Arquivo do mês: abril 2020

Humanidade

Quando dona Marisa morreu, o ministro todo-poderoso do STF Gilmar Mendes ligou para Lula e chorou ao falar com ele. Foi nesse momento que Gilmar se deu conta do grande erro que havia cometido. No enterro da esposa de Lula estavam presentes todos os oponentes políticos do ex-presidente, de Sarney a FHC. A morte nos iguala e, de uma certa forma, nos humaniza. A tristeza por uma grande perda nos une e congrega.

Lembro agora da confraternização de Natal entre os soldados ingleses e alemães emergindo das trincheiras lamacentas para celebrar a esperança no fim da guerra. Naqueles momentos eles se sentiam todos iguais, a despeito de suas fardas, suas armas, suas diferenças e suas visões de mundo. Ali, em meio à barbárie, brotava a flor tímida da humanidade, em meio aos escombros de uma guerra brutal.

Quando ocorreu o desastre da Boate Kiss, Dilma chorou, abandonou às pressas um encontro no exterior e foi oferecer sua solidariedade às vítimas. Também chorou na tragédia de Realengo, assim como tantos outros estadistas hoje igualmente choram ao anunciar as mortes pela pandemia do Corona. Bolsonaro limita-se a produzir risadas histriônicas de sua claque ao dizer “E daí?”.

Bolsonaro disse que Dilma deveria sair, “de câncer, de infarto, de qualquer forma”. Sequer o seu sofrimento como sobrevivente de um câncer, ou o seu martírio como torturada pela ditadura, produziram nele uma simples atitude de respeito. Pior ainda; exaltou o torturador responsável pelas atrocidades cometidas contra ela. Agora, em nenhum momento surgiu deste homem qualquer sinal de compaixão diante das mortes pelo Covid19. Nem mesmo uma palavra de conforto ou de empatia; apenas desprezo e escárnio.

Não se trata de acreditar que Bolsonaro é “direto”, “grosso”, “verdadeiro” ou “sincero”. Não, ele é apenas a negação da vida, a rejeição aos valores humanos e a exaltação do fanatismo mitômano.

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Adeus Renan

Depois de uma longa espera o jornalista Renan Antunes (do DCM) finalmente recebeu um rim novo através de um transplante. Trabalhei muitos anos com doentes renais antes de me formar em Medicina e sei o quanto um transplante significa para um doente renal crônico amarrado a uma máquina. Depois da cirurgia – que teve o sucesso esperado – Renan estava feliz e radiante com a oportunidade de recomeçar sua vida ao lado da família.

Poucas semanas depois do transplante eclode a pandemia do Covid. Renan era do grupo de risco pelas medicações imunossupressoras utilizadas como estratégia para evitar a rejeição do rim transplantado. Era natural que ficasse angustiado e com medo da contaminação.

Surgem sintomas respiratórios e ele vai ao hospital. Avisa de sua falta de ar assim como de sua condição especial de imunodeprimido. Faz o teste para Covid e logo depois é liberado para casa, mas com uma receita nas mãos que se mostraria desastrosa. Premidos pelo medo e pela pressão da opinião pública – onde se encontram figuras públicas como o presidente da República – os médicos receitam Hidroxicloroqina; muito provavelmente “por via das dúvidas”.

Complicações cardíacas tiraram sua vida poucas horas depois. Arritmia, disseram. Logo depois vem o resultado do exame para o corona vírus: negativo.

O que matou Renan Antunes?

Não vou jogar os médicos aos leões, por certo. Tenho certeza que fizeram o que lhes parecia melhor. Vão sofrer ataques e agressões, mas prefiro me colocar no lugar de quem toma decisões dramáticas em situações críticas. Atire a primeira pedra aquele que…

Entretanto, creio que está é uma morte que poderia ser evitada não fosse a ideologia que EMPURRA os profissionais a usarem tecnologia, mesmo quando sua utilidade não é garantida ou quando seus malefícios aumentam – ao invés de diminuir – os riscos em uma determinada enfermidade. A isso chamamos de “imperativo tecnológico”, que não é um mito da medicina, mas cultural; não apenas os médicos são afetados, os pacientes também.

Renan morreu por uma série de mitos. O mito da transcendência tecnológica, o mito da inocuidade das drogas, o mito da autoridade suprema dos médicos. Acabou sendo vítima do medo que os profissionais da saúde tem de esperar e não medicar. Medo de “nada fazer”.

Como no parto, a suprema sabedoria da clínica está na “lentidão dos atos que se aproxima da imobilidade”, reservando a ação heroica apenas para os casos dramáticos onde a ação se faz imperiosa. Talvez – e aqui apenas uma suposição – o nada fazer seria a mais justa e correta atitude. Renan estaria hoje fazendo um escalda-pés em casa e tomando chá de limão com mel (além das drogas para prevenir a rejeição). Mas para que isso acontecesse teríamos que abrir os olhos para tantos mitos (do grego mythós, de mýein = fechado) que não nos permitem enxergar que em Medicina, na maioria das vezes, menos é mais.

Siga em paz, Renan…

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Anderson

Anderson França o que está ocorrendo com você? Está tendo uma crise tardia de baixa autoestima? É assim que você mede a qualidade do que escreve?

Depois de criticar um post onde ele chamou de racista uma mulher cuja observação foi: “os chineses deviam observar seu hábitos alimentares“, ele ofendeu a mim e outra interlocutora dizendo (que novidade!!) que não tínhamos “interpretação de texto”. Sua resposta para mim foi “Boa tentativa, mas ainda sou relevante para milhões”. Sério? Sua resposta é, tipo… “Não importa seu argumento, muitos gostam de mim”. Mesmo???

Meu caro, Gustavo Lima tem 11 milhões de pessoas que o seguem e ele ficou bebendo cachaça ao vivo e dizendo palavrões, mas acho que nem ele responderia uma crítica com tanta arrogância. “Sim, estimulo alcoolismo, mas sou relevante para milhões”.

Isso lá é argumento?

Onde está seu contraditório? Eu expliquei que um hábito alimentar nocivo dos chineses pode estar na origem de PANDEMIA e você insiste na tese de que criticar isso é racismo? Não pode criticar o Idi Amin porque era racismo contra negros? Dizer que as ideias genocidas do Pol Pot eram uma ameaça ao planeta é preconceito com asiáticos?

Claro que temos hábitos para comer igualmente bizarros, desrespeitosos e ruins no ocidente, mas esse é um FALSO DILEMA. Criticar o hábito de comer pangolim e morcego NÃO IMPEDE as críticas ao confinamento degradante de gado, agricultura predatória, maus tratos com animais ou o hábito de comer tatu no Brasil. Mas o dia que descobrirem que a “doença do tatu” é um vírus que se espalhou pelo mundo todo por uma comida brasileira esse hábito pode e DEVE ser criticado até nas grotas do Uzbequistão, ou qualquer outro lugar que venha a ser afetado por nós.

Se descobrissem que escargot aumenta o risco de Alzheimer deveríamos ficar quietos para não ofender franceses? Se estamos desmatando a Amazônia criticar esse crime é preconceito com “cucarachas”?

Anderson… Veja o que você está fazendo com sua fama. Não se escrotize.

Claro… depois de ser criticado, me excluiu. Entendo os dramas do Anderson e sou solidário com seu sofrimento, mas quem não se aguenta 5 minutos no ringue da Internet e sai ofendendo adversários no terreno das ideias não pode se meter a escrever, principalmente se quer acusar os outros de racismo.

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Forbes

Mas… o que significa ser “bem-sucedida”? Ser rica e merecer estar no Panteão da Forbes significa sucesso? É assim que se mede o valor de um ser humano? O dinheiro continua sendo nossa medida?

Os homens que mudaram a história do mundo não estiveram na capa dessa revista. Quanto à Emma Watson, não sei se deveria estar na Playboy, mas certamente não na Forbes. Talvez seria melhor não ser de nenhuma delas. A capa da Forbes está cheia de capitalistas escrotos que estão se lixando para o planeta. Exploradores do trabalho, insensíveis e dinheiristas. Mulheres fariam melhor traçando um caminho diverso do caminho errado que os homens percorreram. Ou então… qual a vantagem trocar um capitalista destruidor do planeta por uma mulher que comete os mesmos erros?

Se o futuro é para ser feminino, que se afaste dos erros que o masculino cometeu.

“A revolução será feminina ou não será”. Posso ser criticado por acreditar no que as próprias mulheres disseram?

Para quem ama o capitalismo e a miséria que ele dissemina a imagem de mulheres milionárias na capa de uma revista de magnatas estará absolutamente certa e coerente. Entretanto, estarão errados e frustrados todos os que creditaram que as mulheres – representantes do feminino – teriam algo de novo a apresentar. Não… o que está capa propõe é a continuidade da miséria, da iniquidade, da concentração de riqueza, da destruição da natureza, da segregação social, das castas estanques e do egoísmo que a Forbes representa. Nesse contexto, colocar uma mulher na Forbes é garantir o direito a uma mulher de pilotar o avião que está caindo.

Repetindo: “A revolução será feminina ou não será”, não era essa a tese? Margareth Thatcher representou um avanço nas propostas de renovação do planeta? Ou ela apenas colocou saias num projeto neoliberal que os homens – como Reagan e Pinochet – levavam adiante?

Minha tese é simples: se o feminino representa o “novo” no cenário do planeta, então deveria fugir dos velhos modelos masculinos de poder, afastar-se da expressão fálica de opressão e construir algo realmente transformador. Colocar mulheres na capa da Forbes significa a “troca das moscas”, mais charmosas e delicadas – por certo – mas circulando sobre a mesma merda de iniquidade, violência, opressão e exploração que foi a face no nosso planeta nos últimos milênios.

* a foto é da atriz Emma Watson, de “Harry Potter”… ela não deveria ser capa da Forbes.

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Benemerência

Acho que a gente deveria parar com esse tipo de argumento que aparece toda hora na Internet: “Quanto o Neymar das Couves doou para combater a pandemia?”.

Cara… esses personagens não tem obrigação alguma de doar seus bens pra nada. É deles, ganharam com sua arte. Eles não devem ser cobrados pela caridade que fazem ou deixam de fazer. Dos futebolistas cobrem gols, defesas, títulos e nada mais!!

A obrigação de combater uma pandemia, um Tsunami, um terremoto é do ESTADO. Não se combatem flagelos sociais esperando doações de milionários. Desses caras quero que sejam cobrados ALTOS IMPOSTOS, assim como de todos os bilionários, cujo dinheiro acumulado serve apenas como grave ameaça à democracia. Não quero benemerência de artistas ou empresários, quero que paguem uma dura parcela da sua riqueza para diminuir o fosso entre as classes sociais.

Essa é a JUSTA “doação obrigatória” que eu exijo deles. Quero todos esses ricos sangrando seus excessos, que serão usados de acordo com as necessidades de todos – e não apenas onde eles querem. Aliás, cobrem desses jogadores como o Neymar os impostos sonegados no Brasil e nenhuma doação será necessária.

Doações são estratégias de publicidade e são usadas para justificar seus ganhos obscenos e indecentes através desse recurso. O mesmo ocorre com as migalhas dos bancos e das gigantescas corporações multinacionais e oligopolistas. Usam a distribuição de alguns milhares de dólares para mascarar os bilhões que ganham através de um sistema perverso de acumulação de riqueza.

Todos os conglomerados que envenenam sua comida, o meio ambiente, destroem matas e oceanos, escravizam jovens e produzem vícios usam do recurso da benemerência para caiar as paredes rachadas do capitalismo e para colocarem uma máscara sorridente e luminosa na face horrenda da opressão.

O povo não quer esmola!!! Quer a justa distribuição das riquezas. Filantropia é humilhação. O povo quer equidade, direitos e justiça social, não caridade.

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