Arquivo do mês: agosto 2014

Massa Crítica

Mulheres greve

Enquanto a “massa crítica” daquelas que percebem a violência obstétrica for de apenas duas em 60 as mulheres continuarão a ser apenas vítimas, passivas e submissas. Quando conseguirmos – através da conscientização e da educação (por isso mesmo é um processo lento) – elevar este número, os próprios perpetuadores da opressão do sistema vão se sentir desconfortáveis com as ações que cometem – conscientes ou inconscientes – que expropriam o protagonismo das mulheres. Se é complexo sair da zona de conforto e assumir uma postura ativa e protagonista diante do próprio corpo e da gestação, também é a ÚNICA forma de romper o modelo opressor.

Como eu disse anteriormente em diversas oportunidades, existem MILHARES de desculpas que qualquer mulher pode usar para se acomodar na posição de vítima, a imensa maioria delas válida e compreensível. Todos nós alguma vez já ouvimos isso: “Ah, sou pobre, fui educada assim, nunca me valorizaram, sempre fui depreciada, sempre fui desconsiderada, nunca fui elogiada, sou mulher, ninguém me escuta, não se valoriza nada do que faço, etc.” Quem poderia negar a importância dessas marcas na estruturação da personalidade feminina? Como não ser compassivo com este tipo de imposição cultural a que se submetem as mulheres e seus corpos?

Tudo isso é verdade. Entretanto, somente quando ROMPERMOS AS BARREIRAS impostas pela condição de vítima é que despertaremos para uma sociedade mais justa e igualitária. Apenas quando tivermos 3, 4 ou 10, quem sabe 30 ou 50 de cada 60 mulheres plenamente conscientes de seus direitos sobre seus corpos e suas gestações poderemos mudar verdadeiramente o panorama do parto neste país.

Todavia – podem ter certeza disso!! – elencar desculpas (mais uma vez, válidas e compreensíveis) não vai transformar vítimas em protagonistas!! Isso só se faz com trabalho e luta; coragem e determinação. Muita cara vai levar tapa, muita mulher ainda será mal tratada nos serviços de saúde, mas é preciso que elas se ergam, insistam, falem alto e proponham um novo modelo.

Não existem alternativas… Somente a postura combativa e consciente nos retira da submissão e da alienação.

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Pesos e Medidas

Palestinian_children

Uma linda ativista, com um enorme coração, escreveu em sua página, referindo-se aos conflitos em Gaza e ao massacre de crianças em escolas da ONU e tantos outros exemplos de barbárie: “Em todo conflito existem pelo menos dois lados e os DOIS precisam se transformar, os DOIS precisam mudar! E ao apoiar esse processo nós precisamos lutar por NÃO cair nesse buraco negro de culpa, ódio e separação.

Como não concordar com isso, principalmente ao ver que a autora da frase é verdadeiramente comprometida com a paz e a comunhão entre as pessoas? Quem ousaria discordar dessa proposta? Quem deixaria de apoiar este tipo de resolução? Acabar com as mortes e os ataques é desejo de todos os que prezam pela civilidade.

Mas, em nome da justiça e da igualdade, experimente mudar um pouco essa frase e adaptá-la a um outro contexto:

“Olha, sobre o holocausto judeu na segunda guerra mundial, a gente tem que ver os dois lados, eles precisavam se transformar. A gente não pode apenas condenar um lado, sabe como é…”

O quê???? DENIALIST !!!! (e realmente quem ousa negar o holocausto judeu na II Guerra Mundial é isso mesmo…)

Portanto, posso afirmar a todos que pedem aos palestinos que “façam a sua parte” que eles JÁ FIZERAM, nos últimos 60 anos, suportando massacres, ataques, diminuição do território, morte de crianças, humilhação, tortura, prisões ilegais, cerco, fome, espancamentos, cerceamento de liberdades, vilificações, mentiras, etc. Não peçam aos palestinos que sejam “bonzinhos” da mesma forma como seria injusto pedir para os judeus para que colaborassem enquanto se dirigiam para as câmaras de gás.

Por mais bem intencionados que sejam, os pedidos de “mútuas concessões” escondem o desejo de que apenas um lado continue oprimindo, como tem acontecido nos últimos 66 anos.

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Uma História Palestina

Palestine Kids

Uma história palestina

Você está andando na rua e um assaltante pega sua carteira e sai correndo. Você tenta correr atrás do malfeitor, mas logo percebe que não é tão veloz quando as atléticas pernas do rapaz. Mal havia se dado conta, mas é muito mais velho que ele. Persegue por duas quadras o jovem ladrão, até que consegue alcançá-lo. Talvez tenha sido pior. Com esforço consegue agarrar-se à velha e surrada carteira, mas isso deixa seus braços ocupados. Aproveitando-se de sua fragilidade e de estar sem possibilidade defesa, ele lhe espanca, quebra seu nariz, chuta seu estômago, rasga suas roupas, chama você de “velho nojento”, difama sua família e arranca seus cabelos. Enquanto você sangra jogado no chão, consegue ainda segurar a ponta da carteira – onde estão alguns trocados e a sua identidade – enquanto o ladrão a puxa com todas as suas forças.

Chega a polícia

Os dois são levados à delegacia. No trajeto, ainda na viatura, o jovem meliante continua lhe xingando, ofendendo, dando cabeçadas, enquanto você sangra e chora de dor e humilhação.

O delegado pede que os dois sentem à sua frente e pede que lhe digam o que aconteceu. Sem surpresa alguma o ladrão diz que encontrou aquela carteira onde não havia ninguém, que o dinheiro sempre foi dele, que não sabe de onde veio aquela identidade e que você está ferido apenas porque o agrediu. Os ataques se justificam porque precisou se defender dos seus tímidos chutes, puxões e beliscões.

– Que culpa tenho de ser mais forte?, ponderou ele.

Você pede ao delegado para que o jovem mostre a carteira. Lá dentro está exatamente o que você descreveu: sua identidade, seu talão de cheques, uns poucos trocados e a foto de sua esposa e filhos.

– Como pode o senhor negar as provas contundentes de que esta carteira me pertence? Como pode admitir essa violência? Como pode aceitar que tal crime ocorra? Como pode me acusar de agredir um jovem muito mais forte, se tudo que fiz foi lutar para ter de volta o que sempre foi meu?

O delegado dá um sorriso e diz:

– Vocês estão muito nervosos. Façamos o seguinte: o senhor entrega a carteira para o jovem e ele promete parar de lhe bater. Existem sempre dois lados em todas as situações. Vamos fazer um acordo?

Absurdo?
Não, realidade…

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