosto de debater este tema, até porque a maioria dos argumentos de ambos os lados são inúteis e despropositados, em especial quando tentam produzir o convencimento de alguém que não aceita ser convencido. Por isso que insisto que “a luta pela descriminalização do aborto não pode ser religiosa ou ideológica, mas política. Esta é uma luta que se vence pelo convencimento da maioria e não pela conversão dos opositores”.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Razão

razao-ou-emocao-1172 (2)

Nosso erro frequente ao debater temas difíceis como aborto ou humanização do nascimento é tentar usar a racionalidade contra argumentos surgidos da irracionalidade. É o caso de alguém tentar demover o outro de uma crença que se estrutura sobre o desejo, e não sobre a razão. É nesse ponto que os debates sobre o aborto emperram e não prosperam. A questão do aborto, para além dos conceitos, é uma questão POLÍTICA. De pouco ajudam as pesquisas e os estudos diante da negativa em reconhecer sua validade. O mesmo ocorre com as questões relativas à humanização do nascimento, em especial o tema do “local de parto”; aqui também o que vai valer é a maturidade da cultura em aceitar elementos da ética e dos direitos reprodutivos, acima de questões médicas

Acreditar que a razão e a ciência são forças capazes de iluminar mentes obscurecidas pela ignorância é colocá-las em uma posição para a qual não foram feitas. A verdade da ciência só pode frutificar quando existe um terreno cultural que a faça crescer. Sem terreno adequado a semente da verdade científica não germina; fenece, definha a morre. A ciência é incapaz, por si só, de modificar a nossa compreensão do mundo, mas é uma excelente ferramenta para consolidar as decisões e consolidar os caminhos definidos.

A descoberta científica de que o cigarro produz câncer não eliminou prontamente seu uso. Não foi suficiente expor os danos causados pelo seu uso; era preciso que estas verdades entrassem no coração das pessoas. Entretanto, tais estudos serviram de embasamento para as decisões políticas tomadas depois. A função da ciência é educativa; ela é uma juíza medíocre, mas uma ótima professora.

Não há debate com pessoas que desconhecem a perspectiva do outro. Não se debate, se educa. E do ponto de vista da política o que podemos fazer é mostrar e expor a nossa maneira de ver a realidade e esperar que mais pessoas sejam tocadas por nossa visão. Aprendi a duras penas que não adianta aumentar o volume para que um surdo escute.

O respeito pelas decisões soberanas das mulheres sobre seus corpos não virá a partir de descobertas da ciência médica, mas da mobilização política das mulheres em torno destes temas.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Telas Mágicas

2016-04-28-22-38-26--1491598692

Eu vejo a poesia, a literatura e a ficção em geral como as únicas máquinas do tempo que a mente humana foi capaz de criar até agora. Tais expressões da criatividade são pontes que criamos para o futuro, muitas vezes antecipando-o ou estimulando sua própria construção. Outras vezes a literatura, o cinema e a TV acessam o campo simbólico e traduzem o presente através de suas metáforas e simbologias, abrindo debates que muitas vezes sequer são explicitos, mas que a partir daí poderão se tornar.

Minha curiosidade com esta especial capacidade da literatura e do cinema surgiu quando eu analisava o seriado “Batman” da televisão dos anos 70 e fazia uma correlação entre os personagens da trama e a emergência do movimento gay americano.

Bruce Wayne é um homem maduro, rico e solitário que vive em uma mansão na cidade de Gotham, com seu criado Alfred e sua tia Harriet. Subitamente o coroa milionário convida para morar com ele um “pupilo” (que me faz pensar nos mecenatos gregos) muito mais jovem chamado Dick (um nome de duplo sentido em ingles). Os dois em verdade são Batman & Robin, que, quando a noite recobre Gotham City com seu manto de sombras, colocam “fantasias” e saem para insólitas aventuras.

Ninguém sabe da vida dupla de ambos. Por segurança eles a escondem de todos, menos do fiel ajudante Alfred, o mordomo. Alfred bem sabe o que se esconde por detrás do meramente manifesto. A “dupla dinâmica” tem muitos segredos inconfessos. Inúmeras cenas do seriado corajosamente insinuam a tensão erótica entre Batman e Robin, mas jamais de forma explícita.

Nesta análise da história a tia Harriet e sua ingenuidade representam a todos nós. Ela e incapaz de perceber o que verdadeiramente são os dois rapazes que moram em sua casa, da mesma forma como éramos cegos quanto à manifestação homossexual que muitas vezes estava ao nosso lado sem que a percebêssemos.

Batman & Robin (o da TV, o melhor e mais criativo de todos) é o mais fiel retrato de uma época especial da civilização: a abertura dos armários e o reconhecimento da infinita diversidade sexual humana. Os criadores da série perceberam, de forma consciente ou não, o movimento da cultura no sentido da aceitação de novas formas de relacionamento afetivo, e o aplicaram de forma magistral no vão que se estabelecia entre a “luta contra o crime” e a luta contra o “crime” – de não reconhecer a (nossa) sexualidade de maneira integral.

Pulando algumas décadas adiante me deparo com a fixação contemporânea na temática dos “zumbis”. Existem incontáveis filmes, variando do terror, drama e até comédia, em que os personagens principais são zumbis. Lembro até uma mega-série blockbuster de TV chamada “Walking Dead” que aborda exatamente o “apocalipse zumbi” e a invasão do planeta por estes seres disformes, famintos, frios, sujos e que se comunicam entre si com grunhidos. Eles são ameaças asquerosas à nossa vida, e o simples contato com eles pode nos contaminar e transformar no que eles são.

Ora, se acredito na ficção como antena de captação do campo simbólico da linguagem, o que teria para nos dizer esta metáfora da “invasão dos Zumbis”?

Não é preciso usar de muita imaginação, e aposto como não sou o primeiro a tratar do tema por este viés. Uma breve avaliação dos discursos de Donald Trump e uma olhada rápida nos noticiários europeus mata a charada em poucos minutos.

Quem são os “seres disformes, famintos, frios, sujos e que se comunicam com grunhidos” no mundo atual? Quem “infesta” as nossas cidades com a sujeira cultural e nos contamina com seus hábitos bizarros? Quem são os seres que nos ameaçam com sua presença e cuja mordida pode nos transmitir a mesma aberração que eles trazem em seus corpos maltrapilhos?

images-10A ameaça são os imigrantes e refugiados.

Seus grunhidos arábicos ou castelhanos invadem nossa cultura europeia e branca ameaçando a supremacia de nossos hábitos e valores. Sua pele é invariavelmente “suja”, escura, e contrasta com a alvura de nossa cútis “superior”. Seus costumes bárbaros nos causam estranheza ou nojo.  Quando na TV, em algum documentário, não parecem tão ameaçadores, mas quando andam em bandos, falando palavras desconexas perto de nossas casas, são invasores perigosos. Pior… podem transformar alguém da nossa própria família em um “deles”. Por isso é preciso proteger os seus, cuidar para que os zumbis não se aproximem e os convertam no que eles já são.

Os zumbis contemporâneos aparecem como ficção para que possamos olhar para estas emoções sem o constrangedor (para alguns) sentimento de xenofobia e preconceito. Se é desumano e cruel desprezar imigrantes famintos que fogem de guerras estúpidas que nós mesmos criamos em seus lares, podemos ao menos odiar a desprezar sua vertente ficcional que invade nossas cidades e ameaça nossos valores e conceitos.

Batman e Robin apaixonaram uma geração porque havia uma mensagem instigante criptografada em seu núcleo,  para quem tivesse olhos de ver. Os zumbis só fazem sucesso porque eles existem de verdade.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política

Feminismo e Humanização

 

 

reflect

 

Humanização do nascimento e feminismo são movimentos semelhantes e caminham em paralelo na trilha das ideias. Ambos são majoritariamente liderados por mulheres, contra culturais, contra hegemônicos, plurais e atacam o coração do sistema de poder patriarcal. É obvio que encontraríamos exaltados(as) em ambos os movimentos, na medida em que os discursos de ambos ferem a estrutura máxima que sustenta a sociedade patriarcal. Portanto, é impossível imaginar que uma proposta de tal magnitude não produza radicalismos e visões extremistas. Porém, como em qualquer movimento social, os extremos não podem ser a voz mais ouvida, e nem a cara mais presente.

Para cada “feminazi” existe uma “diferentona” comedora de placenta, mas os conservadores – machistas e cesaristas – procuram encontrar a extrema esquerda de cada movimento e colocá-la como a sua representante oficial para assim desmerecer toda a proposta, classificando-a como radical.

Esse é o caminho natural de qualquer proposta social transformativa. Não há como fugir desse modelo, pois só com luta é possível quebrar as fortalezas que sustentam um paradigma. Cabe às feministas provarem que sua luta é pela equidade e não pela vingança, assim como cabe a nós do movimento de humanização a tarefa de mostrar a todos que não somos contrários a tecnologia e nem aos profissionais no topo da escala de poderes, mas que somos movidos por ciência e por uma observância fiel aos direitos humanos reprodutivos e sexuais das mulheres em benefício de mães e bebês.

Não há como criar uma mudança social de tal magnitude sem a energia – por vezes descontrolada – que brota naturalmente daqueles que lutam por ela.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo

Polícia, para quê polícia…

 

policia porto alegre

“Sempre que a resposta das forças públicas se aproxima da selvageria que tenta combater é o momento de questionar se, para confrontar bandidos, não estamos ficando parecidos demais com eles.”

Com essa lógica do “bandido nom é bandido morto” não é possível debater. Mas o resultado óbvio desse das ações brutais de uma polícia que JULGA quem merece ou não viver é que um criminoso não terá nenhuma razão para se entregar daqui para diante. Se for oferecida a ele uma chance de desistência ele vai negar, e combaterá até a morte, pois sabe que os policiais não são dignos de confiança.

O mesmo aconteceu no ônibus 174 no Rio: uma execução de alguém desarmado e indefeso. “Ah, mas ele sequestrou pessoas”. Não importa, não cabe à policia julgar. Aqui em Porto Alegre houve o “Caso do Homem Errado”, também executado pela polícia, ou o menino que levou um tiro de um brigadiano em Novo Hamburgo. E o caso Amarildo no Rio?

Casos assim vai aos poucos deixando a polícia com cara de bandida. Mas tudo bem… são bandidos que estão do nosso lado, certo? Errado… quando esse poder não tem limites na lei o resultado é o autoritarismo e por eles todos pagam. Mais cedo ou mais tarde.

Hoje mesmo muitas associações saíram em defesa dos policiais envolvidos, e fiquei sabendo que foram inclusive homenageados (o que em outro país seria absurdo). Eu também defendo os policiais militares porque reconheço a bravura e a coragem que eles tem para defender a sociedade, mas acho extremamente perigoso quando pessoas acham uma execução a coisa mais normal do mundo. Ninguém quer morrer por bandidos, e ninguém defende que policiais não reajam, mas para isso existem regras e protocolos a serem seguidos. Atirar num sujeito desarmado, à queima roupa, com as mãos atrás da cabeça ultrapassa todos os limites de civilidade. Creio que a sociedade deveria se questionar sobre os limites da ação da polícia, sob pena de criar uma policia “acima da lei”.

“Cria cuervos y ellos te comen los ojos”

Por isso eu acho que as ações policiais, mesmo quando são praticadas para nos defender e tem sucesso, não podem extrapolar os limites legais. Não podemos nos associar à barbárie. Duvido que um comandante de qualquer polícia discorde do que eu disse. Pode até não agir assim, mas concorda. Discordar disso é oferecer às forças policiais a autoridade para julgar quem deve e quem não deve sobreviver aos confrontos. E isso é inaceitável em uma democracia.

Deixe um comentário

Arquivado em violência